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terça-feira, 20 de outubro de 2026

Macron critica arruaça em Paris (2026)


    Mais uma vez a França entrou em ebulição com protestos sociais que degeneraram em quebradeira geral e violência entre policiais e jovens manifestantes nas ruas de Paris e de outras grandes cidades. Sob o governo de Emmanuel Macron, caracterizado por seu anacrônico liberalismo desmantelador da proteção social estatal e protetor dos ricaços contra taxação, esses espasmos se tornaram mais frequentes. O mais famoso deles foi o movimento dos “coletes amarelos” em 2018 e 2019, contra o aumento no preço do diesel (então devido a um imposto que o presidente queria implantar) e interrompido apenas pela pandemia de covid-19. Outro que marcou os espíritos foi contra o assassinato do jovem Nahel por policiais, dentro de um carro, em 2024, e o deste ano começou com paralisações em escolas públicas de ensino médio (os famosos lycées, ou liceus) e em universidades, às quais se juntaram outras categorias profissionais. O mote passou a ser cada vez mais a crítica ao aumento dos preços, especialmente dos combustíveis (agora ligados às instabilidades na região do Golfo), e à deterioração geral dos serviços públicos, em particular da saúde.

É curioso que no Brasil, o bolsonarismo que reivindica o “liberalismo” econômico jamais reivindicou o macronismo, preferindo a amizade com o grupo estatista de Marine Le Pen, enquanto Lula, em defesa da tal “democracia”, vive de passeios com Janja e o banqueirinho de Amiens. Além disso, o presidente vive falando que quer “dialogar, escutar, resolver tudo junto”, mas nos primeiros debates ele vira as costas e sai reclamando do mundo, resolvendo as coisas da própria cabeça. Pra piorar, veio com a desculpa de que precisava “garantir as reservas de combustível” pra escapulir exatamente pro Golfo, deixando seu premiê Tião “chifrando” sozinho os desafetos. O quadro geral é esse, e não vou entrar em mais detalhes históricos e ideológicos, destacando apenas que toda vez que algo desses ocorre na Gália, me lembro desta página “Sou fã dos franceses porque qualquer coisa eles vão lá e queimam carros” no Facebook, não atualizada desde junho de 2025, mas cuja última publicação curiosamente traz Jones Manoel bem antes de ser eleito deputado phoderal...

Macron teve de sair do silêncio e, antes de seu “Tour d’Arabes”, gravou um discurso mostrando sua opinião e, mais uma vez, seus planos fajutos pra “resolver as coisas no diálogo”. Dada a importância histórica, não pude deixar de traduzir nem de publicar o quanto antes, mesmo tendo de adiar conteúdo que já tava programado. Eu mesmo traduzi a partir do texto original publicado no portal da presidência francesa, e seguem abaixo o vídeo incorporado a partir do canal pessoal de Emmanuel Macron e o discurso completo. É curioso que mesmo em francês, a palavra “factieux”, que em português daria literalmente em “facciosos”, não é de uso comum, e pra nosso propósito traduzi como “arruaceiros”, ideia que imprimi a todo o discurso – a da “arruaça”. Sendo algumas escolhas difíceis de se resolverem literalmente, também ressalto que traduzi “préfet” (que não se trata de um “prefeito” brasileiro) como “administrador/administração regional”, não eleito por sufrágio universal, e “casseur” e “casse” (ligados a “casser”, i.e. “quebrar”) como “vândalo” e “vandalismo”:



Meus caros compatriotas, estou me dirigindo a vocês esta noite num momento de extrema gravidade, após o que vivenciamos ontem em inúmeras cidades da França, tanto no território europeu como nos ultramarinos. Ontem, sábado, 17 de outubro, arruaceiros [factieux] oriundos de grupúsculos de extrema-esquerda, aos quais se juntaram inúmeros delinquentes, promoveram uma violência desenfreada em nossas cidades. Estabelecimentos comerciais foram saqueados, prédios públicos, lojas e prefeituras foram atacados e, em alguns casos, destruídos. Centenas e centenas de policiais civis e militares ficaram feridos.

Vendo essas imagens, todos nos perguntamos: o que eles têm na cabeça? Como franceses podem fazer isso com a França? Por que incendiar a prefeitura de Limoges e o escritório de turismo em Lyon, invadir a prefeitura em Marselha ou atacar a residência do administrador regional [préfet] em Bordeaux? Como podem chegar a esse ponto? Nada justifica, nada explica e nada desculpa tais atos.

Esta noite, todos sentimos raiva e vergonha. É insuportável ver as ruas de nossas cidades devastadas assim. Em nome de vocês, expresso o apoio da nação a nossas forças da ordem e de segurança interna. Elas resistiram e fizeram o melhor que podiam. Somos solidários com os inúmeros feridos e suas famílias. Expresso também nosso apoio a todos os nossos prefeitos e políticos. Quero demonstrar também nosso apoio aos inúmeros comerciantes, artesãos e agentes econômicos que sofreram as consequências dessa violência e que se encontram hoje em total desamparo. Alguns defenderam por conta própria suas lojas e vitrines contra os delinquentes. Quero lhes dizer que não vão ser deixados sozinhos diante dessas dificuldades. O governo vai lhes trazer respostas. A partir de amanhã, o primeiro-ministro vai presidir um comitê de crise pra mobilizar os auxílios mais rápidos possíveis e acompanhar aquelas e aqueles que atravessam esses momentos tão difíceis.

