“Дети войны” (As crianças da guerra)


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Minha amiga Isabella Martins, de Viçosa, MG, me pediu pra traduzir esta linda apresentação. Vocês já conhecem os vídeos da linda belarussa Angelina Pipper cantando quando ainda era criança, no começo da década de 2010. Mas eu não tinha legendado nada dela já adulta ou mais crescida.

Ela está cantando com uma emocionada interpretação “Дети войны” (Déti voiný), As crianças da guerra, cuja letra foi escrita pelo poeta e letrista Iliá Rakhmilievich Reznik e cuja melodia foi composta pela musicista e compositora Olga Leonidovna Iudakhina. Não sei de quando é a canção, mas ambos os autores ainda estão vivos. O show fez parte do 20.º Festival “Zvezdá” (Estrela) de Canções Militares, transmitido pela televisão em 2017 de Minsk, capital de Belarus. A playlist completa dessa edição está no YouTube.

Curiosamente, há uma música gravada pelo falecido cantor francês de origem armênia, Charles Aznavour, chamada Les enfants de la guerre, literalmente a mesma coisa, de que gosto muito e que também cita essa perda da infância e endurecimento precoce. Eu já falei outras vezes aqui da Angelina Pipper, mas vale relembrar algumas coisas. Jovenzinha, nasceu em 14 de maio de 2000 e sua língua principal de trabalho é o russo, embora também cante em belarusso. Natural da cidade de Brest (Belarus), já ganhou vários prêmios, tendo sido inclusive finalista do Festival de Sanremo Junior. Continua muito ativa e sempre se renovando, e após algum tempo usando o nome de trabalho “Jolya Pi”, Angelina mudou-se pra Cidade do México, por causa do marido que arranjou lá um emprego. Soube desta última informação ao encontrar por acaso um artigo em russo datado de março de 2020, durante pesquisa de fotos.

O conceito de “filhos/crianças da guerra”, em inglês “war children”, também se refere a nascimentos derivados de relações entre soldados de forças ocupantes e mulheres dos países invadidos. É usado, sobretudo, pra crianças geradas por soldados nazistas no norte da Europa, e a discriminação que em geral sofrem não leva em conta situações de estupro ou de entrega ao inimigo por necessidade de sobreviver. Eu mesmo traduzi o texto direto do russo e legendei o vídeo baixado diretamente do canal do festival Zvezdá. Infelizmente, nem tudo foi literalmente traduzido, e também encurtei algumas frases pra adaptar ao audiovisual, mas o sentido essencial ficou intacto:


Дети войны,
Смотрят в небо глаза воспаленные.
Дети войны,
В сердце маленьком горе бездонное.

В сердце, словно отчаянный гром,
Ленинградский гремит метроном,
Неумолчный гремит метроном.

Дети войны
Набивались в теплушки открытые.
Дети войны
Хоронили игрушки убитые.

Никогда я забыть не смогу
Крошки хлеба на белом снегу.
Крошки хлеба на белом снегу.

Вихрем огненным, черным вороном
Налетела нежданно беда,
Разбросала нас во все стороны,
С детством нас разлучив навсегда.

Дети войны
В городках, в деревеньках бревенчатых.
Дети войны,
Нас баюкали русские женщины.

Буду помнить я тысячи дней
Руки близких чужих матерей.
Руки близких чужих матерей.

Застилала глаза ночь кромешная,
Падал пепел опять и опять,
Но спасением и надеждою
Нам была только Родина-мать.

Дети войны,
Стали собственной памяти старше мы.
Наши сыны,
Этой страшной войны не видавшие,
Пусть счастливыми будут людьми!
Мир их дому, да сбудется мир!
Мир их дому, да сбудется мир!

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As crianças da guerra
Olham ao céu com olhos inflamados.
As crianças da guerra
Têm mágoa incontável no coraçãozinho.

No peito, como trovão apavorado,
Ressoa um metrônomo de Leningrado,
Ressoa um metrônomo incalável.

As crianças da guerra
Se espremiam em vagões abertos.
As crianças da guerra
Enterravam brinquedos assassinados.

Nunca vou poder esquecer
Os pingos de gente na neve branca.
Os pingos de gente na neve branca.

Tal cortina de fogo ou corvo negro,
A desgraça aportou sem aviso,
Nos dispersou pra todos os lados,
Apartando-nos pra sempre da infância.

As crianças da guerra
Nas cidadelas, nas aldeolas de madeira.
As crianças da guerra,
As mulheres russas nos acalentaram.

Vou lembrar por milhares de dias
As mãos das íntimas mães estranhas.
As mãos das íntimas mães estranhas.

A noite escura nos encobria os olhos,
As cinzas caíam de novo e de novo,
Mas a salvação e a esperança
Pra nós foi apenas a Mãe-Pátria.

As crianças da guerra,
Ficamos mais velhos que a própria memória.
Que nossos filhos,
Que não viram essa guerra terrível,
Sejam pessoas felizes!
Que a paz se realize em seus lares!
Que a paz se realize em seus lares!




Anarquistas e socialistas na URSS


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Recebi esta mensagem pela lista de e-mails da revista internacional inglesa Journal of Historical Materialism, dedicada ao marxismo em todas as suas expressões e aplicações nas disciplinas de ciências humanas, às diferentes correntes e movimentos socialistas e de esquerda e a eventos, publicações e chamadas de artigos sobre os temas mencionados. Dada sua importância pra documentação e pesquisa históricas, resolvi a traduzir em português e republicar aqui:

O website em língua russa socialist.memo.ru foi lançado em 2004 por um grupo de historiadores russos de esquerda, interessados em reviver a memória dos socialistas não bolcheviques e dos anarquistas que combateram o regime soviético e foram vítimas de sua repressão. O site, que está baseado no enorme trabalho de pesquisa da organização Memorial sobre as vítimas do regime soviético, constitui um ponto de encontro para quem pesquisa a resistência de esquerda contra o governo soviético. Além de uma excelente bibliografia com publicações relevantes na língua russa, de cópias completas de muitas publicações, de memórias e documentos organizados por assunto, o site inclui uma base de dados biográfica, elaborada para pesquisa, de socialistas e anarquistas que foram vítimas do regime soviético. Ela também inclui instruções detalhadas para parentes próximos desses socialistas e anarquistas, interessados em percorrer a ficha policial do perseguido.

Os dados disponíveis no site estão divididos em inúmeras categorias para garantir que os acadêmicos possam encontrar facilmente as informações de que eles precisarem.

Documentos, memórias e publicações estão organizados de acordo com o período de tempo (antes e depois de 1917) e com os assuntos. Os assuntos pré-1917 incluem os vários partidos socialistas, a polícia política e seu trabalho contra o movimento revolucionário, prisões, trabalho forçado e exílio, julgamentos e formas de protesto e solidariedade. Os assuntos pós-1917 incluem as Guerras Revolucionária e Civil, a oposição ao regime soviético, as repressões, prisões, exílio, os campos de trabalho, julgamentos e formas de protesto e solidariedade.

Há também seções adicionais para textos integrais de livros e artigos que não se enquadram nessas categorias, bem como textos integrais de memórias de socialistas ou anarquistas russos. Além disso, há uma seção dedicada a memórias e outros livros publicados da década de 1920 à de 1950 e que estão atualmente indisponíveis em outros lugares a não ser este website. O website também inclui publicações originais de historiadores, bem como seções dedicadas a cópias integrais de importantes documentos de arquivo, fotos e biografias detalhadas dos mais importantes ativistas socialistas e anarquistas.

Além desses textos e documentos, o site contém uma detalhada bibliografia geral, bem como bibliografias sobre socialistas revolucionários (SR), sobre os SR de esquerda e grupos anarquistas após 1917. Ele também inclui bibliografias de publicações anarquistas pré-1917, uma geral e outra específica para jornais anarquistas. As bibliografias incluem trabalhos de historiadores, bem como memórias e coleções publicadas de documentos.

O site, devido a seu pretendido papel de ponto de encontro para historiadores que pesquisam sobre o assunto, também contém os textos de relevantes polêmicas históricas e as gravações da série de seminários “The Left in Russia: Past and Present” (2012-2017), bem como entrevistas, resenhas de livros e links para outros sites que podem ser úteis aos pesquisadores.

Acima de tudo, este site é um excelente ponto de partida para todos os que se interessam em trabalhar com a história do socialismo e do anarquismo russos após 1917, bem como um espaço em que acadêmicos que pesquisam o socialismo ou o anarquismo antes de 1917 podem encontrar muitas informações úteis.

Por que Rússia não invadirá Ucrânia?


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Na edição de 19 de janeiro de 2022, um dos telejornais do canal privado francês TV5 Monde trouxe, como de praxe, uma crônica de Slimane Zeghidour, cientista político e escritor nascido na Argélia. Ele explica por que é praticamente improvável que a Rússia invada a Ucrânia pelo leste, como estão apregoando vários meios de comunicação brasileiros. Esta minha tradução do francês não tem por objetivo defender Putin, mas trazer um contraponto à nossa mídia vira-lata que quase toda só papagueia o que diz os EUA:

Mohamed Kaci: Essa novela não tem mais fim e já está durando semanas, na verdade meses. Então, sim ou não, existe um risco da Rússia invadir seu vizinho ucraniano?

Slimane Zeghidour: Logicamente, nenhum. Por quê? Por que a Rússia não tem necessidade de invadir a Ucrânia. Olhe pro mapa: a Rússia está direta e concretamente presente na Ucrânia. Primeiro, de todos os 44 milhões de ucranianos, praticamente oito milhões são russos ou se sentem russos.

Olhe pra parte laranja a leste do país: Lugansk e Donetsk. Essa parte é o Donbass, é a bacia mineira do Donbass. Ela é majoritariamente russa, e a população russa e que fala russo criou duas repúblicas: a República de Lugansk e a de Donetsk, que são repúblicas fantoches, que não são reconhecidas por nenhum Estado, assim como a República do Norte do Chipre, turca, ou a do Nagorno-Karabakh. Mas elas existem, e além disso quase dez por cento da população ucraniana está nessa zona laranja. E ainda por cima a Rússia já lhe distribuiu quase um milhão de passaportes.

Assim, temos pessoas que falam russo, que querem se juntar de novo à Rússia, que não querem mais viver na Ucrânia e que agora têm passaportes russos. Portanto, por que a Rússia correria o risco de realizar uma invasão militar em pleno coração da Europa?


Mohamed Kaci: Ce feuilleton n’en finit pas et dure depuis des semaines, voire des mois. Alors, oui ou non, y a-t-il un risque que la Russie envahisse son voisin ukrainien ?

Slimane Zeghidour: Logiquement, aucun. Pourquoi ? Parce que ce n’est pas nécessaire pour la Russie d’envahir l’Ukraine. Regardez sur la carte : la Russie est-elle directement et concrètement présente en Ukraine. D’abord, pratiquement 8 [huit] millions d’Ukrainiens sur les 44 [quarante-quatre] millions sont Russes ou se sentent Russes.

