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24 de julho de 2021

Chinesa e mongol falando em russo


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As últimas edições do meu programa favorito de política mundial, “Международное обозрение” (Mezhdunaródnoie obozrénie; pode ser traduzido como “Panorama Internacional”), têm dado interessantes reportagens sobre como os russos têm se relacionado com os vizinhos do Extremo Oriente, sobretudo com países comunistas ou ex-comunistas. O programa é exibido pelo canal jornalístico Rossia 24, controlado pelo governo, e atualmente apresentado por Fiodor Lukianov, especialista em relações internacionais. Eu sei que contém praticamente a visão política de Putin, mas abstraindo isso, gosto do programa como um contraponto à visão ocidental predominante e uma fonte de informações muito variadas.

Na edição de 9 de julho passou uma reportagem sobre como os chineses estão curtindo cada vez mais a cultura russa, na sequência da reaproximação entre os dois países, e na edição de 16 de julho tratou-se dos 100 anos de relações internacionais da República da Mongólia, um dos primeiros Estados socialistas do mundo, com outros países, incluindo a Rússia soviética.

A moça chinesa entrevistada, identificada como Zhang Ling, frequenta um dos cursos ministrados por uma russa na China e fala algumas palavras no idioma. Há alguns pontos que não correspondem à língua padrão, como o uso de on (ele) pra se referir à avó, o uso de baba quando deveria ser babka ou bábushka (já fiz muito esse erro!) e o uso de em minha memória talvez pra se referir a alguma recordação do passado.

Zhang Ling menciona o conto Kolobók, que na verdade é conhecido entre todos os eslavos orientais e tem equivalentes aproximados em países vizinhos, eslavos ou não. Trata-se de algo parecido com um crepe redondo ou com uma carolina (o doce), dependendo da versão, que toma vida e participa da história (não existe tradução exata da palavra).

Na semana seguinte, o canal exibiu toda uma reportagem sobre a permanência da figura de Gengis Khan como um mito de fundação nacional e a constituição da Mongólia moderna como um Estado separado da China e desde o início auxiliado pelos bolcheviques. Houve uma breve participação de Jügderdemidiin Gürragchaa, nascido em 1947 e primeiro astronauta do país, treinado na antiga URSS e falante do russo, embora um pouco destreinado, como vemos. Ele também foi ministro da Defesa da Mongólia de 2000 a 2004, e lamenta a negligência dada atualmente à língua russa, tão importante outrora na diplomacia nacional.

Na verdade, mesmo mantendo uma independência formal, a Mongólia socialista era na prática tutelada pela URSS, tanto que adotou uma adaptação do alfabeto cirílico pra sua língua peculiar, diferente das de todos os vizinhos. Porém, nunca houve revolta contra o governo comunista, que acabou pacificamente em 1990, e o país permaneceu relativamente pacífico, protegido também pela China comunista e contra os invasores japoneses e do Guomindang.

Eu mesmo transcrevi, traduzi e legendei os trechos concernidos, embora no caso do mongol eu não saiba se está totalmente correto, porque ele praticamente fala pra dentro. Assista aos vídeos e leia as transcrições e as traduções:


Когда я была маленькой, баба часто мне читала русские сказки... [Какие?] «Колобок»! И она часто играла на фортепиано музыку Чайковского. В моей памяти баба всегда говорила, что Россия – это очень красивая и великая страна.

(Quando eu era pequena, vovó sempre lia contos russos pra mim... [Quais?] Kolobok! E sempre tocava no piano músicas de Chaikovski. Me lembro que vovó sempre dizia que a Rússia é um país muito bonito e grandioso.)


Русский язык знали практически все, предавал огромное значение со стороны государства, а теперь этой поддержки нет. Ну, приходится уже это, вот. Молодые люди сами вообще решают, какой язык будет для них главным языком. В этом году мы отмечаем столетие дипломатического установления... дипломатических отношений. Ну, каждое отношение с иностранной организацией, иностранным государством... на языке основа, да? И если ты язык того государства не знаешь, отношение будет не такой, какой... Но вообще я всегда говорю, думаю, что самое хорошее отношение – это отношение между простыми людьми.

(Praticamente todos sabiam a língua russa, ela recebia uma enorme consideração da parte do Estado, mas agora não existe mais esse apoio. É isso que está ocorrendo. Em geral são os próprios jovens que decidem qual será a principal língua para eles. Neste ano celebramos o centenário da constituição diplomática, das relações diplomáticas... Bem, cada relação com uma organização estrangeira, com um Estado estrangeiro... tem a língua por fundamento, não? E se você não sabe a língua desse Estado, bem, a relação não será tão como... Mas em geral eu sempre falo, penso que a mais importante das relações é a relação entre as pessoas comuns.)

18 de julho de 2021

Os 10 países mais violentos do mundo


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O artigo “Conflits : les 10 pays les moins pacifiés au monde” (Conflitos: os 10 países menos pacificados do mundo) foi escrito por Sabine Cessou e publicado hoje, 18 de julho, no site da RFI em francês. Notável é a informação de que os brasileiros são o povo que mais teme a violência, mesmo sem a ter vivido. Tradução de Erick Fishuk.


A edição de 2021 do Índice Global da Paz, um indicador do Institute for Economics and Peace (IEP), think tank sediado em Sydney, revela que cinco países da África estão entre as 10 nações menos pacificadas do mundo.

A África do Sul está em chamas, desde a prisão do ex-presidente Jacob Zuma. Ela corre o risco de somar-se, no ano que vem, à lista dos países menos pacificados do Global Peace Index (Índice Global da Paz) elaborada pelo IEP, um think tank sediado em Sydney. Islândia, Nova Zelândia, Dinamarca, Portugal, Eslovênia, Áustria, Suíça, Irlanda, República Checa e Canadá são os 10 países mais pacificados do mundo.

No outro extremo, a África conta com cinco dos 10 Estados mais conflituosos e inseguros do planeta. Na ordem dos piores figuram Afeganistão, Iêmen, Síria, Sudão do Sul (na 160.ª posição), Iraque, Somália, República Democrática do Congo, Líbia, República Centro-Africana e Rússia.

Limitando o foco à África, somam-se à lista dos 10 países menos pacificados Mali (148.ª posição), Nigéria (146.ª), Camarões (145.ª), Etiópia (139.ª) e Níger (137.ª).

