sexta-feira, 24 de maio de 2024

Tu é muito raro mesmo, né Bolsonaro


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/bolzonaro

Nesta página consegui achar um pequeno material sobre a origem e significado do sobrenome italiano Bolzonaro, forma original portada um dos antepassados do ex-presidente brasileiro Jair Messias Bolsonaro e que foi modificada em sua chegada ao novo país. Eu mesmo traduzi (tentei pelo menos) a partir do italiano, e achei interessante não só os possíveis significados ocultos, mas também o fato de mesmo na Itália ser considerado “muito raro”. Veja, é “Mito” porque é “muito raro”, rs!

Uma pequena dica: se você decidir ver o mapa da distribuição do sobrenome Bolzonaro na Itália, troque “BOLZONARO” no final da URL por qualquer outro que você desejar. Pra quem é descendente de italianos, é uma ferramenta bem interessante!


Origem do sobrenome Bolzonaro

Origem: É provável que derive do topônimo [nome de lugar] Bolzano Vicentino (VI) e indique o local de proveniência do fundador da família [capostipite], ou derive de um apelido originado do vocábulo vêneto bolzon, que possui diversos significados: pode indicar “uma flecha, um dardo”, mas também, como apelido jocoso, “pássaro chamariz” ou ainda “aríete pra derrubar as muralhas”.

Nota (Erick): A palavra zimbello também tem vários sentidos: além de “pássaro chamariz” vivo ligado a um cordão ou um bastão e servindo pra atrair outros pássaros, pode ser um “assobio” com a mesma função, ou também, por extensão, um “recurso pra chamar a atenção ou o interesse” de alguém ou, o mais engraçado, “pessoa que atrai zombarias” e se torna alvo delas no interior de um grupo.

O sobrenome Bolzonaro, muito raro, é típico da zona entre Pádua e Rovigo.

Presença: Existem cerca de 126 famílias Bolzonaro na Itália. Clique aqui e descubra o mapa de difusão do sobrenome Bolzonaro na Itália!

Popularidade: O sobrenome Bolzonaro é o 4693.º mais popular na região do Vêneto, o 753.º mais popular na província de Rovigo e o 16.º mais popular na comuna de San Martino di Venezze (RO).


Nesta outra página sobre nomes próprios e sobrenomes no Brasil, a explicação sobre a origem e significado de Bolzonaro é praticamente a mesma, mas com um pouco menos de detalhes (o link possui o texto completo):


quarta-feira, 22 de maio de 2024

Joël Legendre – “J’ai vu le loup” (1976)


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/legendre


Este menino canadense (reportagem em francês) aparece numa montagem que um amigo meu me enviou pelo Instagram, feita por um professor de francês, brincando que passamos anos aprendendo o idioma, pra depois chegar no Canadá francófono (no essencial, a província do Québec) e não entender nada. Pesquisando melhor, descobri que esse vídeo viralizou em abril e em maio por meio do TikTok e que se trata do ator canadense Joël Legendre (n. 1966) quando tinha 10 anos de idade e participava então do antigo programa folclórico televisivo Soirée canadienne (Noite Canadense). Exibido todo sábado pelo canal CHLT e, depois, também pela Télé-Métropole, durou de 1960 a 1983, apresentado por Louis Bilodeau (1924-2006).

Legendre é apresentador de rádio e TV, ator e diretor, mais conhecido por quase sempre ter dublado os atores americanos Leonardo DiCaprio e Neil Patrick Harris, mas também é vegetariano, abstêmio e não fumante e milita por esse modo de vida. Segundo diz em seu Instagram, apresenta programas na rádio Rouge FM e um concurso televisivo de confeitaria no Québec, e sem querer ser homofóbico, acho que sua condição de gay assumido explica um pouco de seu “gingado” na tela, rs. Em 2015, chegou a ficar um tempo longe do público após um jornal ter revelado que ele foi multado por ter batido punheta num parque, à vista potencial dos passantes.

E a canção em si? Curiosamente, a viralização do vídeo, que se deve provavelmente à publicação numa conta do TikTok de recordação da juventude quebequense antiga, gerou uma onda de zombaria da parte dos franceses com relação ao sotaque do Québec. É algo parecido com o preconceito que alguns portugueses ainda têm com a variante brasileira do idioma (querendo ou não, de longe a mais falada e ela mesma subdivida em incontáveis falares e sotaques), tanto mais que, ao contrário desse caso, o “parisiense” ainda tem prestígio mundial e são poucos os estrangeiros que estudam especificamente a língua no Canadá. Isso porque as variações usadas na África não são consideradas “variantes” ou “padrões” à parte, enquanto no Québec o idioma chegou ainda no século 17 e sofreu tantas modificações quanto o português no Brasil. Ou seja, em alguns aspectos, na América os idiomas se tornaram até mais “conservadores”, sobretudo na pronúncia e em parte do vocabulário.