Regardez la partie orange à l’est du pays : Lougansk et Donetsk. Cette partie, c’est le Donbass, c’est le bassin minier du Donbass. Il est majoritairement russe et la population russe et russophone a créé deux républiques : la République de Lougansk et celle de Donetsk, qui sont des républiques fantoches, qui ne sont reconnues par aucun État, à l’instar de la République Chipre Nord, turque, ou du Haut-Karabakh. Mais elles sont là, et en plus de cela, à peu près dix pour cent de la population ukrainienne est dans cette zone orange. Et la Russie en plus l’aura distribué presque un million de passeports.

Donc, on a des gens qui sont russophones, qui veulent être rattachées à la Russie, qui ne veulent plus vivre en Ukraine et qui ont maintenant des passeports russes. Alors, pourquoi la Russie prendrait-elle le risque de faire une invasion militaire en plein cœur de l’Europe ?


’O sole mio (Roberto Carlos e Pavarotti)


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Este canal nos deu como presente o upload completo do show “Roberto Carlos: O grande encontro”, gravado pela Rede Globo no Estádio Beira Rio, em Porto Alegre (4 de abril de 1998), em que o “Rei” divide o palco com o célebre tenor italiano Luciano Pavarotti (1935-2007). Ao som da orquestra sinfônica da capital gaúcha, eles cantaram separados a maioria das músicas, mas ao final interpretaram em dueto Ave Maria e ’O sole mio.

’O sole mio (O meu sol) uma das mais famosas canções italianas, mas escrita na língua napolitana, nativa da região em torno da cidade meridional de Nápoles e de regiões contíguas. O napolitano é muito parecido com o chamado italiano padrão, mas quem só aprende este terá dificuldade pra entender as línguas regionais. Em napolitano ficaram famosas no mundo as primeiras músicas populares e românticas da Itália, antes mesmo que o italiano unificado criasse toda uma cultura nacional em torno de si. A diferença já está no artigo definido masculino: ’o, com apóstrofo, em napolitano, il em italiano.

’O sole mio foi composta em 1898 por Giovanni Capurro (letra), Eduardo Di Capua e Alfredo Mazzucchi (melodia), e já recebeu tradução pra inúmeras línguas, como It’s Now Or Never de Elvis Presley e Agora ou nunca do sertanejo Dalvan. Por décadas se acreditou que a melodia era apenas de Di Capua, que a teria composto em Odesa (Ucrânia), durante uma turnê com a banda de seu pai. Porém, descobriu-se que a melodia era uma entre 23 peças que Di Capua tinha comprado do músico Mazzucchi em 1897. Em 1972, pouco após a morte deste, sua filha entrou com processo pra que ele fosse reconhecido como coautor de 18 das canções de Di Capua, entre as quais ’O sole mio. Apenas em 2002 uma juíza de Turim reconheceu esse direito, alegando que Mazzucchi tinha dado uma autorização escrita a Di Capua pra fazer uso livre daquelas melodias. Portanto, pela lei vigente na maioria dos países, ’O sole mio só cairá em domínio público em 2042.

De tantos cantores que a gravaram (incluindo nosso conhecido Vitas, do Cham Dram Brendam), é inútil listá-los todos, valendo a pena citar uma curiosidade: nas Olimpíadas de 1920, durante a premiação do corredor Ugo Frigerio, a banda tocou ’O sole mio no lugar do hino da Itália. Ao que parece, ela tinha perdido ou não recebido a partitura, e recebeu a ordem do maestro, já que todos a conheciam de memória. O público, ao invés de se revoltar, até cantou junto, num grande coro ressoado pelo estádio. Pavarotti tinha razão... (A maior parte dessas informações está na Wikipédia em inglês, mas na versão italiana há a história mais completa, além do enredo correto do caso de 1920.)

O texto da tradução é meu, mas me baseei na versão da Wikipédia em português, tendo feito várias correções. Cotejei com as traduções em inglês (mais fiel), italiano e espanhol, havendo na Wikipédia inglesa explicações melhores sobre o significado. Por exemplo, que oi, ne na verdade é a forma apocopada de oi, nenna (ó, menina; com sentido afetivo), causando confusão em muitos. Os próprios Roberto e Pavarotti oscilam entre formas do padrão e do napolitano, havendo ainda outras variantes de acordo com o que o cantor entende. Do Wikisource em napolitano tirei a letra fixa:


1. Que coisa linda é um dia ensolarado,
Um tempo calmo após uma tempestade!
Pelo ar fresco já parece uma festa...
Que coisa linda é um dia ensolarado!

Refrão:
Mas um outro sol
Mais lindo, menina,
O meu sol
Está em seu rosto...
O sol, o meu sol
Está em seu rosto,
Está em seu rosto.

2. Os vidros da sua janela brilham,
Uma lavadeira canta com orgulho...
E enquanto torce, estende e canta,
Os vidros da sua janela brilham.

(Refrão)

3. Quando anoitece e o sol se põe
Uma melancolia quase me toma;
Eu ficaria embaixo da sua janela
Quando anoitece e o sol se põe.

(Refrão)

____________________

1. Che bella cosa è na jurnata ’e sole,
N’aria serena doppo na tempesta!
Pe’ ll’aria fresca pare già na festa...
Che bella cosa na jurnata ’e sole.

Riturnello:
Ma n’atu sole cchiù bello, oi ne’,
’O sole mio sta nfronte a te!
’O sole, ’o sole mio
Sta nfronte a te, sta nfronte a te!

2. Luceno ’e llastre d’’a fenesta toia;
’Na lavannara canta e se ne vanta
E pe’ tramente torce, spanne e canta,
Luceno ’e llastre d’’a fenesta toia.

(Riturnello)

3. Quanno fa notte e ’o sole se ne scenne,
Me vene quasi ’na malincunia;
Sotta ’a fenesta toia restarria
Quanno fa notte e ’o sole se ne scenne.

(Riturnello)



Agora o bônus! Segundo os créditos ao final do programa, essa versão da Ave Maria é atribuída ao compositor francês Charles Gounod (1818-1893), com influência de Bach. Como se nota bem, Roberto a canta em italiano, e Pavarotti em latim, nesta língua havendo a tradução literal da famosa oração católica, embora não em sua totalidade. Eu mesmo traduzi de ambas as línguas, já tendo decorado de longa data o texto latino e tendo achado a letra italiana (com algumas incorreções) nesta página, cantada só a primeira metade.

Dada a falta de clareza da redação, e sem ter percebido uma inversão de sujeito e objeto logo na terceira estrofe, esta tradução inglesa feita por uma italiana me ajudou nas dúvidas. Seguem a letra corrigida em italiano e o texto em latim da primeira parte da Ave-Maria:

Ave Maria
Vergin celeste
La prece mia si volge a te
Il Genitore mi toglie il fato
A te il mio cuore chiede mercé
Sì, chiede mercé

Per tanto affanno prego a tuoi piedi
Giammai non hanno tregua i dolori
Il dolor mio dal cielo tu vedi
Deh, salva, oh Dio! il Genitor
Ave Maria...

Ave Maria, gratia plena, Dominus tecum, benedicta tu in mulieribus, et benedictus fructus ventris tui, Jesus. (Embora no Brasil seja mais corrente o uso de “vós”, traduzi com “tu” pra unificar com o italiano, e mudei um pouco o texto em prol da clareza.)

Sérgio Estrada, um cantor bragantino


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Foto retirada do canal do Sergio Estrada no YouTube

Estou retomando a ocasião pra divulgar coisas raras do Brasil, sobretudo músicas. Este é o cantor sertanejo Sérgio Estrada, sobre o qual não há quase nada nem no YouTube. Ele era dono do Auto Posto Tasca, de Bragança Paulista, SP, quando pertencia à Esso antes de se tornar Shell. Localiza-se no começo da Rodovia Capitão Bardoino, que dá acesso às cidades de Pedra Bela, Pinhalzinho e Socorro, onde ainda se chama Avenida Dr. Plínio Salgado.

Não tive mais notícias dele, mas me parece que sua carreira era bem autobancada, ou seja, pagava seus próprios CDs e apresentações. Lembro que uma vez até cantou na Expoagro (“Festa do Peão”), por volta de 2005, quando seu sucesso regional Jogo de truco estava bombando nas rádios. Estou repostando aqui porque, além de ser raridade, é música de boa qualidade (bem ao contrário do lixo “universitário” e “feminejo” que temos agora) e fruto de nossa “Terra da Linguiça”! A ficha técnica está no encarte dos vídeos.


1. Estrelas na cabeça


2. Jogo de truco


3. No dia que eu te encontrei


4. Acusações


5. Lenha molhada


6. Canção, viola e rodeio


7. Rico e pobre


8. Madrugada, madrugada


9. Tabela (Meu desespero) (famosa na voz de João Mineiro & Marciano)


10. Te amo, te amo, te amo (famosa na voz de Dalvan)


11. Chave da alegria


Melhores hits de Romuald Figuier (1)


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Novamente estou dando um suporte pras traduções do antigo canal Pan-Eslavo Brasil, agora trazendo também as letras traduzidas em formato texto. Esta é a primeira leva de canções do grande intérprete francês Romuald Figuier, mais conhecido apenas como Romuald, nascido em 1938 na cidade bretã de Saint-Pol-de-Léon. Infelizmente, e não sei por quê, ele parece ter saído de evidência desde a década de 1980, inclusive na França, mesmo cantando lindamente e sendo até bem-afeiçoado. Na verdade, a única razão de eu o ter conhecido foi a descoberta ocasional da primeira música, Cœur de papillon (Coração de borboleta), uma versão francesa do célebre hino da ditadura militar brasileira, Eu te amo, meu Brasil, cantado pelos irmãos Eustáquio e Eduardo Gomes de Farias, a dupla Dom & Ravel. O assunto da letra, porém, é completamente diferente.

Seu compositor foi Dom/Eustáquio, e ela estourou na voz da banda Os Incríveis na década de 1970. A pegajosa melodia marcial também parece ter encantado os europeus, tanto que além desta letra escrita por um certo Stanislas Beldone, foi gravada uma segunda, Cœur de mon pays (Coração do meu país), pela banda Les Scarabées, que guarda muito mais semelhança com o original na letra e nos arranjos. Porém, faltam-me informações sobre o contato de Romuald com Eu te amo, meu Brasil ou mesmo com Dom & Ravel, mas sei que ele teve uma passagem pelo Brasil, talvez entre suas idas a festivais de música sul-americanos, como o de Viña del Mar, no Chile.

