segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

“Qatar ou Catar?” (Diogo Bercito)


Link curto pra esta postagem: fishuk.cc/qatar-catar

Aproveitando a onda do jogo entre Brasil e Coreia do Sul democrática que teremos hoje na copa, apresento mais um artigo de opinião que resolvi hackear da Folha, mas agora com a inserção de comentários próprios meus, já que estou estudando o árabe padrão moderno (também conhecido pela sigla em inglês MSA). Diogo Bercito, jornalista especializado no Oriente Médio, escreveu o texto “Qatar ou Catar? Leia mais sobre a grafia do país que sedia a Copa do Mundo”, publicado em 16 de novembro. Spoiler: por já considerar uma palavra incorporada ao português, ao contrário do que manda o manual de redação da Folha, eu opto pela ortografia “Catar”, e sem sinais diacríticos. Recomendo que vejam as redes sociais dele e as colunas que ele escreveu em outros sites!



Placa com propaganda da Copa do Qatar, fincada na região oeste do país


Não tem certo ou errado; o desafio é transliterar a palavra árabe

Começa neste domingo [20/11] a Copa do Mundo do... Qatar? Catar? Gatar?

À espera do início das partidas, torcedores e comentaristas estão tentando decidir como escrever e pronunciar o nome do país que sedia o evento, realizado de 20 de novembro a 18 de dezembro. Alguns, como é o caso desta Folha, optam pela grafia Qatar com Q de “quibe”. Outros preferem Catar com C de “coalhada”. Há também quem diga a palavra em voz alta com um G de “grão-de-bico”. Mas quem é que está certo?

De certa maneira, todos estão certos e errados. Essas grafias são tentativas de transliteração – ou seja, de adaptar letras de um alfabeto a um outro. Como há um bocado de letras e sons em árabe que não têm nenhum equivalente no português, esse processo é bem árduo.

No caso do país que sedia a Copa, o grande problema está na primeira letra. O nome começa com um som que os linguistas chamam de “oclusiva uvular surda”. É como se fosse um Q de “queijo”, só que produzido mais atrás na garganta, com mais força. No alfabeto fonético, esse som é representado pelo Q mesmo. Por isso a grafia mais técnica é essa: Qatar. É inclusive o que recomenda o Manual de Redação da Folha, na página 251. O Q tem essa vantagem de diferenciar um som mais gutural do C que a gente usa em português em palavras como “cabelo” e “carro”. Mas isso não quer dizer que Catar está errado. É apenas uma outra solução para um problema que é sempre insolúvel.

[Nota do Erick: som gutural que, obviamente, nenhum falante do português vai distinguir na fala ou na audição, até porque nenhuma língua das Américas, salvo engano exceto alguma língua nativa perdida, entre esse som Q e nosso C, QU ou K normal. Ou seja, assimila ao nosso C de “carro”, portanto essa distinção na ortografia, a não ser que você seja estudante de árabe, é totalmente inútil.]

Quem está interessado em aprender a pronúncia do nome em árabe vai precisar se esforçar um pouquinho mais. O Q não é o único desafio. O T da segunda sílaba de Qatar é também mais enfático do que o do português. De novo, o som sai mais do fundo da garganta, com mais esforço. Já o R é mais fácil, porque parece o da palavra em português “cantar”. A sílaba tônica é a primeira. Ou seja: QAtar e não qaTAR.

[Nota do Erick: não é “mais enfático”, pois tecnicamente o referido T é chamado de “enfático” mesmo. É típico das línguas semíticas. De certa forma aquele Q também pode ser chamado de “enfático”, e vou até dar uma dica de como pronunciar as “enfáticas”: mantenha a parte da frente da língua do mesmo jeito que você pronunciasse a consoante normal, mas tente ao mesmo tempo recuar a parte de trás... sem dar uma cãibra, claro, rs. Um arabista inglês certa vez escreveu que é como se você tivesse com sua boca “cheia de algodão” ou com uma “batata quente dentro dela”. Em resumo, a cavidade bucal é ampliada. O mais aproximado que podemos chegar, no caso do T e do D, é como se pronunciássemos de forma bem enfática (né???) as expressões “Tó” e “dó” (em “Que dó!”, sobretudo com acepção irônica).]

[Nota 2: a sílaba tônica é de fato a primeira, pronúncia que se reflete em inglês. Mas se é pra manter a tonicidade correta, deveríamos escrever “Qátar” ou “Cátar”, com acento agudo – paroxítona terminada em R: lembra da escola ou matou aula?... Nunca li a forma acentuada, e na fonética a forma que se fixou e que circula mais de 90% das vezes no Brasil é “Catar” oxítona, ou seja, ganhou pela consagração e praticidade.]

Só isso? Não. Até agora, este Orientalíssimo blog estava tratando da pronúncia da palavra Qatar no árabe padrão. Só que, no dialeto do próprio Qatar, o nome é dito de outro jeito. O Q vira G e o A pende ao I. Ou seja, fica parecido com Gátar ou Guítar. É complicado mesmo. Quem estiver curioso pode dar uma olhada no vídeo abaixo, que explica – infelizmente, só em inglês – essas variações de pronúncia.

[Nota final: na versão hackeada, infelizmente não achei o vídeo, mas talvez seja fácil de encontrar algo parecido no YouTube, no Forvo.com ou até na Wikipédia ou Wikcionário em inglês. No final das contas, discordo duplamente do Diogo tanto na ortografia – prefiro C, e não Q – quanto na pronúncia – ele mantém a paroxítona original, eu adoto a oxítona consagrada, embora ele seja incoerente quanto à acentuação gráfica. Se bem que nesse caso ficaria como uma palavra não assimilada ao português, enquanto eu postulo que essa assimilação já ocorreu faz tempo.]



Por fim, fiquem com esta piada da pergunta de um telespectador do programa diário francês C Dans L’Air, disponível no YouTube: “Por que não organizar a próxima Copa do Mundo na Coreia do Norte, já que isso favoriza o progresso social?” Pior que a próxima copa já tá definida pra ser conjunta no México, EUA e Canadá, e que esses dias, Gianni “Today I Feel Gay” Infantino aludiu sem brincadeira a essa possibilidade...

sábado, 3 de dezembro de 2022

Renúncia de Nicolau 2.º em seu diário


Link curto pra esta postagem: fishuk.cc/tsar-renuncia

Este é o sexto e último texto que traduzi pra coletânea Manifestos vermelhos e outros textos históricos da Revolução Russa (Penguin Companhia, 2017), organizada pelo professor Daniel Aarão Reis por ocasião dos 100 anos dos eventos na Rússia em 1917, mas que não foi incluído na publicação. Dispensa apresentações, apenas relembro que em março de 1917 houve apenas a renúncia do imperador e a instauração do Governo Provisório, e não o golpe bolchevique, e que as datas estão atualizadas conforme o calendário ocidental moderno (que conta 13 dias a mais em relação ao usado na Rússia até 1.º de fevereiro de 1918). Infelizmente, eu não tinha mais a versão original guardada comigo. Boa leitura!