O Índice Global da Paz (PDF em inglês), publicado em 23 de junho pelo IEP, um think tank australiano com escritórios em Bruxelas, Harare, Cidade do México, Haia e Nova York, passa 166 sob o crivo de seus 23 indicadores de medida dos conflitos, da segurança e da “militarização” das sociedades. Globalmente, o recuo foi baixo em 2020 (-0,07%), mas ele prossegue pelo nono ano consecutivo. Enquanto 73 países viram sua situação agravar-se, 87 obtiveram ganhos em paz.

O recuo mais forte do mundo no Burquina Fasso – As manifestações violentas aumentaram fortemente, ligadas à pandemia da covid-19, assim como a instabilidade política, em alta em 45 países. “O Índice registrou 5 mil incidentes violentos no mundo entre janeiro de 2020 e abril de 2021 ligados à crise da covid, enquanto o impacto de longo prazo da pandemia sobre os crimes violentos e os suicídios ainda não está claro”, explica Serge Stroobants, diretor do IEP em Bruxelas.

A Ucrânia e o Iraque foram os que mais progrediram, enquanto o Burquina Fasso conheceu o recuo mais grave do mundo em 2020. Segundo o relatório, “a decisão do governo de financiar e armar grupos auxiliares civis (link em francês) no combate contra os insurgentes aumentou o acesso ao armamento leve e a intensidade do conflito. O Burquina Fasso encontra-se em estado de guerra civil de baixa intensidade, com 1 milhão de pessoas desalojadas no fim de 2020”.

Todos os sinais também piscam em vermelho na Zâmbia por causa de disputas de fronteira com a República Democrática do Congo (RDC) e da alta dos gastos militares. Mesma coisa na Etiópia, devido ao conflito no Tigray com intervenção da Eritreia, mas também aos 291 mortos nas manifestações que se seguiram ao assassinato do cantor Oromo Hachalu Hundessa (link em francês), sem esquecer as tensões com os países vizinhos em torno da barragem da Renascença no rio Nilo.

A violência tem um preço: quase 12% do PIB mundial – O impacto anual da violência é estimado pelo Índice na soma colossal de 15 trilhões de dólares, ou seja, 11,6% do PIB mundial. Os gastos militares representam 43% dessa soma total, a segurança internacional 31% e a segurança privada quase 8%, o restante sendo repartido entre os conflitos (3%), os crimes violentos (3,1%) e os homicídios (7%).

Mais interessante ainda é que a sondagem altamente abrangente em que se apoia o Índice, o World Risk Poll (site em inglês), conduzida pela Lloyd’s Register Foundation junto a 150 mil pessoas maiores de 15 anos em 142 países. Globalmente, os crimes violentos e o terrorismo são temidos por 15% das pessoas entrevistadas, e percebidos como o segundo risco após os acidentes de carro.

A África encabeça a experiência vivida da violência – Os cinco países com a experiência da violência mais fortemente vivida (pelas pessoas entrevistadas ou por conhecidos) nos dois últimos anos encontram-se na África: 63% na Namíbia, 58% na África do Sul, 56% no Lesoto, 55% na Libéria e 54% na Zâmbia. No mundo, a experiência mais fraca da violência situa-se, por outro lado, no Turcomenistão, no Usbequistão, no Japão, em Singapura e na Polônia.

Já o medo da violência é mais forte no Brasil (83%, duas vezes maior do que a experiência vivida da violência), na África do Sul (79%), nas Ilhas Maurício (76%), no Maláui (75%) e no Lesoto (74%). A violência é percebida como um risco principal no dia a dia por mais da metade das pessoas entrevistadas no Afeganistão, no Brasil, na África do Sul, no México e na República Dominicana.

As Ilhas Maurício constituem um caso particular, na medida em que elas aparecem no primeiro lugar dos países mais seguros da África, seguidas por Gana, Botsuana, Serra Leoa, Gâmbia e Senegal (54.ª posição mundial, logo à frente da França), segundo o Índice. O medo aumentou porque as ilhas viram sua taxa de homicídio dobrar (passando de 1,8 a 2,9 a cada 100 mil pessoas) e manifestações violentas ocorrerem devido à controversa gestão de um derramamento de petróleo em 2020 (link em francês).

Notem-se ainda outras exceções: a Mauritânia, único país da África Subsaariana onde menos de 20% das pessoas entrevistadas tiveram a experiência da violência nos dois anos anteriores, e Madagascar, único país onde menos de 20% das pessoas se dizem muito preocupadas com os crimes violentos.


30 de junho de 2021

Político búlgaro se desvia de tiro (2013)


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No dia 19 de janeiro de 2013, durante a 8.ª conferência nacional do partido búlgaro Movimento por Direitos e Liberdades (sigla DPS em búlgaro), o jovem Oktay Enimehmedov tentou atirar no presidente do organismo, Ahmed Dogan, que estava deixando a liderança 23 anos após tê-lo fundado. O DPS é de orientação liberal, mas conhecido por se dizer defensor da minoria étnica turca da Bulgária e, portanto, atacado tanto pela esquerda quanto pela extrema-direita.

Como podemos ver, o aspirante a assassino falhou em seu intento, dado o engripamento da pistola bem na hora do tiro, o que possibilitou a Dogan defender-se numa luta corporal e a Oktay, ser imobilizado e moído na porrada pelos seguranças. O mais bizarro é que se tratava, segundo notícias da época, de uma pistola de pressão, ou seja, o líder poderia até sofrer de danos vitalícios, mas pouco provavelmente morreria. De fato, o jovem alegou que sua intenção era apenas “dar um susto” em Dogan e provocar-lhe algum dano sério, lamentando apenas que “a arma tivesse falhado”.

Nunca ficou clara a motivação exata do atentado fracassado, mas muitos dizem que o DPS, inserido como estava no sistema, também seria responsável pela insatisfação dos búlgaros com a corrupção e os políticos, portanto teria deixado seus próprios “protegidos” turcos na mão. Oktay mesmo era búlgaro de etnia turca, o que pode fazer estranhar um ataque que poderia ter sido motivado por xenofobia. Mas essa era a verdade, e mesmo o povo que o DPS dizia representar não o via como um partido fiável.

Na minha montagem que segue abaixo, tivemos também a gentil colaboração do Rap do Maçaranduba, do antigo programa de humor Casseta & Planeta, pra quem se lembra dele na virada do século, hehehe. Leia também uma curta matéria da Veja a respeito do incidente. P.S. Atenção, crianças, não façam isso em casa!


