terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Macron imitou Lula antes de vencer


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Garimpando algumas fotos pelo Google Imagens, acabei descobrindo que no início de 2017, quando estava oficializando sua primeira candidatura à presidência da República, o banqueiro francês Mané Marcão Emmanuel Macron, que tinha acabado de renunciar ao Ministério da Economia do presidente François Hollande pra lançar seu próprio partido (no início “En Marche !” – Em Marcha! –, hoje “Renaissance” – Renascimento), usou uma rasa barba por algum tempo. Como pudemos ver, nos dias da eleição e da posse, ele já a tinha raspado, mas é interessante saber como ele quis “lular” pouco antes da primeira vitória, tanto mais que de 2006 a 2009 ele tinha sido membro do Partido Socialista, rs. Enfim, um pouco de conhecimento inútil nesta publicação extra pra alegrar sua semana!

E como brinde, várias suposições de como Macron ficará quando for velho (se chegar até lá, claro...), feitas com o FaceApp, um aplicativo popular há alguns anos que podia fazer a cara de uma pessoa retroceder ou avançar em idade. A curiosidade era tão maior devido ao fato dele ter assumido relativamente jovem (39 anos), o mais novo dos presidentes franceses empossados, ainda mais quando lembramos que, por exemplo, François Mitterrand e Jacques Chirac já eram bem anciãos quando assumiram o cargo.














Universo paralelo: o “véio da lancha” com sua novinha kkkkk





Em algumas projeções da velhice, Macron até mesmo parece alguém aparentado à família Bush, sobretudo ao ramo dos presidentes George pai e filho. Na origem desta foto, há uma piada dizendo que Macron ia seguir o exemplo de sua própria reforma da previdência e trabalhar até os 64 anos. É essa tentativa de mudar a idade mínima de 62 pra 64 anos que tem parado a França em novas greves esses dias...


Existe uma lenda segundo a qual esta foi a primeira frase que a mãe de Macron disse a ele quando soube que o filho adolescente estava apaixonado pela professora, rs!


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

Os russos e os ursos (alerta de fofura)


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Como parte dos estereótipos ocidentais (basicamente europeus e estadunidenses) sobre a Rússia como um lugar inóspito, gelado, selvagem e ainda meio bárbaro, sempre circulam memes de russos que têm ursos marrons mais ou menos selvagens como animais de estimação ou que, no cotidiano rural, lidam com eles como nós brasileiros lidamos com qualquer bichinho menor que venha do mato (exceto onças, é claro...). Há alguns ursos que realmente são domesticados desde o nascimento e praticamente não oferecem perigo a seu criador, enquanto outros já parecem acostumados à vizinhança humana, ou foram os humanos que aprenderam a lidar com a presença das feras...

Obviamente a maioria dos exemplos aqui publicados, que estou restaurando de meu extinto canal Pan-Eslavo Brasil no YouTube, é de fofura e respeito, mas apenas o primeiro noticia um caso de agressão animal e de provável mau trato prévio. Urso de circo, uma coisa que já não deveria mais existir. Bom divertimento!


O circo itinerante Schapito Anschlag estava planejando uma turnê pela região da Carélia, norte da Rússia, pra mostrar seu trabalho. Em 24 de outubro de 2019, um domador estava conduzindo um urso pelo palco quando de repente o animal o atacou ferozmente. O pior de tudo é que o ajudante tentou contornar o fato dando chutes no bichinho, mas, sem obter resultado, terminou o afastando por meio de choques elétricos! As imagens foram filmadas pela russa Galina Gurieva, que as postou em sua conta do VK.

Outras bizarrices: havia crianças assistindo, todos entraram em pânico mesmo havendo apenas uma só porta pra fuga, não havia grades de proteção entre a plateia e o picadeiro e, pra não deixar de ser Rússia, o domador sequer foi pro hospital e continuou fazendo outros números. Porém, houve grandes manifestações na internet pedindo o boicote das apresentações, enquanto o circo na manhã seguinte sumiu do local sem deixar nenhum rastro. Os russos foram unânimes nos comentários: parabéns ao “Misha” (urso)!

Eu cortei o quadro e repeti a exibição, tendo baixado o vídeo e copiado as informações desta página. Devemos ser contra os circos que insistem em usar animais nas apresentações!


Hola, me llamo Pável, este es mi oso. Dima, viene acá!

