domingo, 14 de agosto de 2022

Nova anaplasmose chegaria ao Brasil?


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No último dia 10 de agosto, escutei no programa “Journal d’Haïti et des Amériques” (Jornal do Haiti e das Américas) da rádio francesa RFI o alerta de que um novo tipo de anaplasmose tinha sido descoberto na Guiana Francesa, território francês que faz fronteira com o estado brasileiro do Amapá. A anaplasmose é uma infecção que, nesse caso, foi transmitida por um carrapato e pela primeira vez era detectada num ser humano. O novo tipo foi batizado pela localização geográfica da descoberta, justamente um garimpo ilegal, igual a vários que temos espalhados pela Amazônia brasileira.

Parece que a nova doença não oferece muito perigo no momento, mas fiquei alarmado, porque em 2014 eu já escutava na RFI sobre o surto de febre chicungunha (chikungunya) na mesma Guiana, e pra meu espanto também começou um surto no Brasil entre 2015 e 2016. A chicungunha também circula por África e Ásia, e aparentemente o surto brasileiro não começou com gente que veio da Guiana, mas ainda assim resolvi alertar pro que ainda não sabemos no que pode se transformar. Primeiro, porque como podemos ver, garimpos ilegais também são um ninho de doenças. E segundo, parece que o sujeito infectado pela nova anaplasmose mora ou morava no Brasil.

Após uma busca no Google, traduzi esta reportagem publicada no site de notícias France-Guyane no mesmo 10 de agosto, que parecia ser então a única a falar mais a respeito, e publiquei aqui na página. Ela tinha também o link pra outro texto lançado em 2 de agosto pelo Instituto Ecologia e Meio-Ambiente (INEE) do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS) da França, sobre o mesmo assunto, que também decidi traduzir pra continuar o serviço público aqui na página. Escrito por Olivier Duron e Katia Grucker, o título é “L’anaplasmose de Sparouine, une nouvelle zoonose transmise par les tiques découverte en Guyane” (A anaplasmose de Sparouine, uma nova zoonose transmitida por carrapatos e descoberta na Guiana). Apesar do alarmismo ser desnecessário, se você é especialista ou apenas se interessa pelo assunto, espero que goste desses materiais e compartilhe entre interessados!



Diversas espécies de carrapatos da Guiana (foto: Florian Binetruy e Olivier Duron).


Os carrapatos são responsáveis pela transmissão de inúmeras zoonoses, que são doenças infecciosas transmitidas dos animais aos seres humanos. Um estudo publicado na revista Emerging Infectious Diseases em 8 de agosto de 2022 acaba de divulgar uma nova zoonose transmitida por carrapatos numa região remota da Guiana Francesa. Essa doença, a anaplasmose de Sparouine, foi descoberta depois que um garimpeiro foi infectado, vivendo no coração da floresta tropical úmida. A infecção de seus glóbulos vermelhos por uma bactéria desconhecida até então provocou uma degradação severa de seu estado de saúde e requereu sua hospitalização. Esses trabalhos mostram igualmente que bactérias geneticamente próximas circulam entre os carrapatos e mamíferos da América do Sul que poderiam constituir repositórios naturais da infecção.

Vetores maiores de agentes patogênicos, os carrapatos são especialmente bem conhecidos na Europa por seu papel na propagação de zoonoses como a doença de Lyme. Nutrindo-se às expensas da fauna selvagem, os carrapatos podem a seguir transmitir patógenos zoonóticos aos seres humanos. Na Guiana Francesa, a exploração de zonas naturais remotas levou à emergência de uma nova zoonose dos carrapatos, até então desconhecida, a anaplasmose de Sparouine.

A anaplasmose de Sparouine é no dia de hoje uma doença rara com apenas um caso conhecido. Porém, as condições nas quais essa doença foi descoberta são ilustrativas dos riscos associados à exploração de zonas naturais remotas. A anaplasmose de Sparouine apareceu num garimpo ilegal no coração da floresta tropical úmida da Guiana Francesa. Pras populações que vivem no garimpo, seu medo das autoridades entrava o acesso aos centros de saúde, e as epidemias de malária surgem aí regularmente. Foi exatamente uma campanha de estudo da malária, com o exame de mais de 360 amostras sanguíneas, que evidenciou a presença de uma nova bactéria patogênica, a Anaplasma sparouinense, e assim a descoberta imprevista da anaplasmose de Sparouine.

Durante a primeira coleta sanguínea em 2019, o paciente não apresentava nenhum sintoma especial, embora vários glóbulos vermelhos apresentassem então inclusões citoplasmáticas que indicavam uma quantidade importante de bactérias. 18 meses depois, o paciente deu entrada no Centro Hospitalar de Caiena sentido febre, dores musculares e de cabeça, sangramentos nasais e anemia severa. Uma ampla investigação microbiológica tinha então permitido descartar a presença de agentes infecciosos comuns, e somente um exame de DNA, realizado a posteriori, permitiu a descoberta da Anaplasma sparouinense. O paciente apresentava um fator de comorbidade, tendo passado anteriormente por uma esplenectomia (remoção cirúrgica do baço após uma ferida traumática) que pode ter agravado os efeitos da infecção. Felizmente, um tratamento antibiótico de três semanas levou à recuperação do paciente, que em seguida pôde deixar o hospital.

Esse novo agente patogênico pertence ao gênero bacteriano Anaplasma, cuja bactéria mais conhecida é a Anaplasma phagocytophilum, responsável pela anaplasmose granulocitária humana. Essa zoonose emergente é responsável todos os anos por várias centenas de casos, por vezes letais. Os estudos genéticos revelaram que a Anaplasma sparouinense é um novo agente infeccioso, diferente de todas as espécies conhecidas de Anaplasma. Análises filogenéticas estabeleceram igualmente que cepas bacterianas próximas estão naturalmente presentes em bichos-preguiça e em carrapatos retirados de quatis no Brasil. Essas análises mostram que existe na realidade todo um grupo sul-americano de Anaplasma emergentes, do qual o Anaplasma sparouinense é o primeiro membro descrito como infeccioso pro ser humano. A vida no garimpo, em contato direto com a fauna selvagem, sem dúvida foi um fator determinante pra passagem do agente infeccioso ao ser humano. Ainda é cedo demais pra definir a importância que a anaplasmose de Sparouine vai ter no futuro, e qual risco sanitário a doença poderia então apresentar às populações sul-americanas. Todavia, sua mera existência nos recorda que nosso conhecimento da diversidade dos agentes patogênicos que circulam nas zonas naturais remotas continua sendo muito parcial. A expansão das atividades humanas nessas regiões vai inevitavelmente levar as populações a se exporem ao risco de emergência de zoonoses similares.



A dra. Maylis Douine, médica na Guiana e uma das autoras da descoberta.

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Nova doença da Guiana virá ao Brasil?