26 de junho de 2021

“Lula grátis”, ou bizarrices de tradução


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Lula grátis...


Esta postagem foi colocada em 18 de abril numa página do Facebook que já apaguei, e depois a repostei em meu perfil pessoal. Escrevi mais de um mês depois dos fatos, quando observei, muito por acaso, pelo menos quatro aberrações linguísticas deste bannerLula Livre”, de quando o ex-presidente fez um longo discurso após ter recuperado seus direitos políticos em 2021. Compartilhem ao máximo, mesmo em outras redes, pois o negócio é sério e o responsável parece ter meramente posto “free” no Google Tradutor e decalcado os resultados:

0) Não vou comentar a mistura entre palavras que significam “livre” e “liberdade”, porque isso pode ter sido feito de forma proposital.

1) Vamos com o russo primeiro, já que a maioria me segue por causa dele. Bem do lado esquerdo está em cirílico “бесплатно” (besplatno), que significa... “de graça”! Pra piorar, esta forma é curta e neutra, ou seja, usada quase sempre como advérbio (gratuitamente etc.). Em russo deveríamos dizer “свободный” (svobodny), que é a palavra certa, na forma longa masculina. Ou seja, “свободный Лула”, hehehe.

2) Ainda em russo, está muito pequeno pra ler (é difícil achar fotos do púlpito em boa resolução), mas logo abaixo do grande “free” há a palavra “вольность” (volnost). Porém, esse substantivo remete ao adjetivo “вольный” (volny), que por sua vez vem do substantivo “воля” (volya), mais traduzível como “vontade”, “desejo” ou “liberdade de escolha”, implicando opção deliberada, e não ausência de limitações. Daí, referida ao já citado adjetivo “свободный”, temos a palavra correta “свобода” (svoboda).

3) A maior barbárie está no árabe e no persa, que usam um alfabeto da mesma matriz. Logo acima do russo lemos um ی د ا ز ا que equivale ao persa “âzâdi” (liberdade). A pessoa conseguiu uma façanha incompreensível: botou a ordem dos caracteres da esquerda pra direita (a ordem inversa dessa escrita) e não realizou a ligação entre as letras! Ainda que no caso de âzâdi, ela lucra com o fato das letras em questão realmente não fazerem ligação com a posterior, por regra: آزادی (e o primeiro alef deveria ter o sinal especial que parece um til).

4) Em árabe a coisa não é tão simples. Podemos ver a palavra “liberdade” logo à esquerda da expressão “Lula Livre” escrita da seguinte forma: ة ي ر ح (claro que estão bem juntinhas, mas não adquirem a forma de ligação). Lê-se mais ou menos “hurriyya”, mas torna-se algo ininteligível a um árabe comum, pois além da separação, há a inversão da ordem correta. A palavra, ainda mais diferente, deveria ser esta: حرية

5) À direita da cabeça desenhada, lemos “freiheit”. É o substantivo alemão “liberdade”, e como todo substantivo em alemão leva inicial maiúscula (a não ser por razões de estilo, o que não parece ser o caso), deveria ser “Freiheit”. Se fosse “frei” (literalmente “livre”), aí tudo bem, embora pra ser “Lula Livre” devêssemos usar a terminação do qualificativo (e não meramente predicativo), “Freier Lula”.

6) Curiosamente, várias línguas estão repetidas com as palavras “livre” e “liberdade”, mas em meio à salada exótica que inclui iorubá (que deveria ter acentos: “òmìnira”), xhosa/zulu, latim (!) e tailandês, estão ausentes línguas mais conhecidas e com maior potencial de impacto. Exemplos: japonês, hindi, as nórdicas, finlandês, romeno, esperanto (por que não?) e qualquer eslava exceto o russo (sobretudo servo-croata e checo, porque do apoio ucraniano e polonês duvido muito).

Conclusão: apesar das ótimas intenções de quem confeccionou o artefato, traduzir em outras línguas muitas vezes implica não apenas tacar palavras em tradutores automáticos, mas também conhecer as regras que regem o emprego dessas línguas, sobretudo as flexões. Você conseguiu ver mais alguma coisa estranha aí? Escreva-me sobre suas descobertas!

24 de junho de 2021

Como fazer plural de palavras em “-ão”


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Essa dica também vale pra estrangeiros, mas é muito útil a quem tem o português como língua materna e sente dificuldades com a norma culta. A formação do plural dos substantivos terminados em “-ão”, fenômeno fonético e ortográfico único no mundo, pode ser feita em “-ões” (mais comum), “-ãos” ou “-ães”. A escolha parece ilógica, mas na verdade podemos usar alguns macetes, além de certas regras que têm a ver com a etimologia (linguística histórica). Diga-se primeiro que quase nunca o gênero (masculino ou feminino) tem a ver com a opção.

1. Fazem o plural em “-ões” os substantivos abstratos, sobretudo de características e ações, terminados em “-a(n)ção”, “-e(n)ção”, “-i(n)ção”, “-o(n)ção” e “-u(n)ção”, geralmente derivados de uma terminação latina -atio(nis), -itio(nis), -utio(nis) etc.: canção → canções, direção → direções, tradição → tradições, monção → monções, junção → junções.

2. Também fazem o plural em “-ões” os substantivos terminados em “-ão” que indicam aumentativo: casarão → casarões, narigão → narigões, mulherão → mulherões.

3. Os substantivos femininos que não terminam em “-ão”, mas em “-ãe” e “-ã”, apenas adicionam “-s”: mãe → mães, irmã → irmãs, maçã → maçãs, romã → romãs.

4. Além dos citados acima, fazem o plural em “-ões” os substantivos que em latim fazem o genitivo singular em -onis e/ou que em espanhol terminam em -ón no singular: corazón → coração(ões), rationisrazón → razão(ões), leonisleón → leão(ões).

5. Fazem o plural em “-ães” os substantivos que em latim têm o nominativo e o genitivo singulares em -nis e fazem o nominativo plural em -nes, e/ou que em espanhol terminam em -an/-án no singular: panispan → pão(ães), caniscan → cão(ães), alemán → alemão(ães) (a palavra vem do latim tardio Alamannus, e esta mesma vem do alemão antigo Alaman), capitán → capitão(ães) (embora a origem seja o latim tardio capitanus, a forma clássica era capitaneus).

Via de regra, os substantivos latinos terminados em -tio e -nis pertencem à 3.ª declinação.

