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26 de julho de 2021

Morte de Bucetáui, imigrante na Itália


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É isso mesmo que você leu, certamente não vai encontrar algo mais bizarro hoje. Um imigrante marroquino que circulava pelas ruas de Voghera, cidade na região da Lombardia (norte da Itália), tinha o sobrenome Bucetáui e no último 21 de julho foi assassinado por um ex-policial ligado ao partido Lega, de Matteo Salvini: assista à íntegra do jornal TG la 7. Yunes el-Busetawi, grafado na mídia italiana como Youns El Boussettaoui, tinha 39 anos, vivia em situação de rua e aparentemente sofria de transtornos mentais.

Na frente de um restaurante da praça Meardi, começou a incomodar alguns clientes ao ar livre com atitudes desconexas, e o ex-policial e assessor municipal de segurança indicado pela Lega, Massimo Adriatici, aproximou-se dele com uma pistola na mão. Tendo sido empurrado por el-Busetawi, acabou disparando a arma, alegadamente por acidente, ainda que se estejam investigando as circunstâncias. O partido de direita alega que Adriatici exerceu um direito à legítima defesa, mas analistas criticam que o marroquino não tinha nenhum objeto à mão pra defesa pessoal. As tensões aumentam ainda mais em se tratando de imigrantes e de partidos anti-imigração.

Eu mesmo traduzi de ouvido, direto do italiano, mas com um pouco de dificuldade por causa do forte sotaque local, então não sei se está tudo certo. A reportagem não está completa, apenas cortei os trechos em que o nome da vítima é destacado. Leiam também matérias daquele dia (em italiano) sobre o ocorrido: primeira, el-Busetawi morto no tórax por assessor da Lega; segunda, Adriatici tinha deixado a pistola carregada e destravada; e terceira, informações mais detalhadas sobre o caso. Eu sei que parece sacanagem zoar em cima da morte de um imigrante, mas este nome alusivo pros falantes de português não podia passar batido...


24 de julho de 2021

Chinesa e mongol falando em russo


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As últimas edições do meu programa favorito de política mundial, “Международное обозрение” (Mezhdunaródnoie obozrénie; pode ser traduzido como “Panorama Internacional”), têm dado interessantes reportagens sobre como os russos têm se relacionado com os vizinhos do Extremo Oriente, sobretudo com países comunistas ou ex-comunistas. O programa é exibido pelo canal jornalístico Rossia 24, controlado pelo governo, e atualmente apresentado por Fiodor Lukianov, especialista em relações internacionais. Eu sei que contém praticamente a visão política de Putin, mas abstraindo isso, gosto do programa como um contraponto à visão ocidental predominante e uma fonte de informações muito variadas.

Na edição de 9 de julho passou uma reportagem sobre como os chineses estão curtindo cada vez mais a cultura russa, na sequência da reaproximação entre os dois países, e na edição de 16 de julho tratou-se dos 100 anos de relações internacionais da República da Mongólia, um dos primeiros Estados socialistas do mundo, com outros países, incluindo a Rússia soviética.

A moça chinesa entrevistada, identificada como Zhang Ling, frequenta um dos cursos ministrados por uma russa na China e fala algumas palavras no idioma. Há alguns pontos que não correspondem à língua padrão, como o uso de on (ele) pra se referir à avó, o uso de baba quando deveria ser babka ou bábushka (já fiz muito esse erro!) e o uso de em minha memória talvez pra se referir a alguma recordação do passado.

Zhang Ling menciona o conto Kolobók, que na verdade é conhecido entre todos os eslavos orientais e tem equivalentes aproximados em países vizinhos, eslavos ou não. Trata-se de algo parecido com um crepe redondo ou com uma carolina (o doce), dependendo da versão, que toma vida e participa da história (não existe tradução exata da palavra).

Na semana seguinte, o canal exibiu toda uma reportagem sobre a permanência da figura de Gengis Khan como um mito de fundação nacional e a constituição da Mongólia moderna como um Estado separado da China e desde o início auxiliado pelos bolcheviques. Houve uma breve participação de Jügderdemidiin Gürragchaa, nascido em 1947 e primeiro astronauta do país, treinado na antiga URSS e falante do russo, embora um pouco destreinado, como vemos. Ele também foi ministro da Defesa da Mongólia de 2000 a 2004, e lamenta a negligência dada atualmente à língua russa, tão importante outrora na diplomacia nacional.

