domingo, 24 de maio de 2026

José Roberto do Amaral Lapa (Globo Ciência)

Há alguns dias, terminei a leitura da coletânea O garimpeiro dos cantos e antros de Campinas: homenagem a José Roberto do Amaral Lapa, organizada por Olga Rodrigues de Moraes von Simson e publicada em 2000 pela Editora da Unicamp. Inicialmente concebida como um presente-surpresa pra marcar a aposentadoria compulsória do querido professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), ocorrida quando ele completou 70 anos em 1999, acabou se tornando um monumento póstumo, já que o docente viria a falecer em plena preparação do livro. Idealizada pelo Centro de Memória-Unicamp (CMU) que ele ajudou a fundar, reúne transcrições de entrevistas dadas por Lapa em anos bem diferentes, fotos de vários momentos da carreira, depoimentos de ex-colegas, ex-funcionários e ex-estudantes (em alguns dos quais foi mantido o tempo presente, dado o inesperado de sua morte), artigos sobre temas de sua predileção e uma lista exaustiva de seus cargos, livros, artigos científicos e jornalísticos, entrevistas e prêmios.

Embora ele fosse historiador, não conheci o “professor Lapa”, ou simplesmente “o Professor”, como diziam que ele era chamado, pois só ingressei na graduação em 2006, e mesmo que tenha ouvido falar seu nome de passagem, não o associei à pessoa, só agora totalmente conhecida por mim. Nascido em Campinas em 1929, formou-se em História e em Direito no que seria a futura PUC de Campinas, lecionou na Unesp de Marília e foi um dos primeiros professores do IFCH, onde concluiu sua carreira, tendo realizado seu sonho de voltar à terra natal. Após publicar muitas obras seminais sobre a economia colonial brasileira, Lapa realizou outro grande sonho de se tornar “o historiador” por excelência de Campinas, quando lançou A cidade: os cantos e os antros em 1995, com excelente reimpressão apenas em 2008. Apaixonado pela história local, esse livro se tornou referência obrigatória de toda uma prolífica área que se formaria, mas seu papel na fundação do CMU, iniciado com arquivos do Judiciário quase incinerados e no qual ele trabalhou até falecer, foi a realização maior de sua paixão de sempre.

Em meio à listagem exaustiva de suas entrevistas, consta na p. 324 uma participação na edição de 21 de janeiro de 1994 do antigo programa Globo Ciência (1984-2014) da TV Globo (onde mais?), sem mais detalhes. Há muitas outras participações suas em jornais e programas da EPTV, a afiliada da Globo em Campinas e região (mas não em Bragança Paulista, abarcada pela TV Vanguarda). Nunca assisti ao Globo Ciência assiduamente, mas sempre escutava falar, sobretudo nos intervalos comerciais, e seu próprio formato me dá um pouco de nostalgia da infância, quando a TV aberta era mais rica em conteúdo educativo e quando nos aferrávamos aos poucos suportes existentes pra nos informar, na ausência da saturante abundância da internet contemporânea. Apesar da imagem de benevolência passada por fundações de financiamento como a de Roberto Marinho e a do Banco do Brasil, o pouco destaque dado a esse tipo de conteúdo, influindo no generalizado atraso cultural do país atual, se nota pelo tempo dedicado (menos de meia hora) e aos horários na grade (sábado ou domingo no começo da manhã).

Todavia, não posso dizer que esse modelo não deixou frutos nas mídias modernas, em especial o YouTube, os quais, além de terem sido inspirados por mitos como Carl Sagan, Susan Greenfield, Neil deGrasse Tyson e, em menor medida, Richard Dawikins, certamente tinham idade (não tô chamando de velhos, rs!) e disposição pra assistir a essas relíquias. Entre muitos divulgadores de ciência e conhecimento, longe de fazer uma lista exaustiva, presto minha homenagem ao Pirulla, ao também unicamper Sérgio Sacani, a Átila Iamarino, Natália Pasternak, Dráuzio Varella, Marcelo Gleiser, a Leon e Nilce, bem com aos canais mais recentes “Olá Ciência” e “Nunca vi 1 cientista” e os que agora também avançam a outras ciências além das exatas e biológicas. Confesso que, mesmo eu sendo “dotô”, essa não é uma seara que assisto com tanta frequência quanto boletins de notícias, youtubers de atualidades e alguns semanários geopolíticos. Portanto, se você quer lembrar algum outro divulgador ou mídia (sem esquecer as revistas da própria Editora Globo...) que marcou ou marca sua juventude, escreva nos comentários, por favor. E faça teu próprio merchã, se quiser!

Voltando ao assunto: boa parte das informações sobre o Globo Ciência vem da Wikipédia, mas também há um bom texto de 2021 com as mesmas informações, reorganizadas e acrescidas de dois vídeos da abertura, no próprio portal Memória Globo. Em 2011, o programa foi incorporado ao Globo Cidadania, chamado de “bloco” (sequer de programa!) e conduzido por Sandra Annenberg (hoje no Globo Repórter com o mítico William Bonner). Finalmente esse “bloco” foi fundido em 2014 com vários outros “Globo alguma nerdice” no esquecido Como Será, sob a mesma liderança e, embora mais longo, sob o mesmo horário sonífero de começo das manhãs de sábado. Ele mesmo foi extinto em 2019 e reprisado até 2022, quando foi substituído por reprises do próprio Globo Repórter.



Conhece essa careca? Rs.


Entre as várias mudanças de horário e formato, a edição com o professor Lapa, que falava sobre a preservação de arquivos e também abordou instituições no Rio de Janeiro, foi feita no período aberto em 1991, quando o Globo Ciência foi relegado ao domingo cedinho, e fechado em outubro de 1995, quando voltou aos sábados. Mais exatamente, desde 1992 era apresentado pela simpática jornalista Anna Terra, que aparece no vídeo abaixo, e contava com apenas uma ou duas reportagens. Curiosamente, o dia citado na coletânea caiu numa sexta-feira, o que poderia indicar que se trata da data de gravação, e não de exibição. A edição disponível mais próxima que localizei foi a de 16 de janeiro de 1994, realmente um domingo, sendo plausível, pois, que o CMU possa ter aparecido no dia 23, uma semana depois, e não 21.

Sem muita expectativa, procurei por esse episódio no YouTube (sabia que talvez fosse praticamente impossível achar pelos arquivos públicos da própria Globo), e entre as poucas edições completas, achei uma sem data, nem mesmo o ano. E eis que, apesar da imagem passável com um áudio bem nítido, encontro na segunda metade do vídeo o professor Lapa, eternizado pelo herói Rodolfo Paes, que acredito ser o dono do canal! Não tentei discernir outras características do vídeo que pudessem confirmar a data certa, mas não há dúvidas de que seja o episódio mencionado na coletânea em sua homenagem. Pra que a descoberta se torne pública, e como minha própria homenagem a quem fez grande diferença em nossa historiografia e no IFCH, mesmo eu não o tendo conhecido, segue o episódio completo, seguido da transcrição da reportagem sobre os centros de documentação. Após um oferecimento comercial das Americanas com a cômica e saudosa Nair Bello, ela começa aos 14 min 05 seg, enquanto o próprio Lapa aparece aos 26 min 14 seg.

Infelizmente não localizei nada a respeito de Anna Terra, ainda mais que há várias homônimas, sobretudo no Instagram, e com a profissão parecida. O único registro fiável parece ser esta publicação de janeiro de 2012 no blog do jornalista cearense Wilson Ibiapina, cujas últimas postagens antecedem em pouco sua própria morte, em 2023. Anna é descrita como gaúcha e incluída com o próprio Wilson e outros quatro ex-colegas entre “globais dos anos 80”, tendo ela trabalhado na emissora em Brasília e então residindo em São Paulo. Os seis teriam se reunido na capital federal pra um almoço, e Anna aparece à frente, de blusa branca. Único registro online da profissional, nenhuma menção ao Globo Ciência no texto... Quanto ao repórter Wilson Ferreira Junior (se não falarmos ainda do cinegrafista João de Andrade), ele parece ter tido bem mais êxito, a julgar por seu LinkedIn e Instagram, que acredito serem dele devido à semelhança física.

Pra aumentar o mistério, buscando no Google pelo nome do repórter, achei o que se apresenta como parte do anuário de produções da Unicamp, relacionado à participação dos docentes do Departamento de História do IFCH em diversos tipos de eventos em 1993. Há uma menção ao professor Lapa, com a seguinte observação (acredito que redigida em primeira pessoa): “Recebemos no dia 29/10 [deve ser isso, há um ele minúsculo no lugar do número um], uma equipe do Programa Globo Ciência, da TV Globo, chefiada pelo jornalista Wilson Ferreira Júnior, que veio produzir uma matéria sobre todos os serviços que este Centro presta à Unicamp e à comunidade, Centro de Memória-Unicamp.” Era possível na época produzir algo em outubro e só exibir em janeiro? Como alguém acostumado ao imediatismo das lives, me parece estranho, o que deixa este texto ainda mais aberto a contribuições e correções externas, se necessárias!


Anna Terra: Fotografias, filmes, documentos, jornais. Sem esses registros do passado e do presente, os pesquisadores não podem reconstruir a história das cidades, dos países, das civilizações. A reportagem principal do Globo Ciência de hoje mostra três instituições brasileiras especializadas na preservação da memória do nosso país. São arquivos privados e públicos que estão abertos a especialistas e também a qualquer um de nós. O repórter Wilson Ferreira Junior e o cinegrafista João de Andrade trabalharam no Rio de Janeiro e em Campinas para mostrar como funcionam os centros de documentação.

Wilson Ferreira Junior: Nos primeiros anos do século 20, um prefeito do Rio de Janeiro mudou a cara da cidade. Pereira Passos, o prefeito, construiu grandes avenidas, derrubou as casas velhas do Centro, encomendou novos quiosques e até banheiros públicos. O que Pereira Passos fez trouxe consequências para o Rio e para o país, já que a cidade era capital da República. O saneamento melhorou, diminuiu a incidência de doenças infectocontagiosas e a cidade ficou mais parecida com as capitais europeias.