Urso amestrado toca corneta, brinca de bambolê e faz outras gracinhas (Rússia, 2013). Temos um vídeo em que um domador brinca com seu urso amestrado e o manda fazer várias gracinhas em frente à câmera, recompensando-o com comida! Eu não identifiquei a cidade e o nome (Pavel? E o urso Dima? rs) do rapaz, mas esta versão foi a que usei como base, apenas fazendo uma pequena introdução e aumentando o volume. Existe outra publicação com a mesma gravação, mas sem edições, e que talvez seja a original.


Os russos e os ursos: cada povo tem os pets que consegue (seleção de memes). Alguns ursos nas regiões mais frias são mais ou menos domesticados ou mesmo mansos, e rapazes mais experientes podem lidar com eles de maneira mais tranquila, mesmo que não sejam totalmente adestrados.

Nem sempre podemos ver sinais de maus tratos, abandono ou agressão, e ao contrário do que pensa o senso comum ocidental, essa relação pode ser muito mais carinhosa do que se imagina. Pra entendermos melhor, basta vermos como tanta gente se dá bem com bichos de estimação mais ou menos estranhos na Floresta Amazônica ou na Mata Atlântica do Brasil. Em certos países, até jacarés podem servir como “pets”!

Vídeos originais:
http://youtu.be/4-1DSNJly1I
http://youtu.be/MKkSDPJ5SyY
http://youtu.be/bDg50Tzh8uA


Funcionários russos brincando com um urso marrom em região fria, mostrando a relação dos homens com os ursos selvagens das regiões norte ou siberiana. Parece que o bichinho gosta de brincadeiras, e os funcionários públicos, talvez gente ligada às forças militares, ficam zoando com ele e o segurando por todos os lados. Realmente, está claro que os caras não estão fazendo mal ao urso, que cai na brincadeira, mas não parece nada agradável o modo como seguram seus braços, cabeça e boca, e até mesmo prendem seu pescoço...


Outro vídeo mostra um dia normal de produção de conteúdo audiovisual por Drew Hammond, desta vez à beira do rio McNeil, no Alasca, que já sabemos ter feito parte do Império Russo. De repente um urso simplesmente aparece ao lado da cadeira, se senta um pouco na relva e sai sossegadamente, sem incomodar ou assustar o profissional. Parece que a fonte original não está mais disponível, embora haja várias cópias pelo YouTube, mas apenas coloquei uma polca eslovena ao fundo, a título de embelezamento.


domingo, 5 de fevereiro de 2023

Crise dos coaches e dos bolsominions


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Nesta nova publicação extra com material aleatório e reflexões, decidi “hackear” um artigo da Folha de S. Paulo de forma diferente, ou seja, usando prints ao invés do texto copiado. Pra efeitos de facilitação da busca, ele se chama “Gracyanne para de malhar e Marie Kondo de organizar. É o fracasso dos influencers?”, escrito por Flávia Boggio e publicado no último dia 1.º de fevereiro. Subscrevo todas as suas observações, mas apenas acrescento: ela poderia ser mais sutil e usar a abreviação “K-gay” ou K mais o emoji com a bandeira do orgulho. E só fica claro como as pessoas de hoje, sobretudo adultos jovens, que não têm mais senso crítico nem sabem criar seus próprios valores, precisam de guias messiânicos não só pra dizerem o que devem ou não fazer, mas também pra terem a quem adular e até por quem brigar, numa sociedade sempre menos religiosa. No passado, função semelhante cumpriam os livros de “autoajuda”, que de “auto” não tinham nada, ou muito menos do que onde ele realmente funciona, ou seja, no Gnōthi seauton, o célebre... “Conheça a si mesmo”.









Falando em letras homoafetivas, poderíamos supor que BolsoGuedes, caso tivessem sido reeleitos, poderiam abrir aqui um Banco de Bosta Boston, de cuja moeda corrente o Mito seria um grande fornecedor, não só pelo orifício de baixo, mas, sobretudo, pelo de cima!


O Carnaval está chegando, portanto, se previnam!


Falando em “ré”, muito engraçada essa rivalidade entre o Ronaldo Fenômeno e o Craque Neto, que tá sempre ameaçando o camisa 9 de revelar “o que acontecia em Presidente Prudente”... Não sei se é porque vi o comentarista recentemente dando seus chiliques na Band, mas as duas recomendações apareceram lado a lado. E vejam a diferença na data em que foram carregadas!


