sábado, 1 de agosto de 2026

General russo contra invasão à Ucrânia


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Hoje a página completa 12 anos sem sair do ar!

É incrível como mesmo entre brasileiros comuns, persiste a lenda de que a expansão da OTAN rumo ao leste da Europa ou uma suposta ameaça que a aliança teria feito à Rússia teria sido a razão pra agressão de Vladimir Putin à Ucrânia. A invasão não foi uma mera tentativa de anexação ou de derrubada do governo pró-UE, mas uma verdadeira vingança em que se tentou aniquilar o vizinho enquanto Estado e, se não quisesse se assimilar aos russos, enquanto povo. E mais do que por qualquer “ameaça” externa real ou, mais provavelmente, imaginada, parte da elite dirigente russa (política, econômica, intelectual e militar) foi movida por ganância, xenofobia e expansionismo. Essa é apenas uma sumarização de como pode ser classificada uma predação não muito diferente daquelas realizadas por Bush filho em seu tempo e por Donald Trump na atualidade.

Porém, muito mais poderia ser dito, embora eu duvide que os fazedores de opinião “antiamericanos”, mesmo dentro do governo Lula, dessem qualquer ouvido ao lado agredido. Já durante a acumulação de tropas russas na fronteira com a Ucrânia, ao longo de janeiro e fevereiro de 2022 (quando eu mesmo estive entre os que duvidavam da hoje chamada “invasão em larga escala”, tendo a guerra começado já em 2014, com o roubo da Crimeia e a desestabilização do Donbás), os serviços de informação ocidentais não foram os únicos a alertarem pro pesadelo que estava por vir. Dentro da própria Rússia, como sabemos, já havia um sentimento antiguerra e de relativa amizade com os ucranianos comuns, numa troca corriqueira de turistas, trabalhadores, estudantes e mercadorias.

O mais revelador é saber que mesmo conservadores geopolíticos entre os militares (pelo menos entre aqueles a quem se permitia alguma expressão) não somente recusavam as razões pra uma possível invasão, mas também foram muito mais incisivos na crítica ao regime, a que chamavam de incapaz e falido. Os próprios “insiders” há muito já viam coisas completamente ocultas pela rede de propaganda espalhada ao redor do mundo e materializada em pretensos portais de “notícias” como RT, Sputinik, RBTH (Russia Beyond, hoje também Gateway to Russia) e similares. Hoje trago minha tradução de uma carta aberta assinada pelo coronel-general (patente hoje inexistente no Brasil) reformado Leoníd Grigórievich Ivashóv (n. 1943), na qualidade de presidente da Assembleia de Oficiais de Toda a Rússia, grupo de tendência nacionalista e pró-soviética.

Intitulada “Kanún voiný” (lit. “A véspera da guerra”, mas que também pode ser traduzido como “Às vésperas da guerra”), foi lançada em 31 de janeiro de 2022, quando ainda se considerava haver uma “crise” entre Rússia e Ucrânia e quando Putin começava a reunir soldados na fronteira sul. Listando uma série de consequências negativas de uma invasão total, Ivashov alerta que tal erro poderia, na pior das hipóteses, levar à extinção da própria Rússia enquanto Estado, além de a isolar do resto do mundo e afastar a Ucrânia definitivamente. Descontemos seu passado como auxiliar dos genocidas de Slobodan Milošević no Kosovo e sua reprodução acrítica da mentira sobre o “genocídio de russos” no leste da Ucrânia.

Mesmo que ele já estivesse rompido com Putin praticamente desde o início da década de 2000 e fosse um crítico de longa data, pode-se pensar por que um ex-oficial de alto escalão tinha certeza de que o ataque aconteceria, mesmo com o Kremlin gritando aos quatro ventos que isso era “espantalho ocidental”. Eu respondo: a decisão já tinha sido tomada junto com Sergei Shoigú no fim de 2021, e aquela bizarra reunião em Moscou com o chefe do FSB gaguejando foi mero teatro de bajulação. As críticas abertas seguiram ao longo de fevereiro de 2022, e muito do que Ivashov conjeturou pode ser considerado uma previsão, embora eu deixe a você a tarefa de julgar o quanto ele acertou ou errou.

Também se fica a pensar por que este senhor ainda não “caiu de uma janela” nem “passou mal depois do chá”, tanto mais que em 2026 vários militares graduados e membros da “oligarquia” econômica têm sido presos sob acusações de corrupção muito mal explicadas. Ivashov talvez não represente um perigo imediato e pode ser visto como parte dos “milicos de pijama” apegados ao passado e sem poder de influência ou decisão. Ainda em maio de 2022, renunciou à presidência da referida Assembleia “por razões de idade e saúde”, e fora das Wikipédias as referências mais recentes que achei foram uma entrevista de 2023 a um portal russo hoje fora do ar e um vídeo gravado em 2025 e noticiado na Alemanha. Em ambas as ocasiões, Ivashov afirma que não só acertou em suas previsões, mas também que a realidade se revelou “ainda pior”.

Vou me abster de descrever melhor a vida e o pensamento do militar, deixando parte da tarefa a duas publicações, também traduzidas por mim, lançadas na época pela VOA em russo, antes de Trump a fechar em seu segundo mandato: o artigo “Para especialistas, a carta aberta do General Ivashov é um sinal e um desafio ao Kremlin”, assinada por Viktor Vladimirov, e conversas com politólogos reunidas em “O ‘nacional-patriota’ General Ivashov se manifestou contra uma guerra com a Ucrânia”. Notas explicativas minhas estão entre colchetes:


Manifesto da Assembleia de Oficiais de Toda a Rússia
ao Presidente e aos cidadãos da Federação Russa

A humanidade vive hoje a expectativa de uma guerra. E a guerra significa inevitáveis sacrifícios humanos, destruição, sofrimento de um grande número de pessoas, a liquidação de seu modo costumeiro de vida e a quebra dos sistemas de suporte à vida dos Estados e povos. Uma grande guerra é uma enorme tragédia, um crime grave cometido por alguém. Acontece que a Rússia se encontra no centro dessa catástrofe iminente. E, talvez, pela primeira vez em sua história.

Anteriormente, a Rússia (URSS) travava guerras (justas) forçadas, geralmente quando não restava outra saída, quando os interesses vitais do Estado e da sociedade se encontravam ameaçados.

Mas o que ameaça a própria existência da Rússia hoje? Existem ameaças desse tipo? Pode-se argumentar que as ameaças são de fato evidentes – o país está à beira do fim de sua história. Todas as áreas vitais, incluindo a demografia, estão se deteriorando constantemente, e o ritmo de declínio populacional está batendo recordes mundiais. Essa degradação é sistêmica e, em qualquer sistema complexo, a destruição de um dos elemento pode levar ao colapso do sistema inteiro.

E essa, em nossa visão, é a principal ameaça perante a Federação Russa. Mas essa ameaça é de natureza interna, emanando do modelo de Estado, da qualidade do poder, da condição da sociedade. E as causas de sua emanação são internas: a inviabilidade do modelo de Estado, a completa ineficácia e falta de profissionalismo do sistema de poder e administração e a passividade e desorganização da sociedade. Em tais condições, nenhum país sobrevive por muito tempo.

Quanto às ameaças externas, elas sem dúvida existem. Mas, em nossa avaliação especializada, elas não são atualmente críticas nem ameaçam diretamente a existência da Rússia enquanto Estado ou seus interesses vitais. A estabilidade estratégica como um todo está conservada, as armas nucleares estão sob controle confiável e os contingentes da OTAN não estão se reforçando nem demonstrando atividades ameaçadoras.

Portanto, a escalada da situação em torno da Ucrânia é principalmente artificial e egoísta, beneficiando certas forças internas, inclusive a Federação Russa. Com a desintegração da URSS, no qual a Rússia (Ieltsin) desempenhou um papel decisivo, a Ucrânia se tornou um Estado independente, membro da ONU e, de acordo com o artigo 51 da Carta da ONU, tem o direito à defesa individual e coletiva.

Os dirigentes da Federação Russa ainda não reconheceram os resultados do referendo pela independência da DNR (República Popular de Donetsk) e da LNR (República Popular de Luhansk), além de terem enfatizado repetidamente em nível oficial, inclusive durante o processo de negociação de Minsk, que seus territórios e população pertencem à Ucrânia.

O esforço por manter relações normais com Kyiv, sem destacar relações especiais com a DNR e a LNR, também foi expresso repetidamente no alto escalão.

A questão do genocídio perpetrado por Kyiv nas regiões do sudeste não foi levantada nem na ONU nem na OSCE. Naturalmente, para que a Ucrânia continuasse sendo uma vizinha amigável com a Rússia, era preciso que ela demonstrasse a atratividade de seu modelo de Estado e de seu sistema de poder.

Mas a Rússia não se tornou esse país. Seu modelo de desenvolvimento e seu mecanismo de política externa de cooperação internacional afugentam praticamente todos os seus vizinhos, e não apenas eles.

A anexação da Crimeia e de Sebastopol pela Rússia e o não reconhecimento desses territórios como dela pela comunidade internacional (o que significa que a esmagadora maioria dos Estados do mundo continua os considerando parte da Ucrânia) demonstram de forma convincente o fracasso da política externa da Rússia e a falta de atratividade de sua política interna.

As tentativas de forçar a “paixão” pela Rússia e sua liderança por meio de ultimatos e ameaças de uso da força são insensatas e extremamente perigosas.

O emprego da força militar contra a Ucrânia, em primeiro lugar, colocará em questão a existência da própria Rússia enquanto Estado; em segundo lugar, transformará para sempre russos e ucranianos em inimigos mortais. Em terceiro lugar, milhares (dezenas de milhares) de jovens saudáveis morreriam em ambos os lados, o que sem dúvida impactaria na futura situação demográfica em nossos declinantes países. No campo de batalha, se isso acontecer, as tropas russas entrarão em confronto não somente com as tropas ucranianas, entre as quais estarão muitos jovens russos, mas também com tropas e equipamentos de muitos países da OTAN, e os Estados-membros da aliança serão obrigados a declarar guerra à Rússia.

O presidente da República da Turquia, Recep Tayyip Erdoğan, deixou claro de que lado a Turquia lutará. E pode-se presumir que os dois exércitos de campo e a marinha da Turquia receberão ordens para “libertar” a Crimeia e Sebastopol e possivelmente invadir o Cáucaso.

Além disso, a Rússia será inequivocamente classificada como um país que ameaça a paz e a segurança internacional, sujeita a severas sanções, transformada em um pária na comunidade internacional e provavelmente destituída de seu estatuto de Estado independente.

