Mostrando postagens com marcador Traduções do inglês. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Traduções do inglês. Mostrar todas as postagens

sábado, 18 de julho de 2026

Sorria: a Argentina pode estar roubando


erickfishuk.blogspot.com/pessi



Este meme resume a publicação. Pesquise a respeito.


Se já não disse aqui, escrevo agora: não gosto nem de jogar nem de assistir a futebol e só me interesso por ele na medida em que se relaciona a temas de minha predileção, como história, política, geopolítica, culturas e idiomas. E humor também, claro. E pra minha alegria, cada Copa do Mundo tem se tornado sempre mais geopolítica, sendo a deste ano o ápice do processo. A começar por se realizar em três países ao mesmo tempo, sendo que um deles, o Zesteite, se situa “de sanduíche” entre os outros dois, os quais, pra piorar, estão com as relações diplomáticas azedadas com o primeiro. E sempre pode ficar ainda pior: os três logo caíram fora do torneio, e o Canadá está literalmente “esfumaçando” a final que vai se realizar no vizinho do sul.

A coisa fica ainda mais divertida com a popularização das redes sociais, hoje facilmente portáveis nos smartphones a um bolso de distância. Mesmo quem não as usa acaba recebendo respingos das intermináveis discussões, com seus memes, polêmicas e virais de todo tipo, um novo modo de expressão a ser estudado pela história cultural. Por essas razões, mesmo em se tratando da campanha abominável da çelessão Canalhinha, ela se torna assunto entre todos os jornalistas e figuras públicas e condiciona a relação do gado trouxa público com o resto da competição. E o que pode mais eriçar um tupiniquim senão um sucesso da eterna rival Argentina, pior, sua segunda chegada consecutiva ao final do certame? Por alguns instantes a crônica bananeira se precipitou em comparar o que “nós” erramos com o que “eles” acertaram, mas mesmo do exterior podemos perceber que a coisa não é direta assim.

Quero testemunhar a impressão positiva que me têm despertado os textos de Milly Lacombe no UOL, a besta-fera da Machosfera horrorizada com sua intromissão “woke” num âmbito outrora monopolizado por bovinos de barrigão Pilsen e pinto murcho. Reconheço que também sou “uouquista” (não “oquista”, atenção!), mas não sou radical, e também julgo que a Milly não é. Concomitantes ao avanço da horda do Méçi Careca de fase em fase, começaram a aparecer vídeos de youtubers lixo tentando dissertar “Por que a Argentina é um país tão racista?”, sugeridos até junto a programas estrangeiros nada a ver com o assunto e que sigo regularmente. Pra meu alívio e agrado, a Milly fez um ótimo contraponto a esse antirracismo freestyle, dizendo que nossa história teve um racismo muito mais violento materializado na escravidão e que ele continua até hoje estruturando nossas relações sociais. Eu acrescentaria que justamente o fato de nossa equipe, ao contrário da argentina, contar com muitos jogadores de cor (até porque técnico negro nunca vi; feliz foi Pelé que não enveredou pela mesma cilada do Marabola!), assistidos por um público majoritariamente descorado, só mostra que esse foi um dos poucos espaços em que lhes foi permitido alcançar destaque, em detrimento da política, da economia e da ciência.

O destino me pegou de surpresa: e não é que jornalistas de outros países começaram justamente a apontar a dimensão inaudita do racismo na torcida platina, sem contar outros trambiques que estariam favorecendo os tricampeões? De fato, exceto casos isolados que ocorrem em nossos próprios campeonatos nacionais, nunca vi os fanáticos amarelentos imitarem símios, jogarem bananas ou gritarem ofensas contra a melanina alheia. Isso não limpa a ignomínia de como o tecido social do Gigante Adormecido (e jamais despertado) foi construído, mas talvez eu (e a Milly?) tenha subestimado a vergonha alheia que os hermanos despertam em quem compartilha com eles a mesma arquibancada. E dois artigos da mídia estrangeira me despertaram justamente pra essa reflexão, além de trazer elementos interessantíssimos pra deixarem as neymarzetes com a pulga atrás da orelha.

O primeiro é uma reportagem de Adèle Léron publicada na RFI francesa e intitulada “Copa do Mundo de 2026: por que a Argentina é alvo de suspeitas de favoritismo?”, e o segundo é uma entrevista dada pelo escritor Adam Elder ao jornalista George Louis Martínez, da americana NPR e intitulada “Por que muitos fãs de futebol podem torcer contra a Argentina na final da Copa?”. De família equatoriana, George usa o apelido “A Martínez” (assim mesmo, sem ponto, lê-se “ei Martínez”), mas aqui me referi a ele como “George Martínez” por praticidade. Também não mantive os links do original francês nem adicionei notas explicativas pra certas pessoas e coisas. Sugiro uma pesquisa à parte, especialmente o caso de IShowSpeed.

Da série “traduzi sem autorização, phodasse”, no caso da entrevista, como ela não veio com uma transcrição, obtive-a usando esta ferramenta online quase perfeita, devendo ter o resultado cotejado com o áudio, sobretudo quando as pessoas falam meio rápido, o que ocorreu na conversa. Pra fins de pesquisa e registro histórico de raridades, mantive a transcrição do áudio da NPR, após revisar a redação, em especial a divisão de parágrafos, que o site faz de modo totalmente aleatório. Se alguém mais entendido que eu em termos técnicos do ludopédio quiser sugerir alguma escolha melhor pra tradução, sobretudo se souber um pouco de inglês e francês, comente à vontade. Boa leitura e, pra quem for assistir, boa final:



Após se classificar pras semifinais da Copa do Mundo de 2026 com uma campanha considerada fácil e marcada por diversas decisões controversas da arbitragem, a Argentina se tornou alvo de acusações de favorecimento. No centro das críticas está Lionel Messi, pra quem esta Copa, apresentada como a última, alimenta fantasmas, teorias e desconfiança com relação à FIFA.

“Lionel Messi consegue seu juiz favorito pra semifinal Inglaterra-Argentina.” A manchete do Daily Mail dá o tom. Na véspera do confronto entre as duas seleções, o tabloide britânico reacende as acusações de favoritismo contra o time argentino.

Apresentado como “o juiz favorito” do capitão argentino , a nomeação do americano Ismail Elfath reforça em muitos a crença de que Lionel Messi estaria obtendo um tratamento preferencial nesta Copa do Mundo.

Essas teorias surgiram antes mesmo do início da Copa. Em 5 de dezembro de 2025, durante o sorteio, internautas já expressavam surpresa com os adversários oferecidos à Argentina. Um passeio, segundo alguns. A Albiceleste enfrentaria Argélia, a Jordânia e, enfim, a Áustria. Depois, Cabo Verde nos 16 avos de final [sim, esse é o nome oficial em português da bizarrice inventada por Infantino...], o Egito nas oitavas e, finalmente, a Suíça nas quartas. Esse trajeto alimentou suspeitas: até as semifinais, Lionel Messi e seus companheiros não teriam enfrentado nenhuma seleção entre as dez melhores da classificação da FIFA. Isso seria, aliás, inédito na história das Copas.

De forma inversa, os outros semifinalistas tiveram um torneio mais difícil. A França enfrentou o Senegal (3x1) e o Marrocos (2x0), ambos finalistas da última Copa Africana de Nações, além da Noruega, que eliminou o Brasil. A Espanha se livrou de Portugal e depois da Bélgica, enquanto a Inglaterra precisou derrotar o México antes de eliminar a Noruega de Erling Haaland.

No papel, portanto, o caminho da Argentina parece bem mais suportável que o de seus principais concorrentes.

Arbitragem polêmica – Um sorteio favorável, mas também decisões da arbitragem que estão sendo criticadas.

Logo na primeira partida contra a Argélia, Messi escapou de qualquer punição após esmagar o tornozelo de Aïssa Mandi na primeira meia-hora de jogo. No entanto, o ex-árbitro internacional Bruno Derrien considera que o camisa 10 “podia ter sido expulso”. Amplamente dominada, a Argélia acabou perdendo por 3x0, e seu técnico anunciou que iria exigir explicações da FIFA.

As partidas seguintes reforçaram ainda mais essa impressão entre alguns torcedores. A partir das fases eliminatórias, a Argentina teve dificuldades pra vencer. Em três ocasiões, os campeões do mundo foram atropelados, chegando a ficar atrás no placar. E em todas elas, as decisões da arbitragem inverteram o rumo dos jogos.

Primeiro, contra Cabo Verde. Incapaz de superar a 64.ª colocada na classificação mundial, a Albiceleste se beneficiou de várias intervenções controversas: uma falta na entrada da área em Hélio Varela que não foi punida, um toque de mão de Cristian Medina que também passou imune e uma falta cobrada às pressas por Lionel Messi enquanto o goleiro Vozinha ainda tomava posição na trave. A Argentina acabou vencendo por 3x2 nos acréscimos.

Os técnicos tomam partido – No jogo contra o Egito, o cenário se repetiu. Perdendo por 2x0 até os 79 minutos, a Albiceleste conseguiu virar (3x2). Após o jogo, o técnico egípcio exigiu a demissão do juiz francês François Letexier. Ele citou especificamente um pênalti não marcado após um puxão na camisa de Hamdy Fathy, um contato entre Mohamed Salah e Julián Álvarez na área e a anulação de um gol egípcio após revisão do VAR.

Finalmente, contra a Suíça. Dominada durante grande parte do jogo, a Argentina se aproveitou de um inesperado empurrão do destino. Aos 71 minutos, após revisão do VAR, o juiz português João Pinheiro anulou o cartão amarelo do argentino Paredes e o deu a Breel Embolo por simulação.

Já com esse cartão, o atacante suíço foi expulso e deixou o campo, deixando seu time com dez jogadores. Após o jogo, o técnico suíço denunciaria “cotoveladas, cabeçadas e soladas” que ficaram impunes.

À medida que a Argentina avança na Copa, apanhados de decisões controversas se multiplicam no TikTok e no X. Uma delas, intitulada “Uma compilação de nove minutos de faltas cometidas pela Argentina contra a Suíça sem consequências”, já soma centenas de milhares de visualizações.

Outros internautas também se surpreenderam com os meros três minutos de acréscimo concedidos contra Cabo Verde, enquanto outros jogos da Copa obtiveram seis ou até dez minutos, devido às pausas pra hidratação.

Messi no centro das teorias – Essas suspeitas não são novas. Ainda durante a vitória da Argentina no Catar em 2022, diversas decisões da arbitragem alimentaram o debate. A Albiceleste, em particular, foi beneficiada com cinco pênaltis, mais que qualquer outra seleção naquela Copa.

É principalmente a figura de Lionel Messi que alimenta essas teorias. Em 2017, Gianni Infantino declarou ao La Nación que “seria injusto Messi se aposentar sem ter conquistado uma Copa do Mundo”, acrescentando que o argentino precisava “marcar sua época”, tal como Diego Maradona tinha feito.

Aos 39 anos, esta edição é apresentada como a última Copa do camisa 10. A conquista do título selaria definitivamente seu espaço entre os maiores jogadores da história. Com ou sem a ajuda dos juízes...



George Martínez – Não é difícil adivinhar que os torcedores da seleção espanhola de futebol vão torcer contra a Argentina este fim de semana, quando os dois times se enfrentarem na final da Copa do Mundo, mas há muito mais gente ao redor do mundo torcendo pra que a Argentina perca. Adam Elder é um escritor especializado em esportes e cultura. Adam, o que há no estilo de jogo da Argentina que, historicamente, gera tanta rejeição?

