Esta rara entrevista está online no canal da RTS (Rádio e Televisão Suíça em francês) há quase 19 anos, mas não chegou a 1,4 milhão de visualizações, enquanto vídeos muito mais fúteis e ultrajantes chegam a muito mais do que isso em poucas horas nos canais grandes. Pra se ter uma noção, a imagem ainda tem o selo da então existente TSR (Televisão Suíça Romanda), que em 2010 se fundiria com a RSR (Rádio Suíça Romanda) pra criar a rede pública RTS. Descobri sua existência após assistir à última edição do programa semanal Géopolitis da mesma RTS, sobre a história do bloqueio a Cuba pelos EUA e da atual escalada da crise entre os dois países, sobretudo a penúria geral que assola a ilha caribenha. A apresentadora disse que a entrevista de Ernesto “Che” Guevara à mídia suíça era “inédita”, mas entendi que ela nunca tinha ido ao ar (foi mostrado um trecho exíguo). Quando localizei algo parecido com a íntegra no próprio YouTube, pensei como o Pica-Pau: “Fui tapeado!”
Se nem na própria Helvécia o vídeo era muito conhecido, que dirá nesta Terra de Santa Cruz? Hora de fazer mais uma tradução que pudesse fazer sucesso entre meus compatriotas, sobretudo aqueles vestidos de camiseta com a cara descabelada do revolucionário argentino e braço direito de Fidel Castro! Segundo a RTS, a conversa ocorreu em Genebra, em abril de 1964, conduzida por René Burri pro programa Point, apresentado pelo jornalista Jean Dumur. Então ministro da Indústria de Cuba, El Che minimiza os efeitos até então visíveis do embargo imposto por Washington e notavelmente mostra hesitação em tomar partido na disputa sino-soviética, o maior racha do mundo socialista até então. (Havana finalmente tomaria o partido de Moscou e de sua gorda mesada, mas essa é outra história.)
Considera-se que esse seja o único registro público do francês falado por Ernesto Guevara, que teria, segundo comentários à publicação de 2007, passado boa parte de sua juventude lendo renomados escritores franceses no original, devido ao repouso prolongado imposto por sua condição de asmático. Eis aqui, então, mais uma tentativa de contribuir pra tradução da história do comunismo em português, ressaltando que editei profundamente o texto em francês das legendas que baixei por meio de um site. Em grande parte, não corresponde à fala, mas tenta passar as ideias originais mantendo o máximo do estilo, e o resultado segue depois da tradução. A base desta saiu do Google Tradutor, que deu várias soluções interessantes, mas o resultado foi atentamente cotejado com minha transcrição editada.
Adicionei notas explicativas entre colchetes e links pra páginas relacionadas quando necessário, nas duas versões, e realmente a conversa parece “começar no meio”, subentendendo-se já estar em discussão um assunto. Se havia um trecho gravado antes disso ou se foi um mero cacoete linguístico de René Burri, jamais saberemos:
Mas, em sua opinião, houve alguma mudança na atitude dos EUA com relação a Cuba?
Talvez, eu lhe digo, seja difícil lhe responder diretamente. De qualquer forma, não baseamos nossa posição escutando ou observando o que os EUA fazem ou o que os EUA querem. Bem, conduzimos nossa política internacional e, naturalmente, observamos atentamente o que eles fazem porque é nosso inimigo, estão perto de nós, são muito poderosos.
Hoje, nos últimos dias, há algumas vozes americanas, nós as conhecemos, o senador [James William] Fulbright [presidente do Comitê de Relações Exteriores do Senado dos EUA], por exemplo, que falaram numa linguagem completamente diferente. Mas imediatamente, o sr. [David Dean] Rusk [secretário de Estado dos EUA], o sr. Thomas Mann [diplomata americano que forjou a política de intervenção direta nos países latino-americanos], falaram na linguagem usual, e não podemos saber se a atitude de Fulbright, por exemplo, reflete realmente uma mudança na posição dos EUA ou se é simplesmente uma voz isolada.
O bloqueio econômico imposto pelos EUA tem afetado a vida em Cuba?