Nas últimas semanas, o que realmente me impressionou foi o quanto “bombou” minha publicação sobre os bolsominions dando chilique e xingando policiais e jornalistas em Londres em pleno velório da rainha Elizabeth 2.ª, como se tivessem totalmente alheios ao motivo do ex ter viajado pra lá! Eles parecem apêndices do Capitão: não importa aonde e por que ele se desloque, eles vão atrás, como que grudados e carregados... Realmente uso a palavra “bombar” pras minhas publicações, porque acho que “viralizar” é um exagero, mesmo pros padrões desta pobre página, que já são bastante baixos. Não sei se blogs também funcionam no sistema de algoritmo, já que o Google sempre dava a dica de “publicar mais pra ter mais visualizações”, mas às vezes podem ser fatores externos “mecânicos”: alguém compartilhou pra uma grande audiência, o assunto do material tá em voga no momento, ele realmente agradou ao público que chegou aqui e, portanto, compartilhou com mais gente etc.


Sempre desconfie quando falarem de “ódio de esquerda” ou “foi o PT que começou a polarização, ou o nós contra eles”, ou simplesmente vire as costas e mande a pessoa ir praquele lugar. A extrema-direita brucutu jamais reagiu a alguma opressão ou necessidade pungente, e sim aproveitou a crise das esquerdas pra destilar todo seu preconceito e ódio mantido por muitos anos, talvez décadas. O Brasil é governado pela mesmo elite latifundária e seus descendentes desde sua formação como Estado, nunca houve a remota iminência de haver aqui um governo comunista nem sequer operário-camponês. Vejamos o primeiro caso: tudo bem que o moço escreve mal, mas me admira é que não tenha apanhado de nenhum dos atores... No segundo caso, a máscara caiu completamente. Mas pelo menos, a hora da diplomação serviu de refresco contra aqueles que ascenderam, mas de forma oportunista instrumentalizando o combate à corrupção, que não é partidária, mas sistêmica, rs.








Vera Magalhães combate “radicalismo” petista e leva do radicalismo bolsonarista

sábado, 4 de fevereiro de 2023

Melhor pior execução do hino brasileiro


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A Era Lula estava chegando ao fim. As últimas zoeiras antes das redes sociais de massa e dos smartphones estavam sendo desfrutadas. A desilusão com a Seleção Brasileira de Futebol Masculino (CBF) só estava começando, e o clima de “primeira copa na África”, com suas incômodas vuvuzelas, ainda elevava o moral da população. Ainda era raro que os vídeos com grandes micos da televisão e da mídia viralizassem no YouTube, no Facebook e menos ainda no finado Orkut, como este que mostra a execução do Hino Nacional Brasileiro por uma banda militar de Harare, capital do Zimbábue, na abertura de um amistoso. Da postagem original (já começa do hino), na qual se pode assistir à partida completa, apenas cortei o quadro e selecionei o trecho. Podem passar os anos, mas este vídeo não perde a graça!

Tratava-se do último amistoso do Brasil antes da Copa da África do Sul, em junho e julho de 2010, jogado com o Zimbábue em 2 de junho daquele ano. Quando você tá louco pra cantar bem forte o hino ao som da potente orquestra... eis a decepção! Na época, o assunto foi muito visto e comentado, mas parece que depois não entrou pro nosso folclore. Foram feitas muitas comparações com a cantora Vanusa, que tinha cantado o hino nacional num evento da Assembleia Legislativa de São Paulo em novembro de 2009 de forma que parecia estar bêbada (soube-se depois que era o efeito de remédios pra sua doença neurológica, da qual faleceria em 2020). Em todo caso, não sabemos como foram “treinados” ou “ensaiaram” os músicos do Zimbábue, e podemos nos divertir vendo as caras desnorteadas de antigos ídolos de nosso futebol, como Kaká, Robinho (que até zoam entre si), Luís Fabiano, Júlio César, Lúcio (que parece desconcertado) e Elano!

A contraposição com nosso atual patrioteirismo neurótico é evidente: apesar do constrangimento, os brasileiros que foram ao estádio só queriam aproveitar o momento, fotografavam com suas câmeras digitais (celular? selfie? tsc, tsc, tsc...) e vibravam gritando por qualquer coisa, quando eles mesmos ou os maiores craques apareciam no telão! O pior foi ouvir a fanfarronada em dose dupla, com repetição inusitada pro padrão FIFA, hahaha.



quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

Festa de 40 anos da Alemanha Oriental


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Estou postando hoje vários trechos separados de cenas da celebração de 40 anos da República Democrática Alemã (Deutsche Demokratische Republik), também conhecida como RDA, DDR ou Alemanha Oriental, fundada na antiga zona alemã de ocupação soviética, após a derrota dos nazistas na 2.ª Guerra Mundial, em 7 de outubro de 1949. Essa grande festa ficou marcada não só pela grandiosidade das manifestações, mas também porque logo após um grande protesto que sacudiria o país socialista levaria à derrubada do Muro de Berlim, que dividia os dois lados da antiga capital imperial, e à unificação das duas Alemanhas em 3 de outubro do ano seguinte.