Adam Elder – Pois é, há muita coisa envolvida aí. A Argentina ganhou três Copas, mas sempre teve um estilo que divide opiniões. Eles conseguem jogar com talento e, claro, têm Lionel Messi, mas também sabem jogar com brutalidade, digamos, chutando o adversário, subindo nas costas, derrubando com força, pressionando o juiz. Tudo isso é comum na América Latina. Tanto é que escrevi sobre isso num livro meu, mas a questão é que ninguém faz isso melhor que a Argentina.

Eles basicamente conseguem jogar tanto em alto nível quanto de forma muito baixa, e com frequência os vemos fazendo as duas coisas. Além disso, há episódios bem documentados de racismo da parte de torcedores e jogadores, com músicas e outras manifestações, especialmente contra pessoas negras; seja contra a seleção francesa, composta em grande parte por jogadores negros, ou espectadores famosos, como o streamer IShowSpeed na Copa deste ano.

GM – É, houve muito disso, o que anda prejudicando a imagem da Argentina, mas quatro anos atrás a situação parecia diferente. Parecia que as pessoas queriam ver Lionel Messi ganhar uma Copa. Então, o que realmente mudou de lá para cá?

AE – Muita coisa mudou durante esta edição. Eles chegaram como os atuais campeões, e a trajetória tem sido incrível. Lionel Messi, aos 39 anos, liderando o time na reta final de sua carreira. Ele marcou seis gols, se não me engano, nos três primeiros jogos, e as partidas têm parecido eventos quase religiosos. A emoção é avassaladora: a paixão, o barulho. É uma grande história.

O problema é que muitos têm a impressão de que a FIFA, entidade vilã que comanda o futebol, também gosta muito dessa narrativa, se você olhar de um certo ângulo. É quase como se as coisas tivessem tomado outro rumo após a fase de grupos – depois que a Argentina por pouco superou Cabo Verde, a indiscutível zebra da Copa –, pois, nos três jogos seguintes, muitos torcedores diriam que a Argentina foi beneficiada por decisões generosas da arbitragem, pelo uso muito generoso do VAR [o que inclusive fez os brasileiros criarem o apelido “VARgentina”!] e também pela falta de uso dele quando talvez fosse necessário.

Então, como acabei de dizer, a FIFA já aparece por si só como vilã; junte a isso o estilo de jogo peculiar da Argentina, as viradas incríveis que a seleção protagonizou e, talvez, uma arbitragem favorável, e chegamos ao cenário atual.

GM – Há décadas existe o sentimento, entre muitos latino-americanos, de que os argentinos se consideram superiores de alguma forma, o que faz com que sempre torçam contra eles. Mas o que você acha da ironia de que, neste caso, os latino-americanos prefiram torcer pra Espanha, nação que por séculos colonizou a América Latina?

AE – Pois é, esse é só um dos aspectos. Parece que sob vários pontos de vista vai ser um grande confronto. Obviamente há implicações ligadas à colonização e, veja bem, se a Argentina jogar como tem jogado em toda esta Copa – algo que, como discutimos, tem se desenvolvido mais ou menos por cinco semanas –, vai ser um jogo realmente interessante. Não vejo a hora de assistir e, pra ser claro, acho que tudo isso faz dos esportes algo bem melhor. Adoro ter um vilão. Claro, sou escritor, mas pessoalmente adoro isso.



George Martínez – It’s an easy assumption that fans of Spain’s national soccer team will be rooting against Argentina this weekend when the two teams face off in the World Cup final, but there are a lot more people around the world hoping Argentina loses. Adam Elder is a sports and culture writer. Adam, so what’s about the way Argentina plays that’s historically been unpopular?

Adam Elder – Oh boy, there’s so much going on here. Well, Argentina’s won three World Cups, but they’ve always had a style that’s very polarizing. You know, they can play with flair, and of course they have Lionel Messi, but they can also play with brutality, let’s say, kicking you, climbing on you, chopping you down, working the ref. This stuff is common throughout Latin America. In fact, I wrote about it in a book of mine, but the thing is, no one does this stuff better than Argentina.

They can essentially play at the highest levels or the lowest, and often you’ll see them doing both. Now, there’s also been some well-documented racism by fans and players and songs and whatnot, particularly towards black people; whether it’s about the French national team made up largely of black players or famous spectators like the streamer IShowSpeed at this year’s World Cup.

GM – Yeah, so there’s been a lot of that which hasn’t helped Argentina lately, but it seemed like four years ago things were different. It seemed like people wanted to see Lionel Messi win a World Cup. So what really has changed between then and now?

AE – A lot’s changed within this tournament. They came in as the defending champions, and it’s been this great story. Lionel Messi, aged 39, leading the team, twilight of his career. He scored six goals, I believe, in the first three games, and their matches have resembled these quasi-religious events. It’s emotionally overwhelming, the passion, the noise. It’s a great story.

The problem is, it appears to many that FIFA, soccer’s villainous governing body, likes that storyline a lot as well, if you look at it from a certain angle. It’s almost as if things took a turn after group play, after Argentina barely got past Cape Verde, the tournament’s undisputed Cinderella team, because in their next three matches, a lot of fans watching would contend that Argentina benefited from some generous calls, some very generous use of VAR, the video assistant referee, and also the non-use of it when perhaps it was needed.

So FIFA is, as I just said, such this great villainous organization on their own, and you combine now with Argentina’s occasional style of play and these incredible comebacks they’ve staged and, you know, perhaps generous refereeing, and this is where we are right now.

GM – You know, there’s been a decades-long feeling by many Latin Americans that Argentines believe themselves to be superior somehow, so that means they’ll always root against them. But what do you think of the irony that in this case, Latin Americans would rather root for Spain, the nation that colonized Latin America for hundreds of years?

AE – Yeah, I mean, that’s just one layer of it. It’s looking like a great matchup in so many ways. There’s obviously some colonial implications and, you know, if Argentina show up the way they’ve been playing throughout this tournament, which, as we talked about, has changed in the past five weeks or so, it’s going to be a really interesting game. I’m looking forward to it, and to be clear, I think all this stuff makes sports much better. I love having a villain. Of course, I’m a writer, but I personally love this stuff.


terça-feira, 14 de julho de 2026

Prevenção da demência 2: os supercaminhantes

Minha primeira tradução de um artigo no site da National Public Radio (NPR) dos Estados Unidos sobre a prevenção da demência foi um sucesso, o que me deixou muito alegre. Felizmente, em 6 de julho passado, Alisson Aubrey veio novamente com uma reportagem, que pode ser ouvida em formato podcast na própria página, sobre a relação entre exercício físico e fortalecimento cerebral. Em tradução livre pro português, seu título poderia ser “Um estudo descobriu que pessoas com mais de 80 anos que caminham em ritmo acelerado reduzem pela metade o risco de declínio cognitivo” e fala de novos estudos relacionando a manutenção da acuidade cerebral em pessoas com mais de 80 anos que mantêm o hábito da caminhada rápida.

Não são aqueles anúncios “pegadinha” miraculosos que pululam no Google, mas estudos sérios que achei por bem partilhar aqui, mesmo sem autorização da NPR, rs. A maior contribuição do artigo é o conceito de “super mover”, que o tradutor inicialmente transformou em “supermoventes”, mas deu inúmeras soluções díspares ao longo do texto. Assim, joguei na busca tanto “supermoventes” pra ver se era um termo corrente quanto “super mover em português” pra achar alguma relação com estudos existentes. O termo era realmente novo e o Gemini, IA do Google, acabou sugerindo “supercaminhantes” a partir de diversas fontes, uma delas um recente artigo da revista Veja que por coincidência abordou o mesmo tema. Porém, o texto trata quase exclusivamente do trabalho de só um dos cientistas envolvidos, enquanto aqui você pode conhecer o esforço completo!

Tendo usado o Google Tradutor pra obter a base do texto, fiz o que se tornou ainda mais imprescindível depois da multiplicidade de traduções pra “super movers”: revisar manualmente, sobretudo termos médicos, pra não ficar algo antinatural ou simplesmente passado “na máquina”... Além disso, imprimi ao conjunto meu próprio estilo de redação e simplifiquei o que fosse possível, mesmo que o resultado “robótico” permanecesse aceitável. Desta vez, com uma única exceção, não mantive os links originais pra outros artigos, trabalhos e sites. Finalmente, como fiz outras vezes, sugiro a leitura do artigo (entrevista) da pesquisadora Gislene Nogueira sobre o conceito de public radio na legislação americana, no qual se encaixa a NPR, uma empresa privada sem fins lucrativos que sobrevive de doações de indivíduos, empresas e organizações e de repasses do Estado (estes cortados por Trump em 2025).



Palavras cruzadas e quebra-cabeças são há muito tempo considerados maneiras de manter a mente afiada. Mas um novo estudo aponta pra outra estratégia que pode ser igualmente importante: manter a rapidez nos pés.

Pesquisadores descobriram que pessoas na faixa dos 80 anos que mantêm um ritmo de caminhada excepcionalmente rápido, apelidadas de “supercaminhantes”, também são muito mais propensas a manter a mente afiada em comparação com seus coetâneos que se movem mais lentamente.

“Um supercaminhante é alguém com mais de 80 anos que apresenta um desempenho muito superior ao de seus coetâneos”, afirma a dra. Sofiya Milman, do Albert Einstein College of Medicine, uma das autoras do estudo.

Milman e seus colaboradores analisaram dados de cerca de 4 mil idosos inscritos num estudo de longo prazo sobre envelhecimento. Os participantes realizaram um teste de caminhada cronometrada, e os 9% mais rápidos – que apresentaram uma velocidade de marcha pelo menos 1,5 desvios padrão acima da média de seus pares da mesma idade – foram classificados como supercaminhantes. Esses indivíduos também apresentaram uma probabilidade significativamente menor de sofrer declínio cognitivo.

“A principal conclusão foi que os supercaminhantes têm cerca de 50% menos probabilidade de desenvolver declínio cognitivo que seus coetâneos que não são supercaminhantes, o que é muito impressionante”, diz Milman. Os resultados foram publicados na revista médica Neurology.

A conexão com a saúde muscular – Caminhar bem exige equilíbrio, coordenação e força, e todos esses fatores dependem de músculos saudáveis, afirma Bonnie Tsui, redatora científica e autora de On Muscle: The Stuff That Moves Us and Why It Matters (em tradução livre, Sobre músculos: o que nos move e a importância disso).

“Acho que a descoberta não é surpreendente, porque sabemos que a saúde muscular está muito correlacionada com a saúde cognitiva, especialmente à medida que envelhecemos”, diz Tsui. “O exercício faz seus músculos crescerem, mas também faz seu cérebro crescer.”

Pesquisas anteriores associaram a prática regular de exercícios físicos a um maior volume do hipocampo, o centro do cérebro responsável pela memória e pela orientação. O novo estudo descobriu que os supercaminhantes tendiam a preservar o volume do hipocampo à medida que envelheciam.

Tsui afirma que os benefícios estão relacionados ao que acontece dentro dos músculos em contração durante o exercício.

“O músculo é um tecido endócrino, o que significa que, quando nos movemos, nossos músculos liberam moléculas sinalizadoras que afetam outros sistemas do corpo, incluindo o estímulo ao crescimento de células cerebrais e a regulação do metabolismo”, diz ela. “Portanto, saúde muscular é saúde cognitiva.”

Entre essas moléculas de sinalização está uma proteína conhecida como fator neurotrófico derivado do cérebro, ou BDNF, que ajuda a regular a glicose e desempenha um papel importante na sobrevivência e manutenção dos neurônios, auxiliando na memória e na função cognitiva.

A rede de um corpo em funcionamento – O dr. Amit Saini, geriatra do consórcio de saúde Kaiser Permanente no norte da Califórnia, afirma que caminhar e manter a capacidade de caminhar bem são indicadores de boa saúde, pois diversos sistemas do corpo são empregados simultaneamente. Ele diz que caminhar beneficia a saúde cardiovascular e pulmonar.