Por isso, muitos dizem mesmo que, longe de “não ser francês” ou ser um “francês deturpado”, o quebequense seria até “mais francês do que o próprio parisiense”, já que na própria França a língua padronizada só se imporia no território como um todo bem depois do século 17. É o caso, por exemplo, da região sul (o Midi, ou “Meio-Dia”), onde línguas românicas mais próximas do catalão e das nativas do norte da Itália eram predominantes e hoje ainda são um pouco cultivadas, em especial o occitano e sua variante majoritária, o provençal. De fato, sendo uma canção anônima transmitida oralmente e, portanto, de letra original impossível de se definir, é possível que a versão provençal, mais antiga, remonte ao século 13. Ai vist lo lop, lo rainard, la lèbre (Vi o lobo, a raposa, a lebre) tem um teor claramente de crítica social figurada, dirigida aos nobres, clérigos e reis que se divertiriam em orgias, enquanto o povo trabalhava duro por nada. A versão da Borgonha (J’ai vu le loup, le renard, le lièvre), que serviu de base pra Legendre, tem a parte política menos explícita, embora vários usuários do YouTube tenham visto nos animais uma metáfora do poder.

De fato, a letra como um todo parece não fazer muito sentido, o que é comum pra canções populares passadas oralmente, e ainda mais passadas a crianças. Tanto que uma versão folclórica quebequense também é conhecida como M’en revenant de Saint-André, e Legendre curiosamente mudou o nome do santo pra Sainte-Hélène, suponho que em referência a sua cidade natal, Sainte-Hélène-de-Bagot. Desde a década de 1970, várias bandas folclóricas regravaram a canção de modo mais ou menos modificado. Apesar da viralização e montagens recentes, a primeira versão do YouTube surgiu no canal de certo Steven Grimard ainda em janeiro de 2014, e nesta página de canções do Québec apareceu em dezembro de 2020.

A caça sempre teve um papel central na cultura canadense, e a própria expressão ferme ta boîte (feche tua caixa) foi interpretada de modo dúbio por alguns: ou uma expressão figurada pra “cale tua boca”, ou o pedido pra fechar uma armadilha que estava sendo montada pra caçar os “bichos”. Eu mesmo traduzi literalmente do francês, que tem poucas expressões propriamente quebequenses, e não reproduzi os versos repetidos. Seguem abaixo o vídeo de 2014, o mesmo áudio legendado por outro canal também em inglês, o Ai vist lo lop provençal que também é bonito e um dos “remixes” com Legendre e a letra original:








M’en revenant de Sainte-Hélène
Ferme donc ta boîte
Laisse-moi donc chanter
Trois beaux canards s’en vont à baignade
Touchez haut, touchez bas, touchez-y, touchez-y pas
Laissez ça, la m’man veut pas
Je me revire de bord, j’y touche encore
J’ai vu le loup, le renard, le lièvre
J’ai vu le loup, le renard passer

Trois beaux canards s’en vont à baignade
Ferme donc ta boîte
Laisse-moi donc chanter
Le fils du roi s’en va chassant
Touchez haut, touchez bas, touchez-y, touchez-y pas
Laissez ça, la m’man veut pas
Je me revire de bord, j’y touche encore
J’ai vu le loup, le renard, le lièvre
J’ai vu le loup, le renard passer

Le fils du roi s’en va chassant
Ferme donc ta boîte
Laisse-moi donc chanter
Avec son beau fusil d’argent
Touchez haut, touchez bas, touchez-y, touchez-y pas
Laissez ça, la m’man veut pas
Je me revire de bord, j’y touche encore
J’ai vu le loup, le renard, le lièvre
J’ai vu le loup, le renard passer

Avec son beau fusil d’argent
Ferme donc ta boîte
Laisse-moi donc chanter
Visa le noir, tua le blanc
Touchez haut, touchez bas, touchez-y, touchez-y pas
Laissez ça, la m’man veut pas
Je me revire de bord, j’y touche encore
J’ai vu le loup, le renard, le lièvre
J’ai vu le loup, le renard passer

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Retornando de Sainte-Hélène,
Então feche tua caixa
Então me deixe cantar
Três belos patos vão tomar banho
Atirem pra cima, pra baixo, atirem, não atirem
Deixem isso, a mamãe não quer
Respondo com força, continuo atirando
Eu vi o lobo, a raposa e a lebre
Eu vi o lobo e a raposa passarem

Três belos patos vão tomar banho
Então feche tua caixa
Então me deixe cantar
O filho do rei se vai caçando
Atirem pra cima, pra baixo, atirem, não atirem
Deixem isso, a mamãe não quer
Respondo com força, continuo atirando
Eu vi o lobo, a raposa e a lebre
Eu vi o lobo e a raposa passarem

