Se já não disse aqui, escrevo agora: não gosto nem de jogar nem de assistir a futebol e só me interesso por ele na medida em que se relaciona a temas de minha predileção, como história, política, geopolítica, culturas e idiomas. E humor também, claro. E pra minha alegria, cada Copa do Mundo tem se tornado sempre mais geopolítica, sendo a deste ano o ápice do processo. A começar por se realizar em três países ao mesmo tempo, sendo que um deles, o Zesteite, se situa “de sanduíche” entre os outros dois, os quais, pra piorar, estão com as relações diplomáticas azedadas com o primeiro. E sempre pode ficar ainda pior: os três logo caíram fora do torneio, e o Canadá está literalmente “esfumaçando” a final que vai se realizar no vizinho do sul.
A coisa fica ainda mais divertida com a popularização das redes sociais, hoje facilmente portáveis nos smartphones a um bolso de distância. Mesmo quem não as usa acaba recebendo respingos das intermináveis discussões, com seus memes, polêmicas e virais de todo tipo, um novo modo de expressão a ser estudado pela história cultural. Por essas razões, mesmo em se tratando da campanha abominável da çelessão Canalhinha, ela se torna assunto entre todos os jornalistas e figuras públicas e condiciona a relação do gado trouxa público com o resto da competição. E o que pode mais eriçar um tupiniquim senão um sucesso da eterna rival Argentina, pior, sua segunda chegada consecutiva ao final do certame? Por alguns instantes a crônica bananeira se precipitou em comparar o que “nós” erramos com o que “eles” acertaram, mas mesmo do exterior podemos perceber que a coisa não é direta assim.
Quero testemunhar a impressão positiva que me têm despertado os textos de Milly Lacombe no UOL, a besta-fera da Machosfera horrorizada com sua intromissão “woke” num âmbito outrora monopolizado por bovinos de barrigão Pilsen e pinto murcho. Reconheço que também sou “uouquista” (não “oquista”, atenção!), mas não sou radical, e também julgo que a Milly não é. Concomitantes ao avanço da horda do Méçi Careca de fase em fase, começaram a aparecer vídeos de youtubers lixo tentando dissertar “Por que a Argentina é um país tão racista?”, sugeridos até junto a programas estrangeiros nada a ver com o assunto e que sigo regularmente. Pra meu alívio e agrado, a Milly fez um ótimo contraponto a esse antirracismo freestyle, dizendo que nossa história teve um racismo muito mais violento materializado na escravidão e que ele continua até hoje estruturando nossas relações sociais. Eu acrescentaria que justamente o fato de nossa equipe, ao contrário da argentina, contar com muitos jogadores de cor (até porque técnico negro nunca vi; feliz foi Pelé que não enveredou pela mesma cilada do Marabola!), assistidos por um público majoritariamente descorado, só mostra que esse foi um dos poucos espaços em que lhes foi permitido alcançar destaque, em detrimento da política, da economia e da ciência.
O destino me pegou de surpresa: e não é que jornalistas de outros países começaram justamente a apontar a dimensão inaudita do racismo na torcida platina, sem contar outros trambiques que estariam favorecendo os tricampeões? De fato, exceto casos isolados que ocorrem em nossos próprios campeonatos nacionais, nunca vi os fanáticos amarelentos imitarem símios, jogarem bananas ou gritarem ofensas contra a melanina alheia. Isso não limpa a ignomínia de como o tecido social do Gigante Adormecido (e jamais despertado) foi construído, mas talvez eu (e a Milly?) tenha subestimado a vergonha alheia que os hermanos despertam em quem compartilha com eles a mesma arquibancada. E dois artigos da mídia estrangeira me despertaram justamente pra essa reflexão, além de trazer elementos interessantíssimos pra deixarem as neymarzetes com a pulga atrás da orelha.
O primeiro é uma reportagem de Adèle Léron publicada na RFI francesa e intitulada “Copa do Mundo de 2026: por que a Argentina é alvo de suspeitas de favoritismo?”, e o segundo é uma entrevista dada pelo escritor Adam Elder ao jornalista George Louis Martínez, da americana NPR e intitulada “Por que muitos fãs de futebol podem torcer contra a Argentina na final da Copa?”. De família equatoriana, George usa o apelido “A Martínez” (assim mesmo, sem ponto, lê-se “ei Martínez”), mas aqui me referi a ele como “George Martínez” por praticidade. Também não mantive os links do original francês nem adicionei notas explicativas pra certas pessoas e coisas. Sugiro uma pesquisa à parte, especialmente o caso de IShowSpeed.