Sim, antes de mais nada, tem mudado completamente a vida em Cuba. Mudamos nossas fontes de suprimento, que passaram a ser a Europa, especialmente os países socialistas. Mudamos nosso próprio estilo de vida, e os artigos de luxo, bens de consumo durável, digamos assim – não sei o termo em francês –, quase desapareceram em Cuba. Havia muitas coisas em falta. Nossas indústrias passaram por um período bastante longo sem peças de reposição, e às vezes era preciso parar. Não conseguíamos as manter funcionando, mas essa situação até forçou nossa industrialização no setor mecânico.
E neste momento podemos nós mesmos suprir quase todos os suprimentos mecânicos essenciais, isto é, peças de reposição e, naturalmente, tudo o que não podemos comprar de países socialistas ou outros países da Europa. Pois devemos considerar que Cuba é um país onde quase toda a indústria, toda a técnica e toda a tecnologia dependiam dos EUA e das fábricas dos EUA, e mudar tudo isso é algo muito difícil. Conseguimos fazer isso e, desde o ano passado, o bloqueio já é realmente um completo fracasso.
Mas você está satisfeito com a atual situação econômica de Cuba?
Não, nunca podemos estar satisfeitos. Aspiramos a muito mais, mas o ano passado foi o pior, especialmente no início, quando a economia estava em seu ponto mais baixo. Desde esse momento, começamos a expandir nossa indústria e agricultura, e podemos dizer que essa é a direção geral que a economia está tomando, uma melhora gradual e sustentada. Infelizmente, não é algo maravilhoso, mas todos os dias podemos ver os resultados concretos do que estamos fazendo, e pro povo isso é encorajador.
A ajuda soviética a Cuba é necessária pra vocês?
Naturalmente é necessária. Acho que a ajuda de todos os povos é necessária. Se você que saber se é indispensável, acho que não. Mas precisamos esclarecer bem o que estamos chamando de ajuda, pois sempre há alguns erros, alguns equívocos. Por exemplo, os americanos falam da ajuda soviética em termos comerciais, e temos um comércio bilateral muito forte em ambos os lados. Isso não é ajuda. A ajuda soviética consiste em alguns acordos de longo prazo, como os acordos sobre a cana-de-açúcar e os acordos pra fornecer empréstimos de longo prazo pra conclusão de empresas industriais. Isso é muito importante pra nosso desenvolvimento. E digo que a URSS, você me perguntou, não sei se você está se referindo especificamente à URSS ou aos países socialistas. Mas temos esse tipo de relacionamento com todos os países socialistas.
Mas ainda há soldados soviéticos em Cuba?
Técnicos, mais exatamente. Eles estão lá, sim.
Vocês precisam deles?
Eles são nossos instrutores em algumas áreas.
Em quais áreas?
Na área de tecnologia de defesa avançada. Abatemos um U-2: só a URSS consegue fazer isso, a China também, acredito, e naturalmente é uma técnica muito difícil. Até agora não a dominamos.
Qual é a posição de Cuba diante do conflito que opõe Moscou a Pequim?
Lamentamos profundamente essas questões. Até agora não nos pronunciamos sobre isso nem vamos nos pronunciar oficialmente.
O sr. Khrushchov deseja convocar uma conferência comunista mundial pra resolver esse conflito de uma forma ou de outra. Se essa conferência acontecer, Cuba vai participar?
Esta pergunta está irmanada à anterior. Não vamos nos pronunciar sobre esse assunto. De qualquer forma, não considero este momento oportuno.
Quais são atualmente as relações de Cuba com o resto da América Latina?
São fracas. Mantemos relações diplomáticas com cinco países e relações comerciais com apenas dois ou três. Elas não são significativas. O bloqueio americano foi imposto aos países latino-americanos, creio eu, de forma mais eficaz que em outras regiões do mundo. Os países americanos [i.e. das três Américas] nos condenaram em Punta del Este, no Uruguai, numa conferência em 1962. Fomos expulsos da Organização dos Estados Americanos e muitos países romperam suas relações diplomáticas e comerciais conosco. Essa situação permanece até hoje.