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No último dia 10 de agosto, escutei no programa “Journal d’Haïti et des Amériques” (Jornal do Haiti e das Américas) da rádio francesa RFI o alerta de que um novo tipo de anaplasmose tinha sido descoberto na Guiana Francesa, território francês que faz fronteira com o estado brasileiro do Amapá. A anaplasmose é uma infecção que, nesse caso, foi transmitida por um carrapato e pela primeira vez era detectada num ser humano. O novo tipo foi batizado pela localização geográfica da descoberta, justamente um garimpo ilegal, igual a vários que temos espalhados pela Amazônia brasileira.

Parece que a nova doença não oferece muito perigo no momento, mas fiquei alarmado, porque em 2014 eu já escutava na RFI sobre o surto de febre chicungunha (chikungunya) na mesma Guiana, e pra meu espanto também começou um surto no Brasil entre 2015 e 2016. A doença também circula pela África e pela Ásia, e aparentemente o surto brasileiro não começou com gente que veio da Guiana, mas ainda assim resolvi alertar pro que ainda não sabemos no que pode se transformar. Primeiro, porque como podemos ver, garimpos ilegais também são um ninho de doenças. E segundo, parece que o sujeito infectado pela nova anaplasmose mora ou morava no Brasil.

Após uma busca no Google, traduzi esta reportagem publicada no site de notícias France-Guyane no mesmo 10 de agosto, que parecia ser então a única a falar mais a respeito. O título é “Anaplasmose : une nouvelle maladie transmise par les tiques découverte chez un orpailleur illégal” (Anaplasmose: uma nova doença transmitida por carrapatos e detectada num garimpeiro ilegal), cuja fonte indicada é uma newsletter da Agência Regional de Saúde (ARS) da Guiana, lançada no dia anterior. Todos os possíveis problemas de tradução são meus, e estou disponível pra ouvir críticas, correções e sugestões.



Uma nova bactéria transmitida por carrapatos foi descoberta na Guiana Francesa

Pesquisadores do Hospital de Caiena e do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS) em Montpellier descreveram uma nova doença transmitida por carrapatos: a anaplasmose de Sparouine. Ela foi descoberta em paralelo ao projeto Malakit num garimpeiro clandestino que tinha passado por uma remoção do baço. Ele teve de permanecer hospitalizado por várias semanas por estar sofrendo de febre, dores musculares, dores de cabeça, sangramentos nasais e anemia severa. Até então, a bactéria era desconhecida. Batizada de Anaplasma sparouinense, foi descoberta nos glóbulos de um garimpeiro clandestino doente. Ele teve de permanecer hospitalizado por várias semanas em Caiena.

Num artigo publicado este mês na revista Emerging Infectious Diseases (Doenças Infecciosas Emergentes) e resumido pelo Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS) [clique aqui, em breve também vou traduzir], as equipes do Hospital de Caiena e do CNRS em Montpellier comunicaram sua descoberta.

Como os anaplasmas foram identificados – Tudo começou com o Malakit. Esse projeto de pesquisa visava determinar a eficácia da distribuição de kits de autodiagnóstico e automedicação dados a garimpeiros ilegais. “Enquanto realizávamos nossos estudos, que concernem principalmente à malária, aproveitamos pra observar o estado de saúde geral das pessoas. Existe um interesse individual pela pessoa e um interesse de saúde pública”, recorda a dra. Maylis Douine, do Centro Hospitalar de Caiena (CHC). Desde o primeiro estudo Orpal, em 2015, os pesquisadores estudam as infecções sexualmente transmissíveis dos garimpeiros clandestinos. Durante a avaliação Orpal 2, em 2019, eles adicionaram as zoonoses: febre Q, hanseníase, leptospirose...

O CNRS em Montpellier, que trabalha com as doenças transmitidas por carrapatos, entrou em contato com eles. Ele desejava estudar as amostras recolhidas juntos aos garimpeiros clandestinos. Ele recuperou o DNA de bactérias, o amplificou pela técnica PCR e o comparou com as bases de dados do mundo inteiro. Foi assim que ele chegou a um anaplasma nunca antes descrito. Isso ocorreu há um ano. Alertados, os pesquisadores do Hospital de Caiena e do Instituto Pasteur da Guiana Francesa, onde estava armazenada uma parte das amostras, retomaram o material do paciente e os estudaram no microscópio pra tentar identificar os anaplasmas que penetram nos glóbulos vermelhos. “Efetivamente, visualizamos essas bactérias nos glóbulos vermelhos”, relembra a dra. Douine.

A bactéria foi então batizada de Anaplasma sparouinense, do nome do esteiro [crique] de Sparouine, onde o paciente dizia estar procurando ouro. “Esse novo agente patogênico pertence ao gênero bacteriano Anaplasma, cuja bactéria mais conhecida é a Anaplasma phagocytophilum, responsável pela anaplasmose granulocitária humana”, recorda o CNRS. “Essa zoonose emergente é responsável todos os anos por muitas centenas de casos, por vezes letais. Os estudos genéticos revelaram que o Anaplasma sparouinense é um novo agente infeccioso, diferente de todas as espécies conhecidas de Anaplasma.”

O Anaplasma sparouinense detectado num intervalo de 18 meses junto ao paciente – Os pesquisadores do Hospital de Caiena tentaram então saber que fim levou o garimpeiro clandestino. No momento da coleta, em 2019, ele não apresentava sintomas. Mas a dra. Douine e seus colegas descobriram que em abril de 2021, 18 meses depois das coletas efetuadas num ponto de apoio do garimpo clandestino e cerca de três meses antes da descoberta do anaplasma nas amostras, ele foi internado na Unidade de Doenças Infecciosas e Tropicais (Umit) pela equipe do Centro Deslocalizado de Prevenção e Cuidados (CDPS) de Grand Santi, devido a febre, dores musculares, dores de cabeça, sangramentos nasais e anemia severa. A bateria de exames realizada não revelou a origem de seus sintomas. Ele recebeu um tratamento antibiótico durante três semanas e retomou seu caminho.

Seu prontuário médico informa que ele tinha passado por uma esplenectomia (remoção cirúrgica do baço). O fato de não ter mais o baço pra exercer suas diferentes funções imunológicas de fato aumentou o risco de certas infecções. Seu prontuário permitiu igualmente retomar seu contato. Por telefone, ele indicou ter voltado a viver em casa, no Brasil. Ele autorizou igualmente o Hospital de Caiena a continuar com as pesquisas sobre seu caso. O anaplasma foi encontrado, sobretudo, nas amostras coletadas enquanto ele estava internado no hospital. O paciente, portanto, foi portador da bactéria por pelo menos 18 meses.

De sua parte, o CNRS ressalta que “na realidade existe todo um grupo sul-americano de anaplasmas emergentes, do qual o Anaplasma sparouinense é o primeiro membro descrito como infeccioso pro ser humano. A vida no garimpo, em contato direto com a fauna selvagem, sem dúvida foi um fator determinante pra passagem do agente infeccioso ao ser humano. Ainda é cedo demais pra afirmar a importância que a anaplasmose de Sparouine vai ter no futuro e qual risco sanitário a doença vai então poder apresentar pras populações sul-americanas. Porém, sua mera existência nos relembra que nosso conhecimento da diversidade dos agentes patogênicos que circulam nas zonas naturais isoladas continua sendo muito parcial. A expansão das atividades humanas nessas regiões vai inevitavelmente levar as populações a se exporem ao risco de emergência de zoonoses similares.”