“Ao caminhar, seu coração bate mais rápido e, quando o coração bate mais rápido, ele bombeia sangue não só pros músculos, mas também pro cérebro, nervos e outros sistemas do corpo”, diz Saini. “Seus pulmões também respiram um pouco mais rápido, o que, por sua vez, os mantém mais leves e saudáveis.”

Uma das descobertas mais surpreendentes do estudo: alguns supercaminhantes apresentaram placas e emaranhados neurofibrilares no cérebro, proteínas anormais associadas à doença de Alzheimer e à demência, apesar de não apresentarem sintomas. Os pesquisadores afirmam que isso sugere que o movimento e todos os benefícios de se manter ativo podem ajudar o cérebro a permanecer resiliente, mesmo sofrendo alterações relacionadas à idade.

A genética e o estilo de vida também são importantes – A genética provavelmente desempenha um papel importante em quem se torna um supercaminhante. Um estudo recente descobriu que a genética é responsável por cerca de 50% da expectativa de vida humana, e Milman afirma que, entre os superidosos – pessoas que estão bem aos 80 anos ou mais –, o papel da genética pode ser ainda maior.

No entanto, os autores enfatizam que os hábitos de vida, incluindo as decisões diárias sobre alimentação, priorização do sono e tempo dedicado ao relaxamento e à convivência com amigos e familiares, são todos importantes. De fato, pesquisas mostram que cerca de metade de todos os casos de demência podiam ser prevenidos ou adiados com a intervenção em 14 fatores de risco modificáveis.

As pessoas têm poder de influência sobre suas chances de envelhecer com saúde, e uma maneira de avaliar seus riscos pessoais e tomar medidas pra os reduzir é calcular sua Pontuação de Cuidado Cerebral. É uma ferramenta online gratuita, desenvolvida por médicos do Hospital Geral de Massachusetts, pra calcular teus riscos e sugerir medidas, por meio de mudanças nos hábitos diários, que podem ajudar a diminuir o risco de AVC, demência, doenças cardíacas e câncer.

“Caminhar rápido é um indicador de que o cérebro e o corpo estão envelhecendo bem”, diz Joe Verghese, chefe do Departamento de Neurologia da Stony Brook Medicine em Nova York e um dos autores do estudo. “Mas também é possível que as pessoas que caminham mais rápido, ao se envolverem nessas atividades, também protejam a saúde do cérebro por meio de diversos mecanismos, reduzindo inflamações, melhorando a saúde cardiovascular e promovendo o crescimento cerebral em áreas essenciais pra manter a função cognitiva à medida que envelhecemos.”

Verghese afirma que as descobertas trazem uma mensagem pra pessoas de todas as idades e níveis de condicionamento físico.

“Uma das principais mensagens é: mantenha-se ativo”, diz ele. “Faça exercícios regularmente, pois isso pode te colocar no caminho pra se tornar um supercaminhante à medida que envelhecer.”

Seja caminhando, nadando ou pedalando, os pesquisadores afirmam que a forma do movimento importa menos que sua consistência. É um hábito que pode trazer benefícios tanto pros músculos quanto pra memória no longo prazo.



sábado, 25 de abril de 2026

Parte do Donbás vai ser “Donnyland”?

No último dia 21 de abril, os jornalistas Anton Troianovski (baseado em Washington, D.C.) e Andrew E. Kramer (baseado em Kyiv) publicaram no New York Times uma reportagem intitulada “‘Donnyland’? Ucrânia propõe renomear parte do Donbás em homenagem a Trump”. A publicação original só está disponível pra assinantes, mas usei um dos burladores disponíveis e salvei em formato PDF pra então copiar o texto e traduzir. Usei o Google Tradutor e depois comparei com o original, corrigindo eventuais falhas (cada vez mais raras nessa tecnologia!) e imprimindo um estilo mais “brasileiro coloquial” e mais pessoal. Também mantive os links indicados ao longo do texto (matérias do próprio NYT), sobre as mesmas palavras do original.

A se confiar nas “pessoas familiarizadas com as negociações” citadas a cada instante, a proposta é bem engraçada, mas diz muito mais sobre a personalidade megalômana do Laranjão do que sobre os problemas enfrentados pelos ucranianos. Quem acompanha fontes minimamente confiáveis, por exemplo, sabe que a cidade caucasiana de Tuaps, na Rússia, está virando uma “nova Chornobyl” devido aos ataques às refinarias, exatamente 40 anos depois da tragédia nuclear. Ar e água contaminados, animais morrendo, lembra muito a explosão da barragem de Nova Kakhovka, não?... Mas não vou focar em atualidades, apenas aproveite a anedota:



A proposta reflete uma realidade global em que governos apelam à vaidade do presidente Trump a fim de dispor o poderio americano a seu favor.

Quando a Polônia buscou uma base militar dos EUA em 2018, apresentou a ideia como Forte Trump.

Quando a Armênia e o Azerbaijão assinaram uma garantia de paz na Casa Branca no ano passado, batizaram a rota de transporte então criada como Rota Trump para a Paz e Prosperidade Internacionais.

Mas o caso mais improvável do nome do presidente Trump sendo emprestado a um ponto crítico geopolítico pode ser um que permaneceu fora da vista do público até agora. Nas negociações de paz na Ucrânia nos últimos meses, autoridades ucranianas sugeriram que a porção da região do Donbás pela qual a Rússia ainda luta no país poderia ser chamada de “Donnyland”.

O apelido, uma referência a “Donbás” e “Donald”, foi descrito por quatro pessoas familiarizadas com as negociações, todas falando sobre o assunto sob condição de anonimato devido ao sigilo que as envolve.

Quando um negociador ucraniano mencionou o termo pela primeira vez, em parte jocosamente, foi como parte de uma tentativa de convencer o governo Trump a resistir mais às exigências territoriais da Rússia, de acordo com três das pessoas familiarizadas com as negociações. O presidente Vladimir Putin tem prometido continuar lutando até que as forças russas alcancem uma importante fronteira administrativa no limite do Donbás, a região industrial no leste da Ucrânia onde o Kremlin iniciou a guerra em 2014.

O fato de um nome que evoca a Disneylândia ter sido aplicado a uma faixa despovoada e devastada da região ucraniana produtora de carvão e aço pode parecer chocante, visto que os combates mais mortais na Europa desde a 2.ª Guerra Mundial continuam devastando o país. Mas também reflete uma realidade global na qual os governos apelam à vaidade de Trump a fim de dispor o poderio americano a seu favor.

Pra Ucrânia, o esforço ainda não deu frutos. O termo continua sendo usado nas negociações, embora não tenha sido escrito em nenhum documento oficial. Os negociadores também aventaram a possibilidade do Conselho da Paz de Trump desempenhar um papel na administração da área, embora nem a Rússia nem a Ucrânia tenham aderido até agora, de acordo com quatro pessoas familiarizadas com as negociações.

Mas a Rússia não concordou com um acordo que fosse aceitável pra Ucrânia. Isso fez com que o destino da área que os ucranianos propuseram chamar de Donnyland – com cerca de 80 km de comprimento e 65 km de largura – se tornasse um dos principais pontos de discórdia nas negociações.

As negociações com a Ucrânia prosseguiram nos bastidores nas últimas semanas, mesmo com os principais negociadores dos EUA – Steve Witkoff, amigo próximo e enviado especial de Trump, e Jared Kushner, genro do presidente – concentrados na guerra com o Irã. O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky disse este mês que esperava que Witkoff e Kushner visitassem a Ucrânia em breve. Mas uma pessoa familiarizada com as negociações disse que os americanos ainda aguardavam progresso suficiente pra justificar tal viagem e que pretendiam também fazer outra visita à Rússia.

“A Ucrânia está avançando. Gostaria que eles pudessem se entender”, disse Trump a repórteres na semana passada. “Vamos ver o que acontece. Há coisas acontecendo lá.”

É claro que na campanha presidencial, Trump prometeu acabar com a guerra na Ucrânia em 24 horas. Já faz mais de um ano que ele e seus principais negociadores tentam forjar um acordo de paz, dedicando horas a conversas com Putin e frustrando autoridades ucranianas com a aparência de que estavam agindo como mediadores em vez de defender a Ucrânia.

A “Donnyland” foi uma das maneiras pelas quais os ucranianos tentaram fazer Trump ficar mais do lado deles. Desde que Trump se encontrou com Putin no Alasca em agosto passado, o governo Trump até sinalizou que podia apoiar um acordo de paz no qual a Ucrânia se retirasse pra fronteira administrativa da região de Donetsk, uma das províncias do Donbás – medida que os críticos viram como uma concessão maior ao Kremlin.

Autoridades ucranianas afirmam que cerca de 190 mil pessoas vivem nesse território atualmente. Outras pessoas próximas às negociações dizem que o número real pode ser cerca de metade disso. A região fica tão perto da linha de frente que a principal rodovia de acesso está coberta por redes de proteção contra drones explosivos russos.

Pouco restou da economia local além de uma mina de carvão em operação e comércios que atendem os soldados baseados na área, incluindo lojas que vendem balões e flores pros soldados comprarem às esposas ou namoradas que os visitam.

A Ucrânia insiste que pode defender essa área e que não vai entregá-la. Mas em dezembro, Zelensky sinalizou estar aberto a um compromisso que formaria uma zona desmilitarizada ou uma zona econômica livre sem o controle total de nenhuma das partes beligerantes.

Os ucranianos consideraram, mas não endossaram, propostas pra um administrador neutro ou órgão governamental que teria representantes russos e ucranianos, contanto que a Rússia não pudesse reivindicar o território após a guerra.

O Kremlin afirmou que a Rússia poderia estar aberta à formação de uma zona desmilitarizada se a polícia russa ou soldados da guarda nacional tivessem permissão pra patrulhá-la – medida inaceitável pra Kyiv.

A Ucrânia queria que o governo Trump pressionasse Moscou pra suavizar ainda mais sua posição. Os negociadores ucranianos passaram a chamar a zona proposta de Donnyland, uma área que não seria totalmente controlada por nenhum dos lados e considerada uma conquista pra Trump.

Samuel Charap, cientista político do think tank RAND Corporation que acompanhou as negociações de perto, argumentou que tanto Moscou quanto Kyiv têm mostrado certa flexibilidade quanto ao futuro dessa parte do Donbás ainda controlada pela Ucrânia.

Pra Ucrânia, uma preocupação fundamental é o risco de ceder esse território junto com as fortificações aí construídas e, assim, acabar facilitando uma futura renovação da invasão russa. Charap disse que a Ucrânia parecia ver um benefício de segurança em ter o nome de Trump associado à área.

“Acho que provavelmente eles considerariam ter a chancela de Trump numa zona econômica livre como uma espécie de dissuasão”, disse Charap, referindo-se à Ucrânia.

Outra sugestão foi chamar o acordo pós-guerra de “modelo de Mônaco”, referência à cidade-Estado no Mediterrâneo francês. Assim como Donnyland, tratava-se de um possível mini-Estado semiautônomo que desfrutaria do estatuto de zona econômica offshore. A expressão “modelo de Mônaco” apareceu em rascunhos de tratados, enquanto Donnyland só surgiu em discussões, de acordo com uma pessoa com conhecimento direto das estratégias ucranianas de negociação.

Mas as negociações travaram no final de fevereiro devido à questão territorial, justamente quando a guerra com o Irã distraiu a equipe de negociação dos EUA. Sergei Lavrov, ministro das Relações Exteriores da Rússia, disse que o país aceitaria apenas o controle legal total do Donbás. E Zelensky minimizou as perspectivas de trocar território por paz, dizendo que fazê-lo seria um “grande erro”.

Desde então, Rússia e Ucrânia não cederam quanto ao controle do território, mesmo que as negociações sobre outras questões continuassem, incluindo os compromissos dos EUA em garantir a segurança da Ucrânia após a guerra, de acordo com pessoas familiarizadas com as negociações.