6. Fazem o plural em “-ãos” os substantivos que em latim têm o nominativo singular em -nus ou -num e/ou que em espanhol terminam em -ano no singular: christianuscristiano → cristão(s), ciudadano → cidadão(s), manusmano → mão(s), granumgrano → grão(s), germanus (“irmão” em latim vulgar, sem relação com “germânico”) → hermano → irmão(s).

Os substantivos latinos terminados em -nus ou -num pertencem à 2.ª e à 4.ª declinações, a 4.ª posteriormente sendo absorvida pela 2.ª devido à sua baixa abrangência.

7. “Anão(ões)” e “bênção(s)” são duas exceções apenas aparentes. De fato, nanusenano → anão(s), forma em português considerada culta, enquanto “anões” é mais comum na língua oral pela assimilação com a maioria dos plurais em “-ãos”. Em “bênção”, pela etimologia benedictio(nis), esperaríamos a forma “bênções” (hoje inexistente), mas houve assimilação com as outras paroxítonas que sempre fazem o plural em “-ãos” (orphanushuérfano → órfão, organumórgano → órgão).

Casos parecidos ao de “anão”: veranumverano → verão, villanusvillano → vilão. Coexistem as formas “verãos/vilãos” (bem menos usadas) e “verões/vilões”, mas suas origens estão no latim tardio ou medieval, e não clássico, por isso foram assimiladas à regra já generalizada. Veja também o artigo “Plural de anão”, por Flávia Neves, que inclui outros macetes.

2 de março de 2021

Idiomas de Lenin e nomes da MGU


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Eu estava com estes textos guardados há alguns meses, mas sem tempo pra traduzir e postar. Agora que a oportunidade chegou, apresento uma espécie de miscelânea criada pra mera satsifação de curiosidades, embora uma coisa não tenha nada a ver com a outra.

A ideia de postar os nomes da Universidade de Moscou veio após eu descobrir, durante a leitura da biografia do historiador Mikhaíl Pokróvski, que ele deu seu nome à instituição por um tempo. Foi uma homenagem após a morte desse marxista e bolchevique russo, considerado o pai dos estudos históricos na antiga URSS e das primeiras análises marxistas da história da Rússia. Após 1940, foram acrescentados oficialmente alguns epítetos e as “condecorações” que a MGU recebeu, porém sem mudar o núcleo original, por isso eu os omiti na lista. O conteúdo está na Wikipédia russa.

Há algum tempo também me pairava a dúvida sobre que línguas falava Vladímir Ilích Uliánov, o Vladímir Lênin da Revolução de Outubro. Eu sabia de seu conhecimento de várias línguas, mas não de quais e quantos. Há muitos textos falando a respeito, mas os melhores que encontrei, mesmo que citem poucas fontes, foram o de um pequeno blog chamado Zeitgeist e o de um site educativo, ambos não muito antigos. As traduções com adaptações são minhas, e concluímos resumidamente que Lenin era fluente em russo, alemão, francês e inglês, lia ou entendia latim, grego antigo e moderno, eslavo eclesiástico, checo, polonês e italiano e podia comunicar-se com o básico de grego moderno, checo, polonês e (talvez) italiano

Nesta página há outro texto em russo que fala dos conhecimentos linguísticos de Lenin, mas não o utilizei porque não acrescentava novidades. Porém, recomendo aos interessados, pois fala também, entre outros, de Lomonósov (filólogo que era praticamente um Google!), a imperatriz Catarina, Stalin, Khruschov e Vladimir Zhirinovski!

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Desde sua fundação, a Universidade de Moscou já mudou várias vezes de nome oficial:

  • 23 de janeiro de 1755 a 8 de março de 1917 (datas no calendário gregoriano): Universidade Imperial de Moscou.
  • Março a novembro de 1917: Universidade de Moscou.
  • A partir do fim de 1917: Universidade Estatal de Moscou (MGU).
  • A partir de 1918: Primeira Universidade de Moscou.
  • A partir de setembro de 1930: Universidade Estatal de Moscou.
  • A partir de 20 de outubro de 1932: Universidade Estatal de Moscou “M. N. Pokróvski”.
  • A partir de 11 de novembro de 1937: Universidade Estatal de Moscou.
  • Desde 7 de maio de 1940: Universidade Estatal de Moscou “M. V. Lomonósov”.

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Quantas línguas estrangeiras Lenin sabia? (Zeitgeist)

Na Rússia pré-revolucionária, qualquer um que saísse do curso ginasial com notas máximas dominava perfeitamente algumas línguas vivas e mortas. Naqueles tempos, a qualidade do Ensino Médio era muitíssimo maior do que a que temos hoje, e as pessoas saíam do curso ginasial realmente instruídas. Já o nível do Ensino Superior russo correspondia totalmente aos melhores padrões europeus, algo com que hoje podemos apenas sonhar.

Por isso, responder à pergunta sobre quantas línguas Vladimir Lenin sabia é bastante simples, sendo suficiente olhar para seu boletim:

(Na ordem em que aparecem: Ensino Religioso, Língua e Literatura Russas, Lógica, Língua Latina, Grego [Antigo], Matemática, História, Geografia, Física e Geografia Matemática, Língua Alemã e Língua Francesa. Ainda hoje a conceituação russa vai até 5 – “piatiórka” –, e não até 10, como a nossa.)

Partindo deste documento, podemos concluir que o jovem Ulianov dominava perfeitamente cinco línguas: eslavo eclesiástico (não indicado à parte, mas incluído nos cursos de Língua Russa e Ensino Religioso), latim, grego antigo, alemão e francês.

O ensino de línguas no ginásio tsarista estava posto num nível superior, do qual não chega nem perto a profanação constituída pelo ensino de línguas estrangeiras em nossa escola moderna. À guisa de exemplo, trazemos um pequeno fragmento de um manual ginasial, cujo nível de estudo linguístico na Rússia atual só é alcançado nas faculdades de Letras, e ainda assim nas melhores instituições de Moscou:

(O texto consiste num parágrafo explicando em russo, ortografia pré-1918, o significado e função dos artigos definidos – nossos “o, a, os, as” – em grego antigo. Como exemplo explicativo, são usados seus equivalentes em alemão e francês, além de frases em grego traduzidas em alemão, francês e, com observações intercaladas, russo.)

Por isso, as notas máximas de Lenin em línguas não são nossas falsas notas máximas depois das quais as pessoas passam anos gastando dinheiro em escolas de idiomas. São notas máximas de verdade, um domínio perfeito.