Não há doença de Lyme na Guiana Francesa – Geralmente, quando alguém chega à Guiana vindo da França, a pessoa ouve que não há “problemas com os carrapatos da Guiana, porque eles não transmitem a doença de Lyme”. Isso é confirmado pela dra. Maylis Douine, do CHC: “O CNRS em Montpellier procurou a doença de Lyme em milhares de carrapatos da Guiana e nunca a encontrou. Ela também nunca foi diagnosticada por um clínico.” O prof. Loïc Epelboin (CHC) acrescenta: “Certas pessoas se convencem de que pegaram a doença de Lyme na Guiana, mas não se tem certeza de que realmente a tiveram, e no caso das que tiveram, não se tem certeza de que realmente a pegaram na Guiana.”

A descoberta de um caso de anaplasmose presumivelmente transmitida por um carrapato também não deve gerar preocupação: “Esse caso isolado apareceu num contexto particular, com um paciente que já não tinha o baço e, portanto, sem dúvida mais exposto. Não é preciso ter pânico dos carrapatos.”

No ano passado, o prof. Epelboin tinha aludido a 11 casos de alfa-gal, uma alergia à carne vermelha que poderia ser provocada por uma mordida de carrapatos. Porém, ele matizava: “Nossos resultados não permitem afirmar com clareza que as mordidas de carrapatos são a causa dessa alergia, mas todos os pacientes declararam estar regularmente expostos a esses artrópodes”. Pra ele, o principal problema que a população pode ter com os carrapatos é “o incômodo causado por suas mordidas”.



Visão parcial do esteiro (crique em francês) de Sparouine.

quarta-feira, 10 de agosto de 2022

O Hitler angolano e outros memes afro


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Provável ancestral dos Samussuku, rs. (Tô brincando, leia aqui o contexto da foto!)


Quando assisti a esta reportagem de maio de 2022 do canal France 24, intitulada “Angola : le lourd héritage de la guerre civile” (Angola: a pesada herança da guerra civil), não pude deixar de fazer o meme (ou algo parecido) sobre um dos rapazes que era entrevistado. Hitler Samussuku (sim, isso mesmo que você leu) é um artista que vive ao norte da capital Luanda e é filho de uma ex-combatente da UNITA, movimento armado que se opunha aos marxistas do MPLA, hoje força governante de lá. A UNITA era financiada e apoiada pelos EUA, pelo regime do apartheid sul-africano e por outros países capitalistas, e depois da independência ante Portugal travou uma guerra civil com o MPLA até 2002, quando o líder daquela, Jonas Savimbi, foi morto.

O pior de tudo é que a senhora que batizou seu filho de Hitler ainda aparece na reportagem, mas não é questionada sobre o assunto. Nem na própria edição do programa foi feita qualquer menção crítica. Como se pode supor, o jovem faz canções contra o governo do MPLA, hoje comandado por José Lourenço, sucessor do longevo ditador José Eduardo dos Santos, falecido recentemente. Muitos marxistas roxos poderiam argumentar que a escolha do prenome foi natural, devido à militância de direita e ao suporte dado até pelos racistas da África do Sul. Porém, não dá pra se alegar que aquela mulher era totalmente ignorante e isolada do mundo, e que se precisa de muita idiotice e falta de noção pra batizar alguém com o sobrenome de um dos maiores assassinos e perseguidores de negros da história.

Como já faz um ano que perdi meu canal do YouTube, primeiramente divulguei o trecho, com leves montagens minhas (o que o transformou, a princípio, num meme), entre amigos do WhatsApp, sem tradução na narração francesa. Finalmente segue abaixo a versão em outra plataforma, mais a tradução em português e a transcrição em francês. Aproveitei a ocasião pra começar a republicar outros memes relativos à África que já estavam no antigo Pan-Eslavo Brasil, lançando assim a coleção “Afro memes”. Por sorte, a maior parte deles já tinha a descrição do vídeo salva, e elas formam o grosso desta publicação.

Espero de coração que você tenha gostado da brincadeira e que você não veja aí nenhuma forma de racismo ou preconceito. Se realmente tenha ficado ofendido ou pensa que algo poderia ser mudado, não deixe de me escrever, pois minha atenção será sincera. Já adianto: não há nada aqui relacionado ao grande Rei do Kuduro, o youtuber angolano mais famoso no Brasil, hehehe... “Ai, minha vuaida!”


NOTA: Exceto pelo que transcrevi diretamente do português, todo o resto é uma tradução do francês, que não pôde ser cotejado com o que foi falado pelo angolano.

Hitler Samussuku é um dos militantes políticos mais conhecidos em Angola. Ele escolheu o hip-hop pra reivindicar a mudança em seu país.

[Português no original] “Sempre que vier a noite, desejarás o dia, e quando vier o dia, desejarás a noite. E um aviso pra polícia: não entrem no processo, ou entrem e estejam da nossa parte!”

E em seus textos ele não hesita em afrontar diretamente o Presidente da República e encoraja os angolanos a sair às ruas.

“Vivemos numa sociedade em que a participação política é débil e as pessoas têm muito medo de se expressar, porque elas temem represálias e a repressão do governo. E encontramos no movimento hip-hop uma porta, uma janela pra transmitir nossa mensagem.”

Hitler é filho de Dorca, a antiga combatente que encontramos em Luena. Se ela abandonou a política, traumatizada por 27 anos de guerra, ele considera que a paz não pode se limitar a um simples silêncio das armas. De sua localidade, ele reivindica uma vida melhor pros angolanos.

“Estamos no município de Cacuaco, localizado ao norte de Luanda. É uma localidade com índices muito elevados de pobreza, criminalidade, prostituição e analfabetismo. Este é o portão de uma casa. O esgoto passa bem em frente, e todo mundo pensa que isso é normal.”

Seu engajamento lhe valeu detenções e prisões por várias vezes: em 2015 junto com 16 outros militantes, por terem animado um grupo de estudos em torno do conceito de resistência não violenta; depois novamente em 2019, acusado de ter insultado o presidente num vídeo publicado no YouTube.

“Pra mim, viver em paz seria viver numa sociedade de justiça. Não digo numa sociedade justa, mas pelo menos com uma justiça, com a separação dos poderes legislativo, executivo e judiciário. Eu estou me engajando, exatamente como minha mãe tinha se engajado a lutar pela paz, estou me engajando a lutar pra que o MPLA deixe o poder, pra termos alternância em Angola e contribuirmos pro desenvolvimento do país.”

Portanto, pra Hitler e seus camaradas, 20 anos após o fim da guerra, a paz ainda está pra ser construída.

[Português no original] “Água, luz, saúde, educação! Água, luz, saúde, educação! Cacuaco, mais humilhado na gestão! Cacuaco, mais humilhado na gestão! Iééé, resistência, sempre! Resistência, sempre!”

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Hitler Samussuku est l’un des militants politiques les plus connus en Angola. Il a choisi le hip hop pour réclamer le changement dans son pays.