Essa história só pode ser contada porque existem fotos, documentos e outros registros guardados em arquivos como o da cidade do Rio de Janeiro. São os arquivos que permitem aos historiadores [e ao público em?] geral reconstituírem e analisarem a história de sua cidade, de seu próprio país. Mas isso não é um privilégio de profissionais. A Constituição brasileira garante a todos o acesso à informação: qualquer cidadão que estiver interessado pode recorrer aos arquivos públicos para fazer consultas a respeito do que quiser. Desde fatos importantes da história até simples curiosidades, como saber, por exemplo, qual era a cara desse lugar onde estamos agora há mais ou menos 90 anos.

Esta foto faz parte do acervo do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, que guarda 30 mil fotos, 40 mil negativos e 1 220 metros de documentos, além de outros tipos de material que reconstituem trechos da história da cidade desde o século 17 até a década passada [de 1980]. O acervo do Arquivo da Cidade do Rio de Janeiro, de certa forma, conta a história da própria cidade. E nesse acervo existem documentos muito antigos, alguns deles muito valiosos, que datam inclusive do tempo em que o Brasil era um Império. Esses documentos, os mais valiosos, estão guardados num cofre. E nós vamos ter a oportunidade de conhecer alguns desses documentos agora com a ajuda do Roberto Paulo, que é um museólogo aqui do Arquivo da Cidade do Rio de Janeiro. Vamos, portanto, abrir o cofre e vamos dar uma olhada nesses documentos. Vamos lá, Roberto!

Aqui há um auto de juramento da coroação de Dom Pedro 1.º. 1.º de dezembro de 1822, quando ele jurou a coroa depois da Independência. Aqui nós temos outros documentos: esse, por exemplo, assinado por José Bonifácio de Andrade e Silva. Veja aqui a assinatura.

Roberto Paulo Freire: Aqui é a respeito do matadouro lá em Santa Cruz. Inclusive Dom Pedro 1.º ia a cavalo até Santa Cruz.

WFJ: Além desses livros, que basicamente datam da época do Império, existem muitas outras... né?

RPF: Muitos outros que estão à disposição aqui no nosso arquivo, vários assuntos quem contam nossa história...

WFJ: O arquivo da cidade está completando 100 anos de vida, mas as pessoas que o procuram não têm acesso a todos os documentos do acervo. Isso porque só estão identificados e catalogados 25% deles. O resto permanece em depósitos e vai sendo colocado à disposição do público a conta-gotas.

José Maria Jardim: 75% do acervo não se sabe ainda. E isso que nós estamos fazendo no momento: de que se trata, como chegaram e como estão. O nosso esforço nesse momento é de abrir essa caixa-preta. Mas essa caixa-preta só é compreensiva se nós abrirmos também uma outra dimensão dessa caixa-preta, que é o que se encontra, na verdade, nos arquivos da prefeitura. Reverter isso significa uma política arquivística, significa o reconhecimento desses acervos que se encontram nos órgãos da administração municipal, o recolhimento imediato daqueles que são de valor histórico, de valor para a pesquisa científica e, mais do que isso, uma política de intervenção na produção da documentação hoje.

Locutor: Uma vida a serviço do Brasil. [Toca parte do refrão Hino à Bandeira.] Getúlio Vargas, em contato direto com os trabalhadores do Brasil, presta conta dos atos do seu governo, num exemplo do mais puro sentimento democrático e prova de respeito e amor ao povo.

WFJ: Você e todos nós podemos ver esse filme hoje porque o Centro de Pesquisa e Documentação da Fundação Getúlio Vargas o conservou. O CPDOC, ao contrário do arquivo da cidade, que guarda documentos públicos, é especializado em guardar arquivos pessoais de homens públicos brasileiros que tiveram projeção nacional a partir de 1930. Aqui se pode ver um dossiê sobre o nazismo no Rio Grande do Sul, que pertencia ao general Cordeiro de Farias, ou a carta de demissão de João Goulart do cargo de ministro do Trabalho, ou ainda o manuscrito do discurso escrito por Amaral Peixoto quando da fusão dos estados do Rio e da Guanabara. São mais de 1,5 milhão de documentos que pertenceram a 110 pessoas importantes, principalmente políticos.

Suely Braga: São os documentos que essas pessoas julgaram interessante em algum momento da vida preservar. São os documentos pessoais, como cartas, telegramas, discursos, tem originais de discursos, tem manuscritos, nós temos muitas fotografias, discos, filmes, impressos. Quer dizer, toda a natureza, todo o documento que se julgou por bem, por um motivo ou por outro, guardar ao longo do exercício da sua vida pública.

WFJ: É comum, então, que pesquisadores procurem aqui arquivos pessoais de políticos, de pessoas proeminentes para fazer um confronto com arquivos públicos, por exemplo?

SB: A natureza do documento privado, pessoal, é diferente. É um documento muito mais solto, muito mais fluido. Quer dizer, não teve toda a pressão que tem o documento público, que ele tem que estar num formato, num padrão, você tem regras de como se pronunciar, como expressar uma ideia. No arquivo privado, não. Você vai ver o político falando livremente sobre determinado assunto. Você vai ver o original de um discurso que muitas vezes não é exatamente a versão que ele proferiu em plenário. Quer dizer, esse trabalho de confronto, poder ter esses vários tipos de fonte, é fundamental para o desenvolvimento de qualquer pesquisa.

WFJ: Apertado em um andar do prédio da GV [a FGV, Fundação Getúlio Vargas] no Rio, o CPDOC tem 50 funcionários, dos quais 33 são pesquisadores. Fundado em 1973, recebe pesquisadores externos e também promove pesquisas próprias.

Alzira Abreu: Houve uma primeira parte das atividades dos primeiros anos [em que] nós trabalhamos muito com os anos 30, 37. Houve um outro período que trabalhamos já com os anos 50, e nesse momento nós estamos muito voltados já para o período 64, que nós estamos trabalhando com o regime militar. Não só com a articulação do regime, da revolução de 64, do golpe, mas também como é que ele se desenvolveu.

WFJ: Todos os arquivos, museus, bibliotecas e instituições que lidam com documentos históricos têm uma preocupação permanente com a conservação e a restauração desses documentos. Tanto que várias dessas instituições têm laboratórios próprios de restauração. É o caso do Centro de Memória da Unicamp, em Campinas, que tem no seu laboratório técnicos especializados em mexer com documentos como esses, que ilustram, aliás, as causas mais frequentes de deterioração, como mordidas de roedores, ação de insetos, de fungos e de inundações. Aqui no laboratório de restauração, documentos como esses são totalmente recuperados e se transformam em documentos como esse daqui, já totalmente recuperado e pronto para ser manuseado pelos pesquisadores.

O processo de restauração começa com uma limpeza feita com pincel largo e bisturi. Nos documentos mais sujos, os restauradores aplicam também pó de borracha. Depois de limpos, os papéis passam por três banhos diferentes: um com água destilada aquecida a 50 °C, o segundo com hidróxido de cálcio para diminuir a acidez do papel – a acidez é a responsável pela fragilidade dos papéis velhos –, o terceiro com uma cola à base de celulose, que impede o ressecamento e devolve a maciez ao documento. O próximo passo é a secagem natural. O processo termina na mesa de luz, onde é feita a reconstituição estética com tiras de papel natural e cola neutra.

Quanto tempo se leva, em média, para restaurar um livro daqueles que nós vimos todos deteriorados, para transformar num livro reconstituído?

Dulce Fernandes Barata: Olha, depende muito dos materiais disponíveis. Depende inclusive dos equipamentos. Eu acredito que de seis meses a um ano.

WFJ: E as técnicas de restauro, elas são sempre artesanais, como a senhora faz aqui, com o seu pessoal no laboratório, ou já existem equipamentos modernos que podem fazer isso em substituição ao trabalho manual?

DFB: Ah, existe com certeza, em outras instituições nacionais e internacionais. As pessoas têm usado muito o que eles chamam de restauração em massa, usado principalmente com auxílio das máquinas, máquina de obturação de papel, tem as máquinas, as câmeras de desacidificação de papéis, e isso auxilia enormemente, a produção do trabalho ganha muito na qualidade e no tempo. Porque se os trabalhos são feitos artesanalmente, nós vamos ter uma luta contra o tempo, ao passo que se tiver equipamentos, tecnologias avançadas como várias instituições têm, então a restauração vai ganhar demais em termos de quantidade e qualidade.

WFJ: Os documentos que são restaurados no Centro de Memória da Unicamp fazem parte de um acervo que reúne material histórico de Campinas e região dos últimos 200 anos. São processos do Tribunal de Justiça, arquivos da Santa Casa local, registros de escravos, da Estrada de Ferro Mogiana e das antigas fazendas de café. As fotos, negativos e todo o material visual também são conservados caprichosamente. Tudo é arquivado em sala especial, com temperatura e umidade controladas, embalado em papel neutro. Além de conservar o arquivo, o Centro de Memória tem um setor de publicações que divulga o acervo através de livros, revistas e boletins. O diretor do Centro diz que instituições como a sua ajudam a diminuir os efeitos de um dos grandes problemas brasileiros: a falta de memória.

Qual é o papel dos arquivos e centros de memória nessa resistência contra a perda do patrimônio cultural brasileiro?

José Roberto Lapa: Simplesmente recolher a documentação escrita, a documentação que pode ser por via oral, a documentação, no sentido mais largo que possa ter a palavra, representa muito, mas não tudo. A preservação da memória deve envolver forçosamente o direito e cidadania de acesso à informação. Isto é, se nós recolhermos o acervo que está correndo perigo, que está correndo o risco de se perder, não nos basta depositar esse acervo e salvá-lo. É preciso organizá-lo, é preciso acessá-lo da maneira mais ágil, mais fácil que se consiga. É preciso universalizar o seu uso e, sobretudo, transformá-lo num gerador de conhecimento, a fim de que o documento na sua frieza, o documento muitas vezes até naquilo que não está nele escrito, naquilo que ele deixa implícito, possa ter uma dinâmica e ir ao encontro do interessado e permitir a ele que a partir do documento, através do documento, além do documento, ele possa ter conhecimento histórico e contribuir para que, com esse conhecimento histórico, ele possa, quem sabe, até mudar para melhor a sociedade em que ele vive.



quarta-feira, 20 de maio de 2026

Camarada Rubio é o novo chefe do “PCC”

Não, “camarada Rubio” não se trata do historiador bananeiro defensor de Putin e popular nas redes sociais por fazer cosplay de Kim Jong-un, rs. Trata-se do novo secretário-geral do Comitê Central (CC) do Partido Comunista de Cuba (o famoso “PCC”), Marquito Rubio, filho de imigrantes cubanos que se torna o primeiro “ehtadunidense” a comandar a ilha do Fidélio. Escolhido por unanimidade quase unânime pelos cumpanhêros na última reunião plenária do “cecê”, era conhecido na clandestinidade como “Oreja” e vai seguir firme junto com o povo e com o dinero de Moscú en el camino del Tchê hasta la victoria.