É preciso ser lúcido. Ontem, nossas forças da ordem, apesar de seu profissionalismo, tiveram de enfrentar uma violência inaudita em inúmeras cidades, por várias vezes. Solicitei ao governo que extraia todas as lições necessárias em matéria de inteligência e antecipação, garantindo que tais episódios não voltem a ocorrer. Estou esperando respostas claras e garanto que a transparência vai ser total; foi o que pedi ao ministro do Interior. As investigações vão ser conduzidas com toda a diligência necessária e o mais rápido possível, e o ministro da Justiça solicitou ao procurador a maior firmeza possível. O monitoramento judicial deve ser exemplar. Nossos juízes estão administrando a justiça em nome de vocês e sabem o que vocês esperam. Sempre que infrações são cometidas, elas devem resultar nos devidos monitoramentos judiciais. Quem destruiu deve pagar. Quem saqueou deve reembolsar. Quem tentou derrubar a República vai ter de responder por isso.

É preciso também observar com lucidez o que está se expressando no país. Ontem, centenas e centenas de milhares de nossos compatriotas protestaram, desejando trazer reivindicações legítimas. Jamais devemos confundir estes últimos com os que destruíram, quebraram e saquearam. Esses manifestantes demonstraram sua preocupação com o custo de vida e o preço dos combustíveis, cuja origem reside no conflito deflagrado no Golfo Pérsico, do qual a França não participou, mas cujas consequências estamos sofrendo. Entendo perfeitamente sua preocupação. Aliás, ela também se expressa em várias outras capitais europeias. Nesse sentido, tomei várias iniciativas em nível internacional pra garantir nosso abastecimento de combustíveis e gás e atuar nos mercados de energia. Vou dar sequência a essas ações a partir de amanhã de manhã, visitando países do Golfo pra assegurar nosso suprimento. O primeiro-ministro e o governo também tomaram decisões, em articulação com os distribuidores de combustíveis, pra que esses esforços se reflitam concretamente nos preços. O governo está fazendo o máximo esforço pra resolver a questão fundamental do poder de compra. Sei que os franceses esperam resultados concretos, e vamos continuar agindo.

E há várias semanas, nossos jovens vêm expressando uma angústia profunda nas escolas de ensino médio e nas universidades. Uma inquietação quanto ao futuro, às condições de vida e de estudo, à capacidade de se orientar, fazer planos e encontrar seu lugar na sociedade. De algum modo, a ideia de que o futuro pode não ser desejável. Entendo nossos secundaristas e universitários. Eles estão no centro de minha atuação política há mais de dez anos. Suas vozes devem ser ouvidas, sem preconceitos e sem minimizar as dificuldades. O governo já iniciou um trabalho nesse sentido. O ministro da Educação Nacional se mobilizou e criou uma plataforma que reuniu mais de 100 mil contribuições, somando-se às reuniões realizadas no nível das circunscrições educacionais [académies] e das escolas. Isso vai nos permitir construir respostas adequadas junto com nossos jovens.

Portanto, nossa responsabilidade é dupla: ouvir a raiva e atuar sobre suas causas, bem como garantir o firme respeito à ordem republicana. Não devemos confundir as reivindicações legítimas com a violência nem permitir que a violência impeça essas reivindicações de serem ouvidas. Por isso, nesta noite quero apresentar um método claro. Primeiro, no contexto atual, as administrações regionais vão tomar decisões em articulação com os prefeitos pra proteger nossas cidades, prédios públicos e estabelecimentos comerciais, inclusive proibindo, se necessário, certas aglomerações e adotando todas as medidas cabíveis. Segundo, apelo a todos os partidos políticos, organizações profissionais e sindicatos que condenem inequivocamente qualquer violência e peçam calma. Cada um deve assumir suas responsabilidades. O país precisa de ordem e pacificação, não de ainda mais tensão. Nos próximos dias, o primeiro-ministro vai reunir esses grupos pra obter posicionamentos claros e públicos. Terceiro, não podemos pedir a nossos jovens que acreditem no futuro sem lhes dar a possibilidade de construir as respostas e estar à mesa de negociação. Sim, precisamos nos sentar à mesa e juntos construir soluções. Alunos, universitários, professores, representantes das organizações patronais e sindicais, autoridades locais e parlamentares, a partir desta semana, vão elaborar propostas concretas com o governo. O primeiro-ministro vai os reunir nos próximos dias com esse objetivo. Quero ser muito claro aqui: vamos ser implacáveis com os vândalos e todos que cometem violência. A escuta e o diálogo não significam fraqueza nem impunidade.