De fato, apesar de algumas de suas gravações serem realmente bonitas, era difícil achar um áudio de Cœur de papillon na internet além deste raro vídeo no Dailymotion. O primeiro vídeo autoral (áudio) no YouTube data somente de 2 de setembro de 2021... Cantor obscuro, música obscura, tanto que o compacto com a canção na faixa 1 e Comment vivre sans amour na faixa 2 não parece muito badalado. Tanto que só achei a letra numa das poucas páginas com informações e uma imagem decente da capa. Peço desculpas se algumas expressões ficaram mal traduzidas.

A segunda canção tem melodia muito emocionante, e curiosamente Romuald representou com ela o Principado de Mônaco no concurso musical Eurovision (Eurovisão) em 1974, ficando em 4.º lugar na classificação geral. Embora muitas línguas sejam faladas em Mônaco, a oficial ainda é o francês. O título é Celui qui reste et celui qui s’en va (Aquele que fica e aquele que vai embora), cuja letra foi escrita por Michel Jourdan e cuja melodia foi composta por Jean-Pierre Bourtayre. Ela saiu no mesmo ano num compacto de Romuald com o mesmo nome, junto com a canção Sur la pointe des pieds, sur la pointe du cœur (Na ponta dos pés, na ponta do coração), dos mesmos autores com o próprio Romuald. O cantor já tinha representado Mônaco no Eurovisão em 1964, e também Luxemburgo em 1969, sempre com letras em francês.

Parece óbvio, mas vale lembrar, segundo o verbete na Wikipédia em português, que Celui qui reste... parte da perspectiva de um homem deixado pela mulher, sempre havendo no fim de uma relação a “metade” que não quer se separar (“aquele que fica”). Afora esta observação, as outras informações são da Wikipédia em francês, que eu mesmo traduzi, assim como a letra, retirada deste site sempre útil. Não fui literal em alguns pontos, e inclusive optei por deixar “aquele” em todas as partes, mesmo podendo se pressupor um casal hétero (por que não podia ser homo?).

A terceira canção tem por título Où sont-elles passées ?, que não pode ser traduzido literalmente como Onde/Aonde elas passaram?, mas tem o sentido de O que terá sido delas? ou, mais informalmente, Onde elas foram (teriam ido) parar? Está questionando sobre o paradeiro de algo ou alguém, no caso os amores da juventude, porque com o passar da idade (segundo a Wikipédia em português), a alegria e o mistério dos primeiros romances não existem mais.

Seguindo agora com informação da Wikipédia francesa, Où sont-elles passées ? tem letra de Pierre Barouh e melodia de Francis Lai, tendo sido gravada por Romuald como single num compacto de 1964. No mesmo ano, ele concorreu ao Eurovision ocorrido em Copenhague, representando Mônaco, como foi o caso de 1974, como sabemos. Mas o desempenho tinha sido bem melhor, pois das 16 canções na disputa, terminou em terceiro lugar. Ao traduzir o original francês, não fui literal em boa parte das passagens, a começar pelo título, mas mantive o significado pretendido, com expressões mais correntes no português coloquial do Brasil e completamente entendíveis em toda a lusofonia.

E por fim, a quarta canção foi interpretada no Eurovision realizado em Madri, Espanha, em 29 de março de 1969. Chama-se Catherine e fala de um amor da infância que o homem adulto jamais esqueceu. Ela tem letra de André Pascal (André di Fusco) e melodia de Paul Mauriat e André Borly, e ficou apenas em 11.º lugar na disputa. Romuald, que desta vez representaria Luxemburgo como país (o francês é uma das línguas oficiais), também gravou a música em alemão, inglês e italiano.

A primeira gravação original saiu ainda em 1969, num EP com quatro canções, entre as quais Catherine era a primeira faixa. O processo de escolha interna em Luxemburgo foi produzido pelo canal Télé Luxembourg, e a regência da orquestra no concurso coube ao espanhol Augusto Algueró. A música foi logo a segunda a ser apresentada naquele 29 de março, após a da antiga Iugoslávia e antes da concorrente espanhola. Eu traduzi a partir deste texto, que porém não bate em alguns pontos com o áudio.

Ainda me pergunto como duas crianças de dez anos estavam frequentando o “jardim de infância” (conceito equivalente ao de maternal ou de Kindergarten), e não consegui uma tradução exata de tartine, um pedaço de pão cortado pela metade, ou uma fatia mesma de pão, sempre coberta de manteiga, margarina, maionese etc. e às vezes com temperos. Nossa realidade (Brasil) conhece mais “lanche” ou “sanduíche”, imprecisos demais, e “canapé” não se come em escola e é em geral pequeno. Virou “pãozinho” mesmo, podendo aludir ao próprio pão recheado ou a qualquer tipo de lanche rápido.



1. Meu coração está leve como borboleta
Não estou a fim de voltar pra casa
Minha mulher está furiosa
E a mãe dela cria caso com isso
É um verdadeiro veneno

Meu coração está leve como borboleta
Meus olhos se amarraram num rabo-de-saia
Devia ter escutado meu pai
Nunca ter me casado
Ele estava muito certo

Refrão:
Quero dar a volta pelo mundo
Mais cidades, de corações a corpos
Quero desfrutar a vida
Quero dar a volta pelo mundo
Faço isso sonhando sozinho na minha cama

2. Meu coração está leve como borboleta
Desde que uma menina deu bola pra mim
Bebo da água límpida de seu sorriso
Me sinto atordoado
Perdendo a razão

Meu coração está colorido como um lampião
O amor está alegre, isso é tão bom
Meu céu se ilumina com mil fogos
Quando estou apaixonado
Me torno uma borboleta

(Refrão)

3. Meu coração está coberto de borboletas
Azuis, verdes, vermelhas e amarelo-claro
O amor é cavalo de brinquedo
O carrossel das minhas alegrias
Que deixa tonto, e isso é bom

(Refrão)

____________________

1. J’ai le cœur léger commme un papillon
Je n’aime pas rentrer à la maison
Ma femme est en colère
Sa mère en fait toute une affaire
C’est une vraie poison

J’ai le cœur léger comme un papillon
Dès que mes yeux s’accrochent à un jupon
J’aurais dû écouter mon père
Rester célibataire
Il avait bien raison

Refrain :
Je veux faire le tour de la terre
De villes encore, de cœurs à corps
Je veux profiter de ma vie
Je veux faire le tour de la terre
Et je le fais en rêvant tout seul dans mon lit

2. J’ai le cœur léger comme un papillon
Dès qu’une fille me chante sa chanson
Je bois l’eau claire de son sourire
Je me sens défaillir
À perdre la raison

J’ai le cœur bariolé comme un lampion
L’amour est à la fête et c’est si bon
Mon ciel s’embrase de mille feux
Quand je suis amoureux
Je deviens papillon

(Refrain)

3. J’ai le cœur affublé de papillons
Des bleus, des verts, des rouges et des citrons
L’amour est un cheval de bois
Le manège de mes joies
Qui me grise et c’est bon

(Refrain)



1. Quando um amor acaba, quem fica é o perdedor
Quem vai embora sabe que alguém já o espera
Quando um amor acaba, na hora do último olhar
Sempre há, sempre há em algum lugar da Terra

Refrão (2x):
Aquele que fica e aquele que vai embora
Aquele que fala e aquele que não ousa
Aquele que chora, aquele que baixa a vista
Sempre há, sempre há na hora de um adeus

Aquele que fica e aquele que vai embora
Aquele que trai e aquele que não sabe
Aquele que logo vai conseguir esquecer
E o outro que ficará sozinho a vida toda
A vida toda

2. Te entendo, devíamos chegar a esse ponto
Você tem forças pra partir, eu não tenho
Claro que entendo, nem estou bravo com você
Mas agora “nós” já nos tornamos “eu e você”

(Refrão 2x)

Aquele que fica e aquele que vai embora...

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1. À la fin d’un amour, celui qui reste est le perdant
Celui qui part sait déjà que quelqu’un l’attend
À la fin d’un amour, à l’instant du dernier regard
Il y a toujours, toujours sur terre quelque part

Refrain (2x) :
Celui qui reste et celui qui s’en va
Celui qui parle et celui qui n’ose pas
Celui qui pleure, celui qui baisse les yeux
Il y a toujours, toujours à l’instant d’un adieu

Celui qui reste et celui qui s’en va
Celui qui triche et celui qui ne sait pas
Celui qui va très bientôt trouver l’oubli
Et l’autre qui restera seul toute sa vie
Toute sa vie

2. Bien sûr je te comprends, il fallait en arriver là
Tu as la force de partir, je ne l’ai pas
Bien sûr que je comprends, bien sûr que je ne t’en veux pas
Mais déjà “nous” voilà devenus “toi et moi”

(Refrain 2x)

Celui qui reste et celui qui s’en va...



O que terá sido delas, que me fizeram acreditar
Na história bonita do fruto proibido
Quanto tempo se passou com a espera inútil
Por abraços incertos, quanto tempo perdido
O coração transbordando de tanta ternura
Por minhas trapalhadas, escondia sua angústia

Na rua carinhosamente ela pegava minha mão
Nós dois a sós, ela dizia seriamente, amanhã
Quando penso nisso hoje, eu sorrio prudente
Do tempo, tempo que passei caindo nessa história

O que terá sido delas, que me fizeram acreditar
Na história bonita do fruto proibido
Mas esse tempo passado que parecia loucura
Quanta saudade terá deixado em mim
Pois na época, as moças tinham o mistério
Dos primeiros amores perdidos pra sempre

O que terá sido delas, que me fizeram acreditar
Na história bonita do fruto proibido!

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Où sont-elles passées, celles qui m’ont fait croire
À la belle histoire du fruit défendu
Que de temps ont passé dans l’attente vaine
D’étreintes incertaines, que de temps perdu
Le cœur débordant de tant de tendresse
Par mes maladresses, gardait son tourment

Dans la rue tendrement elle prenait ma main
Seul à seul, gravement elle disait, demain
Quand j’y pense aujourd’hui, prudent, moi je souris
Du temps, du temps passé, à croire à cette histoire

Où sont-elles passées, celles qui m’ont fait croire
À la belle histoire du fruit défendu
Mais ce temps passé qui semblait folie
Que de nostalgie il m’aura valu
Car les filles alors, avaient le mystère
Des amours premières à jamais perdues

Où sont-elles passées celles qui m’ont fait croire
À la belle histoire du fruit défendu!



Catherine, Catherine, tínhamos dez anos
Você se lembra, Catherine, no jardim de infância
Eu lhe oferecia meus pãezinhos e meus chocolates
Com meu coração, Catherine, já apaixonado

E quando à noite o jardim fechava
Meu coração de criança ficava partido
Você me deixava sozinho com meu pesar
Você sonhava com o príncipe encantado

Mesmo rindo, Catherine, eu tinha no coração
Muitos risos, Catherine, tristes como choros

Onde estão você e o príncipe encantado,
Você o descobriu afinal?
Nossos corações e nomes ainda estão
Gravados na árvore do jardim.