Contudo, Lenin não se deteve nessas línguas. Durante o exílio, melhorou sua conversação em alemão e francês, já que apesar de tudo um meio linguístico não é uma sala de aula, e também aprendeu inglês. Além disso, ele lia em italiano, polonês e checo, e entendia sueco. Nadézhda Krúpskaia, esposa de Lenin, aprendeu italiano, e observando a esposa, ele adquiriu nessa língua um conhecimento de leitura e de comunicação cotidiana mínima. Não foi algo extremamente difícil, levando-se em conta seus conhecimentos de francês e latim.

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Quais línguas Lenin sabia? (Kratkoe.com)

Vladimir Lenin sabia perfeitamente as línguas francesa e alemã. Ele as aprendeu enquanto estudava no ensino ginasial, no qual também se ensinavam grego antigo e latim. Lenin sabia grego antigo e moderno num nível cotidiano: entendia o que lhe falavam e podia explicar-se. Vale ressaltar que o líder falava alemão perfeitamente, pois viveu por muito tempo na Áustria-Hungria, na Suíça e na Alemanha levando uma vida política bastante ativa que incluía proferir informes, cursos e discursos políticos.

Lenin aprendeu inglês sozinho. Ele conversava fluentemente sem tradutor com o coronel Robins, adido militar americano, e com o cônsul britânico Lockhart.

Lenin procurava ler jornais italianos e aprendeu um punhado de frases prontas graças à ópera italiana. Aliás, sua própria esposa, Nadezhda Krupskaia, estudava italiano, e o marido aprendeu algumas coisas com ela.

Fontes também afirmam que Lenin podia com facilidade ler polonês e entender checo e sueco. Mas seu nível de compreensão de línguas estrangeiras e sua velocidade de leitura nunca foram testados. Podemos crer que quando esteve na Itália, o líder se comunicava com os italianos, mas não sabemos com que fluência e exatidão.

Em suma, tendo estudado suas anotações em publicações estrangeiras, os acadêmicos concluíram que Vladimir Lenin sabia 11 línguas.


28 de fevereiro de 2021

“Determinação do tema de pesquisa”


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Eu tomei a liberdade de republicar este artigo, com algumas revisões na redação, mas sem grande mutilação do texto original, escrito pela pesquisadora Anna Maria Marques Cintra. Seu título é “Determinação do tema de pesquisa”, foi publicado em 1982 na revista Ciência da Informação (Brasília, volume 11, número 2, páginas 13 a 16) e baixei-o em PDF em 2012 após ver a referência no livro Metodologia do trabalho científico, de Antônio Joaquim Severino, que já ganhou inúmeras edições. Na época, eu estava pensando sobre que tema pesquisar num futuro mestrado, e lia muitos livros sobre metodologia da ciência e da pesquisa. Tanto que decidi fazer um minucioso exercício de fichamento daquele artigo, que aparece no final desta postagem e tem vários detalhes sobre meu procedimento de trabalho. Com as devidas retificações, como na indicação de notas, que ainda não sei se está toda certa, ainda acho o artigo útil e interessante pros jovens de hoje.

Com longa carreira acadêmica, educacional e autoral, Cintra foi professora da ECA/USP e na época do artigo era pesquisadora do IBICT. De 2012 a 2016 foi reitora da PUC-SP, tendo sido escolhida por dom Odilo Scherer mesmo ficando em terceiro lugar na lista tríplice. A greve de professores e estudantes contra sua nomeação, que foi bastante turbulenta, tomou repercussão midiática nacional, mas acabou derrotada na Justiça.



Resumo: A escolha de um tema de pesquisa depende dos valores do pesquisador, de sua relação com o universo. Em qualquer nível, a pesquisa exige independência, criatividade e a integração do tema no dia a dia do pesquisador. Os guias para pesquisas auxiliam na parte formal. Entretanto não existe e é pouco provável que venha a existir um método que permita a reconstrução lógica de novas idéias.
Descritores [palavras-chave]: Pesquisa cientifica; Determinação do tema de pesquisa.

Abstract: The choice of a research topic depends on the researcher’s own values, it depends on the relationship he keeps with his environment. At any level, a research project requires independence, creativity, and integration of the research topic with the researcher’s day-to-day life. Research guides can help only with the development of the formal part of a research project. But one does not find, and probably never will find, a method that leads to the logical rebuilding of new ideas.


“Eu sustento que a única
finalidade da ciência está em aliviar
a miséria da existência humana”. (Brecht)

Decidir sobre um tema de pesquisa é tarefa relativamente fácil para quem está envolvido numa determinada área. Entretanto, aquele que se inicia na vida científica tem de suportar o conflito entre a aquisição de novos conhecimentos e os prazos acadêmicos. Em muitos casos falta tempo e experiência para uma boa opção.

Na tentativa de encontrar coordenadas que nos deem a dimensão do problema, faremos algumas reflexões sobre ciência e pesquisa científica.

O procedimento científico, segundo Nagel, (1) orienta-se simultaneamente por três princípios: o controle prático da Natureza, o conhecimento sistemático e seguro dos fatos e um método próprio.

Sem muito esforço, podemos imaginar que o controle prático da Natureza leva ao avanço tecnológico e a uma melhoria das condições de vida, embora com o risco de ser o cientista tomado como uma espécie de feiticeiro.

Em virtude da complexidade do Universo, cabe ao cientista encontrar formas para organizar o conhecimento, para descobrir os fenômenos. E isto é feito através de raciocínio sistemático.

Os fenômenos a serem estudados para controle devem ser submetidos a uma metodologia bem definida, que corresponde a um caminho delineado para a execução de uma pesquisa.

Paradoxalmente, a ciência que persegue objetivamente um conhecimento sistemático e seguro dos fatos está continuamente por se fazer, e só a existência de um método garante o controle ordenado do Universo, uma vez que os fenômenos são tratados por raciocínios que seguem, aproximadamente, os mesmos princípios de objetividade e testabilidade. É, no entanto, a própria objetividade que impõe o estado sempre provisório de todo o conhecimento.

Mesmo com os riscos de feitiçaria, por razões éticas, não podemos aceitar a ciência pela ciência, (2) pois se o homem busca através do raciocínio organizar de alguma forma os fenômenos do Universo, há de ser para dominá-los, para conhecer-lhes as regras e assim orientar sua relação com e no Universo.