Diários e documentos do arquivo pessoal de Nicolau 2.º: Recordações. Memórias.
Páginas 22 a 24

Quarta-feira, 22 de fevereiro – Li, cuidei das coisas e recebi Mamontov, Kulchitski e Dobrovolski. Misha tomou seu café. Despedi-me de toda minha querida [família?] e parti com Aliks para Znamenie, e depois para a estação. Às 2h parti para o Quartel-General. O dia estava ensolarado, gelado. Li, entediei-me e descansei; não saí por causa da tosse.

Quinta-feira, 23 de fevereiro – Acordei em Smolensk às 9 e meia. Estava frio, claro e ventando. Todo o tempo livre li um livro franc[ês] sobre a conquista da Gália por Júlio César. Cheguei em Mogiliov às 3h. Fui recebido pelo gal. Alekseiev e pelo estado-maior. Permaneci uma hora com ele. (1) A casa parecia vazia sem Aleksei. Jantei com todos os estrangeiros e a família. À noite escrevi e tomei chá coletivo.

No original uma seta liga as palavras “com ele” à palavra “Alekseiev”. [Nota do editor.]

Sexta-feira, 24 de fevereiro – Às 10 e meia fui à conferência, que terminou às 12h. Antes do café [?] chegou para mim uma cruz militar em nome do rei da Bélgica. O tempo estava desagradável ¬– nevasca. Dei uma voltinha no jardim. Li e escrevi. Ontem Olga e Aleksei pegaram sarampo, e hoje Tatiana seguiu o exemplo deles.

Sábado, 25 de fevereiro – Levantei-me tarde. A conferência durou uma hora e meia. Às 2 e meia passei no monastério e reverenciei o ícone da Mãe Divina. Dei um passeio pela estrada de Orsha. Às 6h fui ao ofício noturno. Trabalhei toda a noitinha.

Domingo, 26 de fevereiro – Às 10h fui à missa. A conferência terminou a tempo. Tomaram o café muita gente e todos os estrangeiros presentes. Escrevi para Aliks e segui pela estrada de Bobr[uisk] até a capela, onde dei um passeio. O tempo estava claro e gelado. Depois do chá li e recebi o senador Tregubov para jantar. À noite joguei um pouco de dominó.

Segunda-feira, 27 de fevereiro – Alguns dias atrás começaram desordens em Petrogrado; lamentavelmente também o exército se pôs a participar delas. É muito horrível estar tão longe e receber notícias ruins em fragmentos! Fiquei pouco na conferência. À tarde dei um passeio pela estrada de Orsha. O tempo estava ensolarado. Depois do jantar decidi ir apressado a Ts[arskoie] S[elo] e à uma da madrugada tomei o trem.

Terça-feira, 28 de fevereiro – Fui dormir às 3 e 15, porque falei longamente com I. I. Ivanov, o q[ual] estou enviando a Petrogrado com tropas para restaurar a ordem. Dormi até as 10 h. Saímos de Magiliov às 5h da manhã. O tempo estava gelado, ensolarado. À tarde passamos por Viazma, Rzhov, e às 9h por Likhoslavl.

Quarta-feira, 1.º de março – De madrugada demos meia-volta a partir de Malaia Vishera, pois Liuban e Tosno estavam ocupadas pelos insurretos. Partimos para Valdai, Dno e Pskov, onde estacionei até dormir. Vi Ruzski. Ele, Danilov e Savvich jantavam. Gatchina e Luga também estavam tomadas. Que pouca-vergonha! Não conseguimos chegar até Tsarskoie. Mas lá estavam o tempo todo meu pensar e meu sentir! Coitada da Aliks, deve estar penando muito ao passar sozinha por todos esses fatos! Que o Senhor nos ajude!

Quinta-feira, 2 de março – De manhã Ruzski chegou e leu sua enorme conversa com Rodzianko sobre a administração. Segundo ele, a situação em Petrogrado é tal que o ministério estaria agora impotente para tirar qualquer coisa da Duma, pois é combatido pelo partido soc[ial]-dem[ocrata] na figura de um comitê operário. Queriam minha renúncia. Ruzski transmitiu essa conversa ao quartel-general, e Alekseiev a todos os comandantes-em-chefe. Lá pelas 2 e meia chegaram as respostas de todos. Era essencial que, a fim de salvar a Rússia e manter a ordem no front militar, eu decidisse tomar essa atitude. Eu assenti. Enviaram do quartel-general um projeto de manifesto. Chegaram de Petrogrado à noite Guchkov e Shulgin, com os q[uais] troquei opiniões; e lhes transmiti o manifesto assinado e revisado. À uma da madrugada parti de Pskov muito amargurado com o ocorrido.

Cercado por traidores, covardes, mentirosos!



sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Homossexuais, homens sexuais, ateus


Link curto pra esta postagem: fishuk.cc/pensamentos2

Hoje dou minhas boas-vindas a você que chegou a mais uma edição da seção “Pensamentos”, formada por ideias de coisas engraçadas ou reflexões aleatórias pra postar nos stories do WhatsApp (não uso Instagram nem Twitter), geralmente tratando de temas da atualidade com tom humorístico e não sectário. Em geral não acho que possam virar publicações autônomas aqui na página, mas as peças que monto podem ficar tão bem elaboradas, que decido guardar pra posteridade, mesmo que façam sentido só na época em que foram redigidas. Sinta-se livre pra copiar as imagens e compartilhar em suas mídias sociais, se possível remetendo a este humilde espaço e avisando que Fishuk/Pan-Eslavo está mais vivo do que nunca, hehehe.

Neste início de dezembro, ainda refletindo os acontecimentos do fim de novembro, quando a fase de grupos da Copa do Mundo de futebol está mais quente do que nunca, o Ditador Paranoico de Todas as Rússias se deu conta de que não pode ter uma vitória definitiva na Pequena Rússia Ucrânia, seja lá o que ele entenda por “vitória”. A única coisa que está conseguindo fazer é destruir tudo, torturar e matar pessoas e moer todos os recursos materiais e humanos que ainda restavam de seu sucateado exército, levando cada vez mais ao recurso a mercenários (chechenos, sírios, Fagner Wagner etc.).

O Tio Pu queria primeiro “desnazificar” e desmilitarizar a Ucrânia e derrubar o governo Zelensky: não conseguiu nenhuma das três coisas. Depois, inventou que queria apenas defender os territórios já conquistados pra evitar o “genocídio” de sua população, mas os ucranianos mesmo aí estão avançando. Não tendo mais o que argumentar, o Kremlin e seus asseclas ideológicos começaram a bolar uma espécie de “guerra santa” contra a “decadência e perversão” ocidentais, o que inclui “propaganda LGBT”, “ideologia de gênero”, “sodomia” e todo um arcabouço digno do pior bolsominion. O discurso racista contra os ucranianos está se reforçando e se explicitando, e o domínio da extrema-direita ideológica e do chamado “partido da guerra” sobre o governo tem se reforçado desde o assassinato de Daria, filha única do “filósofo” Aleksandr Dugin.