Na verdade, mesmo mantendo uma independência formal, a Mongólia socialista era na prática tutelada pela URSS, tanto que adotou uma adaptação do alfabeto cirílico pra sua língua peculiar, diferente das de todos os vizinhos. Porém, nunca houve revolta contra o governo comunista, que acabou pacificamente em 1990, e o país permaneceu relativamente pacífico, protegido também pela China comunista e contra os invasores japoneses e do Guomindang.

Eu mesmo transcrevi, traduzi e legendei os trechos concernidos, embora no caso do mongol eu não saiba se está totalmente correto, porque ele praticamente fala pra dentro. Assista aos vídeos e leia as transcrições e as traduções:


Когда я была маленькой, баба часто мне читала русские сказки... [Какие?] «Колобок»! И она часто играла на фортепиано музыку Чайковского. В моей памяти баба всегда говорила, что Россия – это очень красивая и великая страна.

(Quando eu era pequena, vovó sempre lia contos russos pra mim... [Quais?] Kolobok! E sempre tocava no piano músicas de Chaikovski. Me lembro que vovó sempre dizia que a Rússia é um país muito bonito e grandioso.)


Русский язык знали практически все, предавал огромное значение со стороны государства, а теперь этой поддержки нет. Ну, приходится уже это, вот. Молодые люди сами вообще решают, какой язык будет для них главным языком. В этом году мы отмечаем столетие дипломатического установления... дипломатических отношений. Ну, каждое отношение с иностранной организацией, иностранным государством... на языке основа, да? И если ты язык того государства не знаешь, отношение будет не такой, какой... Но вообще я всегда говорю, думаю, что самое хорошее отношение – это отношение между простыми людьми.

(Praticamente todos sabiam a língua russa, ela recebia uma enorme consideração da parte do Estado, mas agora não existe mais esse apoio. É isso que está ocorrendo. Em geral são os próprios jovens que decidem qual será a principal língua para eles. Neste ano celebramos o centenário da constituição diplomática, das relações diplomáticas... Bem, cada relação com uma organização estrangeira, com um Estado estrangeiro... tem a língua por fundamento, não? E se você não sabe a língua desse Estado, bem, a relação não será tão como... Mas em geral eu sempre falo, penso que a mais importante das relações é a relação entre as pessoas comuns.)

18 de julho de 2021

Os 10 países mais violentos do mundo


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O artigo “Conflits : les 10 pays les moins pacifiés au monde” (Conflitos: os 10 países menos pacificados do mundo) foi escrito por Sabine Cessou e publicado hoje, 18 de julho, no site da RFI em francês. Notável é a informação de que os brasileiros são o povo que mais teme a violência, mesmo sem a ter vivido. Tradução de Erick Fishuk.


A edição de 2021 do Índice Global da Paz, um indicador do Institute for Economics and Peace (IEP), think tank sediado em Sydney, revela que cinco países da África estão entre as 10 nações menos pacificadas do mundo.

A África do Sul está em chamas, desde a prisão do ex-presidente Jacob Zuma. Ela corre o risco de somar-se, no ano que vem, à lista dos países menos pacificados do Global Peace Index (Índice Global da Paz) elaborada pelo IEP, um think tank sediado em Sydney. Islândia, Nova Zelândia, Dinamarca, Portugal, Eslovênia, Áustria, Suíça, Irlanda, República Checa e Canadá são os 10 países mais pacificados do mundo.

No outro extremo, a África conta com cinco dos 10 Estados mais conflituosos e inseguros do planeta. Na ordem dos piores figuram Afeganistão, Iêmen, Síria, Sudão do Sul (na 160.ª posição), Iraque, Somália, República Democrática do Congo, Líbia, República Centro-Africana e Rússia.

Limitando o foco à África, somam-se à lista dos 10 países menos pacificados Mali (148.ª posição), Nigéria (146.ª), Camarões (145.ª), Etiópia (139.ª) e Níger (137.ª).

O Índice Global da Paz (PDF em inglês), publicado em 23 de junho pelo IEP, um think tank australiano com escritórios em Bruxelas, Harare, Cidade do México, Haia e Nova York, passa 166 sob o crivo de seus 23 indicadores de medida dos conflitos, da segurança e da “militarização” das sociedades. Globalmente, o recuo foi baixo em 2020 (-0,07%), mas ele prossegue pelo nono ano consecutivo. Enquanto 73 países viram sua situação agravar-se, 87 obtiveram ganhos em paz.

O recuo mais forte do mundo no Burquina Fasso – As manifestações violentas aumentaram fortemente, ligadas à pandemia da covid-19, assim como a instabilidade política, em alta em 45 países. “O Índice registrou 5 mil incidentes violentos no mundo entre janeiro de 2020 e abril de 2021 ligados à crise da covid, enquanto o impacto de longo prazo da pandemia sobre os crimes violentos e os suicídios ainda não está claro”, explica Serge Stroobants, diretor do IEP em Bruxelas.

A Ucrânia e o Iraque foram os que mais progrediram, enquanto o Burquina Fasso conheceu o recuo mais grave do mundo em 2020. Segundo o relatório, “a decisão do governo de financiar e armar grupos auxiliares civis (link em francês) no combate contra os insurgentes aumentou o acesso ao armamento leve e a intensidade do conflito. O Burquina Fasso encontra-se em estado de guerra civil de baixa intensidade, com 1 milhão de pessoas desalojadas no fim de 2020”.

Todos os sinais também piscam em vermelho na Zâmbia por causa de disputas de fronteira com a República Democrática do Congo (RDC) e da alta dos gastos militares. Mesma coisa na Etiópia, devido ao conflito no Tigray com intervenção da Eritreia, mas também aos 291 mortos nas manifestações que se seguiram ao assassinato do cantor Oromo Hachalu Hundessa (link em francês), sem esquecer as tensões com os países vizinhos em torno da barragem da Renascença no rio Nilo.

A violência tem um preço: quase 12% do PIB mundial – O impacto anual da violência é estimado pelo Índice na soma colossal de 15 trilhões de dólares, ou seja, 11,6% do PIB mundial. Os gastos militares representam 43% dessa soma total, a segurança internacional 31% e a segurança privada quase 8%, o restante sendo repartido entre os conflitos (3%), os crimes violentos (3,1%) e os homicídios (7%).

Mais interessante ainda é que a sondagem altamente abrangente em que se apoia o Índice, o World Risk Poll (site em inglês), conduzida pela Lloyd’s Register Foundation junto a 150 mil pessoas maiores de 15 anos em 142 países. Globalmente, os crimes violentos e o terrorismo são temidos por 15% das pessoas entrevistadas, e percebidos como o segundo risco após os acidentes de carro.

A África encabeça a experiência vivida da violência – Os cinco países com a experiência da violência mais fortemente vivida (pelas pessoas entrevistadas ou por conhecidos) nos dois últimos anos encontram-se na África: 63% na Namíbia, 58% na África do Sul, 56% no Lesoto, 55% na Libéria e 54% na Zâmbia. No mundo, a experiência mais fraca da violência situa-se, por outro lado, no Turcomenistão, no Usbequistão, no Japão, em Singapura e na Polônia.

Já o medo da violência é mais forte no Brasil (83%, duas vezes maior do que a experiência vivida da violência), na África do Sul (79%), nas Ilhas Maurício (76%), no Maláui (75%) e no Lesoto (74%). A violência é percebida como um risco principal no dia a dia por mais da metade das pessoas entrevistadas no Afeganistão, no Brasil, na África do Sul, no México e na República Dominicana.

As Ilhas Maurício constituem um caso particular, na medida em que elas aparecem no primeiro lugar dos países mais seguros da África, seguidas por Gana, Botsuana, Serra Leoa, Gâmbia e Senegal (54.ª posição mundial, logo à frente da França), segundo o Índice. O medo aumentou porque as ilhas viram sua taxa de homicídio dobrar (passando de 1,8 a 2,9 a cada 100 mil pessoas) e manifestações violentas ocorrerem devido à controversa gestão de um derramamento de petróleo em 2020 (link em francês).

Notem-se ainda outras exceções: a Mauritânia, único país da África Subsaariana onde menos de 20% das pessoas entrevistadas tiveram a experiência da violência nos dois anos anteriores, e Madagascar, único país onde menos de 20% das pessoas se dizem muito preocupadas com os crimes violentos.


30 de junho de 2021

Político búlgaro se desvia de tiro (2013)


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No dia 19 de janeiro de 2013, durante a 8.ª conferência nacional do partido búlgaro Movimento por Direitos e Liberdades (sigla DPS em búlgaro), o jovem Oktay Enimehmedov tentou atirar no presidente do organismo, Ahmed Dogan, que estava deixando a liderança 23 anos após tê-lo fundado. O DPS é de orientação liberal, mas conhecido por se dizer defensor da minoria étnica turca da Bulgária e, portanto, atacado tanto pela esquerda quanto pela extrema-direita.

Como podemos ver, o aspirante a assassino falhou em seu intento, dado o engripamento da pistola bem na hora do tiro, o que possibilitou a Dogan defender-se numa luta corporal e a Oktay, ser imobilizado e moído na porrada pelos seguranças. O mais bizarro é que se tratava, segundo notícias da época, de uma pistola de pressão, ou seja, o líder poderia até sofrer de danos vitalícios, mas pouco provavelmente morreria. De fato, o jovem alegou que sua intenção era apenas “dar um susto” em Dogan e provocar-lhe algum dano sério, lamentando apenas que “a arma tivesse falhado”.

Nunca ficou clara a motivação exata do atentado fracassado, mas muitos dizem que o DPS, inserido como estava no sistema, também seria responsável pela insatisfação dos búlgaros com a corrupção e os políticos, portanto teria deixado seus próprios “protegidos” turcos na mão. Oktay mesmo era búlgaro de etnia turca, o que pode fazer estranhar um ataque que poderia ter sido motivado por xenofobia. Mas essa era a verdade, e mesmo o povo que o DPS dizia representar não o via como um partido fiável.

Na minha montagem que segue abaixo, tivemos também a gentil colaboração do Rap do Maçaranduba, do antigo programa de humor Casseta & Planeta, pra quem se lembra dele na virada do século, hehehe. Leia também uma curta matéria da Veja a respeito do incidente. P.S. Atenção, crianças, não façam isso em casa!


26 de junho de 2021

“Lula grátis”, ou bizarrices de tradução


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Lula grátis...


Esta postagem foi colocada em 18 de abril numa página do Facebook que já apaguei, e depois a repostei em meu perfil pessoal. Escrevi mais de um mês depois dos fatos, quando observei, muito por acaso, pelo menos quatro aberrações linguísticas deste bannerLula Livre”, de quando o ex-presidente fez um longo discurso após ter recuperado seus direitos políticos em 2021. Compartilhem ao máximo, mesmo em outras redes, pois o negócio é sério e o responsável parece ter meramente posto “free” no Google Tradutor e decalcado os resultados:

0) Não vou comentar a mistura entre palavras que significam “livre” e “liberdade”, porque isso pode ter sido feito de forma proposital.

1) Vamos com o russo primeiro, já que a maioria me segue por causa dele. Bem do lado esquerdo está em cirílico “бесплатно” (besplatno), que significa... “de graça”! Pra piorar, esta forma é curta e neutra, ou seja, usada quase sempre como advérbio (gratuitamente etc.). Em russo deveríamos dizer “свободный” (svobodny), que é a palavra certa, na forma longa masculina. Ou seja, “свободный Лула”, hehehe.

2) Ainda em russo, está muito pequeno pra ler (é difícil achar fotos do púlpito em boa resolução), mas logo abaixo do grande “free” há a palavra “вольность” (volnost). Porém, esse substantivo remete ao adjetivo “вольный” (volny), que por sua vez vem do substantivo “воля” (volya), mais traduzível como “vontade”, “desejo” ou “liberdade de escolha”, implicando opção deliberada, e não ausência de limitações. Daí, referida ao já citado adjetivo “свободный”, temos a palavra correta “свобода” (svoboda).

3) A maior barbárie está no árabe e no persa, que usam um alfabeto da mesma matriz. Logo acima do russo lemos um ی د ا ز ا que equivale ao persa “âzâdi” (liberdade). A pessoa conseguiu uma façanha incompreensível: botou a ordem dos caracteres da esquerda pra direita (a ordem inversa dessa escrita) e não realizou a ligação entre as letras! Ainda que no caso de âzâdi, ela lucra com o fato das letras em questão realmente não fazerem ligação com a posterior, por regra: آزادی (e o primeiro alef deveria ter o sinal especial que parece um til).

4) Em árabe a coisa não é tão simples. Podemos ver a palavra “liberdade” logo à esquerda da expressão “Lula Livre” escrita da seguinte forma: ة ي ر ح (claro que estão bem juntinhas, mas não adquirem a forma de ligação). Lê-se mais ou menos “hurriyya”, mas torna-se algo ininteligível a um árabe comum, pois além da separação, há a inversão da ordem correta. A palavra, ainda mais diferente, deveria ser esta: حرية

5) À direita da cabeça desenhada, lemos “freiheit”. É o substantivo alemão “liberdade”, e como todo substantivo em alemão leva inicial maiúscula (a não ser por razões de estilo, o que não parece ser o caso), deveria ser “Freiheit”. Se fosse “frei” (literalmente “livre”), aí tudo bem, embora pra ser “Lula Livre” devêssemos usar a terminação do qualificativo (e não meramente predicativo), “Freier Lula”.

6) Curiosamente, várias línguas estão repetidas com as palavras “livre” e “liberdade”, mas em meio à salada exótica que inclui iorubá (que deveria ter acentos: “òmìnira”), xhosa/zulu, latim (!) e tailandês, estão ausentes línguas mais conhecidas e com maior potencial de impacto. Exemplos: japonês, hindi, as nórdicas, finlandês, romeno, esperanto (por que não?) e qualquer eslava exceto o russo (sobretudo servo-croata e checo, porque do apoio ucraniano e polonês duvido muito).

Conclusão: apesar das ótimas intenções de quem confeccionou o artefato, traduzir em outras línguas muitas vezes implica não apenas tacar palavras em tradutores automáticos, mas também conhecer as regras que regem o emprego dessas línguas, sobretudo as flexões. Você conseguiu ver mais alguma coisa estranha aí? Escreva-me sobre suas descobertas!

24 de junho de 2021

Como fazer plural de palavras em “-ão”


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Essa dica também vale pra estrangeiros, mas é muito útil a quem tem o português como língua materna e sente dificuldades com a norma culta. A formação do plural dos substantivos terminados em “-ão”, fenômeno fonético e ortográfico único no mundo, pode ser feita em “-ões” (mais comum), “-ãos” ou “-ães”. A escolha parece ilógica, mas na verdade podemos usar alguns macetes, além de certas regras que têm a ver com a etimologia (linguística histórica). Diga-se primeiro que quase nunca o gênero (masculino ou feminino) tem a ver com a opção.

1. Fazem o plural em “-ões” os substantivos abstratos, sobretudo de características e ações, terminados em “-a(n)ção”, “-e(n)ção”, “-i(n)ção”, “-o(n)ção” e “-u(n)ção”, geralmente derivados de uma terminação latina -atio(nis), -itio(nis), -utio(nis) etc.: canção → canções, direção → direções, tradição → tradições, monção → monções, junção → junções.

2. Também fazem o plural em “-ões” os substantivos terminados em “-ão” que indicam aumentativo: casarão → casarões, narigão → narigões, mulherão → mulherões.

3. Os substantivos femininos que não terminam em “-ão”, mas em “-ãe” e “-ã”, apenas adicionam “-s”: mãe → mães, irmã → irmãs, maçã → maçãs, romã → romãs.

4. Além dos citados acima, fazem o plural em “-ões” os substantivos que em latim fazem o genitivo singular em -onis e/ou que em espanhol terminam em -ón no singular: corazón → coração(ões), rationisrazón → razão(ões), leonisleón → leão(ões).

5. Fazem o plural em “-ães” os substantivos que em latim têm o nominativo e o genitivo singulares em -nis e fazem o nominativo plural em -nes, e/ou que em espanhol terminam em -an/-án no singular: panispan → pão(ães), caniscan → cão(ães), alemán → alemão(ães) (a palavra vem do latim tardio Alamannus, e esta mesma vem do alemão antigo Alaman), capitán → capitão(ães) (embora a origem seja o latim tardio capitanus, a forma clássica era capitaneus).

Via de regra, os substantivos latinos terminados em -tio e -nis pertencem à 3.ª declinação.

6. Fazem o plural em “-ãos” os substantivos que em latim têm o nominativo singular em -nus ou -num e/ou que em espanhol terminam em -ano no singular: christianuscristiano → cristão(s), ciudadano → cidadão(s), manusmano → mão(s), granumgrano → grão(s), germanus (“irmão” em latim vulgar, sem relação com “germânico”) → hermano → irmão(s).

Os substantivos latinos terminados em -nus ou -num pertencem à 2.ª e à 4.ª declinações, a 4.ª posteriormente sendo absorvida pela 2.ª devido à sua baixa abrangência.

7. “Anão(ões)” e “bênção(s)” são duas exceções apenas aparentes. De fato, nanusenano → anão(s), forma em português considerada culta, enquanto “anões” é mais comum na língua oral pela assimilação com a maioria dos plurais em “-ãos”. Em “bênção”, pela etimologia benedictio(nis), esperaríamos a forma “bênções” (hoje inexistente), mas houve assimilação com as outras paroxítonas que sempre fazem o plural em “-ãos” (orphanushuérfano → órfão, organumórgano → órgão).

Casos parecidos ao de “anão”: veranumverano → verão, villanusvillano → vilão. Coexistem as formas “verãos/vilãos” (bem menos usadas) e “verões/vilões”, mas suas origens estão no latim tardio ou medieval, e não clássico, por isso foram assimiladas à regra já generalizada. Veja também o artigo “Plural de anão”, por Flávia Neves, que inclui outros macetes.

2 de março de 2021

Idiomas de Lenin e nomes da MGU


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Eu estava com estes textos guardados há alguns meses, mas sem tempo pra traduzir e postar. Agora que a oportunidade chegou, apresento uma espécie de miscelânea criada pra mera satsifação de curiosidades, embora uma coisa não tenha nada a ver com a outra.

A ideia de postar os nomes da Universidade de Moscou veio após eu descobrir, durante a leitura da biografia do historiador Mikhaíl Pokróvski, que ele deu seu nome à instituição por um tempo. Foi uma homenagem após a morte desse marxista e bolchevique russo, considerado o pai dos estudos históricos na antiga URSS e das primeiras análises marxistas da história da Rússia. Após 1940, foram acrescentados oficialmente alguns epítetos e as “condecorações” que a MGU recebeu, porém sem mudar o núcleo original, por isso eu os omiti na lista. O conteúdo está na Wikipédia russa.

Há algum tempo também me pairava a dúvida sobre que línguas falava Vladímir Ilích Uliánov, o Vladímir Lênin da Revolução de Outubro. Eu sabia de seu conhecimento de várias línguas, mas não de quais e quantos. Há muitos textos falando a respeito, mas os melhores que encontrei, mesmo que citem poucas fontes, foram o de um pequeno blog chamado Zeitgeist e o de um site educativo, ambos não muito antigos. As traduções com adaptações são minhas, e concluímos resumidamente que Lenin era fluente em russo, alemão, francês e inglês, lia ou entendia latim, grego antigo e moderno, eslavo eclesiástico, checo, polonês e italiano e podia comunicar-se com o básico de grego moderno, checo, polonês e (talvez) italiano

Nesta página há outro texto em russo que fala dos conhecimentos linguísticos de Lenin, mas não o utilizei porque não acrescentava novidades. Porém, recomendo aos interessados, pois fala também, entre outros, de Lomonósov (filólogo que era praticamente um Google!), a imperatriz Catarina, Stalin, Khruschov e Vladimir Zhirinovski!

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Desde sua fundação, a Universidade de Moscou já mudou várias vezes de nome oficial:

  • 23 de janeiro de 1755 a 8 de março de 1917 (datas no calendário gregoriano): Universidade Imperial de Moscou.
  • Março a novembro de 1917: Universidade de Moscou.
  • A partir do fim de 1917: Universidade Estatal de Moscou (MGU).
  • A partir de 1918: Primeira Universidade de Moscou.
  • A partir de setembro de 1930: Universidade Estatal de Moscou.
  • A partir de 20 de outubro de 1932: Universidade Estatal de Moscou “M. N. Pokróvski”.
  • A partir de 11 de novembro de 1937: Universidade Estatal de Moscou.
  • Desde 7 de maio de 1940: Universidade Estatal de Moscou “M. V. Lomonósov”.

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Quantas línguas estrangeiras Lenin sabia? (Zeitgeist)

Na Rússia pré-revolucionária, qualquer um que saísse do curso ginasial com notas máximas dominava perfeitamente algumas línguas vivas e mortas. Naqueles tempos, a qualidade do Ensino Médio era muitíssimo maior do que a que temos hoje, e as pessoas saíam do curso ginasial realmente instruídas. Já o nível do Ensino Superior russo correspondia totalmente aos melhores padrões europeus, algo com que hoje podemos apenas sonhar.

Por isso, responder à pergunta sobre quantas línguas Vladimir Lenin sabia é bastante simples, sendo suficiente olhar para seu boletim:

(Na ordem em que aparecem: Ensino Religioso, Língua e Literatura Russas, Lógica, Língua Latina, Grego [Antigo], Matemática, História, Geografia, Física e Geografia Matemática, Língua Alemã e Língua Francesa. Ainda hoje a conceituação russa vai até 5 – “piatiórka” –, e não até 10, como a nossa.)

Partindo deste documento, podemos concluir que o jovem Ulianov dominava perfeitamente cinco línguas: eslavo eclesiástico (não indicado à parte, mas incluído nos cursos de Língua Russa e Ensino Religioso), latim, grego antigo, alemão e francês.

O ensino de línguas no ginásio tsarista estava posto num nível superior, do qual não chega nem perto a profanação constituída pelo ensino de línguas estrangeiras em nossa escola moderna. À guisa de exemplo, trazemos um pequeno fragmento de um manual ginasial, cujo nível de estudo linguístico na Rússia atual só é alcançado nas faculdades de Letras, e ainda assim nas melhores instituições de Moscou:

(O texto consiste num parágrafo explicando em russo, ortografia pré-1918, o significado e função dos artigos definidos – nossos “o, a, os, as” – em grego antigo. Como exemplo explicativo, são usados seus equivalentes em alemão e francês, além de frases em grego traduzidas em alemão, francês e, com observações intercaladas, russo.)

Por isso, as notas máximas de Lenin em línguas não são nossas falsas notas máximas depois das quais as pessoas passam anos gastando dinheiro em escolas de idiomas. São notas máximas de verdade, um domínio perfeito.

Contudo, Lenin não se deteve nessas línguas. Durante o exílio, melhorou sua conversação em alemão e francês, já que apesar de tudo um meio linguístico não é uma sala de aula, e também aprendeu inglês. Além disso, ele lia em italiano, polonês e checo, e entendia sueco. Nadézhda Krúpskaia, esposa de Lenin, aprendeu italiano, e observando a esposa, ele adquiriu nessa língua um conhecimento de leitura e de comunicação cotidiana mínima. Não foi algo extremamente difícil, levando-se em conta seus conhecimentos de francês e latim.

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Quais línguas Lenin sabia? (Kratkoe.com)

Vladimir Lenin sabia perfeitamente as línguas francesa e alemã. Ele as aprendeu enquanto estudava no ensino ginasial, no qual também se ensinavam grego antigo e latim. Lenin sabia grego antigo e moderno num nível cotidiano: entendia o que lhe falavam e podia explicar-se. Vale ressaltar que o líder falava alemão perfeitamente, pois viveu por muito tempo na Áustria-Hungria, na Suíça e na Alemanha levando uma vida política bastante ativa que incluía proferir informes, cursos e discursos políticos.

Lenin aprendeu inglês sozinho. Ele conversava fluentemente sem tradutor com o coronel Robins, adido militar americano, e com o cônsul britânico Lockhart.

Lenin procurava ler jornais italianos e aprendeu um punhado de frases prontas graças à ópera italiana. Aliás, sua própria esposa, Nadezhda Krupskaia, estudava italiano, e o marido aprendeu algumas coisas com ela.

Fontes também afirmam que Lenin podia com facilidade ler polonês e entender checo e sueco. Mas seu nível de compreensão de línguas estrangeiras e sua velocidade de leitura nunca foram testados. Podemos crer que quando esteve na Itália, o líder se comunicava com os italianos, mas não sabemos com que fluência e exatidão.

Em suma, tendo estudado suas anotações em publicações estrangeiras, os acadêmicos concluíram que Vladimir Lenin sabia 11 línguas.