Um negociador ucraniano até criou pelo ChatGPT uma bandeira pra Donnyland – nas cores verde e dourado – e um hino nacional, disse a pessoa que conhece as estratégias ucranianas de negociação. Não está claro se o lado americano chegou a vê-los.



Até os autores tiveram de dizer que a imagem foi feita por IA, rs.

quinta-feira, 5 de março de 2026

O Temer da Shopee ataca novamente

Eis aqui o mais recente pronunciamento de Rezā Pahlavi, filho do último xá do Irã, Mohammad Rezā Pahlavi (que fugiu da turba em fúria em 1979, covarde igual ao tsar Nicolau 2.º, e não foi “deposto”, como dizem na mídia), logo depois do fim do “líder supremo”. Como de costume, ele manda o povo ir lutar na rua, protegido em seu conforto nova-iorquino, toda vez que ocorre uma crise maior. É mais um representante das incontáveis casas monárquicas inexistentes, dentre as quais se destaca, por sua lacração online, a Família Irreal Bananeira, cuja “membra” mais visível tem sido a princesa Gabiroba.

Não quero arrogar a certeza sobre qual é o futuro ideal pro Irã, mas verdade seja dita: por mais que entre grande parte dos exilados e entre camadas jovens ainda no país o príncipe herdeiro seja popular, sua figura, muito menos uma possível volta da monarquia, estão longe de fazer unanimidade. Não só o reinado do último xá foi marcado por uma repressão comparada à atual, mas também seu pai, que “inaugurou a dinastia”, enquanto militar, dando um golpe em seu antecessor, procurou assimilar outras etnias aos persas dominantes e foi derrubado por não se curvar à sede de petróleo dos EUA. Mohammad não queria nem estava preparado pra reinar, o que o levou a tomar as piores decisões durante os protestos populares; e justamente hoje, o aspirante a rei é contestado por seu alinhamento incondicional a Israel, que o quer no lugar da “república islâmica” a qualquer preço (enquanto o próprio Laranjão não bate o martelo).

Eu traduzi o discurso usando o Google por meio da versão em inglês, já que ela deve ter sido feita pela equipe a partir do original persa e ficaria mais confiável do que se eu usasse este último no tradutor. Mesmo assim, comparei o resultado com o texto de partida e, quando necessário, consultei a respectiva palavra em persa:


Meus compatriotas,

Ali Khamenei, o Zahhāk [personificação do mal na mitologia iraniana] de nossos tempos – o demônio que, há poucas semanas, ordenou o massacre de dezenas de milhares dos melhores filhos e filhas do Irã –, se foi.

Com sua morte vergonhosa, e a de muitos de seus nomeados e aliados, a República Islâmica está dando seus últimos suspiros. Por meio da vontade e coragem de vocês, em breve ela vai ser relegada à lata de lixo da história. A grande nação do Irã busca a queda completa da República Islâmica, e nós vamos derrubar este regime demoníaco.

Minha mensagem aos funcionários remanescentes desta república do terror é esta: rendam-se à nação iraniana. Declarem sua lealdade a meu plano e a nossa estrutura de transição, e entreguem o poder sem mais derramamento de sangue.

Qualquer tentativa dos remanescentes do regime de nomear um sucessor pra Khamenei está fadada ao fracasso desde o início. Quem quer que eles coloquem em seu lugar não apenas vai carecer de legitimidade, mas também ser cúmplice dos crimes deste regime.

Aos militares, às forças policiais e de segurança, eu digo: suas armas devem ser usadas pra defender a grande nação do Irã, não a república do crime, da brutalidade e de seus criminosos anti-iranianos. Unam-se ao povo do Irã e à Revolução do Leão e do Sol. Usem suas armas pra proteger os iranianos contra os mercenários da República Islâmica, pra que este pesadelo de 47 anos termine mais rapidamente.

A morte do criminoso Khamenei, embora não pague o sangue derramado, pode acalmar os corações feridos de pais e mães, cônjuges e filhos, irmãs e irmãos enlutados; um consolo pras famílias orgulhosas dos mártires da Revolução do Leão e do Sol do Irã.

Povo honrado e corajoso do Irã,

A morte do déspota de nosso tempo, embora marque o início de nossa grande celebração nacional, não é o fim da jornada. Permaneçam vigilantes. Estejam preparados. A hora de uma presença ampla e decisiva nas ruas está muito próximo.

Peço a vocês que, mantendo-se em segurança, demonstrem sua satisfação e apoio ao esmagamento da República Islâmica por meio de cânticos noturnos e que gritem suas exigências pro futuro do Irã. Minha força provém da força e do apoio de vocês.

Peço aos iranianos no exterior – que durante semanas, sem cansaço nem pausa, têm trabalhado como a voz poderosa de nossos compatriotas no Irã – que intensifiquem seus esforços. Forcem o mundo a ouvir o apoio do povo iraniano a esta intervenção humanitária e nossa exigência da queda completa do regime.

Temos dias sensíveis pela frente. Juntos, vamos trilhar o caminho da vitória e derrubar a República Islâmica.

Viva o Irã.
Rezā Pahlavi


domingo, 1 de março de 2026

A guerra eterna de Putin (The Economist)

Um amigo meu me mandou esta matéria da revista britânica The Economist, publicada na coluna Leaders da edição de 21 de fevereiro de 2026 e intitulada “Putin’s forever war”. A tradução do título, sugerida pelo Google, foi “A guerra sem fim de Putin”, mas eu prefiro chamar de guerra eterna, já que, além de soar mais elegante, forever de fato significa “pra sempre”. Como ficou óbvio, usei o Google pra poupar tempo de digitação, mas como sempre faço nesses casos – e reitero pra que ninguém esqueça –, confrontei o resultado com o original em inglês, já que a mão humana sempre deve finalizar os trabalhos automáticos. Salvo por algumas particularidades redacionais, optei por mexer o mínimo possível no resultado e não lhe imprimir meu famoso “estilo coloquial”.

Exceto pelas curtas notas, concordo em cada vírgula com o texto (que deve ser editorial), pois ele reflete inclusive as análises do jornalismo opositor russo mais próximo das realidades locais – em Moscou e em Kyiv – e de outras organizações ao redor do mundo dedicadas a monitorar os combates. A montagem abaixo, inclusive, vem de um print que fiz do programa analítico semanal de Mikhail Fishman na TV Rain. E é incrível como a mentalidade dos intelectuais e acadêmicos brasileiros continua muito alheia a isso, alegando “distância sanitária” do mundo “imperialista”. E mesmo que o imperialismo ocidental seja um dado irrefutável, como prova a intervenção israelo-americana no Irã iniciada ontem, ainda não programei materiais sobre o que pode futuramente acontecer na região.



O presidente da Rússia não consegue vencer a guerra, mas teme a paz

Você poderia pensar que, após quatro anos sangrentos, uma guerra que nenhum dos lados consegue vencer teria se extinguido sozinha. Mas não a guerra na Ucrânia. E a culpa recai sobre um único homem.

Vladimir Putin está preso em um dilema criado por ele mesmo. As chances de seus exércitos na Ucrânia produzirem algo que ele possa chamar de vitória estão diminuindo. Muitas pessoas esperam que as negociações de paz, que continuam em Genebra esta semana, lhe deem uma saída, porque o presidente Donald Trump forçará a Ucrânia a ceder território. Na verdade, essa rota de fuga está se tornando cada vez menos provável. E mesmo que um acordo de paz fosse concluído, as consequências dentro da Rússia poderiam causar instabilidade econômica e política, arruinando os planos de Putin de ser considerado um dos maiores tsares da história.

O primeiro problema para o presidente da Rússia é o campo de batalha. Na Grande Guerra Patriótica, de junho de 1941 a maio de 1945, o Exército Vermelho avançou 1 600 km de Moscou a Berlim. Nesta guerra prolongada, as forças russas em Donetsk, o foco principal, avançaram apenas 60 km – a mesma distância entre Washington e Baltimore.

A Rússia não conseguiu gerar força de combate suficiente para romper as linhas ucranianas. Na “zona de morte” de 10 a 30 km ao redor da linha de frente, vulnerável a drones e seus operadores oniscientes, soldados e equipamentos não podem se concentrar sem se tornarem alvos. Mesmo que as forças russas consigam romper as linhas ucranianas, elas têm dificuldades para explorar seu sucesso.

Na trajetória atual, Putin não conseguirá mudar isso. Nos primeiros três anos, a Rússia estava construindo seu exército. No final do ano passado, estava perdendo mais homens do que conseguia recrutar. Eles são mal treinados, o moral está baixo e as taxas de deserção estão mais altas do que nunca. A Starlink cortou o acesso das forças russas aos terminais contrabandeados dos quais dependiam para localizar alvos. Seu próprio governo cortou o Telegram, que eles usavam para se comunicar na linha de frente.

Putin terá dificuldades para aumentar a quantidade e a qualidade dos recrutas. A Rússia depende do dinheiro, e não do patriotismo, para alistar soldados. A probabilidade de morte ou ferimentos, a negligência com os veteranos e a tentativa do Estado de se esquivar do pagamento de indenizações [“coffing money”, entre aspas no original] às famílias dos soldados mortos estão elevando o custo do recrutamento. Desde junho de 2025, segundo o think tank Re: Russia [portal independente de análises e discussões], o bônus médio de alistamento aumentou meio milhão de rublos, chegando a 2,43 milhões de rublos (US$ 32 mil). Está cada vez mais difícil encontrar dinheiro. A conta anual de 5,1 trilhões de rublos para tudo isso equivale a 90% do déficit orçamentário federal. O restante da economia está encolhendo. Os pagamentos da dívida estão aumentando. A perspectiva para as receitas do petróleo é ruim.

O esforço de guerra da Rússia não está prestes a entrar em colapso. Putin pode atacar cidades e redes elétricas ucranianas para destruir o moral e a economia. Mas é improvável que ataques aéreos por si só levem à capitulação. Ele pode acreditar que a Europa abandonará a Ucrânia, mas o apoio europeu aumentou no ano passado. Sua maior esperança pode ser que a Ucrânia, sofrendo com grave escassez de mão de obra e equipamentos, passe por uma crise política ou comece a ficar sem combatentes e armas antes da Rússia. No entanto, a aposta de Putin no colapso ucraniano tem sido perdedora nos últimos quatro anos – e as probabilidades estão diminuindo.

Por que, então, ele não concorda com a paz? Se Putin pudesse consolidar os ganhos da Rússia e se reagrupar, ele sempre poderia atacar a Ucrânia novamente em algum momento no futuro.

Na verdade, é improvável que qualquer plano de paz satisfaça a Rússia. As negociações têm um caráter de fachada [Potemkin quality], ilustrado pela promessa absurda de um dividendo de paz de US$ 12 trilhões, grande parte a ser dividida entre a Rússia e os EUA (ver a seção Finanças). Também é improvável que elas deem a Putin o território que ele não conseguiu tomar pela força e que ele deseja para declarar vitória.

Para a Ucrânia, entregar seu território mais bem defendido seria um desastre estratégico. E embora Trump ainda tenha influência, sua capacidade de pressionar Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia, a aceitar um mau acordo já passou de seu auge. É verdade que os EUA ainda vendem armas vitais para a Europa, que as repassa para a Ucrânia. Mas a Ucrânia agora depende menos da inteligência americana do que antes, e os EUA reduziram em 99% seu financiamento da guerra. Se, como parece provável, qualquer acordo de paz envolver garantias de segurança americanas para a Ucrânia que estejam consagradas em um tratado, o Senado terá que ratificá-lo. Isso também ajudará a evitar um acordo unilateral.