Meus caros compatriotas, estamos a seis meses de nossa eleição presidencial. A seis meses. Portanto, todos os que hoje dizem a vocês que a prioridade é ir pra rua protestar e causar desordem têm um só objetivo: estragar a República e roubar o debate. As escolhas que vocês e todos nós teremos de fazer pro futuro daqui a seis meses são fundamentais. A França é uma grande força democrática e merece esses debates. Eles devem ocorrer em reuniões públicas, congregando os partidos, e não na rua por meio da violência. Devem ocorrer nos jornais, nas bancadas de televisão e em manifestações pacíficas, onde conversamos e esclarecemos com respeito, e nunca na desordem e no vandalismo. Em seis meses, nosso país merece uma bela eleição presidencial. Ela também está se definindo agora, mediante o senso de responsabilidade. Sim ao diálogo, sim às respostas concretas de curto prazo e à preparação das decisões futuras. Mas não à violência, sempre, seja ela qual for. Precisamos de unidade, calma e respeito.

Viva a República e viva a França.


sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Nicolas Sarkozy diz admirar Lula (2023)


    Nesta entrevista a um dos principais canais de TV públicos da França dada em 23 de agosto de 2023, o ex-presidente direitista Nicolas Sarkozy reconhece admirar Lula. Corrupto, grosseiro, pouco culto, policialesco, um dos piores governantes que o país já teve (não conseguiu se reeleger em 2012) e amigo de ditadores, em especial do líbio Gaddafi – de quem se suspeita ter financiado ilegalmente a primeira campanha do francês em 2007 –, vejam como o advogado admira o ex-metalúrgico. Com um fã-clube desses, eu preferia viver numa caverna, rs... Seguem a tradução sem transcrição e o trecho separado do resto da conversa:

“Sarkolula” – A política foi minha vida. Estaria mentindo se lhe dissesse que ela não me interessava mais. Aliás, esta é a prova: estamos falando a respeito. Sou apaixonado, interessado, às vezes fico exasperado ou entusiasmado...

Gilles Bouleau – Em seu livro o sr. expressa sua admiração por Lula, homem de esquerda no Brasil, e diz que ele é inoxidável e superou tantas provações, deixou o poder, foi condenado e preso, ele voltou e foi reeleito presidente...

“Sarkolula” – Ele teve um câncer na garganta que o privou... [da voz?]

Gilles Bouleau – Essa trajetória o inspira ou não? O sr. diz que o que ele fez, o sr. também está fazendo.

“Sarkolula” – Admiro e gosto do Lula, mas... eu jamais romperia com a França. E a política sempre vai me interessar. Mas não voltaria a responsabilidades ativas ou operacionais, porque meu tempo passou, e como dizia um grande autor [Jean Jaurès, outro político de esquerda], “O rio é fiel a sua fonte correndo para o mar.”


Outro copríncipe de Andorra que adorava passear com o Molusco (e a Janja, claro) era Emmanuel Macron. Em maio de 2027, ele vai ter que procurar outro emprego, mas aproveitou bem essa década no cargo, sobretudo quando dava de visitar nossa vizinha Guiana. O cacique Raoni Metuktire, condecorado em 2023 “Cavaleiro da Legião de Honra” da França (seja lá o que isso signifique numa República), tá mandando o RURA acordar diante da possibilidade de perder pro Flávio, rs. Uma das pérolas que vai entrar pros anais da tradução é a interpretação de “Olouluoluolouluuuuula” como “Considero o Lula como irmão”:


Como alívio cômico, nesta edição do programa francês C dans l’air dedicada a como manifestantes em vários países muçulmanos estavam protestando contra a França após o 7 de Outubro em Israel e como as tensões intercomunitárias podiam respingar em Paris, um dos especialistas convidados (aqui abreviado) explica o medo que o presidente do Egito tem de abrir completamente a fronteira com a Faixa de Gaza e sofrer um afluxo de refugiados. Porém, parece que o apresentador Axel de Tarlé teve um problema pra pronunciar o nome do ditador, que em português acabou soando algo bem dúbio... Segue apenas a tradução sem transcrição:

Basbous – O Hamas é a ramificação palestina da Irmandade Muçulmana, e esta é a inimiga do regime no Egito. Abrir o caminho entre Gaza e o Sinai significa transportar o êxodo dos palestinos armados do Hamas e pôr o regime em dificuldades. Então...

Tarlé – Al-Xixi teme o Hamas, é isso?

Basbous – Obviamente!


quarta-feira, 14 de outubro de 2026

V. Kará-Murzá em francês (8/10/2026)


    Na manhã de 8 de outubro de 2026, o político e historiador russo Vladímir Kará-Murzá concedeu uma nova entrevista em francês à Rádio França Internacional (RFI), desta vez se concentrando nos movimentos de oposição na Rússia, em especial o partido Iábloko, contrário à guerra, e na incapacidade das potências ocidentais de frear a agressão de Putin contra a Ucrânia. Abaixo você pode assistir à íntegra de sua conversa com o jornalista Arnaud Pontus no canal oficial, e achei o conteúdo tão importante que decidi, mesmo sem autorização, traduzir pro português e colocar aqui. No portal da RFI em inglês também há uma transcrição adaptada da entrevista, mas não a usei pra fins de comparação.

Usei o site Turboscribe pra tirar do vídeo uma primeira versão da transcrição usando a tecnologia IA, depois comparei o resultado com o áudio e finalmente traduzi com o Google a versão corrigida, tendo revisado manualmente o resultado. Sendo um grande intelectual, Kará-Murzá é fluente em francês, mas tive que tirar alguns cacoetes orais mais repetitivos e corrigir a gramática. Não sendo o francês minha língua materna, meu trabalho pode não estar perfeito, mas espero que possa ter contribuído a quem se interessa pelo assunto:


Olá, Vladimir Kará-Murzá.