O filho do rei se vai caçando
Então feche tua caixa
Então me deixe cantar
Com seu belo fuzil de prata
Atirem pra cima, pra baixo, atirem, não atirem
Deixem isso, a mamãe não quer
Respondo com força, continuo atirando
Eu vi o lobo, a raposa e a lebre
Eu vi o lobo e a raposa passarem

Com seu belo fuzil de prata
Então feche tua caixa
Então me deixe cantar
Mirou no preto, matou o branco
Atirem pra cima, pra baixo, atirem, não atirem
Deixem isso, a mamãe não quer
Respondo com força, continuo atirando
Eu vi o lobo, a raposa e a lebre
Eu vi o lobo e a raposa passarem



segunda-feira, 20 de maio de 2024

Presidente do Irã desceu pra baixo


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/raisi


Se você estranhou ou achou de mau gosto a presença de certo presidente sul-americano na foto, pergunte pras pessoas que ficaram total ou parcialmente cegas após receberem balas de “borracha” na fuça nos protestos de 2019!

Mas voltando à antiga Pérsia, o ditador islâmico supremo, Ali Cãomenei, quis dar uma de bispo Bergoglio e chegou a pedir ao povo neste domingo que “rezasse” pela vida do subditador:


Ardente defensor de Israel (com direito a bandeirinha na bancada e tudo), o jornalista argentino Eduardo Feinmann, que também trabalha no La Nación chupando o saco do Loco, comentou profeticamente a morte de Raisi em famoso meme de anos atrás. Lembremos que o Irã é o único inimigo geopolítico da Argentina, devido ao atentado não esclarecido a um centro judaico em 1994:


E se vocês acham que sou muito “misantropo” por estar celebrando a descida dessa carniça pelo elevador, saiba que há gente mais “misantropa” que eu, rs (a começar pelo biliardário mimado e viciado em redes sociais):


Atualizações! Num de seus canais no Telegrão, o Hamas culpa um agente do Mossad pelo acidente que matou seus financiadores e alimentadores: seu nome seria Eli Copter, hahaha:




Enquanto isso, na cidade curda onde nasceu Jîna Emînî (Mahsā Amini), morta em Teerã pela “polícia dos costumes” da ditadura em setembro de 2022, assim como em outras cidades do Irã, partes do povo estão comemorando a “perda” de “seu” presidente:


E na versão em persa do canal e TV Voice of America, produzida e transmitida a partir de Washington, foi convidado pra comentar os acontecimentos Carlos Massa, especialista também apelidado com o nome de um roedor, rs:




E por sugestão de um amigo, coloco também este deepfake que fizeram com base na famosa canção Ring of Fire (Anel de fogo), de Johnny Cash, também usada em outros memes no passado, rs: “Eu caí dentro de um círculo de fogo ardente, eu descia, descia, descia e as chamas subiam. E queima, queima, queima o círculo de fogo, o círculo de fogo...”




sábado, 18 de maio de 2024

Fabrice Luchini e a “merda de celular”


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/merda-celular


A edição de 8 de maio do C dans l’air, programa diário de debate entre especialistas sobre assuntos do momento exibido pelo canal estatal francês France 5, foi dedicada à morte do escritor e apresentador Bernard Pivot, muito adorado na França por comandar programas de literatura e concursos de ditado, os quais despertaram em muitos o gosto pelos livros e pelo idioma. Não somente pelo palavrão (tão adorado pelos brasileiros!), mas também pelo conteúdo crítico da submissão das sociedades ocidentais aos smartphones, decidi separar e traduzir o trecho em que o ator francês Fabrice Luchini deplora que a sociabilidade tem sido minada pelo vício nas telas; que ele mesmo se considera “viciado” e encara o teatro como uma forma de escape e resistência; e que, viajando um pouco na maionese geopolítica, a despeito de todos os conflitos globais, “essa merda chamada (telefone) celular” pode destruir o próprio Ocidente.

Não costumo publicar palavrões na página, e mesmo quando eles aparecem, adoto termos mais eufêmicos nas traduções. Porém, a expressão foi tão extrema que vai muito além da crítica que eu mesmo também faço aqui dessa nova ordem informativa, tanto de minha lavra quanto de textos copiados, no mais das vezes, sem autorização. O subtítulo da edição era “Mas quem ainda lê?”, e se refere ao fato de Pivot ter sido no passado um vulgarizador da leitura e da literatura, enquanto hoje o volume e a qualidade dos leitores parecem estar em queda – fato que justamente não é unânime entre os convidados. Eu mesmo traduzi, mas não legendei o vídeo (disponível no fim da página) nem ofereci uma transcrição do original francês, não procurei ser literal em alguns pontos e pus algumas observações entre colchetes.

