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segunda-feira, 19 de maio de 2025

Eu, poetinha: sonetos de 2004 (3)


Endereço curto: fishuk.cc/eupoeta3


A primeira vez em que publiquei sonetos inéditos escritos no ano de 2005 (eu tinha 17 anos) foi ainda em agosto de 2018, achando-os menos “bregas” (hoje se diria “cringe”) por eu os ter escrito como atividade de Português. No final de 2004, durante o ano de 2005 e ocasionalmente em anos posteriores, tive “surtos líricos” em que escrevi diversos sonetos relativos aos temas mais díspares e prosaicos: tratava-se tanto de dar vazão a uma criatividade contida quanto de praticar a versificação e aspectos linguísticos a ela ligados.

Pra terminar a série, seguem alguns sonetos e “haicais” (de haikai) (ou “haikus”, micropoemas de origem japonesa com três linhas) que realmente ficaram legais e que escrevi em 2004 pra matéria de Português, pro mesmo professor Syll, rs Silvano. Gostei muito do conceito de haicai quando o descobri, e cheguei a ter um caderninho com dezenas em português (ainda em 2017, publiquei aqui diversos haicais da época que escrevi, porém, em esperanto), começando já em janeiro de 2004, com ideias aleatórias que surgiam do nada. Pena que não o guardei e que não reproduzi a maioria (na verdade, nenhum, acho), talvez porque muitos expressavam até sentimentos melancólicos que tinha então...

Mas voltando à diversão, seguem abaixo alguns dos que eu adorava fazer e dos quais, obviamente, o Silvano gostava muito. Veja que numa das folhas tá escrito até “Show!!! 9,0” (curioso, né? Se tava show, eu merecia no mínimo 10, rs). Na segunda folha, a “Nota” que parece ter sido preenchida com um “Sh” cursivo na verdade é o visto do professor... É notável também a leviandade com que eu preenchia alguns dados da folha, e resolvi não os editar pra deixar minha bobeira à apreciação geral. Atualizei a ortografia, mas não fiz nenhuma alteração na redação e no conteúdo:


Soneto do observador (sem data)

Vendo aquela pintura na parede,
Meus olhos começaram a buscar
Elementos, cada um com seu par,
Criando juntos uma grande rede.

De compor e decompor tenho sede,
De saber o que o retrato a expressar
Nos diz sobre um rosto em seu limiar,
De decifrar uma paisagem verde.

Li famílias em descanso sublime,
Conheci Sampa no auge do esplendor,
Vi Nadar na câmera pegar firme.

De todas as artes não sou senhor,
Mas nem se me atarem as mãos com vime
Seu porte não perderá meu amor.


Novos olhos (mesmo papel)

Decompor o artístico
e ler de todos os ângulos:
foi isso que eu fiz.


Tetralogia do doce (21/5/2004)

I
Dizem que se come.
Mas vermelha de vergonha?
É melhor assim...

II
Só numa dentada
sinto o doce de uma vida
ideal pra mim.

III
Pego-a em minhas mãos
deslizando sobre os dedos,
sem o que te cobre.

IV
Sentirei saudades
do frescor e do açúcar:
sempre a lembrarei.


domingo, 18 de maio de 2025

Eu, poetinha: sonetos de 2005 (2)


Endereço curto: fishuk.cc/eupoeta2

A primeira vez em que publiquei sonetos inéditos escritos no ano de 2005 (eu tinha 17 anos) foi ainda em agosto de 2018, achando-os menos “bregas” (hoje se diria “cringe”) por eu os ter escrito como atividade de Português. No final de 2004, durante o ano de 2005 e ocasionalmente em anos posteriores, tive “surtos líricos” em que escrevi diversos sonetos relativos aos temas mais díspares e prosaicos: tratava-se tanto de dar vazão a uma criatividade contida quanto de praticar a versificação e aspectos linguísticos a ela ligados. Ao mesmo tempo, enquanto menino de poucos namoros, eu parecia idealizar encontros e relações amorosos...

Alguns realmente terminei jogando fora, mas outros guardei digitalizados, e os que restaram aparecem aqui hoje. Realmente, devido à pieguice da linguagem e à estranheza dos temas, tive vergonha de os expor até agora, mas preciso fazer você rir um pouco! Em cada soneto, o ritmo da métrica é constante, mas talvez a escolha de fazer algumas ligações, elisões ou reduções possa não ter sido feliz. Amanhã vou publicar outros que fiz pra escola, além de “haicais” (ou “haikus”, micropoemas de origem japonesa com três linhas) pra mesma ocasião: esses, sim, ficaram legais. Atualizei a ortografia, mas não fiz nenhuma alteração na redação e no conteúdo:


Soneto aos sotaques brasileiros (29/4/2005)

Os falares do Brasil são diversos
E as palavras são muito diferentes.
As pronúncias, variadas entre as gentes,
Não podem ser descritas nestes versos.

O “tchê” e o “uai”, para mim, são congruentes:
Semanticamente, não são diversos.
O “mano” e o “cabra” se encontram imersos
Até nas bocas dos inteligentes.

Sendo puxada para o italiano,
Baseada no espanhol ou no holandês,
A fala muda, tal como um cigano.

Seja praticada pelo cortês,
Seja modificada pelo insano,
Quão rico é o idioma português!

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Soneto à má distribuição
demográfica brasileira
(25/4/2005)

Um Brasil Central vazio, sem população,
E muita gente e pobreza no litoral:
É um problema que tomou dimensão formal
E que, com muito trabalho, tem solução.

Deslocar ao centro aquele que não é mau:
Trabalho em ferrovia e pavimentação
Para trazer a soja e toda produção
Do Norte, das chapadas e do Pantanal.

Rios como vias de transporte aproveitadas,
Urbanização onde ocupar é possível:
Famílias em novos serviços empregadas.

Ocupações que melhorem da vida o nível
São a chave para o sucesso de empreitadas
Que visem redistribuir um povo incrível.

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Soneto ao amor de mulher (31/5/2005)

As mãos que ternamente acariciam
Meus braços, meus cabelos e meu peito,
Agarram-me e seguram-me de jeito
Para viver as noites que aliciam.

Meu corpo também é seu de direito
E o seu é meu, pois minhas mãos o amaciam
E, enquanto meus pulmões mágoas tossiam,
Dava-me a cura: desfrutes no leito.

Seu coração repleto de verdades
É fogareiro aceso que me esquenta
Sem ver nossa diferença de idades.

Seu beijo é lança que arrebenta
Todas as minhas insalubridades
E todos meus dizeres acalenta.

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Soneto ao uso da energia nuclear (1/6/2005)
(inspirado pelo workshop de bomba atômica, rs)

Núcleos são o problema do momento,
Pois fala-se sobre suas consequências
Durante o uso sem interferências
Para a geradores dar movimento.

Seu emprego já gerou displicências,
O que para muitos foi um lamento,
Porque suas radiações são um tormento
E preocupam as cabeças das potências.

Creio que o Brasil não precisa disso
Por possuirmos coisas alternativas,
Como um sistema de rios movediço.

Eu não sou contra suas forças altivas,
Mas se um dia houver uso mais maciço,
Controlemos suas partes destrutivas!

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Amor em Arcádia (31/7/2005)

Ao raiar dos olhos lacrimejantes,
A moça sobre a grama, mãos no rosto.
“Bela, qual a razão de teu desgosto?”,
Pergunto-lhe, sem que ela me visse antes.

“Choro pelo castigo a mim imposto
De viver sobre os campos verdejantes
Sozinha, à mercê dos ventos cortantes”,
Responde, doce, um pouco a contragosto.

“Não mais desprezada estás, ficarei,
Ó, dona destes lábios que murmuram
Méis e néctares para o meu frescor.”

“Por isso, em meu peito te guardarei,
Ó, pastor dos prados limpos que asseguram
Momentos naturais ao nosso amor.”

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Soneto de Natal (24/12/2005)

O Verbo de Deus se fez carne e habitou
Entre os viventes que a Ele próprio mataram,
Aquele que, ao aparecer, anjos louvaram
E, ao falecer, em três dias ressuscitou.

Ave à Mulher que, na gravidez, rejeitaram,
A quem o Anjo a gerar o Senhor incitou,
Cujo ventre o Espirito Santo fitou
E fez nascer o Homem-Deus que profetizaram.

Salve, Belém, cidade santa, manjedoura
Sobre a qual nasceu o Profeta Salvador,
Arauto da prosperidade duradoura.

Ao Nascido, meio mundo dá seu louvor
E agarra os dedos de Sua mão acolhedora
Em busca do verdadeiro divino amor.

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Soneto de Dia de Ano (1/1/2006)

Um ano vai-se para dar lugar
A mares de promessas e pedidos
A ser por divindades atendidos,
Agentes da vivência salutar.

Então, mais nos tornamos aguerridos,
Com forças e vontade de lutar
Por tudo o que se preste a melhorar
As sinas nossa e dos irmãos sofridos.

Mais uma cachoeira de esperança,
Depósito das oportunidades,
Presente dos que esperam por bonança.

Os sonhos verterão realidades
A quem não se debate nem se cansa
Até diante de adversidades.



terça-feira, 9 de julho de 2024

Mélenchon, líder da esquerda britânica


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/franca2024


Este meme interessante, que faz uma paródia com o quadro A Liberdade guiando o povo, geralmente confundido com a revolução de 1789, mas na verdade retratando uma em 1830, se refere à tomada de posição de muitos astros da música e do esporte a respeito das eleições extraordinárias francesas do último domingo, algo não muito comum nos pleitos. A maioria pura e simplesmente pediu pro povo não votar na extrema-direita, outros só pediram pra “irem votar”, enquanto o futebolista Mbappé pediu pra “não votarem nos extremos”. O campeão, porém, acabou comemorando nas redes a derrota da Reunião Nacional dos Le Pen, cujo bloco ficou em terceiro lugar, e “sua máscara caiu”. Daí o aparecimento daquela montagem em várias contas do Équis, mas na verdade já ouvi falar de uma canção de um grupo pop francês com o mesmo título há alguns anos, mesmo antes do bicampeonato da seleção.

Após a “vitória” do grande bloco de esquerda, a lacração idiota começou a cantar vitória muito cedo na Banânia. Embora a Nova Frente Popular (em referência à Frente Popular antifascista que ocupou brevemente o poder em 1936 e 1938) tenha obtido a maioria relativa dos votos, a RN ampliou consideravelmente sua presença na Assembleia Nacional e conseguiu mesmo passar A França Insubmissa de Jean-Luc Mélenchon, se esta for tomada isolada e fora da NFP. Além disso, todos os outros três componentes da frente (socialistas, comunistas e verdes) têm alguma birra com a LFI, portanto, meu receio é que em breve essa união emergencial se esfacele e que eles não consigam indicar um nome consensual pra ser o novo primeiro-ministro de Emmanuel Macron.

Nos últimos anos, Melocoton conseguiu superar os índices de rejeição da La Peña, de tão autoritário, grosseiro e polêmico (flertes com Putin e com o Hamas e arroubos antissemitas) que se revelou após chegar em terceiro nas eleições presidenciais de 2022. Mesmo os outros partidos de esquerda têm medo de o indicar pra liderança do governo, e as demais legendas (do centro que parece direita à extrema-direita que na verdade é fascista) sequer querem conversa com ele. Isso abriu a crise política na França, à véspera das Olim-Piadas, diante da previsível dificuldade de formar um novo governo, que inclusive impeliu Macron a manter Gabriel Attal por um tempo no Palácio de Matignon.