Você acha que existem atualmente países na América Latina maduros, prontos pra uma revolução do tipo castrista, do tipo cubano?
Existem alguns onde a luta já está em curso. Não se fala disso aqui, mas há luta na Venezuela, na Guatemala e talvez em outros países onde o povo pegou em armas. Aconteceu conosco: lutamos por muitos anos e ninguém falava de nós.
Você mencionou a Venezuela e a Guatemala, mas Cuba está ajudando os revolucionários desses países?
Apenas moralmente. Cuba considera que a luta deles é justa, mas só os ajuda até esse ponto.
Mais d’après vous, est-ce qu’il y a quelque chose de changé dans l’attitude des États-Unis à l’endroit du Cuba ?
Peut-être je vous dis, c’est difficile à vous répondre directement. En tout cas, nous ne fixons pas notre position en écoutant, en regardant ce que les États-Unis font ou ce que les États-Unis veulent. Bon, nous faisons notre politique internationale et naturellement nous regardons avec attention ce qu’ils font parce que c’est notre ennemi, ils sont près de nous, ils sont très forts.
Aujourd’hui, dans ces derniers jours, il y a quelques voix américaines, on les connait, le sénateur [James William] Fulbright [président de la Commission des affaires étrangères du Sénat des États-Unis], par exemple, qui a parlé un langage absolument différent. Mais immédiatement monsieur [David Dean] Rusk [secrétaire d’État des États-Unis], monsieur Thomas Mann [diplomate américain qui a forgé la politique d’intervention directe dans les pays latino-américaines] ont parlé dans le langage habituel, et nous ne pouvons pas savoir si l’attitude de Fulbright, par exemple, correspond vraiment à un changement de la position des États-Unis ou si elle n’est qu’une voix isolée.
Est-ce que le blocus économique imposé par les États-Unis a affecté la vie à Cuba ?
Oui, en premier lieu, il a fait changer absolument toute la vie à Cuba. Nous avons changé nos sources de ravitaillement, qui se sont déplacées vers l’Europe, surtout vers les pays socialistes. Nous avons changé toute notre vie même, et les articles de luxe, les articles de consommation à long terme, on peut dire – je ne connais pas le mot en français –, et ça a presque disparu à Cuba. Il y avait beaucoup de choses qui manquent. Nos industries sont passées par une période assez longue où il n’y avait pas de pièces de rechange, il a fallu s’arrêter quelquefois. Nous ne pouvons pas les mettre en fonctionnement, mais cette condition même a forcé notre industrialisation dans la mécanique.
Et en ce moment nous pouvons fournir presque tous les ravitaillements essentiels de type mécanique, c’est-à-dire des pièces de rechange par notre propre main, et naturellement ce que nous ne pouvons pas acheter dans des pays socialistes ou dans d’autres pays de l’Europe. Parce qu’on doit considérer que Cuba est un pays où presque toute l’industrie, toute la technique et toute la technologie dépendaient des États-Unis et des usines des États-Unis, et changer tout ça, c’est une chose assez difficile. Nous l’avons pu faire, et depuis cette dernière année, le blocus est déjà vraiment un échec absolu.
Mais vous êtes satisfait de la situation économique actuelle à Cuba ?
Non, jamais on ne peut être satisfait. Nous aspirons à beaucoup plus, mais l’année dernière a été l’année plus basse, surtout dans les premières parties de l’année, où l’économie était dans le moment le plus bas. Depuis ce moment, nous avons commencé à accroitre notre industrie, notre agriculture, et ça c’est, on peut dire, la direction générale que suit l’économie, c’est-à-dire, une amélioration progressive, soutenue. Malheureusement ce n’est pas une chose merveilleuse, mais chaque jour on peut voir concrètement les choses que nous faisons, et c’est encourageant pour le peuple.
L’aide soviétique à Cuba, est-ce qu’elle vous est nécessaire ?