Catherine, Catherine, no jardim de infância
Catherine, Catherine, tínhamos dez anos
Catherine, Catherine, sempre fico sonhando
Na frente de outros, Catherine, no jardim de infância

Catherine, Catherine, e apesar do tempo
Eu a espero, Catherine, como antes
No jardim de infância, Catherine.

____________________

Catherine, Catherine, nous avions dix ans
Souvenez-vous, Catherine, au jardin d’enfants
Je vous offrais mes tartines et mes chocolats
Avec mon cœur, Catherine, amoureux déjà

Et quand la nuit refermait le jardin
Se brisait mon cœur d’enfant
Vous me laissiez seul avec mon chagrin
Vous rêviez au prince charmant

Si je riais Catherine, j’avais dans le cœur
Bien des rires, Catherine, tristes comme des pleurs

Où êtes-vous et le prince charmant
L’avez-vous découvert enfin ?
Il y a toujours nos cœurs et nos prénoms
Gravés sur l’arbre du jardin

Catherine, Catherine, au jardin d’enfants
Catherine, Catherine, nous avions dix ans
Catherine, Catherine, je rêve souvent
Devant d’autres Catherine au jardin d’enfants

Catherine, Catherine et malgré le temps
Je vous attend Catherine comme avant
Au jardin d’enfant, Catherine.

Melhores canções de Pavel Novák (1)


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Após o fim do meu canal Pan-Eslavo Brasil no YouTube, finalmente estou republicando minhas traduções de músicas do famoso cantor checo Pavel Novák, que é muito pouco conhecido no Brasil, assim como Karel Gott, que já apareceu várias vezes aqui. Novák nasceu em 1944 e morreu em 2009, com câncer de próstata, tendo sido o difusor do rock na antiga Checoslováquia comunista. Coincidentemente, os dois nasceram quando a República Checa era o Protetorado Checo e Morávio, controlado pelos nazistas e separado da Eslováquia até o fim da 2.ª Guerra Mundial. Apesar do controle comunista, a antiga Checoslováquia desenvolveu uma rica cultura fonográfica e traduziu muito rock e pop então estourando no Ocidente. A mesma excelência em se tratando de música popular, superando inclusive a extinta URSS, se deu com a Polônia, outro país onde o comunismo nunca se enraizou, e a ex-Iugoslávia, de modelo social bastante divergente.

A primeira canção foi gravada em 1970 com o título Asi (Talvez), e é a tradução do grande sucesso Bad Moon Rising, lançado pela banda Creedence Clearwater Revival no ano anterior (o antigo conjunto da Califórnia pode ser visto também numa filmagem ao vivo). O engraçado é que, mantendo a batida desse rock mais country, Pavel Novák traduziu apenas a sonoridade da letra de John Fogerty, perdendo-se o sentido original de apocalipse noturno, mas o resultado foi exatamente um texto campestre!

Eu mesmo traduzi a letra checa diretamente, o que foi um trabalho meio difícil, pois havia muitas expressões coloquiais, incluindo estrangeirismos. O primeiro vídeo se encontra neste ótimo canal com canções checas e checoslovacas, e o segundo vídeo está neste canal, desta vez com uma versão ao vivo que deve datar da década de 1990. Novak até tenta imitar as dancinhas do clipe original de 1970, mas a essa altura já é impossível dar aquela pirueta... Seu filho, Pavel Novák Jr., também seguiu carreira na música e pode inclusive ser visto em primeiro plano, de blusa bege, quando dão um close nos back vocals.

A segunda canção foi gravada em 1967 com o título Malinká (Minha pequena, no caso a namorada), e é a tradução de uma canção hoje aparentemente pouco conhecida. Ela se chama Little Girl e foi gravada por Casey Jones & The Governors no ano anterior. O autor original foi Casey Jones, pseudônimo de Brian Casser, e a versão checa é de Eduard Krečmar, cujo lançamento é descrito em checo pela gravadora Supraphon. Malinká foi um dos maiores sucessos da carreira de Pavel Novák, mas como várias de suas versões do Ocidente, traduziu-se apenas a sonoridade da letra, perdendo-se o sentido original de um casal que estava em crise e iria se separar pela descrição de um rapaz que esperava sua namorada, “minha pequenina”, visitá-lo em casa à noite. Novák gravou ainda muitas traduções dos Beatles e outros rocks da época, como a faixa Ton vět mi lál, versão de Don’t Let Me Down!

Eu mesmo traduzi do checo e legendei o primeiro vídeo com o clipe original televisivo de 1967, que encurta, porém, o solo instrumental. Também legendei o segundo vídeo, que está no mesmo canal citado de música checa: Novák se apresentou com um playback na TV em 1994 e não tinha mais a “forma” de antigamente. É muito legal essa dancinha nostálgica que lembra o Silvio Santos ou o Gugu, além da voz e estilo musical, próximos da nossa “jovem guarda”, sobretudo Wanderley Cardoso!

A terceira canção que traduzi direto do checo é Pihovatá dívka (Garota sardenta/com sardas), de 1967, desta vez uma composição própria de Novák, e não a tradução de algum hit ocidental. O primeiro vídeo é tal como foi apresentado pro especial televisivo Gramohit, que mostrava os maiores sucessos de cada ano na antiga Checoslováquia comunista (edição completa). A tosquice da cenografia, dos visuais e das próprias letras faz jus à cultura comunista da Europa Central e Oriental pré-1989, não sendo diferente, por exemplo, do que era exibido na antiga Alemanha Oriental. A beleza fica por conta do ritmo, inspirado nos rocks da época que atraíam jovens do mundo todo, semelhante à “jovem guarda” brasileira da década de 1960. Ou da coreografia e vestes de Pavel Novák, misto de Silvio Santos com Eduard “Trololo” Khil...

O segundo vídeo é o clipe propriamente dito: pelo que se vê, ele está apaixonado por uma loirinha/ruivinha de sardas, com ar intelectual ou nerd, talvez até meio bobinha, e ela não parece lhe dar a mínima. A produção apresenta os mais inusitados elementos, como Novák quase caindo numa piscina vazia, a protagonista que parece a Chiquinha do seriado Chaves e os dois lutadores de espadas que aparecem do nada. Um “humor” bem típico da Europa comunista, que também fica por conta das dancinhas saltitantes de Novák e sua parceira, hahaha.




Talvez eu alugue um par de cavalos,
Talvez também uma carroça bacana,
Talvez eu risque uma linha pelo mapa,
Opa, talvez haja um amanhã pra mim.

E eu, vou pôr nas rodas
Dois enfeitinhos coloridos,
Vou decorar aqueles cavalos.

Pode ser que as pessoas morram de raiva,
Pode ser que elas fiquem censurando,
Talvez eu então só tenha sucesso
E aí talvez insista na minha escolha.

Eu vou pôr nas rodas
Dois enfeitinhos coloridos,
Vou decorar aqueles cavalos.

Os idiotas são um problema diário,
Vou os afogar totalmente num rio,
Vejo que não há nada tão terrível,
Logo vou entender todas as coisas.

E eu, vou pôr nas rodas
Dois enfeitinhos coloridos,
Vou decorar aqueles cavalos.

Eu vou pôr nas rodas
Dois enfeitinhos coloridos,
Vou decorar aqueles cavalos.

____________________

Asi pár koní najmu,
Asi i kočár fajnovej,
Asi přes plány škrtnu lajnu,
Asi mi bude zítra hej.

Já, na kola si dám
Dvě fangle zbarvení,
Pár těch koní vystrojím.

Možná lidé zlostí prasknou,
Možná budou důtky plést,
Asi teda slíznu mastnou
Asi však budu svou si vést.

Na kola si dám
Dvě fangle zbarvení,
Pár těch koní vystrojím.

Hloupí jsou trable každodenní,
Se vším je v řece utopím,
Vidím, že nic tak strašný není,
Každou věc záhy pochopím.

Já, na kola si dám
Dvě fangle zbarvení,
Pár těch koní vystrojím.

Na kola si dám
Dvě fangle zbarvení,
Pár těch koní vystrojím.




A campainha vai tocar oito vezes,
Minha pequena vai vir em casa,
Estou sozinho em casa,
Vou pôr a água no café
Assim que ela chamar na porta.

Não posso ficar muito fora,
Pois hoje pouco depois das oito
Minha pequena vai vir em casa,
Minha pequena vai vir em casa.

Sei que de casa minha pequena
Foi aguardar na cabeleireira,
O salão vai fechar às seis
E em duas horas vai vir em casa
Quando escurecer pela cidade.

E graças aos vizinhos
O prédio todo também vai saber
Quem a pequena anda visitando,
Quem a pequena anda visitando.

O frio rasteja na chegada
E também tortura minha pequena,
A pobrezinha tem frio nas pernas
Antes dela chamar na porta.

Quero aquecê-la
E arder como ferro em brasa
Logo que a pequena chegar em casa,
Minha pequena vai vir em casa,
Minha pequena vai vir em casa.

____________________

Zvon osmkrát zaklinká,
K nám přijde má malinká,
Jsem doma sám,
Na kafe vodu dám,
Až nám u dveří zacinká.

Ven málo smí,
Však dnes něco po osmý,
K nám přijde má malinká,
K nám přijde má malinká.

Znám z domu svou maličkou,
Je v přízemí holičkou,
V šest zavře krám
A dvě hodiny půjde k nám
Jak stín podle zdi po špičkách.

Dík sousedům
Však stejně pozná celej dům,
Kam chodí má maličká,
Kam chodí má maličká,

Mráz prolézá uličkou,
Trápí i mou maličkou,
Jí ubohý je zima na nohy,
Než nám u dveří zacinká.

Já chci hřát
A plát jako žhavej drát
A až přijde má malinká,
K nám přijde má malinká,
K nám přijde má malinká.




Tenho um arco-íris pro meu dia,
E de novo estrelas pra minha noite.
De manhã sou encantado,
Todo dia experimento essa força.

Seus olhos são pra mim
Um arco-íris de cores atraentes.
As sardas, o escuro de setembro,
São como estrelas na cabeça.

Toda hora procuro uma rima
Já faz umas dez vezes.
Por que fico bobo e sempre
Sonho com essa garota sardenta?

Por que ela me ignora?
Só devo então sonhar com ela?
Por que ela me ignora?
Só nos sonhos posso tê-la.

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Mám duhu pro svůj den,
Hvězdy zase pro svou noc.
Ráno jsem okouzlen,
Denně poznávám tu moc.

Tvé oči pro mě jsou
Duhou barev lákavou.
Tvé pihy září tmou
Jako hvězdy nad hlavou.

Hledám stále, hledám rým
Už podesáté.
Proč já blázen, pořád sním
O té dívce pihovaté?

Proč si mě nevšímá?
Což musím o ní jen snít?
Proč si mě nevšímá?
Jenom ve snách smím ji mít.