Também já vou fazer aqui as notas explicativas, ao invés de as deixar pro fim do texto. O livro que Luchini menciona, de autoria de Gérald Bronner, se chama Apocalypse cognitive: La face obscure de notre cerveau (Apocalipse cognitivo: A face obscura de nosso cérebro), e há inclusive uma conferência virtual disponível ao público, em que brasileiras o discutem. Sobre o poema de Charles Baudelaire, trata-se do soneto “À une passante” (A uma passante), publicado em seu livro Les fleurs du mal (As flores do mal), de 1857, muito criticado e perseguido pelas autoridades em seu tempo. Há pelo menos duas boas traduções em português disponíveis, só você procurar no Google.

Aproveite o conteúdo e a reflexão sobre ele, e torça comigo pra que o doidão ator Fabrice volte pra Atibaia, Jundiaí ou Bragança Paulista e fique cuidando de uma das três filiais da concessionária Chevrolet da família, rs:



Caroline Roux: Tive a oportunidade, Fabrice Luchini, de ver os livros com os quais você trabalha. São livros completamente usados, avariados, anotados, há uma relação física com o objeto do livro no modo como você se apropriava deles.

Fabrice Luchini: Duas coisinhas rápidas: a primeira é que há um livro extraordinário de Bronner a se ler, que mostra a tragédia que está invadindo os adultos, bem como os adolescentes e as crianças. Quer dizer... há um poema de Baudelaire, não tenho tempo de o ler inteiro, mas quando ele diz: La rue assourdissante autour de moi hurlait [tradução minha: “A rua ensurdecedora berrava a meu redor”], ele conta que vê uma mulher maravilhosa, “alta, magra, de luto fechado” etc. E é exatamente essa cena de Baudelaire vendo essa mulher, essa pedestre sublime, isso não é mais possível. Porque a alienação em que estamos todos – no cair da noite estou no teatro pra escapar de meu vício, porque sou viciado... Então, atualmente estou atuando num filme, mas a verdade é que passo horas monstruosas na frente da tela. Então o teatro...

Caroline Roux: Me deixe entender bem o que você está dizendo, Fabrice Luchini: seu vício em telas?

Fabrice Luchini: Ele é real, não tenho vontade de julgar as outras pessoas! Fico aterrado ao ver o isolamento no TGV [trem-bala], mas eu mesmo agora estou viciado em tudo isso, e escapo por meio da prática teatral. [Victor] Hugo me salvou completamente este ano, é extraordinário servir à prosa de Hugo e ter 500 pessoas [assistindo]. O que eu queria dizer é que quando você lê Bronner... leiam Bronner, ele explica que o psiquismo dos seres humanos vai se reduzir ao “curti, não curti, curti, não curti”. Todas as nuances da realidade, todas as imensas cores da variedade da vida, todo o gênio oferecido pelos grandes escritores são aniquilados em reações simplistas de “curti, não curti”. Então, há uma civilização que está... o verdadeiro drama é obviamente a guerra na Ucrânia, é obviamente a China, é obviamente o drama em Israel, é por isso. Mas o drama é que o Ocidente vai perecer, porque vai ser reduzido à dependência dessa merda chamada [telefone] celular. Não estamos nos dando conta que não podemos mais nos apaixonar olhando um rosto de mulher, não estamos nos dando conta da vida em que vamos parar. E é por isso que o teatro é uma maravilha, é um lugar de resistência.


quinta-feira, 16 de maio de 2024

Bonner na condição de sexagenário


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/bonner60


A edição do Jornal Nacional de 13 de maio de 2024 foi mais uma das ultimamente apresentadas por William Bonner direto do Rio Grande do Sul, devido às tragédias provocadas pelas fortes chuvas e consequentes inundações em todo o estado desde o início de maio. Pode parecer inumano trazer um meme a partir de cenário tão desolador, mas ficou muito engraçado quando ele pronunciou a seguinte frase na abertura da edição, a partir de Porto Alegre, comentando a mudança de roupa repentina desde a escalada da abertura do jornal:

“E antes que você estranhe a diferença de vestimenta entre a abertura do Jornal Nacional e este momento, eu tenho que dizer que a temperatura caiu muito nos minutos que separaram um momento do outro. Eu estou respeitando o frio e a minha condição de sexagenário.