Identificar algo como objetivo de pesquisa não é das coisas mais difíceis. A dificuldade maior reside em manter coerentemente um tratamento metodológico rigoroso. Daí que frequentemente o comportamento científico acaba sendo confundido com o rigor metodológico, em detrimento da importância do objeto, do tema e do próprio conhecimento produzido a partir da pesquisa. (3)

Longe de nós tentar colocar em dúvida a importância do método. O que julgamos indispensável, no entanto, é aliar o rigor metodológico a uma avaliação da relevância da pesquisa, pois questões de total irrelevância, como conhecer a cor da camisa dos universitários brasileiros em dia de prova, pode receber tratamento rigoroso.

“[...] o ponto inicial de uma pesquisa não pode e não deve ser a metodologia, mas antes a relevância do problema”. (4)

Assim, antes de qualquer coisa, torna-se necessário decidir sobre os problemas que devem ser pesquisados e é preciso observar que essa capacidade de discriminar entre o relevante e o irrelevante não nos vem da ciência. Esta “só nos pode oferecer métodos para explorar, organizar, explicar e testar problemas previamente escolhidos”. (5)

A escolha prévia do problema depende do pesquisador. É em função de seus valores, de sua relação com o universo que nascem seus temas de pesquisa. Isso é que faz do ato de pesquisa um ato político.

E no caso específico da pesquisa acadêmica, como se passam as coisas?

Uma tese de doutorado assim se define por ser volumosa, ou por ter algumas qualidades inerentes à pesquisa científica?

Temos visto com frequência que um mesmo tipo de pesquisa serve a mestrado ou doutorado. E a diferença está, muitas vezes, no volume de dados analisados.

Não podemos concordar com critérios apenas de volume. Na prática, o que ocorre é que há dissertações de mestrado com traços nítidos de uma tese e vice-versa, acorrentadas apenas por razões meramente formais da vida acadêmica.

Na verdade a tese de doutorado deve marcar o grande salto do principiante para a vida de pesquisador independente e, desta maneira o mestrado tem de ser tomado como um exercício que abarca desde a opção temática e o rigor metodológico, até o envolvimento pessoal com relação ao tema.

Trata-se, pois, de uma fase de iniciação à pesquisa, portanto à vida científica. E partindo da definição mesma de mestrado, observamos, em linhas gerais, que os orientadores assumem posições diversas.

Para alguns, a dissertação de mestrado deve versar sobre assunto de interesse do orientador. Normalmente ele responde por uma ou mais pesquisas, sendo possível escolher um aspecto sobre o qual se dedicará o mestrando.

Para outros, o mestrado, como fase de aprendizado, deve demonstrar segurança metodológica, sendo secundário o próprio tema. Desta forma, o aspecto básico a ser considerado é o cumprimento de determinadas etapas, supostamente indispensáveis ao trabalho científico.

Outros ainda, entendem que a dissertação já deve conter em germe a disposição do novo pesquisador para associar firmeza metodológica a uma ação criativa.

Evidentemente, é em decorrência da concepção do orientador que acontecem os temas e mesmo a forma do trabalho acadêmico, que vai desde os formatos calcados em modelos prévios, em que tudo é pré-determinado, até a uma liberdade total, marcada pela inserção dos componentes tidos como básicos – objetivos, metodologia, hipóteses – em situações fora dos modelos.

Vale lembrar que para decisões relativas à parte formal, o principiante dispõe de vários guias, de sorte a poder escolher aquela forma mais adequada a seu trabalho e a seu gosto pessoal. (6)

Mas para decidir sobre o tema de pesquisa, a menos que o orientador forneça um assunto, o principiante não encontra nenhuma orientação específica.

Mas seria possível elaborar com certa precisão um roteiro que levasse à descoberta do tema?

Embora haja bons exemplos de trabalhos oriundos do desenvolvimento de parte de pesquisas do orientador, julgamos que a dissertação de mestrado deve propiciar algumas condições que posteriormente serão exigidas do pesquisador independente. Por isso vemos como salutar ao desenvolvimento da vida científica, que o mestrado sirva de exercício, de sorte a permitir experiência tanto no nível metodológico quanto no nível de definição do tema, ou mesmo de validade de pesquisa.

Nossa concepção tem um pressuposto básico: qualquer pesquisa, em qualquer nível, exige do pesquisador um envolvimento tal, que seu objeto de investigação passa a fazer parte de sua vida. Ou o pesquisador assume o problema que se dispõe a aclarar como seu, integrando seu dia a dia, ou apenas cumprirá preceitos acadêmicos.

Mas aqui entram dois novos conceitos de difícil exploração: independência e criatividade.

Acreditamos que só é possível independência de pesquisa na medida em que o pesquisador assume com liberdade seu objeto de análise e submete-o, por ensaio e erro, a uma verificação.

A criatividade, por seu turno, manifesta-se na escolha do tema (originalidade) ou na tradução do resultado da análise em linguagem verbal.

Mas tudo isso pouco nos ajuda a perceber como se chega ao tema de pesquisa.

Concordamos com Popper quando diz que “o conhecimento só começa a partir da tensão entre conhecimento e ignorância”. (7) De fato, só este tipo de tensão permite a percepção de algo obscuro e justifica nossa iniciativa em tentar clarear.

Evidentemente aquilo que já se sabe, que já se conhece, não precisa ser pesquisado. Em contrapartida, nem tudo o que não se sabe deve ser pesquisado.

Em A Prática da Pesquisa, (8) C. de Moura Castro indica três fatores que devem se associar para que aconteça um trabalho de pesquisa: originalidade, importância (a que chamamos relevância) e viabilidade do tema.

Na verdade os três fatores estão de tal forma associados, que o prejuízo de um [deles] põe em risco a própria pesquisa.

Originalidade não se confunde com novidade, não decorre do fato acidental de ser nova ou inédita a pesquisa. Original é o que vai às origens, à essência das coisas. (9)

Importância liga-se à necessidade da pesquisa dar ou encaminhar uma resposta para determinada questão prática ou teórica do homem, da sociedade, da natureza. A importância como fator associado à pesquisa científica, ressalta claramente o caráter político da ciência. Não parece justo o pesquisador dedicar-se a um mero exercício inconsequente.

Viabilidade refere-se ao tempo, aos custos, ao preparo específico do pesquisador, à obtenção de dados e bibliografia. A pesquisa inviável corresponde a enorme perda de tempo, tanto para o pesquisador quanto para a sociedade.

Mas ainda estamos contornando o problema sem chegar à questão básica: como nasce o tema de pesquisa?

Quando dissemos que tomávamos como pressuposto o envolvimento pessoal do pesquisador com sua pesquisa, tínhamos claro que acima de tudo é preciso gostar do que pesquisamos, já que durante longo tempo será nosso ser inteiro que irá se voltar para aquele objeto.

“É melhor começar, creio, lembrando aos principiantes que os pensadores mais admiráveis dentro da comunidade intelectual que escolheram não separam seu trabalho de suas vidas. Encaram a ambos demasiado a sério para permitir tal dissociação e desejam usar cada uma dessas coisas para o enriquecimento da outra [...] A erudição é uma escolha de como viver e ao mesmo tempo uma escolha de carreira; quer o saiba ou não, o trabalhador intelectual forma seu próprio eu à medida que se aproxima da perfeição de seu ofício”. (10)

Com certeza poderíamos prosseguir com novas reflexões. No entanto, a questão básica está em que não haverá receitas ou modelos para a criação humana, sob pena de ser decretada a sua morte.

Não existe ainda, e é pouco provável que venha a existir, um método que permita a reconstrução lógica do nascimento de novas ideias. Desta forma, o nascimento do tema de pesquisa é um trabalho artesanal de criação que exige do pesquisador a descoberta de seus valores pessoais, um posicionamento crítico e inquieto diante do Universo e uma disciplina de trabalho que permita equacionar valores pessoais com o objeto e o ato da pesquisa.


Notas (clique no número pra voltar ao texto)

(1) NAGEL, E. Ciência: natureza e objetivo. In: MORGENBESSER, S. Filosofia da Ciência. São Paulo: Cultrix, 1971.

(2) ALVES, R. Conversas com quem gosta de ensinar. 2. ed. São Paulo: Cortez, 1981, p. 69.

(3) “O ‘método’ procura explicar o seu objeto, quer ser o ‘caminho’ de descoberta do seu ‘objeto’, mas [...] já é hora de pensar num ‘método’ que leve em conta o seu ‘fracasso metodológico’ como momento necessário ao seu próprio êxito”. Cf. KOTHE, Flávio R. Caminhos e descaminhos da crítica; encontro marcado com Heidegger. Reflexão, Campinas, v. 4, n. 15, p. 67-71, set.-dez. 1979.

(4) Ibidem.

(5) ALVES, R. Conversas com quem gosta de ensinar. 2. ed. São Paulo: Cortez, 1981, p. 69.

(6) Destacamos, dentre vários trabalhos, os de: ACOSTA HOYOS, Luís E. Guía práctica para la investigación y redacción de informes. 2. ed. Buenos Aires: Paidós, 1972; ASTI VERA, Armando. Metodologia da pesquisa cientifica. Porto Alegre: Globo, 1973; CASTRO, Cláudio de Moura. Estrutura e apresentação de publicações cientificas. São Paulo: Mc Graw-Hill, 1976; Idem, A prática da pesquisa. São Paulo: Mc Graw-Hill, 1977; MANZO, Abelardo J. Manual para la preparación de monografias. Buenos Aires: Humanitas, 1973; SEVERINO, Antônio Joaquim. Metodologia do trabalho científico. 3. ed. São Paulo: Cortez e Moraes, 1978; SPINA, Segismundo. Normas gerais para os trabalhos de grau: breviário para o estudante de pós-graduação. São Paulo: Fernando Pessoa, 1974.

(7) POPPER, K. A lógica das Ciências Sociais. Rio: Tempo Brasileiro, 1978, p. 14.

(8) CASTRO, Cláudio de Moura. A prática da pesquisa. São Paulo: Mc Graw-Hill, 1977, p. 5.

(9) GOMES, R. Crítica da razão tupiniquim. 4. ed. São Paulo: Cortez, 1980, p. 24.

(10) MILLS, W. A imaginação sociológica. Rio de Janeiro: Zahar, 1980, p. 211.

__________________

CINTRA, Ana Maria Marques. “Determinação do tema de pesquisa”. Ciência da Informação, Brasília, 11 (2), pp. 13-16, 1982.

(Artigo citado por Antônio Joaquim SEVERINO, Metodologia do trabalho científico, 22. ed. rev. e ampl., São Paulo, Cortez, 2002, p. 145.)

Lido, grifado e dividido em itens e subitens a 21 de setembro de 2012.
Fichado entre 25 e 26 de setembro de 2012.


P. 13

Introdução geral

Escolher um tema de pesquisa é relativamente fácil a quem tem inserção numa certa área, mas o iniciante à vida científica geralmente sofre o conflito entre a assimilação de conhecimentos e os prazos acadêmicos, faltando tempo e experiência para uma boa escolha. Refletir sobre ciência e pesquisa científica ajuda a achar coordenadas para dimensionar o problema.


I. Papel e diretrizes do fazer científico

Introdução – Ernest Nagel (1901‒1985) define como princípios do fazer científico:

  1. O controle prático da Natureza;
  2. O conhecimento sistemático e seguro dos fatos;
  3. O método próprio.

Desenvolvimento

  1. O controle prático da Natureza faz a tecnologia avançar e melhora as condições de vida, o que, porém, arrisca o cientista a ser visto como um tipo de feiticeiro.
  2. O Universo é complexo, por isso o cientista se vale do raciocínio sistemático para organizar o conhecimento e descobrir os fenômenos.
  3. Os fenômenos a controlar devem enquadrar-se numa metodologia bem delineada, como parte do caminho para a elaboração de uma pesquisa. Porém, ao mesmo tempo, a ciência que busca conhecer segura e sistematicamente os fatos está sempre se fazendo, e só um método que garanta o controle organizado do Universo pode tratar os fenômenos com a mesma testabilidade e objetividade, a qual, no entanto, impõe a própria provisoriedade de qualquer conhecimento.

Conclusão ‒ Apesar do risco de mistificação do cientista, a “ciência pela ciência” é inaceitável, pois sua função real é conhecer as regras dos fenômenos do Universo para que o ser humano possa coordenar sua relação com ele.


II. Relação entre rigor metodológico e relevância do objeto de pesquisa

Introdução ‒ Mais difícil do que determinar um objeto de pesquisa é manter uma postura metodológica rigorosa e coerente, o que geralmente faz confundir-se comportamento científico com rigor metodológico, e não com o objeto em si.

Nota com citação do artigo de Flávio R. KOTHE, “Caminhos e descaminhos da crítica: encontro marcado com Heidegger”: Um “método” busca explicar seu objeto, mas deve-se hoje pensar num “método” que considere seu “fracasso metodológico” como importante para seu próprio êxito.

P. 13-14

Desenvolvimento ‒ Aqui não se julga que o método não seja importante, mas que é indispensável aliar rigor metodológico e verificação da relevância da pesquisa, já que questões irrelevantes também podem ser rigorosamente abordadas. Em todo caso, é antes pela relevância do problema do que pela metodologia que se deve começar.

P. 14

Conclusão ‒ Por isso, o ponto inicial é a decisão sobre os problemas a serem pesquisados, cuja relevância não é discernida pela própria ciência, a qual só oferece os métodos de exploração, organização, explicação e teste dos problemas. [Ligação com a introdução seguinte.]


III. Responsabilidade pela escolha do tema

Introdução – Na verdade, são os valores e a relação do pesquisador com o Universo que ajudam a escolher previamente o problema, o que torna a pesquisa um ato político.

Desenvolvimento

1. Diferença entre mestrado e doutorado

Introdução ‒ No caso da pesquisa acadêmica em si, surgem questões como: a tese de doutorado é definida por seu volume extenso ou por certas qualidades científicas? De fato, uma mesma pesquisa serve tanto a mestrado quanto a doutorado, diferindo apenas o volume de dados analisados.

Desenvolvimento – O critério de volume não define nada, pois há dissertações com claros traços de tese, e vice-versa, as quais são atadas por mera formalidade acadêmica. O doutorado, na verdade, marca um salto da iniciação para a pesquisa independente, sendo o mestrado um exercício de rigor metodológico, escolha do tema e envolvimento pessoal com ele.

Conclusão e Introdução do próximo item – Assim, o mestrando está se introduzindo na pesquisa e na vida científica, fase em que os orientadores tomam posturas diferentes.

2. Postura do orientador perante o mestrando

Desenvolvimento

  1. Alguns pensam que o assunto do mestrado deve ser de interesse do orientador, que coordena uma ou mais pesquisas e escolhe um aspecto a que a dissertação deve se ater.
  2. Outros julgam mais importante a segurança metodológica, secundarizando o tema e transformando o trabalho científico num mero cumprimento de etapas definidas.
  3. outros ainda consideram a dissertação como o germe de um novo pesquisador que associe corretamente firmeza metodológica e ação criativa.

Conclusão do item III e do subitem 2 – Obviamente os pressupostos do orientador definem os temas e mesmo a forma do trabalho, que obedece desde modelos prévios até a inserção livre de objetivos, metodologia, hipóteses etc. fora de predefinições, enquanto os vários guias, com formatos a escolher, podem muito bem orientar o principiante na parte formal.


IV. Condições subjetivas para o amadurecimento do tema

Introdução – A não ser que o orientador ofereça um tema, o principiante não tem orientações específicas para decidir sobre ele. Mas poderia existir um roteiro preciso para auxiliá-lo?

P. 14-15

Desenvolvimento

1. O mestrado como um aprendizado da autonomia

Mesmo havendo bons mestrados que integram pesquisas do próprio orientador, o ideal é que se cultivem desde já propriedades exigidas depois pela pesquisa independente. Assim, a dissertação deve ser um exercício de experiência na metodologia, na escolha do tema e na consecução de uma pesquisa válida.

P. 15

2. O objeto de pesquisa como parte da vida pessoal

Grandes resultados são obtidos se a pesquisa fizer o objeto integrar o cotidiano, a própria vida do pesquisador, se ele for algo considerado seu, caso contrário, haverá a prisão a meras formalidades acadêmicas.

3. Conceitos de independência e criatividade

Nesse tipo de pesquisa entram dos conceitos novos:

  1. Independência: o pesquisador adota livremente seu objeto e o submete a uma verificação por tentativa e erro.
  2. Criatividade: o pesquisador escolhe um tema original e/ou traduz os resultados numa linguagem verbal adequada.

Conclusão do item IV ‒ Apesar dessas orientações, permanece um mistério o caminho ao tema de pesquisa.


V. Condições objetivas para o amadurecimento do tema

Introdução – Karl Popper está certo ao escrever que o conhecimento surge apenas quando entram em tensão o que se sabe e o que não se sabe, ocorrendo a vontade de clarear o que estava obscuro. Por isso, não se precisa pesquisar o que já se sabe, todavia, nem tudo o que se desconhece merece ser objeto de pesquisa.

Desenvolvimento – Cláudio de Moura Castro, no livro A prática da pesquisa, aponta três vetores a convergirem na execução de um trabalho de pesquisa, os quais se associam de forma que todos sejam imprescindíveis:

  1. Originalidade: não consiste na novidade, mas na propriedade de perscrutar as origens, a essência do objeto.
  2. Importância: a pesquisa é importante se responde a alguma questão prática ou teórica de caráter humano, social ou natural, o que lhe confere um caráter político e a interdição de consistir num simples exercício inconsequente.
  3. Viabilidade: concerne a tempo, custos, preparo do pesquisador, bibliografia e obtenção de dados, que devem ser bem equacionados para não apenas se perder tempo.

Conclusão – Mesmo assim, ainda não se esclareceu sobre o nascimento do tema de pesquisa.


VI. O tema como uma escolha pessoal não quantificável

Introdução – O envolvimento pessoal com a pesquisa exige, antes de tudo, o gosto por ela, pois ocupará grande parte do tempo e das energias do estudioso. De fato, como Wright Mills, concorda-se que os melhores pensadores não separam o trabalho da vida geral, os quais se enriquecem mutuamente e colaboram para a correlação entre formação do eu e perfeição do ofício.

Desenvolvimento ‒ Em todo o caso, a criação humana jamais se submete ou se submeterá a receitas e modelos, pois, do contrário, poderá morrer.

Conclusão do item VI e do texto inteiro – Da mesma forma, reconstruir logicamente o nascimento de novas ideias prossegue imune a métodos, sendo o nascimento do tema de pesquisa, assim, uma espécie de criação artesanal que exige a descoberta dos valores pessoais do pesquisador, uma atitude crítica e inquieta perante o Universo e um trabalho disciplinado que equacione valores pessoais com o objeto e a execução da pesquisa.