Outro motivo para Putin ser cauteloso quanto a um acordo é que a própria paz poderia desencadear uma crise na Rússia. Como explica nossa coluna de opinião, a Rússia desviou tantos recursos para a defesa, agora representando 8% do PIB, que o restante da economia está debilitado (ver a seção By Invitation). A ilegalidade do regime e a perspectiva de novas hostilidades afastarão novos investidores. O desafio de realocar recursos da guerra para a paz, incluindo encontrar trabalho para os soldados que retornam da frente de batalha, pode induzir uma profunda recessão.

A situação política também seria desagradável. Veteranos descontentes desestabilizam regimes, especialmente na Rússia, como aconteceu antes da revolução de 1917 e depois da guerra no Afeganistão na década de 1980. Pesquisas sugerem que os russos inicialmente receberiam bem o fim dos combates. Mas certamente surgiriam questionamentos: sobre a campanha mal conduzida, o desperdício de vidas e recursos e a humilhante dependência da Rússia em relação à China para apoio financeiro e militar em nome da preservação de sua própria civilização. Isso poderia limitar a capacidade de Putin de reiniciar a guerra. Poderia inclusive representar uma ameaça a seu poder.

Putin não pode desistir da guerra, mas o custo de mantê-la está aumentando. Se suas tentativas de gerar mais força de combate apenas enfraquecerem ainda mais a Rússia, isso poderá levar a uma crise. Caso contrário, a Ucrânia e a Rússia ficarão presas no conflito. Há algo que possa ser feito para acabar com isso? Investigar a frota secreta da Rússia e ativar um plano do Senado para punir os compradores de seu petróleo poderia limitar as receitas de exportação. Contrariar a propaganda de Putin de que os EUA e a Europa estão empenhados em destruir a Rússia ajudaria. Assim como corrigir suas alegações de uma inevitável vitória russa: ninguém, muito menos Trump, gosta de apoiar um perdedor.

É difícil forçar um ditador a agir. Em última análise, a disposição de Putin em continuar lutando depende da dor que ele está disposto a infligir. Mas quanto mais dor houver, mais claro ficará para os russos que ele está trazendo a ruína sobre eles.



sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

O putinismo é o novo fascismo (2022)

Esses dias, um amigo meu me repassou este artigo escrito pela historiadora Tamara Eidelman em 2022 e publicado na coluna “State of Affairs” da revista ortodoxa The Wheel. Não sei se foi escrito direto em inglês ou se foi traduzido a partir do russo. Em português, ele se chama “O putinismo como o novo fascismo” e, em pleno início da invasão russa à Ucrânia, a renomada intelectual associa vários aspectos da ditadura de Vladimir Putin – que ficariam muito mais fortes e evidentes no decorrer da matança – ao que o filósofo Umberto Eco chamava de “fascismo eterno” ou “ur-fascismo”. São algumas características de ideologias, partidos ou regimes que o escritor italiano associava não ao encaixe automático no rótulo de fascismo, mas à possibilidade de evoluírem nesse sentido e, portanto, causarem os mesmos estragos.

O sufixo “ur-”, típico do inglês e, sobretudo, do alemão, significa “proto-”, “primitivo”, “original”, ou seja, o núcleo mínimo pra que possa aparecer um fenômeno fascista; não precisa ser a lista completa, mas a verificação da maioria dos itens já acende o sinal de alerta. Se jogarmos no Google, o texto de Eco costuma estar associado a portais de esquerda na década de 2010, sobretudo quando Jair Bolsonaro começava a ganhar notoriedade. Contudo, se aguçarmos nosso senso crítico, podemos associá-lo não só ao putinismo (em especial a Aleksandr Dugin, seguidor de Julius Evola), mas também a Iosif Stalin e ao inferno no qual ele transformou a URSS. O ex-querdista mérdio vai repugnar ambas as associações, só tendo consumido, claro, material de propaganda, e até hoje vai suportar a vergonha de vociferar que “Putin é de extrema-direita, mas não fascista”.

Eidelman, hoje obviamente exilada, tem seu próprio canal no YouTube, com verdadeiras aulas magnas sobre vários períodos da história e uma abordagem pra fazer qualquer ur-idiota útil ou ur-quenga de ditador, à direita ou à esquerda, querer enterrar a cara no chão. Vitório Sorotiuk já dissertou magistralmente sobre o que os ucranianos batizaram então “rashizm”, mas pôde ser facilmente adaptado pro português como “ruscismo” (russo + fascismo). O historiador Timothy Snyder foi outro que defendeu a pertinência e até a “elegância” do termo. Sem mais, e com ocasionais notas e adaptações minhas, vamos lá:




Comentário de agosto de 2026. Notou semelhança
com adolfismo? Pior, usando Stalin como exemplo, eca!


Muitas vezes me pedem para comparar a situação atual na Rússia com a União Soviética de Stalin e a Alemanha de Hitler. Não sou a favor de tais comparações. Elas sempre me parecem um tanto artificiais. Países, épocas e pessoas são sempre diferentes, e tais comparações só podem ser usadas como jogos mentais. É possível observar algumas características em comum, mas é evidente que o regime atual na Rússia é mais brando do que na época de Stalin, e tenho certeza de que não é tão terrível quanto a Alemanha na década de 1930 – por enquanto. Mas, ao mesmo tempo, todo historiador pode tentar analisar e descrever a situação de um país. E para mim, é claro que o regime político russo, a Rússia no momento, pode ser descrito como fascista.

O grande linguista e filósofo italiano Umberto Eco formulou uma lista de 14 características do fascismo. Infelizmente, podemos ver todas ou a maioria delas na Rússia de hoje. Devemos entender que o fascismo nem sempre é a Alemanha nazista, nem sempre é Auschwitz, mas possui muitas características desagradáveis. Vejamos o que Umberto Eco escreveu.

1. O culto à tradição. “Basta olhar para o programa de estudos de qualquer movimento fascista para encontrar os principais pensadores tradicionalistas. A gnose nazista foi alimentada por elementos tradicionalistas, sincréticos e ocultistas.” (Umberto Eco, “Ur-Fascism,” New York Review of Books, June 22, 1995,)

O culto à tradição certamente está presente na Rússia. Não apenas hoje, é claro. Teoricamente, o culto à tradição sempre esteve presente. Mas nos últimos 10 ou 20 anos, ele se tornou cada vez mais forte, e a tradição agora é percebida como uma compreensão muito agressiva e fundamentalista do cristianismo e das antigas tradições russas em geral. Isso significa uma vida familiar muito tradicional, juntamente com a permissão moral e até judicial da violência doméstica. Ao mesmo tempo, fica claro que o Estado russo hoje se entende como a continuação do Estado russo anterior à revolução. Podemos identificar muitas coisas boas na Rússia antes de 1917, mas a Rússia de hoje em dia absorve principalmente aquilo que, na minha opinião, levou à revolução há mais de cem anos, como o cristianismo rígido, o desejo de impedir quaisquer reformas e assim por diante. Portanto, sim, o culto à tradição faz parte da Rússia atual.

2. Rejeição do modernismo. “O Iluminismo, a Idade da Razão, é visto como o início da depravação moderna. Nesse sentido, o ur-fascismo pode ser definido como irracionalismo.”

A Era do Iluminismo está fortemente ligada ao desenvolvimento europeu moderno. Na maioria dos países europeus, a vida se baseia hoje nas ideias da Revolução Francesa: liberté (liberdade), fraternité (fraternidade), égalité (igualdade). Essas ideias foram formuladas no final do século 18 e vêm se desenvolvendo desde então. No momento, a Rússia está rejeitando a maioria das coisas que vêm do Ocidente, especialmente aquelas relacionadas aos direitos humanos (que também vieram do Iluminismo), e está promovendo a velha ideia de que o Ocidente é frio demais, racional demais, intelectual demais, enquanto a Rússia é emocional, o que significa irracional.

3. O culto da ação pela ação. “Sendo a ação bela em si mesma, ela deve ser tomada antes ou sem qualquer reflexão prévia. Pensar é uma forma de castração [lit. “emasculação”].”

Pode não ser tão claro quanto era na Alemanha da década de 1930 ou na Itália de Mussolini, mas o sr. Putin se promove como uma imagem de tal ação. Pelo menos, ele tentou antes da guerra. Hoje em dia o vemos muito raramente, mas antes da guerra e antes da covid, ele sempre se apresentava como uma pessoa fisicamente muito forte, alguém que podia andar a cavalo, voar de parapente, nadar, lutar e assim por diante. Era a imagem de um machão que nunca pensa muito, um exemplo para o povo russo.

4. Discordar é traição. “O espírito crítico faz distinções, e distinguir é um sinal de modernismo. Na cultura moderna, a comunidade científica elogia a discordância como uma forma de aprimorar o conhecimento.”

Na Rússia, é claro que discordar é traição. Lembre-se das centenas, talvez milhares, de russos que tentaram demonstrar sua discordância. Primeiro, Aleksei Navalny, um dos mais importantes líderes da oposição na Rússia, que agora está preso e recebe uma nova sentença a cada poucos meses [como se sabe, ele “seria morrido” em fevereiro em 2024]. E é claro que a ideia das autoridades de Putin é mantê-lo na prisão o máximo de tempo possível. Mas outras pessoas que não são tão famosas quanto Navalny também são presas por discordar, por dizer que a paz é melhor do que a guerra, ou simplesmente por aparecer num local público com um pedaço de papel em branco no qual nada está escrito. Até mesmo algo assim é entendido como discordância perigosa.

5. Medo da diferença. “O primeiro apelo de um movimento fascista ou prematuramente fascista é um apelo contra os intrusos. Assim, o ur-fascismo é racista por definição.”

É evidente que a Rússia é um país verdadeiramente racista, e esse racismo é apoiado e promovido pelo Estado. Temos exemplos terríveis e repugnantes de atitudes racistas contra migrantes da Ásia Central e contra pessoas não brancas. No momento, por mais absurdo que isso pareça, existe uma espécie de racismo contra o povo ucraniano, que é todo apresentado como nazista, como um inimigo perigoso.

6. Apelo à frustração social. “Uma das características mais típicas do fascismo histórico foi o apelo a uma classe média frustrada, uma classe que sofria com uma crise econômica ou sentimentos de humilhação política e que se sentia amedrontada pela pressão dos grupos sociais mais baixos.”

Não tenho certeza se o regime russo visa exatamente a classe média russa, porque a classe média é bastante fraca na Rússia, mas é claro que Putin, desde o início de seu governo, explorou esse sentimento de frustração social que milhões de russos infelizmente sentem desde a década de 1990. Após o colapso da União Soviética, as pessoas se sentiram humilhadas pela má situação econômica, o que levou muitas pessoas – que estavam acostumadas a um certo nível de conforto nos tempos soviéticos – a perderem seus cargos, seus empregos, seu respeito próprio e, claro, seu grande império soviético, com o qual se identificavam. Assim, quando Putin começou a promover sentimentos imperialistas com a anexação da Crimeia em 2014, isso, estranha e tristemente, deu a muitas pessoas um sentimento de orgulho nacional, justamente por causa da frustração social que sentiam antes.

7. Obsessão por conspirações. “Na raiz da psicologia ur-fascista está a obsessão por conspirações, possivelmente internacionais. Os seguidores precisam se sentir sitiados.”

Esta é uma ideia favorita agora; muitas forças diferentes estão conspirando contra a Rússia! O imperialismo americano, claro, é suspeito de querer derrubar o regime russo e enfraquecer a Rússia, como se a Rússia não fosse fraca por si só. Agora os europeus também são considerados inimigos. A União Europeia está conspirando contra a Rússia; eles não querem nosso gás e petróleo. Os ucranianos fazem parte dessa conspiração. E a oposição russa é vista como ligada a esses inimigos terríveis.