No Jornal Hoje de 8 de julho, também nos primeiros dias do novo governo trabalhista de Keir Starmer no Reino Unido (após 14 anos de domínio conservador), o correspondente Rodrigo Carvalho deve estar com os miolos tão abarrotados de informações sobre a política europeia que sem querer chamou Melocoton de líder de uma das principais forças da esquerda britânica, a chamada França Insubmissa (na verdade, muito mais pra um Jeremy Corbyn...). Primeiro, ela não é “chamada”, mas esse é o nome do partido e ponto. E segundo, uma França Insubmissa dentro do Reino Unido seria uma inusitada pegadinha de Joana d’Arc a partir do além, rs. Se a véia da Casa do Pão de Queijo tem arroubos de ditador, acho que ainda tá cedo pra ele tentar atravessar a Mancha na pele de Napoleão:


Poema de banheiro (ou a adaptação de um modelo famoso) sobre o “suspiro retido” nas eleições francesas:


Se a vitória da esquerda tivesse se dado no Brasil (em resumo, uma presidência ou uma utópica maioria parlamentar do PT), com certeza os bozos teriam dito que este meme, viralizado nos últimos dias, estaria fazendo parte do programa dos primeiros anos de alfabetização do MEC, inspirado nos ensinamentos de Paulo Freire (que era católico!), igual à mamadeira de pinto atribuída a Haddad em 2022:


quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

A carta de Satanás pra Jair Bolsonaro

Há alguns dias, recebi este poema em estilo cordel num grupo de esquerda, de autoria atribuída a um nordestino (de que estado?...) que usa o nome “Zé de Quinó” e que não fazia ideia de quem era. A mensagem vinda junto com os versos era a seguinte (ortografia adaptada): “Carta do Demo pro Bozo. É demais! Que talento deste poeta Zé de Quinó! Maravilhoso cordel! Viva o poeta nordestino!” Curiosamente, a elite cultural do Sul e do Sudeste sempre foi criticada por folclorizar e marginalizar um “Nordeste” genérico, mas na verdade muito variado; e eis aqui novamente, com sinal invertido, a mesma generalização, sem que sequer saibamos onde vive Zé de Quinó, do que se alimenta, como se reproduz...

Na verdade, uma rápida busca no São Google nos revela uma infinidade de respostas. Mais corretamente “Zé de Quinô” (com “o” fechado, e não aberto), este é na verdade Daniel Alves dos Santos, natural e residente de Arapiraca, agreste de Alagoas, mestre em História e professor, que também se define como “cordelista e poetizador”. Sua foto de perfil num “Portal de Escritores” não deixa dúvida sobre sua opção política, mas o cordel que estou aqui republicando data, na verdade, mais ou menos de 17 de novembro de 2022, logo após a derrota do Inelegível e quando Zé de Quinô o lançou em seu Instagram. Na conta, também podemos ver que ele é casado e pai de uma linda cacheadinha. Aliás, a fictícia carta também foi editada em formato impresso, e no ano seguinte ela ganhou até uma resenha acadêmica, veja só!




Saudações aqui do Inferno
Te escrevo de coração
Para dar a ti os pêsames
Por conta da eleição
Nessas breves tortas linhas
Meu maldito Capitão.

Torci por ti e foi muito
Pena tu não ter vencido
Sou seu admirador
Meu fascista preferido
Tu tem cadeira cativa
No meu caldeirão fervido.

Espero que esta carta
Aumente mais sua dor
Piorando esse teu choro
Meu maldito enganador
Me admira tua sanha
Teu sonho de ditador.

Quero aqui te relatar
Como admiro a ti
Nessas linhas vou dizer
Apenas sobre o que vi
Durante esse teu mandato
Muita coisa eu escrevi.

Adoro esse teu racismo
E tua cara de pau
Esse teu descaramento
Não existe nada igual
Tu falas com tanto ódio
E isso é fundamental.

Seu machismo é outro ponto
Que chamo de admirável
Gostei do dia que disse
Que tu eras “imbrochável”
Isso é baixo, vil, rasteiro
Foi um dia memorável.

Agora vou relembrar
O tempo da pandemia
Era lindo tu zombando
Do doente em agonia
Assim como não ligando
Pra multidão que morria.

Imitar o agonizante
Que sofria com covid
Registrei isso também
Para que ninguém duvide
Nunca vi tão insensível
És terrível quando agride.

Dizer que o pranto dos entes
Era mero “mi-mi-mi”
Foi o que de mais perverso
Que na morte eu já ouvi
Isso para mim foi lindo
Aplaudi você daqui.

A maldade que carregas
Faz de ti mais que rasteiro
Tu nem sequer lamentou
Os mortos do mundo inteiro
Quando questionado, disse:
“E daí, não sou coveiro”.

Você é meu grande líder
Te admiro de paixão
Parece feito de lixo
Um verme sem coração
Que sabe zombar dos mortos
Da tua própria nação.

E por falar em Nação
Meu velho amigo fascista
Gostei de tuas ideias
De perseguir comunista
De incitar os teus lacaios
A matar quem for petista.

Pra mim outra qualidade
Que você sempre carrega
É dizer coisas terríveis
E depois tu vem e nega
Tu é mesmo coisa ruim
Pior que peixeira cega.

Falou que uma colega
Aquela tal deputada
Não merecia a desgraça
De por ti ser estuprada
Depois quando questionado
Disse que não falou nada.

Cortou verba da saúde
Ciência e educação
Botou século de sigilo
Pra toda tua podridão
E de forma descarada
Diz: “Não há corrupção”.

Bolsonaro meu amigo
A ti tiro meu chapéu
Te considero o melhor
Mais querido xeleléu
Desculpe se a emoção
Gotejar nesse papel.

Não se turbe com a derrota
E nem fiques magoado
Seu lugar tá garantido
À direita, do meu lado
Nunca vi um presidente
Que deixou pior legado.

Tua fama me comove
Nunca vi gente pior
Dos canalhas que admiro
Pra mim tu é o maior
Pois de tudo que ensinei
Tu aprendeste de cor.

Outra coisa que tu faz
Que me alegra o coração
É mentir desordenado
E se fingir que é cristão
Assim tu ganha o apoio
De uma grande multidão.

Enganar, mentir, zombar
São tuas grandes qualidades
Gosto de teu descontrole
Em negar todas verdades
De gritar alto e bom tom
As tuas insanidades.

Quero te dizer mais uma
Meu corrupto favorito
Que como miliciano
Você é mais que maldito
Finge ser um cabra honesto
Que às vezes quase acredito.

Eu sou o pai da mentira
Isso não há quem conteste
Mas confesso, sou teu fã
Mesmo que alguém te deteste
E acho que pro Brasil
Você é a pior peste.

Termino aqui esta carta
Que escrevi com muito esmero
Aceite minha amizade
Saiba que te considero
E estar sempre do teu lado
É tudo que eu mais quero.

Não vejo dia nem hora
Já até comprei meu terno
Que tu chegue por aqui
Pra queimar no fogo eterno
Assinado: Satanás
Presidente do Inferno.



Enquanto os “gadultos” puderam soltar sua libido reprimida e mal resolvida gritando pra idolatrar um militar e político fracassado, as crianças tiveram um espaço recreativo destinado exclusivamente a elas pra brincarem protegidas e supervisionadas:


Se tratando ainda por cima da Pauliceia (mais que Desvairada, nesse caso...), é claro que além de hidratação, os esportistas de Zap-Zap também precisaram de alimentação adequada. Veja qual foi a combinação mais pedida:


Finalmente, o transporte público foi incrementado e garantido pra que todos os cidadãos de bem pudessem voltar com segurança e conforto pra seus currais. Muitos quiseram evitar a tigrada corintiana que gritava contra o Mytho nas principais estações do subterrâneo, mas infelizmente o portão 9 ¾ pro Expresso Hogwarts estava fechado aquele dia...



Golpista Mourão tem uma projeto de lei pra anistiar os terroristas do Oito de Janeiro. Entre com sua conta GOV.BR ou e-Cidadania e VOTE NÃO a esse lixo na consulta pública, pelo menos, pra mostrar a força de quem paga o salário dele!


quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Sátira poética ao PC da União Soviética


Link curto pra esta postagem: fishuk.cc/novodvorskaia

A russa Valéria Ilínichna Novodvórskaia, nascida em 1950 e falecida em 2014, foi uma ativista política russa, jornalista independente, defensora dos direitos humanos, pró-Ucrânia, dissidente soviética e opositora de Putin. Nunca foi casada e sempre viveu com a mãe e um gato. Há alguns anos ela inspirou um meme, por causa de uma frase sua de entrevista em que ela disse: “Sexo é chato, eu li a respeito!”.

Aos 19 anos ela escreveu um poema satírico (“Spasíbo, pártia, tebé”, literalmente “Obrigado a ti/você, Partido”), e por causa dele foi presa pelo KGB acusada de agitação e propaganda antissoviéticas e internada no Hospital Psiquiátrico Carcerário de Kazan. Eis minha tradução inédita (artística, e não literal!) cujo corpo fiz em agosto de 2020, mas a que dei os últimos retoques só alguns meses depois.

Mas antes, a título de ilustração e como brinde humorístico a quem se dispôs a visitar meu site, deixo este vídeo aleatório que foi postado no YouTube em maio de 2012, em contexto que desconheço. Alguém filmou nossa heroína num momento de descontração comendo um sorvete com recheio de nata e cobertura de chocolate, hehehe:



Agradecemos-te, Partido,
Pelo que fazes e fizeste,
Por nosso hoje cafajeste,
Agradecemos-te, Partido!

Agradecemos-te, Partido,
Porque tu vendes e te vendes,
Pelo país que se arrepende,
Agradecemos-te, Partido!

Agradecemos-te, Partido,
Vassalos tristes do cinismo,
Do engano, traição e abismo,
Agradecemos-te, Partido!

Agradecemos-te, Partido,
Por delações e delatores,
Por fuzilar teus desamores,
Agradecemos-te, Partido!

Por prédios, fábricas divinos
Por sobre crimes construídos,
Cruéis torturas sem ruídos,
Escuro mundo em pedacinhos...

Agradecemos-te, Partido,
Por noites cheias de amargura,
Por nossa torpe autocensura,
Agradecemos-te, Partido!

Agradecemos-te, Partido,
Pois nossa fé está em cacos,
Profana, oculta, nos põe fracos
Antes que o Sol triunfe erguido.

Agradecemos-te, Partido,
Teu realismo nos esmaga,
Educa-nos por trás a adaga,
Agradecemos-te, Partido!