No meio dessa ofensiva, os direitos e liberdades da população LGBT, ou sei lá quais e quantas letras podem ou devem ser ainda acrescentadas, têm sido cada vez mais cerceados, e a simples expressão ou visibilidade de relacionamentos “não tradicionais” pode render multas ou prisões pesadíssimas. Pode ter a ver com a crise demográfica da Rússia, que vai piorar com o extermínio de homens na invasão atual, mas no essencial é um modo de achar bodes expiatórios pros próprios problemas, como os judeus o eram na Alemanha nazista e os armênios no Império Otomano. Não consigo fazer outra coisa senão zoar com memes de humor duvidoso:





Na Copa do Mundo, a valorização de vários tipos de liberdades é bastante relativa. O Catar é um país muçulmano superconservador, em que os direitos femininos e LGBT são exatamente um dos principais alvos, sem contar os operários estrangeiros que sofreram ou morreram nas obras dos estádios. Exatamente devido à contradição entre o ethos do país-sede e o espírito do tempo que está evoluindo no mundo todo, a FIFA está se vendo numa sinuca de bico, interditando, por exemplo, protestos silenciosos contra a discriminação às pessoas LGBT. Mas as situações engraçadas geradas por fotos, como neste jogo entre a Inglaterra e os Estados Unidos, não conseguem esconder possíveis sensações involuntárias:


Noffa, que nego lindo, quero dá pra ele!!!


Dos homossexuais ao homem sexual. O Domingão com o Faustão já era uma porcaria (embora eu achasse mais autêntico, numa época em que não era a internet que ditava a TV, e sim o contrário), com o Luciano Huck ficou ainda pior, e ocasionais participações conseguem dar a última pitada de fezes. Padre Foda Fábio de Melo não entende a narração da história de um meme horrível, que circulou há alguns meses, em que algumas moças pulam num terraço e acabam quebrando a tampa de uma fossa. A moça tem a língua tão presa que ao invés do “ss” correto ela parece ter falado o “th” do inglês bath, que soa como um “f” pra muitos ouvidos no mundo. A impressão é que o Padre Kelmon com filtro de fato entendeu a palavra, mas fingiu incompreensão só pra alimentar a zoeira:


Finalmente, comentários meus a notícias políticas e geopolíticas da atualidade:







quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

Bayraktar (música militar ucraniana)


Link curto pra esta postagem: fishuk.cc/bayraktar


Esta canção composta pelo ex-coronel do Exército, produtor, letrista, músico e cantor ucraniano Tarás Borovók foi lançada logo após o início da invasão russa à Ucrânia e se tornou um grande sucesso entre os ucranianos e aqueles que estão se engajando diretamente na guerra. Ela se chama “Байрактар” (Bayraktar) e alude a um tipo de drone turco que tem sido fundamental pra destruir posições russas nos territórios ocupados e pra impedir a tomada completa de Kyiv. Apesar da ampla repercussão, só no último dia 28 eu soube de sua existência, ao escutar uma reportagem da BBC britânica. Curiosamente, o ditador turco Recep Tayyip Erdoğan faz jogo duplo, e ao mesmo tempo em que ajuda militarmente a Ucrânia, não aderiu às sanções ocidentais contra a Rússia, com quem mantém antigas relações comerciais e cujos cidadãos usam muito a Turquia como destino turístico ou até de refúgio político.

A primeira versão em vídeo, citada acima, foi lançada em 28 de fevereiro de 2022, apenas quatro dias após o início da invasão, e enquanto isso Borovok carregou outras versões, como este remix (o vídeo mais visto do canal), o áudio oficial e um clipe legendado em inglês, com cenas do Bayraktar atingindo tropas russas. Porém, tanto esse clipe quanto esta montagem feita pela compositora francesa Lisa Schettner, em cujas descrições estão traduções literais em inglês levemente diferentes que me ajudaram muito a traduzir pro português, estão classificados como proibidos pra menores e, portanto, só podem ser vistos por quem está logado no YouTube. Portanto, por praticidade, incorporei pra você ouvir mais rápido apenas a segunda e terceira versões, mas se possível, não deixe de visitar as outras! No quarto link que listei, há também na descrição uma versão poética inglesa feita por uma colaboradora, vale a pena dar uma olhada.

A Istoé Dinheiro também fez uma ótima reportagem sobre a história da canção Bayraktar, e neste canal há uma entrevista com Borovok, mas em ucraniano. Eu mesmo traduzi pro português a partir do ucraniano, mas as duas traduções em inglês me ajudaram demais, sobretudo com pontos que não puderam ser literalmente traduzidos e esclarecimentos dados nos próprios canais. Uma dessas expressões era “tomar sopa com lápti”, sendo lápti o plural de lápot, isto é, uma espécie de alpargata ou espadrilha, também típica de países não eslavos, feita com fibras vegetais de árvores nativas. A expressão original da língua russa menciona o schi, uma sopa típica de beterraba e couve, muito consumida pelos camponeses pobres, e tanto tomar o schi quanto usar lapti aludem a uma condição muito pobre, em que nem colher se teria pra tomar a sopa, tendo que usar essas sapatilhas! (Deixei “sapatos” mesmo porque figura melhor do que aquele calçado.)

Entre outras explicações pra expressões intraduzíveis, “restaurarem um grande país” está no cirílico ucraniano figurando a pronúncia russa dessa expressão, por isso pus as aspas pra indicar que era a fala do Kremlin. “Putleristas” foi minha adaptação pra “rashisty”, ou seja, uma mistura de “rússkie” (russos) com “fashísty” (fascistas), pois o apelido “Putler” (Putin + Hitler) também é muito difundido entre os ucranianos. Na penúltima estrofe, também se menciona o “glukhár”, ave galiforme só existente no hemisfério Norte e chamada em português “tetraz-grande”, mas que na gíria ucraniana também designa um crime cuja investigação provavelmente não terá sucesso.

O título da canção se refere ao drone militar Bayraktar TB2, fabricado pela empresa privada turca Baykar e que a Ucrânia tem usado massivamente e com grande sucesso na defesa contra a Rússia. Em turco, “bayraktar” significa “porta-bandeira” ou “porta-estandarte”, mas a referência é ao sobrenome de Selçuk Bayraktar (n. 1979), um dos engenheiros que desenvolveu a primeira linha de drones nativos turcos, na qual se inclui o citado Bayraktar TB2. Assim, ao lado de Orkut Büyükkökten, temos o segundo turco cujo sobrenome ficou mundialmente famoso devido a um invento pessoal. Curiosamente, Selçuk também é casado com Sümeyye, uma das filhas do ditador Erdoğan, que usou a criação do genro pra matar curdos na Turquia, no Iraque e na Síria, bem como a vendeu pros governos do Azerbaijão e da Etiópia em guerras recentes.