8. O inimigo é forte e fraco ao mesmo tempo. “Por meio de uma mudança contínua do foco retórico, os inimigos são, ao mesmo tempo, muito fortes e muito fracos.”

Isso fica claro se observarmos a imagem dos Estados Unidos na propaganda russa. Por um lado, as pessoas são informadas de que os EUA estão tramando para destruir a Rússia. Estão tentando trazer uma série de coisas ruins, do McDonald’s à corrupção moral. Essa imagem mostra os EUA como um inimigo forte e terrível. Ao mesmo tempo, a propaganda apresenta os EUA como um país fraco. Pessoas que se consideram especialistas em política explicam que o país logo entrará em colapso, que a economia americana é fraca, que a situação política americana é muito turbulenta. Assim, os EUA, por um lado, são um inimigo terrível, mas, por outro, caminham rapidamente para sua ruína.

9. O pacifismo é negociar com o inimigo. “Para o ur-fascismo, não há luta pela vida, mas sim a vida é vivida para a luta.”

No momento, na Rússia, não se pode nem chamar de “guerra” o que está acontecendo na Ucrânia. Há uma expressão usada, uma descrição muito estranha dessa situação: a “operação especial”. Não se pode criticar a guerra porque a Rússia não está em guerra com ninguém. A Rússia é apresentada como um país pacífico, embora ao mesmo tempo seja um país que avança com seus exércitos porque luta pela razão certa. Você não pode se opor a isso. Se o fizer, você é um inimigo; ou pior ainda, você é um traidor.

10. Desprezo pelos fracos. “O elitismo é um aspecto típico de qualquer ideologia reacionária.”

Ser uma pessoa fraca, ou ter qualquer tipo de fraqueza, é considerado vergonhoso na Rússia. Existem milhares e milhares de pessoas com deficiência, que recebem muito pouca ajuda do Estado. E (talvez ainda pior) pessoas com deficiência, crianças com problemas físicos ou mentais, são constantemente ridicularizadas, às vezes perseguidas na escola, deixadas em isolamento. Idosos, assim como qualquer um que não seja fisicamente forte e capaz de espancar quem quiser, são considerados ninguém ou quase ninguém.

11. Todos são educados para se tornarem heróis. “Na ideologia ur-fascista, o heroísmo é a norma. Esse culto ao heroísmo está estritamente ligado com o culto à morte.”

Era muito forte na época de Stalin. Os atos suicidas durante a guerra eram apresentados como uma espécie de modelo para todos. Todos deveriam estar preparados para morrer pela pátria. E agora, durante esta guerra que não diz seu nome, também se espera que as pessoas lutem pela pátria – pelo menos é o que dizem (não se pode julgar o que elas sentem ou pensam). Dizem que estão prontas para morrer e para entregar seus filhos ao Estado, porque ser um herói é melhor do que estar vivo.

12. Machismo e armamentismo. “O machismo implica tanto desprezo pelas mulheres quanto intolerância e condenação de hábitos sexuais não convencionais, da castidade à homossexualidade.”

Não tenho certeza sobre a castidade, mas quanto à homossexualidade, assim como aos direitos das mulheres, tudo isso está fora de questão na Rússia de hoje. A homofobia é generalizada; a violência doméstica está em toda parte e é mais ou menos apoiada pelo Estado e pela Igreja. É visto como uma antiga tradição russa que o marido possa bater na esposa e o pai possa espancar e maltratar os filhos. Não há nada de errado nisso. Talvez se deva moderar a violência – não os espancar até a morte –, mas a ideia de maus-tratos físicos é considerada uma tradição russa.

13. Populismo seletivo. “Há em nosso futuro um populismo da televisão ou internet, no qual a resposta emocional de um grupo selecionado de cidadãos pode ser apresentada e aceita como a Voz do Povo.”

Isso é constantemente evidente na TV e em comícios organizados pelo Estado, onde milhares de professores, profissionais da saúde ou outros que recebem salário do Estado são convocados para demonstrar seu apoio. Jovens choram e gritam o quanto adoram seu presidente. Às vezes, tudo isso é completamente falso. Às vezes, as pessoas são dominadas por essa onda de entusiasmo organizado, e esses eventos são apresentados como a vontade de todo o país. Agora temos um debate acalorado sobre quantas pessoas realmente apoiam a guerra. Embora seja claro que muitas pessoas apoiam, nem todos têm tanta certeza de que os apoiadores da guerra sejam realmente tão numerosos quanto a propaganda apresenta. Mostrar todos esses comícios e grupos de idosas gritando seu apoio a Putin é uma forma de sugerir o quanto as pessoas amam seu presidente.

14. O ur-fascismo fala em novilíngua. “Todos os livros escolares nazistas ou fascistas faziam uso de um vocabulário empobrecido e uma sintaxe elementar, a fim de limitar os instrumentos para o raciocínio complexo e crítico.”

Não é tão fácil explicar isso para um público de língua inglesa, mas a novilíngua, como entendida por George Orwell, está claramente presente na Rússia. A língua russa está se tornando cada vez mais empobrecida, cada vez mais primitiva. Há um ou dois anos, um linguista russo muito importante e conhecido, Gasan Guseinov, escreveu um artigo chamando o idioma russo oficial – o idioma usado na mídia atualmente – de uma língua “porcaria”. Isso gerou uma onda de protestos e mudou a posição social desse acadêmico anteriormente respeitado. Ele deixou a Rússia e agora leciona em algum lugar da Europa. Ficou claro que todos os protestos e discursos de ódio dirigidos contra essa pessoa e suas ideias foram inspirados pelo Estado, porque o Estado reconheceu a veracidade de suas acusações.

Todas essas 14 características do fascismo estão presentes na Rússia de hoje, algumas em maior e outras em menor grau. É uma conclusão muito triste e eu realmente espero que não seja assim para sempre. Espero que eu ainda esteja viva para ver mudanças. Digamos não à guerra.



domingo, 1 de fevereiro de 2026

Já se fala no “kholodomor” de Putin!

É fato: no último verão europeu, Putin não conseguiu avançar grande coisa com sua invasão criminosa e injustificada à Ucrânia. Óbvio que foi mais território que nos outros anos, mas uma área extremamente irrisória pra seu objetivo último de capturar Zelensky e sem ruptura maior na frente de batalha nem captura de grandes cidades estratégicas (fora um ou outro ponto logístico). Pior, nunca morreram ou se feriram tantos militares russos quanto no ano de 2025, em comparação com os três anteriores; e estima-se que só as baixas invasoras já são muito maiores que as ucranianas. O império da mentira é tão descarado que, enquanto o Estado-maior do agressor anuncia com fanfarra a tomada de uma cidadezinha lá no fim do mundo, os próprios blogueiros pró-guerra (chamados de “Z-voienkory”), cobrindo no local, negam as informações dos mestres! (Não duvido que esses sabujos um dia vão se lascar quando o Kremlin resolver estabelecer o monopólio da propaganda...)

Quando o exército ucraniano se encontra em dificuldades, os simpatizantes ocidentais de Putin logo rejubilam dizendo pro público ingênuo que “agora a Rússia está com a iniciativa na guerra”; “guerra”, não “invasão”, “agressão”, “anexação” ou “genocídio”. Não nego que outras potências imperialistas no passado tenham usado a destruição de infraestrutura civil pra diminuir a resistência inimiga (os EUA no Iraque, especialmente em Bagdá, em 2003, por exemplo). Por isso, não quero ser acusado de hipocrisia ao tratar o caso de hoje. Mas o que me incomoda não são grupos “progressistas” se esquecendo de guerras ao redor do mundo (há dezenas, e ninguém, muito menos a direita liberaloide, dá conta), e sim claramente pintando criminosos como vítimas ou anti-imperialistas.

Nessa invasão que virou guerra de usura, o recurso à avaria na água, luz, energia, transportes, aquecimento etc. revela justamente a fraqueza, e não a força, do lado que o comete. Porém, a história recente mostra que esse tipo de atitude gera muito mais resistência do povo agredido do que resignação e rendição. Se “viver pra ver”, Putin não vai ter que pagar só diante da Ucrânia e do resto do mundo, mas também, e sobretudo, diante da Rússia que ele está arruinando aos poucos (sim, pode demorar anos, mas os efeitos negativos um dia vão explodir) e dos muitos povos que ele está usando de carne de canhão. Se a tal “comunidade internacional” vai se conscientizar e finalmente tomar uma firme atitude um dia, já é outra questão. O que eu trouxe aqui são fatos que aparecem na mídia combatente em diversas línguas, inclusive russo, e independem de adesão ideológica ou partidária.

E um desses fatos que pode passar esquecido no futuro, mas que faço questão de registrar aqui, mesmo fazendo o mês de fevereiro ser aberto por inominável tragédia, foi informado por Kirill Martynov em seu Notícias Terríveis (Novaya Gazeta Evropa) deste sábado. Uma senhora de 90 anos, sobrevivente do Holocausto, morreu sozinha em seu apartamento de problemas no coração, agravados pela situação em que os bombardeios russos deixaram as infraestruturas civis. As autoridades locais (com que finalidade, hein?...) fizeram questão de ressaltar que o problema foi cardíaco, e não decorrente de congelamento, mas a nova ofensiva de Putin já está sendo chamada de “kholodómor” (холодомор), em analogia com o “holodomór” (голодомор), fome na Ucrânia em 1933-34 que Kyiv acredita ter sido arquitetada por Stalin. “Hólod” em ucraniano e “gólod” em russo significam “fome”, e “khólod” significa “frio” nas duas línguas.

Adendo de um amigo (3/2/2026): “Há dados suficientes (documentos como leis e cartas) que provam que o Holodomor foi dirigido contra certas populações, como as ucranianas, inclusive que viviam em Kursk, Belgorod e no Kuban [hoje partes da Rússia]. No caso do Holodomor, os cazaques e os alemães do Volga [também] foram alvo da fome genocida.”

A informação, que traduzi mais abaixo, foi dada em inglês no Équis pelo rabino-chefe da Ucrânia, Moshe Azman, e noticiada também em inglês pelo portal Inkorr, em russo pelo portal TSN e em ucraniano pelo portal Vikna. O mesmo Inkorr também noticiou o laudo sobre sua morte por isquemia cardíaca crônica, e não por hipotermia.

O mais revoltante é uma sobrevivente do Holocausto ter morrido perto de 27 de janeiro, dia internacional de lembrança de suas vítimas, e vários outros sobreviventes da Shoah, bem como veteranos, centenários ou quase, da 2.ª Guerra Mundial (que a memória stalino-putinista instrumentalizou como “Grande Guerra Patriótica”) terem perecido sob as bombas do Kremlin, apesar de sua verborragia “antifascista”. A mesma comemoração que parte da esquerda lembra pelo fato dos soviéticos terem sido os libertadores de Auschwitz não os alerta sobre o crescimento global do antissemitismo, sobretudo na Rússia “anti-imperialista”, e a distorção, por esse invasor, do combate ao adolfismo, que cresce a olhos vistos em sua própria pátria.



Em Kyiv, Ievgenia Mikhailovna Bezfamilnaia [tal como figura no post, deixei o nome em russo, e Martynov disse que ela falava essa língua e o ídiche], uma senhora de 90 anos da comunidade judaica, morreu devido às condições de vida insuportáveis. Ela sobreviveu milagrosamente ao Holocausto, mas não sobreviveu às ações dos “desnazificadores” ruSSos, que a condenaram a uma morte terrível em um apartamento gelado durante uma severa onda de frio invernal, privando não só ela, mas todos os moradores de Kyiv de aquecimento, água e eletricidade. Numa época em que a temperatura chegou a 24 °C negativos!!!

Oficialmente, a causa da morte consta como insuficiência cardíaca, mas todos nós entendemos perfeitamente que, dada a sua idade e as suas inúmeras doenças, as terríveis condições de vida em que se encontrava, devido aos constantes ataques ruSSos à infraestrutura civil de Kyiv, simplesmente “acabaram” com esta avó heroica, que resistiu até o fim...