Stalinista e antistalinista saem no tapa


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Não imaginei que veria isso um dia na internet, mas no Brasil já o fizemos quanto a outros assuntos, hahaha. Os jornalistas russos Nikolai Svanidze e Maksim Shevchenko, conhecidos por suas opiniões opostas, foram convidados a um debate na rádio Komsomolskaia Pravda de Moscou em 30 de janeiro de 2018, sobre se o “stalinismo” deveria ou não ser considerado uma “doença”. Embora não se considerasse stalinista, Shevchenko saiu em defesa dos feitos de Stalin, enquanto Svanidze foi além e o chamou de “mal contagioso”.

Não havia qualquer motivo, mas em certo momento Svanidze ficou tão fulo com uma afirmação de Shevchenko sobre suas ideias que externou seu desejo de agredi-lo se fosse possível. Shevchenko comprou a briga e ofereceu a cara a tapa caso o colega tivesse coragem. Svanidze de fato deu a bifa, mas dada sua idade e tamanho, terminou caindo no chão após as porradas de Shevchenko, kkkk. Pior foi a apresentadora lembrando que eles estavam no YouTube, dizendo aos dois “senhores” pra pararem e censurando seu comportamento! Como se isso fosse possível na Rússia...

Pra deixar o vídeo mais engraçado, inseri um pequeno trecho do célebre Carlos Maçaranduba, cujo bordão se aplicava exatamente a essa situação. Não tive tempo de legendar, e ainda por cima as falas na verdade se entrecortam. Com a ajuda desta transcrição dada por uma rádio, consegui traduzir e você pode ler abaixo parte do “diálogo” (primeira parte do vídeo):


Svanidze: Stalin levou o país à guerra com Hitler numa situação catastrófica... Perto do fim de 1941 foram capturados 30 e 80 milhões dos nossos... Isso graças a Stalin...

Shevchenko: Mas diferente da França, a URSS não se pôs de joelhos, desculpe, acenando aos alemães. A URSS combateu. E Nikolai Svanidze está cuspindo nos túmulos ao redor de Moscou...

Svanidze: Mentira! Está mentindo, canalha!

Shevchenko: ... porque os franceses se entregaram e foram aliados dos alemães...

Svanidze: Não estou cuspindo nos túmulos...

Shevchenko: Nossos oficiais combateram... Graças à liderança de Stalin fomos o único país a resistir aos invasores fascistas!

Svanidze: Combatemos graças ao heroísmo do povo soviético! E perdemos quase 30 milhões de pessoas!

Shevchenko: Demagogia! Grande demagogo!

Svanidze: Falando que estou cuspindo nos túmulos, seu canalha! Tivesse mais perto, te dava na fuça!

Shevchenko: Por favor. Aqui estou. Levanta e bate.

Svanidze: Posso?

Shevchenko: Vai lá!


Сванидзе: Он (Сталин) довёл страну до войны с Гитлером в катастрофическом состоянии… К концу 41-го года у нас в плену было 3 и 8 десятых миллиона человек… Это благодаря Сталину…

Шевченко: Но в отличие от Франции Советский Союз на коленях не стоял, извиняюсь, подмахивая немцам. Советский Союз сражался. А Николай Карлович плюёт сегодня на могилы погибших под Московой…

Сванидзе: Врешь! Врешь ты, мерзавец!

Шевченко: ...потому что французы сдались и были союзниками немцев…

Сванидзе: Я не плюю на могилы…

Шевченко: Наши офицеры сражались… Благодаря сталинскому руководству мы были единственной страной, которая дала отпор фашистским захватчикам!

Сванидзе: Благодаря героизму советского народа мы сражались! И потеряли почти 30 миллионов человек!

Шевченко: Демагогия! Конченый демагог!

Сванидзе: Когда ты говоришь, что я плюю на могилы, ты мерзавец! Был бы ближе, по морде бы получил!

Шевченко: Да пожалуйста. Вот я тут. Встань и дай.

Сванидзе: Хочешь?

Шевченко: Давай!




Toqayev fala ao povo do Cazaquistão


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Desde o início do ano, as principais cidades do Cazaquistão, em especial Almaty, antiga capital e a maior do país, estão vivendo distúrbios inéditos desde a independência da URSS, em 1991, com ataques à polícia, incêndios em prédios do governo e saques a comércios privados. A razão principal teria sido um grande aumento nos preços dos combustíveis e a inércia na mudança do regime autoritário, mas os protestos pacíficos foram ofuscados por autênticas ações armadas e instabilizadoras. Pra um quadro mais completo da situação, acesse minha postagem anterior, mas aqui vou acrescentar mais algumas coisas.

A intervenção das forças da Organização do Tratado de Segurança Coletiva, lideradas pela Rússia, despertou temores de que fosse associada a uma invasão por Moscou, ainda mais dado que 20% da população cazaque é de etnia russa, grande parte dela vinda nos tempos soviéticos. Porém, tanto Putin quanto o presidente Qasym-Jomart Toqayev negaram esse caráter, ainda mais que também há participação da Armênia, Tajiquistão, Belarus e Quirguistão. No dia 10 de janeiro, foi decretado dia de luto nacional pelos mortos nos conflitos de rua, em especial dos membros das forças da ordem. No mesmo dia, em reunião virtual dos chefes de Estado da OTSC, Toqayev fez outro discurso repetindo essencialmente o que trago aqui hoje.

Os críticos da violência também compararam as ações ao golpe, dentro do movimento maior do Euromaidan, que levou à renúncia de Viktor Ianukovych na Ucrânia (2014). Ou seja, os brasileiros estariam tendo uma amostra do que seria “ucrainizar” o país...

Como detalhe, digamos, cômico, o Talibã, cujo Afeganistão faz fronteira com outras três antigas repúblicas soviéticas “istão” ao sul do Cazaquistão, apelou por calma e por um diálogo que resolvesse a violência. Ou seja, combater nas montanhas é uma coisa, agora governar um país daquele tamanho, com tanta gente e de importância estratégica, é outra... (BBC em inglês)

O discurso traduzido abaixo é o segundo de valor histórico desta conjuntura, e foi o pronunciamento à nação que Toqayev fez em 7 de janeiro e que também ficou famoso no Ocidente porque nele o presidente deixou que as forças da ordem, como foi traduzido aqui, “atirassem pra matar”. Toqayev fez outras alocuções importantes nestes últimos dias, mas encerro minha cobertura por aqui, porque desde a postagem anterior eu já estava pensando em traduzir este texto. Também foi falado quase todo em russo, a língua interétnica do Cazaquistão, e está aqui apenas no formato escrito, pois não tenho mais tempo de legendar o vídeo original, que também segue abaixo apenas incorporado. A transcrição completa também pode ser lida no site da presidência.


Caros concidadãos!

Em nosso país continua a operação antiterrorista. Com as forças da polícia, da guarda nacional e do exército, está sendo conduzido um trabalho coordenado e em larga escala para restabelecer a lei e a ordem, de acordo com a Constituição.

Ontem a situação nas cidades de Almaty e Aqtöbe e na Província de Almaty se estabilizou. A instauração do estado de emergência está dando seus resultados. Em todo o país está sendo restaurada a legalidade constitucional.

Mas os terroristas, como antes, estão causando danos ao patrimônio público e privado, usando armas para lidar com os cidadãos.

Dei a ordem para que os órgãos de manutenção da lei e o exército atirassem para matar sem aviso prévio.

No exterior estão emitindo apelos para que as partes entrem em conversações e decidam pacificamente os problemas. Que tolice! Como poderia haver conversações com criminosos, assassinos?

Fomos obrigados a lidar com bandidos armados e treinados, tanto locais quanto estrangeiros. Exatamente com bandidos e terroristas. Por isso é preciso aniquilá-los. E isso será feito no prazo mais breve possível.

As forças da lei e da ordem estão moral e tecnicamente treinadas para cumprir a referida missão.

Como vocês já sabem, partindo das premissas básicas dos documentos estatutários da OTSC (Organização do Tratado de Segurança Coletiva), o Cazaquistão dirigiu aos chefes dos Estados-membros o pedido para introduzirem um contingente pacificador unido que fornecesse assistência no restabelecimento da ordem constitucional.

Esse contingente ficará em nosso país por um curto período de tempo para realizar as funções de cobertura e proteção.

Gostaria de expressar minha sincera gratidão ao primeiro-ministro da Armênia, que está presidindo a OTSC, e também aos presidentes de Belarus, do Quirguistão e do Tajiquistão.

Dirijo palavras especiais de agradecimento ao Presidente da Rússia, Vladimir Putin, que reagiu com muita operatividade e, sobretudo, calor humano a meu apelo.

Expresso também minha gratidão ao Presidente da República Popular da China, aos presidentes do Usbequistão e da Turquia, aos dirigentes da ONU e de outras organizações internacionais pelas palavras de apoio.

Os trágicos acontecimentos em nosso país lançam luz de uma forma nova sobre os problemas da democracia e dos direitos humanos.

Democracia não significa permissividade, muito menos incitação, inclusive por meio de blogs, a atitudes ilegais.

Em meu discurso por ocasião dos 30 anos da Independência, eu disse que são exatamente a lei e a ordem que constituem a garantia básica do bem-estar de nosso país.

E não somente no Cazaquistão, mas também em todos os países civilizados.

Isso não significa de forma alguma um atentado às liberdades civis e aos direitos humanos. Pelo contrário, como mostrou a tragédia de Almaty e de outras cidades do Cazaquistão, são exatamente a inobservância das leis, a permissividade e a anarquia que levam à violação dos direitos humanos.

Em Almaty, nas mãos dos bandidos terroristas padeceram não somente os edifícios administrativos, mas também o patrimônio pessoal de habitantes pacíficos. Sem falar da saúde e das vidas de centenas de civis e militares.

Expresso minhas sinceras condolências aos parentes e amigos dos mortos.

Recordo que, por minha proposta em maio de 2020, foi adotada a lei sobre as reuniões pacíficas dos cidadãos.

Essa lei, no essencial, é um grande passo adiante no avanço da democracia em nosso país, porque tem em vista não o caráter deliberativo, mas informativo dos comícios e das reuniões. E isso nos distritos centrais de todas as cidades do país.

Mas de sua parte, os assim chamados “defensores de direitos” e “ativistas” colocam-se fora da lei e consideram que têm o direito de reunir-se onde bem entenderem e tagarelar o que bem entenderem.

Por causa das ações irresposáveis desses ativistazinhos, os policiais são desviados de sua atuação primordial de defesa da lei e da ordem, frequentemente se submetendo a agressões e ofensas.

Por causa desses “ativistas”, a internet sofre “censura”, no que resultam prejuízos aos interesses de milhões de cidadãos e dos negócios pátrios. Ou seja, é provocado um enorme dano à estabilidade econômica, social e política interna.

O papel de cúmplices e, no essencial, de instigadores nas violações da lei e da ordem cabe aos assim chamados meios “livres” de comunicação de massa e ativistas “exteriores”, distantes dos interesses nativos de nosso povo multiétnico.