Brinks à parte, não há imagens melhores do que estas, lançadas pelo site Ciber Cuba Noticias como memes após o Laranjão dizer em janeiro que ele daria um bom presidente de seu torrão natal, mas agora ilustrando um de seus raros discursos em espanhol dirigido aos exilados que comemoram a independência do país. Neste 20 de maio, Loiro praticamente se vê comandando as rédeas de La Habana, sonho acalentado há mais de 10 anos, quando disputou suas primeiras primárias à candidatura republicana pra Casita Blanca. Também hoje, Raúl “China” Castro, irmão del Comandante, foi condenado pelo Departamento de Justiça dos EUA por suposta ordem de matar aviadores ianques que despejavam folhetos antirregime sobre os carros e prédios decrépitos em 1996.

A transcrição em espanhol pode ser vista no Facebook do mesmo portal noticioso, mas a copiei caso a publicação original resolva sumir do nada. Como se precisasse pra nosotros, o vídeo tem legendas em americano, e incorporei várias outras montagens do Camarada Blond feitas por quem aparentemente tinha muito tempo de sobra. A avaliação do conteúdo fica a teu critério, mas pessoalmente achei sacanagem comparar “Florída” com a República Dominicana e a Jamaica, rs:


Neste dia, em 1902, a bandeira cubana tremulou pela primeira vez sobre um país independente. Mas eu sei que hoje vocês, que chamam a Ilha de lar, estão passando por dificuldades inimagináveis.

Hoje quero compartilhar com vocês a verdade sobre o motivo do seu sofrimento e lhes dizer o que nós, nos EUA, lhes oferecemos para os ajudar não só a aliviar a crise atual, mas também a construir um futuro melhor.

O motivo pelo qual vocês são obrigados a sobreviver até 22 horas por dia sem eletricidade não se deve a um embargo de petróleo da parte dos EUA. Como vocês sabem melhor do que ninguém, sofrem com apagões há anos.

O verdadeiro motivo da falta de eletricidade, combustível e comida é que aqueles que controlam seu país saquearam bilhões de dólares, e nada disso foi usado para ajudar o povo.

Trinta anos atrás, Raúl Castro fundou uma empresa chamada GAESA. Essa empresa pertence às Forças Armadas e é administrada por elas. Ela tem receitas três vezes maiores do que o orçamento do governo cubano.

Hoje, enquanto vocês sofrem, esses empresários controlam US$ 18 bilhões em ativos e dominam 70% da economia cubana.

Eles lucram com hotéis, construção civil, bancos, lojas e até mesmo com o dinheiro que seus parentes enviam dos EUA. Tudo passa pelas mãos deles.

Eles retêm uma porcentagem dessas remessas, mas nada dos lucros da GAESA chega ao povo cubano.

Em vez de usar esse dinheiro para comprar petróleo, como fazem outros países ao redor do mundo, eles dependeram durante anos do petróleo gratuito enviado por Hugo Chávez e Nicolás Maduro para embolsar o dinheiro.

Mas agora que não recebem mais esse petróleo gratuito, compram combustível para seus geradores e veículos, enquanto pedem que o povo continue se sacrificando.

Em vez de usar o dinheiro para manter e modernizar as centrais elétricas danificadas, eles o usam para construir mais hotéis para estrangeiros e enviar seus parentes para viver no luxo em Madri e até mesmo nos EUA.

Hoje, Cuba não é controlada por nenhuma revolução. Cuba é controlada pela GAESA: um Estado dentro do Estado que não presta contas a ninguém e que acumula os lucros de suas empresas para beneficiar uma pequena elite.

E o único papel que o chamado governo desempenha é exigir que vocês continuem se sacrificando e reprimir qualquer um que ouse protestar.

O presidente Trump está propondo uma nova relação entre os EUA e Cuba, mas ela deve ser direta com vocês, o povo cubano, e não com a GAESA.

Primeiro, estamos oferecendo US$ 100 milhões em alimentos e medicamentos para vocês, o povo, mas essa ajuda deve ser distribuída diretamente pela Igreja Católica ou outras organizações de caridade confiáveis, e não roubada pela GAESA para a vender em suas lojas.

Mas o povo cubano não está interessado em viver de caridade permanente.

Vocês querem a oportunidade de viver em seu próprio país como seus parentes vivem nos EUA e em outros países ao redor do mundo.

Hoje, da mídia ao entretenimento, dos negócios à política, da música aos esportes, os cubanos chegaram ao topo de praticamente todas as atividades em todos os países, exceto um: Cuba.

Hoje, em Cuba, apenas aqueles próximos ou pertencentes à elite da GAESA podem possuir negócios lucrativos.

Mas o presidente Trump está propondo um novo caminho entre os EUA e uma nova Cuba.

Uma nova Cuba onde vocês, cubanos comuns, e não apenas membros da GAESA, possam ser donos de um posto de gasolina, de uma loja de roupas ou de um restaurante.

Uma nova Cuba onde vocês, e não apenas membros da GAESA, possam abrir um banco ou serem dono de uma construtora.

Uma nova Cuba onde vocês, e não apenas o Partido Comunista, possam ser donos de um canal de TV ou de um jornal.

Uma nova Cuba onde as pessoas possam criticar um sistema falido sem medo de ser presas ou se ver forçadas a deixar a ilha.

E uma nova Cuba onde elas tenham a real possibilidade de escolher quem governa o país e votar para os substituir caso não desempenhem bem suas funções.

Isso não é impossível.

Tudo isso existe nas Bahamas, na República Dominicana, na Jamaica e até mesmo a apenas 145 quilômetros [90 milhas] de distância, na Flórida.

Se é possível ter seu próprio negócio e direito ao voto nos arredores de Cuba, por que não seria possível dentro de Cuba?

Nos EUA, estamos prontos para abrir um novo capítulo na relação entre nossos povos.

E hoje, a única coisa que barra o caminho rumo a um futuro melhor são aqueles que controlam seu país.


En un día como hoy, en 1902, la bandera cubana ondeó por primera vez sobre un país independiente. Pero sé que hoy ustedes, quienes llaman a la Isla su hogar, atraviesan dificultades inimaginables.

Hoy quiero compartirles la verdad sobre el motivo de su sufrimiento y contarles lo que nosotros, en Estados Unidos, les ofrecemos para ayudarlos no solo a aliviar la crisis actual, sino también a construir un futuro mejor.

La razón por la que se ven obligados a sobrevivir hasta 22 horas al día sin electricidad no se debe a un bloqueo petrolero por parte de Estados Unidos. Como ustedes saben mejor que nadie, llevan años sufriendo apagones.

La verdadera razón por la que no tienen electricidad, combustible ni alimentos es porque quienes controlan su país han saqueado miles de millones de dólares, y nada de eso ha sido utilizado para ayudar al pueblo.

Hace 30 años, Raúl Castro fundó una empresa llamada GAESA. Esta empresa pertenece a las Fuerzas Armadas y es operada por ellas. Tiene ingresos tres veces superiores al presupuesto del gobierno cubano.

Hoy, mientras ustedes sufren, estos empresarios controlan 18 mil millones de dólares en activos y dominan el 70 % de la economía cubana.

Obtienen ganancias de hoteles, construcciones, bancos, tiendas e incluso del dinero que sus familiares les envían desde Estados Unidos. Todo pasa por sus manos.

De esas remesas retienen un porcentaje, pero nada de las ganancias de GAESA llega al pueblo cubano.

En vez de usar ese dinero para comprar petróleo, como hacen otros países del mundo, dependieron durante años del petróleo gratuito enviado por Hugo Chávez y Nicolás Maduro para quedarse con el dinero.

Pero ahora que ya no reciben ese petróleo gratis, compran combustible para sus generadores y vehículos, mientras al pueblo se le pide que siga sacrificándose.

En vez de usar el dinero para mantener y modernizar las centrales eléctricas dañadas, lo utilizan para construir más hoteles para extranjeros y enviar a sus familiares a vivir con lujos en Madrid e incluso en Estados Unidos.

Hoy, Cuba no está controlada por ninguna revolución. Cuba está controlada por GAESA: un Estado dentro del Estado que no rinde cuentas a nadie y que acapara las ganancias de sus negocios para beneficiar a una pequeña élite.

Y el único papel que desempeña el llamado gobierno es exigirles a ustedes que continúen sacrificándose y reprimir a cualquiera que se atreva a protestar.

El presidente Trump ofrece una nueva relación entre Estados Unidos y Cuba, pero debe ser directamente con ustedes, el pueblo cubano, y no con GAESA.

Primero, estamos ofreciendo 100 millones de dólares en alimentos y medicinas para ustedes, el pueblo, pero esa ayuda debe ser distribuida directamente por la Iglesia Católica u otras organizaciones caritativas de confianza, no robada por GAESA para venderla en sus tiendas.

Pero al pueblo cubano no le interesa vivir de la caridad permanente.

Ustedes quieren la oportunidad de vivir en su propio país como viven sus familiares en Estados Unidos y en otros países del mundo.

Hoy, desde los medios de comunicación hasta el entretenimiento, desde los negocios hasta la política, desde la música hasta los deportes, los cubanos han llegado a la cima de prácticamente todas las industrias en todos los países, excepto en uno: Cuba.

Hoy, en Cuba, solo quienes están cerca de la élite de GAESA o forman parte de ella pueden tener negocios rentables.