Ievgenia Bezfamilnaia foi morta pelo exército ruSSo, assim como o médico Alexander Bonder, de 84 anos, membro da comunidade judaica de Kherson, que faleceu recentemente em decorrência dos ferimentos sofridos em um bombardeio ruSSo. Sob os slogans de “desnazificação” e “libertação”, eles lançam drones, mísseis e todos os meios de destruição, matando pessoas inocentes na Ucrânia e condenando-as a uma existência em um frio insuportável, sem água ou eletricidade...

O funeral de Ievgenia Mikhailovna será realizado no domingo, no cemitério judaico de Barakhty.

Baruch Dayan a-Emet. Que sua memória seja abençoada!


terça-feira, 27 de janeiro de 2026

A Pérsia “roubou” o conceito de Irã!

Há algum tempo acompanho no YouTube o canal Hikma History, de um rapaz com sotaque (a meus ouvidos) levemente britânico e identificado como Tariq, que afirma estar fazendo seu PhD em História. Entre outras coisas, “hikma” em árabe significa “conhecimento, sabedoria”, e o assunto é justamente a história política do mundo muçulmano desde a Idade Média europeia, abrangendo de antigos impérios até os ditadores modernos. De um ponto de vista laico, sem proselitismos. Eu também achava que sua pronúncia de alguns nomes era baseada no persa, ainda que desconfiasse que ele não fosse iraniano.

Porém, após uma pesquisa, descobri esses dias que o estudante é um imigrante afegão de nome completo Tariq Basharat, sua língua materna é o pastó – e não o persa, do qual ele teria um conhecimento básico – e ele mora nos EUA, e não no Reino Unido. Há poucas informações soltas sobre sua biografia, e embora sua data de nascimento seja desconhecida (ao menos sem uma conta no LinkedIn; aparenta estar na faixa dos 30), ele teria vindo do Afeganistão com oito anos de idade, segundo uma página que reúne informações sobre youtubers relevantes. Exceto em vídeos antigos, só recentemente ele começou a mostrar mais seu rosto, intercalando com as já célebres gravuras lindíssimas.

Praticamente TODOS os seus vídeos são ótimos e úteis, mas raramente resolvo os traduzir pra transformar em texto aqui, como fiz ontem com o vídeo do francês Mounir Laggoune, da Finary, sobre a Suíça. Sendo um vídeo explicando como o atual Irã, que até 1935 se chamava Pérsia e era herdeiro de um império milenar, “surrupiou” a identidade iraniana – que abarca diversos povos – como exclusividade dos persas, possui considerável interesse e utilidade pros brasileiros hoje, se acompanham o noticiário internacional. Imprimi um tom mais informal à linguagem e, sempre que possível, tentei achar versões portuguesas dos nomes endógenos.



A história é um tema muito útil no âmbito da política. Ela pode ser usada pra conectar uma nação a um passado antigo, repleto de contos de glória e conquistas. No período moderno, vários países muçulmanos começaram a demonstrar grande interesse pela história de suas nações. A Pérsia, bastião da civilização que sempre foi, abraçou esse desenvolvimento com entusiasmo. Tanto que seu governante autocrático e modernizador, Reza Shah Pahlavi, decidiu mudar oficialmente o nome do país pro seu nome histórico, “Irã”. Esse era o termo pelo qual a região era conhecida no passado.

O único problema era que o termo, na verdade, implicava uma área muito maior que apenas o atual Irã. Pérsia deriva de Fars, que é apenas uma das muitas províncias do Irã. Consequentemente, os persas tiveram um papel dominante na formação da cultura iraniana. No entanto, a mudança oficial do nome foi criticada por muitos intelectuais em países vizinhos como o Afeganistão, porque “o nome do todo foi dado a uma parte”. Junte-se a mim enquanto discuto a formação das identidades modernas e como a história pode moldá-las.

Nem todos os iranianos são persas, bem como nem todas as pessoas que se identificam como persas são necessariamente de origem iraniana. Eu explico: em sua definição mais literal, alguém é iraniano se a língua nativa de seus ancestrais puder ser incluída no grupo linguístico iraniano do ramo indo-iraniano, que por sua vez pertence à grande família linguística indo-europeia. De acordo com essa definição, um osseto cristão lutando contra a Geórgia e a Rússia hoje é tão iraniano quanto um persa xiita comerciando em Shiraz. Existem hoje aproximadamente 200 milhões de falantes nativos de línguas iranianas, como o pastó, o curdo e o persa, que por si só representa quase metade desses 200 milhões. Todas essas línguas descendem da mesma língua hipotética proto-iraniana, que surgiu há cerca de 4 mil anos na estepe pôntica-cáspia, após a separação dos povos iranianos e indo-arianos ou índicos.

Os antigos iranianos cultuavam um panteão de deuses, com Aúra-Masda como ser supremo. Eles se distinguiam por sua devoção a Aúra-Masda e se definiam por essa devoção: a coleção de textos sagrados zoroastrianos conhecida como Avestá define “Arya” – um termo que se traduz mais ou menos como “iraniano” nos dias de hoje – em parte pelo culto da pessoa a Aúra-Masda. Se ela não a cultuava, essa pessoa não era iraniana. Os diversos povos iranianos gradualmente se espalharam pela Europa Oriental, Ásia Central e Oriente Médio. Entre os diversos grupos de iranianos, nenhuma cultura teve uma presença mais duradoura em toda a região do que a dos persas.

O primeiro Império Persa, fundado por Ciro, da dinastia dquemênida, por volta de 559 AEC, foi mais poderoso e influente que qualquer outro império na história que o precedeu. A cultura persa era vista pelos contemporâneos como refinada e irretocável, enquanto Ciro era conhecido como um adversário implacável e um governante benevolente. À medida que ele e seus sucessores xás conquistavam mais territórios, interagiam com os diversos povos do Levante, da Mesopotâmia e da Ásia Central. Com o tempo, muitos desses povos adotaram os costumes persas e ampliaram a extensão do Grande Irã. De fato, a cultura persa era tão estimada que os conquistadores de terras persas tentavam se legitimar como governantes por meio de suas próprias conexões com o prestígio persa. Alexandre [“o Grande”] da Macedônia misturou elementos helenísticos e persas em sua conquista do Império Aquemênida, frequentemente enfatizando demais o aspecto persa aos olhos de seus súditos macedônios.

Mesmo cerca de um milênio após a conquista muçulmana, permaneceu na moda entre os não persas reivindicar descendência genética ou filosófica de figuras como Ciro. Mais tarde, em 224 EC, surgiu um segundo Império Persa sob a dinastia sassânida, cujos governantes patrocinaram avanços incríveis na ciência e na literatura e buscaram ativamente emular seus predecessores aquemênidas. Até a era sassânida, o termo “Ērān” era usado apenas em referência às terras onde os iranianos viviam, sendo, portanto, mais conceitual do que tangível. Foi durante a era sassânida que Ērān passou a ser usado também para se referir às terras controladas pelo Ērānšahr [ou Iranshahr], endônimo sassânida que significa Império dos Iranianos.

Essencialmente, o conceito de Irã é anterior à hegemonia persa, embora as noções de identidades iraniana e persa continuem a interagir e se influenciar mutuamente. A noção de Irã como uma nação com fronteiras, no entanto, é uma ideia inerentemente persa. A rápida conquista de todo o Império Sassânida pelos califas islâmicos destruiu o Irã politicamente. Mas a cultura persa sobreviveu aos califados ortodoxo [rashidun] e omíada, até permear a cultura dos califas abássidas muçulmanos. Então, no contexto do declínio dos abássidas no século 9, diversas dinastias iranianas muçulmanas afirmaram sua autoridade no Iraque, na Pérsia, no Corassã e na Transoxiana. Esse período ficou conhecido como o Interlúdio [Intermezzo] Iraniano ou Renascimento Persa.

Apesar de estarem sob a suserania dos abássidas, na prática esses Estados desfrutavam de independência, que utilizaram para revitalizar o espírito nacional iraniano. Curiosamente, dos cerca de 15 estados regionais durante o Interlúdio, apenas dois (taíridas e buídas) eram provavelmente de origem étnica persa. Os 13 restantes incluíam três dinastias de origem iraniana oriental, quatro dinastias de origem iraniana cáspia, cinco dinastias de origem curda, pelo menos em parte, e uma dinastia de origem turca que tinha sido culturalmente persianizada. Apesar de suas origens díspares, cada uma dessas dinastias contribuiu de alguma forma pra revitalizar a influência cultural persa no Grande Irã.

O Interlúdio serviu como uma expressão de rebelião contra a dominação cultural e política dos árabes sobre os iranianos. Isso se estendeu à esfera religiosa, já que alguns dos Estados do Interlúdio eram xiitas. Os buídas do Irã e do Iraque simbolizavam isso: eram xiitas duodecimanos que orgulhosamente destacavam seus laços com a Pérsia pré-islâmica. Os governantes buídas gravaram muitas inscrições na capital aquemênida, Persépolis, e fizeram referência constante ao Ērānšahr, ou Grande Irã. De muitas maneiras, o xiismo ofereceu aos iranianos a possibilidade de serem diferentes, mantendo sua recém-descoberta identidade islâmica, que a essa altura já estava integrada à consciência iraniana. Isso se tornou importante aos safávidas mais tarde, quando buscavam se diferenciar dos otomanos.

Além disso, o xiismo lhes deu espaço pra expressar suas práticas culturais juntamente com suas práticas religiosas, considerando que o xiismo era muito menos ortodoxo que o islamismo sunita dominante. Nesse contexto, a rebelião antiabássida do Movimento Curramita foi uma seita sincrética que se inspirou tanto no islamismo xiita quanto no zoroastrismo. Na época, os xiitas ainda estavam formulando o cânone de suas crenças – pros xiitas duodecimanos, esse processo só se completou no século 17 com as obras de Mohamed Baqer al-Majlesi.

Mais ao norte dos emirados buídas, nas costas isoladas do mar Cáspio, a antiga religião zoroastriana ainda mantinha uma forte presença. No Tabaristão, Mardavij estabeleceu a dinastia ziárida com a intenção de restaurar um império iraniano nativo, com o zoroastrismo como religião oficial. Logo depois, os ziárias se converteram ao islã, mas os cronistas árabes consistentemente se referiam aos dailamitas e guilitas que viviam na região como ateus, provavelmente devido à sua heterodoxia religiosa. Assim, de modo geral, o Interlúdio Iraniano permitiu que marcadores de identidade pré-islâmicos – a herança aquemênida e sassânida, o zoroastrismo, bem como a língua persa – fossem incorporados de forma robusta a uma identidade iraniana muçulmana.

Falando em persa, a obra quintessencial da literatura iraniana, a Epopeia dos Reis [Shāhnāmeh], também surgiu durante este Interlúdio. Desde sua conclusão, há mais de mil anos, moldou o conceito de nacionalidade iraniana. Servindo nas cortes dos samânidas e dos gasnévidas, o poeta Ferdusi compilou centenas de contos persas de grande importância cultural, incluindo textos do Irã pré-literário e histórias de sua própria autoria. A origem persa dos contos da Epopeia dos Reis, portanto, vinculou para sempre os iranianos a uma herança cultural persa compartilhada. A Epopeia redefiniu o significado de ser iraniano e até hoje permanece uma fonte de unidade e reverência para milhões de iranianos.