“Sempre que vier a noite, desejarás o dia, e quando vier o dia, desejarás a noite. E um aviso pra polícia: não entrem no processo, ou entrem e estejam da nossa parte!”

Et dans ses textes il n’hésite pas à s’attaquer directement au Président de la République et encourage les Angolais à descendre dans les rues.

“Nous vivons dans une société où la participation politique est faible et les gens ont très peur de s’exprimer, parce qu’ils ont peur de représailles et de la répression du gouvernement. Et nous avons trouvé dans le mouvement hip hop une porte, une fenêtre pour transmettre notre message.”

Hitler est le fils de Dorca, l’ancienne combattante que nous avons rencontrée à Luena. Si elle a abandonné la politique, traumatisée par 27 [vingt-sept] années de guerre, lui considère que la paix ne peut pas se limiter à un simple silence des armes. Depuis son quartier, il réclame une vie meilleure pour les Angolais.

“Nous sommes dans la municipalité de Cacuaco, dans le quartier nord de Luanda. C’est un quartier avec des indices très élevés de pauvreté, de criminalité, de prostitution et d’analphabétisme. Ça c’est le portail d’une maison. Les eaux usées passent juste devant, et tout le monde pense que c’est normal.”

Son engagement lui a valu d’être plusieurs fois arrêté et emprisonné : en 2015 [deux-mille-quinze], au côté de 16 [seize] autres militants, pour avoir animé un groupe d’études autour du concept de résistence non-violente ; puis de nouveau en 2019 [deux-mille-dix-neuf], accusé d’avoir insulté le président dans une vidéo posté sur YouTube.

“Pour moi, vivre en paix, ce serait vivre dans une société de justice. Je ne dis pas dans une société juste, mais au moins avec une justice, avec la séparation des pouvoirs législatif, exécutif et judiciaire. Moi, je suis engagé, tout comme ma mère s’était engagée à lutter pour la paix, je me suis engagé à lutter pour que le MPLA quitte le pouvoir, pour avoir l’alternance en Angola et contribuer au développement du pays.”

Pour Hitler et ses camarades, 20 [vingt] ans après la fin de la guerre, la paix reste donc encore à construir.

“Água, luz, saúde, educação! Água, luz, saúde, educação! Cacuaco, mais humilhado na gestão! Cacuaco, mais humilhado na gestão! Iééé, resistência, sempre! Resistência, sempre!”


Este meme francês é antigo, de 2015, e vários canais fizeram remix com ele, como o Khaled Freak, onde descobri tal figura. Mesmo assim, pela quantidade de visualizações e comentários, outra publicação pode ter sido a original. Um cidadão gabonês chama o presidente Ali Ben Bongo de “Cafaaaard!” (Baraaaata!), na frente das câmeras do canal de notícias France 24, de uma forma bastante louca e alterada.

Ali Bongo Ondimba (ou ainda Ali Ben Bongo), nascido Alain-Bernard Bongo em 1959, é presidente da república africana do Gabão desde 2009, e foi reeleito em 2016, ambas as votações contestadas por seus opositores. Ele próprio é filho do presidente anterior, Omar Bongo, que praticamente foi dono do país de 1967 até a morte, algo não incomum na África pós-colonial. Pra você ver, o Gabão, que tem mais de 80% da população cristã, ficou independente da França em 1960, e de lá até 1967 governou seu primeiro presidente, Gabriel Léon M’ba

Cafard” (barata) em francês é masculino, por isso Ali Bongo é assim chamado. Equivaleria a ser chamado de “rato”, “cachorro”, “porco” ou algo assim em português. Curiosidade: “avoir le cafard” (literalmente “ter/estar com a barata”) é um idiomatismo que significa “estar triste, deprimido”). Divirta-se com esse carinha que, à maneira do corajoso haitiano do Alvorada, parece ter adivinhado a atual situação brasileira!

Texto do clássico: “Nous voulons parler avec de vraies personnes [sic]. Ali Ben c’est un cafaaaard. Allez montrer ça à toutes les télévisions ! Ali Ben c’est un cafaaaard !”


O professor Imran Hamza Alawiye, nigeriano radicado em Londres, tem o canal que considero ser o melhor instrumento pra aprender o árabe padrão moderno, e mesmo alguma coisa de vários dialetos. Sua própria playlist especial só pra ensinar todos os detalhes da escrita árabe (não é apropriado falar em alfabeto, mas antes em abjad) já valeria pelo canal todo, mas ele continua atualizando constantemente seu YouTube com exercícios e explicações gramaticais!

E além de seus livros físicos constituírem um excelente e agradável material de estudo (comprei alguns deles no fim de 2021), o professor mantém sua jovialidade, leveza e bom-humor, sem forçar nenhum desses sentimentos, e suas explicações são claras e detalhadas. Claro que sua pessoa não seria “engraçada“ por si só pra constituir um meme (como fizeram com a diplomata Cláudia Assaf ensinando a falar a letra “ayin”), mas volta e meia alguns detalhes podem fazer rir.

Veja por exemplo este momento em que ele ensina a palavra árabe sákana, apenas pra ilustrar o aprendizado da escrita. Depois descobri que é a palavra equivalente a “morar, residir, descansar etc.” (o árabe não tem infinitivo, então literalmente significa “ele mora/morou etc.”), mas pros não iniciados, parece que ele fala a palavra portuguesa “sacana”. Assim, o meme tinha ficado no YouTube como “Professor ensina a dizer político em árabe”, hehehe. Mas agora que já expliquei, deve ter perdido a graça!


É uma pena que este vídeo perdido de junho de 2010 esteja num canal igualmente perdido, tenha poucas visualizações e nenhuma apresentação. Parece ter sido feito exatamente por brasileiros!

Alguém já ouviu falar de uma “língua dos cliques” usada na África subsaariana? Acabei indo pesquisar sobre ela e, como muitos, caí nesse vídeo, no qual apenas alguns comentaristas bem posteriores explicam do que se trata. Prepare-se: o nome dessa língua é “tâa ǂâã”, e também é conhecida como “ǃxóõ”, ou apenas “língua taa”.

Nativa dos atuais Botsuana e Namíbia, em 2011 tinha cerca de apenas 2500 falantes nativos. Pertence à família khoisan (ou coissã) e considera-se que é a língua com mais sons no mundo, tendo 31 vogais pelo menos e 86 sons “clique”, grafados por diversos símbolos misturados ao alfabeto latino (isso nas raras ocasiões em que se escreve, claro). Sem contar a multitude de sons que pode ser feita com diversas partes do aparelho fonador!

Esta matéria da revista Superinteressante (2014) fala sobre os idiomas considerados mais “estranhos” e inclui essa língua !xóõ.


Infelizmente, após 12 anos, este “meme raiz” só obteve pouco mais de 20 mil visualizações. Eu mesmo, naquela época mesmo ou antes, devo tê-lo recebido pela primeira vez no e-mail, que era onde o humor circulava antes das redes sociais. Ele tem inclusive legendas, e foi filmado numa rua movimentada de Moçambique, talvez da capital Maputo, quando um militante do partido Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) dava um suposto comício improvisado aos passantes. Ele estava acompanhado de outra pessoa, que fazia uma espécie de interpretação pra surdos, mais humorística do que prática, e seus trejeitos acabaram criando esse “meme antes dos memes”!