Naturellement qu’il est nécessaire. Je pense que l’aide de tous les peuples est nécessaire. Si vous demandez si elle est indispensable, je pense que non. Mais on doit préciser bien ce qu’on appelle l’aide, parce qu’il y a toujours quelques erreurs, quelques tromperies. Par exemple, les Américains parlent de l’aide soviétique en ce qui concerne le commerce, et nous avons un très fort commerce sur une base bilatérale de part et d’autre. Ça n’est pas de l’aide. L’aide soviétique, ce sont quelques accords à long terme, comme les accords pour la canne à sucre et les accords pour fournir des crédits à long terme aux entreprises industrielles complètes. C’est très important pour notre développement. Et je dis, l’Union soviétique, vous m’avez demandé, je ne sais pas si vous parlez précisément de l’Union soviétique ou des pays socialistes. Mais c’est avec tous les pays socialistes que nous avons ce type de relation.
Mais est-ce qu’il y a encore des soldats soviétiques à Cuba ?
Nous disons, techniciens. Ils sont là, oui.
Ils vous sont nécessaires ?
Ils sont nos professeurs dans quelques domaines.
Dans quels domaines ?
Dans le domaine de la technique supérieure de la défense. Nous avons fait tomber un U-2, seulement l’Union soviétique peut le faire, la Chine aussi, je crois, et naturellement c’est une technique très difficile. Nous ne la dominons pas jusqu’à ce moment.
Quelle est la position de Cuba face au conflit qui oppose Moscou à Pékin ?
Ces questions, nous les déplorons beaucoup. Nous n’en avons pas parlé jusqu’à ce moment et nous n’en parlerons pas officiellement.
Monsieur Khrouchtchov désire réunir une conférence communiste mondiale pour résoudre d’une façon ou d’une autre ce conflit. Si cette conférence a lieu, est-ce que Cuba y participera ?
Cette question est frère de la précédente. Nous ne parlerons pas de cette question. Je ne trouve pas ce moment opportun, en tout cas.
Quels sont les rapports actuellement de Cuba avec le reste de l’Amérique latine ?
Ils sont faibles. Nous avons des relations diplomatiques avec cinq pays et nous avons des relations commerciales avec deux ou trois seulement. Elles ne sont pas importantes. Le blocus américain s’est imposé aussi aux pays de l’Amérique latine, je pense, plus efficacement que dans d’autres régions du monde. Les pays américains [c.à.d. des trois Amériques] nous ont condamné à Punta del Este, en Uruguay, lors d’une conférence en 1962. Nous avons été expulsés de l’Organisation des États américains et beaucoup de pays ont coupé leurs relations diplomatiques et commerciales avec nous. C’est la situation jusqu’à ce moment.
Pensez-vous qu’il y a, à l’heure actuelle, en Amérique latine des pays mûrs, prêts pour une révolution du type castriste, du type cubain ?
Il y en a quelques-uns où il y a déjà la lutte. Ici on n’en parle pas, mais la lutte existe au Venezuela, au Guatemala et peut-être dans d’autres pays où le peuple lutte avec les armes. Ça s’est passé avec nous : nous avons lutté pendant de longues années et personne ne parlait de nous.
Vous avez parlé du Venezuela et du Guatemala, mais est-ce que Cuba aide les révolutionnaires de ces pays ?
Moralement seulement. Il considère que leur lutte est juste, mais il ne les aide que jusqu’à ce point.

El Che usando a boca pra verificar se essa Coca é Fanta.








Não, “camarada Rubio” não se trata do historiador bananeiro defensor de Putin e popular nas redes sociais por fazer cosplay de Kim Jong-un, rs. Trata-se do novo secretário-geral do Comitê Central (CC) do Partido Comunista de Cuba (o famoso “PCC”), Marquito Rubio, filho de imigrantes cubanos que se torna o primeiro “ehtadunidense” a comandar a ilha do Fidélio. Escolhido por unanimidade quase unânime pelos cumpanhêros na última reunião plenária do “cecê”, era conhecido na clandestinidade como “Oreja” e vai seguir firme junto com o povo e com o dinero de Moscú en el camino del Tchê hasta la victoria.
En un día como hoy, en 1902, la bandera cubana ondeó por primera vez sobre un país independiente. Pero sé que hoy ustedes, quienes llaman a la Isla su hogar, atraviesan dificultades inimaginables.