Como Bonner sempre teve uma compostura bem rígida e cuidou muito da linguagem, esse erudito “sexagenário” também lhe pareceu bem característico, embora dissonante do fundo com prédios em ruínas, rs. Claro que como “meme” falado por uma personalidade famosa, ainda mais com fama de galã no passado, o “minha condição de sexagenário” pode ter usos variados. Aproveite a versão integral do trecho e a última frase publicada à parte:





terça-feira, 14 de maio de 2024

Raízes do lema Mulher, Vida, Liberdade


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/mahsaamini

Há alguns dias, achei por acaso esta resenha escrita em 2023 pelo italiano Gianni Sartori ao livro de uma acadêmica irano-francesa sobre a revolta das mulheres curdas contra a opressão étnica dos Estados nacionais, especialmente Turquia, Síria e Irã. Quando da publicação do texto, o movimento iraniano de revolta eclodido logo após a morte da jovem curda Jîna Emînî (em persa, Mahsā Amini), que tinha vindo do interior a Teerã, onde foi presa e acossada pela chamada “polícia dos costumes”, completava seis meses e parecia refluir.

Nesse contexto, os dois autores relembram que o lema que rodou o mundo como símbolo dos protestos, “Zan, Zendegi, Āzādi” (em persa, “Mulher, Vida, Liberdade”), na verdade se originou muitas décadas antes, no Curdistão e na língua local: “Jin, Jiyan, Azadî” (o jota se pronuncia como em português). Há dialetos do curdo que usam o alfabeto latino, e outros que usam uma adaptação da escrita árabe; a diferença do i sem circunflexo é que ele é mais curto e fechado do que o i com circunflexo. As formas jiyan e jîyan (com circunflexo) são igualmente corretas.

Eu mesmo traduzi o texto do italiano, mas há também outros artigos em inglês escritos após a morte de Emînî/Amini que traçam a “genealogia” curda, feminista e de esquerda do lema “Mulher, Vida, Liberdade” (o jin curdo é um parente distante do elemento “gin-” de origem grega, que aparece, por exemplo, em “ginecologia” e “misoginia”!). Por exemplo, o de Meghan Bodette (aqui na tradução em português), o de Somayeh Rostampour, a própria autora do livro resenhado (traduzido do persa), e curiosamente a professora Florencia Guarche, já em 2015, tinha defendido um TCC na Unipampa sobre o “Jin, Jiyan, Azadî” e depois fez o mestrado e continua seu doutorado sobre as revolucionárias curdas. Boa leitura!



Algumas considerações sobre a genealogia de “Mulher, Vida, Liberdade”. Uma “fórmula mágica” já empregada por Abdullah Öcalan (fundador do PKK em 1978) ainda em 2006. O lema “Jin, Jiyan, Azadî” não é um artigo de burguês radical-chic: é uma mensagem revolucionária bradada pelas combatentes curdas e escrita sobre as paredes das prisões.

Pretender, com as modestas forças à disposição e a falta de títulos acadêmicos adequados, resenhar, comentar, divulgar (e fatalmente reassumir) o que podemos definir como uma “investigação”, feita pela militante curda Somayeh Rostampour [Jin, Jiyan, Azadi (Woman, Life, Freedom): The Genealogy of a Slogan], sobre as origens e o significado do lema “Jin, Jiyan, Azadî” (“Mulher, Vida, Liberdade”) não pode ser, ao menos de minha parte, senão um exagero.

Por outro lado, os “especialistas de plantão” parecem no mais das vezes concentrados ou em instrumentalizá-lo ou, talvez pior, em utilizá-lo sem critério ou conhecimento adequado. Veja o caso de certa parlamentar europeia italiana ou de corporações paraestatais em todo caso respeitáveis, mas que dificilmente podem ser identificadas com os decênios de luta pela libertação do povo curdo.

É quase uma falta de respeito pelas que o idealizaram, representaram e, diria, quase encarnaram: as mulheres curdas que combatem a opressão patriarcal, estatal e capitalista em todas as suas incontáveis formas.

Vou, portanto, demonstrar aqui.

O movimento de revolta feminista (não parece exagero defini-lo como pré-insurrecional) que, por mais de seis meses, tem incendiado o Rojhilat e o Irã inteiro (e que no momento parece ter entrado numa fase de refluxo) tem uma data exata de início: 16 de setembro de 2022. Naquela data foi assassinada pela polícia moral da República Islâmica Jîna (registrada como Mahsā, porque o nome curdo tinha sido proibido) Amini.

Uma rebelião não somente contra o uso obrigatório do hijab, mas também contra o que Somayeh Rostampour qualifica como “44 anos de apartheid sexual, patriarcado, ditatura militar, neoliberalismo, nacionalismo e teocracia islamista”. E me desculpem se isso é pouco.

Um movimento preparatório para a queda do regime e uma mudança radical das relações sociais.

Apesar de tudo, como é o caso de todo movimento revolucionário, não faltam riscos concretos de instrumentalização (seja da parte de Estados como Israel e os EUA, seja da parte, por exemplo, dos monarquistas nostálgicos).