Pero el presidente Trump ofrece una nueva vía entre Estados Unidos y una nueva Cuba.

Una nueva Cuba donde ustedes, los cubanos de a pie, y no solo GAESA, puedan ser dueños de una gasolinera, una tienda de ropa o un restaurante.

Una nueva Cuba donde ustedes, y no solo GAESA, puedan abrir un banco o tener una empresa constructora.

Una nueva Cuba donde ustedes, y no solo el Partido Comunista, puedan ser dueños de una estación de televisión o de un periódico.

Una nueva Cuba donde puedan criticar a un sistema que falla sin temor a ir a prisión o verse obligados a abandonar la Isla.

Y una nueva Cuba donde tengan la oportunidad real de elegir a quienes gobiernan el país y votar para reemplazarlos si no hacen bien su trabajo.

Esto no es imposible.

Todo eso existe en Bahamas, República Dominicana, Jamaica e incluso a solo 90 millas, en Florida.

Si tener un negocio propio y el derecho al voto es posible alrededor de Cuba, ¿por qué no puede ser posible dentro de Cuba?

En Estados Unidos estamos listos para abrir un nuevo capítulo en la relación entre nuestros pueblos.

Y hoy, lo único que se interpone en el camino hacia un futuro mejor son quienes controlan su país.







segunda-feira, 27 de abril de 2026

Khristo Grozev: Radev não será novo Orbán

Como você viu, não tenho “aparecido” por aqui com muita regularidade, embora minha intenção fosse continuar programando publicações diárias nos fins de semana. A vida deu um choque de realidade: apesar do material abundante, muita coisa ficava acumulada e resolvi dedicar sábados e domingos pra outras tarefas de organização pessoal ao invés de maratonar em cima do computador como um louco por dois dias seguidos. Porém, sempre que ocorre um evento importante, que consigo pegar “no pulo” ou que logo pode ficar velho, tento fazer um esforço, mesmo que a preparação seja lenta. Tenho coisas interessantes reservadas e espero que um dia volte a fazer programações diárias!

O assunto da semana pros nerds em “Leste europeu” (termo que abomino tanto quanto “Oriente Médio”!) foram as últimas eleições parlamentares na Bulgária, que pela primeira vez desde 1997 deram maioria clara a apenas um partido. Curiosamente, é uma legenda criada menos de dois meses antes, com o genérico nome “Bulgária Progressista” e fundada por ninguém menos que o ex-presidente Rumen Radev, no cargo há quase dez anos e que renunciou pra concorrer ao pleito. Embora o presidente seja eleito pelo voto popular, o regime é parlamentarista e seu cargo é mais cerimonial, impedindo Radev, portanto, de resolver a crise política aberta pela renúncia do premiê Boiko Borisov, que governou de 2011 a 2021.

Em cinco anos, essa foi a oitava eleição parlamentar, pois nenhum governo conseguia formar maioria e logo caía. No fim de 2025, o povo fez grandes protestos contra a classe política, apoiados por Radev, que se sentiu, assim, ungido pra formar o próprio partido. Deu certo: levando em conta o sistema, seu BP conseguiu quase 45% dos votos, mas mais da metade das cadeiras, o suficiente pra mudar juízes da Suprema Corte e o procurador-geral – mas não pra mudar a Constituição. Os antigos partidos saíram desacreditados, e até os socialistas, herdeiros dos comunistas, pela primeira vez não entraram no Parlamento desde a volta da democracia. Os fatos já são bem conhecidos, mas o que eu trouxe foi uma entrevista do jornalista investigativo búlgaro Khristo Grozev pro programa semanal de geopolítica de Ekaterina Kotrikadze na TV Dozhd (TV Rain).

Embora eu tenha incorporado o corte que saiu depois, eu tirei a transcrição de um trecho mais restrito, que omite a apresentação do tema. Usei um site que cria legendas a partir de vídeos do YouTube e confrontei com o áudio, com o agravante que o russo não é a língua materna de Grozev, portanto, ele faz muitos “aaa, ééé”, erros de concordância e construções incomuns, além da pronúncia induzir o leitor a algo “nada a ver”; pode não ter ficado perfeito. Depois traduzi pro português, e dada a importância do documento e o trabalhão que deu pra corrigir, ele também segue abaixo, depois da tradução. No final da página, o vídeo no canal de Kotrikadze, e logo abaixo, brincando com a pecha de “pró-Rússia” de Radev, a ideia que logo me vem à cabeça quando vejo o símbolo do partido BP, rs:



Vamos discutir com Khristo Grozev, jornalista investigativo da Bulgária que está com a gente ao vivo. Olá, Khristo.

Olá, Ekaterina.

Muito obrigada por ter achado um tempo. E de repente percebemos que você deve saber muito mais sobre a Bulgária do que muitas outras pessoas. E estou curiosa pra ouvir sua reação. Pode-se dizer basicamente que Putin substituiu seu protegido Orbán por seu protegido Radev?

Bem, não se pode dizer que se equivalem. Não é como se Putin tivesse recebido as mesmas ferramentas dentro da UE e da OTAN que tinha com Orbán. Ainda assim, a perda de Orbán é significativamente pior em termos absolutos do que o ganho de Radev nas eleições búlgaras, embora estivesse claro, antes da campanha eleitoral, que ele tinha se tornado o candidato preferido, com Russia Today e Sputnik publicando longos artigos em seu favor. Grupos búlgaros que monitoravam a desinformação durante as eleições também viram que o grupo “Matrioshka” e grupos afiliados a Russia Today repostaram milhares de artigos em apoio a ele.

Mas o mais importante a entender é que ele não equivale a Orbán por vários motivos. Primeiro, ele já estava no governo. A razão pela qual ele obteve uma votação tão grande é precisamente a instabilidade da situação política na Bulgária. Há vários anos, a Bulgária não consegue produzir resultados eleitorais que deem a um ou dois partidos votos suficientes pra formar um governo estável, seja de um só homem ou uma coalizão. Por isso, perdi a conta de quantos governos interinos a Bulgária teve nos últimos anos. Muitos deles foram nomeados pelo próprio Radev em sua função de presidente.

E vimos que, embora ele falasse frequentemente, desde o início da guerra, que a Bulgária não se envolveria no apoio à Ucrânia, que não prejudicaria suas relações com a Rússia e que sempre entendeu que a Rússia é muito mais importante pra Bulgária que a Ucrânia, seu governo interino sempre reafirmou o apoio militar à Ucrânia, embora tentasse mantê-lo em segredo. E isso é lógico. O próprio Radev se tornou general durante seu serviço na Bulgária como membro da OTAN. Ele participou de muitos programas de treinamento e instrução nos EUA. E pode-se dizer que parte das declarações consideradas pró-Rússia são retóricas, destinadas a aumentar sua base eleitoral na Bulgária. Mas quando se trata de decisões práticas e pragmáticas, ele segue as mesmas linhas que a UE e a OTAN consideram corretas.

Sim. Mas uma situação em que o ministro das Relações Exteriores de Radev saísse de uma reunião da UE, ligasse pra Lavrov e recebesse instruções de algum oligarca russo seria inimaginável. Estou certa?

Seria inimaginável. E, novamente, pegue o exemplo de seu ministro da Defesa, que ele nomeou no governo interino e agora provavelmente vai voltar ao cargo: um homem leal que estruturou todos os fornecimentos de armas e munições à Ucrânia em 2022-2023. Portanto, é impossível supor que alguém tão pró-OTAN, que seguiu tão estritamente suas políticas, de repente, manche sua reputação e mude sua política por qualquer motivo. Portanto, isso é muita retórica; pode-se considerar isso um prêmio de consolação pra Putin. Ou seja, vai haver outro país, além da Eslováquia, dizendo: “Vamos ser amigos da Rússia”. Mas não espero grandes consequências disso.

Sim, esse é o prêmio de consolação. Entendo, que nem no [show de prêmios] Campo dos Milagres há muitos anos. Khristo, queria te perguntar, de forma mais ampla, sobre o nível atual de influência do Kremlin, da Rússia e de Vladimir Putin nos países europeus. Está diminuindo ou aumentando? Você é um dos melhores investigadores que monitoram isso e, em particular, os serviços de inteligência russos. O quanto você está satisfeito ou, ao contrário, decepcionado com a dinâmica atual?

A perda da Hungria e de Orbán, que era um porta-voz tão poderoso dos movimentos pró-Putin em geral na Europa, pode ser considerada o início de uma espécie de cataclismo. No mínimo, vejo, e pode-se até afirmar, que o presidente Trump tentou dar seu apoio total a Orbán e recebeu em troca uma queda significativa no apoio popular. E se analisarmos isso sob a perspectiva de Trump dando apoio semelhante a outras forças de extrema-direita e pró-Rússia na Europa, acho que podemos considerar isso uma tendência que vai favorecer o declínio desses movimentos pró-Rússia.

Na Bulgária, uma razão completamente diferente levou a essa vitória: a presença de instabilidade por três, quatro anos e corrupção generalizada nas elites empresariais e políticas. Assim, o presidente Radev conseguiu unir duas forças eleitorais decisivas: a juventude anticorrupção e a parcela da população que, por algum motivo, considera a Rússia sua amiga. São pessoas que nunca estiveram na Rússia nem sequer conheceram pessoalmente um russo na vida. Mas, como aprenderam na escola que foi a URSS que sempre nos ajudou, sempre vão votar pela Rússia. Portanto, uniu duas forças, duas forças eleitorais que simplesmente não existem em outros países, são muito mais fracas eleitoralmente. Há muito menos corrupção política na Europa Ocidental que na Bulgária.

E como está o FSB [Serviço Federal de Segurança da Rússia, antigo KGB] na Europa como um todo?

Esse é um assunto à parte. Quero falar sobre isso, porque estamos preparando uma nova investigação sobre o que o FSB e o GRU [Diretoria Principal de Inteligência, voltada pro exterior] estão exatamente fazendo, mas podemos afirmar novamente que os países europeus estão muito mais conscientes e preparados pra responder mais rapidamente a uma ameaça potencial hoje do que estavam há um ano. Portanto, o FSB não está se saindo muito bem. Além disso, entendemos que após nossa grande investigação sobre o novo departamento do FSB e do GRU que deveria substituir o antigo, obsoleto e falho 29155 e similares, eles tiveram que fechar esse novo ninho de fantasmas que tinha sido criado. Então, não posso dizer que o FSB esteja em boa fase.