Olá e muito obrigado por seu convite.

Nós que agradecemos por estar aqui na RFI. Após mais de quatro anos e meio de guerra na Ucrânia, a Rússia intensifica seus ataques, especialmente contra a capital, Kyiv. Estaria Vladimir Putin, hoje, embarcando numa fuga pra frente?

Vladimir Putin está no poder há quase 27 anos. Durante todo esse tempo, esse homem continuou matando em nosso país, no interior da Rússia, e também fora de nossas fronteiras. O regime de Putin significa guerra. O regime de Putin significa agressão. O regime de Putin significa represálias. Portanto, enquanto esse homem permanecer no poder, essa guerra vai continuar. De fato, esse é o único jeito dele se manter no poder, porque obviamente ele é um usurpador e não possui nenhuma legitimidade democrática, já que não há eleições na Rússia há muitos anos.

Houve eleições recentemente, as eleições legislativas em setembro?

Entre aspas, sim, claro. Eleições entre aspas, isso sem falar do controle total do governo sobre a mídia e o sistema político. Mas mesmo nessas condições, como você sabe muito bem, o único partido contrário à guerra, chamado Iábloko – um partido liberal que se opõe à guerra na Ucrânia e pede um cessar-fogo imediato –, foi excluído do pleito pelo regime de Putin. Eles temiam que, mesmo com todo o controle, toda a censura e todas as manipulações, não conseguissem esconder o fato de que milhões e milhões de pessoas na Rússia se opõem a essa guerra e a essa ditadura. Isso poderia ser uma repetição do que vimos em Belarus há seis anos, em 2020.

Mesmo numa eleição que não passa de uma farsa, que não é uma eleição de verdade, se existe uma alternativa na cédula, milhões de russos votam nela, e por isso o regime de Putin excluiu esse partido da disputa. Mas, ao mesmo tempo, eles deram uma clara e eloquente demonstração de medo, pois admitiram que toda aquela propaganda sobre todos na Rússia estarem aparentemente apoiando essa guerra não passa de uma grande mentira.

Vladimir Kará-Murzá, como você entende a estratégia de Putin? Que ele precisa absolutamente da guerra pra se manter no poder, que essa é a única maneira dele continuar?

Todo ditador precisa de inimigos.

Inimigos internos ou externos?

Ambos. Ao mesmo tempo, é claro. E as coisas estão ligadas. Eu, por exemplo, fui preso porque me opus publicamente à guerra na Ucrânia. São os dois lados da mesma moeda.

Gostaria de relembrar brevemente que você foi condenado a 25 anos de prisão por condenar essa guerra na Ucrânia, a invasão russa da Ucrânia, e que foi condenado por alta traição.

Sim, agora é isso. Na Rússia de hoje em dia, é considerado crime manifestar-se publicamente contra o governo, sobretudo contra a guerra. Temos agora mais de 2 mil presos políticos identificados na Rússia, pelo que se pode sabe até o momento. Em meados da década de 1980, havia cerca de 750 presos políticos identificados nominalmente em toda a URSS, isso englobando o que são hoje 15 países. Só a Rússia, atualmente, tem mais de 2 mil presos políticos. E, claro, a categoria que cresce mais rapidamente é a de pessoas, meus compatriotas russos, que se manifestam publicamente contra essa guerra criminosa e cruenta que o regime de Putin está travando na Ucrânia.

Vladimir Kará-Murzá, você fala em presos políticos. Há alguns dias, Dmitri Peskov, porta-voz do Kremlin, negou categoricamente a existência de presos políticos na Rússia. O que esse tipo de declaração lhe inspira?

Nada de novo aqui. Na década de 1950, por exemplo, Nikita Khruschov, então líder da URSS, disse exatamente a mesma coisa. De fato, é uma simples repetição direta. Ele dizia que não havia prisioneiros políticos na URSS, mas apenas criminosos ou loucos. Afinal, como você sabe muito bem, os dissidentes eram enviados pelo regime soviético não apenas a prisões, mas também a hospitais psiquiátricos. Isso é uma forma de tortura. Portanto, não surpreende nem um pouco que o porta-voz da propaganda putinista diga isso.

O que me surpreende – e acredito ser importante falar sobre isso aqui em Paris – é que, como você sabe, há duas semanas a França pediu a suspensão das sanções contra dois grandes oligarcas do Kremlin, Alisher Usmanov e Mikhail Fridman. A União Europeia o fez em conjunto, mas por iniciativa da França. E pra mim, antes de tudo, isso é um sinal muito perigoso de que o Ocidente, a UE e, especificamente, a França estão dispostos a retomar o business as usual com o regime de Putin, a normalizar novamente as relações com o Kremlin. Mas o fato da França estar tão determinada, por razões que desconheço, a suspender as sanções contra esses dois oligarcas próximos a Putin é algo absolutamente incompreensível pra mim. Por que o governo francês não pediu, pelo menos, a libertação de alguns prisioneiros políticos russos que estão à beira da morte?