Mais de 900 anos após a Epopeia dos Reis definir a identidade iraniana, o espectro do imperialismo europeu do século 20 desencadeou intensos debates sobre a melhor forma de proteger a nação iraniana – e a quem essa nação pertencia. Em 1925, após anos conduzindo o Irã à ruína, a dinastia cajar foi deposta por Reza Shah Pahlavi. O novo xá declarou à comunidade internacional em 1935 que não era o “Xá da Pérsia”, mas sim o “Xá do Irã”, e que a partir de então seu país deveria ser chamado apenas “Irã”. O pedido de Reza Shah tinha como objetivo obter legitimidade histórica pra sua nação. As nações ocidentais prontamente adotaram a mudança de nome, mas a declaração de Reza Shah provocou uma reação muito mais diversa entre os não persas no Grande Irã.

Nesse período, no mundo islâmico, houve uma explosão repentina de interesse pela herança pré-islâmica, especialmente por sua capacidade de legitimar o Estado-nação. No Afeganistão vizinho, havia uma intelectualidade vibrante e em expansão, ansiosa por explorar o rico passado antigo de sua nação. O historiador afegão Ahmad Ali Kohzad denunciou a mudança de nome como uma tentativa persa de reivindicar a posse do Grande Irã em sua totalidade, opinando amargamente que “o nome do todo foi dado a uma parte”. Contudo, Kohzad também reconheceu, ainda que relutantemente, a enorme influência persa sobre o Grande Irã como um todo.

Nesse sentido, Reza Shah, que nasceu Reza Khan numa família mazandarani do Cáspio, lançou uma campanha de persianização que visava eliminar as identidades culturais de não persas, incluindo os mazandaranis étnicos. Os povos turcos foram os principais alvos, embora muitos dos arquitetos e apoiadores mais fervorosos dessa política de assimilação forçada fossem azerbaijanos étnicos que tinham rejeitado sua etnia turca em favor de uma identidade persa.

Além do Oriente Médio, a política identitária desempenhava um papel fundamental na política europeia. Reza Shah era um admirador de Hitler. Da mesma forma, seu filho e sucessor, Mohammed Reza Shah, chegou a fazer alusão positiva à teoria da raça ariana ao descrever o Irã como semelhante às “outras nações arianas da Europa”. Lembremos que na época, a Europa e o Ocidente eram vistos como o ápice da civilização. Muitos líderes do Oriente Médio, incluindo Atatürk, amigo de Reza Shah, sentiam que precisavam se tornar semelhantes aos europeus pra serem fortes e poderosos como eles.

Ambos os xás da dinastia Pahlavi fomentaram essa fusão entre o excepcionalismo persa e o secularismo radical que o acompanhava e reprimiram brutalmente qualquer descontentamento manifestado pelos influentes clérigos islâmicos do país e pelas massas iranianas em geral. Isso culminou com a deposição de Mohammad Reza em 1979 e a instalação de uma teocracia islâmica ultraconservadora em seu lugar, inaugurando uma Pérsia sem monarquia pela primeira vez na história registrada e um futuro instável.

As identidades iraniana e persa se misturaram e divergiram com tanta frequência ao longo de mais de 2 mil anos que, às vezes, é difícil discernir quais aspectos de cada uma são distintos. A autoridade duradoura e relativamente incontestada da república islâmica, portanto, pode potencialmente redefinir permanentemente a identidade iraniana mais uma vez. O domínio do islã no Irã não é novidade, mas a rejeição da herança persa pela liderança iraniana, sim. Ferdusi relatou com orgulho mais de mil anos de tradição cultural persa zoroastriana na Epopeia dos Reis, embora ele próprio fosse muçulmano.

O atual Estado iraniano se mantém distante de grande parte da herança persa, intrinsecamente ligada à terra. Só o tempo vai dizer se ele vai se engajar com a identidade persa histórica ou contribuir pro desenvolvimento de uma nova. Meu palpite é que vai ter o mesmo efeito pendular das reformas modernizadoras dos Pahlavi: fazer com que, no final, um número suficiente de iranianos retorne ao extremo oposto.



segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Filha 3 de Putin: “Destruiu minha vida”


Endereço curto: fishuk.cc/rozova




Disclaimer: Após alguns rumores recentes (11/8) de que as fotos e o referido grupo do Telegram podem não pertencer realmente a Luiza Rozova, gostaria de afirmar o seguinte: 1) O fato do material poder não ser da filha de Putin não anula a existência dessa filha, ou seja, de uma relação extraconjugal de alguém que usa a Igreja como meio de opressão. 2) Os depoimentos dos donos das galerias e dos colegas com quem Luiza trabalha afirmaram várias vezes suas posições antiguerra (as quais ela teria acabado de desmentir). Portanto, essa parte parece verossímil e os desmentidos podem fazer parte de um processo de fuga de consequências. 3) A suposta falsidade do material é infinitamente menos grave do que o apoio, velado ou não, que alguns ainda demonstram à agressão russa contra a Ucrânia e do que o permanente caráter propagandístico e desinformativo que a mídia estatal do Kremlin tomou nos últimos anos. 4) Eu não estaria sendo honesto com meus princípios se não estivesse trazendo também as dúvidas que a própria mídia dissidente levantou. Porém, dado o que expus nos itens anteriores, não vou apagar esta publicação, apenas cabendo ao leitor estabelecer seu próprio julgamento sobre o contexto inteiro.

Em 4 de agosto, a imprensa alemã confirmou o que há alguns dias o canal dos colaboradores do finado Aleksei Navalny sugeriram conforme depoimento de conhecidos: a desconhecida filha bastarda de Vladimir Putin critica abertamente a invasão da Ucrânia pela Rússia. Luiza, como é mais conhecida, nasceu em 2003, quando o já sucessor de Boris Ieltsin ainda era casado com a ex, Liudmila, e tinha as filhas jovens Iekaterina e Maria, nascidas na década de 1980.

Ou seja, o maior crítico da “degeneração ocidental” simplesmente “pulou a cerca”: babado radiativo na Eurásia! Há algum tempo eu queria falar sobre ela, e finalmente surgiu a oportunidade: após passar um tempo “escondendo a cara” nas redes sociais, “Luiza” (que não está no Canadá... entendeu?) finalmente voltou a se mostrar, mas num grupo fechado do Telegram. Ela tem também um Instagram privado, caso você queira tentar...

Me baseei nas versões publicadas no Daily Mail e no Sun (edição EUA), cujos textos são parecidos (o original do Bild é pra assinantes). Traduzi ambas e fiz uma fusão dos dois textos, com imagens tiradas também de outros sites. Reparou que a matéria cita três nomes usados por Luiza (nenhum deles contendo... “Putina”)? A metamorfose, pelo menos, foi uma habilidade puxada do pai, rs.

Por anos, o Kremlin também tentou blindar as duas filhas “legítimas”, que hoje atuam como cientistas usando outros sobrenomes e têm cada vez mais aparecido na TV estatal como “especialistas” entrevistadas. A versão do Sun tem uma surpresa: um vídeo mostrando o rosto de Ivan Putin, que seria, segundo “Dosié”, seu filho mais velho com Alina Kabaieva, ex-ginasta e suposta companheira atual! Eles teriam também o caçula Vladimir, e originalmente não havia imagens suas...



A suposta filha secreta de Vladimir Putin quebrou o silêncio sobre o pai pela primeira vez numa série de publicações enigmáticas nas redes sociais. Ielizaveta Krivonogikh, 22 anos, também conhecida como Luiza Rozova, desabafou sobre um homem que “destruiu” sua vida e revelou seus pensamentos sobre a guerra do ditador na Ucrânia. Luiza, formada em arte, DJ e moradora de Paris, fez alusão ao “homem que tirou milhões de vidas e destruiu a minha”. As publicações não mencionam Putin explicitamente, mas no contexto de relatos generalizados sobre as ações de seu pai na guerra e sobre sua identidade, suas palavras foram inferidas como uma repreensão amarga ao líder.

Luiza também publicou uma selfie sua num carro, com a legenda: “É libertador poder mostrar meu rosto ao mundo novamente. Isso me lembra quem eu sou e quem destruiu minha vida”, relata o Bild, que tem acesso ao “Art of Luiza”, canal privado da moça no Telegram. Em seu Instagram, Luiza fazia questão de esconder o rosto, mas ultimamente voltou a compartilhar fotos suas por inteiro. Ela não especifica quando ou onde foram tiradas, mas a mais recente foi nos últimos dias, numa filial da rede de cafeterias russa Surf Coffee.



Luiza nasceu em 3 de março de 2003, em São Petersburgo, e acredita-se que seja filha de um caso entre Putin e sua ex-faxineira Svetlana Krivonogikh, sancionada pelo Reino Unido em 2023 e, segundo a mídia russa independente, integrante do círculo íntimo de Putin. As alegações sobre a identidade de seu pai foram tornadas públicas pela primeira vez pelo projeto investigativo anti-Kremlin “Proekt” em 2020. Krivonogikh teria obtido, em circunstâncias desconhecidas, uma fortuna considerável após o nascimento de Luiza, alimentando especulações de que o dinheiro teria vindo de Putin pra comprar seu silêncio. Embora a certidão de nascimento de sua filha omita o nome do pai, ela menciona seu patronímico “Vladimirovna”, uma pista sobre suas possíveis origens.

Luiza já teve contas de mídia social publicamente visíveis na Rússia, que a mostravam viajando pelo mundo em jatos particulares, tocando em clubes exclusivos e usando roupas de grife. Mas então, pouco antes da Rússia invadir a Ucrânia, sua conta foi repentinamente excluída. Ela se mudou pra Paris e se formou na Escola de Gestão Cultural e Artística do ICART em junho de 2024. Ao deixar a Rússia, ela escreveu no Instagram: “Não consigo dar uma volta extra em minha amada São Petersburgo. Não consigo visitar meus lugares e estabelecimentos favoritos.” No entanto, mais de três anos após a invasão inicial da Rússia, Luiza ressurgiu nas redes sociais com uma imagem completamente diferente. Ela parece ter se tornado mais política e falou abertamente contra a guerra na Ucrânia, ao mesmo tempo em que denunciava o luxo.



A suposta filha de Putin também adotou o nome Ielizaveta Rudnova, supostamente inspirado em Oleg Rudnov, um dos falecidos comparsas de Putin, numa tentativa de esconder sua verdadeira identidade. Há relatos de que ela estaria trabalhando na L Galerie (em Belleville) e na Espace Albatros (em Montreuil), ambas galerias de arte em Paris que sediam exposições antiguerra. Dizem que seu papel como gerente de galeria inclui ajudar a organizar exposições e fazer vídeos. Mas a tentativa de Luiza de se inserir nos círculos dissidentes de Paris não ocorreu sem resistência.

A artista Nastia Rodionova, que fugiu da Rússia em 2022, fez uma declaração furiosa e cortou laços com as duas galerias às quais Luiza é associada. Em publicação no Facebook, escreveu: “É importante dizer que acredito na presunção de inocência e que os filhos não são responsáveis pelos crimes de seus pais. Mas com a guerra atingindo seu ápice, é inadmissível permitir que uma pessoa que vem de uma família de beneficiários do regime [de Putin] entre em confronto com as vítimas desse regime. Precisamos saber com quem estamos trabalhando e decidir se estamos prontos pra isso. Minha resposta pessoal neste caso é não.”

Luiza defendeu sua posição e escreveu: “Sou realmente responsável pelas atividades de minha família, que nem consegue me ouvir?” Dmitri Dolinski, diretor da L Association, que controla o Studio Albatros e a L Galerie, apoiou o engajamento de Luiza. Ele disse ao Times: “Ela se parece com Putin, mas outras 100 mil pessoas também se parecem. Não vi nenhum teste de DNA.” Outros colegas a apoiaram, chamando-a de “pessoa culta” e “excelente trabalhadora”. Mas Rodionova reagiu, insistindo que as vítimas da guerra não deveriam ser forçadas a dividir o espaço com ninguém ligado ao regime, seja ela suposta filha ou não.