Afora o fato da usuária (talvez portuguesa) Joana Gonçalves ter indicado “linguagem gestual” na descrição, não há outras informações sobre o contexto. Essa foi a primeira vez em que ouvi a palavra “suruma”, uma expressão pra “maconha” em Moçambique, dando em “surumáticos” (maconheiros), talvez uma alusão a dependentes em geral. Apenas fiz algumas edições, removendo as tarjas pretas e melhorando o áudio e a imagem.

Uma coisa que pode enganar é que Viva a Frelimo é justamente o nome do hino desse partido de esquerda. O “texto” completo é o seguinte, cada frase repetida 2 vezes: “Viva a Frelimo! Viva a agricultura, que é a base da alimentação do nosso povo! Abaixo os corruptos! Abaixo os surumáticos! Abaixo a prostituição! Muito obrigado, meus amigos.”

English: A militant of the party Frelimo in Mozambique speaking to the people, with a joking gesture language “interpreter” (ca. 2010): “Long live Frelimo! Long live agriculture, that is the basis of our people’s alimentation! Down with the corrupt politicians! Down with the potheads! Down with prostitution! Thank you very much, my friends.”

Français : Un militant du parti Frelimo à Mozambique parle au peuple, accompagné par une personne qui « interprète » son discours vers une langue des signes humoristique (ca. 2010) : « Vive la Frelimo ! Vive l’agriculture, qui est la base de l’alimentation de notre peuple ! À bas les politiciens corrompus ! À bas les fumeurs de marijuana ! À bas la prostitution ! Merci beaucoup, mes amis. »


Não há muito o que explicar: este é Fezinho Patatyy, o maior astro da dança popular de rua chamada “passinho do romano”, colocado numa montagem cuja canção de fundo foi trocada pelo nashiid de alguma organização terrorista islamo-sunita com leve remix de funk. Humor bem nerd mesmo. Devido à origem musical (embora eu nunca tivesse descoberto o significado da letra), quando publiquei no antigo Pan-Eslavo Brasil, o YouTube o apagou quase imediatamente... Mas quem me passou primeiro foi alguém no antigo grupo do canal no WhatsApp.

Em árabe, nashiid significa hino político ou nacional, ou também hino religioso islâmico. Em outra oportunidade, vou publicar também antigos vídeos do canal que tinham brasileiros dançando passinho ao som de música georgiana e um tártaro dançando ao som do “passinho maloca”, hehehe.


segunda-feira, 25 de julho de 2022

Velha rixa entre Bielorrússia e Belarus


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Eu estava pra publicar este texto dentro de alguns dias, mas como neste domingo, 24/7/2022, o Fantástico da Rede Globo transmitiu uma reportagem sobre os refugiados da guerra na Ucrânia alocados no país que ele chama de “Moldávia”, resolvi editar e lançar nesta segunda-feira seguinte, pra ver se o povo conseguia fazer alguma relação. Com efeito, a exibição da entrevista completa do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky à Globo no mesmo programa também parece ter feito aumentar a procura por material sobre a Ucrânia em minha página, de ontem pra hoje. E aleluia, parece que finalmente a “Crarrembú” parou de pronunciar “Volodomír”: teria sido por efeito do meu meme? Hahaha.

Há uma ou duas semanas, conheci por acaso um canal de história no YouTube que achei tão fraco e cheio de imprecisões (nos vídeos que acompanhei sobre os temas que domino, obviamente não posso julgar todo o material) que nem acho digno de citar aqui. Só posso dizer que os donos não são formados na área (o apresentador principal, pelo menos, vem de outro curso de humanas), e isso se revela na sofrível leitura de nomes estrangeiros, mesmo razoavelmente fáceis, e no pobre material que citam nas descrições, que vai da Enciclopédia Britannica até a revista Aventuras na História, passando por reportagens insossas da mídia liberaloide cheirosa. Nas descrições que cheguei a ler, pelo menos, não vi citado um livro sequer, e no caso de um evento específico, citaram um livro velhíssimo, ignorando toda uma bibliografia séria e consolidada feita sobre o assunto! Dica: este evento entrou na minha dissertação e também vai entrar na minha tese, o que me dá bastante autoridade pra criticar.

Ao assunto em específico, um dos vídeos, que devia ser de agosto ou setembro de 2020 (elaborando os rascunhos, não me dei ao trabalho de voltar ao canal pra retificar dados), falava especificamente da história de Belarus, ou melhor, do país que eles chamavam de “Bielorrússia”. Reconheço que o argumento foi muito bem feito, não há erros ou imprecisões graves e nosso amigo, embora em vários vídeos me pareça ceder ingenuamente aos consensos ocidentais, deu os nomes corretos aos bois: “Lukatchenko” (ai!) é um ditador, Putin também e o primeiro não passa de um vassalo do segundo.

Se pro Alvaro Borba, do canal Meteoro, o gênero mais em voga no Brasil de hoje é a nota de repúdio, penso que há outro, mais antigo e universal, que amo ler de paixão quando tenho tempo, em vídeos de qualquer país cuja língua eu entenda, e às vezes vale mais do que o próprio vídeo: os comentários de YouTube. O vulgo consegue ser mais astuto que muitos jornalistas, e mais engraçado que nossos decadentes “humoristas”, muitas vezes revelando bem mais sobre um canal e seu público do que o próprio conteúdo a que se reage. No caso do vídeo sobre a “Bielorrússia”, obviamente teria aqueles moleques incel que se instruem pelo Instagram, se acham revolucionários de sofá e sequer escrevem português direito, defendendo as ditaduras russa e (aí sim!) belarussa e aceitando o cenário idílico que os próprios regimes pintam. O vídeo era “de moda” (ou “de onda”, se preferir), pois foi feito na esteira dos maiores protestos que Belarus já tinha conhecido contra Aleksandr Lukashenko e até aventava uma iminente deposição sua, o que não aconteceu, como sabemos.

Nem reajo mais a esses minions nem me impressiono com o teor das besteiras, até me divirto com a falta de utilidade que as escolas e universidades têm demonstrado no Brasil. Estou sofrendo, porém, de um grande problema ultimamente: minha veia de linguista amador tem aflorado muito mais do que minha formação de historiador. Dessa forma, nem me espantei com o uso difundido de “Bielorrússia” no vídeo: foi apenas desinformação ou, talvez, falta de pesquisa mais acurada. Mas uma afirmação em certos comentários, que já vi também em outras mídias, dizia que “Belarus” seria a versão do nome apenas em inglês, enquanto “Bielorrússia” (que os sites de língua portuguesa dizem ser mais correto ao invés de “Bielo-Rússia”) seria a tradução em português.