O Presidente o governo e o Ministério da Defesa não podem deixar de entender essas consequências, eles não são tão estúpidos.

Surge a questão: quais são os verdadeiros objetivos de provocar tensões beirando à guerra e de lançar uma possível ação militar em larga escala? E percebe-se que esse é o caso pelo número e pela composição bélica dos grupos de tropas que estão se formando em ambas as partes – pelo menos 100 mil soldados de cada lado. A Rússia, expondo suas fronteiras orientais, está transferindo unidades rumo às fronteiras com a Ucrânia.

Em nossa opinião, a liderança do país, percebendo que é incapaz de retirar o país de uma crise sistêmica – mesmo ao custo de possivelmente provocar uma revolta popular e uma mudança de poder no país –, com o apoio da oligarquia, da burocracia corrupta, da mídia subornada e das forças de segurança, decidiu intensificar uma linha política voltada à destruição final da Rússia enquanto Estado e ao extermínio da população nativa do país.

E a guerra é o meio para atingir esse objetivo, visando manter temporariamente seu poder antinacional e preservar as riquezas saqueadas do povo. Não conseguimos avançar outra explicação.

Nós, oficiais da Rússia, exigimos que o Presidente da Federação Russa abandone sua política criminosa de provocar uma guerra na qual a Federação Russa se encontrará sozinha contra as forças combinadas do Ocidente, crie condições para a implementação prática do artigo 3 da Constituição da Federação Russa [que aponta o povo como fonte de todo o poder e proíbe a usurpação unipessoal desse poder] e renuncie ao cargo.

Apelamos a todos os militares da reserva e reformados, bem como aos cidadãos da Rússia, para que demonstrem vigilância e organização, apoiem as reivindicações do Conselho da Assembleia de Oficiais de Toda a Rússia, oponham-se ativamente à propaganda e provocação de uma guerra e impeçam um conflito civil interno que envolva o uso da força militar.

Coronel-General L. G. Ivashov
Presidente da Assembleia de Oficiais de Toda a Rússia


Na opinião de Ivashov, “Anteriormente, a Rússia (URSS) travava guerras (justas) forçadas, geralmente quando não restava outra saída, quando os interesses vitais do Estado e da sociedade se encontravam ameaçados”.

O coronel-general reformado Leonid Ivashov, conhecido por suas visões pró-soviéticas e nacional-patrióticas, lançou um apelo em sua qualidade de presidente da “Assembleia de Oficiais de Toda a Rússia” contra uma guerra da Rússia com a Ucrânia. Ele acusou de prepararem tal guerra a liderança da Rússia e o presidente Vladimir Putin, cuja renúncia ele pediu.

A declaração é datada de 31 de janeiro. No dia anterior, o cientista político Ivan Preobrazhenski chamou a atenção para ela, seguido por outros comentaristas online.

Segundo Ivashov, “Anteriormente, a Rússia (URSS) travava guerras (justas) forçadas, geralmente quando não restava outra saída, quando os interesses vitais do Estado e da sociedade se encontravam ameaçados”. No entanto, escreve o general, a única ameaça existencial à Rússia agora é a deterioração de sua vida interna. Já as ameaças externas “não são atualmente críticas”. “A estabilidade estratégica como um todo está conservada, as armas nucleares estão sob controle confiável e os contingentes da OTAN não estão se reforçando nem demonstrando atividades ameaçadoras”, escreve Ivashov.

Conforme o apelo, a Ucrânia tem o direito à defesa individual e coletiva Estado independente. “Naturalmente, para que a Ucrânia continuasse sendo uma vizinha amigável com a Rússia, era preciso que ela demonstrasse a atratividade de seu modelo de Estado e de seu sistema de poder”, escreve Ivashov. Ele também observa que a esmagadora maioria dos países do mundo não reconhece a Crimeia e Sebastopol como territórios anexados à Rússia, o que demonstra “de forma convincente o fracasso da política externa da Rússia e a falta de atratividade de sua política interna”.

Na opinião do general, o uso da força militar contra a Ucrânia “em primeiro lugar, colocará em questão a existência da própria Rússia enquanto Estado; em segundo lugar, transformará para sempre russos e ucranianos em inimigos mortais”. Ivashov também teme a entrada de países da OTAN no conflito, particularmente a Turquia. “Além disso, a Rússia será inequivocamente classificada como um país que ameaça a paz e a segurança internacional, sujeita a severas sanções, transformada em um pária na comunidade internacional e provavelmente destituída de seu estatuto de Estado independente”, afirma o general. Ele acredita que a Rússia está a “provocar tensões beirando à guerra” para distrair a população dos problemas internos. O apelo exige que o presidente “abandone sua política criminosa de provocar uma guerra”.

De 1996 a 2001, Ivashov chefiou a Diretoria Principal de Cooperação Militar Internacional do Ministério da Defesa da Rússia e ocupou outros altos cargos no Ministério da Defesa. Ele ganhou notoriedade, em particular, por suas avaliações extremamente negativas da operação da OTAN contra a Sérvia [que ainda integrava o que tinha restado da Iugoslávia] em 1999. Após ser reformado, escreveu para o jornal Zavtra e outros veículos, criticando as políticas do governo da Rússia sob uma perspectiva “nacional-soberanista”. Também criticou a OTAN e o Ocidente.

A “Assembleia de Oficiais de Toda a Rússia” é uma organização social que reúne oficiais da reserva com visões pró-soviéticas e nacional-patrióticas. Sua direção inclui, por exemplo, o Coronel Vladimir Kvachkov e outras figuras proeminentes.

Nas últimas semanas, a Rússia concentrou uma grande força armada na fronteira com a Ucrânia, e unidades e equipamentos adicionais estão chegando para exercícios em Belarus. Os países ocidentais temem que a Rússia possa lançar uma invasão em larga escala ao território da Ucrânia, o que Moscou nega estar planejando.


O coronel-general reformado Leonid Ivashov, presidente da “Assembleia de Oficiais de Toda a Rússia”, manifestou-se contra a política de Putin e os preparativos para uma guerra com a Ucrânia.

A política do Kremlin de se preparar para uma guerra com a Ucrânia é criminosa em sua essência. Assim escreveu o coronel-general russo reformado Leonid Ivashov em uma carta aberta intitulada “A véspera da guerra”, na qualidade de presidente da “Assembleia de Oficiais de Toda a Rússia”. Ele também pediu ao presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, que renunciasse ao cargo.

“A carta atesta mudanças muito sérias no humor das mais diversas camadas da população” – O político e ex-deputado da Duma Estatal da Rússia, Gennadi Gudkov, comentou ao serviço russo da VOA que conhece pessoalmente Leonid Ivashov. Ele acredita não ser surpresa que Ivashov desfrute de grande respeito entre os oficiais. “É claro que suas opiniões sobre a política do Kremlin foram bastante controversas em vários momentos”, acrescentou. “Mas o fato de ter agora se manifestado de forma tão dura e contundente contra o envolvimento da Rússia em uma guerra com a Ucrânia, pedido a renúncia de Putin e apontado que o sistema de poder criado pelo presidente está se deteriorando e representa o principal perigo para o país – tudo isso diz muito. Sua carta atesta mudanças muito sérias no humor das mais diversas camadas da população.”

Está ficando absolutamente claro que a sociedade russa como um todo não quer uma guerra com a Ucrânia, constatou Gennadi Gudkov. A seu ver, a ideia de lutar em solo estrangeiro, ainda mais enquanto agressor, é completamente inaceitável para a maioria da população do país. “Parece-me que esse é um ponto de virada muitíssimo importante”, continuou. “As pessoas percebem que a guerra será excepcionalmente injusta e se recusam resolutamente a aceitá-la. Portanto, para o Kremlin é um sinal sério que deveria ser levado em conta.”

O ex-deputado também concorda que as tensões em torno da Ucrânia estão se intensificando em grande parte para distrair os cidadãos de questões internas urgentes. “Nos canais de TV federais, ouve-se de tudo, menos o que realmente preocupa as pessoas. Diariamente, instiga-se o ódio contra o mundo exterior. Enquanto isso, o próprio Putin entende perfeitamente que não há nem se espera qualquer pré-condição para um ataque da OTAN à Rússia. Todas essas ameaças que o Kremlin propaga por meio de suas mídias são míticas e não representam nenhum perigo real para o país. Portanto, Ivashov está absolutamente certo”, sumarizou Gennadi Gudkov.

“Putin simplesmente se sente desconfortável sem um inimigo” – Essa é uma mensagem significativa, afirma o cientista político Abbás Galliamov ao serviço russo da VOA. Ele acredita que Putin e a sociedade em geral já se acostumaram com as críticas liberais à política externa expansionista do Kremlin. “E aqui temos uma verdadeira sensação”, diz. “Inesperadamente, Ivashov expressou essencialmente os mesmos argumentos dos liberais, embora já combatesse a expansão da OTAN rumo ao leste quando ninguém realmente conhecia Putin. É um homem cujos méritos, aos olhos dos ‘patriotas nacionais’, geralmente não precisam de confirmação adicional. Ele é conhecido por suas visões nacionalistas e, em certos círculos, carrega a aura de patriarca.”

Portanto, é claro que isso foi um choque, forçando todos a reavaliar a situação, argumenta Abbás Galliamov. Em sua visão, tal conversão de patriotas em liberais, sobretudo quando realizada por uma figura conhecida, demonstra claramente qual lado, da perspectiva da influência sobre a opinião pública, está atualmente mais forte.

“É evidente que os argumentos do Kremlin não estão conseguindo causar o devido impacto no público em geral nem convencer não apenas seus oponentes, mas até mesmo potenciais aliados – pessoas que supostamente vestem o mesmo ‘casaco de Budiónny’ [referência ao traje histórico do Exército Vermelho]”, explicou. “Surpreendentemente e com razão, Ivashov observou que a causa primeira do que está acontecendo em torno da Ucrânia é amplamente determinada pelo desejo do Kremlin de desviar a atenção pública de questões internas para questões externas.”

Putin simplesmente se sente desconfortável sem um inimigo, considera o cientista político. “Não é coincidência que, desde seus primeiros dias no poder, ele tenha constantemente se ocupado em congregar a sociedade ‘contra alguém’. Nem é por acaso que ele retrate seus próprios críticos internos como agentes de algum inimigo externo. Hoje, a maioria eleitoral que ele outrora obtinha está se desfazendo. Você confirmará isso em qualquer estudo sociológico. Há muito tempo o índice de aprovação do presidente está abaixo de 50%, sem falar no índice de aprovação de seu partido Rússia Unida. E nessa situação, Putin não tem outra escolha senão tentar restaurar o paradigma que um dia o levou ao sucesso”, concluiu Abbás Galliamov.



segunda-feira, 20 de julho de 2026

ACABOU, COPA: vai ter memes sim!