Bem, boas notícias no essencial. Muito obrigada. Khristo Grozev, jornalista investigativo do Der Spiegel e do Insider, falou ao vivo na TV Dozhd.



Pausa pro humor (quase) anônimo, rs!


Обсудим с Христо Грозевым, журналистом-расследователем из Болгарии. Он присоединяется к нам в прямом эфире. Христо, приветствую.

Здравствуйте, Екатерина.

Спасибо вам большое, что нашли возможность. Так, вдруг мы вспомнили, что вы же должны про Болгарию знать гораздо больше, чем многие другие. И вот интересно, как вы реагируете. Можно ли говорить о том, что в принципе Путин заменил своего парня Орбана своим парнем Радевым?

Ну, нельзя сказать, что это эквивалент. Нельзя сказать, что получил такой же инструментарию внутри Евросоюза и внутри НАТО, как был через Орбана. Всё-таки потеря Орбана значительно хуже в абсолютных измерениях, чем выигрыш Радева на болгарские выборы, хотя перед выборной кампанией было очевидно, что всё-таки он стал предпочитанным кандидатом, а Russia Today и Sputnik делали длинные комментарии в его пользу. И тоже болгарские группы, которые отслеживали дезинформации во время выборов, тоже увидели, что группа “Матрёшка” и группы, которые связаны с Russia Today, перепубликовали, перепостили там тысячи статей его поддержку.

Но всё-таки самое важное, что надо понять, что он не является эквивалентом Орбана по неком нескольким причинам. Во-первых, он уже был в правительстве. Причина, почему он вообще сейчас получил такой огромнейший выигрыш, это именно из-за нестабильности политической ситуации в Болгарии. Уже несколько лет Болгария не может получить результаты выборов, которые бы дали одной партии или там двум партиям достаточно голосов, чтобы они сделали стабильное, либо единоличное, либо коалиционное правительство. Поэтому уже я потерял счёт, сколько временных служебных правительств на последние несколько лет были в Болгарии. Многие из них назначались именно Радевом в качестве его президентской должности.

И мы видели, что хотя он очень часто ещё с начала войны против Украины говорил о том, что Болгарии нельзя включаться в поддержку Украине, что нельзя расшатать вообще отношения с Россией, что надо всегда понимать, что у России намного больше значимости, чем у Украины для Болгарии, то его временное служебное правительство всегда подтверждало военную поддержку Украине, хотя в публичном пространстве они пытались об этом не говорить. А это логично. Сам Радев стал генералом во время его службы в натовской Болгарии. Он был на очень многих тренировках и обучениях в Америке. И можно сказать, что часть из того, что многие называют пророссийское утверждение, они риторические, они предназначены для того, чтобы он увеличил свою электоральную базу в Болгарии. Но когда вот идёт к моменту практических решений, прагматических решений, он следует по тем же самым линиям, которые Евросоюз и которые НАТО считает правильным.

Да. Ну вот ситуации, при которой Министр иностранных дел при Радеве выходит с заседание Европейского Союза и звонит Лаврову и получает поручение от какого-нибудь российского олигарха, она невообразима. Верно я понимаю?

Она невообразима. И ещё раз можно даже взять пример, что с его Министром обороны, которого он назначил в служебном правительстве и сейчас, скорее всего, опять будет министром Обороны – это лояльный человек, который наложил в 2022-2023 годах все поставки оружия и муниции Украине. Поэтому нельзя считать, что настолько пронатовский человек, который настолько следовал этим политикам, сейчас вдруг по каким-то причинам будет плевать на свою репутацию и поменяет политику. Поэтому это очень много риторики, можно считать утешительным выигрышем для Путина. То есть, будет ещё одна страна, кроме Словакии, которая будет говорить: “Давайте будем друзьями с Россией”. Но последствий больших от этого я не ожидаю.

Да, утешительный приз такой. Я понимаю, как в Поле Чудес было ещё много лет назад. А, Христо, я хочу вас спросить в широком смысле о том, каков сейчас уровень влияния, скажем, Кремля, России, Владимира Путина в европейских странах, понижается это влияние, повышается наоборот. То есть вы один из лучших расследователей, кто именно за этим следит и, в частности, за российскими спецслужбами. Насколько динамика сейчас вас радует или наоборот огорчает?

Потеря Венгрии и Орбана, который был настолько громким мегафоном пропутинских вообще движений внутри Европы, можно считаться началом какого-то катаклизма. По крайней мере, я вижу, и даже можно сказать, что президент Трамп пытался дать свою поддержку полностью Орбану и получил в ответ значительное понижение поддержки от населения. А если посмотреть на это с тех глаз, что Трамп такую поддержку даёт и другим крайне правым и пророссийским силам внутри Европы, я думаю, что можно считать, что это тренд, который будет в пользу уменьшения таких пророссийских движений.

В Болгарии совершенно другая причина привела к этому выигрышу: это то, что была нестабильность на протяжении 3-4 лет и огромная коррупция внутри бизнеса и политической элиты. И вот президент Радев смог объединить две решающих электоральных силы: это антикоррупционная молодёжь и та часть населения, которая по каким-то причинам считает Россию своим другом. Это люди, которые никогда не были в России, не встречали даже в жизни своего русского человека. Но из-за того, что они учились в школе, что это Советский Союз нам всегда помогал, они будут всегда голосовать за Россию. Поэтому он объединил две силы, две электоральные силы, которые в других странах просто отсутствуют, намного меньше электорально. Намного меньше политической коррупции в Западной Европе, чем в Болгарии.

А как у ФСБ дела в Европе в целом?

А это отдельная тема. Давайте об этом поговорим, потому что мы сейчас готовим ещё новое расследование о том, что именно ФСБ и ГРУ делают, но можно сказать опять, что европейские страны намного лучше понимают сегодня и готовы быстрее реагировать на потенциальную угрозу, чем год назад. Поэтому ФСБ не очень хорошо. А кроме того, мы понимаем, что после нашего большого расследования о новом ФСБшном, ГРУшном отделении, которое должно было заменить старое, устаревшее и сломанное 29155 и так далее, вот эту самую новую строшилку, которая была создана, им пришлось закрывать. Так что я не могу сказать, что у ФСБ хорошие дни.

Ну, в принципе, неплохие новости. Спасибо вам большое. Христо Грозев, журналист-расследователь Der Spiegel и Insider в прямом эфире телеканала Дождь.



E pra divertir um pouco... Depois da morte do MC Catra, eis que surge a MC Kotri, rs:


sábado, 25 de abril de 2026

Parte do Donbás vai ser “Donnyland”?

No último dia 21 de abril, os jornalistas Anton Troianovski (baseado em Washington, D.C.) e Andrew E. Kramer (baseado em Kyiv) publicaram no New York Times uma reportagem intitulada “‘Donnyland’? Ucrânia propõe renomear parte do Donbás em homenagem a Trump”. A publicação original só está disponível pra assinantes, mas usei um dos burladores disponíveis e salvei em formato PDF pra então copiar o texto e traduzir. Usei o Google Tradutor e depois comparei com o original, corrigindo eventuais falhas (cada vez mais raras nessa tecnologia!) e imprimindo um estilo mais “brasileiro coloquial” e mais pessoal. Também mantive os links indicados ao longo do texto (matérias do próprio NYT), sobre as mesmas palavras do original.

A se confiar nas “pessoas familiarizadas com as negociações” citadas a cada instante, a proposta é bem engraçada, mas diz muito mais sobre a personalidade megalômana do Laranjão do que sobre os problemas enfrentados pelos ucranianos. Quem acompanha fontes minimamente confiáveis, por exemplo, sabe que a cidade caucasiana de Tuaps, na Rússia, está virando uma “nova Chornobyl” devido aos ataques às refinarias, exatamente 40 anos depois da tragédia nuclear. Ar e água contaminados, animais morrendo, lembra muito a explosão da barragem de Nova Kakhovka, não?... Mas não vou focar em atualidades, apenas aproveite a anedota:



A proposta reflete uma realidade global em que governos apelam à vaidade do presidente Trump a fim de dispor o poderio americano a seu favor.

Quando a Polônia buscou uma base militar dos EUA em 2018, apresentou a ideia como Forte Trump.

Quando a Armênia e o Azerbaijão assinaram uma garantia de paz na Casa Branca no ano passado, batizaram a rota de transporte então criada como Rota Trump para a Paz e Prosperidade Internacionais.

Mas o caso mais improvável do nome do presidente Trump sendo emprestado a um ponto crítico geopolítico pode ser um que permaneceu fora da vista do público até agora. Nas negociações de paz na Ucrânia nos últimos meses, autoridades ucranianas sugeriram que a porção da região do Donbás pela qual a Rússia ainda luta no país poderia ser chamada de “Donnyland”.

O apelido, uma referência a “Donbás” e “Donald”, foi descrito por quatro pessoas familiarizadas com as negociações, todas falando sobre o assunto sob condição de anonimato devido ao sigilo que as envolve.

Quando um negociador ucraniano mencionou o termo pela primeira vez, em parte jocosamente, foi como parte de uma tentativa de convencer o governo Trump a resistir mais às exigências territoriais da Rússia, de acordo com três das pessoas familiarizadas com as negociações. O presidente Vladimir Putin tem prometido continuar lutando até que as forças russas alcancem uma importante fronteira administrativa no limite do Donbás, a região industrial no leste da Ucrânia onde o Kremlin iniciou a guerra em 2014.

O fato de um nome que evoca a Disneylândia ter sido aplicado a uma faixa despovoada e devastada da região ucraniana produtora de carvão e aço pode parecer chocante, visto que os combates mais mortais na Europa desde a 2.ª Guerra Mundial continuam devastando o país. Mas também reflete uma realidade global na qual os governos apelam à vaidade de Trump a fim de dispor o poderio americano a seu favor.