Da série “traduzi sem autorização, phodasse”, no caso da entrevista, como ela não veio com uma transcrição, obtive-a usando esta ferramenta online quase perfeita, devendo ter o resultado cotejado com o áudio, sobretudo quando as pessoas falam meio rápido, o que ocorreu na conversa. Pra fins de pesquisa e registro histórico de raridades, mantive a transcrição do áudio da NPR, após revisar a redação, em especial a divisão de parágrafos, que o site faz de modo totalmente aleatório. Se alguém mais entendido que eu em termos técnicos do ludopédio quiser sugerir alguma escolha melhor pra tradução, sobretudo se souber um pouco de inglês e francês, comente à vontade. Boa leitura e, pra quem for assistir, boa final:

Após se classificar pras semifinais da Copa do Mundo de 2026 com uma campanha considerada fácil e marcada por diversas decisões controversas da arbitragem, a Argentina se tornou alvo de acusações de favorecimento. No centro das críticas está Lionel Messi, pra quem esta Copa, apresentada como a última, alimenta fantasmas, teorias e desconfiança com relação à FIFA.
“Lionel Messi consegue seu juiz favorito pra semifinal Inglaterra-Argentina.” A manchete do Daily Mail dá o tom. Na véspera do confronto entre as duas seleções, o tabloide britânico reacende as acusações de favoritismo contra o time argentino.
Apresentado como “o juiz favorito” do capitão argentino , a nomeação do americano Ismail Elfath reforça em muitos a crença de que Lionel Messi estaria obtendo um tratamento preferencial nesta Copa do Mundo.
Essas teorias surgiram antes mesmo do início da Copa. Em 5 de dezembro de 2025, durante o sorteio, internautas já expressavam surpresa com os adversários oferecidos à Argentina. Um passeio, segundo alguns. A Albiceleste enfrentaria Argélia, a Jordânia e, enfim, a Áustria. Depois, Cabo Verde nos 16 avos de final [sim, esse é o nome oficial em português da bizarrice inventada por Infantino...], o Egito nas oitavas e, finalmente, a Suíça nas quartas. Esse trajeto alimentou suspeitas: até as semifinais, Lionel Messi e seus companheiros não teriam enfrentado nenhuma seleção entre as dez melhores da classificação da FIFA. Isso seria, aliás, inédito na história das Copas.
De forma inversa, os outros semifinalistas tiveram um torneio mais difícil. A França enfrentou o Senegal (3x1) e o Marrocos (2x0), ambos finalistas da última Copa Africana de Nações, além da Noruega, que eliminou o Brasil. A Espanha se livrou de Portugal e depois da Bélgica, enquanto a Inglaterra precisou derrotar o México antes de eliminar a Noruega de Erling Haaland.
No papel, portanto, o caminho da Argentina parece bem mais suportável que o de seus principais concorrentes.
Arbitragem polêmica – Um sorteio favorável, mas também decisões da arbitragem que estão sendo criticadas.
Logo na primeira partida contra a Argélia, Messi escapou de qualquer punição após esmagar o tornozelo de Aïssa Mandi na primeira meia-hora de jogo. No entanto, o ex-árbitro internacional Bruno Derrien considera que o camisa 10 “podia ter sido expulso”. Amplamente dominada, a Argélia acabou perdendo por 3x0, e seu técnico anunciou que iria exigir explicações da FIFA.
As partidas seguintes reforçaram ainda mais essa impressão entre alguns torcedores. A partir das fases eliminatórias, a Argentina teve dificuldades pra vencer. Em três ocasiões, os campeões do mundo foram atropelados, chegando a ficar atrás no placar. E em todas elas, as decisões da arbitragem inverteram o rumo dos jogos.
Primeiro, contra Cabo Verde. Incapaz de superar a 64.ª colocada na classificação mundial, a Albiceleste se beneficiou de várias intervenções controversas: uma falta na entrada da área em Hélio Varela que não foi punida, um toque de mão de Cristian Medina que também passou imune e uma falta cobrada às pressas por Lionel Messi enquanto o goleiro Vozinha ainda tomava posição na trave. A Argentina acabou vencendo por 3x2 nos acréscimos.
Os técnicos tomam partido – No jogo contra o Egito, o cenário se repetiu. Perdendo por 2x0 até os 79 minutos, a Albiceleste conseguiu virar (3x2). Após o jogo, o técnico egípcio exigiu a demissão do juiz francês François Letexier. Ele citou especificamente um pênalti não marcado após um puxão na camisa de Hamdy Fathy, um contato entre Mohamed Salah e Julián Álvarez na área e a anulação de um gol egípcio após revisão do VAR.
Finalmente, contra a Suíça. Dominada durante grande parte do jogo, a Argentina se aproveitou de um inesperado empurrão do destino. Aos 71 minutos, após revisão do VAR, o juiz português João Pinheiro anulou o cartão amarelo do argentino Paredes e o deu a Breel Embolo por simulação.