Você gostaria de ter criado uma moeda de troca? Que houvesse uma troca, de certa forma? Teria sido mais aceitável, nesse contexto, suspender as sanções contra oligarcas russos em troca da libertação de prisioneiros políticos?

Primeiramente, como já disse, pra mim é completamente incompreensível por que a França fez isso, em primeiro lugar, porque o que foi que eles fizeram, Fridman ou Usmanov? Eles criticaram o regime de Putin? Não. Eles tomaram distância da guerra na Ucrânia? Não. E não consigo ver absolutamente nenhuma razão pra França estar tão determinada a suspender as sanções. Mas o que digo é: se o governo francês tinha suas razões, as quais desconheço, pra suspender as sanções contra esses dois senhores realmente próximos do Kremlin e da ditadura de Putin, enquanto a guerra na Ucrânia continua e as represálias dentro da Rússia aumentam a cada dia, o mínimo que a França podia fazer era exigir, em troca, a libertação de, sei lá, uma centena de presos políticos russos que podem morrer amanhã ou na semana que vem.

E pra mim, o fato da França não ter feito isso é espantoso, incompreensível. E, se me permite a palavra, em minha opinião, é vergonhoso. Mas também preciso dizer que não quero ficar sentado aqui criticando apenas a França, pois não é só ela. Existe uma tendência perigosa em todo o mundo ocidental. Por exemplo, há um mês, o Canadá suspendeu as sanções contra outro oligarca putinista, Anatoli Chubais, novamente sem qualquer motivo.

Você quer nos dizer que existe uma tendência geral no mundo de pensar: “Ora, pois, no fim das contas vamos poder conversar, vamos ter que conversar com Putin”.

Mas isso é uma loucura total, porque, pra mim, uma das lições mais claras da história do século 20 é que as tentativas de apaziguar um agressor, na verdade, nunca levaram à paz. Sempre levam a mais guerra, mais sangue, mais dor e mais crimes. Porque tentar apaziguar um agressor, um ditador, só serve pra aumentar seu apetite e suas ambições. E já vimos isso acontecer com Vladimir Putin ao longo dos últimos 27 anos.

E pra mim, é absolutamente espantoso que os países ocidentais estejam prestes a fazer isso novamente. Há apenas uma semana, Donald Trump, presidente dos EUA, convidou Putin pra cúpula do G20 em Miami, em dezembro. Lembre-se que Putin tem um mandado de prisão expedido pelo Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra. E o presidente dos EUA, aparentemente a democracia mais importante do mundo, o convida pra uma cúpula... Não tenho palavras, nem em russo, e não apenas em francês, pra descrever o que penso sobre tudo isso.

A Rússia é acusada com frequência pela Europa de intensificar, em seu território, o que se chama de ataques híbridos, tentativas de sabotagem e violações do espaço aéreo por drones. Você vê nisso uma tentativa de intimidação por parte do presidente russo? E a resposta europeia lhe parece suficientemente firme?

Primeiro, por favor, não chame Putin de presidente. Ele não é presidente, é um ditador sob vários aspectos.

Entendo o que você diz. Vladimir Putin está tentando intimidar os europeus? E os europeus estão dando a resposta adequada?

Quanto à primeira pergunta, sim. Quanto à segunda, não, infelizmente. Porque, mais uma vez, vemos essa tendência muito perigosa...

Estão querendo normalizar as relações, é isso?

Apaziguar, normalizar as relações com alguém que não entende só a linguagem dos princípios, a linguagem de uma posição firme. Mas, infelizmente, não vemos isso. E, sobretudo, com o crescimento do apoio político a forças pró-Putin aqui na França, na Alemanha, em outros países da Europa Ocidental... Normalmente, trata-se da extrema-esquerda ou da extrema-direita. Eles são... Talvez sejam diferentes em qualquer outro aspecto, mas quanto à atitude perante Putin, são realmente iguais. E isso é muito perigoso, em minha opinião.

Com certeza. Há um descontentamento crescente entre os cidadãos russos, hoje na Rússia, devido aos efeitos da guerra na Ucrânia. Vemos incursões de drones ucranianos quase diariamente, escassez de combustível, cortes de internet... Será que tudo isso pode ter um desdobramento político? Se fôssemos um pouco românticos, seríamos tentados a perguntar: acaso poderia haver uma revolta?

É apenas uma questão de tempo até que ocorram grandes mudanças políticas na Rússia. Vimos uma demonstração muito clara de medo por parte do Kremlin, em agosto de 2026, quando Putin excluiu o Iábloko, único partido contrário à guerra, das eleições legislativas, pois percebeu que, mesmo com todo o controle, toda a censura e tudo a seu dispor, haveria milhões de russos que votariam nesse partido. Mas o problema pro Kremlin é que, tudo bem, eles conseguiram excluir da disputa o partido de oposição, o partido contrário à guerra. Mas isso não muda o fato de haver milhões de pessoas na Rússia hoje que se opõem a essa ditadura e a essa guerra, que querem que a Rússia um dia se torne um país normal, democrático, europeu. E mesmo que Vladimir Putin não o queira realmente, esse dia chegará.

Mas a oposição russa poderia tirar algum proveito político disso? A oposição russa está hoje muito desunida e fragmentada.