Pra Ucrânia, o esforço ainda não deu frutos. O termo continua sendo usado nas negociações, embora não tenha sido escrito em nenhum documento oficial. Os negociadores também aventaram a possibilidade do Conselho da Paz de Trump desempenhar um papel na administração da área, embora nem a Rússia nem a Ucrânia tenham aderido até agora, de acordo com quatro pessoas familiarizadas com as negociações.

Mas a Rússia não concordou com um acordo que fosse aceitável pra Ucrânia. Isso fez com que o destino da área que os ucranianos propuseram chamar de Donnyland – com cerca de 80 km de comprimento e 65 km de largura – se tornasse um dos principais pontos de discórdia nas negociações.

As negociações com a Ucrânia prosseguiram nos bastidores nas últimas semanas, mesmo com os principais negociadores dos EUA – Steve Witkoff, amigo próximo e enviado especial de Trump, e Jared Kushner, genro do presidente – concentrados na guerra com o Irã. O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky disse este mês que esperava que Witkoff e Kushner visitassem a Ucrânia em breve. Mas uma pessoa familiarizada com as negociações disse que os americanos ainda aguardavam progresso suficiente pra justificar tal viagem e que pretendiam também fazer outra visita à Rússia.

“A Ucrânia está avançando. Gostaria que eles pudessem se entender”, disse Trump a repórteres na semana passada. “Vamos ver o que acontece. Há coisas acontecendo lá.”

É claro que na campanha presidencial, Trump prometeu acabar com a guerra na Ucrânia em 24 horas. Já faz mais de um ano que ele e seus principais negociadores tentam forjar um acordo de paz, dedicando horas a conversas com Putin e frustrando autoridades ucranianas com a aparência de que estavam agindo como mediadores em vez de defender a Ucrânia.

A “Donnyland” foi uma das maneiras pelas quais os ucranianos tentaram fazer Trump ficar mais do lado deles. Desde que Trump se encontrou com Putin no Alasca em agosto passado, o governo Trump até sinalizou que podia apoiar um acordo de paz no qual a Ucrânia se retirasse pra fronteira administrativa da região de Donetsk, uma das províncias do Donbás – medida que os críticos viram como uma concessão maior ao Kremlin.

Autoridades ucranianas afirmam que cerca de 190 mil pessoas vivem nesse território atualmente. Outras pessoas próximas às negociações dizem que o número real pode ser cerca de metade disso. A região fica tão perto da linha de frente que a principal rodovia de acesso está coberta por redes de proteção contra drones explosivos russos.

Pouco restou da economia local além de uma mina de carvão em operação e comércios que atendem os soldados baseados na área, incluindo lojas que vendem balões e flores pros soldados comprarem às esposas ou namoradas que os visitam.

A Ucrânia insiste que pode defender essa área e que não vai entregá-la. Mas em dezembro, Zelensky sinalizou estar aberto a um compromisso que formaria uma zona desmilitarizada ou uma zona econômica livre sem o controle total de nenhuma das partes beligerantes.

Os ucranianos consideraram, mas não endossaram, propostas pra um administrador neutro ou órgão governamental que teria representantes russos e ucranianos, contanto que a Rússia não pudesse reivindicar o território após a guerra.

O Kremlin afirmou que a Rússia poderia estar aberta à formação de uma zona desmilitarizada se a polícia russa ou soldados da guarda nacional tivessem permissão pra patrulhá-la – medida inaceitável pra Kyiv.

A Ucrânia queria que o governo Trump pressionasse Moscou pra suavizar ainda mais sua posição. Os negociadores ucranianos passaram a chamar a zona proposta de Donnyland, uma área que não seria totalmente controlada por nenhum dos lados e considerada uma conquista pra Trump.

Samuel Charap, cientista político do think tank RAND Corporation que acompanhou as negociações de perto, argumentou que tanto Moscou quanto Kyiv têm mostrado certa flexibilidade quanto ao futuro dessa parte do Donbás ainda controlada pela Ucrânia.

Pra Ucrânia, uma preocupação fundamental é o risco de ceder esse território junto com as fortificações aí construídas e, assim, acabar facilitando uma futura renovação da invasão russa. Charap disse que a Ucrânia parecia ver um benefício de segurança em ter o nome de Trump associado à área.

“Acho que provavelmente eles considerariam ter a chancela de Trump numa zona econômica livre como uma espécie de dissuasão”, disse Charap, referindo-se à Ucrânia.

Outra sugestão foi chamar o acordo pós-guerra de “modelo de Mônaco”, referência à cidade-Estado no Mediterrâneo francês. Assim como Donnyland, tratava-se de um possível mini-Estado semiautônomo que desfrutaria do estatuto de zona econômica offshore. A expressão “modelo de Mônaco” apareceu em rascunhos de tratados, enquanto Donnyland só surgiu em discussões, de acordo com uma pessoa com conhecimento direto das estratégias ucranianas de negociação.

Mas as negociações travaram no final de fevereiro devido à questão territorial, justamente quando a guerra com o Irã distraiu a equipe de negociação dos EUA. Sergei Lavrov, ministro das Relações Exteriores da Rússia, disse que o país aceitaria apenas o controle legal total do Donbás. E Zelensky minimizou as perspectivas de trocar território por paz, dizendo que fazê-lo seria um “grande erro”.

Desde então, Rússia e Ucrânia não cederam quanto ao controle do território, mesmo que as negociações sobre outras questões continuassem, incluindo os compromissos dos EUA em garantir a segurança da Ucrânia após a guerra, de acordo com pessoas familiarizadas com as negociações.

Um negociador ucraniano até criou pelo ChatGPT uma bandeira pra Donnyland – nas cores verde e dourado – e um hino nacional, disse a pessoa que conhece as estratégias ucranianas de negociação. Não está claro se o lado americano chegou a vê-los.



Até os autores tiveram de dizer que a imagem foi feita por IA, rs.

terça-feira, 21 de abril de 2026

Leozinho e Chiquinho falando português

Há quem diga que o papa polonês João Paulo 2.º não era poliglota, mas apenas (cito de memória) “decorava e exibia algumas frases”. A opinião é suspeita, pois há muitos anos eu era inscrito numa lista de e-mails de uma falecido professor universitário aposentado “anti-imperialista” (leia-se pró-Putin, embora ele não declarasse), materialista e que expressou essa ideia, embora eu prefira não citar seu nome. Mas a verdade é que o bispo Karoł Wojtyła estudava, sim, vários dos idiomas em que se expressava, inclusive o português, que teria aprendido com um cardeal na década de 1970. Prova de seu relativo domínio são as várias visitas que fez ao Brasil durante seu pontificado, em que falava – inclusive com repórteres – ou discursava sem ler nenhum papel. Realmente, é muito rancor pra pouco acadêmico...

Isso fez com que no imaginário popular, o “João de Deus” (não o abusador de Abadiânia!) ficasse associado à figura de um poliglota. Dessa forma, seria redundante republicar aqui qualquer vídeo seu falando português. Seja como for, esse não parece ter sido o caso de seus sucessores alemão (Bento 16), argentino (Francisco) e americano (Leão 14). Pros dois últimos pontífices, temos registros de discursos seus completos na língua de Camões e de Machado, ainda que a pronúncia pareça ter sido aprendida em seu básico. Mas creio que apenas o bispo Robert Prevost realmente tenha estudado alguns idiomas, pois o bispo Jorge Bergoglio se recusava a rezar missa em inglês até mesmo nos EUA.

O que quero lhes trazer aqui hoje são dois discursos completos em português, apenas com o vídeo (cujos trechos cortei das publicações originais) e sem as transcrições, do papa Francisco no Brasil, em 28 de julho de 2013 (pouco depois de assumir e por ocasião da Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro), e do papa Leão 14 em Angola, em 18 de abril de 2026 (recebido por autoridades na capital Luanda).

Um fato curioso sobre a estadia do argentino em nosso país é que eu vi a despedida, na data mencionada, ao vivo pela TV Globo e a tinha até hoje na recordação, mas só alguns dias atrás resolvi procurar o vídeo no YouTube. Achei no canal da televisão estatal, e duas coisas chamam a atenção: a presença do então “vice-presidente decorativo” Michel Temer no lugar da titular Dilma Rousseff e a rara execução instrumental completa da Marcha Pontifícia, o hino não oficial do Vaticano. Mais engraçado ainda é ver o Vampirão Maçom com as mãos entrelaçadas como se fosse o Drácula, sem que suspeitássemos da iminente vinda do “gópi de 16”, rs.





Pra sua diversão e prazer, também separadas, seguem abaixo as execuções instrumentais da Marcha Pontifícia e do Hino Nacional Brasileiro em 2013, que quase fizeram o “Papa Chico” dormir em pé, apesar dos gritos histéricos da multidão que cantava frases estranhas:




sábado, 18 de abril de 2026

“Dansons” (Céline Dion, lançamento 2026)

Após uma pausa na carreira pra tratar de uma doença que prejudicou sua voz, a cantora canadense Céline Dion lançou ontem, 17 de abril, a canção Dansons (Dancemos ou Vamos dançar) em formato single, em suas plataformas digitais. Mais adiante, incorporei diretamente o vídeo oficial (clipe) no YouTube, que tem também as legendas em francês. Por essa razão, segue abaixo apenas minha tradução pro português, sem o texto original.

Dansons foi composta pelo cantor, compositor e letrista francês Jean-Jacques Goldman (nascido em Paris em 1951), que também foi um dos responsáveis pela produção e arranjos e já colaborou outras vezes com Dion. O clipe ficou ainda mais bonito com a participação de casais anônimos de diversos tipos, dançando ao ar livre, ideia que está no cerne da letra. Por isso, dedico esta publicação a você que está estressado com o mundo atual (guerras, redes sociais, extremismo, preconceito, incivilidade) e precisa “balançar” um pouco, rs.

Tirei a letra em francês da descrição do próprio vídeo do YouTube, mas a diagramação está um pouco estranha, o que dificulta o entendimento: ora há pontuação final, ora não há; ora os versos começam com letra maiúscula, ora com minúscula. Por isso, tomei a liberdade não só de uniformizar a redação nesse aspecto, mas também, por vezes, de inverter a ordem dos versos pra facilitar a compreensão de quem lê a tradução.