Pode-se sem exagero dizer que todos esses demagogos irresponsáveis portam a cumplicidade pela irrupção da tragédia no Cazaquistão. E reagiremos firmemente a todos os atos de vandalismo legal.

De que viraremos com rapidez suficiente esta página sombria de nossa história não há nenhuma dúvida. O mais importante será não admitirmos que se repitam tais acontecimentos no futuro.

Formei um grupo interdepartamental especial que se encarregará de buscar e deter os bandidos e terroristas.

Prometo a nossos cidadãos que todas essas pessoas serão conduzidas ao mais rigoroso julgamento.

Peço a todos os cazaques que observem a prudência e a vigilância. Comuniquem sobre qualquer atividade duvidosa de pessoas suspeitas aos órgãos da lei e da ordem e aos telefones de urgência.

Deveremos realizar uma reavaliação concernente às ações dos órgãos de manutenção da ordem e do exército, bem como à sua coordenação interdepartamental.

Ficou claro também que não bastam forças especiais, operações especiais e equipamentos. Resolver essas questões será nosso encargo em regime de urgência.

É criticamente importante entender por que o Estado “deixou passar” a preparação clandestina dos atos terroristas das células adormecidas dos insurgentes. Somente em Almaty irromperam 20 mil bandidos.

Suas ações mostraram a existência de um claro plano de ataques às instalações militares, administrativas e sociais em praticamente todas as províncias, a coordenação estruturada das ações, a elevada preparação combativa e a crueldade selvagem.

Além dos insurgentes, atuaram especialistas treinados em diversionismo ideológico que empregam habilmente a desinformação ou notícias falsas e conseguem manipular o humor das pessoas.

A aparência é a de que sua preparação e liderança couberam a um único ponto de comando. Isso começou a ser revelado pelo Comitê de Segurança Nacional e pela Procuradoria Geral.

Agora, as boas notícias.

Por conta da estabilização da situação, tomei a decisão de restabelecer a internet em cada região do país dentro de determinados intervalos temporários. Estou certo de que essa decisão terá um impacto positivo nas atividades essenciais de nossos cidadãos.

Mas advirto que o livre acesso à internet não significa liberdade de publicar invencionices, calúnias, ofensas e chamados à insubordinação.

Caso apareçam tais materiais, tomaremos medidas para descobrir e punir seus autores.

A operação antiterrorista continua. Os insurgentes não depuseram as armas, continuam cometendo crimes ou se preparando para cometê-los. Devemos levar a luta contra eles até o final. Quem não se entregar será aniquilado.

Temos pela frente o grande trabalho de tirar as lições da tragédia pela qual passamos, inclusive do ponto de vista socioeconômico.

O governo deverá tomar decisões concretas, sobre as quais falarei em 11 de janeiro na Câmara Baixa do Parlamento.

E agora quero lhes falar, estimados compatriotas, que estou orgulhoso de vocês.

Expresso minhas palavras de agradecimento aos cidadãos do Cazaquistão que nestes dias mantiveram a tranquilidade, somaram forças para garantir a estabilidade e a ordem social.

Apesar das provocações e dos chamados destrutivos, vocês mantiveram a fé na lei e em seu país.

Agradeço pela consciência cívica dos estudantes das grandes cidades, do conjunto da classe operária e dos funcionários da indústria e da agricultura.

Agradeço aos moradores das regiões que se mantiveram pacíficos nos protestos ordeiros.

Todas as exigências externadas de forma pacífica serão ouvidas. Como resultado do diálogo, será alcançado um compromisso e serão elaboradas as decisões sobre problemas socioeconômicos urgentes.

Por isso, nas regiões em que foi mantida uma situação estável, revogaremos aos poucos o estado de emergência.

Tenho total confiança de que nossa Pátria sagrada, o Cazaquistão, se tornará um Estado forte no mapa do mundo, nossa economia terá um desenvolvimento dinâmico e a condição social de nossos cidadãos melhorará. Para atingirmos esses objetivos, proporei um plano de reformas e medidas concretas visando à sua realização.

Desejo a todos muita saúde e bem-estar!




Presidente do Cazaquistão e protestos


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Desde o Ano Novo, o Cazaquistão está sob uma onda de protestos e depredações jamais vista em sua história como país independente. Choques assim, que incluíram massacres, chegaram a ocorrer na década de 1980 (ainda sob a URSS), por razões nacionalistas, e houve alguns distúrbios isolados em 2011 e em 2016. Mas algo que explodisse em todas as grandes cidades e em vários pontos do país, com exigência de estado de emergência, é a primeira vez.

Segundo as mídias do mundo todo, a razão das revoltas foi o aumento de 100% no preço dos combustíveis, num país que sempre produziu grande parte do óleo e do gás da antiga União Soviética. Mesmo com um fenômeno parecido (crise energética e inflação) ocorrendo ao redor do globo, houve manifestações inicialmente pacíficas que logo degeneraram em vandalismo de bandos organizados e quebradeira contra a infraestrutura urbana e prédios públicos. Parece ter-se juntado a insatisfação com o sistema político autoritário, cujo ditador de 1991 a 2019 foi Nursultan Nazarbayev, que renunciou em prol do atual presidente Qasym-Jomart Toqayev (às vezes também grafado Kasym-Zhomart Tokayev).

Quando o antigo burocrata comunista Nazarbayev renunciou, já havia protestos esporádicos, mas ainda hoje ele supostamente dá as cartas por trás dos bastidores. A mídia oficial ou oficiosa, como o canal bilíngue Khabar 24 bem como os telejornais russos, pintam os eventos como ações de gângsteres pagos, efetivos terroristas que estariam agindo do exterior pra desagregar o Estado. Não se menciona se por trás está o Ocidente ou fundamentalistas islâmicos, mas o fato é que o Cazaquistão faz fronteira com vários países com histórico de conflitos religiosos, e mesmo lá as tensões étnicas são latentes. Na América e na Europa, dá-se a impressão de protestos pacíficos esmagados por uma súbita repressão sangrenta de Toqayev e pela intervenção militar da Rússia (sempre mostrada como o vizinho malvadão) e aliados.

Outros canais independentes, como o russo TV Dozhd (hoje acossado por Putin), dão um quadro mais complexo: rixas dentro do grupo no poder teriam instigado gangues criminosas, ligadas a Nazarbayev e a um suposto enfrentamento a Toqayev. Meu amigo Raoni Azeredo, experiente professor de russo, me disse pelo Instagram que até veteranos da Ucrânia estariam agindo com terroristas islâmicos, no país em que a transição pro capitalismo mais teria dado certo. Não me alongando muito no contexto, apresento abaixo a junção das falas do presidente em 6 de janeiro de 2022 (ainda dia 5 no Brasil) na primeira reunião do Conselho de Segurança convocada contra os protestos e no primeiro discurso ao povo sobre os eventos.

A língua cazaque é da mesma família do turco e do azerbaijano, e muito próxima do tártaro e do uzbeque, escrevendo-se com o alfabeto cirílico desde a década de 1930 e atualmente em transição pro alfabeto latino. Como sua existência literária data da era soviética e como o russo, além da língua dominante da URSS, sempre serviu de língua interétnica, como o inglês na Índia ou o francês na África do Norte e Central, boa parte da população ainda fala russo, muito importante nos negócios de Estado. Por isso, Toqayev apenas faz breves aberturas e encerramentos em cazaque, os quais cortei do meu vídeo, e discursa essencialmente em russo com sotaque. A maior parte do primeiro texto está transcrita no site da presidência, e eu apenas completei com o que faltava e alinhei com o oral. Uma página de notícias deu todo o segundo texto, que apenas alinhei com o oral.

Geralmente não tenho republicado a versão original de textos longos, mas dada a importância histórica do tema e a fragilidade de certos registros na internet, agora eles ficarão registrados aqui. Como primeiro eu legendei o vídeo e depois arrumei a versão publicada, o escrito não está igual às legendas, e está inclusive mais correto em vários pontos. Nem por isso nenhum dos registros é melhor do que o outro. Última nota: até no emblema, não tem como evitar um paralelo entre a citada OTSC (Organização do Tratado de Segurança Coletiva) e a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), criticada por Putin como um entulho da “guerra fria”...



Estou à frente do quartel-general antiterrorista. As estatísticas do ato terrorista alcançadas pelos bandidos revelam que são autênticos terroristas. Sabemos bem que estão delinquindo neste momento em Almaty e em outras cidades, ocupando prédios dos serviços públicos, sobretudo as instalações onde se encontram armas de baixo calibre, e atacando cadetes das escolas militares. Neste instante está havendo nos arredores de Almaty um confronto com divisões aéreas do Ministério da Defesa, um conflito persistente.

Assim, penso que de nossa parte, levando em conta que tais bandos terroristas são, na prática, internacionais, eles passaram por uma séria preparação no exterior e sua ofensiva sobre o Cazaquistão pode ser vista – e deve ser vista – como um ato de agressão. Portanto, com base no Tratado de Segurança Coletiva, dirigi-me hoje aos chefes de Estado da Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC) pedindo ajuda para que o Cazaquistão supere essa ameaça terrorista.

Essa na verdade não é mais uma ameaça, na verdade é uma sabotagem à integridade estatal, é sobretudo um ataque contra nossos cidadãos, que estão me pedindo, como chefe de Estado, que urgentemente os ajude. Meu dever constitucional consiste em ter de garantir bem-estar, segurança e tranquilidade a nossos cidadãos. Por isso, considero o apelo aos parceiros da OTSC absolutamente relevante e oportuno. Penso que o povo do Cazaquistão apoiará essa decisão. Juntos naturalmente venceremos.

Como eu já disse, os bandos terroristas estão tomando importantes instalações públicas. Em Almaty foram tomados basicamente o aeroporto e uns cinco aviões, incluindo aviões estrangeiros. Almaty sofreu ataque com vandalismo e destruição. Os moradores de Almaty estão sofrendo – não exatamente sofrendo, tornaram-se vítimas de um ataque de bandidos terroristas. Por isso, nosso dever, incluindo o dos membros aqui presentes do Conselho de Segurança da República do Cazaquistão, é tomar todas as medidas possíveis para defender nosso Estado do perigo externo.

Penso que podemos concluir a reunião por aqui, e comecem a trabalhar. Vamos fazer-nos claros e esperar que tudo seja controlado. Dirigindo-me aos cidadãos do Cazaquistão, sejam eles moradores da capital, moradores de Almaty ou de outras cidades vitimadas pela agressão dos terroristas, quero lhes assegurar que farei todo o possível, como Presidente da República do Cazaquistão, para defender os interesses de vocês, os interesses vitais. E penso que juntos alcançaremos a vitória. É uma página muito complicada da história de nosso Estado. Deveremos descobrir muitas coisas, de que forma e por que isso aconteceu, mas agora o essencial é defender nosso país, defender nossos cidadãos.