Quanto a Tarás Borovok, ele nasceu na Kyiv soviética em 1973 e começou sua carreira midiática em 2006, após deixar o Exército Ucraniano. A fama global só veio quando começou a trabalhar com canções patrióticas a pedido do Centro de Comunicação do exército após a agressão russa, sendo a proposta inicial com o Bayraktar TB2 apenas um vídeo de propaganda. Mas Borovok decidiu fazer uma canção em estilo folk a respeito, que saiu em duas horas (a letra em 15 ou 20 minutos) e se tornou um hit imediato, pela batidinha envolvente e pelo tom depreciativo com que trata os russos e seu exército. Bayraktar também rodou o mundo em outras línguas, tendo ficado conhecida na França pela colaboração com a citada Lisa Schettner. Casado, Borovok também é pai de Daria (n. 1998) e de Ostap (n. 2016).

Sem mais, seguem os vídeos de Borovok, minha tradução e o original ucraniano. Ótima forma de começar o último mês deste terrível ano de 2022!




Os ocupantes vieram até nós na Ucrânia
Com uniforme novinho e veículos militares
Mas o estoque deles derreteu um pouco
Bayraktar, Bayraktar...

Os tanquistas russos se esconderam nas moitas
Pra tomarem sua droga de sopa nos sapatos
Mas a água da sopa ferveu um pouco demais
Bayraktar, Bayraktar...

As ovelhas correram do Leste até nós
Pra “restaurarem um grande país”
O melhor pastor de rebanhos ovinos é o
Bayraktar, Bayraktar...

Argumentam que suas armas são diferentes
Os foguetes são poderosos, os veículos de ferro
Nossa única resposta a esses argumentos é
Bayraktar, Bayraktar...

Eles queriam nos capturar imediatamente
E nos seguramos pra não xingar os ogros
Ele transforma bandidos russos em fantasmas:
Bayraktar, Bayraktar...

A polícia russa está conduzindo inquéritos,
Mas nunca vai saber quem matou os putleristas
O caso é que há crimes sem solução entre nós
Bayraktar, Bayraktar...

Os doentes do Kremlin fazem uma propaganda
E o povo engole as palavras da propaganda
Agora o tsar deles conhece uma nova palavra:
Bayraktar, Bayraktar...

____________________


Прийшли окупанти до нас в Україну
Форма новенька, воєнні машини
Та трохи поплавився їх інвентар
Байрактар, Байрактар...

Російскі танкісти сховались в кущі
Щоб лаптьом посьорбати довбані щі
Та трохи у щах перегрівся навар
Байрактар, Байрактар...

Зі сходу припхались до нас барани
Для “вастанавлєнья велікай страни”
Найкращій пастух баранячих отар
Байрактар, Байрактар...

Їх доводи - всяке озброєня різне
Ракети потужні, машини залізні
У нас на всі доводи є коментар
Байрактар, Байрактар...

Вони захопити хотіли нас зразу
І ми зачаїли на орків образу
З бандитів російських робить примар
Байрактар, Байрактар...

Російська поліція справи заводить
Та вбивцю рашистів ніяк не знаходить
Хто ж винен, що в нашому полі глухар
Байрактар, Байрактар...

Веде пропаганду кремлівський урод
Слова пропаганди ковтає народ
Тепер нове слово знає їх цар
Байрактар, Байрактар...




terça-feira, 29 de novembro de 2022

Grão-duque Andrei durante revolução


Link curto pra esta postagem: fishuk.cc/andrei1917

Este é o quinto texto que traduzi pra coletânea Manifestos vermelhos e outros textos históricos da Revolução Russa (Penguin Companhia, 2017), organizada pelo professor Daniel Aarão Reis por ocasião dos 100 anos dos eventos na Rússia em 1917, mas que não foi incluído na publicação. O grão-duque Andréi Vladímirovich (1879-1956) era primo do último tsar da Rússia imperial, Nicolau 2.º, neto do tsar Alexandre 2.º e deixou um rico diário cuja introdução dos editores estou publicando hoje, junto com o original em russo, embora seja um texto extenso. Dado que ela já é praticamente uma biografia completa do nobre, não vou fazer uma longa introdução. Acrescento apenas que ele conseguiu escapar após breve prisão pelos bolcheviques, fugiu da Rússia em março de 1920 e viveu o resto de sua vida na França, falecendo em Paris. Tendo morrido relativamente pobre, foi o último sobrevivente dos grão-duques nascido na Rússia imperial.


«...TODOS OS TAGARELAS SÃO VÃOS, E O PODER ESCORRE DE SUAS MÃOS»: Crônica da Revolução de Fevereiro no diário do grão-duque Andrei Vladimirovich (março-maio de 1917)

A derrocada da monarquia na Rússia, a Revolução de Fevereiro de 1917 e os acontecimentos que se lhes seguiram estão refletidos em diversas fontes documentais. Muitas delas, que no básico mostram o lado negativo da vida no país antes da revolução e fulminam o absolutismo e as classes dominantes, foram publicadas na era soviética. Aquelas que esclarecem os acontecimentos de forma diversa à da historiografia oficial, como as provindas dos opositores do poder soviético, entre eles membros da Casa Imperial Russa, via de regra descrevendo negativamente os bolcheviques e seus líderes, permaneceram longamente desconhecidas ou foram empregadas de forma fragmentária, seletiva. Foi o caso da publicação dos diários do grão-duque Andrei Vladimirovich escritos de 1914 a 1917.

O grão-duque Andrei Vladimirovich (1879-1956) era neto do imperador Alexandre 2.º, bem como primo de Nicolau 2.º, e teve uma formação militar. Em 1914 foi atuar na Primeira Guerra Mundial, na qual serviu no estado-maior do comandante-em-chefe da Frente Noroeste, general N. V. Ruzski. Em 7 de maio de 1915 passou a comandar a Artilharia Montada da guarda imperial e se tornou major-general da comitiva do imperador.

Chefe da chancelaria do Ministério da Corte Imperial e dos Principados, o general A. A. Mosolov fez em boa hora uma alta avaliação do grão-duque: “Andrei Vladimirovich concluiu brilhantemente a Academia Jurídico-Militar e se tornou o conselheiro e guia ideológico da geração jovem de sua família. Mesmo na emigração ele continuou interessado em questões políticas, nas quais era mais bem informado do que os outros membros da família imperial. É uma pessoa muito talentosa e inteligente, além disso Sua Alteza é muito laboriosa”.

