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24 de julho de 2019

Minha tradução a Ievgeni Onegin (1825)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/onegin




Há muitos momentos na vida em que pensamos em fazer coisas bastante diferentes e inusitadas. Uns meses atrás, ainda em 2018, eu soube da existência do romance em versos Ievgéni Onégin, um dos maiores clássicos da língua russa escrito por Aleksandr Sergeievich Pushkin (1799-1837). Me julguem, realmente sou uma negação em literatura russa, pois exceto nos tempos de escola e em determinadas matérias da faculdade, eu raramente lia até mesmo literatura brasileira, já que meus focos sempre foram os idiomas e a história! Nos próximos anos pretendo sanar essa lacuna... Seu protagonista, que dá o título à obra, serviu de modelo pra inúmeros protagonistas da literatura russa, como o modelo chamado “homem supérfluo” (líshni chelovék), sendo que o adjetivo líshni também tem o sentido de “excedente”, “que sobra”, “em excesso”, resumindo, um dândi ou playboy socialmente inútil, inspirado nos escritos do Lorde Byron. O romance foi publicado numa série entre 1825 e 1832, e num volume único em 1833.

Lançando a literatura russa definitivamente na cena cultural europeia, a história é contada por um narrador mais ou menos próximo da imagem pública de Pushkin e, resumidamente, trata de um jovem aristocrata, Onegin, que herda uma fortuna do tio e se muda de São Petersburgo, cuja vida de prazeres mundanos tinha o cansado, pro interior da Rússia. Ele faz aí amizade com um poeta e desperta a paixão da futura cunhada dele, Tatiana Lárina, a qual, porém, não tem o sentimento correspondido, dado o orgulho do rapaz. Na inusitada vida rural que inclui um duelo com o poeta, que termina assassinado, o casamento de Lárina com um príncipe em Moscou, a volta de Onegin a São Petersburgo e a rejeição final do moço pela sua amada, o protagonista (que na língua russa também se diz “herói”) descobre que sempre viveu uma vida de aparências e futilidades. As convenções sociais e a mortificação que elas causam ao viver autêntico estão no centro da trama, prevendo o próprio fim de Pushkin num duelo e antecipando a crítica ao que tem sido chamado esses dias, num maravilhoso neologismo, de cotidiano “instagramável”.

Do ponto de vista técnico, e o que causa mais dificuldade à tradução em outras línguas, Ievgeni Onegin é chamado “romance em versos”, significando que é formado por diversos “sonetos” (mas que não são divididos em estrofes) com suas 14 linhas tradicionais no esquema rítmico dito tetrâmetro iâmbico, figurado como “taTAtaTAtaTAaTA(ta)”. O esquema de rimas “AbAbCCddEffEgg”, incomum pra época, ficou conhecido como “estrofe Onegin” ou “soneto de Pushkin”, com letras idênticas significando versos que rimam entre si, letras maiúsculas indicando final em sílaba tônica e minúsculas indicando final numa sílaba tônica mais uma sílaba átona, que não conta pro cálculo rítmico (por isso pus “(ta)” entre parênteses). Imaginem decifrar a linguagem e contexto da época, e ainda obedecer a essas minúcias... Entre as traduções em diversas línguas, Vladimir Nabokov, por exemplo, optou por traduzir ao inglês em formato de prosa, sacrificando a sonoridade ao sentido total e integral.

De fato, o grande desafio de traduzir poesia é manter, ao mesmo tempo, o sentido, o jogo de sons e as figuras de linguagem formadas pela interação entre som e sentido. Ievgeni Onegin complica as coisas ao ter sido escrito na língua russa, ainda muito pouco difundida no Brasil, mas já tivemos pelo menos duas traduções brasileiras de altíssima qualidade: a de Dário Moreira de Castro Alves, publicada pela Record em 2010, e a mais recente, de Elena Vássina e Alípio Correia de Franca Neto, lançada pela Ateliê em 2019. Infelizmente, nos dois casos nosso “herói” se tornou “Eugênio Oneguin/Onêguin”, mas nada que prejudique a essência da empreitada realizada com sucesso por esses literatos. Quando li muito superficialmente um trecho de Dário na internet, julguei que o romance precisava de nova tradução, fiel à métrica e mais “moderna”, mas quando realmente peguei um exemplar do livro, desfiz as primeiras impressões. A vontade de retraduzir a obra finalmente acabou quando soube da edição de 2019, feita por nomes de talento. A própria Elena, por rede social, me confidenciou que não cabia desistir, pois “mesmo em outros idiomas as traduções se contavam às dezenas”.

Mas respeitei os pioneiros e decidi deixar meu talento poético pra outros poemas no futuro. Porém, em novembro e dezembro de 2018 eu já tinha traduzido, poeticamente e em linguagem moderna, os dez (ou nove) primeiros sonetos de Ievgeni Onegin, cujo título eu queria deixar assim escrito. Sim, pessoas, quero renunciar a esse desafio, porque embora eu me julgue, sem falsa modéstia, capaz de o fazer, outros planos talvez precisem mais de mim. A vocês dou de presente o que eu já tinha conseguido, sintetizando todo o meu conceito pessoal de poesia, tradução, sonoridade e fidelidade. Algumas palavras em francês e latim estão em itálico e já constam do original. Apenas um verso, a depender se queremos ter uma linguagem mais fiel ou mais atual, tem uma forma alternativa entre colchetes. As datas indicam os dias em que traduzi o soneto logo abaixo e os seguintes. Todo o conteúdo se refere ao capítulo um.