Não acredito sequer que se possa usar a palavra “oposição” quando se fala de uma ditadura. “Oposição” é um termo do vocabulário dos países democráticos, como aqui na França. Mas a questão, pra mim, não é a oposição, mas os milhões de russos, incluindo muitos jovens, que têm uma visão muito diferente pro futuro de nosso país. Sabe, no dia em que o Iábloko, o partido contrário à guerra, foi excluído do pleito, a decisão partiu formalmente da Suprema Corte, embora todos saibam que foi Putin quem decidiu. Mas naquele dia havia milhares de pessoas ao redor da Corte, jovens, de fato a geração de meus filhos, com 18, 19, 20 anos, algo assim. E eu via os vídeos e as fotos de Moscou e observava como aqueles jovens gritavam palavras de ordem contra a guerra, cantavam e riam diante dos policiais que estavam ali. E eu pensava: essa juventude é o futuro da Rússia, enquanto o ditador septuagenário no Kremlin não é e nunca vai ser.

O opositor russo exilado Garry Kasparov afirmou que sua vida corria perigo. Na última quinta-feira, ele disse ter sido informado pelos serviços de segurança lituanos e americanos de que devia tomar medidas de precaução. Você também é um opositor exilado: se sente igualmente em perigo?

Não penso nisso. Todos conhecem a realidade do regime de Vladimir Putin.

Você não acha que, como opositor exilado, poderia sofrer ameaças diretas ou correr risco de vida?

Veja, pra mim, permanecer em meu país sempre foi uma questão de princípio. A razão pela qual estou aqui é aquela troca de prisioneiros que você mencionou. Pra mim, sempre foi uma questão de princípio ficar em nossa terra, em minha casa, em meu país. E o FSB, o serviço de segurança de Putin, me envenenou duas vezes, em 2015 e em 2017. Depois, me deram esses 25 anos de prisão: podiam ter me matado lá dentro a qualquer momento. Portanto, não há nada de novo. A única novidade aqui é que, aparentemente, agora coisas assim também podem acontecer nos EUA. Porque antigamente havia aquela teoria de que, na década de 1970, os serviços secretos americano e soviético firmaram um “acordo de cavalheiros” pra não realizar ações desse tipo em território um do outro.

Não se elimina ninguém no país do outro.

Exatamente. Mas, com essa notícia, esse anúncio do Departamento de Justiça americano [que Kará-Murzá chama erroneamente de “ministério”], a questão da repressão transnacional em si não é novidade. Sabemos que o regime de Putin ataca seus opositores políticos não apenas na Rússia, mas também no exterior. Isso ocorreu em Londres, em Berlim, mas nunca, até agora, nos EUA. Então, a verdadeira novidade aqui é que, aparentemente, isso também pode ocorrer em solo americano.

Você não se sente protegido? Não há ameaça, você se sente seguro onde quer que esteja exilado?

Não penso nisso. Tenho trabalho demais pra pensar nessas coisas, porque...

Você toma precauções especiais?

Não, na verdade, não. O que se pode fazer?

Pois é, estamos conversando livremente, você chegou aqui tranquilamente.

O que se pode fazer? Não, se vivermos cada dia pensando nisso, ficamos paranoicos. E tenho trabalho demais pra entrar nessa enrascada.

E já fico claro que isso não vai o intimidar, de qualquer forma, Vladimir Kará-Murzá?

Não, mas acredito no que estou fazendo. Amo meu país e quero que a Rússia tenha um futuro normal, que a Rússia se torne um país civilizado, moderno, europeu, democrático, e vou fazer tudo o que estiver a meu alcance pra que esse dia chegue um pouco mais cedo.

Obrigado, Vladimir Kará-Murzá, por ter vindo à RFI.

Muito obrigado a vocês.



domingo, 4 de outubro de 2026

Atritos entre Macron e Bolsonaro (2019)


    Esta é a republicação de parte de um conteúdo que tinha aparecido em 2019 sob o título geral de “Memes sobre Bolsonaro”, e sua aparição não tem nada a ver com a jornada eleitoral hodierna. Como tô expurgando parte de minha página de conteúdo que hoje acho muito sem graça ou de mero valor humorístico, sem acrescentar muito pra cultura, decidi pelo menos guardar dois vídeos, um com tradução, da época em que Emmanuel Macron começou a se indispor com Jair Messias por causa daquela infame reação a um moleque que comparou Michelle (“bonita”) com Brigitte (“feia”). Os textos abaixo seguem praticamente os mesmos, portanto, devem ser lidos dentro da conjuntura da época, levando-se em conta possíveis evoluções posteriores.

No ápice das turbulências internacionais em que Bolsonaro se meteu, sou a última pessoa a passar o pano pro Macron, que de fato foi oportunista ao se tornar presidente “alternativo”, fundando um partido com as iniciais do próprio nome, após ter servido como ministro das Finanças do socialista François Hollande. Mas também é difícil defender certas molecagens vindas de Abraham Weintraub, um ministro da Educação que pouco entende de sua própria área.

Pior foi o Bolsonaro cair na pegadinha de um Zé Mané no Facebook qualquer fazendo comparação besta entre esposas, algo além de tudo extremamente machista. Não vou repetir a história já muito difundida nas mídias. Já falei várias vezes que nunca quis apoiar nem atacar o presidente de forma ativa, mas como cidadão e pagador de impostos (como adoram falar os que não gostam de filme pornô ou gay se beijando na rua) tenho o direito de criticar essas atitudes, mesmo que o ofendido não seja digno dos melhores juízos.