Minha opção mais explícita foi por não usar a 1.ª pessoa do plural do presente do subjuntivo (“dancemos”, “flutuemos”, o que dá um ar meio de igreja: “oremos”, “louvemos”...) e substituir pela locução “vamos + infinitivo”, típica de nossa linguagem oral. Ambas estão certas, mas sempre opto pela naturalidade. Em alguns pontos, a linguagem é figurada ou claramente idiomática, portanto, pesquisei muito ao traduzir, mas sei que pode não ter ficado perfeito. Sinta-se livre pra propor outras opções nos comentários:


Vamos dançar, por cima dos abismos,
Nas cristas dos cumes,
E vamos deixar as baixadas,
Vamos voar, vamos valsear.

Vamos dançar, enquanto o mundo vacila,
Com nossos corpos enredados
A um passo, a um fio [de distância],
Nossas mãos atadas.

Pra esquecermos nossas mágoas,
Que nada nos detenha,
Nos detenha.

Vamos dançar, por cima dos grandes vazios,
Que nossa respiração nos guie,
Os corpos em uníssono,
Que toquem os violinos.

Vamos dançar, tem baile esta noite
Em meio às estrelas,
Doce encontro
Dirigido a nós e contra nós.

Vamos flutuar, testa com testa,
Flocos, sobre o horizonte,
Flocos, sobre o horizonte.

Vamos dançar, pra nos pormos e ficarmos retos,
Porque é uma obrigação
Pra todos os que não se mexem
E que não têm voz nem lei,
Porque é inútil,
Porque você e eu,
Nossos rostos, nossos braços,
Apesar de tudo, já que
Só se pode dançar de pé.

Vamos dançar, inventar nossas vertigens
Antes de ficarmos parados:
Um idílio, uma ilha
Em meio a um universo hostil.

Vamos dançar, por cima dos abismos,
Nas cristas dos cumes,
Vamos girar, porque o mundo
Não está mais dando voltas
[i.e. Não está mais funcionando].



quinta-feira, 16 de abril de 2026

FARMAR AURA


Hoje começamos com o alto astral dessa moçada bacana e pé-quente rumo ao Équiça, expressando meus votos pra essa Copa de Vinte e Seis, rs. Mas o assunto principal é outro: há uns dias, o portal Jeum lançou uma interessante matéria sobre “farmar aura”, uma gíria das gerações Z (nascida a partir de 1996) e alfa (nascida a partir de 2010 – haja alfabeto pra tanto capirotinho!) que eu mesmo, obviamente, não conhecia. Só cheguei no “tankar” e olhe lá:


Eles só se esqueceram de dizer que já entre 2004 e 2014, quando o computador de mesa ainda dominava sobre os smartphones, o povo já “farmava aura” no Orkut com as famosas pontuações de carinha (simpático), gelo (legal, ou seja, cool) e coração (atraente):


Esta publicação teve o patrocínio da Charcutaria Beirute. Frios, embutidos e tudo pro seu lanche com o Chico Anysio levantino, rs:


domingo, 12 de abril de 2026

Viktor Orbán admite derrota a Péter Magyar

Reaparecendo aqui pra tentar cobrir o que parece ser um evento histórico, rs. Hoje, 12 de abril de 2026, o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán, de extrema-direita e amiguinho de Bolsonaro, Trump e Putin, admitiu sua derrota pro dissidente do partido de centro-direita Tisza, Péter Magyar, mais conhecido como Pedro Húngaro ou, pros íntimos, Pepê Gulache. Em ato inusual pra um líder reputado autoritário, Orbán reconheceu a derrota avassaladora e publicou há pouco mais de uma hora o seguinte discurso em seu YouTube oficial.

Consegui fazer esta transcrição (cuja qualidade não pude verificar) usando uma ferramenta de IA voltada pra plataforma do Google no site Maestra.ai e joguei o resultado no Tradutor do mesmo Google. Como tá difícil achar até mesmo uma transcrição original, decidi botar o resultado pra documentação, enquanto revisei levemente a redação, mas não o significado, da tradução.



Boa noite a todos, meus queridos amigos. O resultado das eleições, embora ainda não esteja completo, é compreensível e claro. O resultado é doloroso para nós, mas é claro. A responsabilidade e a oportunidade de governar não nos foram concedidas. Parabéns ao partido vencedor e agradeço o enorme trabalho realizado. Nunca trabalhamos tanto, nem em nenhuma campanha eleitoral. Isso transparece, pois conseguimos reunir 2,5 milhões de eleitores; 2,5 milhões de pessoas confiaram em nós hoje também. Meus queridos amigos, gostaria de agradecer especialmente pelo apoio esmagador que recebemos do outro lado da fronteira, e enviamos uma mensagem a todos que podem contar conosco no futuro. Meus queridos amigos, não sabemos agora o que este resultado significa para o destino do nosso país e da nação, e qual o seu significado mais profundo ou elevado; só o tempo vai dizer. Mas, independentemente do resultado, nós, como oposição, vamos servir a nosso país e à nação húngara. Meus queridos amigos, a tarefa que temos pela frente é clara. O peso da governança não está sobre nossos ombros, então agora é nossa missão fortalecer nossas comunidades. 2,5 milhões de eleitores confiaram em nós. Vamos lhes enviar uma mensagem daqui. Jamais vamos os decepcionar. E talvez, talvez eu não devesse dizer isso, porque estamos juntos aqui há mais de 30 anos. Vivemos anos difíceis e fáceis, anos belos e tristes, mas uma coisa todos nesta sala e em todo o país sabem: jamais, jamais, jamais, jamais desistiremos. Os dias que se aproximam ainda são para curar feridas, mas então o trabalho vai recomeçar, e neste trabalho conto com todos vocês, todos os nossos 2,5 milhões de eleitores. Senhoras e senhores! Desejo a todos muita força, saúde e noites mais belas do que a de hoje. Que Deus nos abençoe a todos, e a Hungria acima de tudo. Força, Hungria! Força, húngaros! Muito obrigado. Obrigado por tudo! Boa noite a todos!

Jó estét kívánok mindenkinek, kedves barátaim, a választási eredmény, bár még nem teljes, de érthető és világos. A választási eredmény számunkra fájdalmas, de egyértelmű. A kormányzás felelősségét és lehetőségét nem nekünk adták. A győztes pártnak gratuláltam nektek, önöknek köszönöm a rengeteg munkát. Soha ennyien és soha ennyit nem dolgoztunk egyetlen választási kampányban sem. Van is ennek látszatja hisen két és fél millió szavazót sikerült összegyűjtenünk két és fél millió ember bízott bennünk a mai napon is. Kedves barátaim, hogy a különösen is, különösen is köszönöm a határon túl érkezett elsöprő erejű támogatást, és üzenjük a határon túlra, hogy ránk a jövőben is számíthatnak. Kedves barátaim, hogy a hazánk és a nemzet sorsa számára ez a ma esti választási eredmény mit jelent, és mi ennek a mélyebb vagy magasabb értelme, azt most nem tudjuk, ezt majd az idő eldönti. De akárhogyan is alakult, mi ellenzékből is a hazánkat és a magyar nemzetet fogjuk szolgálni. Kedves barátaim, a feladat, amely előttünk áll, világos. A kormányzás súlya nem nyomja a válunkat, ezért most az a dolgunk, hogy a közösségeinket megerősítsük. 2 500 000 szavazó bízott bennünk. Üzenjük meg nekik innen. Soha nem fogjuk őket cserben hagyni. És talán és talán mondanom sem kellene, hiszen több mint 30 éve vagyunk itt együtt. Élt már meg nehéz és könnyű, szép és szomorú éveket, de egy dolgot mindenki tudhat itt ebben a teremben és az egész országban. Mi nem adjuk fel soha, soha, soha, de soha nem adjuk fel. Ezek a napok, amelyek előttünk állnak, még a sebek gyógyításáról szólnak, de aztán újra indul a munka, és ebben a munkában mindenkire, mindannyiotokra, mind a 2 500 000 szavazónkra számítok. Tisztelt hölgyeim és uraim! Mindannyiuknak sok erőt, jó egészséget, és a maiál szebb estéket kívánok a jó Isten mindannyiunk fölött, Magyarország mindenek előtt. Hajrá Magyarország! Hajrá magyarok! Köszönöm szépen. Köszön minden! Jó éjszakát mindenkinek!



Reportagem do Fantástico de hoje (TV Globo, 4 min) sobre a vitória de Péter Magyar (Tisza) e a derrota de Viktor Orbán (Fidesz):


sábado, 14 de março de 2026

Votos de Boris Ieltsin pra 1995

No ano passado, iniciei a coleção completa da tradução dos discursos com os votos de Feliz Ano Novo dos presidentes da Federação Russa a partir de 2000, isto é, Vladimir Putin e Dmitri Medvedev, ambos do partido Rússia Unida. Anteriormente eu já tinha publicado os votos de Boris Ieltsin pro ano 2000 transmitidos em 1999, que tiveram enorme importância porque ele os usou pra anunciar sua renúncia do cargo e logo depois foi sucedido pelos votos de Putin, que, enquanto primeiro-ministro, assumia interinamente até as próximas eleições. A lacuna que ficou e exigia maior pesquisa eram os votos de Ano Novo de Ieltsin ao longo da década de 1990, e hoje finalmente terminei de a preencher! Por razões óbvias, não vou recuar ainda mais e trazer todos os discursos de 31 de dezembro dos líderes soviéticos.

Quando fazemos a busca no site do Kremlin, notamos um material extremamente organizado, mas só encontramos os discursos de Ano Novo a partir de 1999/2000, justamente quando Putin assumiu pela primeira vez. Os votos do antecessor e mentor devem ser buscados em outras fontes, entre elas o YouTube ou o portal oficial do Centro Ieltsin, sediado em Iekaterinburg, seu antigo feudo político. No arquivo oficial dos canais estatais de TV, também há uma coleção incompleta, incluindo alguns vídeos com Ieltsin, mas infelizmente eles não têm uma transcrição que facilitasse o trabalho de tradução. Pra nossa alegria, com raras exceções, a versão russa do Wikiquote traz as transcrições de todos os discursos presidenciais de Ano Novo da Rússia pós-soviética.