Após a unificação de vários pequenos Estados germânicos, a Alemanha moderna foi fundada em 1871 como um Estado Imperial e se transformou em república em 1918, após a derrota no 1.ª Guerra Mundial e a perda de vários territórios, sobretudo em prol da Polônia. Em 1933, ao tomar o poder, Adolf Hitler decretou o Terceiro Reich, ou seja, nem monarquia, nem república, e em sucessivas guerras tentou ampliar o território alemão. Com a derrota na Segunda Guerra, em 1945, a Alemanha perdeu ainda mais territórios pra outros países e se viu dividida em zonas de ocupação pelos principais Aliados vitoriosos: EUA, França, Reino Unido e URSS. Porém, em 23 de maio de 1949, os trê setores “capitalistas” se uniram unilateralmente pra formar a República Federal da Alemanha (Bundesrepublik Deutschlands) – RFA/BRD ou Alemanha Ocidental –, portanto antes da proclamação da RDA. Sua capital de jure era Bonn, enquanto Berlim também foi dividida em duas, sendo capital da RDA a parte oriental (tipo Jerusalém Oriental pros palestinos...).

O muro mesmo só seria construído em 1961 pelo ditador Walter Ulbricht, com a anuência do líder soviético Nikita Khruschov (e não de Stalin), pra tentar conter a sangria de pessoal especializado pro Ocidente. Tecnicamente, portanto, podemos dizer que em 1990, não houve uma “unificação” ou “reunificação” a princípio, pois na verdade a Alemanha Oriental foi anexada pela Ocidental, não resultou algo terceiro ou intermediário no processo. Além disso, era a primeira vez que, com essa delimitação territorial, aparecia uma só Alemanha, já que, antes de ser bipartida, ela tinha perdido um pouco de território a cada Guerra Mundial da qual saía (perdedora).

A partir do vídeo completo da parada militar pelos 40 anos da RDA (eu não apoio a invasão da Ucrânia, como o idiota dono do canal), há várias partes interessantes que podem ser vistas separadas. O primeiro vídeo é a execução instrumental pela banda do NVA (Exército Popular Nacional) de Auferstanden aus Ruinen (Ressurgindo das Ruínas), o Hino Nacional da RDA. Estavam presentes o ditador Erich Honecker (o vovô de chapéu preto e óculos), sucessor de Ulbricht, Mikhail Gorbachov (da URSS) a seu lado e muitos outros líderes comunistas ou anticapitalistas da época, como Jaruzelski, Ceaușescu, Zhivkov e Arafat. O contexto de então é muito bem retratado no filme Adeus, Lenin! (2005), embora com picadas cômicas e mercadológicas. Neste vídeo eu apenas cortei o quadro, aumentei o volume e repeti 3 vezes a execução instrumental.


O segundo vídeo contém a revista completa das tropas pelos comandantes das Forças Armadas, antes que a parada começasse, com a execução instrumental pela banda do NVA da Marcha de Apresentação do NVA. E o terceiro vídeo exibe toda a parte em que as tropas desfilam a pé, de todas as Forças Armadas, até a retirada final da banda musical. Durante a maior parte do procedimento pode-se ouvir a Marcha do NVA para Desfilar em Parada, e eu cortei a passagem de tanques, mísseis e outras máquinas, que você pode ver na postagem original. Nesses dois últimos, há até mesmo um grande cartaz escrito Es lebe die Deutsche Demokratische Republik – unser sozialistisches Vaterland! (Viva a República Democrática Alemã, nossa Pátria socialista!), e eu não cortei o quadro, pra que você pudesse desfrutar completamente da riqueza visual, presente nas bandeiras, nas tropas, nos carros, nas máquinas e no público.




quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Morre estudiosa do nazismo tropical


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Esta mensagem foi enviada por meio eletrônico à comunidade acadêmica da Unicamp, tendo sido redigida pela Prof.ª Dr.ª Suely Kofes, em nome do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, como um obituário de Adriana Abreu Magalhães Dias, pesquisadora aí formada, que produziu trabalhos de referência tanto sobre o neonazismo no Brasil quanto sobre a deficiência e a acessibilidade. Também fez parte dos setores de direitos humanos ligados ao recente governo de transição de Lula. Foi ela, por exemplo, quem descobriu em 2021 uma carta de Bolsonaro escrita em dezembro de 2004 e agradecendo a militantes neonazistas pelo apoio que eles concediam a seu mandato. Na época, o texto foi publicado apenas em páginas ligadas a esses militantes (todas elas hoje extintas, por ação da Adriana), e em mais nenhum lugar. Republico aqui devido à importância desse trabalho e de meu pertencimento ao mesmo instituto da Unicamp.