Me dá um beijinho? Kkkkk

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Minha tradução a Ievgeni Onegin (1825)


Link curto pra esta postagem: fishuk.cc/onegin


Há muitos momentos na vida em que pensamos em fazer coisas bastante diferentes e inusitadas. Uns meses atrás, ainda em 2018, eu soube da existência do romance em versos Ievgéni Onégin, um dos maiores clássicos da língua russa escrito por Aleksandr Sergeievich Pushkin (1799-1837). Me julguem, realmente sou uma negação em literatura russa, pois exceto nos tempos de escola e em determinadas matérias da faculdade, eu raramente lia até mesmo literatura brasileira, já que meus focos sempre foram os idiomas e a história! Nos próximos anos pretendo sanar essa lacuna... Seu protagonista, que dá o título à obra, serviu de modelo pra inúmeros protagonistas da literatura russa, como o modelo chamado “homem supérfluo” (líshni chelovék), sendo que o adjetivo líshni também tem o sentido de “excedente”, “que sobra”, “em excesso”, resumindo, um dândi ou playboy socialmente inútil, inspirado nos escritos do Lorde Byron. O romance foi publicado numa série entre 1825 e 1832, e num volume único em 1833.

Lançando a literatura russa definitivamente na cena cultural europeia, a história é contada por um narrador mais ou menos próximo da imagem pública de Pushkin e, resumidamente, trata de um jovem aristocrata, Onegin, que herda uma fortuna do tio e se muda de São Petersburgo, cuja vida de prazeres mundanos tinha o cansado, pro interior da Rússia. Ele faz aí amizade com um poeta e desperta a paixão da futura cunhada dele, Tatiana Lárina, a qual, porém, não tem o sentimento correspondido, dado o orgulho do rapaz. Na inusitada vida rural que inclui um duelo com o poeta, que termina assassinado, o casamento de Lárina com um príncipe em Moscou, a volta de Onegin a São Petersburgo e a rejeição final do moço pela sua amada, o protagonista (que na língua russa também se diz “herói”) descobre que sempre viveu uma vida de aparências e futilidades. As convenções sociais e a mortificação que elas causam ao viver autêntico estão no centro da trama, prevendo o próprio fim de Pushkin num duelo e antecipando a crítica ao que tem sido chamado esses dias, num maravilhoso neologismo, de cotidiano “instagramável”.

Do ponto de vista técnico, e o que causa mais dificuldade à tradução em outras línguas, Ievgeni Onegin é chamado “romance em versos”, significando que é formado por diversos “sonetos” (mas que não são divididos em estrofes) com suas 14 linhas tradicionais no esquema rítmico dito tetrâmetro iâmbico, figurado como “taTAtaTAtaTAaTA(ta)”. O esquema de rimas “AbAbCCddEffEgg”, incomum pra época, ficou conhecido como “estrofe Onegin” ou “soneto de Pushkin”, com letras idênticas significando versos que rimam entre si, letras maiúsculas indicando final em sílaba tônica e minúsculas indicando final numa sílaba tônica mais uma sílaba átona, que não conta pro cálculo rítmico (por isso pus “(ta)” entre parênteses). Imaginem decifrar a linguagem e contexto da época, e ainda obedecer a essas minúcias... Entre as traduções em diversas línguas, Vladimir Nabokov, por exemplo, optou por traduzir ao inglês em formato de prosa, sacrificando a sonoridade ao sentido total e integral.

De fato, o grande desafio de traduzir poesia é manter, ao mesmo tempo, o sentido, o jogo de sons e as figuras de linguagem formadas pela interação entre som e sentido. Ievgeni Onegin complica as coisas ao ter sido escrito na língua russa, ainda muito pouco difundida no Brasil, mas já tivemos pelo menos duas traduções brasileiras de altíssima qualidade: a de Dário Moreira de Castro Alves, publicada pela Record em 2010, e a mais recente, de Elena Vássina e Alípio Correia de Franca Neto, lançada pela Ateliê em 2019. Infelizmente, nos dois casos nosso “herói” se tornou “Eugênio Oneguin/Onêguin”, mas nada que prejudique a essência da empreitada realizada com sucesso por esses literatos. Quando li muito superficialmente um trecho de Dário na internet, julguei que o romance precisava de nova tradução, fiel à métrica e mais “moderna”, mas quando realmente peguei um exemplar do livro, desfiz as primeiras impressões. A vontade de retraduzir a obra finalmente acabou quando soube da edição de 2019, feita por nomes de talento. A própria Elena, por rede social, me confidenciou que não cabia desistir, pois “mesmo em outros idiomas as traduções se contavam às dezenas”.

Mas respeitei os pioneiros e decidi deixar meu talento poético pra outros poemas no futuro. Porém, em novembro e dezembro de 2018 eu já tinha traduzido, poeticamente e em linguagem moderna, os dez (ou nove) primeiros sonetos de Ievgeni Onegin, cujo título eu queria deixar assim escrito. Sim, pessoas, quero renunciar a esse desafio, porque embora eu me julgue, sem falsa modéstia, capaz de o fazer, outros planos talvez precisem mais de mim. A vocês dou de presente o que eu já tinha conseguido, sintetizando todo o meu conceito pessoal de poesia, tradução, sonoridade e fidelidade. Algumas palavras em francês e latim estão em itálico e já constam do original. Apenas um verso, a depender se queremos ter uma linguagem mais fiel ou mais atual, tem uma forma alternativa entre colchetes. As datas indicam os dias em que traduzi o soneto logo abaixo e os seguintes. Todo o conteúdo se refere ao capítulo um.

Como base pra tradução, usei uma rica edição comentada e ilustrada, publicada em Moscou (2013) pelo OLMA Media Group e preparada por V. P. Butromeiev e V. V. Butromeiev. Pra facilitar o serviço, também me vali de uma versão online em HTML que conta com o texto integral numa só página, e tive em mãos a terceira edição de 1837 (São Petersburgo) e a quarta edição de 1918 (Petrogrado), estas duas ainda na ortografia pré-reforma. As edições que não eram em HTML estão nos formatos PDF ou DJVU. Segue o texto:

I. (15/11/2018)
“Meu tio, se não fingia males,
Dos mais honestos era o rei,
E, no melhor de seus detalhes,
Sabia impor a própria lei.
Julgavam-lhe alma bem dotada,
Mas, pelos santos, que maçada
Fazer serões nos hospitais,
Não indo embora nunca mais!
Que baixaria nesses prédios
Dar alegria a moribundos,
Deixar seus travesseiros fundos,
Meter nas bocas só remédios
E refletir, soprando o ar:
Diabos! Quando vou parar?”

II.
Pensava assim um moço errante,
Voando aos pós num alazão,
Vadio por Zeus feito importante
Herdeiro pleno da nação.
A quem Ludmila com Ruslan
Conhece, agora com afã
Revelo o folgazão herói
Que em meu romance se constrói:
Onegin, grande companheiro
Nascido às margens do Nevá.
Talvez, leitor, você de lá
Surgiu ou fez seu paradeiro.
Por essa terra andei também,
Mas hoje o norte não faz bem.

III. (16/11/2018)
Ricaço de esplendor insano,
Seu pai nas dívidas viveu,
Três bailes dava a cada ano
E seu dinheiro esvaeceu.
Ievgeni teve bom apreço:
Madame tratou-o no começo,
Depois Monsieur moldou o gesso.
Menino doce, mas travesso:
Monsieur l’Abbé, francês capenga,
Querendo não lhe aborrecer,
Fez brincadeira o aprender,
Sem moralista lengalenga,
Sabia, mais que dar sermão,
Levar no Parque de Verão.

IV.
Adolescente irritadiço,
Ievgeni espera, sofre, vê,
E nessa idade do feitiço,
O paço demitiu Monsieur.
O Onegin meu em liberdade,
Cabelo à moda da cidade,
Um dândi à Londres no vestir,
[Playboy com Londres no vestir,]
Enfim brilhou no seu porvir.
Usou francês seguro e solto,
De escrita e fala bem capaz;
Dançou mazurca como um ás,
Um cavalheiro desenvolto;
Quer mais o quê, se o mundo viu
Seu plano sábio e gentil?

V. (19/11/2018)
De alguma forma, algum tijolo
Aos poucos pomos no saber,
Por isso, para Deus é tolo
Quem sabe e quer aparecer.
Onegin era, para a massa
(Juíza rígida, de raça),
Pedante, mesmo que sagaz:
Deixando a calma para trás,
Consegue bem manter o garbo,
De tudo fala e nada diz,
Um cientista no nariz,
Ciência nula em tema brabo,
E logo atiça o mulherio
Com um ditado nada frio.

VI.
Latim não mais está na cena:
Então, de um ângulo real,
A língua lhe era ajuda plena
Nas rodas sobre Juvenal,
Nas versificações baratas,
No vale posto ao fim das cartas,
Nos versos trôpegos de cor
Da Eneida, dois no seu melhor.
Não estudou jamais história,
Cronologias dos avós,
Papiros de intragáveis pós:
Mas de anedotas a memória
Encheu, de Roma até aqui,
Passado em pálido croqui.

VII.
Sem muito medo de avarias
Nos sons da vida, esqueceu
As diferenças, ninharias,
Entre o iambo e o troqueu.
Teócrito e Homero ataca,
Mas Adam Smith é sua estaca,
Seu manual de economês
Que faz narrar com nitidez
O que a nação tem por riqueza,
Por ganha-pão, e qual sopé
Lhe torna o ouro rodapé
Ao dar produto fresco à mesa.
Seu pai jamais lhe acreditou,
E a própria terra hipotecou.

VIII. (20/11/2018)
Das manhas todas de Ievgeni
Não posso desdobrar o rol,
Mas seu talento desde o gene,
O que lhe deu lugar ao Sol,
Encargo desde a juventude,
Tormento, êxtase, virtude,
Preguiça com lamentação,
De um dia todo ocupação,
Foi adestrar-se na sofrência,
Que a Itália Ovídio viu cantar,
Por isso expulso de seu lar
Com tal translúcida ciência,
Na estepe funda vendo o fim,
Moldávia, solidão confim.

(O soneto IX está vazio no original.)

X. (15/12/2018)
Tão cedo soube ter ciúmes,
Mostrar-se hipócrita, sombrio,
Largar e retomar costumes,
Ser conformado ou varonil,
Dissuadir, despedaçar-se,
Atento, alheio, que disfarce!
Calado, perde toda a luz,
No discursar, um arcabuz,
De amor as cartas tinham manha.
Aspira e ama coisa só,
Cuidar de si lhe dava nó!
De olhar que oscila, mas arranha,
Seduz e reza, mas também
Imita o choro do neném!



quarta-feira, 6 de março de 2019

Poesia russa traduzida a português (1)


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/poesia-ru1


Eu gosto muito de traduzir poesia estrangeira pro português, sobretudo das línguas eslavas, que são muito raras no Brasil e me desafiam mais, por serem bem concisas e eu precisar de formas igualmente concisas pra expressar na minha língua! Mas infelizmente não tenho tanto tempo quanto queria pra isso, pois atualmente me concentro mais no estudo de idiomas, na manutenção desta página e na pesquisa do doutorado. Mesmo assim, de vez em quando sai alguma coisa interessante, e quando junto uma quantidade suficiente, faço uma postagem aqui.

Antes de começar a tradução do poema épico Ievgeni Onegin, de Aleksandr Sergeievich Pushkin, na qual me lancei em novembro do ano passado, decidi procurar algo mais simples do grande poeta e escritor que eu pudesse divulgar às pessoas. Achei por acaso o livro “Стихи не для дам” (Stikhi ne dlia dam), Poemas não para damas, coletânea com os mais diversos estilos e cujo título já alude à intenção de chocar, subverter e criticar. Muitos poemas não eram tão simples ou curtos, e um que realmente achei mais rápido e fácil foi “Христос воскрес” (Khristós voskrés), literalmente “Cristo ressuscitou”, de 1821, com apenas 10 versos. O nome alude a uma saudação de Páscoa comum das pessoas se fazerem em países ortodoxos, mas o tema geral são as barreiras inter-religiosas e interculturais de uma Rússia imperial ultracristã que marginalizava os judeus.

Antes que alguém me pergunte: sim, embora já haja uma tradução consagrada, estou tentando fazer uma outra mais pessoal e moderna de Ievgeni Onegin centrada no português brasileiro, mas que também seja inteligível por africanos e portugueses. Mas tenho interrompido constantemente porque, como eu já disse, tenho muitos outros focos. Quanto a “Cristo ressuscitou”, na minha mão se transformou em “Ressurreição”, título que tem a mesma métrica do título original. Obviamente não busquei ser literal e mudei um pouco o esquema de rimas, mas o ritmo ficou o mesmo. A tradução foi uma iniciativa isolada e por enquanto não pretendo encaixá-la em nenhuma projeto maior.

Pouco tempo depois, conheci a tártara Elvira Gilmutdinova, que mora em Kazan, terceira maior cidade da Rússia. Ela é do marketing, mas também gosta de escrever poesia, e às vezes faz alguns trabalhos amadores, segundo ela, “inspirados do coração”. Na conta pessoal no Instagram ela publica alguns desses versos em russo ou tártaro, acompanhados de fotos suas ou da natureza local. Um dos poemas em russo que me chamou a atenção foi “Кто я?” (Kto iá?), “Quem sou eu?”, que pra ficar do mesmo tamanho do título original chamei “Quem sou?”. Ela postou em 10 de outubro de 2018 e eu traduzi no fim de janeiro de 2019, tendo Elvira autorizado e gostado do resultado.

Ele também segue abaixo, nas suas versões original e traduzida. No caso de “Quem sou?”, foi muito mais uma recriação minha, porque a autora não seguiu padrões poéticos rígidos, e a tradução ficou quase literal, inclusive. Eu que dei rimas mais próximas e verdadeira métrica:


Христос воскрес (1821)

Христос воскрес, моя Реввека!
Сегодня следуя душой
Закону Бога-человека,
С тобой целуюсь, ангел мой.
А завтра к вере Моисея
За поцелуй я не робея
Готов, еврейка, приступить —
И даже то тебе вручить,
Чем можно верного еврея
От православных отличить.

Ressurreição (15/12/2018)

Ressurreição, Rebeca minha,
É hoje, se de coração
Seguimos ritual cristão,
E então te beijo, linda anjinha.
Na hora passo à fé mosaica
Por mais um beijo teu, hebraica,
Com prontidão, sem hesitar;
Comprovo a profissão judaica
Tratando-te como quem já
Os patriarcas vai deixar.

____________________


Кто я? (11/10/2018)

Кто я? Вопрос извечный.
Может начинающий поэт?
Может снаружи уже старик,
А в душе ещё пылкий студент?

Кто я? Прекрасная богиня?
Иль провинциалка у крыльца?
Может стервозная тигрица,
Прикрывающий от слёз глаза.

Кто я? Профессионал?
Трудяга не жалеющий сил?
Чудак, рискующий по жизни?
Или заботливый семьянин?

Кто я? Пекарь или сталевар?
Учитель? Успешный бизнесмен?
Знаменитость иль просто маляр?
Не важно! Важно, что Человек!

Важно, что сердце добротой полна,
Что мысли ясны и цель видна!
Сама судьбу выбирать вольна
И человечность в душе жива.


Quem sou? (jan. 2019)

Quem sou?, eterna indagação.
Talvez poeta iniciante?
Talvez por fora um ancião,
Mas alma de ávido estudante?

Quem sou? Maravilhosa deusa?
Ou serva de quintal pagã?
Talvez estúpida tigresa
Que esconde a lágrima vilã.

Quem sou? Qualquer profissional?
Obreiro até perder as forças?
Arrisco a vida sem moral
Ou mesmo ajudo a lavar louças?

Sou fundidor ou sou padeiro?
Sou milionário, professor?
Celebridade ou Zé Pedreiro?
É tudo igual: HUMANO sou!

Importa o bem no refletir,
Esclarecidas atitudes,
Escolha própria do porvir
E humanidade por virtude.



sexta-feira, 17 de agosto de 2018

A natureza pede socorro (poema, 2005)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/natureza




Mais um poema dos muitos meus que vocês já leram, mas este tem uma história peculiar. Originalmente, devia ser a letra de uma canção a ser musicada por uma banda formada por antigos colegas da escola Viverde, em Bragança Paulista. A Viverde, onde estudei de 1994 a 2005 (ou seja, dos 6 aos 17 anos, praticamente toda a escolaridade básica) e que fica muito perto de casa, tem uma proposta ecológica muito interessante incorporada à sua estrutura pedagógica. O casal de mantenedores fundou-a em 1991 num antigo sítio da família, e por isso pudemos aproveitar tudo o que um ambiente assim oferece: ar puro, mata, animais, espaço livre, vizinhança a um ribeirão... O currículo é o mesmo de qualquer colégio tradicional, mas toda a conscientização ambiental e valores afins são incorporados no dia a dia das aulas.

Eu fiz parte da primeira turma da escola, progredindo de série em série até integrarmos a primeira formatura de “terceirão” (2005). Recuando algumas turmas antes da minha, os garotos eram muito talentosos, e vários tocavam instrumentos musicais. Alguns deles, hoje renomados profissionais formados ou até pós-graduados, tinham criado uma banda chamada “Opu_c”, ainda um sucesso na região. Em 2005, não me lembro se pra um evento da escola ou algo parecido, tínhamos combinado meio vagamente de eu fazer a letra de uma canção com tema ecológico, e eles musicarem e tocarem em público (da minha classe, só eu participava). De alguma forma, o poema chegou até eles, mas por razão que desconheço, ele foi negligenciado. Se não me engano, a iniciativa até foi realizada, mas sem minha participação.

O poema “A natureza pede socorro” constituiu, desde então, uma música sem melodia, por assim dizer. O papel com o texto estava guardado havia uns anos, até que em março de 2010, provavelmente por volta do começo das aulas na Unicamp, resolvi publicá-lo em meu antigo blog “Pensadores Libertos”. Eu cursava meu quinto ano da graduação, e as informações que tenho até agora em meu backup são ainda mais reveladoras: eu tinha acabado de voltar pra casa, de uma aula de russo, e elogiava os “velhos amigos e colegas” da Unicamp... Eu estaria então “inspirado para postar coisas antigas”, e então digitei a referida música pela primeira vez, na esperança que alguém se interessasse em compor uma melodia. Infelizmente, alguns meses depois apaguei meu blog, desinteressado em postar coisas novas e em continuar com a mesma proposta crítico-política.

Eu mesmo, exibindo a criação, pedi que relevassem ou porventura corrigissem o “tique parnasiano” típico das minhas poesias, mas hoje penso que o problema pode ser outro: a incerteza da adaptação da letra a qualquer melodia. Pensando que um músico pudesse acertar a situação, não segui métricas rigorosas, embora tentasse equilibrar as sílabas poéticas, mas como apenas no meu pensamento fiz uma “sugestão de melodia”, o texto segue como hipótese não testada. Agora, ao menos, vocês podem lê-lo como um dos muitos frutos de minha educação ecológica!

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Aquela árvore que você está vendo
Na sombra da qual você descansa
Está morrendo aos poucos nas mãos dos homens
Vítima de uma matança.

Ela lhe dá madeira para os seus móveis
E a celulose para fazer papel,
Além da cura para suas doenças,
Mas tratada tão cruel

Queimadas e cortes ilegais
Até nas reservas demarcadas.
Nos tiram o filtro do nosso ar
Em proporções tão desenfreadas.

Belezas já não se encontram mais,
Os bichos já não têm onde morar,
E por lixo são contaminadas.
Será que isso um dia vai parar?

Refrão:
Queremos natureza
Para nossos passeios e canções.
Queremos as paisagens
De presente às futuras gerações.
Queremos rios e matas
Para equilibrar nossos ecossistemas.
Nós não desistiremos
De acabar de uma vez com esses problemas.
Vida para sempre,
Dela somos parte,
Viver é uma ordem,
Preservar é arte!

É hora da conscientização
E fazer das tripas coração.
Usando nossa imaginação
Daremos a nossa proteção.

Quando o útlimo rio apodrecer
E a última mata perecer
Só então é que vamos perceber:
Dinheiro não podemos comer!

(Refrão)




quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Eu, poetinha: sonetos escritos em 2005


Endereço curto: fishuk.cc/eupoeta1


Muitas(os) de vocês já conhecem meus sonetos em esperanto e meus diversos tipos de poema em português. Só que ainda não comecei a publicar em massa outro segredo que guardo: os sonetos que escrevi em português no fim da minha adolescência. Como escrevi em outra ocasião, foi então que comecei a compô-los sistematicamente, até mais ou menos o começo da minha graduação em História. Depois, a atividade foi ficando bem mais esporádica. Diversos dos que escrevi entre 2004 e 2006 foram descartados, sem que eu guardasse qualquer cópia, mas outros julguei por bem conservar, dado o tema interessante e a razoável elaboração.

Inicialmente, digitei meus sonetos no computador e imprimi em folhas repartidas. Mas quando quis me livrar delas pra desocupar espaço, digitalizei-as em arquivos de imagem, e guardo em backup meus poemas preferidos. Três interessantes textos formam uma unidade de trabalho que o Paulo, meu professor de Português no início do 3.º ano do Ensino Médio, pediu-nos pra fazer logo depois das férias de verão. Ele ficou com a gente apenas uns dois meses, ou nem isso, e cedeu o posto à Prof.ª Graça Betânia, notável acadêmica e uma ótima pessoa que nos acompanhou até a formatura. Mas ele me marcou por seu aparente interesse nos mesmos temas que eu, a começar pela língua latina, tanto que foi ele quem me indicou o livro Não perca o seu latim, de Paulo Rónai, que só agora tive tempo de comprar e degustar.

Nas primeiras aulas, ele propôs que escrevêssemos três poemas, com os seguintes títulos/temas: “Eu procuro você” (31 de janeiro), “Eu em você” (4 de fevereiro) e “Depois de você” (11 de fevereiro). Não sei o que meus colegas acharam, mas eu estava no Paraíso: adorava atividades criativas, sobretudo relacionadas à escrita e poesia, e na 7.ª série, por exemplo, adorava quando a Prof.ª Sandra Del Roio pedia pra fazermos redação de tema livre. Era como o momento em que a “tia” do primário, querendo matar tempo, mandava desenhar em folhas brancas de sulfite! Realmente, nunca descobri qual era a intenção pedagógica do Paulo, mas guardo até agora as cópias dos papéis escritos à mão e a digitação posterior pro acervo. Neste eu me baseei pra corrigir os primeiros e repostar aqui.

Modifiquei ligeiramente os títulos, e parece que não segui uma regra métrica fixa quanto à quantidade e tonicidade das sílabas. Inclusive, como eu estava no começo, fiz coisas aí que não repito hoje: misturar vogais tônicas e átonas numa mesma sílaba, forçar ditongos em hiatos e “abreviar” palavras que geralmente são comidas na música popular, como “minha”, contada como uma sílaba só. Por isso, a leitura ritmada é impossível. Também parece haver uma mistura de registros, com construções informais onde predominam palavras formais, e o uso de vocabulário informal numa estrutura formal: isso é normal quando se tem pouca bagagem de leitura. A ressalva é que nos sonetos 1 e 2, tentei deliberadamente usar o pronome “tu”, e no 3, apenas “você”.

As rimas pobres até podem ser perdoadas, mas há dois problemas de redação que decidi não corrigir: no soneto 2, a expressão “em seu castelo for reinando” se refere a “quem estás amando” ou à “princesa” (a quem trato por “tu”)? É provável que se refira a ela, mas deveria evidentemente ser “em teu castelo fores reinando” (aliás, princesas reinam?...), concordância que pode ter sido quebrada pelo bem de uma já estropiada métrica. No soneto 3, o verso “A felicidade sua ausência atrasa” obscurece qual é o sujeito e qual é o objeto. O contexto esclarece que “Sua ausência atrasa a felicidade”, mas como num poema romântico também é possível que “A felicidade atrasa sua ausência”, o entendimento imediato fica prejudicado.

Também é interessante que o segundo soneto figura minha atração, não exatamente uma “paixão”, por alguma garota da classe, a qual nem externei e muito menos esperava que pudesse ser correspondida. Até desconfio quem possa ter sido ela, mas naquela turma, minhas explosões hormonais quase sempre eram repelidas... Enfim, espero que vocês tenham gostado de eu ter compartilhado um pouco de mim e aguardem por “novos velhos” sonetos! Pra mim é salutar revisitar as criações do passado, pois compõem parte da longa trilha intelectual que me fez chegar até aqui. Mas se há quem pense que eu queria deixar elementos pra um futuro biógrafo, por que não? Rs.



Eu te procuro (31/1/2005)

Em que lugar do mundo estás, amor?
Em todo lugar vou te procurar
E se, ao acaso, puder te encontrar,
A minha vida terá mais um fervor.

Dize-me já onde posso te buscar,
Assim me farás um grande favor.
Quero de novo sentir teu sabor
E o prazer vindo na hora de te amar.

Sem ti, apenas sou metade de mim,
Sempre ajudas na minha outra metade.
Por que foste tu me deixar assim?

Volta, amor, acaba com essa saudade,
Aos meus chamados dize só “sim”
E caminhemos à felicidade.

____________________


Eu em você (4/2/2005)

Cobre teu semblante felicidade
Enquanto vejo teu braço moreno.
Calças tênis baixos nos pés pequenos.
És tão nova que nem descubro a idade.

Teus olhos instigantes são serenos,
Te adornam brincos largos de verdade.
Tua boca brilha como a rica jade,
Tua altura pequena é belo veneno.

Calça jeans nas pernas grossas: beleza,
Tua inteligência está me impressionando,
Mas fazer desenhos é tua destreza.

Agora não sei quem estás amando,
Mas sei que muitos te acharão princesa
Enquanto em seu castelo for reinando.

____________________


Depois de você (11/2/2005)

Você me abandonou, me fez tristonho,
Só suas roupas deixou dentro de casa.
Agora é que meu coração se arrasa,
Pois só poderei ver você nos sonhos.

Sua partida deixou minha mente em brasas,
Não penso mais no que me faz risonho.
Minhas mãos sobre seus braços não mais ponho,
A felicidade sua ausência atrasa.

Sem você, não há tempo posterior,
Meu futuro já não tem mais sentido,
Está morrendo meu eu interior.

Se as lembranças houvesse ressarcido,
Talvez seria bem menor minha dor
E tão forte não teria nascido.




quinta-feira, 26 de julho de 2018

Últimos poemas inéditos em esperanto


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/poemas-eo


Há alguns meses, como vocês devem se lembrar, publiquei uma série de poemas e sonetos em esperanto, que escrevi na adolescência ou em algum momento de minha graduação em História. Eles foram selecionados porque eu não via nenhum porém pra sua publicação, seja pelo vocabulário, pelo tema ou pelo contexto. Contudo, sobraram ainda em meus arquivos três poemas (um deles, soneto) que eu tinha decidido não postar, mas que, pra comemorar hoje os 131 anos da publicação do primeiro manual de esperanto em Moscou, lanço aqui com comentários e tradução.

O primeiro deles é uma grande pérola: foi minha primeira tentativa de versificação em esperanto quando eu tinha 14 anos, em 2002! Nesse ano, eu tinha resolvido embalar de vez meu aprendizado, porque tinha feito meu primeiro contato em 2000, aos 12 anos, e passei o ano seguinte relativamente parado. Tendo assimilado o básico da língua, me atrevi a “poetar”, o que já fazia ativamente em português (neste, porém, a maioria dos textos se perdeu), e foi realmente a primeira vez que fiz isso num idioma estrangeiro. Como vocês podem perceber, nessa primeira fase ainda predominam os temas “românticos”, como se realmente eu estivesse apaixonado, mas era de fato um decalque dessa saturação que os programas de TV impõem até hoje.

Curiosamente o esquema métrico coincide com Norwegian Wood, uma canção dos Beatles, banda pela qual só tive uma breve admiração quando eu tinha 7 anos de idade. Eu não tinha, contudo, ouvido a gravação em nenhum lugar, mas minha avó tem um livro de partituras pra flauta doce com músicas deles, e eu a tocava no teclado. Eu estava aprendendo esse instrumento e, mesmo não conhecendo o áudio, achei a melodia bonita, e por isso devo ter decidido versificar em esperanto. Não fiz, porém, qualquer tentativa de tradução ou adaptação direto do inglês, como fiz com outras canções, e a nova obra autêntica foi intitulada Vi ĉarmas min (Você me encanta).

Acho interessante como, ainda tão jovem, mesmo escrevendo sobre temáticas banais (algo que sempre me criticaram quando chegavam a ler um poema meu), eu tinha algum tino pra estruturar relativamente bem a métrica e o sentimento. Quem conhece esperanto, sabe como abuso da elisão do “o” final dos substantivos por meio do apóstrofo, pra manter as sílabas tônicas originais. Eu sequer tinha a intenção de publicar o poema em qualquer meio, mas quando lancei meu finado site de esperanto, talvez poucos anos depois, aí o coloquei junto dos outros que vocês já conhecem ou não. Segue o texto sem alteração nenhuma, e uma tradução improvisada pro português, só pra dar uma noção do conteúdo. Assim como fiz com outros poemas, desejo mais pra frente recitar este e outros pra postar no canal Eslavo (YouTube):


Vi estas la am’
En virinform’
Kaj plena ĉarm’.
Restu sole ĉi
Tie kaj min
Tuj kisu vi.

Al mi diru, ke nia amo estas la senfin’.
La vivo al ni estas bela, Dio benu nin!

Mi estas duon’,
Unu, kun vi,
Sen vi, malbon’.
Malkompleta kor’
Mi estas nun
Kaj sen labor’.

Ne lasu, ke sur via korpo ne estu belec’.
De Dio vi estas farita per peco post pec’.

Vi, kvazaŭ anĝel’,
Transportas min
Al la ĉiel’.
Ho plena pasi’
En via kor’
Tre ĉarmas min.

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Você é o amor
Em forma de mulher
E pleno encanto.
Permaneça apenas
Aqui, e você
Me beije logo.

Diga-me que nosso amor é o infinito.
A vida é bela para nós, Deus nos abençoe!

Eu sou metade,
Inteiro com você,
Um mal sem você.
Um coração incompleto
Eu sou agora
E sem atividade.

Não deixe que eu seu corpo falte beleza.
Você foi feita por Deus, pedaço por pedaço.

Você, tal como um anjo,
Me transporta
Para o céu.
Ó, uma plena paixão
Em seu coração
Me encanta muito.



O segundo poema, um soneto, tem uma importância muito grande pra mim. Primeiramente, porque é um dos marcos do tempo na minha adolescência, no final de 2004 (eu tinha 16 anos), em que eu comecei a compor sonetos sistematicamente (em português e esperanto). Foi um período, ou “fase”, que durou mais ou menos até o começo da minha graduação (março de 2006), mas outros sonetos e poemas diversos, esporadicamente, continuariam sendo escritos. O presente soneto, que chamei Seka vojo (Caminho seco, ou Caminho árido), deve datar entre fim de outubro e começo de dezembro de 2004, mas é mais provável que seja de novembro. Eu tinha impressos todos os meus sonetos em português ou esperanto, indicando a data de composição. Mas após os digitalizar todos, joguei os originais fora, e no caso do esperanto não há as datas transcritas.

Infelizmente, também não tenho certeza se os poemas que ficaram são todos os que escrevi em esperanto ou se em dado momento joguei no lixo algum ou alguns nessa língua. No caso do português, realmente joguei muitos fora sem copiar, e não tenho mais registro deles. Seka vojo trata de um assunto que compartilhei com muito poucas pessoas: minha segunda maior crise de ansiedade no final de 2004 e a rejeição que eu sentia na sala de aula. Embora, obviamente, o soneto exagera em algumas figuras e mistura uma infinidade de objetos díspares, ele reflete minha angústia ante a iminência do vestibular, a pressão pra escolher uma carreira e a carência afetiva. Esta derivava de eu ainda não ter perdido, ou estar pra perder, o famoso “BV” (boca virgem, aos 16!), ou seja, o gostoso e marcante primeiro beijo (de língua, claro!) que todos em minha classe do segundo ano já tinham dado. Nem era disso que eu sentia falta, na verdade, mas adolescente é uma raça sádica, e todos “me cobravam” pra que eu o fizesse, como se fosse algo a me dar mais caráter ou me fazer incluído nas putas panelinhas deles!

Em 2018, na era dos smartphones, do politicamente correto e dos infames Mi-Mi-Millennials, sei que muitos jovens ainda se reconhecem nessa situação. No meu caso, não posso dizer que sofri o chamado bullying, embora muito no fundo o pessoal me zoasse porque eu tirava notas muito altas e era ativo em classe: o que caracteriza bullying é a repetição e profundidade, e na minha escola, por incrível que pareça, havia pontuais demonstrações de respeito e admiração. Além disso, mesmo me sentido deslocado em muitos aspectos, eu era agarrado a uma das “panelas”, e com outra eu mantinha ótimas relações. Talvez a questão fosse a tal “pressão” mesmo: 1) pra me sentir incluído entre colegas que tinham valores quase opostos; 2) pra não ficar sem escolher qualquer carreira no ano seguinte, em que eu faria algum vestibular; 3) e vinda de mim mesmo, pra tirar sempre notas altas e estudar idiomas pros quais eu simplesmente não tinha tempo!

E graças aos estudos e pesquisas do sábio Prof. Augusto Cury, hoje sabemos como é muito mais torturante uma pessoa pressionar-se a si mesma, tendo sempre um “general” ou “diabo” interior, do que ser pressionada pelos outros. E é isso que, com as pedregosas figuras deste soneto, tento expressar um tanto veladamente:


Flora kamp’ trankviligas la dormon
Post longa tago de ega labor’,
Kiam rapidiĝas batoj de l’ kor’
Antaŭ enir’ en la hejmodomon.

Mia korp’ zorgas kontraŭ la dolor’
Ĉia, kia povas ĝeni l’ homon
Kaj okazigi acidan vomon
De manĝaĵoj, kiuj iĝis trezor’.

Nur patrinkares’ ne sufiĉas plu
Por resanigi min de l’ sopiroj,
Por tiri min el tiu ega tru’.

Kun amikoj realiĝos l’ iroj:
Tuj laciĝos ĉiu mia genu’,
Sed oni manĝigos min per piroj.

____________________


Um campo florido tranquiliza o sono
Após um longo dia de muito trabalho,
Quando aceleram as batidas do coração
Antes de entrar na casa em que moro.

Meu corpo luta contra toda
Dor que possa incomodar o homem
E provocar um vômito ácido
De comidas que se tornaram tesouro.

Apenas o carinho da mãe não basta mais
Para recuperar-me dos suspiros,
Para tirar-me deste grande buraco.

Com amigos se realizarão as idas:
Os meus joelhos logo se cansarão,
Mas vão me alimentar com peras.



Finalmente, eis a parte engraçada e alegre! Desde criança, sempre achei hilários os “poemas” e ditos escritos por anônimos em divisórias ou paredes de banheiros masculinos pelo Brasil, sobre os mais variados temas. A maioria deles, claro, ilustra o que é feito no próprio recinto, e o choque entre a forma elaborada e o conteúdo “nojento” era o que me causava riso. Assim, decidi reunir os principais topos desse, digamos, gênero literário e dar-lhes a forma de poema em esperanto: e então nasceu o Poemeto necesĉambra (Poeminha de banheiro)!

No meu site de esperanto, que mantive até 2010, mais ou menos, o poema está registrado logo após A época e o mundo nossos, que suponho ser de 2007 ou 2008, por último no meu backup. O “poema de banheiro”, portanto, deve ser de 2008 ou 2009, porque desde então tem sido muito esporádico o aparecimento de poemas longos meus (exceto traduções), e acho pouco provável que seja de 2010. Embora se reclamasse que muitos poemas de temas “chulos” tivessem sido feitos em esperanto até então, não resisti em praticar o inusitado vocabulário que aprendi num antigo dicionário, sobretudo relativo a sexo e excreção... Segui o vício de usar o esquema zamenhofiano ABAB de rimas pra cada estrofe, ao invés, por exemplo, de ABCB, e de criar um título com a mesma métrica do resto do poema:


Feki estas emocie
Kiel kiso inter langoj,
Ĉar la merdo sennocie
Ĵetas akvon al sidvangoj.

Se vi regas ĉiuloke
Kaj ordonojn ĉiam strekas,
Mi vin memorigas ŝoke,
Ke vi, necesĉambre, fekas.

Ĉu en hejmoj, ĉu en kluboj,
Ne troviĝas la rezisto
Kiam finas grandaj tuboj
L’ arton de la kuiristo.

Se vi kantas dum fekado,
Do atentu pri la perdo:
Povas fuĝi per dancado
Via petolema merdo.

____________________


(Em linguagem eufêmica)

Defecar é emocionante
Como um beijo entre línguas,
Pois o cocô, sem noção,
Joga água nas nádegas.

Se você reina em todo lugar
E sempre traça ordens,
Eu o choco ao lhe lembrar
Que você, no banheiro, defeca.

Seja em lares ou em clubes,
Não se encontra resistência
Quando grandes tubos terminam
A arte do cozinheiro.

Se você canta enquanto defeca,
Então preste atenção à perda:
Pode fugir dançando
Seu cocô travesso.




quarta-feira, 25 de abril de 2018

Stalin poeta (2): “Torpe” e “Madrugada”


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/stalin-poeta2



Essa rima ficou supimpa! Será que eles deixam publicar na Klaxon?...

Quem acompanhou a primeira postagem sobre este assunto, verá que estou repetindo aqui muita coisa. O tema não é controverso, mas poderá espantar muita gente. Nem os mais ferrenhos comunistas, nem os mais babantes direitistas, sabem que Iosif Stalin, ditador e marechal da União Soviética, também escreveu poesia no começo de sua juventude. É realmente um assunto pouco divulgado entre quem não conhece algo da língua russa, mas alguns de seus poemas foram traduzidos no ápice de seu regime e ficaram guardados por décadas, sendo publicados há algum tempo.

A. Andreienko organizou e comentou em 2005 uma seleta de poemas e cartas escritos por Stalin na juventude, chamando-a I. V. Stalin: Poemas. Correspondência com a mãe e parentes (Сталин И. В.: Стихи. Переписка с матерью и родными), publicada em Minsk pela FUAinform. Mesmo no cenário russo, o aparecimento desse volume deve ter parecido peculiar. Andreienko introduz dizendo que a tradição poética continuou, por muito mais tempo, bem mais vigorosa na Rússia e na Ásia Oriental (mesmo entre grandes governantes) do que na Europa Ocidental, onde sua antiga relação, inclusive, com a ciência foi perdida há séculos. Para ele, o poeta não é necessariamente quem “vive no mundo da Lua”, mas até o contrário, pois saber escrever em versos revelaria um pensamento claro e sintetizador. Esse seria o caso de vários grandes líderes da atualidade (obviamente ele só cita comunistas leste-asiáticos), e com Stalin não poderia ser diferente.

Enquanto estava no seminário religioso em Tbilisi, o jovem Ioseb Dzhugashvili escreveu alguns poemas em georgiano, dos quais seis foram publicados na mesma época (meados da década de 1890). Os dois que estou postando hoje não têm título nem na coletânea citada, nem nas Obras completas de Stalin, e por isso dei-lhes títulos simples e curtos em português. Torpe saiu em 1895 no n.º 218 do jornal Iveria, dirigido pelo grande poeta e publicista georgiano Ilia Chavchavadze, hoje considerado “Pai da Pátria”. Madrugada saiu no n.º 234 da mesma revista, no mesmo ano. Stalin, que ainda não tinha adotado esse pseudônimo, assinava seus poemas como “Soso” ou “Soselo”, nome com que também era conhecido entre os íntimos.

Poemas do jovem Ioseb também apareceram numa crestomatia de textos georgianos editada em 1907 pelo ativista M. Kelendzheridze, ao lado de outros grandes poetas, e na abertura de um manual de alfabetização lançado em 1916 pelo pedagogo Yakob Gogebashvili (o poema “Utro”/“Alba”, que traduzi anteriormente). O agora Stalin não publicou poemas no período soviético, mas num arroubo extremo de puxa-saquismo, Lavrenti Beria, chefe da polícia política (ele mesmo também georgiano), convocou em segredo os melhores especialistas, entre eles Boris Pasternak e Arseni Tarkovski, para transformar em poemas as traduções literais em russo dos textos do patrão. Deveriam compor uma coletânea de luxo para os 70 anos de Stalin, em 1949, mas o poeta, por razões misteriosas, ao descobrir o plano, chutou o pau da barraca e mandou parar tudo.

A seguir na coletânea de Andreienko, narra-se outro episódio folclórico envolvendo Stalin e a poesia épica georgiana, e então aparecem os poemas, em russo. São 6 páginas, seguidas de mais 6 páginas com “poemas sobre Stalin”, e depois lembranças sobre a juventude do líder, as cartas etc. “Torpe” e “Madrugada” estão nas páginas 8 a 10, e nas Obras completas (t. 17, Tver, Companhia de Edições Científicas “Severnaia korona”, 2004), nas páginas 3 e 4. Julgou-se ainda por bem publicar na coletânea outra tradução de cada poema, feita por Lev Kotiukov, e nas Obras outra tradução de “Torpe” por Feliks Chuiev. Eu traduzi este poema confrontando as três versões, mas traduzi “Madrugada” sem considerar a de Kotiukov. Nos dois casos, procurei levar em conta o esquema rítmico e métrico do russo, mas não quis fazer rima com os mesmos sons do russo, e por vezes, como é comum na poesia em português, também traduzi palavras oxítonas no fim dos versos por palavras paroxítonas.

Eu traduzi “Torpe” em pleno 7 de novembro de 2017, aniversário da Revolução Bolchevique, tendo começado de manhã na espera de um pronto-socorro aonde tínhamos levado minha avó, e terminado em casa à tarde. Mas “Madrugada” só concluí em 9 de fevereiro de 2018, após uns dias de interrupção e uma noite de inspiração. Esses poemas apresentaram dificuldades especiais devido à comparação entre vários textos ou à presença de alguns elementos próprios da cultura georgiana. O poema “Torpe” consistiu em toda uma recriação, tendo eu acrescentado várias figuras, próprias da cultura, política e religião brasileiras, que espero que vocês adivinhem. Já “Madrugada” ficou mais próximo do texto inicial, embora a literalidade estrita tenha sido impossível, e eu tenha adicionado até alguns elementos típicos brasileiros. Nos dois textos, aparecem ainda os nomes de dois instrumentos típicos da Geórgia, que mantiveram o nome original em russo: respectivamente, o panduri, um instrumento de três cordas tocadas com palheta e levemente aparentado ao bandolim, e o salamuri, um instrumento de sopro semelhante à flauta. Em “Torpe”, imaginando uma folia de Reis que passeia de casa em casa, unifiquei os conteúdos semântico e fonético em pandeiros e violas, e em “Madrugada”, não teve jeito, ficou flauta mesmo.

Lembro que as traduções são poéticas, e não literais, mas procurei manter ao máximo as mesmas informações passadas. Nem todas as palavras dos meus textos são de uso corrente, portanto, se surgir alguma dúvida, recomendo que procurem um dicionário, sendo talvez o Priberam, pro português europeu e brasileiro, o melhor acessível na rede. Conforme meu tempo disponível, vou traduzir os outros poucos poemas que faltam e postá-los aqui no blog. Infelizmente, eu traduzo a partir das versões russas, e não georgianas, idioma este que não conheço, mas acredito que isso não lhes tira a qualidade artística e o valor histórico. Boa leitura!

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(tradução anônima)

Ходил он от дома к дому,
Стучась у чужих дверей,
Со старым дубовым пандури,
С нехитрою песней своей.

А в песне его, а в песне –
Как солнечный блеск чиста,
Звучала великая правда,
Возвышенная мечта.

Сердца, превращённые в камень,
Заставить биться сумел,
У многих будил он разум,
Дремавший в глубокой тьме.

Но вместо величья славы
Люди его земли
Отверженному отраву
В чаше преподнесли.

Сказали ему: “Проклятый,
Пей, осуши до дна...
И песня твоя чужда нам,
И правда твоя не нужна!”

(tradução de F. Chuiev)

Он бродил от дома к дому,
словно демон отрешённый,
и в задумчивом напеве
правду вещую берёг.
Многим разум осенила
эта песня золотая,
и оттаивали люди,
благодарствуя певца.

Но очнулись, пошатнулись,
переполнились испугом,
чашу, ядом налитую,
приподняли над землёй
и сказали: – Пей, проклятый,
неразбавленную участь,
не хотим небесной правды,
легче нам земная ложь.







(tradução de L. Kotiukov)

Шёл он от дома к дому,
В двери чужие стучал.
Под старый дубовый пандури
Нехитрый мотив звучал.

В напеве его и в песне,
Как солнечный луч, чиста,
Жила великая правда –
Божественная мечта.

Сердца, превращённые в камень,
Будил одинокий напев.
Дремавший в потёмках пламень
Взметался выше дерев.

Но люди, забывшие Бога,
Хранящие в сердце тьму,
Вместо вина отраву
Налили в чашу ему.

Сказали ему: “Будь проклят!
Чашу испей до дна!..
И песня твоя чужда нам,
И правда твоя не нужна!”


Torpe

Batendo em porteiras estranhas,
Pandeiros, violas ferozes
Das doces e humildes entranhas
Cantavam futuros com vozes.

A música, o canto luziam
Qual ouro, qual sol no pensar.
A graça e o transe traziam
Verdade celeste sem par.

Queimavam os peitos ouvintes,
Fogueiras queimavam as trevas,
Pedreiras ruíam, requintes
Alçavam de noites longevas.

Num susto, varridas as nuvens,
Caíram no chão agitados
E humanos, de alma em ferrugem,
Praguearam aos vates sagrados:

“O duro labor, se os vampiros
Não pagam, que fira o que é teu;
Mas reis se derrubam com tiros
Enquanto gozamos no breu”.

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(tradução anônima)

Когда луна своим сияньем
Вдруг озаряет мир земной
И свет её над дальней гранью
Играет бледной синевой,

Когда над рощею в лазури
Рокочут трели соловья
И нежный голос саламури
Звучит свободно, не таясь,

Когда, утихнув на мгновенье,
Вновь зазвенят в горах ключи
И ветра нежным дуновеньем
Разбужен тёмный лес в ночи,

Когда беглец, врагом гонимый,
Вновь попадет в свой скорбный край,
Когда, кромешной тьмой томимый,
Увидит солнце невзначай, –

Тогда гнетущей душу тучи
Развеют сумрачный покров,
Надежда голосом могучим
Мне сердце пробуждает вновь.

Стремится ввысь душа поэта,
И сердце бьется неспроста:
Я знаю, что надежда эта
Благословенна и чиста!

(tradução de L. Kotiukov)

Когда луна своим сияньем
Вдруг озаряет дальний мир,
И тень её за дальней далью
Исходит синевой в эфир,

Когда над рощей безмятежной
Взмывает с песней соловей
И саламури голос нежный
Звучит всю ночь в душе моей,

Когда, переведя дыханье,
Вновь родниковый ключ звенит,
Когда в тревожном ожиданье
Бессонный лес в ночи молчит,

Когда герой, гонимый тьмою,
Вновь навестит свой скорбный край
И в час ненастный над собою
Увидит солнце невзначай, –

Тогда гнетущий сумрак бездны
Развеется в родном краю.
И сердцу голосом небесным
Подаст надежда весть свою.

Я знаю, что надежда эта
В моей душе навек чиста.
Стремится ввысь душа поэта –
И в сердце зреет красота.


Madrugada

A Lua, com seu brilho forte,
A Terra vem iluminar,
E a luz, do sul até o norte,
No azul branqueia o estrelar.

A mata, presa ao firmamento,
Vislumbra o rouxinol aos pios,
E o som da flauta, num lamento,
Percorre insone os senhorios.

Após parar rapidamente,
Os montes jorram seus grotões,
E o vento, manso na corrente,
Retira o sono dos varjões.

O fugitivo, sem saída,
De novo está em grades vis,
E numa escura, opressa vida,
O Sol transpassa por funis.

E então as nuvens despedaçam
A escuridão do mau humor,
Os vozeirões da fé abraçam
Meu coração com novo amor.

O bom poeta sonha alto
E o peito bate com razão:
Tal fé, eu sei, não sou incauto,
Bondades traz que bendirão!



“Pai, você foi meu herói, meu...” Ah, sabe, deixa pra lá!

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

‘Caturro 13’ ou ‘Filando a boia’ (poema)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/caturro13



Eu traduzo música e poesia (do português pra outras línguas ou vice-versa) em três ocasiões: quando estou inspirado, quando a peça me agrada esteticamente ou quando ela me diz algo sobre a atualidade. Esta postagem se encaixa no terceiro caso, praticando o que em sua teoria os tradutores chamam transcriação. Em tradutologia, transcriar não é apenas traduzir palavras, ocorrendo que o resultado não soaria inteligível na língua de chegada; é também traduzir ideias, conceitos, situações, personagens, elementos culturais, de forma a transmitir não exatamente a carga semântica do texto, mas antes uma aproximação do efeito que ele teria causado no ambiente original.

O exemplo mais básico é quando trocamos personagens de folclore, datas festivas ou provérbios por outros que queiram dizer algo igual ou parecido, sempre com palavras diferentes, e em geral repassando uma mesma ideia de alegria, tristeza, moralidade, festividade, humor, suspense etc., e não necessariamente a visão que faríamos com a figura traduzida literalmente. Isso pode ser chamado de transcriação, mas num sentido mais amplo, transcriar também é reconstruir todo um texto, refazê-lo, ordená-lo e montá-lo todo, de modo a quase sempre não permanecer nenhuma equivalência literal. Assim, o que tentamos reconstruir (já que jamais nenhuma tradução é perfeita) não é o significado literal, digamos, de um poema, mas sua função dentro do contexto em que ele apareceu primeiro.

Por isso que dizemos transcriar, e não, por exemplo, recriar: nós não tiramos nosso material do nada, mas de alguma forma transportamos (ou tentamos) pra nossa cultura o mesmo instrumento, sensação ou efeito que serviram ao deleite de outra cultura. E acredito que essa é uma das mais nobres maneiras de fazer uma nação progredir. Primeiro, porque as(os) tradutoras(es) sempre foram indispensáveis ao aperfeiçoamento das civilizações, já que nenhum povo podia viver apenas com sua própria língua e costumes. Novas incorporações sempre foram essenciais pra saltos de qualidade, embora nem sempre todos fossem poliglotas. E segundo, porque a transcriação, mais do que qualquer outra modalidade de tradução (as quais, obviamente, sempre exigem talentos parecidos), demanda um cabedal intelectual, uma empatia ou alteridade, uma criatividade e uma desinibição (e também, portanto, maior abertura a críticas construtivas) em grau muito mais alto. O extremo oposto da quase “transposição de tijolinhos de significado” dos manuais de máquinas e utensílios.

Aprender novos idiomas, e de roldão conhecer outras culturas (mesmo que até um momento somente por revistas ou pela internet), é condição essencial pra querermos evoluir mais e derrotarmos todo tipo de xenofobia e estranhamento nacional. Infelizmente, estamos vivendo no mundo todo uma ressurgência dos chauvinismos porque toda essa indústria multicultural, tecnológica e telecomunicativa (bem como as atuais redes sociais) só levou em conta seu papel material e ignorou ou desprezou o trânsito de valores que ela acarretava. Apenas agora, por exemplo, Mark Zuckerberg está querendo mudar os misteriosos “algoritmos” visando tornar seu site mais voltado pra família e menos pra empresa jornalística. Já passamos do tempo em que “escolinhas de inglês” deviam enlatar papagaios pro mercado e inculcar a sede de lucro. O contato com línguas estrangeiras, com ou sem tradutoras(es), qualquer língua que seja, reeduca todos os comodismos cerebrais e nos leva a perceber como outras pessoas enxergam o mundo, não necessariamente de um jeito melhor ou pior. Apenas diferente.

Imagine-se que amplo papel tem na cultura, sobretudo na literatura e nas artes plásticas, a tradução levada ao limite na modalidade da transcriação. Pois cultura não é somente acúmulo de informações ou domínio das técnicas necessárias pra atuar numa profissão. (Talvez cultura nem seja isso, pois senão não teríamos tantos empresários e cientistas incultos ou desaculturados por aí...) Cultura tem a ver, antes, com cultivo, cultivar, palavras com que tem em comum o radical de origem latina. A cultura não visa apenas juntar dados, visa também criar valores, educar sensações, aprimorar o espírito. Por isso ela é tão fundamental quanto as chamadas “disciplinas científicas”, não se justificando, assim, a marginalização da música e das artes plásticas nos currículos escolares. De fato, vemos no Brasil um movimento pra tirar essa habilidade do domínio jovem sob o pretexto de uma “preparação melhor pro mercado”. Ora, mas não existe mercado livre sem trânsito, trocas, viagens, deslocamentos, intercompreensões. E a cultura é justamente o grande carrefour das civilizações, o feirão onde se troca de tudo. Deste modo, não existe técnica neutra, sem um valor embutido, sem uma marca cultural de origem. Na verdade, a própria inspiração cultivada é a chave e o substrato que dá origem e favorece todo tipo de criação/inovação conceitual.

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Após este pequeno manifesto involuntário, creio estarem dadas as condições pra que se entenda a filosofia por trás da presente e de toda minha (trans)criação poética. Quando fiz uma extensão de língua latina na Unicamp, ministrada no primeiro semestre de 2017 pela Prof.ª Bárbara Polastri, ela não se limitou ao conteúdo programático em si e nos passou vários exemplos de textos e resquícios históricos relativos à Roma antiga. Um deles foi uma folha com quatro poemas de Caio Valério Catulo, poeta romano que viveu aproximadamente de 84 a 54 AEC (antes da era comum) – ou seja, no século clássico da língua e cultura latinas – e foi o único a legar à posteridade obras do círculo que Cícero chamou de "poetas novos”. Catulo era conhecido (e criticado) por ter trazido à literatura temas simples, prosaicos e diretos, sem a grandiloquência ou mitologia dos escritos tradicionais.

Os poemas dados pela Bárbara foram traduzidos, reunidos e anotados por João Ângelo de Oliva Neto, professor de Língua e Literatura Latina da USP, no volume O livro de Catulo (São Paulo, Edusp, 1996), que contém diversos de seus ditos carmina (sing. carmen), literamente “cantos” ou “poemas”. Um deles, denominado “Catullus XIII” ou “Catulo 13”, trata de um convite a um amigo pra que ele venha jantar na casa do narrador, mas que de fato traga toda a comida, porque seu bolso está “cheio de teias de aranha”. Em troca, receberia “amores, amizade e perfumes”, numa temática bastante familiar a nossos folgazões brasileiros. São esses clássicos que sempre dizem algo ao cidadão comum, não importa a época e lugar, os resistentes ao tempo, e tomo a liberdade de reproduzir abaixo o texto em latim (com maiúsculas apenas em nomes próprios) e a tradução do Prof. João Ângelo:


cenabis bene, mi Fabulle, apud me
paucis, si tibi dei fauent, diebus,
si tecum attuleris bonam atque magnam
cenam, non sine candida puella
et uino et sale et omnibus cachinnis.
haec si, inquam, attuleris, uenuste noster,
cenabis bene; nam tui Catulli
plenus sacculus est aranearum.
sed contra accipies meros amores
seu quid suauius elegantiusue est:
nam unguentum dabo, quod meae puellae
donarunt Veneres Cupidinesque,
quod tu cum olfacies, deos rogabis,
totum ut te faciant, Fabulle, nasum.

Jantarás bem, Fabulo, em minha casa,
muito em breve se os deuses te ajudarem,
se contigo levares farto e bom
jantar, e não sem fina artista, vinho,
graça e as risadas todas. Isso tudo,
se levares, encanto meu, garanto,
jantarás bem, pois teu Catulo tem
o bolso cheio de teias de aranha.
Em troca aceitarás meros amores
e o que há de mais suave ou elegante,
pois um perfume te darei que à minha
garota Vênus e os Cupidos deram,
que ao sentires aos deuses vais pedir
te façam, Fabulo, todo nariz.


Nesta transcrição latina, como é costume no meio acadêmico, usa-se “u” no lugar do “v” minúsculo e “i” no lugar do “j”, letras cuja introdução só se deu séculos depois. Existem também outras traduções: pode-se ler nesta página a inovadora versão de Haroldo de Campos, e encontra-se neste blog sobre cultura clássica uma tradução literal do latim. Em espanhol, podem-se ler nesta página os poemas de 1 a 60 de seus carmina, traduzidos literalmente por Ana Pérez Vega.

Agora, apresento-lhes minha transcriação deste poema, que realizei em Bragança Paulista na mesma quarta-feira, 14 de junho de 2017, em que a Bárbara nos apresentou Catulo (aluno à tarde, poeteiro à noite). Piada explicada não tem graça, então vou dar o poema primeiro (a “Carminha”, hahaha), vocês fruem/entendem como quiserem, e depois explico o que eu tinha em mente ao escrevê-lo. Atribuí-lhe também uma nova métrica, semelhante à latina, mas baseada na do português, um esquema próprio de rimas (ABAB CDCD EFE FEF) e a forma de um soneto, inclusive com o “verso de ouro” final. Quanto ao nosso Fabullus (Fabulo), apenas recentemente descobri que a pessoa responsável pelo sucesso de K.O. e Corpo sensual, e a qual não tinha ainda “bombado” na época, foi legalmente registrada como “Phabullo”. Eu poderia ter agora trocado nosso personagem, por exemplo, pra “Pabllinho”, mas como o texto não concerne à sua área de interesse ideológico, mantive o mais sonoro, natural e popular Fabinho:


Caturro 13, ou Filando a boia

Que bom, Fabinho, se vier na minha casa,
Aproveitando uma piscada da patroa,
Comer churrasco, pão, pirarucu na brasa,
Tomar cerveja, mulherada e pinga boa.

À tarde a gente vai jogar conversa fora,
Faz futebol, rasga viola no modão.
Mas meu querido, compra tudo e traz na hora
Porque o papai aqui tá sem nenhum tostão!

“É a crise”, eu digo, amigos tão aí pra isso,
Pro aperto, pra gandaia ou pra esconder tramoia,
Aparecer sem marcar dia ou compromisso.

Garanto que a bocada vai ser muito joia,
Mas se, fedendo, der PT, gorfar no piso,
Fabinho, não vai mais filar a minha boia!


Primeiramente, vocês devem ter notado minha onipresente influência sertaneja, tanto na temática quanto no vocabulário: realmente, é o tipo de música de que mais gosto e escuto... Isso é errôneo? Não sei, gosto dessas poesias “misturadas” não por delírios literários, mas pra fazer graça mesmo, zombar de um domínio que sempre foi visto como etéreo e superior, apanágio de pessoas “iluminadas” e ditas mais talentosas. Quero mais que as pessoas riam do que se admirem; a dessacralização e a irreverência são as melhores armas contra mitos e trevas, e destruí-los é a missão de todo cientista.

Agora, por que “Caturro”? Tá na cara que vem do Catulo, mas vamos resgatar o sentido (dentre outros) do verbo caturrar, segundo o Aurélio: “questionar com insistência; teimar”, “mostrar-se caturra”, “caturra” sendo um adjetivo que pode qualificar uma “pessoa teimosa, agarrada a velhos hábitos, sempre disposta a achar defeitos, a discutir; pechoso”. Não temos uma associação plenamente direta com o tema da minha versão, mas se estendermos pro domínio da conversa, conchavo, folga, impertinência, delação e falta de autopercepção (“semancol”), até que se adéqua bem. Afora também a inserção de todo um cenário típico de fim de semana e lazer masculinos no centro-sul do Brasil (churrasco, peixes, pães, mulheres, etílicos, papo furado, futebol e, por vezes, música – “modão” e “viola” dão a localização final), troquei toda a temática de “amores, deuses e perfumes” (já que o clima não é de “rosas, versos e vinhos”!) pela suposta chantagem que o narrador estaria fazendo, pedindo almoço grátis em troca de ocultar algum segredo.

O encerramento de aparência surreal, em que o “hóspede” ameaça futuras proibições a um almoço do qual ele não é nem mesmo o financiador, termina de dar um choque no(a) leitor(a), embora não seja necessariamente a “transcriação” de um possível efeito gerado por “te façam, Fabulo, todo nariz”. Não sei se Catulo teve a mesma intenção que eu, mas a inserção desse efeito foi de minha própria decisão. Pra quem não conhece, “boia” é um antigo sinônimo rural de “comida, refeição” (especialmente almoço, e mais ainda de quem volta da roça), e “gorfar”, na verdade “golfar”, sempre escutei muito em minha cidade como sinônimo de “vomitar”, pelo menos no sentido fisiológico, e não apenas (ou nem mesmo) figurado.

O toque final, que vocês daqui a pouco vão achar ideia fixa minha, fica por conta de três elementos interligados. Por feliz coincidência, o número do poema é 13, código eleitoral do partido que governava o Brasil enquanto explodia a “crise” econômica a que se referia o narrador (na verdade, também pintada aqui como uma desculpa genérica, sendo de fato “É a crise” um bordão muito generalizado nas redes sociais). O “PT”, jargão popular pra “perda total” (o famoso vexame numa balada ou festa alcoólica), lacra o assunto. E, claro, pode-se ter a liberdade de fazer as mais diversas associações: feder, sujeira, corrupção, tramoia, fisiologismo, desordem, bebida e futebol, crise/falta de dinheiro, gastança além da conta, caturra/implicância, pedidos descarados... (Não, eu não sou um antipetista de direita fanático, mas acho que ninguém está imune à Santa Zoeira, exceto se estiver na intenção ser chulo, ofensivo ou ameaçador!)

Com isso encerro minha exposição, que já foi mais do que suficiente.



domingo, 25 de fevereiro de 2018

O vermelhinho (poema de Erick Fishuk)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/vermelhinho


Observando as notícias acadêmicas e jornalísticas do dia anterior e escutando Tonico & Tinoco após o café da manhã, me inspirei pra escrever este poema no dia 24 de fevereiro de 2018, em Bragança Paulista. Misturo linguajar simples, palavras rebuscadas, referências implícitas e eventos temporalmente localizados, ou seja, é mais uma poesia de banheiro expelida na hora do que um monumento pra eternidade ou um clássico asséptico. Com o bicho pegando e a chapa esquentando, ficarei curioso sobre que usos far-se-lhe-ão.




O vermelhinho

Lá vai o vermelhinho
Tremendo bandeira,
Critica opressão
Mais a roubalheira,
Sai do sindicato,
Combate a pobreira,
Renova as esquerdas,
Reúne as estrelas
Por nação altaneira.

De barba esculpida,
Disputa eleição:
“Caçar marajás?
Mas que enganação!”
Se diz contra tudo,
O fim da inflação,
Real e outros planos
Que apontam enganos
Da má administração.

Quer prender corruptos,
Afina o discurso:
Explora as fraquezas
De um rei sem recursos
E bate panelas
Pedindo outro curso.
Carta aos Brasileiros
Agrada aos banqueiros,
O Planalto vem num impulso!

Agora co’as rédeas,
Descobre a verdade:
Deter o pepino
Chama habilidade,
E a parasitagem
Exige sua parte.
Maluco por grana,
Se afunda na lama
Da governabilidade.

A “paz social”
Surfava na onda
Do crédito livre,
Finanças com sonda
E o mundo comprando
Primários sem conta.
Aos pobres, migalhas,
Ao Eike, medalhas:
Não há crise que o ronda!

As picaretagens
Saltavam às vistas,
Julgadas nas cortes
Por duros juristas.
A cada denúncia,
Culpava a revista:
“Pobre no avião,
Com carro e cartão
Enfurece os elitistas!”

A ave bicuda
Não cheira nem fede:
Louvando o passado,
Do pau se escafede.
E o velho Centrão
Mais quer e mais pede.
Em dois mil e dez,
Sucessão aos pés
Briga e ódio nas redes.

A companheirada
Está nos caixotes,
Mais firmes e armados
Se encontram os hostes.
Pra manter o osso
Restou só um poste.
Nos próximos anos,
Entre altos e danos,
A luta seria de morte.

Os dias de glória
Sustinham as facas,
Mas logo foi fácil
Fundir-se na jaca:
Sempre generosas
As tetas da vaca,
A inflação subiu,
Dinheiro sumiu
E aí o Estado empaca.

O povo é esperto
Vivendo à espreita:
Em dois mil e treze
Os roubos rejeita.
Mas o “Vem pra rua”
Passou pra direita:
Agora as panelas
De ricas janelas
Rechaçavam a dama eleita.

O Novo Reaça,
Babando de espuma,
É velho de cuca,
Na CIA se apruma,
Bajula milicos
E o resto é comuna.
Até o vermelhinho,
De papo mansinho,
Serviria à barafunda.

O ardor partidário
Virou palhaçada,
Lobões e Olavos
Lecionam piadas,
E a esquerda abstrata,
Atabalhoada,
Gritava na pista:
“Coxinha, fascista!”,
Na cátedra mimada.

O Centro então salta
Do barco imergindo:
Governabilidade
Ficou sem arrimo
E o vice vampiro
Lá do Gradus Primus
Põe frase na carta:
“Se vão as palavras,
Mas os escritos ficam.”

Sem claro programa,
Ao Cão paralelo
Restou só o mesmo
Que o Collor de Mello:
“Impitchar” a líder,
Botar no chinelo,
Berrando na web
Com o eme-bê-ele
E um lindo pato amarelo.

O escorraçamento
Chegou a galope.
Como um papagaio,
Gritava: “É golpe!”
Vermelho de raiva,
Chamou gente pop:
De Chico até Wagner
Xingava o PTemer,
Dizia que ele era torpe.

O choro prossegue,
Nenhuma esperança,
Põe culpa nos outros
Igual a criança
E quer vermelhinho
No pleito-lambança:
Chuchu, Bolsonaro,
Marina, Ciralho,
Só cidadãos de pança!

A tal gerentona
Viaja por milhas
Falando estrangeiro,
Mas é dislalia
Contrária à raposa
Que apoiou um dia.
Dizia já Gramsci:
Não era só lanche,
Faltou a velha hegemonia!

O som do Plim-Plim
Deu logo o sinal:
A revolução
Virou Carnaval
E a Sapucaí,
O Paço Invernal.
Cobrir Tuiuti,
Descer jabuti,
Beijar a flor do normal.

Grade optativa,
Escola e partido,
Facção e cadeia
Tomaram o pito,
E a tal Previdência
Aumenta o prurido.
De Cabral a Cabral,
Preso num lamaçal,
O Brasil tá perdido!