Sendo uma das figuras mais próximas ao trono, Andrei Vladimirovich ao mesmo tempo partilhava disposições oposicionistas correntes nas altas rodas quanto à corte imperial e quanto aos ocorridos no Estado Russo como um todo. Às vésperas da Revolução de Fevereiro a grã-princesa Maria Pavlovna, viúva do grão-duque Vladimir Aleksandrovich (irmão do imperador Alexandre 3.º) e figurando, de acordo com a hierarquia palaciana, como a terceira dama do império após as duas imperatrizes, e seus três filhos – Kirill, Boris e Andrei Vladimirovich – condenavam ativamente as políticas públicas do casal real. Maurice Paléologue, embaixador francês na Rússia, transmitiu as palavras de Maria Pavlovna: “Terrível, a imperatriz é louca e o soberano está cego; nem ele nem ela veem, não querem ver, para onde estão os arrastando”. O embaixador também afirmava que a grã-princesa formava junto com os filhos uma oposição principesca a Nicolau 2.º. Em 16 de maio de 1916 escreveu em seu diário que Maria Pavlovna “há muito já acalenta em segredo o sonho de ver um de seus filhos no trono, Boris ou Andrei”. Sobre as desavenças entre Nicolau 2.º e os familiares de Maria Pavlovna também escreveu no começo de 1917 o grão-duque Andrei Vladimirovich. Após o assassinato de Grigori Rasputin nos salões aristocráticos da capital corriam boatos tenazes de que os grão-duques Vladimirovich eram parte de uma “conspiração palaciana”.

A posição social do grão-duque lhe permitia estar a par das intrigas dentro da corte, desconhecidas da maioria dos outros dignitários, e interagir com muitos chefes militares, cortesãos influentes e homens políticos. A Revolução de Fevereiro encontrou Andrei Vladimirovich tratando da saúde em Kislovodsk, e ele logo foi submetido a prisão domiciliar por ordem do Governo Provisório. Algum tempo depois a prisão foi suspensa, mas, como a maioria dos membros da casa imperial dos Romanov, ele estava na condição de exilado. Após a Revolução de Outubro, receando tornar-se um refém da “luta de classe”, o grão-duque foi forçado a esconder-se nas montanhas e só escapou da morte graças ao atamano A. Shkuro. Durante a Guerra Civil ele esteve no Cáucaso Setentrional junto com a mãe, a grã-princesa Maria Pavlovna, e o irmão Boris, mas não participou das operações militares. Ficou claro que o Movimento Branco, não tendo um suporte único, só podia fracassar. Mais tarde, em fevereiro de 1920, após a derrota das forças antibolcheviques no norte do Cáucaso, Andrei Vladimirovich partiu da Rússia junto com seus parentes mais próximos através de Novorossiisk. Na emigração ele não se conformou com a queda do império e participou ativamente do movimento político monarquista. Em 30 de janeiro de 1921 Andrei Vladimirovich casou-se oficialmente com sua companheira, a famosa bailarina M. F. Kshesinskaia. Em 30 de outubro de 1956 o grão-duque faleceu despercebido em Paris.

Desde jovem, assim como os outros representantes da dinastia Romanov, ele manteve diários, alguns deles conservados até os nossos dias. O inusitado destino do diário narrando de 1914 a 1917 está revelado nos documentos de arquivo. Partes separadas dele (os cadernos de 1916 a 1917) foram descobertos em Piatigorsk. Quando o Exército Vermelho tomou Kislovodsk, foi achado num dos quartos do Grand-Hotel um livro com anotações diárias do grão-duque. O descobridor arrancou a capa com o monograma dourado do grão-duque e “trocou o livro por fumo com o soldado vermelho Pavel Ivanovich Sormin, que vivia em Piatigorsk”. O novo dono do diário o escondeu das vistas alheias por alguns anos, temendo a prisão por guardar tais documentos. Apenas no fim de 1927 ele revelou seu segredo ao médico A. S. Pomerantsev, através do qual o diário chegou ao historiador arquivista V. V. Maksakov e, finalmente, ao arquivo público.

O diário do grão-duque para 1915 caiu nas mãos dos historiadores soviéticos e foi lançado pela primeira vez em 1925 pela Gosizdat, editora estatal, na forma de uma pequena brochura com significativas omissões não advertidas pelo editor.

Dava-se no prefácio a esse volume uma avaliação geral “anti-Romanov” do documento: “O diário de A. Romanov apresenta algum interesse, explicável apenas pelo fato do autor, por força de sua origem, frequentar o círculo em que muito se sabia sobre a face íntima, oculta ao público externo, de diversos acontecimentos políticos e militares daquela época [...] Apesar de sua totalmente medíocre ideologia ufanista grã-principesca, Andrei Romanov, como autor do diário, tinha uma boa qualidade: de forma inconsciente, precisa, quase protocolar, ele inseriu nestas páginas tudo o que lhe caía aos olhos e ouvidos. E, apesar do autor ordenar mal tudo isso, o indubitável valor de seu diário está na claramente percebida precisão de seus relatos”.

Em 1928 apareceram publicados na revista Krasny arkhiv (Arquivo Vermelho) mais fragmentos do diário do grão-duque, concernentes a 1916 e relacionados ao assassínio de G. Rasputin, mas o texto tem vários cortes sem qualquer explicação.

Nos acervos do Arquivo Público da Federação Russa estão guardados os diários do grão-duque Andrei Vladimirovich muito mais completos e ricos em conteúdo do que os excertos nas edições mencionadas.

Nos anos 1990 fragmentos isolados do diário entre setembro de 1914 e junho de 1917 foram publicados nas revistas Oktiabr (Outubro) e Istochnik (Fonte), bem como numa coletânea de memórias lançada pela editora Fond Sergei Dubov, mas essas edições também continham lacunas. Assim, inúmeros recortes de jornais russos centrais e locais que acompanhavam as anotações diárias de 1917 do grão-duque não saíram em nenhuma das publicações. E embora o autor do diário julgasse que “nos jornais tudo aparece de forma deturpada”, os recortes colados no diário permitem seguir a crônica dos ocorridos da primavera de 1917 relativos à formação de um novo jeito de dirigir a Rússia e às principais ações do Governo Provisório após a abdicação de Nicolau 2.º.

O grão-duque quase não comentava a seleção de materiais jornalísticos que inseria no diário, talvez porque, tendo em vista a clandestinidade, pudesse ocorrer dele cair nas mãos erradas. Porém, as próprias escolhas do autor revelam quais eram seus principais focos de atenção. São antes de tudo comunicados oficiais da prisão de ministros do tsar no começo de março, a decisão da Duma Estatal de instaurar um novo poder no lugar do velho, o manifesto de renúncia de Nicolau 2.º ao trono, a prisão do ex-imperador e dos membros da família imperial, a expressão de lealdade dos grão-duques ao Governo Provisório, a renúncia deles às terras da coroa, o anúncio do representante do exército francês sobre o apoio aliado à revolução na Rússia, a renomeação dos tribunais militares, a indicação do general M. V. Alekseiev como comandante supremo, a nota “A Alemanha em nossa retaguarda” sobre o retorno à Rússia do grupo de bolcheviques emigrados sob a liderança de V. Lenin, a reunião do Governo Provisório com o Soviete de Operários e Soldados Deputados e muito mais.