A afirmação era feita em comentários isolados, ou mesmo em resposta a outros que advertiam o autor quanto à correção de “Belarus”. Contudo, um totalmente desinformado, feito por alguém que vou identificar como RBC, felicitou o youtuber por não ter “cedido ao modismo” de usar o que ele considerava nome em inglês, isto é, “Belarus”. Não sou de criar tretas, mas dessa vez meu sangue subiu e comentei algo do tipo (não copiei o texto): “Tu bebeu? Não é só inglês, mas o correto! Cê é louco...”. O que se segue é uma edição mínima do diálogo, que revela, na verdade, a arrogância e o desconhecimento do interlocutor (que não são exatamente uma resposta à minha invectiva que nem tão ofensiva foi), e que acabou me levando a fazer pequenas pesquisas que, por sua vez, levaram à redação de um verdadeiro “tratado”, como disse o moço.



RBC – Como é cômico ver abestalhado querendo dar uma de esperto... Para começo de conversa de tudo, o idioma nativo de lá usa o alfabeto cirílico, e assim sendo nem pronúncia e muito menos a escrita não tem nada a ver nada a ver com a palavra Belarus... E mesmo que fosse mesmo esse o caso de o nome nativo de lá ser mesmo esse [“fosse”? Mas é de fato, caralhas!], quando nos referimos por exemplo à Alemanha, usamos o termo “Deutschland”. Passou uma vergonha desnecessária, hein, amigo. [Só se for vergonha alheia...]

E sim, Belarus para sua informação é sim a forma em inglês de se referir a esse país (que diga-se, de passagem, é um país lascado da miséria, medíocre tal qual a grande maioria dos da América Latina, entre outros). [O que isso tem a ver? Na verdade, o nível de vida lá é até bem alto, e a população é muito instruída. “Medíocre”? Haja desinformação e xenofobia...]

Erick – Já vi que você não entende os argumentos dos belarussos, misturou alhos com bugalhos e conhece pouco ou nada de linguística. Por isso, vou detalhar educadamente:

1) Sou fluente em russo e conheço as bases da escrita e pronúncia belarussas. Mas esse não é argumento de autoridade, porque russos e belarussos sempre me falam as mesmas coisas.

2) Belarus (Беларусь) e belaruski (беларускі) são país e adjetivo em belarusso, Belorussia (Белоруссия) e belorusski (белорусский) são idem em russo. Belarusso e russo são idiomas diferentes, embora irmãos, e em Belarus o russo se impôs, sobretudo, por dominação cultural, política e econômica.

3) Isso que você disse não tem nada a ver com “alfabeto diferente”, e sim com transliteração: “Belarus” é a transliteração do belarusso, e “Belorussia” é a transliteração do russo.

4) Não, “Bielorrússia” e “bielorrusso” (grafias mais corretas) são a adaptação da versão russa, e não uma “versão em português”. Na verdade, a comparação mais justa é com você chamar a Ucrânia de Malorossia ou “Pequena Rússia”, como no século 19.

5) Com as independências face à URSS/Rússia, há um movimento pra que internacionalmente se usem transliterações ou adaptações dos nomes nativos, e não de suas versões russas. Ou seja, Kyiv ao invés de Kiev, Chornobyl ao invés de Chernobyl, Kharkiv ao invés de Kharkov, Luhansk ao invés de Lugansk... Por isso o certo também seria escrever “Sviatlana Tsikhanouskaya”, e não “Svetlana Tikhanovskaya”.

6) Os movimentos que lutam contra esse ditador e contra o esmagamento da língua belarussa pela russa também sempre alertam sobre o máximo uso possível de nomes nativos. Ou seja, é questão de costume e conscientização nos adaptarmos a “Belarus” vindo de “Беларусь”, “belarusso” vindo de “беларускі” etc.

7) Não se devem confundir esses casos com formas nativas que foram sendo forjadas em séculos de contato, como Moscou, São Petersburgo, Londres, Tóquio, Pequim... Pra você ter noção, nem se usavam esses nomes “ucraniano” e “bielorrusso” no português até o século 20. Se “bielorrusso” foi uma criação que, na verdade, se deve à língua do dominador, tá na hora de corrigir uma injustiça histórica e alavancar o uso de “belarusso” a partir de “беларус” (substantivo de pessoa) e “беларускі” (adjetivo). Sem essa balela, provavelmente pró-Rússia, de que são formas baseadas no inglês, esta língua sim, em todo caso, mais fiel à verdade histórica...

Só pra complementar, eu sou historiador do período comunista, e como apaixonado por idiomas, também sempre me deparei com essa questão de nomes e transliteração. Pessoalmente reservo as formas “Bielorrússia” e “bielorrusso” pra república da era soviética, e “Belarus” e “belarusso” pro país atual ou pro idioma em geral. Da mesma forma, uso “Moldávia” (do russo “Молдавия”) e “moldavo/a” pra era soviética, e “Moldova” e “moldovo/a” pro país atual, estas segundas baseadas no romeno. Além disso, sempre procuro transliterar os nomes de cidades ucranianas pelo nome em ucraniano, e não em russo. Pra uma argumentação melhor sobre “Belarus” e “belarusso”, procure as mídias das embaixadas populares de Belarus pelo mundo [nota: o perfil da embaixada popular no Brasil comentou a respeito no vídeo, mas foi rebatido por um tudólogo, ou melhor, nadólogo], porque a ditadura cruenta de Lukashenko não representa ninguém senão seu próprio estômago e o de seu ventríloquo Putin. Recomendo ainda os vídeos e textos da tradutora exilada Volha Franco, que também trabalha pro movimento de resistência.

[Mas como tentar instruir um brasileiro de smartphone é pior do que jogar pérolas aos porcos, e como dizia “o Olavo”, mais vale vencer um debate do que ter razão...]

RBC – Ô louco... o cara escreveu um tratado para me refutar, hahahahaha... Porém, nada do que você disse tira a minha razão sobre o que eu tinha colocado a princípio sobre Belarus ser o nome desse país na língua inglesa [meio óbvio, né?], e não fazer sentido nenhum falantes de português usarem o termo usado pelos nativos de um determinado país para se referir a este, ao invés de usarem a palavra que já existe no seu próprio idioma para se referir a este país. [Ele pensou no exemplo de “Deutschland”, que vocês vão me ver rejeitando abaixo.]

De qualquer forma, outra hora lerei com mais atenção tudo o que você escreveu nessas mensagens extremamente embasadas, pois não há dúvida que você possui muita propriedade quanto às questões que envolvam a Rússia e os países da antiga União Soviética. E desculpe por eu acabar não tendo a devida maneira na forma de me expressar. [Vamos fazer justiça a nosso amigo, mas já era, hehehe.]

Erick – Imagine, às vezes também acho que exagero um pouco, sobretudo porque escrevo demais. Eu não gosto de “refutar” as pessoas em “debates”, gosto de ensinar e informar sempre que possível.

Mas insisto novamente que você não entendeu meu ponto, porque “Bielorrússia”, repito, não é um aportuguesamento do nome nativo, e sim do nome do país em russo. Por isso deve ser evitado. E achei sua posição menos aceitável do que a do youtuber, porque este pelo menos talvez não soubesse da disputa de nomes, agora você jogou pra geral que usar Belarus é “modismo de falar em inglês”.