Atendo-se aos dados das ONGs, nos três primeiros meses do movimento, teriam sido presos mais de 18 mil manifestantes, milhares teriam sido feridos e cerca de 500 assassinados nos confrontos ou sob tortura (entre os quais cerca de 70 menores). Depois das condenações à morte já executadas, teme-se por outras já declaradas ou previstas (cerca de 100). Geralmente sem provas substanciais, com confissões extorquidas por meio de tortura. Pra não falarmos das condições desumanas na prisão e dos maus tratos sofridos pelas pessoas presas, em particular pelas mulheres.

Quando se grita, como destaca Somayeh Rostampour, que essa é “uma revolução das mulheres, pare de chamá-la de manifestação”, significa que desta vez (em relação aos movimentos de protesto do passado) as coisas são diferentes.

Quanto ao lema adotado, “Jin, Jiyan, Azadî”, passou a ser bradado por milhares de moradores de Saqqez (Rojhilat, Curdistão sob ocupação iraniana) durante o enterro de Jîna, o qual as autoridades tinham desejado que ocorresse em segredo.

Depois, passou a ser utilizado em outra cidade curda, Sanadaj, e em seguida pelos estudantes de Teerã. A partir de então, é ouvido claramente em todas as cidades e vilas do país inteiro.

Mas a estudiosa e militante curda se pergunta: “como esse lema chegou até Saqqez?”, e também: “qual é seu significado político e social, sua genealogia?”.

Jin, Jiyan, Azadî” não se tornou “a palavra de ordem da insurreição no Irã por acaso, ‘não caiu do céu’. Origina-se de uma longa história de lutas sociais. Representa a herança do movimento das mulheres curdas naquela parte do Curdistão localizada dentro das fronteiras da Turquia, o Bakur”.

Relembra, então, o que tinha escrito em setembro passado Atefeh Nabavii, companheira de cela de Shirin Alamholi, expoente do PJAK justiçada aos 28 anos em 2009 e cujo corpo jamais foi restituído à família:

“Soube pela primeira vez do lema Jin, Jiyan, Azadî por meio de Shirin Alamholi na prisão de Evin; estava escrito na parede da cela, ao lado de sua cama”.

Tanto o PJAK (Partido por uma Vida Livre no Curdistão) no Rojhilat quanto o movimento das mulheres em Bakur extraem sua visão de mundo do pensamento de Öcalan. Inicialmente (1978), o partido se valia de meios pacíficos, mas após o golpe de Estado de 1980 recorreu à luta armada. Também é notável que, desde 1999, aquele que podemos chamar de “Mandela curdo”, após um sequestro ilegal no Quênia, está detido na prisão de Imrali.

Inicialmente, naquela que podemos chamar de “fase marxista-nacionalista”, Öcalan também tinha sido influenciado pelo maoismo, bem como pelo pensamento de Frantz Fanon (Os condenados da terra) e de Che Guevara. Mas desde o início tinha fortemente encorajado o protagonismo das mulheres na luta de libertação, porquanto “a libertação do Curdistão não será possível sem a libertação das mulheres”.

Nisso ele se distingue da maior parte das organizações da esquerda revolucionária, não somente das organizações do Oriente Médio.

Ou seja, “o PKK jogava luz sobre a questão feminina tendo por pano de fundo o nacionalismo curdo moderno, que se baseava principalmente na defesa da pátria curda, do próprio território, da cultura e da língua curda”.

Na sequência, sobretudo a partir de 1995, ocorre no PKK o que Somayeh Rostampour considera uma “revolução cultural”, distanciando-se tanto da ortodoxia marxista mais rígida quanto da reivindicação de uma pátria independente (o “Grande Curdistão”) e evoluindo rumo a uma visão política centrada no conceito de “democracia” (em parte, em detrimento do conceito de “classe”). Em sua elaboração, Öcalan passa a individuar os sujeitos do processo revolucionário não somente nos trabalhadores, mas também, sobretudo, nas mulheres e nas práticas ecologistas.

Elabora uma síntese de comunalismo e autonomia social denominada “confederalismo democrático”, fundado em três pilares: as comunas, as mulheres e a ecologia.

A questão das mulheres se torna ainda mais central e a componente feminista do PKK adquire cada vez mais importância, tanto na elaboração política quanto na prática social. Bem como na Resistência, obviamente.

Contudo, já anteriormente, Öcalan tinha analisado e recuperado as antigas traduções matriarcais (matrilineares) mesopotâmicas (ver o antagonismo entre o deus masculino Enkidu e a deusa guerreira Ishtar) em contraponto tanto ao patriarcado quanto ao imperialismo e ao colonialismo.

Sua convicção era de que as mulheres, primeiras a criarem a vida e a cultivar os conhecimentos indispensáveis a ela, tinham sido expropriadas desses conhecimentos pelos homens.

Como Öcalan mesmo declarou, seu objetivo político era o de “restituir às mulheres a confiança em si mesmas, que elas tinham perdido demonstrando que o patriarcado não era um princípio eterno e natural da história, mas antes o resultado de práticas históricas”. Conclui, assim, que “o patriarcado podia ser superado”.