Ao preparar o diário do grão-duque Andrei Vladimirovich de março a maio de 1917, os publicadores levaram em conta que após a Revolução de Outubro muitos representantes dos círculos militares e burocráticos do antigo império entraram “em diversos lados das barricadas”. Os nomes dos que foram ladear o novo poder, entraram no Exército Vermelho e fugiam de repressões políticas são indicados várias vezes nas edições históricas soviéticas. Já a maioria opositora foi impelida a emigrar do país, e os que ficaram na Rússia Soviética foram perseguidos como inimigos do povo. Seus nomes foram por longo tempo votados a um injusto esquecimento na Pátria. Para corrigir em parte essa elisão, os arqueógrafos adicionaram ao diário um índice onomástico com dados biográficos sobre as pessoas indicadas tanto por Andrei Vladimirovich quanto nos recortes de jornais (representantes da Casa Imperial Russa, chefes militares, políticos nativos e estrangeiros, deputados da Duma Estatal etc.). As entradas contêm informações sobre sua atuação política e profissional, sua participação em campanhas militares e seu destino posterior. Quando as informações pessoais apresentavam variantes, os publicadores recorriam a documentos de arquivo que ajudassem a definir com precisão a data de falecimento e o lugar de sepultamento. Porém, isso nem sempre foi possível em igual medida.

Grafias e informações errôneas no texto, pelas Regras de Edição de Documentos Históricos, foram revisadas sem ressalvas, caso não integrassem o estilo pessoal do autor. Em alguns casos a pontuação original foi mantida para correta compreensão do texto. Todos os acontecimentos até 1.º (14) de fevereiro de 1918 são indicados no corpo e nos comentários conforme o calendário antigo, e nos casos necessários são citadas ao lado as datas no novo calendário entre parênteses.

Artigo introdutório, preparação do texto à publicação e comentários de V. M. Khrustaliov e V. M. Osin.

As ilustrações apresentadas pelos autores saíram em: “Anais da guerra, 1914-1915” (São Petersburgo, 1915) e “Nicolau Romanov. Páginas da vida” (São Petersburgo, 2001).


«...ВСЕ БОЛТУНЫ ПУСТЫЕ, И ВЛАСТЬ СКОЛЬЗИТ ИЗ ИХ РУК»: Хроника Февральской революции в дневнике великого князя Андрея Владимировича (март – май 1917 г.)

Крушение монархии в России, Февральская революция 1917 г. и последующие за ними события нашли отражение в различных документальных источниках. Многие из них, в основном показывающие жизнь страны в дореволюционную эпоху с негативной стороны, обличающие самодержавие и господствовавшие классы, были опубликованы в советский период. Те же, что освещали события иначе, чем их трактовала официальная историография, например исходившие из стана противников советской власти, в том числе членов Российского императорского дома, как правило, неодобрительно отзывавшихся о большевиках и их лидерах, долгое время оставались неизвестными либо использовались фрагментарно, выборочно. Так было и с публикацией дневников великого князя Андрея Владимировича за 1914–1917 гг.

Великий князь Андрей Владимирович (1879–1956) был внуком императора Александра II, приходился двоюродным братом Николаю II, имел военное образование. С 1914 г. участвовал в Первой мировой войне, где служил в штабе главнокомандующего Северо-Западного фронта генерала Н.В. Рузского. С 7 мая 1915 г. он командовал лейб-гвардии Конной артиллерией, был генерал-майором свиты императора.

Начальник канцелярии Министерства императорского двора и уделов генерал А.А. Мосолов в свое время дал высокую оценку великому князю: «Андрей Владимирович блестяще окончил Военно-юридическую академию и стал советником и идейным вождем молодого поколения своей семьи. Он и в эмиграции продолжал интересоваться политическими вопросами и лучше других членов императорской фамилии был в них осведомлен. Человек очень даровитый и умный, Его Высочество вдобавок и трудолюбив».

Являясь одним из наиболее приближенных к трону лиц, Андрей Владимирович в то же время разделял имевшие место в высших кругах оппозиционные настроения по отношению к императорскому двору и в целом к событиям в государстве Российском. Накануне Февральской революции вдова великого князяВладимира Александровича (брата императора Александра III) великая княгиня Мария Павловна, считавшаяся, в соответствии с дворцовой иерархией, третьей дамой в империи после обеих императриц, и ее трое сыновей – Кирилл, Борис и Андрей Владимировичи активно осуждали государственную политику царской четы. Французский посол в России Морис Палеолог передавал слова Марии Павловны: «Ужасно – императрица сумасшедшая, а Государь слеп; ни он, ни она не видят, не хотят видеть, куда их влекут». Посол также утверждал, что великая княгиня вместе с сыновьями составляли великокняжескую оппозицию Николаю II. В его дневнике от 16 мая 1916 г. отмечено, что Мария Павловна «уже давно втайне лелеет мечту видеть на престоле одного из своих сыновей, Бориса или Андрея». О размолвках между Николаем II и семейством Марии Павловны в начале 1917 г. писал и великий князь Андрей Владимирович4. После убийства Григория Распутина в столичных аристократических салонах ходили упорные слухи о принадлежности великих князей Владимировичей к «дворцовому заговору».

Общественное положение великого князя позволяло ему быть в курсе придворных интриг, неведомых большинству других сановников, общаться со многими военачальниками, влиятельными царедворцами и политическими деятелями. Февральская революция застала Андрея Владимировича в Кисловодске, где он находился на лечении, и вскоре подвергся домашнему аресту по распоряжению Временного правительства. Через некоторое время арест был снят, но, как и большинство членов императорского дома Романовых, он оказался на положении ссыльного. После Октябрьской революции великий князь, опасаясь оказаться в заложниках «классовой борьбы», вынужден был скрываться в горах и только благодаря атаману А.Шкуроизбежал гибели. Во время Гражданской войны он вместе с матерью, великой княгиней Марией Павловной, и братом Борисом находился на Северном Кавказе, но участия в военных действиях не принимал. Стало ясно, что Белое движение, не имея единого стержня, было обречено. Позднее, в феврале 1920 г., после поражения на Северном Кавказе антибольшевистских сил, Андрей Владимирович вместе со своими ближайшими родственниками через Новороссийск отбыл из России. В эмиграции он не смирился с крахом империи и принимал активное участие в политическом движении монархистов. 30 января 1921 г. Андрей Владимирович официально женился на своей гражданской жене – известной балерине М.Ф. Кшесинской. 30 октября 1956 г. великий князь неприметно скончался в Париже.

С юношеских лет, как и остальные представители дома Романовых, он вел дневники. Некоторые из них сохранились до наших дней. Необычная судьба дневника за 1914–1917 гг. прослеживается по архивным документам. Отдельные его части (тетради за 1916–1917 гг.) были обнаружены в Пятигорске. При занятии Кисловодска красноармейцами в одном из гостиничных номеров «Гранд-отеля» была найдена книжка с дневниковыми записями великого князя. Обложку с великокняжескими позолоченными вензелями нашедший сорвал, а «книжку за табак отдал красноармейцу Павлу Ивановичу Сормину, жившему в Пятигорске». Новый владелец дневника прятал его несколько лет от посторонних глаз, опасаясь ареста за хранение подобных документов. Только в конце 1927 г. он поведал о своей тайне врачу А.С. Померанцеву. Через Померанцева дневник попал к историку-архивисту В.В. Максакову и, наконец, в государственный архив.