Já com esse cartão, o atacante suíço foi expulso e deixou o campo, deixando seu time com dez jogadores. Após o jogo, o técnico suíço denunciaria “cotoveladas, cabeçadas e soladas” que ficaram impunes.
À medida que a Argentina avança na Copa, apanhados de decisões controversas se multiplicam no TikTok e no X. Uma delas, intitulada “Uma compilação de nove minutos de faltas cometidas pela Argentina contra a Suíça sem consequências”, já soma centenas de milhares de visualizações.
Outros internautas também se surpreenderam com os meros três minutos de acréscimo concedidos contra Cabo Verde, enquanto outros jogos da Copa obtiveram seis ou até dez minutos, devido às pausas pra hidratação.
Messi no centro das teorias – Essas suspeitas não são novas. Ainda durante a vitória da Argentina no Catar em 2022, diversas decisões da arbitragem alimentaram o debate. A Albiceleste, em particular, foi beneficiada com cinco pênaltis, mais que qualquer outra seleção naquela Copa.
É principalmente a figura de Lionel Messi que alimenta essas teorias. Em 2017, Gianni Infantino declarou ao La Nación que “seria injusto Messi se aposentar sem ter conquistado uma Copa do Mundo”, acrescentando que o argentino precisava “marcar sua época”, tal como Diego Maradona tinha feito.
Aos 39 anos, esta edição é apresentada como a última Copa do camisa 10. A conquista do título selaria definitivamente seu espaço entre os maiores jogadores da história. Com ou sem a ajuda dos juízes...

George Martínez – Não é difícil adivinhar que os torcedores da seleção espanhola de futebol vão torcer contra a Argentina este fim de semana, quando os dois times se enfrentarem na final da Copa do Mundo, mas há muito mais gente ao redor do mundo torcendo pra que a Argentina perca. Adam Elder é um escritor especializado em esportes e cultura. Adam, o que há no estilo de jogo da Argentina que, historicamente, gera tanta rejeição?
Adam Elder – Pois é, há muita coisa envolvida aí. A Argentina ganhou três Copas, mas sempre teve um estilo que divide opiniões. Eles conseguem jogar com talento e, claro, têm Lionel Messi, mas também sabem jogar com brutalidade, digamos, chutando o adversário, subindo nas costas, derrubando com força, pressionando o juiz. Tudo isso é comum na América Latina. Tanto é que escrevi sobre isso num livro meu, mas a questão é que ninguém faz isso melhor que a Argentina.
Eles basicamente conseguem jogar tanto em alto nível quanto de forma muito baixa, e com frequência os vemos fazendo as duas coisas. Além disso, há episódios bem documentados de racismo da parte de torcedores e jogadores, com músicas e outras manifestações, especialmente contra pessoas negras; seja contra a seleção francesa, composta em grande parte por jogadores negros, ou espectadores famosos, como o streamer IShowSpeed na Copa deste ano.
GM – É, houve muito disso, o que anda prejudicando a imagem da Argentina, mas quatro anos atrás a situação parecia diferente. Parecia que as pessoas queriam ver Lionel Messi ganhar uma Copa. Então, o que realmente mudou de lá para cá?
AE – Muita coisa mudou durante esta edição. Eles chegaram como os atuais campeões, e a trajetória tem sido incrível. Lionel Messi, aos 39 anos, liderando o time na reta final de sua carreira. Ele marcou seis gols, se não me engano, nos três primeiros jogos, e as partidas têm parecido eventos quase religiosos. A emoção é avassaladora: a paixão, o barulho. É uma grande história.
O problema é que muitos têm a impressão de que a FIFA, entidade vilã que comanda o futebol, também gosta muito dessa narrativa, se você olhar de um certo ângulo. É quase como se as coisas tivessem tomado outro rumo após a fase de grupos – depois que a Argentina por pouco superou Cabo Verde, a indiscutível zebra da Copa –, pois, nos três jogos seguintes, muitos torcedores diriam que a Argentina foi beneficiada por decisões generosas da arbitragem, pelo uso muito generoso do VAR e também pela falta de uso dele quando talvez fosse necessário.
Então, como acabei de dizer, a FIFA já aparece por si só como vilã; junte a isso o estilo de jogo peculiar da Argentina, as viradas incríveis que a seleção protagonizou e, talvez, uma arbitragem favorável, e chegamos ao cenário atual.
GM – Há décadas existe o sentimento, entre muitos latino-americanos, de que os argentinos se consideram superiores de alguma forma, o que faz com que sempre torçam contra eles. Mas o que você acha da ironia de que, neste caso, os latino-americanos prefiram torcer pra Espanha, nação que por séculos colonizou a América Latina?