Я возглавляю контртеррористический штаб. Статистику теракта, которую учинили бандиты – настоящие террористы. Нам хорошо известно, они бесчинствуют в настоящее время в Алматы и в других городах. Захватывают здания инфраструктуры, и самое главное захватывают помещения, где находятся стрелковые оружия. Ведут бои с курсантами училищ. В настоящее время идет бой под Алматы с воздушно-десантными подразделениями Министерства обороны, упорный бой.

Поэтому я полагаю, что с нашей стороны, учитывая, что данные террористические банды являются по сути дела международными, они прошли серьёзную подготовку за рубежом и их нападение на Казахстан можно рассматривать – и нужно рассматривать – как акт агрессии. В связи с этим, полагаясь на Договор о Коллективной безопасности, я сегодня обратился к главам государств ОДКБ оказать помощь Казахстану в преодолении этой террористической угрозы.

На самом деле это уже не угроза. На самом деле это подрыв целостности государства, и самое главное – это нападение на наших граждан, которые просят меня как Главу государства в срочном порядке оказать им помощь. Моя конституционная обязанность состоит в том, что я должен заботиться о благополучии, безопасности и спокойствии наших граждан. Поэтому, обращение к партнёрам по ОДКБ считаю абсолютно уместным, своевременным. Думаю, что народ Казахстана поддержит это решение. Вместе мы естественно победим.

Террористические банды захватывают, как я уже сказал, крупные инфраструктурные объекты. В частности, в Алматы захвачен аэропорт, около пяти самолётов, включая иностранные самолёты. Алматы подвергся нападению, разрушению, вандализму. Жители Алматы страдают – не точно страдают, они стали жертвами нападения террористов, бандитов. Поэтому наша обязанность, в том числе и присутствующих здесь членов Совета безопасности Республики Казахстан принять все возможные действия для защиты нашего государства от внешней угрозы.

Я думаю, на этом можно завершить своё совещание, и приступайте к работе. Будем оговориться [sic], надееться, что всё обойдётся. Обращаясь к гражданам Казахстана, будто это жители столицы, жители Алматы и других городов, которые стали жертвами агрессии террористов, я хочу заверить вас в том, что сделаю всё возможное как Президент Республики Казахстан для защиты ваших интересов, жизненных интересов. И думаю, что мы вместе одержим победу. Это очень сложная страница в истории нашего государства. Многие вещи предстоит изучить, каким образом, почему это случилось. Но главное сейчас – защитить нашу страну, защитить наших граждан.

Em nossa querida cidade de Almaty estão ocorrendo ataques massivos aos agentes da lei e ordem. Há entre eles mortos e feridos. Multidões de elementos marginais estão agredindo os militares e os provocando. Andam pelados pelas ruas, abusam das mulheres, saqueiam as lojas. A situação está ameaçando a segurança de todos os moradores de Almaty. Não devemos admitir isso. Além de Almaty, a situação também se degradou em alguns outros centros provinciais. Por conta disso, introduzi o estado de emergência em diversas regiões. É uma ação necessária. Como presidente, sou obrigado a zelar pela segurança e tranquilidade de nossos cidadãos, preocupar-me com a integridade do Cazaquistão.

As medidas que tomei visam ao bem-estar de um Cazaquistão multiétnico. Mas por enquanto essas medidas não bastam. Chama a atenção a elevada organização dos elementos arruaceiros. Isso evidencia a elaboração minuciosa de um plano de ação conspiratório com motivações financeiras. Literalmente conspiração. Por isso, como chefe de Estado e, a partir de hoje, presidente do Conselho de Segurança, pretendo reagir com máximo rigor.

O que está em jogo é a segurança de nossos cidadãos, que me fazem inúmeros pedidos para defender suas vidas e as vidas de suas famílias. O que está em jogo é a segurança de nosso Estado. Tenho certeza de que o povo me apoiará. O que quer que aconteça, permanecerei na capital. É meu dever constitucional: estar junto do povo. Juntos viraremos esta página sombria da história do Cazaquistão. Sairemos dela fortes. Dentro em breve apresentarei novas propostas de transformação política do Cazaquistão. Estarei na primeira linha das sucessivas reformas.

Gostaria de agradecer especialmente aos agentes dos órgãos de manutenção da lei e aos militares que suportaram os golpes dos grupelhos ofensivos e infelizmente estão sofrendo baixas. Expresso às suas famílias minhas sinceras condolências e sentimentos.

В нашем любимом городе [Алматы] происходят массовые нападения на сотрудников правопорядка. Среди них есть убитые и раненные. Толпы бандитствующих элементов избивают военнослужащих, издеваются над ними. Голыми водят по улицам. Подвергают насилию женщин. Грабят магазины. Обстановка угрожает безопасности всех жителей Алматы. И это терпеть нельзя. Помимо Алматы обстановка накалилась и в некоторых других областных центрах. В связи с чем, в ряде регионов мной введено чрезвычайное положение. Это необходимая мера. Как президент я обязан защищать безопасность и спокойствие наших граждан, беспокоиться о целостности Казахстана.

Принятые мною меры нацелены на благополучие многонационального Казахстана. Но эти меры пока не достаточны. Обращает на себя внимание высокая организованность хулиганствующих элементов. Это свидетельствует о тщательно продуманном плане действий заговорщиков, которые мотивированы финансово. Именно заговорщиков. Поэтому как глава государства и с сегодняшнего дня председатель Совета Безопасности намерен действовать максимально жёстко.

Это вопрос безопасности наших граждан, которые обращаются с многочисленными просьбами ко мне защитить их жизнь и жизнь их семей. Это вопрос безопасности нашего государства. Уверен, народ меня поддержит. Чтобы ни было, я буду находится в столице. Это моя конституционная обязанность: быть вместе с народом. Вместе мы преодолеем эту чёрную полосу в истории Казахстана. Выйдем из неё сильными. В скором времени я выступлю с новыми предложениями по политической трансформации Казахстана. Я остаюсь на прежней позиции последовательных реформ.

Хотел бы особо [sic] поблагодарить сотрудников правоохранительных органов и военнослужащих. Они приняли на себя удар воинствующих группировок и, к сожалению, несут потери. Выражаю их семьям искреннее соболезнование и сочувствие.




Sátira poética ao PC da União Soviética


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A russa Valéria Ilínichna Novodvórskaia, nascida em 1950 e falecida em 2014, foi uma ativista política russa, jornalista independente, defensora dos direitos humanos, pró-Ucrânia, dissidente soviética e opositora de Putin. Nunca foi casada e sempre viveu com a mãe e um gato. Há alguns anos ela inspirou um meme, por causa de uma frase sua de entrevista em que ela disse: “Sexo é chato, eu li a respeito!”.

Aos 19 anos ela escreveu um poema satírico (“Spasíbo, pártia, tebé”, literalmente “Obrigado a ti/você, Partido”), e por causa dele foi presa pelo KGB acusada de agitação e propaganda antissoviéticas e internada no Hospital Psiquiátrico Carcerário de Kazan. Eis minha tradução inédita (artística, e não literal!) cujo corpo fiz em agosto de 2020, mas a que dei os últimos retoques só alguns meses depois.

Mas antes, a título de ilustração e como brinde humorístico a quem se dispôs a visitar meu site, deixo este vídeo aleatório que foi postado no YouTube em maio de 2012, em contexto que desconheço. Alguém filmou nossa heroína num momento de descontração comendo um sorvete com recheio de nata e cobertura de chocolate, hehehe:



Agradecemos-te, Partido,
Pelo que fazes e fizeste,
Por nosso hoje cafajeste,
Agradecemos-te, Partido!

Agradecemos-te, Partido,
Porque tu vendes e te vendes,
Pelo país que se arrepende,
Agradecemos-te, Partido!

Agradecemos-te, Partido,
Vassalos tristes do cinismo,
Do engano, traição e abismo,
Agradecemos-te, Partido!

Agradecemos-te, Partido,
Por delações e delatores,
Por fuzilar teus desamores,
Agradecemos-te, Partido!

Por prédios, fábricas divinos
Por sobre crimes construídos,
Cruéis torturas sem ruídos,
Escuro mundo em pedacinhos...

Agradecemos-te, Partido,
Por noites cheias de amargura,
Por nossa torpe autocensura,
Agradecemos-te, Partido!

Agradecemos-te, Partido,
Pois nossa fé está em cacos,
Profana, oculta, nos põe fracos
Antes que o Sol triunfe erguido.

Agradecemos-te, Partido,
Teu realismo nos esmaga,
Educa-nos por trás a adaga,
Agradecemos-te, Partido!



Me dá um beijinho? Kkkkk

Discurso de Putin pelo Ano Novo 2022


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Como sempre foi tradição no Pan-Eslavo Brasil, meu antigo canal no YouTube, e como sempre será aqui no site, traduzi e legendei o discurso de fim de ano proferido em cadeia nacional de TV pelo Presidente de Todas as Rússias, Vladimir Putin. Muitas de suas fórmulas são praticamente idênticas de ano a ano, mas no último 31 de dezembro de 2021 a duração foi um pouco maior do que a usual, devido à atenção especial com a pandemia de covid e ao bem-estar dos cidadãos. Não há menções às rixas com os países vizinhos nem às tensões com a OTAN, mas ele menciona a busca por sempre garantir a segurança do povo.

Muito mais do que em 2020, a covid provocou altos índices de contaminação e mortes na Rússia (nada comparado, porém, ao Brasil e à Índia em seus piores dias), e a vacina Sputnik V desenvolvida pelo governo federal continuou barrando na desconfiança em muitos países ocidentais. Putin parece manter uma fisionomia mais tranquila do que em anos anteriores, e embora ele sempre tenha algumas frases mais carinhosas, em 2021/2022 estão bem mais melosas e dedicadas à proteção da família e dos idosos. Desde a década de 1980, a Rússia sofre de um problema crônico de natalidade, e novos nascimentos são necessários pro país continuar produzindo e funcionando.

Eu mesmo traduzi direto do russo e legendei, tendo tirado texto e vídeo do próprio site oficial do Kremlin. Também existe um upload do discurso completo neste canal do YouTube e a transcrição completa no site da agência TASS de notícias. Como brinde (e contraponto) a quem me acompanha, sugiro que assistam também ao discurso coletivo de Ano Novo dos líderes da oposição belarussa exilada, em particular Sviatlána Tsikhanóuskaia, traduzido e legendado pelos meus amigos Volha e Paterson Franco!



Estimados cidadãos da Rússia! Caros amigos!

O ano de 2021 está acabando. Dentro de instantes o tempo vai nos transportar do passado para o futuro. Sim, é assim que ocorre a cada dia, minuto e segundo, mas esse curso ininterrupto do tempo ouvimos claramente quando celebramos o Ano Novo, esperado como um marco importante na vida.