Pelo menos desde 1990, Öcalan tinha utilizado juntos, em diversas ocasiões, os conceitos de “Mulher” e de “Vida”.

Também porque a raiz das palavras mulher (Jin) e vida (Jiyan) na língua curda é a mesma.

Não por acaso, em 1999 o PKK publicava um documento intitulado “Jin, Jiyan” e, a partir de 2000, o lema “Jin, Jiyan” foi ampla e sistematicamente utilizado pelas mulheres curdas em Bakur (o Curdistão sob ocupação turca).

Desse ponto de vista, a expressão “Jin, Jiyan” é muito anterior à atual “Jin, Jiyan, Azadî”.

E também a palavra “Azadî” (Liberdade) se juntava aos conceitos basilares do PKK. Liberdade com relação às relações sociais de domínio e de poder, tanto do capitalismo quanto do Estado e do patriarcado.

Com base nos testemunhos recolhidos, em 2002, durante a cerimônia fúnebre organizada pelos militantes do PKK pra uma mulher vítima de feminicídio, as mulheres presentes tinham bradado o lema “Jin, Jiyan, Azadî” em sua inteireza. Desde então, continuou sendo difundido, se tornando quase uma tradição, sobretudo, pelas mulheres assassinadas.

Öcalan, de novo ele, tinha utilizado as três palavras juntas – talvez pela primeira vez – no quarto de seus livros escritos na prisão, A crise da civilização no Oriente Médio e a solução da civilização democrática, em 2006.

Não usado particularmente até 2008, explodiu, literalmente, em Rojava e Bakur, sobretudo a partir de 2013.

Numa carta escrita em 2013 (nos lembra Somayeh Rostampour), Öcalan evidenciava a potência inteiramente política do lema “Jin, Jyian, Azadî” na busca de uma “vida digna”, chegando a chamá-lo de “fórmula mágica” apta a fornecer um modelo pras mulheres de todo o Oriente Médio.

Naturalmente, “nem a história do PKK, nem a das mulheres no movimento, podem ser reduzidas àquela de seu dirigente”.

O PKK é “um movimento social e político que se desenvolveu não somente no âmbito político, mas também na vida cotidiana de milhões de pessoas já por várias gerações”.

E foram as mulheres do PKK, tanto as combatentes quanto as que atuam na sociedade civil, que transformaram o “Jin, Jiyan, Azadî” na ideia central do movimento. “Feminizaram” a política no Curdistão e também condicionaram a da Turquia, indo de casa em casa, falando com mulheres de todas as condições sociais e transformando a questão de gênero de uma exigência das elites num problema que concerne a todos os oprimidos.

Pra concluir com Somayeh Rostampour, “tudo o que ocorreu em 17 de setembro em Saqqez durante o funeral de Jîna Amînî não era um acontecimento sem precedentes”, mas antes “a continuação de uma tradição política revolucionária de longa data, gerada originalmente pelo PKK”. Tradição na qual têm tido um papel preponderante também as “mães pela justiça”, aquelas que perderam seus filhos na luta pela libertação no Bakur e no Rojhilat (cf. as “Mães do sábado” e o Dadkhaah).



domingo, 12 de maio de 2024

Sexo russo-ucraniano, ônibus no rio...


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Chegamos à décima edição do “mix de política”, geralmente com humor e muita crítica! Na verdade, abri mais este item como pretexto pra publicar alguns memes e piadas, além de um fato bizarro, mas de fato eles estão mais ou menos relacionados. Então vamos começar!

Há alguns dias, caí num grupo do Telegrão chamado “República da Gagaúzia”, que publica e se comunica em russo. Há algumas semanas me interessei por essa região autônoma da Moldova (antiga Moldávia soviética), onde vive um povo de língua túrquica, mas de religião ortodoxa, talvez um caso único, mas que fala cada vez mais russo ou romeno em detrimento do gagaúzo, que pertence ao mesmo grupo “oghuz” do turco moderno e, portanto, se parece muito com ele. Devido à ortodoxia religiosa e à conservação da língua russa, de fato ainda falada por grande parte da população moldova, a Gagaúzia mantém laços estreitos com a Rússia, e a presidente nacional pró-Europa, Maia Sandu, teme que cresça aí um foco de subversão a partir do Kremlin. De fato, em julho de 2023, foi eleita como presidente (bashkan) da região Ievgénia Gutsúl, burocrata de passado obscuro e antiga filiada do Partido Shor, pertencente ao oligarca pró-Rússia Ilan... Shor. Gutsul se apresenta como independente desde a interdição da legenda, mas até hoje não foi reconhecida por Sandu.