Vou parecer chato, mas queria focar neste ponto: você disse que “não devemos usar termos nativos, e sim os que já existem em nosso idioma”. Usou o exemplo de “Deutschland”, que é totalmente descabido, porque “Deutschland” e “Alemanha” têm apenas origens linguísticas diferentes. Dois casos que talvez fossem mais próximos do de Belarus são os de Suazilândia/Essuatíni e Birmânia/Mianmar. Quatro termos que existem perfeitamente em português, mas se referindo a visões políticas e culturais diferentes. A diplomacia oficial usa as segundas opções. É a mesma coisa que querer chamar o Uruguai de Cisplatina ou a Etiópia de Abissínia.

Já falei e vou repetir: existem dois nomes do país em questão, que são “Belorussia” em russo e “Belarus” em belarusso (mas ambos em cirílico, claro). Ao contrário do que pensam os Camõezinhos de araque, existe sim a forma Byelorussian em inglês, que hoje é considerada “alternativa” (seja lá o que o Wiktionary queira dizer com isso) a Belarusian. E também em português, “Belorussia” deu em “Bielo-Rússia” (que, pelo Acordo de 1990, deve ser escrita “Bielorrússia”), e “Belarus” deu nisso mesmo, em que obviamente transliteramos, mas podemos pronunciar à brasileira (porque não exigeuma mudança pra adequar à fonética brasileira, como Slovensko que é “Eslováquia”, e Abkhazia que é “Abecásia”, ambos com E). Ou seja, ambas as formas existem plenamente em português, e não “uma só”.

Qual delas usar? Claro que às vezes depende do ponto de vista político. Eu acho que a russificação da região foi forçada, e devemos preferir as formas nativas. Na TV estatal russa, ainda se usam “Belorussia” e “Moldavia”, mas mesmo em Belarus, até nos documentos em russo, o nome oficial passou a ser “Belarus” (Беларусь). Portanto, “belarusso” também é a derivação lógica de “belaruski”, porque tanto o nome da Rússia (“Rossiya”) quanto o da antiga confederação eslava oriental (a Rus que realmente entra no nome de Belarus) vieram da mesma palavra “Rus”, que só têm o gentílico “russo” em português. Pro “russo” como cidadão da Federação Russa, que é “rossianin” (россиянин), e nem sempre o “russki” (русский) étnico, houve um “russiano” que com o tempo não conseguiu colar.



Depois desta última mensagem, RBC não me respondeu mais, obviamente porque ele já ia “debruçar-se” sobre as respostas anteriores, que em sua estranha percepção literária se assemelhavam a “tratados”. Também não fiz questão de esperar possíveis novas aparições suas, então apaguei meus comentários ao vídeo e apenas copiei a conversa pra esta página.

Pra encerrar, preciso apenas fazer um disclaimer: se você frequenta minha página há muito tempo ou tem lido várias postagens, deve ter percebido que vários textos ainda têm a forma “bielo-russo” (grafia “errônea” de “bielorrusso”), mesmo se referindo à Belarus pós-soviética. Algumas postagens em que precisei corrigir outros aspectos também já receberam a forma “belarusso”, mas como a página está passando por uma reforma geral que não tem previsão de término, essa injustiça vai continuar visível por algum tempo, mesmo que a princípio eu não mais concorde com ela.


sábado, 25 de junho de 2022

Turquia só quer ser chamada “Türkiye”


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Este artigo muito interessante em francês foi publicado no site da Rádio França Internacional em 21 de junho de 2022. Seu título traduzido é A partir de agora, a Turquia se faz chamar “Türkiye”: Ankara deseja impor internacionalmente a denominação “Türkiye”, e a autora é a jornalista Anne Andlauer, correspondente da RFI em Istambul. Recentemente, o presidente turco Erdoğan impôs o uso do nome nativo da Turquia (“Türkiye”) nas organizações internacionais, alegando diversos motivos culturais e nacionalistas bastante estranhos. A verdade é que ele não quer mais ver a difusão do nome inglês “Turkey”, que na mesma língua também significa “peru”, a ave que comemos no Natal, embora essa seja uma particularidade anglófona. Forças políticas na Turquia querem ver a iniciativa expandida pra outras línguas e outros domínios, sobretudo o jornalismo, embora na vida dos próprios perus turcos (que sofrem com crise econômica e autoritarismo) isso não tenha influência alguma.

Eu mesmo traduzi o texto diretamente do francês, e todos os erros e imprecisões são de minha responsabilidade. O grande problema é que várias expressões idiomáticas e trocadilhos que só fazem sentido em francês nem sempre puderam ser traduzidos literalmente, ou a aproximação não foi suficiente. Por exemplo, no primeiro subtítulo, diz-se que o nome “Turkey” seria muito “basse-cour”, que designa comumente o espaço numa casa ou sítio onde são criados animais domésticos, como galinhas, cabras e coelhos. Mas a tradução literal dos elementos também daria “baixa corte”, ou seja, algo não nobre, ou plebeu. Deixei como “galinheiro”, que traz livres conotações em português. Perto do fim do texto, a expressão “peruada”, às vezes significando “palpite, galanteio, sondagem, passeio, dar uma volta”, substitui “histoire de dindes”, literalmente “história de perus”, mas significando “conto de Natal”.

Como o tema é bem interessante, dediquei uma segunda parte de minha própria autoria a uma breve explicação sobre por que essa ave tem tantos nomes, sem ser exaustivo. Embora por razões diversas, podemos lembrar também casos recentes de países que mudaram de nome e desejaram ser chamados de outra maneira em outras línguas, como a Suazilândia, que se tornou Essuatíni, a Birmânia, que se tornou Mianmar, e a Bielo-Rússia, que se tornou Belarus. E no final, um gráfico muito interessante e didático que achei na internet.


A Turquia mudou oficialmente de nome na arena internacional. Não se diz mais Turkey em inglês, Turquie em francês ou Türkei em alemão, mas “Türkiye” em turco e em todas as línguas.

As Nações Unidas (ONU) registraram oficialmente essa mudança no início do mês, a pedido das autoridades turcas e na sequência de uma circular presidencial assinada em dezembro passado. Nela, Recep Tayyip Erdoğan justificava essa decisão explicando que a denominação “Türkiye representa e expressa da melhor forma a cultura, a civilização e os valores da nação turca”. Assim, pede-se a todas as instituições internacionais (OTAN, União Europeia etc.) e todos os representantes estrangeiros que utilizem “Türkiye” e nada mais em seus documentos oficiais, suas declarações públicas, suas publicações nas redes sociais... Os jornalistas também são estimulados a habituar-se à novidade.

Um nome considerado muito “galinheiro” – Mesmo se ninguém no governo turco diz abertamente, era a tradução em inglês do nome do país, Turkey, que trazia problemas. Sem inicial maiúscula, a palavra também significa “peru”, isto é, a ave, o galináceo cuja imagem aparece na tela quando você digita “turkey” numa página de busca. Ao que parece, a conotação não agradava às autoridades, que então quiseram modificar o que é de alguma forma a “marca”, a “imagem de marca” do país na arena internacional.