Estamos todos agora unidos pela esperança em iminentes mudanças para melhor, mas entendemos que é impossível destacá-las, separá-las dos acontecimentos do ano que passou. Deparamo-nos com desafios colossais, mas aprendemos a viver em tais condições terríveis, a resolver tarefas complexas, e pudemos fazer isso graças a nossa solidariedade. Juntos continuamos lutando contra uma perigosa epidemia que atingiu todos os continentes e por enquanto não se deteve. A pérfida doença ceifou dezenas de milhares de vidas. Quero expressar palavras de apoio sincero a todos os que perderam parentes e pessoas próximas.

Caros amigos! O mais importante é que superamos juntos todas as dificuldades do ano que passou, defendemos os que se encontravam numa situação difícil, apoiamos em primeiro lugar as pessoas das velhas gerações e as famílias que criam filhos, o futuro da Rússia. Protegemos rígida e continuamente nossos interesses nacionais, a segurança do país e dos cidadãos. Num curto prazo reerguemos a economia e estamos agora em várias frentes conseguindo realizar tarefas estratégicas de desenvolvimento. É claro que ainda restam muitos problemas por resolver, mas passamos este ano dignamente. Aqui o mérito principal pertence exatamente a vocês, cidadãos da Rússia. Esse é o resultado, caros amigos, de seu árduo trabalho. Cada um em seu posto buscou cumprir com seu dever, fazer não somente o que está dentro de suas forças, mas também muito mais, ajudar os que têm dificuldades especiais.

Agradeço a todos vocês de coração. Em tempos tão difíceis como agora, é muito importante o espírito criativo, o esforço para não deixar de realizar seus planos pessoais e trazer proveito à sociedade e ao país natal. E, celebrando o Ano Novo, esperamos que ele abra novas possibilidades. É claro que também contamos com a sorte, mas mesmo assim entendemos que conquistar o que planejamos depende, sobretudo, de nós mesmos, do que colocamos como prioridade, de como preenchemos a vida cotidiana, de quão firme e ativamente nos pomos a trabalhar e alcançamos resultados concretos e visíveis. Derivará de tudo isso a realização dos planos de toda a nação.

O principal objetivo deles é elevar o bem-estar e a qualidade de vida das pessoas. Resolver precisamente essas tarefas fará a Rússia ainda mais forte. E somente juntos podemos garantir que nossa Pátria continue se desenvolvendo e prosperando.

Caros amigos! A noite de Ano Novo é literalmente cheia de bons sentimentos e de radiantes intenções, do desejo que todos têm de revelar suas melhores qualidades. E em tal abertura e generosidade estão a essência e a energia dessa festa maravilhosa, em que se torna tão importante aquecer os pais com atenção e cuidado, abraçá-los se estão ao lado, dizer a todos nossos íntimos o quanto nos são queridos. Que felicidade é quando há amor, filhos, família, amigos. Tudo isso tem grande valor e define largamente o sentido da vida de cada pessoa. Todos queremos que no novo ano eles sigam sendo nosso porto seguro.

E agora revelamos prontamente sentimentos íntimos às pessoas de que gostamos, pronunciamos as sinceras palavras de amor e gratidão para as quais às vezes não sobra tempo na correria diária. Mas nisto consiste a verdadeira magia do Ano Novo, em abrirmos nossos corações à sensibilidade e à confiança, à generosidade e à clemência. E onde quer que estejamos nestes minutos – no círculo da família e amigos, nas praças das queridas cidades –, ressoam por toda parte os mais calorosos votos.

Junto-me com prazer a eles e quero desejar feliz Ano Novo individualmente a todos que estão agora exercendo seu dever profissional e militar, salvando e tratando doentes, alocados em postos militares, garantindo a lei e a ordem. O trabalho não para nas linhas de transporte e em várias fábricas e serviços de suporte à vida. Nesses setores trabalham centenas de milhares de cidadãos nossos. Agradeço-lhes pelo trabalho responsável e importante para o país e a sociedade.

Caros amigos! Daqui a alguns segundos chegará o Ano Novo, e em muitas famílias, inclusive entre nossos compatriotas fora da Rússia, será ouvido o tradicional “Adeus ano velho, feliz ano novo”. Pronunciamos essas palavras simples com um sentimento especial, pois são transmitidas de geração a geração. Meus sinceros votos a vocês! O principal voto, claro, é que todos tenham uma saúde de ferro. Confio em que se juntarão a ela êxitos no trabalho, no estudo, na criação e no lazer.

Que em cada lar haja o máximo possível de eventos felizes! Que cada vez mais surjam novas famílias e nasçam filhos. Que eles cresçam saudáveis, inteligentes, honrados e livres. Que haja amor em cada coração a nos inspirar à realização dos objetivos fixados e à conquista das mais altas posições em prol das pessoas queridas e de nossa grande e inigualável Pátria.

Feliz Ano Novo, caros amigos! Feliz Ano Novo de 2022!




Macron quer criar Academia da Europa


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O presidente da França, Emmanuel Macron, fez em 9 de dezembro de 2021 uma apresentação oral perante inúmeros jornalistas pra exibir o programa da presidência rotativa francesa da União Europeia durante o primeiro semestre de 2022. A cada seis meses, começando de 1.º de janeiro ou de 1.º de julho, os países do bloco revezam entre si a presidência do Conselho da União, e no começo de 2022 é a França que ocupará esse posto, até o meio do ano. Mesmo que um país específico ocupe a presidência rotativa, seu chefe de Estado ou de governo deve pensar em todos os outros integrantes, o que hoje se torna difícil diante de tantas discordâncias.

No vídeo completo postado no canal do presidente, Macron faz longas dissertações sobre segurança, imigração, cultura, educação e infraestrutura, antes de responder às perguntas dos jornalistas. Destaquei apenas uma parte de dois minutos e meio, perto do final, dedicada à cultura e às universidades, em que ele declara sua vontade de criar uma “Academia da Europa”, na qual intelectuais de todos os países da União Europeia se reuniriam pra discutir problemas candentes. Macron ataca especificamente o revisionismo histórico, a negação infundada de vários consensos acadêmicos e o uso da história pra atacar os valores europeus.

No site da presidência pode ser visto o vídeo e lida a transcrição completa do discurso de Macron em francês, a partir da qual eu traduzi pro português e legendei o trecho abaixo. No texto francês que postei aqui, fiz umas poucas modificações na transcrição, que pareciam não corresponder à fala.


Português: A história europeia não é apenas a soma de 27 histórias nacionais. Ela tem uma coerência, uma unidade que cada um pressente, mas que ainda não se permite ver plenamente. Por isso, espero que possamos relançar, sob esta presidência francesa, um grande trabalho sobre a história da Europa. Mas um grande trabalho que deve ser feito dentro de um quadro historiográfico independente.

Vivemos na Europa um momento político em que o revisionismo está se instalando em vários países, em que o revisionismo histórico é utilizado por poderes que querem pôr em xeque nossos valores, nossa história, por vezes rever seu próprio papel durante nosso século vinte. Devemos sem dúvida construir um quadro acadêmico em que os historiadores de toda a Europa possam continuar operando sobre um trabalho histórico independente, fundado nas evidências, nas provas, nas controvérsias; e espero que possamos, no próximo mês de junho, na França, iniciar esse trabalho que dará lugar a uma preparação árdua e científica, por um comitê independente durante os próximos meses, visando forjar uma história e uma historiografia de nossa Europa e de uma história mundial da Europa. É indispensável, e com base nesse trabalho, deveremos aliás levar em conta como esse trabalho poderá em seguida ser desdobrado em cada país europeu. O espírito europeu não é somente um passado, uma chama que devemos animar, reacender todo dia de modo sensível em nossas escolas, em nossos museus, em nossa cultura. Por isso, em junho próximo, também organizaremos uma grande reunião das universidades europeias. Com efeito, durante o discurso da Sorbonne, eu havia proposto que pudéssemos criar universidades europeias.

Nós fomos – nossas universidades foram – extraordinariamente eficazes: hoje existem 40 universidades europeias. Fazem parte dessas realizações bem concretas que, desde o discurso da Sorbonne, fazem com que este tenha se tornado realidade. Reuniremos essas 40 universidades, mais todas as que talvez serão criadas nesse meio-tempo, na França, a fim de podermos continuar essa agenda, mas consagrar também a importância das universidades na Europa. Espero também que essa presidência seja a ocasião de criar uma Academia da Europa que reunirá intelectuais de todas as disciplinas dos 27 Estados-membro para aclarar nossos debates éticos e nossas relações com as liberdades, propor também ações e projetos culturais.


Français (francês): L’histoire européenne n’est pas seulement l’addition de 27 [vingt-sept] histoires nationales. Elle a une cohérence, une unité que chacun pressent, mais qui ne se donne pas à voir encore pleinement. C’est pourquoi je souhaite que nous puissions relancer, sous cette présidence française, un grand travail sur l’histoire de l’Europe. Mais un grand travail qui doit se faire dans un cadre historiographique indépendant.

Nous vivons un moment politique en Europe, où le révisionnisme s’installe dans plusieurs pays, où le révisionnisme historique est utilisé par des puissances qui veulent remettre en cause nos valeurs, notre histoire, parfois revoir leur propre rôle durant notre vingtième siècle. Nous devons absolument bâtir un cadre académique où les historiens de toute l’Europe pourront continuer à œuvrer sur un travail historique indépendant, reposant sur les traces, les preuves, les controverses ; et je souhaite que nous puissions, au mois de juin prochain, en France, initier ce travail qui donnera lieu à une préparation ardue et scientifique, par un comité indépendant durant les prochains mois, mais de forger une histoire et une historiographie de notre Europe et d’une histoire mondiale de l’Europe. C’est indispensable, et sur la base de ce travail, nous devrons d’ailleurs considérer comment ce travail pourra ensuite être décliné dans chaque pays européen. L’esprit européen n’est pas seulement un passé, une flamme qu’il faut animer, rallumer chaque jour de manière sensible dans nos écoles, dans nos musées, dans notre culture. C’est pourquoi nous organiserons aussi, en juin prochain, une grande réunion des universités européennes. En effet, lors du discours de la Sorbonne, j’avais proposé que nous puissions créer des universités européennes.

Nous avons été – nos universités ont été – extraordinairement efficaces : 40 [quarante] universités européennes existent aujourd’hui. Cela fait partie de ces réalisations très concrètes qui, depuis le discours de la Sorbonne, font que celui-ci est devenu une réalité. Nous réunirons ces 40 universités, plus toutes celles qui se seront créées peut-être dans l’entretemps, en France, afin de pouvoir continuer cet agenda, mais de consacrer aussi l’importance des universités en Europe. Je souhaite aussi que cette présidence soit l’occasion de créer une Académie d’Europe qui réunira des intellectuels de toutes disciplines des 27 États membres pour éclairer nos débats éthiques, nos rapports aux libertés, proposer aussi des actions et des projets culturels.