AE – Pois é, esse é só um dos aspectos. Parece que sob vários pontos de vista vai ser um grande confronto. Obviamente há implicações ligadas à colonização e, veja bem, se a Argentina jogar como tem jogado em toda esta Copa – algo que, como discutimos, tem se desenvolvido mais ou menos por cinco semanas –, vai ser um jogo realmente interessante. Não vejo a hora de assistir e, pra ser claro, acho que tudo isso faz dos esportes algo bem melhor. Adoro ter um vilão. Claro, sou escritor, mas pessoalmente adoro isso.

George Martínez – It’s an easy assumption that fans of Spain’s national soccer team will be rooting against Argentina this weekend when the two teams face off in the World Cup final, but there are a lot more people around the world hoping Argentina loses. Adam Elder is a sports and culture writer. Adam, so what’s about the way Argentina plays that’s historically been unpopular?
Adam Elder – Oh boy, there’s so much going on here. Well, Argentina’s won three World Cups, but they’ve always had a style that’s very polarizing. You know, they can play with flair, and of course they have Lionel Messi, but they can also play with brutality, let’s say, kicking you, climbing on you, chopping you down, working the ref. This stuff is common throughout Latin America. In fact, I wrote about it in a book of mine, but the thing is, no one does this stuff better than Argentina.
They can essentially play at the highest levels or the lowest, and often you’ll see them doing both. Now, there’s also been some well-documented racism by fans and players and songs and whatnot, particularly towards black people; whether it’s about the French national team made up largely of black players or famous spectators like the streamer IShowSpeed at this year’s World Cup.
GM – Yeah, so there’s been a lot of that which hasn’t helped Argentina lately, but it seemed like four years ago things were different. It seemed like people wanted to see Lionel Messi win a World Cup. So what really has changed between then and now?
AE – A lot’s changed within this tournament. They came in as the defending champions, and it’s been this great story. Lionel Messi, aged 39, leading the team, twilight of his career. He scored six goals, I believe, in the first three games, and their matches have resembled these quasi-religious events. It’s emotionally overwhelming, the passion, the noise. It’s a great story.
The problem is, it appears to many that FIFA, soccer’s villainous governing body, likes that storyline a lot as well, if you look at it from a certain angle. It’s almost as if things took a turn after group play, after Argentina barely got past Cape Verde, the tournament’s undisputed Cinderella team, because in their next three matches, a lot of fans watching would contend that Argentina benefited from some generous calls, some very generous use of VAR, the video assistant referee, and also the non-use of it when perhaps it was needed.
So FIFA is, as I just said, such this great villainous organization on their own, and you combine now with Argentina’s occasional style of play and these incredible comebacks they’ve staged and, you know, perhaps generous refereeing, and this is where we are right now.
GM – You know, there’s been a decades-long feeling by many Latin Americans that Argentines believe themselves to be superior somehow, so that means they’ll always root against them. But what do you think of the irony that in this case, Latin Americans would rather root for Spain, the nation that colonized Latin America for hundreds of years?
AE – Yeah, I mean, that’s just one layer of it. It’s looking like a great matchup in so many ways. There’s obviously some colonial implications and, you know, if Argentina show up the way they’ve been playing throughout this tournament, which, as we talked about, has changed in the past five weeks or so, it’s going to be a really interesting game. I’m looking forward to it, and to be clear, I think all this stuff makes sports much better. I love having a villain. Of course, I’m a writer, but I personally love this stuff.






Por esta montagem por IA bastante sugestiva feita por aquele amigo que volta e meia colabora com esta página xexelenta, mas sugeriu que esperasse o Vlad falecer antes que eu a publicasse (rs), cheguei novamente pra relembrar mais um adágio: Quem com ferro ferre, com ferro será ferido ou, em latim, Hodie mihi, cras tibi (lit. “Hoje pra mim, amanhã pra você”). Se em 2024, como
Mais uma situação que deixa qualquer estadunidense tão vexado e desconfortável como a polímata EnfastYalda Hakim quando visitou Havana há algumas semanas 






Esta rara entrevista está online no canal da RTS (Rádio e Televisão Suíça em francês) há quase 19 anos, mas não chegou a 1,4 milhão de visualizações, enquanto vídeos muito mais fúteis e ultrajantes chegam a muito mais do que isso em poucas horas nos canais grandes. Pra se ter uma noção, a imagem ainda tem o selo da então existente TSR (Televisão Suíça Romanda), que em 2010 se fundiria com a RSR (Rádio Suíça Romanda) pra criar a rede pública RTS. Descobri sua existência após assistir à última 