A ideia não é nova: desde os primeiros anos da República, fundada em 1923 sobre os escombros do Império Otomano, alguns já haviam lamentado a associação, no espírito dos falantes de inglês, entre o jovem Estado e a ave de galinheiro. Na década de 1990, certas empresas tinham optado por exportar seus produtos sob a denominação Made in Türkiye. A partir de agora, todas elas devem fazê-lo.

Na prática, a mudança não é tão simples. Nas versões em línguas estrangeiras dos sites oficiais do governo e da administração turcos, bem como de suas embaixadas no exterior, todas as novas publicações estão usando o termo Türkiye. Mas nos artigos mais antigos, ainda se encontram Turkey, Turquie, Turquia para todos os gostos.

Da parte das autoridades estrangeiras, percebe-se um esforço, sobretudo nas conferências de imprensa com seus homólogos turcos, para empregar o termo apropriado. Mas a memória costuma traí-los quando o discurso se torna mais improvisado. Quanto às embaixadas e aos consulados daqui, nada mudou em seus sites oficiais. Estados Unidos, Alemanha, França, Rússia... Por enquanto, cada país continua com sua tradução de Türkiye.

Afagar o nacionalismo turco – Esse novo nome dado à nova Turquia não desperta um interesse excepcional entre os turcos, para quem seu país se chama Türkiye de qualquer jeito. Por outro lado, nas redes sociais, é interessante observar quem continua usando uma tradução em suas publicações em outras línguas, e quem adotou prontamente o Türkiye, num gesto de zelo nacionalista. Isso porque, obviamente, Erdoğan não está meramente fazendo uma peruada com essa decisão: ele mesmo constantemente se ocupa em insuflar o fervor nacionalista. Essa mudança de nome na arena internacional, muitas vezes comentada pelo atual presidente, alimenta esse discurso a um ano das eleições e do centenário da República da Turquia... ops, quer dizer, da República da Türkiye.


A ave que chamamos peru e que recebeu a designação científica de Meleagris gallopavo recebeu o nome inglês de turkey por causa de uma confusão linguística e histórica. Ela começou a ser importada de Madagascar em 1540 por mercadores que chegaram à Europa após um desvio pela Turquia. Quando ficou conhecido na Inglaterra, entendeu-se que o peru tinha vindo da Turquia, portanto recebeu o nome turkey. Nota: embora na época o Império Otomano não se chamasse Turquia, a etnia já tinha esse nome.

Em turco mesmo, a bela ave se chama hindi, porque teria vindo da Índia; mesmo em francês, no século 16, Rabelais falava de poulle d’Inde (galinha da Índia, daí o dinde atual). O próprio hindi emprestou seu piiruu do português, embora outros digam que seja do persa pil morgh (galinha-elefante, por ser o maior dos galináceos). Em alguns países árabes, como o Líbano, peru se diz diik habash (galo da Abissínia, isto é, da Etiópia); no Egito, diik ruumi (galo romano), e na Grécia, galopoúla (galinha gaulesa).

Porém, o grande problema é que no início da Idade Moderna, muitos confundiam o Meleagris gallopavo com a Numida meleagris, nossa galinha-d’angola (guineafowl em inglês), esta sim vinda da África. O peru-selvagem (do qual descende o peru-domesticado), na verdade, veio da América do Norte, sobretudo dos EUA atuais, continente que inicialmente foi confundido pelos navegadores com as procuradas Índias. No fim das contas, os primeiros portugueses que conheceram o peru foram os que mais se aproximaram, pois achavam que ele vinha da região do atual Peru.

Este conteúdo vem de um artigo escrito por Laura Lavenne, mais pesquisa minha na Wikipédia e no Wikcionário. Segundo outro artigo, escrito por J. M. Moreau, outra hipótese é que o nome inglês turkey tenha vindo do som emitido pelo peru, que aos ouvidos ingleses soava não como “glu, glu, glu”, mas “turk, turk, turk”.



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terça-feira, 21 de junho de 2022

Como desbloquear e ler artigos pagos


Link curto pra esta postagem: fishuk.cc/artigos


Você já teve vontade de ler um artigo na página eletrônica de algum periódico, mas se deparou com aquele irritante bloqueio que afirmava ser “conteúdo exclusivo para assinantes”? Você já foi seco clicando no título de alguma matéria, mas não conseguiu a informação de que tinha vontade? Como diriam as Organizações Tabajara, seus problemas acabaram! Ou pelo menos em parte, a menos que você realmente não queira pagar os velhos jornalões, embora atualmente as assinaturas estejam relativamente baratas.

Na maioria dos casos, você quer apenas ler ou consumir um conteúdo específico, e não desfrutar eternamente das propaladas benesses de assinar os jornais ou mesmo, por exemplo, o portal UOL. Muitas formas de driblar essa restrição já foram publicadas nas redes, e a aparente parada do serviço Outline.com, que desbloqueava textos após postarmos seus endereços, obrigou-nos a procurar por saídas. Num momento crítico pro Brasil e pro mundo, em que a informação deveria ser um bem público e em que a democracia se vê atacada por todos os lados, com as mídias sociais invertendo a função que tinham quando surgiram, as corporações ainda veem os conteúdos mais banais como um meio de encherem os bolsos.

Nada mais justo do que uma pequena gambiarra de vez em quando. Até porque aqueles que dizem se bater pela democracia, na verdade, ajudaram a naturalizar a opressão durante todos esses anos. Outra grande sacanagem é que a Folha, por exemplo, não avisa quando um conteúdo é pago ou não, enquanto o Estadão coloca um cadeadinho ao lado de cada manchete exclusiva. A solução é simples e também funciona nos celulares, mas exige um pouco de atenção por parte do usuário: devemos desautorizar a execução de JavaScript pelo navegador, porque ele é que possibilita o recurso ao fechamento.

O JavaScript é uma tecnologia que facilita e incrementa muito nossa experiência de navegação na internet moderna. Várias falhas que nos irritavam durante o consumo de mídias nos anos 2000 hoje são raramente encontradas quando vemos vídeos, conversamos em plataformas sociais ou consumimos conteúdo interativo. Por isso, não é recomendado que se deixe o recurso desligado o tempo todo, pois pode atrapalhar muito o uso de outros sites mais modernos. Usando o Microsoft Edge como exemplo, que também deve valer pro Google Chrome por ter a mesma tecnologia, é possível adicionar exceções, mas nesse caso não tive sucesso, e quem souber fazer isso, sinta-se à vontade e me informe pelo WhatsApp. A questão é que a simples desativação do JavaScript já permite abrirmos qualquer artigo que queiramos xeretar.

Caso você tenha acesso a textos jornalísticos mais antigos, sobretudo das décadas de 1990 e 2000, verá não só como a aparência é muito mais simples, mas também quase sempre conseguirá abrir a página procurada. Isso mostra como o JavaScript veio melhorar a experiência dos internautas, bem como possibilitou mais recursos de controle por parte das redações, infelizmente. Fiz o vídeo abaixo de forma bem despretensiosa, com uma montagem bem tosca, pra ilustrar como é possível fazer o desligamento da autorização pra executar JavaScript. Qualquer sugestão ou crítica, recorra ao WhatsApp citado acima, e se você gostou, baixe também a versão pra celular do pequeno tutorial e espalhe em suas mídias!