Pra piorar o mico, junto a Macron nesta coletiva de imprensa estava Sebastián Piñera, presidente de nosso vizinho Chile que ainda por cima já teve de ouvir Bolsonaro falar bem do assassino Pinochet. Leiam a transcrição da fala, já traduzida em português no vídeo:


“Il se trouve qu’hier il [Bolsonaro] a considéré que c’était une bonne idée que son ministre [Weintraub] ‒ ça n’arrive jamais en France qu’un ministre de la République insulte quelque dirigeant que ce soit ‒ profère des insultes à mon endroit et lui, qu’il tienne des propos extraordinairement irrespectueux à l’égard de mon épouse. Qu’est-ce que je peux vous dire ? C’est triste. C’est triste, mais c’est triste d’abord pour lui et pour les Brésiliens. Et donc... moi, je pense que les femmes brésiliennes ont sans doute honte de lire ça de leur président. Je pense que les Brésiliens, qui sont un grand peuple, ont un peu honte de voir ces comportements, ils attendent quand on est président qu’on se comporte bien à l’égard des autres. Et comme j’ai beaucoup d’amitié et de respect pour le peuple brésilien, j’espère très rapidement qu’ils auront un président qui se comporte à la hauteur.”


Os “conservadores” brasileiros, vendo no mundo anglo-saxão seu modelo ideal, sempre criticaram a França e os intelectuais franceses ou radicados no país como mentores de nossa esquerda “utópica, radical e irrealista”, tendo Rousseau como mestre fundador. E parece que infelizmente, essa rusga chegou ao nível do Estado, com Bolsonaro se friccionando com Macron e a imprensa francesa ressaltando os traços mais autoritários do governo em Brasília. Dada a qualidade e interesse do conteúdo, mesmo que eu não detenha os direitos autorais da matéria, fiz um vídeo com o áudio do repórter Elcio Ramalho, do serviço em português brasileiro da Rádio França Internacional (RFI). Ele trouxe em seu programa “RFI Convida” de 6 de agosto de 2019 o jurista brasileiro Rubens Casara, que está fazendo seu pós-doutorado em Nanterre, na França.

Os temas principais da conversa foram a partidarização política do Poder Judiciário no Brasil, sua submissão aos interesses econômicos e o conceito de “pós-democracia”, segundo o qual o Estado de direito consolidado nas últimas décadas, que impunha limites ao arbítrio de certos agentes, está perdendo sua força. Ao contrário do que defendem os partidários da Lava-Jato, Casara pensa que a justiça brasileira tem partido político, sim, e tem desvelado cada vez mais sua defesa do status quo econômico em detrimento dos pobres e necessitados. A “pós-democracia”, pra ele, significa que Estados autoritários são aceitos pelo consenso geral pra que esse poder continue firme e forte: o modelo neoliberal de economia perderia seu caráter clássico pra assumir uma feição mais restritiva e predatória.

Cabe lembrar que a RFI tem uma orientação progressista levemente de esquerda e que ela tem dado ampla voz aos críticos e opositores de Bolsonaro, sobretudo brasileiros que residem em Paris ou em outras partes da França. Além disso, devido a divergências culturais, valorativas e diplomáticas, o governo do PSL [do qual Bolsonaro sairia em novembro de 2019 e que se fundiria com o Democratas em 2021-22 pra formar o atual partido União Brasil] tem entrado em constante conflito com o presidente Emmanuel Macron, que pretende ser uma espécie de “meio-termo” entre as direitas nacionalistas e as esquerdas combativas. Ouça também a transmissão completa da RFI, com outros quadros informativos.


sábado, 22 de agosto de 2026

15 anos sem Gaddafi: a Líbia destruída


    Hoje vamos de algo mais “leve”, se é que de leve a reportagem tem só o tamanho mesmo. Há 15 anos assistíamos aos bombardeios de países da OTAN contra a infraestrutura da Líbia e as tropas do ditador Moammar Gaddafi, mais conhecido como “o rei africano dos looks”. Seu legado ainda é contraditório: se opôs à ingerência ocidental no país riquíssimo em petróleo e redistribuiu essa riqueza pra alcançar o maior IDH do continente; porém, foi extremamente brutal contra os críticos, financiou o terrorismo ao redor do mundo e surrupiou a maior parte dos royalties do ouro negro, enquanto a população ficava só com o mínimo necessário.

Minha geração (nasci em 1988) se acostumou, ou se resignou, a ver os EUA e seus aliados europeus intervirem militarmente em países africanos e asiáticos sob pretextos humanitários, pra fazer gato e sapato dos governos e instituições locais. Claro que a grande maioria era tiranias sanguinárias, mas a derrubada delas devia ser obra do próprio povo. O levante armado contra Gaddafi eclodiu na esteira das “revoltas árabes” de 2011, quando ele acabou massacrando a oposição – como Bashar al-Asad, que só cairia após 13 anos de guerra civil –, mas foi enfraquecido pela intervenção da OTAN, que o acusou de promover um “banho de sangue”, embora os próprios ocidentais tivessem feito a mesma coisa.