Achei que havia materiais e discussões sobre a cultura e o cotidiano da Gagaúzia no referido grupo, mas acabei descobrindo que se tratava de um covil de putinistas, que mal falavam da própria terra natal e provavelmente pertenciam à diáspora que vive em Moscou. O que mais se fazia era defender a invasão da Ucrânia e falar mal dos ucranianos: o ambiente era tão tóxico que, quando comecei a me apresentar, perceberam que eu tinha sobrenome ucraniano, viram que minha cara não era de brasileiro (apesar de meu telefone) e começaram a me questionar, embora eu não fosse lá pra atacar Putin ou defender Zelensky. De fato, eles mesmos falaram que era um grupo “de política”, e não de cultura, e dado que fui provocado, acabei expressando algumas opiniões sobre o conflito que obviamente os deixaram emputecidos. Não fui combativo, procurava o tempo todo fugir de briga, mas tive que sair, já que as mensagens não paravam devido à alta atividade (e ficava difícil de acompanhar o que era resposta pra mim) e a mentalidade xenofóbica era intragável. Se você sabe russo e quer estudar como funciona a cabeça de um “vátnik”, sendo ele sincero ou não, eis seu lugar: recomendo altas doses prévias de Engov e Dramin!

A coisa era tão feia que os viciados em rede social dispunham até mesmo de uma reação a mensagens em que se podia ler “Соси, хохол” (Sosí, khokhól), que se pode grosseiramente traduzir como “Chupa, ucraino!”, já que a palavra khokhól designa pejorativamente um ucraniano, na linguagem coloquial russa ou anti-Ucrânia. Seu sentido original é aquele tufo ou topete de cabelo que os cossacos (uma instituição originalmente ucraniana) costumavam usar no meio da cabeça, geralmente descendo pra testa, chamado oselédets em ucraniano, e de fato significa literalmente, sobretudo no proto-eslavo, “tufo” ou “topete”. É a frase que você pode ler na primeira imagem, junto à mensagem de uma mulher que também estava ofendendo outros: não conheço a fundo a tecnologia, mas minha questão é se tais reações podem ser baixadas em pacotes ou individualmente, e quem estaria por trás de sua confecção. Bem nojento, enfim...


Não publiquei essa montagem no referido grupo, mas poderia ser uma desforra: em seu programa semanal de geopolítica na TV Rain, Ekaterina Kotrikadze comentava o novo mandato que Putin arrancara esta semana, junto a um especialista que falava de Nova York. A frase que estava na tarja era “Putin entrou num quinto mandato”, mas pensei em outra coisa e até printei também outras partes pra obter as letras certas! Quem sabe russo já entendeu que minha nova frase significa “Putin foi se f...” ou “Putin foi pro car...”, mas se você conhece os memes brasileiros mais famosos, vai entender a referência do novo “plano de fundo”, com a bandeja do “suco de laranja” bebido por certo “pai de família”. Ainda não pescou? Você que vá pesquisar agora!

Comentário MUITO DO ALEATÓRIO numa matéria do G1 que falava sobre a dificuldade de muitas mulheres explorarem seu próprio prazer e como elas pouco conheciam sobre orgasmo, mesmo não sendo necessariamente virgens, mas às vezes até casadas por anos. Podia pôr num quadro pra assustar os jovens puritanos “liberais” de plantão, rs.


No último dia 10 de maio, um ônibus de transporte coletivo (que já parecia estar em alta velocidade) colidiu com um carro de passeio em São Petersburgo, o motorista perdeu o controle e o veículo caiu de uma ponte direto nas águas do rio Moika. Dos 20 passageiros a bordo, três morreram e vários ficaram feridos. Só repassei aqui as imagens das câmeras externas publicadas pela agência RIA Novosti porque são impressionantes.

Aproveito pra resgatar um vídeo que pus em meu antigo YouTube, com cenas de uma reportagem de 14 de janeiro de 2021 exibida na filial chechena da TV de notícias do governo. As notícias eram anunciadas e exibidas majoritariamente em russo, mas quando os entrevistados falavam em checheno, não havia dublagem nem legendas. Nestas imagens, são exibidos alguns acidentes urbanos e rodoviários na República da Chechênia ao longo de 2020, devidos a motoristas que não obedeciam às regras, e como (ver ao final) os pedestres também não se sentiam bem com as condições de tráfego.

As repetições que eu gostava de pôr na época são um tanto irritantes, mas ainda assim acho o material interessante: no início, o âncora saúda o público dizendo “Ассалам алейкум! Маршалла ду шуьга!” (Assalam aleikum! Marshalla du shüga!), sendo apenas a segunda parte checheno autêntico, significando “Saúdo-os!”, e a primeira você entende bem. Apenas depois ele diz “Здравствуйте!” (Zdrávstvuite!), “Olá” em russo: