Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

06 outubro 2021

Arquivos sobre a imigração ucraniana


Link curto pra esta postagem: fishuk.cc/cipko


Como parte de um grande evento virtual ocorrido de 29 de setembro a 1.º de outubro de 2021 e organizado pelo Núcleo de Estudos Eslavos da Unicentro (câmpus de Irati, PR), celebrando os 130 anos da imigração ucraniana e os 150 anos da imigração polonesa no Brasil, foi transmitida ao vivo a abertura pelas autoridades e, a seguir, a mesa-redonda Pesquisa, extensão e ensino: 130 anos de imigração ucraniana no Brasil. A apresentação final foi feita pelo historiador ucraniano Serge Cipko, com o título Fontes para o estudo da história dos ucranianos no Brasil: algumas observações.

Dei-me a liberdade de separar o trecho correspondente, cortar o quadro e repostar em meu canal, pois achei as informações de inestimável valia, até mesmo se eu quisesse guardar só pra mim. Serge Cipko lista vários arquivos físicos e virtuais com jornais, revistas, documentos e muitos outros materiais, grande parte deles em ucraniano, que podem revelar muito sobre a história da imigração ucraniana no Brasil e cuja existência é muito pouco conhecida. Ainda pouco ou nada explorados por pesquisadores brasileiros, podiam suprir grandes lacunas em nosso conhecimento sobre o assunto, sobretudo no tocante aos contatos dos imigrantes com os parentes que ficaram na Ucrânia. Disputas e expressões políticas também estão entre as surpresas!

Serhii Serhiovych Tsipko (Сергій Сергійович Ціпко), mais conhecido como Serge Cipko, nasceu em 1961 e é diretor adjunto de pesquisas no Canadian Institute of Ukrainian Studies da Universidade de Alberta em Edmonton. Especialista no tema da diáspora ucraniana, sobretudo no Brasil, Canadá e Argentina, escreveu vários artigos e livros como Ukrainians in Argentina, 1897-1950: The Making of a Community, Ukrainians in Russia: a Bibliographic and Statistical Guide e Starving Ukraine: the Holodomor and Canada’s Response.

E-mail do Prof. Serge Cipko


09 setembro 2021

Mohammed Assaf – “Dammi falastini”


Link curto pra esta postagem : fishuk.cc/falastini




Dia 14 de maio é a data em que os judeus comemoram a fundação do Estado de Israel, mas em que os árabes palestinos lembram o que consideram o início de seu desalojamento. E no dia 15, os palestinos também recordam a impulsão de seu exílio ao Líbano, Jordânia, Síria, Egito e outras nações, sem concordar com a decisão da ONU de 1948 que transformou o mandato britânico na Palestina na divisão em um Estado judeu e outro árabe.

Nos mesmos dias, mas em 2021, o conflito local teve a pior explosão desde 2014, com forte radicalização dos judeus de extrema-direita, instigados pelo primeiro-ministro Binyamin Netanyahu. Como sempre, a motivação teve a ver com o que os muçulmanos chamam de “provocações” judaicas na área da mesquita de Al-Aqsa, mas soma-se ainda a construção de novos assentamentos hebraicos na Cisjordânia. Aquela violência tinha sido uma ocasião propícia pra eu lançar uma tradução que já pretendia fazer há algum tempo: a canção em dabke, ritmo popular no Mediterrâneo oriental, Meu sangue é palestino (Dammi Falastini/دمي فلسطيني), gravada por Mohammed Assaf em 2015.

Este clipe, porém, é de 2016 e foi filmado no Colégio Católico das Irmãs do Rosário, localizado na parte árabe de Jerusalém, capital de Israel. Não existe uma correlação exata entre “árabes/palestinos muçulmanos” e “israelenses judeus”, pois muitos árabes são cristãos e muitos judeus étnicos são cristãos ou não religiosos, enquanto além dos árabes com cidadania israelense, há também muitos judeus críticos do sionismo e do Estado de Israel como um todo. Eu mesmo legendei o vídeo que pode ser encontrado sem legendas no canal do Studio Sami, que o produziu.

Como ainda estou aprendendo árabe, por isso não me sentindo apto a fazer traduções diretas, eu traduzi a partir de uma versão em inglês dada por “Sara Ba”, que se diz falante de inglês fluente. Apenas algumas palavras árabes submeti individualmente na Wikipédia ou no Wiktionary, como “Al-Quds” (القدس), que não foi traduzida, mas é o nome árabe de Jerusalém, literalmente “o sagrado”. Não confundir com Al-Aqsa, que é a principal mesquita da capital, quase pegada ao Muro das Lamentações judeu e um dos maiores pontos de discórdia. Descobri que acabei não sincronizando alguns trechos conforme o significado, mas decidi não mudar porque também ficou bom.


امتنع:
على عهدي على ديني
على أرضي تلاقيني
أنا لأهلي أنا أفديهم
أنا دمي فلسطيني فلسطيني فلسطيني
أنا دمي فلسطيني

وقفنالك يا ديرتنا
بعزتنا وعروبتنا
أرض القدس نادتنا
صوت أمي يناديني
فلسطيني فلسطيني
أنا دمي فلسطيني

(امتنع)

يا يمّة ابشري بالعز
دارك قلعة ما تنهز
عليها الروح ما تنعز
ولا دمّي وشراييني
فلسطيني فلسطيني
أنا دمي فلسطيني

(امتنع)

فلسطيني وابن احرار
جبيني بالسما ومغوار
على عهد الوفا يا دار
وعمره ما انحنى جبيني
فلسطيني فلسطيني
أنا دمي فلسطيني

(امتنع)

____________________

Refrão:
Mantendo meu juramento, seguindo minha religião
Você vai me encontrar na minha terra
Pertenço ao meu povo, sacrifico minha alma por ele
Meu sangue é palestino, palestino, palestino
Meu sangue é palestino

1. Temos protegido você, nossa terra natal
Com nosso orgulho e arabismo
A terra de Jerusalém nos chamou
Como a voz de minha mãe me chamando
Palestino, palestino
Meu sangue é palestino

(Refrão)

2. Oh, minha mãe, não se preocupe,
Sua terra natal é um castelo fortificado
Pelo qual eu sacrifico minha alma
E meu sangue, e minhas veias
Palestino, palestino
Meu sangue é palestino

(Refrão)

3. Sou palestino, filho de uma família livre
Sou corajoso e sempre tenho a cabeça erguida
Estou mantendo meu juramento por você, minha pátria
E eu nunca me curvei a ninguém
Palestino, palestino
Meu sangue é palestino

(Refrão)




26 julho 2021

Morte de Bucetáui, imigrante na Itália


Link curto pra esta postagem: fishuk.cc/bucetaui




É isso mesmo que você leu, certamente não vai encontrar algo mais bizarro hoje. Um imigrante marroquino que circulava pelas ruas de Voghera, cidade na região da Lombardia (norte da Itália), tinha o sobrenome Bucetáui e no último 21 de julho foi assassinado por um ex-policial ligado ao partido Lega, de Matteo Salvini: assista à íntegra do jornal TG la 7. Yunes el-Busetawi, grafado na mídia italiana como Youns El Boussettaoui, tinha 39 anos, vivia em situação de rua e aparentemente sofria de transtornos mentais.

Na frente de um restaurante da praça Meardi, começou a incomodar alguns clientes ao ar livre com atitudes desconexas, e o ex-policial e assessor municipal de segurança indicado pela Lega, Massimo Adriatici, aproximou-se dele com uma pistola na mão. Tendo sido empurrado por el-Busetawi, acabou disparando a arma, alegadamente por acidente, ainda que se estejam investigando as circunstâncias. O partido de direita alega que Adriatici exerceu um direito à legítima defesa, mas analistas criticam que o marroquino não tinha nenhum objeto à mão pra defesa pessoal. As tensões aumentam ainda mais em se tratando de imigrantes e de partidos anti-imigração.

Eu mesmo traduzi de ouvido, direto do italiano, mas com um pouco de dificuldade por causa do forte sotaque local, então não sei se está tudo certo. A reportagem não está completa, apenas cortei os trechos em que o nome da vítima é destacado. Leiam também matérias daquele dia (em italiano) sobre o ocorrido: primeira, el-Busetawi morto no tórax por assessor da Lega; segunda, Adriatici tinha deixado a pistola carregada e destravada; e terceira, informações mais detalhadas sobre o caso. Eu sei que parece sacanagem zoar em cima da morte de um imigrante, mas este nome alusivo pros falantes de português não podia passar batido...


24 julho 2021

Chinesa e mongol falando em russo


Link curto pra esta postagem: fishuk.cc/oriente-russo




As últimas edições do meu programa favorito de política mundial, “Международное обозрение” (Mezhdunaródnoie obozrénie; pode ser traduzido como “Panorama Internacional”), têm dado interessantes reportagens sobre como os russos têm se relacionado com os vizinhos do Extremo Oriente, sobretudo com países comunistas ou ex-comunistas. O programa é exibido pelo canal jornalístico Rossia 24, controlado pelo governo, e atualmente apresentado por Fiodor Lukianov, especialista em relações internacionais. Eu sei que contém praticamente a visão política de Putin, mas abstraindo isso, gosto do programa como um contraponto à visão ocidental predominante e uma fonte de informações muito variadas.

Na edição de 9 de julho passou uma reportagem sobre como os chineses estão curtindo cada vez mais a cultura russa, na sequência da reaproximação entre os dois países, e na edição de 16 de julho tratou-se dos 100 anos de relações internacionais da República da Mongólia, um dos primeiros Estados socialistas do mundo, com outros países, incluindo a Rússia soviética.

A moça chinesa entrevistada, identificada como Zhang Ling, frequenta um dos cursos ministrados por uma russa na China e fala algumas palavras no idioma. Há alguns pontos que não correspondem à língua padrão, como o uso de on (ele) pra se referir à avó, o uso de baba quando deveria ser babka ou bábushka (já fiz muito esse erro!) e o uso de em minha memória talvez pra se referir a alguma recordação do passado.

Zhang Ling menciona o conto Kolobók, que na verdade é conhecido entre todos os eslavos orientais e tem equivalentes aproximados em países vizinhos, eslavos ou não. Trata-se de algo parecido com um crepe redondo ou com uma carolina (o doce), dependendo da versão, que toma vida e participa da história (não existe tradução exata da palavra).

Na semana seguinte, o canal exibiu toda uma reportagem sobre a permanência da figura de Gengis Khan como um mito de fundação nacional e a constituição da Mongólia moderna como um Estado separado da China e desde o início auxiliado pelos bolcheviques. Houve uma breve participação de Jügderdemidiin Gürragchaa, nascido em 1947 e primeiro astronauta do país, treinado na antiga URSS e falante do russo, embora um pouco destreinado, como vemos. Ele também foi ministro da Defesa da Mongólia de 2000 a 2004, e lamenta a negligência dada atualmente à língua russa, tão importante outrora na diplomacia nacional.

Na verdade, mesmo mantendo uma independência formal, a Mongólia socialista era na prática tutelada pela URSS, tanto que adotou uma adaptação do alfabeto cirílico pra sua língua peculiar, diferente das de todos os vizinhos. Porém, nunca houve revolta contra o governo comunista, que acabou pacificamente em 1990, e o país permaneceu relativamente pacífico, protegido também pela China comunista e contra os invasores japoneses e do Guomindang.

Eu mesmo transcrevi, traduzi e legendei os trechos concernidos, embora no caso do mongol eu não saiba se está totalmente correto, porque ele praticamente fala pra dentro. Assista aos vídeos e leia as transcrições e as traduções:


Когда я была маленькой, баба часто мне читала русские сказки... [Какие?] «Колобок»! И она часто играла на фортепиано музыку Чайковского. В моей памяти баба всегда говорила, что Россия – это очень красивая и великая страна.

(Quando eu era pequena, vovó sempre lia contos russos pra mim... [Quais?] Kolobok! E sempre tocava no piano músicas de Chaikovski. Me lembro que vovó sempre dizia que a Rússia é um país muito bonito e grandioso.)


Русский язык знали практически все, предавал огромное значение со стороны государства, а теперь этой поддержки нет. Ну, приходится уже это, вот. Молодые люди сами вообще решают, какой язык будет для них главным языком. В этом году мы отмечаем столетие дипломатического установления... дипломатических отношений. Ну, каждое отношение с иностранной организацией, иностранным государством... на языке основа, да? И если ты язык того государства не знаешь, отношение будет не такой, какой... Но вообще я всегда говорю, думаю, что самое хорошее отношение – это отношение между простыми людьми.

(Praticamente todos sabiam a língua russa, ela recebia uma enorme consideração da parte do Estado, mas agora não existe mais esse apoio. É isso que está ocorrendo. Em geral são os próprios jovens que decidem qual será a principal língua para eles. Neste ano celebramos o centenário da constituição diplomática, das relações diplomáticas... Bem, cada relação com uma organização estrangeira, com um Estado estrangeiro... tem a língua por fundamento, não? E se você não sabe a língua desse Estado, bem, a relação não será tão como... Mas em geral eu sempre falo, penso que a mais importante das relações é a relação entre as pessoas comuns.)

18 julho 2021

Os 10 países mais violentos do mundo


Link curto pra esta postagem: fishuk.cc/inseguranca




O artigo “Conflits : les 10 pays les moins pacifiés au monde” (Conflitos: os 10 países menos pacificados do mundo) foi escrito por Sabine Cessou e publicado hoje, 18 de julho, no site da RFI em francês. Notável é a informação de que os brasileiros são o povo que mais teme a violência, mesmo sem a ter vivido. Tradução de Erick Fishuk.


A edição de 2021 do Índice Global da Paz, um indicador do Institute for Economics and Peace (IEP), think tank sediado em Sydney, revela que cinco países da África estão entre as 10 nações menos pacificadas do mundo.

A África do Sul está em chamas, desde a prisão do ex-presidente Jacob Zuma. Ela corre o risco de somar-se, no ano que vem, à lista dos países menos pacificados do Global Peace Index (Índice Global da Paz) elaborada pelo IEP, um think tank sediado em Sydney. Islândia, Nova Zelândia, Dinamarca, Portugal, Eslovênia, Áustria, Suíça, Irlanda, República Checa e Canadá são os 10 países mais pacificados do mundo.

No outro extremo, a África conta com cinco dos 10 Estados mais conflituosos e inseguros do planeta. Na ordem dos piores figuram Afeganistão, Iêmen, Síria, Sudão do Sul (na 160.ª posição), Iraque, Somália, República Democrática do Congo, Líbia, República Centro-Africana e Rússia.

Limitando o foco à África, somam-se à lista dos 10 países menos pacificados Mali (148.ª posição), Nigéria (146.ª), Camarões (145.ª), Etiópia (139.ª) e Níger (137.ª).

O Índice Global da Paz (PDF em inglês), publicado em 23 de junho pelo IEP, um think tank australiano com escritórios em Bruxelas, Harare, Cidade do México, Haia e Nova York, passa 166 sob o crivo de seus 23 indicadores de medida dos conflitos, da segurança e da “militarização” das sociedades. Globalmente, o recuo foi baixo em 2020 (-0,07%), mas ele prossegue pelo nono ano consecutivo. Enquanto 73 países viram sua situação agravar-se, 87 obtiveram ganhos em paz.

O recuo mais forte do mundo no Burquina Fasso – As manifestações violentas aumentaram fortemente, ligadas à pandemia da covid-19, assim como a instabilidade política, em alta em 45 países. “O Índice registrou 5 mil incidentes violentos no mundo entre janeiro de 2020 e abril de 2021 ligados à crise da covid, enquanto o impacto de longo prazo da pandemia sobre os crimes violentos e os suicídios ainda não está claro”, explica Serge Stroobants, diretor do IEP em Bruxelas.

A Ucrânia e o Iraque foram os que mais progrediram, enquanto o Burquina Fasso conheceu o recuo mais grave do mundo em 2020. Segundo o relatório, “a decisão do governo de financiar e armar grupos auxiliares civis (link em francês) no combate contra os insurgentes aumentou o acesso ao armamento leve e a intensidade do conflito. O Burquina Fasso encontra-se em estado de guerra civil de baixa intensidade, com 1 milhão de pessoas desalojadas no fim de 2020”.

Todos os sinais também piscam em vermelho na Zâmbia por causa de disputas de fronteira com a República Democrática do Congo (RDC) e da alta dos gastos militares. Mesma coisa na Etiópia, devido ao conflito no Tigray com intervenção da Eritreia, mas também aos 291 mortos nas manifestações que se seguiram ao assassinato do cantor Oromo Hachalu Hundessa (link em francês), sem esquecer as tensões com os países vizinhos em torno da barragem da Renascença no rio Nilo.

A violência tem um preço: quase 12% do PIB mundial – O impacto anual da violência é estimado pelo Índice na soma colossal de 15 trilhões de dólares, ou seja, 11,6% do PIB mundial. Os gastos militares representam 43% dessa soma total, a segurança internacional 31% e a segurança privada quase 8%, o restante sendo repartido entre os conflitos (3%), os crimes violentos (3,1%) e os homicídios (7%).

Mais interessante ainda é que a sondagem altamente abrangente em que se apoia o Índice, o World Risk Poll (site em inglês), conduzida pela Lloyd’s Register Foundation junto a 150 mil pessoas maiores de 15 anos em 142 países. Globalmente, os crimes violentos e o terrorismo são temidos por 15% das pessoas entrevistadas, e percebidos como o segundo risco após os acidentes de carro.

A África encabeça a experiência vivida da violência – Os cinco países com a experiência da violência mais fortemente vivida (pelas pessoas entrevistadas ou por conhecidos) nos dois últimos anos encontram-se na África: 63% na Namíbia, 58% na África do Sul, 56% no Lesoto, 55% na Libéria e 54% na Zâmbia. No mundo, a experiência mais fraca da violência situa-se, por outro lado, no Turcomenistão, no Usbequistão, no Japão, em Singapura e na Polônia.

Já o medo da violência é mais forte no Brasil (83%, duas vezes maior do que a experiência vivida da violência), na África do Sul (79%), nas Ilhas Maurício (76%), no Maláui (75%) e no Lesoto (74%). A violência é percebida como um risco principal no dia a dia por mais da metade das pessoas entrevistadas no Afeganistão, no Brasil, na África do Sul, no México e na República Dominicana.

As Ilhas Maurício constituem um caso particular, na medida em que elas aparecem no primeiro lugar dos países mais seguros da África, seguidas por Gana, Botsuana, Serra Leoa, Gâmbia e Senegal (54.ª posição mundial, logo à frente da França), segundo o Índice. O medo aumentou porque as ilhas viram sua taxa de homicídio dobrar (passando de 1,8 a 2,9 a cada 100 mil pessoas) e manifestações violentas ocorrerem devido à controversa gestão de um derramamento de petróleo em 2020 (link em francês).

Notem-se ainda outras exceções: a Mauritânia, único país da África Subsaariana onde menos de 20% das pessoas entrevistadas tiveram a experiência da violência nos dois anos anteriores, e Madagascar, único país onde menos de 20% das pessoas se dizem muito preocupadas com os crimes violentos.


30 junho 2021

Político búlgaro se desvia de tiro (2013)


Link curto pra esta postagem: fishuk.cc/dogan




No dia 19 de janeiro de 2013, durante a 8.ª conferência nacional do partido búlgaro Movimento por Direitos e Liberdades (sigla DPS em búlgaro), o jovem Oktay Enimehmedov tentou atirar no presidente do organismo, Ahmed Dogan, que estava deixando a liderança 23 anos após tê-lo fundado. O DPS é de orientação liberal, mas conhecido por se dizer defensor da minoria étnica turca da Bulgária e, portanto, atacado tanto pela esquerda quanto pela extrema-direita.

Como podemos ver, o aspirante a assassino falhou em seu intento, dado o engripamento da pistola bem na hora do tiro, o que possibilitou a Dogan defender-se numa luta corporal e a Oktay, ser imobilizado e moído na porrada pelos seguranças. O mais bizarro é que se tratava, segundo notícias da época, de uma pistola de pressão, ou seja, o líder poderia até sofrer de danos vitalícios, mas pouco provavelmente morreria. De fato, o jovem alegou que sua intenção era apenas “dar um susto” em Dogan e provocar-lhe algum dano sério, lamentando apenas que “a arma tivesse falhado”.

Nunca ficou clara a motivação exata do atentado fracassado, mas muitos dizem que o DPS, inserido como estava no sistema, também seria responsável pela insatisfação dos búlgaros com a corrupção e os políticos, portanto teria deixado seus próprios “protegidos” turcos na mão. Oktay mesmo era búlgaro de etnia turca, o que pode fazer estranhar um ataque que poderia ter sido motivado por xenofobia. Mas essa era a verdade, e mesmo o povo que o DPS dizia representar não o via como um partido fiável.

Na minha montagem que segue abaixo, tivemos também a gentil colaboração do Rap do Maçaranduba, do antigo programa de humor Casseta & Planeta, pra quem se lembra dele na virada do século, hehehe. Leia também uma curta matéria da Veja a respeito do incidente. P.S. Atenção, crianças, não façam isso em casa!


26 junho 2021

“Lula grátis”, ou bizarrices de tradução


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/lula-gratis



Lula grátis...


Esta postagem foi colocada em 18 de abril numa página do Facebook que já apaguei, e depois a repostei em meu perfil pessoal. Escrevi mais de um mês depois dos fatos, quando observei, muito por acaso, pelo menos quatro aberrações linguísticas deste bannerLula Livre”, de quando o ex-presidente fez um longo discurso após ter recuperado seus direitos políticos em 2021. Compartilhem ao máximo, mesmo em outras redes, pois o negócio é sério e o responsável parece ter meramente posto “free” no Google Tradutor e decalcado os resultados:

0) Não vou comentar a mistura entre palavras que significam “livre” e “liberdade”, porque isso pode ter sido feito de forma proposital.

1) Vamos com o russo primeiro, já que a maioria me segue por causa dele. Bem do lado esquerdo está em cirílico “бесплатно” (besplatno), que significa... “de graça”! Pra piorar, esta forma é curta e neutra, ou seja, usada quase sempre como advérbio (gratuitamente etc.). Em russo deveríamos dizer “свободный” (svobodny), que é a palavra certa, na forma longa masculina. Ou seja, “свободный Лула”, hehehe.

2) Ainda em russo, está muito pequeno pra ler (é difícil achar fotos do púlpito em boa resolução), mas logo abaixo do grande “free” há a palavra “вольность” (volnost). Porém, esse substantivo remete ao adjetivo “вольный” (volny), que por sua vez vem do substantivo “воля” (volya), mais traduzível como “vontade”, “desejo” ou “liberdade de escolha”, implicando opção deliberada, e não ausência de limitações. Daí, referida ao já citado adjetivo “свободный”, temos a palavra correta “свобода” (svoboda).

3) A maior barbárie está no árabe e no persa, que usam um alfabeto da mesma matriz. Logo acima do russo lemos um ی د ا ز ا que equivale ao persa “âzâdi” (liberdade). A pessoa conseguiu uma façanha incompreensível: botou a ordem dos caracteres da esquerda pra direita (a ordem inversa dessa escrita) e não realizou a ligação entre as letras! Ainda que no caso de âzâdi, ela lucra com o fato das letras em questão realmente não fazerem ligação com a posterior, por regra: آزادی (e o primeiro alef deveria ter o sinal especial que parece um til).

4) Em árabe a coisa não é tão simples. Podemos ver a palavra “liberdade” logo à esquerda da expressão “Lula Livre” escrita da seguinte forma: ة ي ر ح (claro que estão bem juntinhas, mas não adquirem a forma de ligação). Lê-se mais ou menos “hurriyya”, mas torna-se algo ininteligível a um árabe comum, pois além da separação, há a inversão da ordem correta. A palavra, ainda mais diferente, deveria ser esta: حرية

5) À direita da cabeça desenhada, lemos “freiheit”. É o substantivo alemão “liberdade”, e como todo substantivo em alemão leva inicial maiúscula (a não ser por razões de estilo, o que não parece ser o caso), deveria ser “Freiheit”. Se fosse “frei” (literalmente “livre”), aí tudo bem, embora pra ser “Lula Livre” devêssemos usar a terminação do qualificativo (e não meramente predicativo), “Freier Lula”.

6) Curiosamente, várias línguas estão repetidas com as palavras “livre” e “liberdade”, mas em meio à salada exótica que inclui iorubá (que deveria ter acentos: “òmìnira”), xhosa/zulu, latim (!) e tailandês, estão ausentes línguas mais conhecidas e com maior potencial de impacto. Exemplos: japonês, hindi, as nórdicas, finlandês, romeno, esperanto (por que não?) e qualquer eslava exceto o russo (sobretudo servo-croata e checo, porque do apoio ucraniano e polonês duvido muito).

Conclusão: apesar das ótimas intenções de quem confeccionou o artefato, traduzir em outras línguas muitas vezes implica não apenas tacar palavras em tradutores automáticos, mas também conhecer as regras que regem o emprego dessas línguas, sobretudo as flexões. Você conseguiu ver mais alguma coisa estranha aí? Escreva-me sobre suas descobertas!