No último dia da Copa do Mundo do Catar, em 2022, também fiz uma coletânea dos melhores memes deixados pela competição, então coletados no Équis (que ainda se chamava Twitter) e em algumas outras fontes. Com minha conta secreta feita no “esgotão da internet” só pra acessar determinados conteúdos (já que hoje a maioria das redes antissociais limita a visibilidade sem fazer login), nem precisei realizar buscas por determinados termos ou clicar num trending topic pra saber “O que está acontecendo” (eterno slogan da empresa): o algarismo do Ilomasque é tão poderoso que a página inicial já jorrava conteúdos sobre a histórica final entre o Califado de Córdoba, que saiu vencedor, e as Províncias Unidas do Rio da Prata.

Porém, ao contrário daquele inusitado dezembro em que ocorria tal evento, meu foco hoje foi exatamente na final, com dois assuntos principais: as incontáveis remontagens da foto de 2007, em que Lionel Messi jovem dá banho em Lamine Yamal bebê pra uma campanha da UNICEF (o ibérico é filho de imigrantes, um marroquino e uma equato-guineense), e a raiva dos platinos pelas falhas no ataque e pela consequente derrota, com direito a ódio descontado no presidente “libertino” Javier Milei. Muito mais que os bananeiros, nossos vizinhos do sul resolveram ligar o desempenho do time com o contexto político e, nessa onde de fúria, aprendi a palavra “mufa” (que significa “azar” no lunfardo portenho, ou a tão tropical “zica”) e descobri que o locatário da Quinta de Olivos tem entre seus inimigos o apelido “La Gorda”, rs!

A própria análise das publicações já mostra um salto tecnológico enorme em relação a três anos e meio atrás. O primeiro aspecto evidente é a quantidade, isto é, ao contrário do que rezavam os mal-amados do Esquerdistão acadêmico, o Équis não faliu com sua aquisição pelo Quico dos Foguetes, mas cresceu bem mais do que antes, e a toxina não parou de aumentar, apesar do controle imposto por certos Estados devido a situações que já estavam degringolando. Outras gerações foram chegando, e lá estavam elas na “rede de microblogues”, e não apenas no Teco-Teco chinês; em todo caso, não posso comparar com outras redes, porque não as explorei. O segundo aspecto é a qualidade das montagens, visível pra quem vir minha publicação de 2022: antes podia se falar propriamente de “montagem” porque basicamente eram sobrepostos recursos gráficos já existentes, sobretudo bandeiras nacionais em cima de pessoas. Com o advento e popularização da inteligência artificial (IA) a partir de 2023, as próprias situações passaram a ser criadas (som, áudio e vídeo), graficamente não se distinguindo de algo realmente acontecido. Pra manipular notícias é péssimo, mas pra diversão e humor é maravilhoso!

Dado que a maior parte da polêmica se concentrou em torno do quase aposentado “Piponel” (desempenho, atitudes e suposto conluio com a FIFA), não pude deixar de repetir o “Pessi” no endereço curto pra esta publicação. Apesar da campanha heroica dos “hermanos”, essa degringolada diante da “Roja” não deixou de suscitar dúvidas sobre a probidade dos jogos anteriores, como bem levantei anteontem. Mas basicamente, meu objetivo ontem foi procurar “inversões” da citada foto de 2007, que inevitavelmente eu sabia que iam fazer, me poupando trabalho de tentar algo nessa direção. E como eu disse, o salto tecnológico não só multiplicou o número dessas iniciativas, mas também permitiu que até vídeos fossem inspirados na cena!

E a briga não para! Hoje mesmo no Équis, entre os perdedores há o sentimento de frustração com o chefe de Estado, pois muitos jogadores não teriam retornado por causa de suas declarações contra o uso do bordão “Las Malvinas son argentinas” no jogo contra os donos das Falklands. Segundo “La Gorda”, não seria com palavras de ordem “adolescentes” como essa que o arquipélago seria recuperado; confessemos, essa é a última das prioridades do admirador assumido de Margaret Thatcher. No mesmo esgotão, têm circulado imagens de policiais agredindo torcedores albicelestes no Rio de Janeiro, com comentários de conterrâneos criticando a “animalidade” de nossas forças da ordem. De fato, são tomadas tiradas de contexto, omitindo quem começava realmente as confusões...

Bem, mas vamos ao que interessa. Em primeiro lugar, a razão de ser desta publicação, que é a inusitada situação histórica de ver um bebê sendo banhando por um adulto ganhar uma final de Copa contra esse mesmo adulto anos depois, rs. A conta da qual tirei esta montagem que rodou o mundo é brasileira, mas as variações se multiplicaram:







Taí a Ousadia e Alegria que o Neymar NUNCA vai ter:


Qual desses é o verdadeiro “Méçi Careca” tratorado? Rs:

      


Aos 50 segundos, a cambalhota do nada, kkkkk:


Originalmente eu tinha baixado desta publicação, mas ela foi apagada por razões de direitos autorais e outra conta também publicou. Se alguém ainda subestimava a grosseria e violência do time e torcida da AFA, a afirmação viva está na cena deplorável após o apito final, num nível que nem a CBF, fosse ou não numa final, jamais desceu:


Alguns, infelizmente, tiveram muito o que perder com esta Cópula (eu jurava que, assim como nos bombardeios do Laranjão, ele tinha conseguido um “insider”, rs):


Agora, uma exploração mais detida do lado derrotado. Este print do canal Todo Noticias me lembra uma piada antiga que se fosse contada usando o jogo de ontem, ficaria da seguinte maneira: “E termina a final da Copa do Mundo, com vitória da Espanha por um gol e zero GOLAAAÇOS da Argentina!”


Eis a coleção de imprecações que misturaram decepção com o Pessi, ódio ao Javier Gerardo (por ideologia ou pela ausência supersticiosa do estádio – “é a cabala”...) e ironia porque o presidente já teria desejado “evitar o vexame”, rs:




“Hambrientina”: trocadilho entre “hambriento” (faminto) e “Argentina”.











Bardear al plantel” significa “ofender uma equipe esportiva”.



sábado, 18 de julho de 2026

Sorria: a Argentina pode estar roubando


erickfishuk.blogspot.com/pessi



Este meme resume a publicação. Pesquise a respeito.


Se já não disse aqui, escrevo agora: não gosto nem de jogar nem de assistir a futebol e só me interesso por ele na medida em que se relaciona a temas de minha predileção, como história, política, geopolítica, culturas e idiomas. E humor também, claro. E pra minha alegria, cada Copa do Mundo tem se tornado sempre mais geopolítica, sendo a deste ano o ápice do processo. A começar por se realizar em três países ao mesmo tempo, sendo que um deles, o Zesteite, se situa “de sanduíche” entre os outros dois, os quais, pra piorar, estão com as relações diplomáticas azedadas com o primeiro. E sempre pode ficar ainda pior: os três logo caíram fora do torneio, e o Canadá está literalmente “esfumaçando” a final que vai se realizar no vizinho do sul.

A coisa fica ainda mais divertida com a popularização das redes sociais, hoje facilmente portáveis nos smartphones a um bolso de distância. Mesmo quem não as usa acaba recebendo respingos das intermináveis discussões, com seus memes, polêmicas e virais de todo tipo, um novo modo de expressão a ser estudado pela história cultural. Por essas razões, mesmo em se tratando da campanha abominável da çelessão Canalhinha, ela se torna assunto entre todos os jornalistas e figuras públicas e condiciona a relação do gado trouxa público com o resto da competição. E o que pode mais eriçar um tupiniquim senão um sucesso da eterna rival Argentina, pior, sua segunda chegada consecutiva ao final do certame? Por alguns instantes a crônica bananeira se precipitou em comparar o que “nós” erramos com o que “eles” acertaram, mas mesmo do exterior podemos perceber que a coisa não é direta assim.

Quero testemunhar a impressão positiva que me têm despertado os textos de Milly Lacombe no UOL, a besta-fera da Machosfera horrorizada com sua intromissão “woke” num âmbito outrora monopolizado por bovinos de barrigão Pilsen e pinto murcho. Reconheço que também sou “uouquista” (não “oquista”, atenção!), mas não sou radical, e também julgo que a Milly não é. Concomitantes ao avanço da horda do Méçi Careca de fase em fase, começaram a aparecer vídeos de youtubers lixo tentando dissertar “Por que a Argentina é um país tão racista?”, sugeridos até junto a programas estrangeiros nada a ver com o assunto e que sigo regularmente. Pra meu alívio e agrado, a Milly fez um ótimo contraponto a esse antirracismo freestyle, dizendo que nossa história teve um racismo muito mais violento materializado na escravidão e que ele continua até hoje estruturando nossas relações sociais. Eu acrescentaria que justamente o fato de nossa equipe, ao contrário da argentina, contar com muitos jogadores de cor (até porque técnico negro nunca vi; feliz foi Pelé que não enveredou pela mesma cilada do Marabola!), assistidos por um público majoritariamente descorado, só mostra que esse foi um dos poucos espaços em que lhes foi permitido alcançar destaque, em detrimento da política, da economia e da ciência.

O destino me pegou de surpresa: e não é que jornalistas de outros países começaram justamente a apontar a dimensão inaudita do racismo na torcida platina, sem contar outros trambiques que estariam favorecendo os tricampeões? De fato, exceto casos isolados que ocorrem em nossos próprios campeonatos nacionais, nunca vi os fanáticos amarelentos imitarem símios, jogarem bananas ou gritarem ofensas contra a melanina alheia. Isso não limpa a ignomínia de como o tecido social do Gigante Adormecido (e jamais despertado) foi construído, mas talvez eu (e a Milly?) tenha subestimado a vergonha alheia que os hermanos despertam em quem compartilha com eles a mesma arquibancada. E dois artigos da mídia estrangeira me despertaram justamente pra essa reflexão, além de trazer elementos interessantíssimos pra deixarem as neymarzetes com a pulga atrás da orelha.

O primeiro é uma reportagem de Adèle Léron publicada na RFI francesa e intitulada “Copa do Mundo de 2026: por que a Argentina é alvo de suspeitas de favoritismo?”, e o segundo é uma entrevista dada pelo escritor Adam Elder ao jornalista George Louis Martínez, da americana NPR e intitulada “Por que muitos fãs de futebol podem torcer contra a Argentina na final da Copa?”. De família equatoriana, George usa o apelido “A Martínez” (assim mesmo, sem ponto, lê-se “ei Martínez”), mas aqui me referi a ele como “George Martínez” por praticidade. Também não mantive os links do original francês nem adicionei notas explicativas pra certas pessoas e coisas. Sugiro uma pesquisa à parte, especialmente o caso de IShowSpeed.

Da série “traduzi sem autorização, phodasse”, no caso da entrevista, como ela não veio com uma transcrição, obtive-a usando esta ferramenta online quase perfeita, devendo ter o resultado cotejado com o áudio, sobretudo quando as pessoas falam meio rápido, o que ocorreu na conversa. Pra fins de pesquisa e registro histórico de raridades, mantive a transcrição do áudio da NPR, após revisar a redação, em especial a divisão de parágrafos, que o site faz de modo totalmente aleatório. Se alguém mais entendido que eu em termos técnicos do ludopédio quiser sugerir alguma escolha melhor pra tradução, sobretudo se souber um pouco de inglês e francês, comente à vontade. Boa leitura e, pra quem for assistir, boa final:



Após se classificar pras semifinais da Copa do Mundo de 2026 com uma campanha considerada fácil e marcada por diversas decisões controversas da arbitragem, a Argentina se tornou alvo de acusações de favorecimento. No centro das críticas está Lionel Messi, pra quem esta Copa, apresentada como a última, alimenta fantasmas, teorias e desconfiança com relação à FIFA.

“Lionel Messi consegue seu juiz favorito pra semifinal Inglaterra-Argentina.” A manchete do Daily Mail dá o tom. Na véspera do confronto entre as duas seleções, o tabloide britânico reacende as acusações de favoritismo contra o time argentino.

Apresentado como “o juiz favorito” do capitão argentino , a nomeação do americano Ismail Elfath reforça em muitos a crença de que Lionel Messi estaria obtendo um tratamento preferencial nesta Copa do Mundo.

Essas teorias surgiram antes mesmo do início da Copa. Em 5 de dezembro de 2025, durante o sorteio, internautas já expressavam surpresa com os adversários oferecidos à Argentina. Um passeio, segundo alguns. A Albiceleste enfrentaria Argélia, a Jordânia e, enfim, a Áustria. Depois, Cabo Verde nos 16 avos de final [sim, esse é o nome oficial em português da bizarrice inventada por Infantino...], o Egito nas oitavas e, finalmente, a Suíça nas quartas. Esse trajeto alimentou suspeitas: até as semifinais, Lionel Messi e seus companheiros não teriam enfrentado nenhuma seleção entre as dez melhores da classificação da FIFA. Isso seria, aliás, inédito na história das Copas.

De forma inversa, os outros semifinalistas tiveram um torneio mais difícil. A França enfrentou o Senegal (3x1) e o Marrocos (2x0), ambos finalistas da última Copa Africana de Nações, além da Noruega, que eliminou o Brasil. A Espanha se livrou de Portugal e depois da Bélgica, enquanto a Inglaterra precisou derrotar o México antes de eliminar a Noruega de Erling Haaland.

No papel, portanto, o caminho da Argentina parece bem mais suportável que o de seus principais concorrentes.

Arbitragem polêmica – Um sorteio favorável, mas também decisões da arbitragem que estão sendo criticadas.

Logo na primeira partida contra a Argélia, Messi escapou de qualquer punição após esmagar o tornozelo de Aïssa Mandi na primeira meia-hora de jogo. No entanto, o ex-árbitro internacional Bruno Derrien considera que o camisa 10 “podia ter sido expulso”. Amplamente dominada, a Argélia acabou perdendo por 3x0, e seu técnico anunciou que iria exigir explicações da FIFA.

As partidas seguintes reforçaram ainda mais essa impressão entre alguns torcedores. A partir das fases eliminatórias, a Argentina teve dificuldades pra vencer. Em três ocasiões, os campeões do mundo foram atropelados, chegando a ficar atrás no placar. E em todas elas, as decisões da arbitragem inverteram o rumo dos jogos.

Primeiro, contra Cabo Verde. Incapaz de superar a 64.ª colocada na classificação mundial, a Albiceleste se beneficiou de várias intervenções controversas: uma falta na entrada da área em Hélio Varela que não foi punida, um toque de mão de Cristian Medina que também passou imune e uma falta cobrada às pressas por Lionel Messi enquanto o goleiro Vozinha ainda tomava posição na trave. A Argentina acabou vencendo por 3x2 nos acréscimos.

Os técnicos tomam partido – No jogo contra o Egito, o cenário se repetiu. Perdendo por 2x0 até os 79 minutos, a Albiceleste conseguiu virar (3x2). Após o jogo, o técnico egípcio exigiu a demissão do juiz francês François Letexier. Ele citou especificamente um pênalti não marcado após um puxão na camisa de Hamdy Fathy, um contato entre Mohamed Salah e Julián Álvarez na área e a anulação de um gol egípcio após revisão do VAR.

Finalmente, contra a Suíça. Dominada durante grande parte do jogo, a Argentina se aproveitou de um inesperado empurrão do destino. Aos 71 minutos, após revisão do VAR, o juiz português João Pinheiro anulou o cartão amarelo do argentino Paredes e o deu a Breel Embolo por simulação.

Já com esse cartão, o atacante suíço foi expulso e deixou o campo, deixando seu time com dez jogadores. Após o jogo, o técnico suíço denunciaria “cotoveladas, cabeçadas e soladas” que ficaram impunes.

À medida que a Argentina avança na Copa, apanhados de decisões controversas se multiplicam no TikTok e no X. Uma delas, intitulada “Uma compilação de nove minutos de faltas cometidas pela Argentina contra a Suíça sem consequências”, já soma centenas de milhares de visualizações.

Outros internautas também se surpreenderam com os meros três minutos de acréscimo concedidos contra Cabo Verde, enquanto outros jogos da Copa obtiveram seis ou até dez minutos, devido às pausas pra hidratação.

Messi no centro das teorias – Essas suspeitas não são novas. Ainda durante a vitória da Argentina no Catar em 2022, diversas decisões da arbitragem alimentaram o debate. A Albiceleste, em particular, foi beneficiada com cinco pênaltis, mais que qualquer outra seleção naquela Copa.

É principalmente a figura de Lionel Messi que alimenta essas teorias. Em 2017, Gianni Infantino declarou ao La Nación que “seria injusto Messi se aposentar sem ter conquistado uma Copa do Mundo”, acrescentando que o argentino precisava “marcar sua época”, tal como Diego Maradona tinha feito.

Aos 39 anos, esta edição é apresentada como a última Copa do camisa 10. A conquista do título selaria definitivamente seu espaço entre os maiores jogadores da história. Com ou sem a ajuda dos juízes...



George Martínez – Não é difícil adivinhar que os torcedores da seleção espanhola de futebol vão torcer contra a Argentina este fim de semana, quando os dois times se enfrentarem na final da Copa do Mundo, mas há muito mais gente ao redor do mundo torcendo pra que a Argentina perca. Adam Elder é um escritor especializado em esportes e cultura. Adam, o que há no estilo de jogo da Argentina que, historicamente, gera tanta rejeição?

Adam Elder – Pois é, há muita coisa envolvida aí. A Argentina ganhou três Copas, mas sempre teve um estilo que divide opiniões. Eles conseguem jogar com talento e, claro, têm Lionel Messi, mas também sabem jogar com brutalidade, digamos, chutando o adversário, subindo nas costas, derrubando com força, pressionando o juiz. Tudo isso é comum na América Latina. Tanto é que escrevi sobre isso num livro meu, mas a questão é que ninguém faz isso melhor que a Argentina.

Eles basicamente conseguem jogar tanto em alto nível quanto de forma muito baixa, e com frequência os vemos fazendo as duas coisas. Além disso, há episódios bem documentados de racismo da parte de torcedores e jogadores, com músicas e outras manifestações, especialmente contra pessoas negras; seja contra a seleção francesa, composta em grande parte por jogadores negros, ou espectadores famosos, como o streamer IShowSpeed na Copa deste ano.

GM – É, houve muito disso, o que anda prejudicando a imagem da Argentina, mas quatro anos atrás a situação parecia diferente. Parecia que as pessoas queriam ver Lionel Messi ganhar uma Copa. Então, o que realmente mudou de lá para cá?

AE – Muita coisa mudou durante esta edição. Eles chegaram como os atuais campeões, e a trajetória tem sido incrível. Lionel Messi, aos 39 anos, liderando o time na reta final de sua carreira. Ele marcou seis gols, se não me engano, nos três primeiros jogos, e as partidas têm parecido eventos quase religiosos. A emoção é avassaladora: a paixão, o barulho. É uma grande história.

O problema é que muitos têm a impressão de que a FIFA, entidade vilã que comanda o futebol, também gosta muito dessa narrativa, se você olhar de um certo ângulo. É quase como se as coisas tivessem tomado outro rumo após a fase de grupos – depois que a Argentina por pouco superou Cabo Verde, a indiscutível zebra da Copa –, pois, nos três jogos seguintes, muitos torcedores diriam que a Argentina foi beneficiada por decisões generosas da arbitragem, pelo uso muito generoso do VAR [o que inclusive fez os brasileiros criarem o apelido “VARgentina”!] e também pela falta de uso dele quando talvez fosse necessário.

Então, como acabei de dizer, a FIFA já aparece por si só como vilã; junte a isso o estilo de jogo peculiar da Argentina, as viradas incríveis que a seleção protagonizou e, talvez, uma arbitragem favorável, e chegamos ao cenário atual.

GM – Há décadas existe o sentimento, entre muitos latino-americanos, de que os argentinos se consideram superiores de alguma forma, o que faz com que sempre torçam contra eles. Mas o que você acha da ironia de que, neste caso, os latino-americanos prefiram torcer pra Espanha, nação que por séculos colonizou a América Latina?

AE – Pois é, esse é só um dos aspectos. Parece que sob vários pontos de vista vai ser um grande confronto. Obviamente há implicações ligadas à colonização e, veja bem, se a Argentina jogar como tem jogado em toda esta Copa – algo que, como discutimos, tem se desenvolvido mais ou menos por cinco semanas –, vai ser um jogo realmente interessante. Não vejo a hora de assistir e, pra ser claro, acho que tudo isso faz dos esportes algo bem melhor. Adoro ter um vilão. Claro, sou escritor, mas pessoalmente adoro isso.



George Martínez – It’s an easy assumption that fans of Spain’s national soccer team will be rooting against Argentina this weekend when the two teams face off in the World Cup final, but there are a lot more people around the world hoping Argentina loses. Adam Elder is a sports and culture writer. Adam, so what’s about the way Argentina plays that’s historically been unpopular?

Adam Elder – Oh boy, there’s so much going on here. Well, Argentina’s won three World Cups, but they’ve always had a style that’s very polarizing. You know, they can play with flair, and of course they have Lionel Messi, but they can also play with brutality, let’s say, kicking you, climbing on you, chopping you down, working the ref. This stuff is common throughout Latin America. In fact, I wrote about it in a book of mine, but the thing is, no one does this stuff better than Argentina.

They can essentially play at the highest levels or the lowest, and often you’ll see them doing both. Now, there’s also been some well-documented racism by fans and players and songs and whatnot, particularly towards black people; whether it’s about the French national team made up largely of black players or famous spectators like the streamer IShowSpeed at this year’s World Cup.

GM – Yeah, so there’s been a lot of that which hasn’t helped Argentina lately, but it seemed like four years ago things were different. It seemed like people wanted to see Lionel Messi win a World Cup. So what really has changed between then and now?

AE – A lot’s changed within this tournament. They came in as the defending champions, and it’s been this great story. Lionel Messi, aged 39, leading the team, twilight of his career. He scored six goals, I believe, in the first three games, and their matches have resembled these quasi-religious events. It’s emotionally overwhelming, the passion, the noise. It’s a great story.

The problem is, it appears to many that FIFA, soccer’s villainous governing body, likes that storyline a lot as well, if you look at it from a certain angle. It’s almost as if things took a turn after group play, after Argentina barely got past Cape Verde, the tournament’s undisputed Cinderella team, because in their next three matches, a lot of fans watching would contend that Argentina benefited from some generous calls, some very generous use of VAR, the video assistant referee, and also the non-use of it when perhaps it was needed.

So FIFA is, as I just said, such this great villainous organization on their own, and you combine now with Argentina’s occasional style of play and these incredible comebacks they’ve staged and, you know, perhaps generous refereeing, and this is where we are right now.

GM – You know, there’s been a decades-long feeling by many Latin Americans that Argentines believe themselves to be superior somehow, so that means they’ll always root against them. But what do you think of the irony that in this case, Latin Americans would rather root for Spain, the nation that colonized Latin America for hundreds of years?

AE – Yeah, I mean, that’s just one layer of it. It’s looking like a great matchup in so many ways. There’s obviously some colonial implications and, you know, if Argentina show up the way they’ve been playing throughout this tournament, which, as we talked about, has changed in the past five weeks or so, it’s going to be a really interesting game. I’m looking forward to it, and to be clear, I think all this stuff makes sports much better. I love having a villain. Of course, I’m a writer, but I personally love this stuff.


terça-feira, 14 de julho de 2026

Prevenção da demência 2: os supercaminhantes

Minha primeira tradução de um artigo no site da National Public Radio (NPR) dos Estados Unidos sobre a prevenção da demência foi um sucesso, o que me deixou muito alegre. Felizmente, em 6 de julho passado, Alisson Aubrey veio novamente com uma reportagem, que pode ser ouvida em formato podcast na própria página, sobre a relação entre exercício físico e fortalecimento cerebral. Em tradução livre pro português, seu título poderia ser “Um estudo descobriu que pessoas com mais de 80 anos que caminham em ritmo acelerado reduzem pela metade o risco de declínio cognitivo” e fala de novos estudos relacionando a manutenção da acuidade cerebral em pessoas com mais de 80 anos que mantêm o hábito da caminhada rápida.

Não são aqueles anúncios “pegadinha” miraculosos que pululam no Google, mas estudos sérios que achei por bem partilhar aqui, mesmo sem autorização da NPR, rs. A maior contribuição do artigo é o conceito de “super mover”, que o tradutor inicialmente transformou em “supermoventes”, mas deu inúmeras soluções díspares ao longo do texto. Assim, joguei na busca tanto “supermoventes” pra ver se era um termo corrente quanto “super mover em português” pra achar alguma relação com estudos existentes. O termo era realmente novo e o Gemini, IA do Google, acabou sugerindo “supercaminhantes” a partir de diversas fontes, uma delas um recente artigo da revista Veja que por coincidência abordou o mesmo tema. Porém, o texto trata quase exclusivamente do trabalho de só um dos cientistas envolvidos, enquanto aqui você pode conhecer o esforço completo!

Tendo usado o Google Tradutor pra obter a base do texto, fiz o que se tornou ainda mais imprescindível depois da multiplicidade de traduções pra “super movers”: revisar manualmente, sobretudo termos médicos, pra não ficar algo antinatural ou simplesmente passado “na máquina”... Além disso, imprimi ao conjunto meu próprio estilo de redação e simplifiquei o que fosse possível, mesmo que o resultado “robótico” permanecesse aceitável. Desta vez, com uma única exceção, não mantive os links originais pra outros artigos, trabalhos e sites. Finalmente, como fiz outras vezes, sugiro a leitura do artigo (entrevista) da pesquisadora Gislene Nogueira sobre o conceito de public radio na legislação americana, no qual se encaixa a NPR, uma empresa privada sem fins lucrativos que sobrevive de doações de indivíduos, empresas e organizações e de repasses do Estado (estes cortados por Trump em 2025).



Palavras cruzadas e quebra-cabeças são há muito tempo considerados maneiras de manter a mente afiada. Mas um novo estudo aponta pra outra estratégia que pode ser igualmente importante: manter a rapidez nos pés.

Pesquisadores descobriram que pessoas na faixa dos 80 anos que mantêm um ritmo de caminhada excepcionalmente rápido, apelidadas de “supercaminhantes”, também são muito mais propensas a manter a mente afiada em comparação com seus coetâneos que se movem mais lentamente.

“Um supercaminhante é alguém com mais de 80 anos que apresenta um desempenho muito superior ao de seus coetâneos”, afirma a dra. Sofiya Milman, do Albert Einstein College of Medicine, uma das autoras do estudo.

Milman e seus colaboradores analisaram dados de cerca de 4 mil idosos inscritos num estudo de longo prazo sobre envelhecimento. Os participantes realizaram um teste de caminhada cronometrada, e os 9% mais rápidos – que apresentaram uma velocidade de marcha pelo menos 1,5 desvios padrão acima da média de seus pares da mesma idade – foram classificados como supercaminhantes. Esses indivíduos também apresentaram uma probabilidade significativamente menor de sofrer declínio cognitivo.

“A principal conclusão foi que os supercaminhantes têm cerca de 50% menos probabilidade de desenvolver declínio cognitivo que seus coetâneos que não são supercaminhantes, o que é muito impressionante”, diz Milman. Os resultados foram publicados na revista médica Neurology.

A conexão com a saúde muscular – Caminhar bem exige equilíbrio, coordenação e força, e todos esses fatores dependem de músculos saudáveis, afirma Bonnie Tsui, redatora científica e autora de On Muscle: The Stuff That Moves Us and Why It Matters (em tradução livre, Sobre músculos: o que nos move e a importância disso).

“Acho que a descoberta não é surpreendente, porque sabemos que a saúde muscular está muito correlacionada com a saúde cognitiva, especialmente à medida que envelhecemos”, diz Tsui. “O exercício faz seus músculos crescerem, mas também faz seu cérebro crescer.”

Pesquisas anteriores associaram a prática regular de exercícios físicos a um maior volume do hipocampo, o centro do cérebro responsável pela memória e pela orientação. O novo estudo descobriu que os supercaminhantes tendiam a preservar o volume do hipocampo à medida que envelheciam.

Tsui afirma que os benefícios estão relacionados ao que acontece dentro dos músculos em contração durante o exercício.

“O músculo é um tecido endócrino, o que significa que, quando nos movemos, nossos músculos liberam moléculas sinalizadoras que afetam outros sistemas do corpo, incluindo o estímulo ao crescimento de células cerebrais e a regulação do metabolismo”, diz ela. “Portanto, saúde muscular é saúde cognitiva.”

Entre essas moléculas de sinalização está uma proteína conhecida como fator neurotrófico derivado do cérebro, ou BDNF, que ajuda a regular a glicose e desempenha um papel importante na sobrevivência e manutenção dos neurônios, auxiliando na memória e na função cognitiva.

A rede de um corpo em funcionamento – O dr. Amit Saini, geriatra do consórcio de saúde Kaiser Permanente no norte da Califórnia, afirma que caminhar e manter a capacidade de caminhar bem são indicadores de boa saúde, pois diversos sistemas do corpo são empregados simultaneamente. Ele diz que caminhar beneficia a saúde cardiovascular e pulmonar.

“Ao caminhar, seu coração bate mais rápido e, quando o coração bate mais rápido, ele bombeia sangue não só pros músculos, mas também pro cérebro, nervos e outros sistemas do corpo”, diz Saini. “Seus pulmões também respiram um pouco mais rápido, o que, por sua vez, os mantém mais leves e saudáveis.”

Uma das descobertas mais surpreendentes do estudo: alguns supercaminhantes apresentaram placas e emaranhados neurofibrilares no cérebro, proteínas anormais associadas à doença de Alzheimer e à demência, apesar de não apresentarem sintomas. Os pesquisadores afirmam que isso sugere que o movimento e todos os benefícios de se manter ativo podem ajudar o cérebro a permanecer resiliente, mesmo sofrendo alterações relacionadas à idade.

A genética e o estilo de vida também são importantes – A genética provavelmente desempenha um papel importante em quem se torna um supercaminhante. Um estudo recente descobriu que a genética é responsável por cerca de 50% da expectativa de vida humana, e Milman afirma que, entre os superidosos – pessoas que estão bem aos 80 anos ou mais –, o papel da genética pode ser ainda maior.

No entanto, os autores enfatizam que os hábitos de vida, incluindo as decisões diárias sobre alimentação, priorização do sono e tempo dedicado ao relaxamento e à convivência com amigos e familiares, são todos importantes. De fato, pesquisas mostram que cerca de metade de todos os casos de demência podiam ser prevenidos ou adiados com a intervenção em 14 fatores de risco modificáveis.

As pessoas têm poder de influência sobre suas chances de envelhecer com saúde, e uma maneira de avaliar seus riscos pessoais e tomar medidas pra os reduzir é calcular sua Pontuação de Cuidado Cerebral. É uma ferramenta online gratuita, desenvolvida por médicos do Hospital Geral de Massachusetts, pra calcular teus riscos e sugerir medidas, por meio de mudanças nos hábitos diários, que podem ajudar a diminuir o risco de AVC, demência, doenças cardíacas e câncer.

“Caminhar rápido é um indicador de que o cérebro e o corpo estão envelhecendo bem”, diz Joe Verghese, chefe do Departamento de Neurologia da Stony Brook Medicine em Nova York e um dos autores do estudo. “Mas também é possível que as pessoas que caminham mais rápido, ao se envolverem nessas atividades, também protejam a saúde do cérebro por meio de diversos mecanismos, reduzindo inflamações, melhorando a saúde cardiovascular e promovendo o crescimento cerebral em áreas essenciais pra manter a função cognitiva à medida que envelhecemos.”

Verghese afirma que as descobertas trazem uma mensagem pra pessoas de todas as idades e níveis de condicionamento físico.

“Uma das principais mensagens é: mantenha-se ativo”, diz ele. “Faça exercícios regularmente, pois isso pode te colocar no caminho pra se tornar um supercaminhante à medida que envelhecer.”

Seja caminhando, nadando ou pedalando, os pesquisadores afirmam que a forma do movimento importa menos que sua consistência. É um hábito que pode trazer benefícios tanto pros músculos quanto pra memória no longo prazo.



domingo, 12 de julho de 2026

Russos, remadores e Haaland


erickfishuk.blogspot.com/remador-ru

Veja também “Sobre o significado de Rus”:
erickfishuk.blogspot.com/rus-urss



Neste sábado, o inutilismo geopolítico do Jeum nos saiu com essa que, na verdade, me divertiu muito mais do que a semelhança física em si entre os dois seres humanos. Nem abri a matéria, mas a primeira coisa que me veio à mente foi a relação entre a “remada” comemorativa dos noruegos durante os certames da Cópula e a origem nórdica do gentílico “russo”, que no norte da Europa viria da palavra “remar”.

Como indiquei no início da publicação, já falei outras vezes da origem da palavra “Rússia” e de sua relação problemática com o termo Rus’ (a confederação medieval dos eslavos orientais), reapropriada pelo império moscovita no início do século 18 pra designar o próprio país. Dos séculos 9 a 13, ainda não havia clara diferenciação entre os povos russo, belarusso e ucraniano (e russino, se quisermos), por isso, a associação da Rus e de seu nome apenas com os atuais russos é malvista pelos vizinhos eslavos. Não quero voltar à polêmica, mas a viralização da “remada viking” e o significado de “remar” (a mesma remada nórdica!) como fonte das palavras “Rus” e “Rússia” são ótimos motivos de reflexão.



Tudo em história que é reapropriado pelo presente sempre vai gerar polêmica, e a “remada viking”, assim como a própria trajetória dos vikings, não foi exceção nesse Torneio do Laranjão. Neste ótimo short da Deutsche Welle Brasil, historiadores colocam a remada em seu devido lugar, mas o UOL também lançou um longo artigo esclarecedor, ainda mais incisivo. Recomendo abri-los, mas resumo pros preguiçosos: o ato de remar estaria muito mais relacionado aos suecos, que navegavam em rios e nos mares europeus internos, do que aos noruegueses, que, tendo velejado mais em pleno Atlântico e até chegado à América bem antes de Cristóvam Buarque, dependeriam muito mais do vento sobre as velas do que do impulso manual. Além disso, veio à tona o lado sombrio dos vikings, que também pilhavam, matavam e destruíam vilarejos (como qualquer povo da época, aliás), tornando problemática a associação com eles.

Os falsos críticos do politicamente correto já desancaram no UOL vociferando que “a matéria é besta e tudo agora é motivo de polêmica; o povo tem mesmo é que se divertir”. Sou historiador e garanto que nesse caso não há lacração: trocando em miúdos com a situação do Centro-Sul bananeiro, é como se um grande clube esportivo começasse a reivindicar os bandeirantes ou algum gesto racista outrora inocente, como o blackface. Tudo bem que forcei um pouco a barra, porque não é toda região tupiniquim que se identifica com um Fernão Dias ou Anhanguera da vida, e nada vai forçar à renomeação de logradouros com nomes de bandeirantes ou, digamos, de Getúlio Vargas, um dos ditadores mais corruptos e assassinos que esse país já conheceu. Mas um pouco de informação histórica a mais é sempre bom, pra não deixarmos nossa imaginação no “piloto automático” o tempo todo.

Inclusive, a julgarmos pela etimologia dada pelo Wiktionary e que traduzi logo abaixo, a origem do nome “Rus” realmente remete a finlandeses que encontraram suecos, os maiores inimigos do império tsarista durante séculos, e não bacalhaus, rs. Portanto, mesmo que os próprios especialistas digam que isso pode ser birra dos vizinhos que logo caíram fora da disputa, há um fundo de verdade histórica na associação. Ou, como diria Maria Putinieta: “O povo quer gasolina? Então que ande de barco!”


Do latim medieval Russia, do antigo eslavo oriental Русь (Rusĭ) – de onde vem o árabe رُوس (rūs) e o grego bizantino Ῥῶς (Rhôs ) –, que originalmente se referia a um grupo de varegues que se estabeleceram perto de Kyiv no século 9 e comandaram a “Rus de Kyiv”; provavelmente do proto-fínico *roocci, do nórdico antigo oriental *roþs- (“relacionado a remar”); relacionado ao nórdico antigo Roþrslandi (“a terra do remo”), uma denominação mais antiga de Roslagen, onde os finlandeses encontraram os suecos pela primeira vez. Em última análise, do nórdico antigo róðr (“remo de direção”), do proto-germânico *rōþrą (“leme”), do proto-indo-europeu *h₁reh₁- (“remar”).


Trilha sonora e patrocínio desta publicação:


Agora me deixe ir embora, pois eu mesmo tenho mais o que fazer, rs:


sexta-feira, 10 de julho de 2026

Rep. Islâmica do Japão e Volodymyr Putin

Por esta montagem por IA bastante sugestiva feita por aquele amigo que volta e meia colabora com esta página xexelenta, mas sugeriu que esperasse o Vlad falecer antes que eu a publicasse (rs), cheguei novamente pra relembrar mais um adágio: Quem com ferro ferre, com ferro será ferido ou, em latim, Hodie mihi, cras tibi (lit. “Hoje pra mim, amanhã pra você”). Se em 2024, como publiquei aqui, Biden cometeu o crime de “lesa-majestade” de chamar Zelensky de Putin, agora foi a vez de Trump incorrer no mesmo sacrilégio em outra cúpula da OTAN. Se o republicano acusava o democrata de ser velho e senil demais, estamos vendo que o imobiliário falido incorre nos mesmos males... com a desvantagem de ainda ter mais de meio mandato pela frente!


Mais uma situação que deixa qualquer estadunidense tão vexado e desconfortável como a polímata EnfastYalda Hakim quando visitou Havana há algumas semanas e não achou papel higiênico. E foi da edição de 8 de julho de seu programa The World que tirei o recorte abaixo, em que novamente “Volodymyr se torna Vladimir”, e não só isso! O Laranjão estava tão confuso nas rimas que chamou de “República Islâmica do Japão” seu inimigo contra o qual está lutando pelo controle do Golfo. Reconheçamos que a distância fonética entre “Japan” e uma das pronúncias aceitas de “Iran” é menor do que entre “Japão” e “Irã”. Ainda assim, o número de muçulmanos nipônicos está longe de justificar tal fenômeno. (Esse é o vídeo mais novo que achei, existem muitos outros que aparecem numa rápida busca.)



Não adianta, “nosso homem em Washington” sempre tem o ex-espião do KGB na cabeça, é obsessão mesmo devido à afinidade de gênios. Em Ancara, talvez era isto que ele tinha em mente:


Que não é muito diferente disto, esteja o Adolfo localizado na Casa Branca ou no Kremlin (o crédito das ótimas montagens é sempre ao programa semanal de Mikhail Fishman na TV Rain!):


E finalmente, pra distrair um pouco, um gênero que já virou “crácico” depois de toda eliminação do Braziu (todas as vezes, na verdade): o campeão frustrado Craque Neto trovejando na Band, desta vez com muito mais ódio e palavrão, mas tirando todas as palavras de nossa boca! Quem é que não pensou exatamente as mesmas coisas, até a ambígua pronúncia correta do nome “Haaland”?


quarta-feira, 8 de julho de 2026

Joãozinho Xará: “Fif lamitê fhancô ciriân!”

Quase meio ano depois de sua primeira aparição com Ray-Ban em ambientes fechados, o que suscitou dúvidas sobre sua vida privada, o copríncipe de Andorra Mané Marcão voltou a usar o acessório em público durante a primeira visita à Assíria de um presidente gaulês desde 2009, último encontro entre o Sarkolula amigo de ditadores e a Girafa de Damasco. Desta vez, ele finalmente vai encontrar in loco seu novo parça Joãozinho Xará (que antes era Joãozinho e agora é Xará), ex-corno e ex-jihadista que tomou o lugar de um regime esfarinhado.

A geopolítica tá tão maluca que nem mesmo os analistas mais calejados estão dando conta. Se antes brincávamos que nosso “subcontinente” podia ser chamado de “América Latrina”, agora parece que cada vez mais nos encaminhamos pra um Oriente Mérdio. Não que a região nunca tivesse sido um barril de pólvora acendido pelo emperializmu mauvadaum ossidentau, mas até mesmo as monarquias absolutistas árabes que tentavam se passar por ilhas de calmaria vendendo petróleo pro Til Çan sofrem com os rebosteios da Pérsia despirocada. A dinastia Al-Asad, com o aporte financeiro e militar da antiga URZZ e da atual Moscóvia, parecia irremovível, mas com um bombardeio do Bibi do Hamas aqui e um revés da “República Islâmica” ali, Joãozinho Xará pôde passear tranquilamente do norte ao sul.



Se ele não vestiu o conjunto do Toninho do Diabo como a Yalda Musa Hakim enquanto entrevistava Sucker Tarlson, o agente transatlântico do Kremlin – o cenário mesmo por ele preparado parecendo mais uma liturgia pro KPta –, pelo menos inicialmente adotou o viralizado look Fidel Castro e agora está se “desdemonizando” pra encher o rabo de euro$$$... Durante a recente visita que lhe fez o ex-banqueirinho, Xará até reciclou seu francês do colegial pra dar um “Viva à amizade franco-síria”.

Se ele não achou que estivesse encarnando o General Wojciech Jaruzelski nem apanhou de novo de sua “mãe-lher”, tanto mais que recentemente houve uma fofoca de caso extraconjugal com uma atriz de origem iraniana, o extremo-centrista também parece ter trazido de volta o artigo óptico deixado pra trás pelo tirano apeado durante a fuga. Não é a coisa mais engraçada do mundo, mas achei interessante deixar pro registro, sobretudo porque nos lembra o vetusto adágio: Diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és. E neste caso é recíproco...



terça-feira, 23 de junho de 2026

Mentiras sobre biolaboratórios na Ucrânia

Desde a anexação ilegal da Crimeia e o início da incursão terrorista no Donbás em 2014, a propaganda ligada à ditadura de Vladimir Putin tem espalhado pelo mundo uma história sobre biolaboratórios secretos mantidos pelos EUA na Ucrânia. Por supostamente produzirem armas químicas, o Kremlin se achou no direito de começar sua intervenção militar pra debelar essa “ameaça ocidental”, omitindo que não só esses laboratórios eram de conhecimento público, mas também não produziam nada pra destruição em massa. Bem ao contrário do ditador sírio Bashaar al-Asad, que jogou gás tóxico num bairro opositor inteiro com apoio logístico russo...

É difícil comprovar laços diretos entre Donald Trump e os serviços secretos da antiga URSS e da Rússia, mas não se pode negar uma confluência de interesses entre a extrema-direita MAGA e o expansionismo reacionário putinista. Enquanto os adeptos atlânticos de teorias da conspiração miram contra as “elites globalistas” e os “destruidores dos valores tradicionais”, o novo tsar se aproveita de qualquer força política que possa desestabilizar a fauna política dos países inimigos, esteja ela à direita ou à esquerda. Tulsi Gabbard, escolhida pelo presidente como diretora da Inteligência Nacional dos EUA, renunciou há alguns dias devido a sua discordância quanto à condução da atual guerra contra o Irã, embora tenha alegado “razões familiares”.

Em seu vídeo de “despedida” nas redes sociais, pra não negar a estirpe, a trumpista exumou do nada o fantasma dos “biolaboratórios americanos secretos” espalhados pela Ucrânia, dizendo que o governo (Biden, suponho?) tentou fazer de tudo pra negar sua existência. Se você tem um amigo “anti-imperialista” e “anti-OTAN” (no Hemisfério Sul!) que espalha bobagens semelhantes, plantando a discórdia e não explicando o resto, mande isto pra ele: na última edição de seu programa semanal de geopolítica na TV Dozhd, Ekaterina Kotrikadze exibe uma reportagem produzida por Daria Levchuk explicando exatamente do que se trata.

Os biolaboratórios ianques existem, como existem em dezenas de países. Porém, as informações sobre eles são públicas, além do que são instalações com fins médicos e científicos, e não militares. Nunca se esqueça que tudo o que vem do Kremlin atualmente é 200% mentiroso, a não ser que façamos uma leitura “a contrapelo” de seus discursos e descubramos como realmente funciona essa ditadura terrorista. Seguem o vídeo incorporado diretamente do canal de Kotrikadze, a tradução em português e, pra não desperdiçar o material, o texto em russo:


Ekaterina Kotrikadze – Os biolaboratórios secretos dos EUA na Ucrânia, uma das principais teorias da conspiração com que a propaganda russa tenta justificar a guerra. A diretora da Inteligência Nacional dos EUA também entrou nessa história. Na véspera de sua renúncia, Tulsi Gabbard anunciou sobre uma rede global de biolaboratórios financiados por Washington e acusou seu próprio Estado de esconder a verdade sobre o que realmente estava escrito em seus documentos. Que tipo de laboratórios operavam na Ucrânia e por que a publicação de Gabbard já está sendo considerada um presente político pro Kremlin? Daria Levchuk traz os detalhes.

Tulsi Gabbard – Eles não apenas mentiram, mas também ameaçaram quem tentasse dizer a verdade.

Daria Levchuk – Centenas de manchetes russas foram publicadas com a mesma redação: os EUA admitiram manter mais de 40 biolaboratórios na Ucrânia, sobre os quais mentiram pro mundo durante anos. No final de maio, a diretora da Inteligência Nacional dos EUA, Tulsi Gabbard, anunciou sua renúncia. Em seu discurso de despedida, em 12 de junho, falou sobre uma rede global de biolaboratórios financiados por Washington.

Apresentador do Canal 1 – A inteligência americana divulgou novos materiais sobre a investigação das atividades dos biolaboratórios financiados pelo orçamento dos EUA. Mais de 40 deles estão na Ucrânia.

TG – A publicação de hoje revela, pela primeira vez, informações sobre a existência, localização e financiamento desses biolaboratórios financiados pelos EUA. Todas essas informações foram deliberadamente ocultadas por muito tempo por pessoas influentes que afirmavam que tais laboratórios jamais existiram.

DL – O comunicado oficial do gabinete de Gabbard consiste em apenas quatro páginas de um documento com texto parcialmente editado. Ele descreve laboratórios em centros regionais de diagnóstico na Ucrânia, ou seja, os locais habituais onde os patógenos são armazenados e estudados. Outro detalhe notável: o mapa dos biolaboratórios mostra incorretamente a localização de Kyiv e indica cidades inexistentes: Cherniv [Chernov, em russo] e Zakarpattia. Afirma ainda que laboratórios ucranianos supostamente existiriam também na Crimeia, território ocupado pela Rússia.

Igor Slabykh, especialista em EUA – Gabbard está no cargo há mais de um ano. E, no fim, tudo o que conseguiu encontrar foram quatro documentos. O cabeçalho diz que um laboratório veterinário em Kharkiv foi alvo de desinformação por parte da Rússia. Bem, é exatamente disso que todos estão falando. Sim, aí realmente há informações sobre o que foi financiado. Sim, ninguém o nega. Sim, há informações sobre quanto dinheiro foi alocado. Mas aí não há informações sobre quais armas biológicas específicas estavam sendo desenvolvidas; esses dados não existem. Certo. Mas quais experimentos específicos foram conduzidos? Não há informações. Portanto, é propaganda pura e simples.

DL – A publicação do gabinete da diretora de Inteligência Nacional dos EUA afirma que informações sobre o financiamento americano pra laboratórios foram anteriormente “ocultadas deliberadamente por indivíduos influentes, em particular o imunologista Anthony Fauci e representantes do governo do ex-presidente americano Joe Biden. Isso diz respeito a aproximadamente 120 instalações em 30 países, incluindo mais de 40 na Ucrânia”. No entanto, as informações contidas no comunicado já são conhecidas há muito tempo. Os EUA de fato ajudaram a Ucrânia a modernizar laboratórios de diagnóstico e referência nos quadros do programa Biological Thread Reduction (Redução de Ameaças Biológicas), ligado à Convenção sobre as Armas Biológicas, segundo confirmou o Ministério da Saúde da Ucrânia.

Ministério da Saúde da Ucrânia – A essência do acordo é combater a ameaça de surtos de doenças infecciosas perigosas. Esse acordo é público e não menciona nenhum programa biológico militar nem o envolvimento de quaisquer recursos do Ministério da Defesa da Ucrânia.

Aleksandra Filippenko, americanista – O programa, lançado em 1991, existiu de forma totalmente transparente. Não havia segredo militar nem qualquer tipo de segredo em geral. Além disso, os sites oficiais das embaixadas americanas descrevem detalhadamente esse programa conjunto de combate a ameaças, o Programa Nunn-Lugar. Basicamente, tratava-se de um programa criado pra neutralizar diversos laboratórios que estavam sendo instalados nos territórios das então repúblicas soviéticas e, posteriormente, nos países pós-soviéticos, devido ao fato que, após a dissolução da URSS, ninguém tinha recursos pra os manter.

William Moser, diplomata – Os EUA têm interesses humanitários que vão além de questões de poder e influência. E acredito que seja importante que os EUA continuem esse trabalho.

DL – No entanto, pra propaganda russa, esses quatro slides estão se tornando a prova do que eles vêm afirmando desde 2022: a Ucrânia é um campo de testes pro desenvolvimento de armas biológicas americanas.

Maria Zakharova – Agora os americanos também vão verificar tudo aquilo que anteriormente, como eu já disse, a comunidade internacional supostamente civilizada negava.

Kirill Dmitriev – A verdade russa sobre os biolaboratórios de Obama e Biden na Ucrânia, que colocaram o mundo em perigo e cuja existência era anteriormente negada pelo deep state e pela mídia tradicional, foi confirmada em pleno Dia da Rússia.

Mikhail Favorov, epidemiologista – O financiamento terminou após a construção e o treinamento. Eles mantiveram o nível de anticorpos por seis meses e, depois disso, o financiamento direto pra manutenção dos laboratórios foi interrompido. Agora, o financiamento é direcionado aos países onde os laboratórios foram criados. E isso faz parte do acordo.

DL – A propaganda russa transformou o tema dos biolaboratórios ucranianos em uma verdadeira teoria da conspiração. Mesmo antes da invasão em larga escala, agências de inteligência e a mídia controlada já construíam uma narrativa sobre laboratórios secretos dos EUA. E de acordo com uma investigação do Insider, uma unidade do GRU esteve envolvida na elaboração desse conceito, sistematicamente o integrando em companhias de informação, desde mosquitos de combate até armas que visam exclusivamente o gene dos russos.

Apresentador da REN TV – O Ministério da Defesa divulgou hoje novos dados assustadores sobre os biolaboratórios na Ucrânia. Descobriu-se que vários programas secretos estavam sendo simultaneamente implementados sob controle dos EUA. Por exemplo, eles estavam estudando a transmissão de doenças de morcegos pra humanos. A possibilidade da infecção se espalhar por meio de aves também foi investigada.

Apresentador da TVTs – O Pentágono admitiu que estavam transformando mosquitos em armas biológicas. Os insetos estavam se tornando vetores dos vírus da febre amarela, zika e chicungunha.

Dmitri Medvedev – A maior ameaça agora vem dos biolaboratórios em território ucraniano. Ao longo da operação militar especial [nome oficial da invasão à Ucrânia], foram obtidas evidências de que componentes de armas biológicas estavam realmente sendo produzidos perto de nossas fronteiras.

DL – A diretora de Inteligência Nacional, Tulsi Gabbard, vem falando sobre biolaboratórios na Ucrânia desde o início da invasão russa.

TG – Existem mais de 25 biolaboratórios financiados pelos EUA operando na Ucrânia. Se o trabalho deles for destruído, isso pode levar ao vazamento e à disseminação de patógenos mortais pelo território americano e pelo mundo. Portanto, eles devem ser protegidos pra evitar o surgimento de novas pandemias.

DL – Após uma enxurrada de críticas, ela esclareceu que não estava falando de armas biológicas. No entanto, isso não a impediu de divulgar comentários de políticos americanos de direita, contrastando as garantias anteriores do governo Biden com as declarações atuais de autoridades de inteligência.

Jen Psaki, secretária de imprensa de Biden – A Rússia tem um histórico de espalhar mentiras descaradas desse tipo, incluindo alegações de que os EUA ou a Ucrânia estariam supostamente desenvolvendo programas de criação de armas químicas e biológicas.

TG – Pessoas influentes vêm afirmando há anos que esses laboratórios não existem.

DL – A presença desses laboratórios na Ucrânia é um problema? Sim, mas, segundo especialistas, não do tipo que os talk shows russos estão discutindo.

MF – Quando há uma guerra, todos correm risco. É um perigo muito sério. Não se trata apenas de exposição bacteriológica. Pode ser sobre eletricidade, sei lá, ou um depósito de lixo nuclear. Existe risco? Sim. De que tipo? As pessoas que trabalham aí são as que correm maior risco. Se os laboratórios forem bombardeados, elas podem adoecer. Se adoecerem, podem infectar outras pessoas.

AF – Parece que isso é um presente pra Rússia, um presente pro Kremlin, um presente pra Putin, um presente pra propaganda russa, que, naturalmente, começou a afirmar que todas as preocupações da Rússia com relação aos biolaboratórios na Ucrânia são justificadas.

DL – Tulsi Gabbard está deixando o cargo de diretora de Inteligência Nacional, sem nunca ter se tornado uma voz efetiva da comunidade de inteligência sob Trump. Após seu desentendimento com o atual governo sobre o Irã e uma série de outras questões de política externa, ela foi gradualmente afastada de reuniões importantes e de qualquer influência real nas decisões. E agora, tendo renunciado, volta à esfera pública no cômodo papel de denunciante. E os produtos que surgiram com o slogan “Vance-Gabbard 2028” sugerem que a história dos laboratórios pode se tornar apenas o primeiro episódio de sua futura carreira política.

AF – A questão principal é financeira. E é isso que Tulsi Gabbard enfatiza. E é a isso que ela apela. Ela está falando sobre como o dinheiro dos contribuintes americanos foi gasto nuns laboratórios em algum lugar, sabe-se lá pra quê.

Megyn Kelly, jornalista – Tulsi Gabbard poderia se candidatar à presidência em 2028?

TG – Eu nunca descarto nenhuma oportunidade de servir a meu país.



Екатерина Котрикадзе – Секретные биолаборатории США в Украине, одна из главных теорий заговора, которыми российская пропаганда пытается объяснить войну. К этой истории подключилась и глава американской Нацразведки. Накануне в своей отставке Тулси Габбард заявила о глобальной сети биолабораторий, финансируемых Вашингтоном и обвинила собственное государство в сокрытии правды о том, что на самом деле написано в её документах. Что за лаборатории такие работали в Украине и почему публикацию Габбард уже называют политическим подарком Кремлю? В материале Дарьи Левчук.

Тулси Габбард – Они не просто лгали, они угрожали тем, кто пытался рассказать правду.

Дарья Левчук – Сотни российских заголовков вышли с одинаковой формулировкой: США признали, что содержали более 40 биолабораторий в Украине, о которых годами врали миру. В конце мая директор Национальной разведки США Тулси Габбард объявила о своей отставке. На прощание 12 июня она сообщила о глобальной сети биолабораторий, финансируемых Вашингтоном.

Ведущий Первого канала – Американская разведка обнародовала новые материалы о расследовании деятельности биолабораторий, которые финансировались из бюджета США. Более 40 из них на Украине.

ТГ – Сегодняшняя публикация впервые раскрывает информацию о существовании, местонахождении и финансировании этих биолабораторий, финансируемых США. Все эти сведения долгое время намеренно скрывались влиятельными людьми, которые утверждали, что таких лабораторий вообще не существует.

ДЛ – Официальный релиз офиса Габбард – это всего четыре страницы документа с частично отредактированным текстом. В нём описываются лаборатории при областных диагностических центрах Украины, то есть обычные места, где хранят и изучают патогены. Примечательно другое: на карте биолабораторий неправильно показано расположение Киева и обозначены несуществующие города: Чернов и Закарпатье. А также указано, что украинские лаборатории якобы есть и в оккупированном России и Крыму.

Игорь Слабых, эксперт по США – Габбард работает на своём посту больше года. И в итоге всё, что она смогла найти – это четыре документа. В шапке его говорится о том, что ветеринарная лаборатория в Харькове стала объектом дезинформации со стороны России. Ну, как бы это как раз вот о том, о чём все и говорят. Да, действительно, там есть информация о том, что спонсировалось. Да, никто это не отрицает. Да, есть информация, сколько денег выделялось. Но нет информации там о том, какое конкретно биологическое оружие разрабатывалось, информации этой нету. Хорошо. А какие конкретные эксперименты проводились? Информации этой нету. Ну, то есть это это чистой воды пропаганда.

ДЛ – В публикации офиса директора Нацразведки США заявляется, что ранее информация об американском финансировании лабораторий “умышленно замалчивалась влиятельными лицами, в частности, иммунологом Энтони Фаучи и представителями администрации экс-президента США Джо Байдена. Речь идёт примерно о 120 объектах в 30 странах мира, из них более 40 в Украине”. Но изложенное в релизе уже давно известно. США действительно помогали Украине модернизировать диагностические и референс-лаборатории в рамках программы Biological Thread Reduction, связанной с конвенцией о запрете биологического оружия, что подтверждал Минздрав Украины.

Минздрав Украины – Суть сделки – противодействие угрозе вспышек опасных инфекционных заболеваний. Это соглашение есть в публичном доступе, и в нём вообще речь не идёт о военно-биологических программах или привлечении любых мощностей Минобороны Украины.

Александра Филиппенко, американист – Программа, которая была запущена в 1991 году, а существовала совершенно в открытую. Никакой военной тайны и вообще никакой тайны в этом не было. Более того, на официальных сайтах американских посольств подробно описана вот эта программа совместное противодействие угрозам, Программа Нанна-Лугара. Ну, вообще это программа, которая была создана для того, чтобы обезвредить разные лаборатории, которые создавались на территории стран, тогда ещё советских, а потом уже вот постсоветских стран, в связи с тем, что после развала Советского Союза ни у кого не было денег на их консервацию.

Уильям Мозер, дипломат – У Соединённых Штатов есть гуманитарные интересы, которые выходят за рамки вопросов силы и влияния. И я считаю, что для США важно продолжать такую работу.

ДЛ – Тем не менее, эти четыре слайда становятся для российской пропаганды доказательством того, о чём они твердили с 2022 года. Украина – полигон для разработки американского биологического оружия.

Мария Захарова – Теперь будут американцы ещё проверять всё то, что раньше, как я уже сказала, мировое сообщество вот это самое якобы цивилизованное отрицало.

Кирилл Дмитриев – Российская правда о биолабораториях Обамы и Байдена в Украине, которые подвергали мир опасности и существование которых ранее отрицали глубинное государство и традиционные СМИ, получило подтверждение в День России.

Михаил Фаворов, эпидемиолог – Финансирование закончилось после строительства и после обучения. Там это полгода они поддерживали титра и потом это финансирование прямого для сохранения лабораторий больше не было никогда. Они переходят на финансирование стран, где они были созданы. И это входит в договор.

ДЛ – Российская пропаганда превратила тему украинских биолабораторий в полноценную теорию заговора. Ещё до полномасштабного вторжения спецслужбы и подконтрольные медиа выстраивали сюжет о секретных лабораториях США. А по данным расследования Инсайдер, к разработке этой концепции было причастно подразделение ГРУ, которое системно встраивало её в информационные компании, от боевых комаров до оружия, поражающего уникальный ген русского человека.

Ведущая РЕН ТВ – Новые жуткие данные о биолабораториях на Украине сегодня сообщили в Министерстве обороны. Выяснилось, что под контролем США шла реализация сразу нескольких секретных программ. К примеру, изучали передачу заболевания от летучих мышей к человеку. Также следовалась возможность распространения инфекции с помощью птиц.

Ведущий ТВЦ – В Пентагоне сознали, что делали из комаров биооружие. Насекомые становились переносчиками жёлтой лихорадки и вирусов зика и чикунгунья.

Дмитрий Медведев – Наибольшая угроза сейчас исходит из биолабораторий на территории Украины. В ходе СВО были получены доказательства, что рядом с нашими границами фактически производились компоненты биологического оружия.

ДЛ – Глава Нацразведки Тулси Габбард говорит о биолабораториях в Украине ещё с начала российского вторжения.

ТГ – В Украине действует более 25 биолабораторий, финансируемых США. Если их работа будет нарушена, это может привести к утечке и распространению смертельно опасных патогенов по территории США и всего мира. Поэтому их необходимо обезопасить, чтобы предотвратить возникновение новых пандемий.

ДЛ – После шквала критики она уточнила, что речь идёт не о биологическом оружии. Однако это не мешало ей распространять комментарии правых американских политиков, которые противопоставляют прежние заверения администрации Байдена нынешним выступлением представителей разведки.

Джен Псаки, пресс-секретарь Байдена – У России есть история распространения откровенной лжи подобного рода, включая утверждения о том, что США или Украина якобы ведут программы по созданию химического и биологического оружия.

ТГ – Влиятельные люди годами утверждали, что этих лабораторий не существует.

ДЛ – Есть ли вообще проблема в наличии таких лабораторий в Украине? Да, но, по мнению экспертов, не та, о которой говорят российские ток-шоу.

МФ – Когда идёт война, риск есть у всех. Это очень серьёзная опасность. Это не только относится к бактериологическому воздействию. Это может относиться к электричеству, я не знаю, к хранилищу ядерных отходов. Риск есть? Да. Какой? Люди, которые там работают, вот кто под большим риском. Если по лабораториям бомбят, они могут заболеть. Если они заболеют, они могут заразить других.

АФ – Кажется, что это подарок России, подарок Кремлю, подарок Путину, подарок российской пропаганде, которая, конечно же, естественно стала говорить о том, что оправданы совершенно все опасения России относительно биолабораторий в Украине.

ДЛ – Тулси Габбард уходит с поста директора Национальной разведки, так и не став полноценным голосом разведсообщества при Трампе. После её несогласия с действующей администрацией по Ирану и ряда других внешнеполитических тем, её постепенно отстранили от ключевых совещаний и реального влияния на решение. Теперь же, уйдя в отставку, она возвращается в публичное поле в удобной для себя роли разоблачительницы. А появившийся мерч с надписью “Vance-Gabbard 2028” намекает, что история с лабораториями может стать лишь первой серией в её дальнейшей политической карьере.

АФ – Главный вопрос финансовый. И на это делает упор Тулси Габбард. И к этому она апеллирует. Она говорит о том, что вот деньги американских налогоплательщиков тратились на какие-то лаборатории где-то, непонятно зачем.

Мегин Келли, журналистка – Может ли Тулси Габбард баллотироваться в президенты в 2028 году?

ТГ – Я никогда не исключаю ни одной возможности послужить своей стране.