Впервые великокняжеский дневник за 1915 г. оказался в руках советских историков и был издан «Госиздатом» в 1925 г. в виде небольшой брошюры6 со значительными купюрами, которые не оговаривались издателем.

В предисловии к этому изданию давалась общая «антиромановская» оценка документа: «Дневник А.Романова представляет некоторый интерес: это объясняется только тем, что автор, в силу своего происхождения, вращался в том кругу, в котором было известно многое об интимной, скрытой от посторонних лиц стороне различных политических и военных событий того времени… Несмотря на полное убожество своей великокняжеской, ура-патриотической идеологии, Андрей Романов, как автор дневника, имел одно хорошее качество: он, несомненно, точно, почти протокольно заносил на эти страницы все то, что ему приходилось слышать и видеть. И, несмотря на то что во всем этом автор разбирался плохо, в явно ощущаемой точности его сообщений – несомненное достоинство этого дневника».

В 1928 г. в журнале «Красный архив» появилась еще одна публикация фрагментов дневника великого князя, относящихся к 1916 г. и связанных с убийством Г.Распутина, но с большими изъятиями текста без каких-либо пояснений.

В архивных фондах Государственного архива Российской Федерации дневники великого князя Андрея Владимировича сохранились гораздо полнее и содержательнее, чем их публикации в перечисленных изданиях.

В 1990-е гг. отдельные фрагменты дневника за сентябрь 1914 г. – июнь 1917 г. были опубликованы в журналах «Октябрь» и «Источник», а также вошли в сборник мемуаров, выпущенный издательством «Фонд Сергея Дубова». Но и эти публикации содержали лакуны. Так, дневниковые записи великого князя за 1917 г. сопровождались множеством вырезок из российских центральных и местных газет, которые не вошли ни в одну из публикаций. И хотя автор дневника считал, что «в газетах все помещают в извращенном виде», по вклеенным в дневник вырезкам можно проследить хронику событий весны 1917 г., относящихся к формированию в России новой формы правления, важнейшим действиям Временного правительства после отречения Николая II.

Помещая в дневнике подборку газетных материалов, великий князь почти их не комментировал, возможно, из соображений конспирации, на тот случай, если дневник попадет в чужие руки. Однако сам их отбор показывает, на что особенно обращал внимания автор. Это прежде всего официальные сообщения об аресте царских министров в начале марта, постановление Государственной думы об упразднении старой власти и замене ее новой, манифест об отречении от престола Николая II, арест бывшего императора и членов императорской фамилии, выражение великими князьями верности Временному правительству, их отказ от удельных земель, заявление представителя французской армии о поддержке союзниками революции в России, переименование военных судов, назначение генерала М.В. Алексеева верховным главнокомандующим, заметка «Германия в нашем тылу» о возвращении из эмиграции в Россию группы большевиков во главе с В.Лениным, совещание Временного правительства с Советом рабочих и солдатских депутатов и др.

При подготовке дневника великого князя Андрея Владимировича за март – май 1917 г. публикаторы учитывали, что после Октябрьской революции многие представители военных и чиновных кругов бывшей империи оказались «по разные стороны баррикад». Имена одних, перешедших на сторону новой власти, оказавшихся в Красной Армии и избежавших политических репрессий, неоднократно упоминались в советских исторических изданиях. Другие же, и их большинство, были вынуждены эмигрировать из страны, а если остались в Советской России, были репрессированы как враги народа. Имена их на Родине долгое время были преданы незаслуженному забвению. Чтобы частично исправить этот пробел, археографы снабдили дневник именным указателем, в котором представлены биографические данные об упоминаемых как Андреем Владимировичем, так и в газетных вырезках лицах (представителях Российского императорского дома, военачальниках, отечественных и зарубежных политических деятелях, депутатах Государственной думы и т.д.). Справки содержат сведения об их профессиональной и политической деятельности, участии в военных кампаниях, дальнейшей судьбе. Когда в персональной информации встречались разночтения, публикаторы стремились привлечь архивные документы и по ним определить точные дату смерти и место захоронения. Однако не всегда в равной степени это удалось.

Ошибки и описки в тексте дневника, согласно Правилам издания исторических документов, устранены без оговорок, если они не выражают особенности стиля автора. В некоторых случаях для правильного понимания текста сохранена авторская пунктуация. Все события в тексте и комментариях указаны по старому стилю до 1 (14) февраля 1918 г., в необходимых случаях даты по новому стилю приводятся рядом в круглых скобках.

Вводная статья, подготовка текста к публикации и комментарии В.М. Хрусталева и В.М. Осина.

Представленные авторами иллюстрации выявлены в изданиях: «Летопись войны 1914–1915 гг.» (СПб., 1915) и «Николай Романов. Страницы жизни» (СПб., 2001).



A casa (dinastia) dos Románov da Rússia imperial.

domingo, 27 de novembro de 2022

Fim da pena de morte na Rússia (1917)


Link curto pra esta postagem: fishuk.cc/penademorte-ru

Este é o quarto texto que traduzi pra coletânea Manifestos vermelhos e outros textos históricos da Revolução Russa (Penguin Companhia, 2017), organizada pelo professor Daniel Aarão Reis por ocasião dos 100 anos dos eventos na Rússia em 1917, mas que não foi incluído na publicação. Trata-se de um editorial da revista Níva, a maior e mais popular publicação ilustrada de variedades que circulou na Rússia do fim de 1869 até setembro de 1918, quando foi interditada pelos bolcheviques. Ela foi lançada pelo imigrante alemão que curiosamente se chamava Adolf Marx, mas aparentemente não tinha parentesco com nosso conhecido Karl Friedrich (de fato, é um sobrenome muito comum, tem Marx até no Brasil), e após sua morte, a publicação foi continuada pelo comprador de sua editora.

Niva atingia públicos muito variados, sendo pioneira em seu gênero na Rússia imperial, e sua pretensão inicial era ser uma espécie de entretenimento leve e apolítico pra toda a família. Mas com o tempo, se tornou um grande vetor da cultura erudita, inclusive de clássicos da literatura, e muitos escritores famosos também contribuíram com textos pra revista. Apesar de seu denso conteúdo, era zombada pelos intelectuais urbanos como uma distração das classes menos letradas ou pouco engajadas, as quais, porém, nem sempre se aprofundavam no conteúdo de Niva. Eu mesmo traduzi o texto, e ele segue abaixo junto com o curto original:


Abolição da pena de morte
Editorial da revista Niva. Março de 1917

Foi realizada uma das mais importantes reformas: a abolição da pena de morte...