Na verdade, quase todos: no Wikiquote, não há os de 1991/1992 e de 1992/1993, e o de 1994/1995 está incompleto. Neste último caso, não consegui achar nenhuma transcrição online completa, nem mesmo no portal do Centro Ieltsin. Portanto, a partir de seu canal no YouTube, baixei uma transcrição automática, embora mutilada, do áudio de qualidade longe da perfeição, completei com os trechos já disponíveis no Wikiquote e cotejei de ouvido mesmo, pra finalizar. Inseri poucas explicações entre colchetes quando necessário, imprimi à tradução meu próprio estilo menos formal e incluí a transcrição completa em russo, pois se trata de um texto pouco fácil de se achar em outras fontes.

O primeiro vídeo, de um canal de registros históricos russo-soviéticos, é mais completo e com o áudio melhor, incluindo a vinheta da emissora que transmitiu o discurso (o antigo Canal 1 “Ostánkino”, atual Pérvy kanál ou “Primeiro Canal”) e a execução instrumental da Canção Patriótica, hino nacional da época. O segundo, como eu disse, é do próprio Centro Ieltsin, carregado bem antes e de qualidade pior, mas incluí ambos pra fornecer um registro histórico mais variado. Assim, finalmente concluo a coleção completa de todos os discursos de Ano Novo dos presidentes da Federação Russa, de Ieltsin a Putin, passando por Medvedev!




Caros compatriotas!

O relógio marca os minutos finais de 1994. Nestes instantes, recordamos o passado, as alegrias e tristezas, os ganhos e perdas a elas relacionados. A maioria dos russos vai passar esta noite de Ano Novo no círculo familiar, com amigos e entes queridos: é assim uma antiga tradição na Rússia.

Por vezes, longas distâncias são percorridas pra um encontro como este, pra perdoar mágoas passadas, aliviar o coração da dolorosa saudade dos pais. Estou feliz por vocês terem se encontrado e se reunido novamente à mesma mesa. Permaneçam fiéis, generosos e dedicados uns aos outros. Tenham harmonia e felicidade no ano que vai começar!

Os minutos que antecedem o Ano Novo são um tempo de esperança. Não há quem não deseje que o novo ano seja melhor do que o anterior, que seja abençoado com felicidade e sorte e que haja paz e tranquilidade em nossas casas. Que essas luminosas esperanças se realizem.

Nos lembremos agora daqueles que estão sozinhos, carecem de calor humano e não têm com quem compartilhar a festa de Ano Novo. Desejo a eles tudo de bom, de todo meu coração. Sejam fortes, não desanimem e sem falta acreditem num futuro melhor.

Que o próximo ano seja generoso com vocês e lhes traga novos encontros felizes. Quero que neste momento se lembrem de nossa Pátria, de nossa grande e bela Rússia magna. As coisas aí não estão fáceis. Tenho certeza que cada um de nós, onde quer que vivamos, sente isso profundamente. Então valorizemos, desenvolvamos e amemos nosso país. Acredito que no próximo ano vamos ser capazes de fazer mais pela Rússia do que no anterior.

Meus votos pro Ano Novo vão àqueles que neste momento estão de serviço, garantindo a segurança dos cidadãos de nosso país, protegendo suas fronteiras e cumprindo seu dever, talvez arriscando suas vidas, mesmo nesta noite de Ano Novo. Lembrem-se que vocês estão servindo à Rússia, protegendo a Rússia e a seus cidadãos.

A paz não está em todos os lugares de nosso país hoje, e talvez por isso sentimos agora tão intensamente seu valor e significado. Pra mim, não há tarefa mais importante no próximo ano do que restaurar a paz e a normalidade na República da Chechênia, na Ossétia do Norte e na Inguchétia. Só então os refugiados vão poder voltar a seus lares destruídos. Não vamos poupar esforços pra alcançar esse objetivo.

Nesta noite de Ano Novo, gostaria de me dirigir especialmente aos russos que vivem fora da Rússia, nos países da CEI [Comunidade de Estados Independentes] e nos países bálticos. Caros compatriotas, nos lembramos de vocês, estamos fazendo e vamos fazer todo o possível pra proteger seus direitos legais [inaudível] da história milenar de nossa Grande Rússia.

Que neste novo ano todos nossos desejos mais caros se realizem, que todos nossos planos se concretizem e que todos nossos empreendimentos se materializem. Que as adversidades passem longe de nós e da Rússia.

Adeus, 1994. Olá, 1995. Feliz Ano Novo, amigos! Feliz Ano Novo de 1995!


Дорогие соотечественники!

Часы отсчитывают последние минуты 1994 года. В эти мгновения мы вспоминаем прожитое, те радости и печали, те обретения и потери, которые связаны с ними. Эту новогоднюю ночь большинство россиян проведут в семейном кругу, с друзьями и близкими – такова древняя российская традиция.

Ради такой встречи порой преодолеваются большие расстояния, чтоб простить былые обиды, чтобы освободить сердце от щемящей тоски по родителям. Рад за то, что вы встретились, вновь собрались вместе за одним столом. Храните верность, великодушие и преданность друг к другу. Согласия и счастья вам в наступающем году!

Предновогодние минуты – это время надежд. Нет человека, который бы не хотел, чтобы новый год был бы лучше прошедшего, чтобы ему улыбнулись счастия и удачи, чтобы в наших домах были покой и мир. Пусть сбудутся эти светлые надежды.

Давайте вспомним сейчас и о тех, кому одиноко, кому не достаёт душевного тепла, кому не с кем разделить новогодний праздник. Я от всего сердца желаю им благополучия. Крепитесь, не падайте духом и обязательно верьте в лучшее будущее.

Пусть наступающий год будет для вас добрым, пусть он принесёт вам новые счастливые встречи. Я хочу, чтобы в этот момент вы вспомнили о нашем Отечестве, о нашей большой и прекрасной великой России. Ей сейчас нелегко. Наверное, каждый из нас, где бы мы ни жили, остро чувствует это. Будем же беречь нашу страну, обустраивать и любить её. Верю, что в наступающем году нам удастся сделать для России больше, чем уходящем.

Мои новогодние поздравления тем, кто в это время несёт службу, обеспечивает безопасность граждан нашей страны, охраняет её рубежи, выполняя свой долг, может быть рискуя своей жизнью, даже в эту новогоднюю ночь. Помните, что вы служите России, защищаете Россию и россиян.

Не везде в нашей стране сегодня мир и, может быть, поэтому сейчас мы особенно остро чувствуем его ценность и значимость. Для меня нет более важной задачи в следующем году, чтобы восстановить мир и нормальную жизнь в Чеченской республике, Северной Осетии и Ингушетии. И тогда беженцы смогут вернуться к своим погасшим очагам. Не пожалеем усилий для этого.

В эту новогоднюю ночь особо хочу обратиться к россиянам, живущим за пределами России, в странах СНГ и Прибалтики. Дорогие соотечественники, мы помним о вас, делаем и будем делать всё возможное, чтобы защитить ваши законные права [неслышно] тысячелетней истории нашей Великой России.

Пусть в наступающем году исполнятся все наши заветные желания, вершатся все замыслы, воплотятся в жизнь все начинания. Пусть невзгоды обойдут стороной нас и России.

Прощай, 1994. Здравствуй, 1995 год. С праздником вас, друзья! С новым 1995 годом!


sexta-feira, 13 de março de 2026

Quer estudar russo? Comece aqui!

Apresento hoje uma seleção de diversas publicações que estão marcadas com o rótulo “Língua russa”, entre as mais importantes pro estudo mais ou menos aprofundado do idioma. Grande parte delas consiste em restos do minicurso livre de introdução ao russo que ministrei no programa TOPE da Unicamp no 2.º semestre de 2017, e como só recentemente editei alguns, não tive tempo de comparar com o que já estava online, portanto, me responsabilizo por eventuais repetições e redundâncias.

Infelizmente, não é um material pra iniciantes, e sim uma sistematização de noções pra quem já começou a aprender russo, embora também possa ser lido por curiosos que consigam tirar proveito de algumas das explicações dadas. A lista inclui textos que vêm sendo publicados desde 2016 com dificuldades sobre pontos específicos da pronúncia e da gramática e mais algumas coisinhas, e agora ficam mais fáceis pra ser localizados, sem depender apenas do referido rótulo, e pra ser compartilhados em redes sociais.

Esta publicação pode soar paradoxal, já que há quatro anos venho combatendo a invasão da Ucrânia por Vladimir Putin e que sou um crítico feroz da imposição da língua e cultura russas aos territórios ocupados, bem como a seu uso no exterior como uma espécie de soft power capenga pra esconder os crimes de Moscou contra a humanidade. Porém, não devemos esquecer que nem todos os russos apoiam a guerra e que muitos deles, pessoas de alto valor científico, artístico e literário, vivem hoje exilados em países capitalistas desenvolvidos.

Por isso mesmo, conhecer a língua russa, e não somente a ucraniana, pode ser uma ferramenta crucial pra entendermos o regime terrorista atualmente em vigor na Rússia e obtermos informações objetivas sobre a agressão contra o vizinho meridional, onde muitos ainda dominam o “idioma de Pushkin” e os soldados da frente de batalha costumam ser mil vezes mais sinceros que a propaganda oficial. Além disso, desde o século 19 e mais ainda sob o período soviético, a língua russa tem uma longa trajetória no campo da ciência, o que a torna essencial pra ter acesso a um vasto material de pesquisa e conhecimento. Sem contar outros “nichos” culturais, sociais, artísticos etc. que tornam sua compreensão quase indispensável.

Reitero que, apesar de meu desejo, não estou disponível pra dar aulas virtuais de qualquer língua que seja, mas posso passar indicações de profissionais disponíveis (também pra inglês, francês etc.), bem como não é difícil os encontrar em diversas redes especializadas. Apenas recomendo que evite professores omissos ou simpáticos à guerra de Putin, pois ocasionais apologias nacionalistas ou patrióticas são abjetas nesse contexto; se ele falar português, mas estiver num dos próprios países que realizam a agressão, então duvide mais ainda, e de preferência rejeite.