Se um obituário é uma escrita biográfica, melhor seria não começar pelas datas, as convencionais do nascimento e morte. Uma vida continua nos vestígios que permanecem entre os vivos. Pelo nome, comecemos pelo nome, Adriana.

Adriana Abreu Magalhães Dias formou-se como antropóloga na Unicamp. Concluiu a sua graduação em Ciências Sociais com a defesa de uma monografia baseada em uma pesquisa pioneira, no tema e na “área etnográfica”: Os Anacronautas do teutonismo virtual: uma etnografia do neonazismo na internet (2005). Com um considerável conhecimento da deep web, observou postagens não reconhecíveis ao leigo, as publicações dos neonazistas, e continuou assim a sua pesquisa para o mestrado (PPGAS, Unicamp), concluído com a dissertação intitulada Os Anacronautas do teutonismo virtual: uma etnografia do neonazismo na internet (2007). Finalmente, em 2018, defendeu a sua tese de doutorado: Observando o ódio: entre uma etnografia do neonazismo e a biografia de David Lane.

As suas pesquisas acadêmicas, monografia, dissertação e tese, são imprescindíveis para o estudo das concepções e ações neonazistas e sobre pesquisas antropológicas na internet. Quem faz antropologia neste campo de estudos no Brasil precisa necessariamente reconhecer seu pioneirismo e a importância de suas pesquisas.

Adriana é uma ativista, radicalizou os supostos de uma antropologia pública. Pelos seus artigos, pelos debates e ações jurídicas contra neonazistas. Pela coordenação do Comitê “Deficiência e Acessibilidade” da ABA [Associação Brasileira de Antropologia], organizou também na ABA o I Seminário Nacional de Políticas Públicas para Mulheres com Deficiência, pela criação e realização de GTs [grupos de trabalho] relativos aos estudos sobre as pessoas com deficiência. Na elaboração do projeto de lei para o Dia Nacional das Doenças Raras.

Ao criar o Instituto Baresi, um fórum nacional associando “pessoas com doenças raras, deficiências e outros grupos de minoria”, enfatizava a sua luta contra desigualdades e pela justiça. Não foi possível ainda me envolver pela evocação dos nossos momentos comuns.

Pela dor, mas também pelas centenas de testemunhos da vida e do trabalho e das ações políticas de Adriana que leio desde o dia vinte e oito de janeiro de 2023, quando foi anunciado o seu falecimento. Um mês depois de seu aniversário. Adriana não apenas pesquisou sobre e agiu contra as redes de neonazistas.

Criou um meshwork de afetos, tecido pelas suas lutas e pela sua generosidade. Onde quer que estivesse, no IFCH, Unicamp, em outras universidades, em reuniões científicas, em lugares aos quais era convidada a debates, no cotidiano, reivindicava condições de acesso aos portadores de deficiências, inclusive para si mesma.

Como li em algumas mensagens sobre ela, Adriana foi pioneira também nas reivindicações de acessibilidade nos ambientes acadêmicos e com uma qualidade própria, a de insistir nos problemas. Sensível esta relação entre os seus temas de pesquisa em antropologia, os de seus ativismos e entre estes e a sua vida, breve. Uma antropóloga, uma ativista. Acompanhei as suas pesquisas desde a monografia de graduação até o seu doutorado. Nos separamos no ativismo e nos aproximávamos intensamente nas leituras em antropologia, nas conversas sobre as suas pesquisas, e por um intenso afeto.

Quando Adriana concluiu o seu doutorado, tornei-me uma mensageira que endereçava a ela os tantos e-mails de jornalistas e movimentos por direitos humanos procurando-me para obter o seu endereço de e-mail. Pode-se dizer da vida de Adriana Abreu Magalhães Dias, que ela se fez distribuindo o bem e na procura da justiça. Que este seja o seu legado permanente.

Até sempre e obrigada, Adriana.



O consumo conjunto de copos de leite é um dos símbolos alheios aos leigos.