Como base pra tradução, usei uma rica edição comentada e ilustrada, publicada em Moscou (2013) pelo OLMA Media Group e preparada por V. P. Butromeiev e V. V. Butromeiev. Pra facilitar o serviço, também me vali de uma versão online em HTML que conta com o texto integral numa só página, e tive em mãos a terceira edição de 1837 (São Petersburgo) e a quarta edição de 1918 (Petrogrado), estas duas ainda na ortografia pré-reforma. As edições que não eram em HTML estão nos formatos PDF ou DJVU. Segue o texto:



I. (15/11/2018)
“Meu tio, se não fingia males,
Dos mais honestos era o rei,
E, no melhor de seus detalhes,
Sabia impor a própria lei.
Julgavam-lhe alma bem dotada,
Mas, pelos santos, que maçada
Fazer serões nos hospitais,
Não indo embora nunca mais!
Que baixaria nesses prédios
Dar alegria a moribundos,
Deixar seus travesseiros fundos,
Meter nas bocas só remédios
E refletir, soprando o ar:
Diabos! Quando vou parar?”

II.
Pensava assim um moço errante,
Voando aos pós num alazão,
Vadio por Zeus feito importante
Herdeiro pleno da nação.
A quem Ludmila com Ruslan
Conhece, agora com afã
Revelo o folgazão herói
Que em meu romance se constrói:
Onegin, grande companheiro
Nascido às margens do Nevá.
Talvez, leitor, você de lá
Surgiu ou fez seu paradeiro.
Por essa terra andei também,
Mas hoje o norte não faz bem.

III. (16/11/2018)
Ricaço de esplendor insano,
Seu pai nas dívidas viveu,
Três bailes dava a cada ano
E seu dinheiro esvaeceu.
Ievgeni teve bom apreço:
Madame tratou-o no começo,
Depois Monsieur moldou o gesso.
Menino doce, mas travesso:
Monsieur l’Abbé, francês capenga,
Querendo não lhe aborrecer,
Fez brincadeira o aprender,
Sem moralista lengalenga,
Sabia, mais que dar sermão,
Levar no Parque de Verão.

IV.
Adolescente irritadiço,
Ievgeni espera, sofre, vê,
E nessa idade do feitiço,
O paço demitiu Monsieur.
O Onegin meu em liberdade,
Cabelo à moda da cidade,
Um dândi à Londres no vestir,
[Playboy com Londres no vestir,]
Enfim brilhou no seu porvir.
Usou francês seguro e solto,
De escrita e fala bem capaz;
Dançou mazurca como um ás,
Um cavalheiro desenvolto;
Quer mais o quê, se o mundo viu
Seu plano sábio e gentil?

V. (19/11/2018)
De alguma forma, algum tijolo
Aos poucos pomos no saber,
Por isso, para Deus é tolo
Quem sabe e quer aparecer.
Onegin era, para a massa
(Juíza rígida, de raça),
Pedante, mesmo que sagaz:
Deixando a calma para trás,
Consegue bem manter o garbo,
De tudo fala e nada diz,
Um cientista no nariz,
Ciência nula em tema brabo,
E logo atiça o mulherio
Com um ditado nada frio.

VI.
Latim não mais está na cena:
Então, de um ângulo real,
A língua lhe era ajuda plena
Nas rodas sobre Juvenal,
Nas versificações baratas,
No vale posto ao fim das cartas,
Nos versos trôpegos de cor
Da Eneida, dois no seu melhor.
Não estudou jamais história,
Cronologias dos avós,
Papiros de intragáveis pós:
Mas de anedotas a memória
Encheu, de Roma até aqui,
Passado em pálido croqui.

VII.
Sem muito medo de avarias
Nos sons da vida, esqueceu
As diferenças, ninharias,
Entre o iambo e o troqueu.
Teócrito e Homero ataca,
Mas Adam Smith é sua estaca,
Seu manual de economês
Que faz narrar com nitidez
O que a nação tem por riqueza,
Por ganha-pão, e qual sopé
Lhe torna o ouro rodapé
Ao dar produto fresco à mesa.
Seu pai jamais lhe acreditou,
E a própria terra hipotecou.

VIII. (20/11/2018)
Das manhas todas de Ievgeni
Não posso desdobrar o rol,
Mas seu talento desde o gene,
O que lhe deu lugar ao Sol,
Encargo desde a juventude,
Tormento, êxtase, virtude,
Preguiça com lamentação,
De um dia todo ocupação,
Foi adestrar-se na sofrência,
Que a Itália Ovídio viu cantar,
Por isso expulso de seu lar
Com tal translúcida ciência,
Na estepe funda vendo o fim,
Moldávia, solidão confim.

(O soneto IX está vazio no original.)

X. (15/12/2018)
Tão cedo soube ter ciúmes,
Mostrar-se hipócrita, sombrio,
Largar e retomar costumes,
Ser conformado ou varonil,
Dissuadir, despedaçar-se,
Atento, alheio, que disfarce!
Calado, perde toda a luz,
No discursar, um arcabuz,
De amor as cartas tinham manha.
Aspira e ama coisa só,
Cuidar de si lhe dava nó!
De olhar que oscila, mas arranha,
Seduz e reza, mas também
Imita o choro do neném!