Tal devoção ao ideal da liberdade, da lei suprema do amor ao próximo, não tem paralelo na incrível história das revoluções nos países europeus...

À 01h08min do dia 8 de março, o ministro da Justiça A. F. Kerenski assinou o decreto do Conselho de Ministros abolindo para sempre a pena de morte na Rússia. O decreto que extingue a pena capital percorreu todas as instâncias com excepcional rapidez e responde a uma exigência do momento.

Por proposta do ministro da Justiça, o projeto de lei foi elaborado com pressa, ficando sua redação a cargo de um catedrático de direito penal que se instalou nas dependências do Ministério da Justiça durante a elaboração do texto. O decreto se distingue pela extraordinária brevidade e consiste de três pontos, prevendo a abolição da pena de morte não apenas nos tribunais civis e militares, mas também em todos os tribunais de exceção, como as cortes marciais que atuam no front durante a guerra.

Às 4 horas da tarde de 8 de março, o decreto que extingue a pena de morte foi enviado pelo Ministério da Justiça para publicação, tendo o ministro da Justiça A. F. Kerenski, ao promulgar esse histórico documento, assim se dirigido em prantos aos presentes: “Que fortuna a minha receber o encargo de assinar o édito abolindo para sempre a pena de morte na Rússia”.

Niva. 1917. Março. N.º 12.


Отмена смертной казни
Передовая статья в журнале «Нива». Март 1917

Исполнилась одна из крупнейших реформ – отмена смертной казни…

Такой верности идеалу свободы – высшего закона любви к ближнему нет примера в мировой истории революций европейских стран…

8-го марта, в 1 час 8 мин. министр юстиции А.Ф.Керенский скрепил декрет Совета Министров об отмене навсегда в России смертной казни. Декрет об отмене смертной казни прошел все инстанции с исключительной быстротой и вызван требованием момента.

По предложению министра юстиции, законопроект был спешно разработан, причем редакция его была поручена профессору уголовного права, находившемуся во время разработки законопроекта в помещении министерства юстиции. Декрет отличается необычайной краткостью и состоит из трех пунктов. Он предусматривает отмену смертной казни в судах не только гражданских и военных, но и во всяких исключительных судах, как военно-полевых, действующих на фронте во время войны.

В 4 часа дня 8-го марта декрет об отмене смертной казни был отправлен из министерства юстиции для распубликования, причем министр юстиции А.Ф.Керенский, передавая этот исторический документ, обратился к окружающим со слезами на глазах и сказал: «Я счастлив, что мне выпало на долю подписать указ об отмене смертной казни в России навсегда».

Нива. 1917. Март. № 12.



sexta-feira, 25 de novembro de 2022

Kerenski se dirige ao povo (ago/1917)


Link curto pra esta postagem: fishuk.cc/kerenski1917

Este é o terceiro texto que traduzi pra coletânea Manifestos vermelhos e outros textos históricos da Revolução Russa (Penguin Companhia, 2017), organizada pelo professor Daniel Aarão Reis por ocasião dos 100 anos dos eventos na Rússia em 1917, mas que não foi incluído na publicação. Como você leu há dois dias, o comandante-em-chefe do exército russo, general Lavr Kornílov, tentou dar um golpe de Estado no Governo Provisório em setembro de 1917, mas falhou em seu intento e foi preso por ordem do ministro-presidente Aleksándr Kérenski (1881-1970).

Este político, pertencente ao Partido Socialista Revolucionário (cujos membros eram conhecidos como SRs), leu o seguinte manifesto no rádio, condenando a atitude do oficial e pedindo calma ao povo pra assegurar o controle da situação. Kerenski partiria pro exílio poucas semanas após o golpe bolchevique, porque também não apoiava o Exército Branco, e finalmente morreria em Nova York; curiosamente, expressou apoio a Stalin durante a invasão nazista de 1941. Eu mesmo traduzi do russo, e o original também segue abaixo:


A. F. Kerenski se dirige ao povo pelo rádio
27 de agosto de 1917

Declaração do ministro-presidente.

Em 26 de agosto o gen. Kornilov enviou junto a mim Vladimir Nikolaievich Lvov, membro da Duma Estatal, com a exigência de que o Governo Provisório transmitisse ao oficial a totalidade do poder civil e militar de forma que ele, por critério pessoal, compusesse o novo governo que dirigiria o país. [...]

Percebendo na apresentação dessa exigência, dirigida ao Governo Provisório em minha pessoa, o desejo de alguns círculos da sociedade russa de aproveitar-se da difícil situação do Estado para estabelecer no país uma ordem institucional em contradição com as conquistas da revolução, o Governo Provisório considerou indispensável que eu tomasse medidas rápidas e decisivas para matar no ninho todas as tentativas de atentar contra o poder supremo de Estado e contra os direitos conquistados pelos cidadãos na revolução. Para proteger a liberdade e a ordem no país, estou tomando todas as medidas necessárias, sobre as quais a população será oportunamente informada.

Ao mesmo tempo, estou ordenando:

1) Que o general Kornilov entregue o posto de Comandante Supremo. [...]

2) Que se declare o estado de guerra na cidade de Petrogrado e no distrito [uiezd] de Petrogrado, ao longo do qual valerão as regras sobre as localidades decretadas nessa situação...

Conclamo todos os cidadãos à plena tranquilidade e à manutenção da ordem, indispensável para salvar a pátria. Exorto todos os funcionários do exército e da marinha ao abnegado e equilibrado cumprimento de seu dever, que é defender a pátria do inimigo externo!

A. F. Kerenski, ministro-presidente e ministro de guerra e mar.


Радиограмма А.Ф. Керенского с обращением к народу
27 августа 1917 года

От министра–председателя.

26 августа ген. Корнилов прислал ко мне члена Гос. Думы Вл. Ник. Львова с требованием передачи Временным правительством ген. Корнилову всей полноты гражданской и военной власти с тем, что им, по личному усмотрению, будет составлено новое правительство для управления страной. [...]

Усматривая в предъявлении этого требования, обращённого в моём лице к Временному правительству, желание некоторых кругов русского общества воспользоваться тяжёлым положением государства для установления в стране государственного порядка, противоречащего завоеваниям революции, Временное правительство признало необходимым для меня принят скорый и решительные меры, дабы в корне пресечь все попытки посягнуть на верховную власть в государстве, на завоёванные революцией права граждан. Все необходимые меры к охране свободы и порядка в стране мною принимаются и о таковых мерах население своевременно будет поставлено в известность.

Вместе с тем приказываю:

1) Генералу Корнилову сдать должность Верховного главнокомандующего. [...]

2) Объявить город Петроград и петроградский уезд на военном положении, распространив на него действие правил о местностях, объявленных состоящими на военном положении...

Призываю всех граждан к полному спокойствию и сохранению порядка, необходимого для спасения родины. Всех чинов армии и флота призываю к самоотверженному и спокойному исполнению своего долга – защиты родины от врага внешнего!

Министр–председатель, военный и морской министр А.Ф. Керенский.