Gaddafi terminou assassinado em circunstâncias misteriosas em 20 de outubro de 2011, em Sirte – cidade natal aonde tinha fugido –, mas seu regime já tinha praticamente terminado em 23 de agosto, quando os rebeldes tomaram o controle das instalações do governo na capital Trípoli. A guerra civil em si terminou antes do fim do ano, mas pelo menos dois governos paralelos, apoiados por grupos diferentes de países, até hoje disputam o monopólio do reconhecimento internacional. Nesta edição de 21 de agosto de 2026 do Jornal da África (Rádio França Internacional), da qual separei o trecho, os âncoras introduzem o relato da jornalista Houda Ibrahim, feito nos dois últimos parágrafos.

Após usar esta ferramenta online pra transcrever o áudio por IA e corrigir os poucos erros ainda cometidos, traduzi sem usar o Google e adaptei a transliteração do árabe dos nomes líbios a minha própria prática, mais baseada na fonologia. Deixei a transcrição pra ajudar quem esteja aprendendo francês.



15 anos após a queda de Moammar Gaddafi, a Líbia continua dividida. Fraturado entre dois governos rivais que buscam se eternizar, o país mergulha numa profunda crise institucional e securitária. Porém, em 20 de agosto de 2011, enquanto caía o regime de Gaddafi, esperava-se um vento de liberdade e prosperidade. Mas hoje os líbios estão presos num verdadeiro inferno econômico, reféns de um impasse político cujo fim eles não conseguem enxergar. Reportagem de Houda Ibrahim.

Curiosamente, os 15 anos da queda de Gaddafi foram acompanhados por uma onda de violência que castigou o leste e o oeste do país, começando pelo assassinato em Benghazi do General [Fawzi] Al-Mansori, chefe do serviço de inteligência do Marechal Khalifa Haftar, passando pelo lançamento de drones contra instalações energéticas essenciais em Zawiya, no oeste. Os dois poderes são responsáveis em medida igual pela crise que se transforma numa realidade à qual as partes envolvidas, dentro e fora da Líbia, se adaptam e pra qual deixam de buscar uma verdadeira solução.

No final, as eleições gerais aguardadas pro fim de 2023 não ocorreram. O Estado desmoronou, assim como a transição política. As forças que emergiram de suas ruínas conseguiram construir interesses que tornam vantajoso pra eles manter o status quo. Ano após ano, as administrações, as redes econômicas, os aparelhos de segurança e as elites locais vão se enraizando nessa realidade, tornando cada vez mais difícil a unificação do Estado. A unidade implica necessariamente uma redistribuição do poder, das riquezas e da influência.



15 ans après la chute de Muammar Kadhafi, la Libye reste toujours divisée. Fracturée par deux gouvernements rivaux qui cherchent à se pérenniser, le pays, s’enfonce lui dans une crise institutionnelle et sécuritaire profonde. Pourtant, le 20 août 2011, le régime de Muammar Kadhafi tombait, à l’espoir d’un vent de liberté et de prospérité. Mais les Libyens sont pris aujourd’hui dans un véritable enfer économique, otages d’une impasse politique dont ils ne voient pas la fin. [Reportage de] Houda Ibrahim.

Curieusement, le 15e anniversaire de la chute de Kadhafi s’est accompagné d’une série de violences qui ont touché l’Est et l’Ouest du pays, à commencer par l’assassinat à Benghazi du général al-Mansouri, chef du service de renseignement du maréchal Khalifa Haftar, en passant par les frappes de drones ayant visé des installations énergétiques vitales à Zawiya à l’Ouest, renvoyant dos à dos les deux pouvoirs responsables de la crise qui se transforme en une réalité à laquelle les parties prenantes, internes et externes, s’adaptent, en cessant de chercher une vraie solution.

Les élections générales espérées pour fin 2023 n’ont finalement pas eu lieu. L’État a échoué, tout comme la transition politique. Les forces qui ont émergé de cet échec ont réussi à construire des intérêts qui rendent le statu quo avantageux pour elles. Année après année, les administrations, les réseaux économiques, les appareils sécuritaires et les élites locales sont racinées dans cette réalité, rendant l’unification de l’État de plus en plus difficile. L’unité implique nécessairement une redistribution du pouvoir, des richesses et de l’influence.


sábado, 18 de julho de 2026

Sorria: a Argentina pode estar roubando


erickfishuk.blogspot.com/pessi



Este meme resume a publicação. Pesquise a respeito.


Se já não disse aqui, escrevo agora: não gosto nem de jogar nem de assistir a futebol e só me interesso por ele na medida em que se relaciona a temas de minha predileção, como história, política, geopolítica, culturas e idiomas. E humor também, claro. E pra minha alegria, cada Copa do Mundo tem se tornado sempre mais geopolítica, sendo a deste ano o ápice do processo. A começar por se realizar em três países ao mesmo tempo, sendo que um deles, o Zesteite, se situa “de sanduíche” entre os outros dois, os quais, pra piorar, estão com as relações diplomáticas azedadas com o primeiro. E sempre pode ficar ainda pior: os três logo caíram fora do torneio, e o Canadá está literalmente “esfumaçando” a final que vai se realizar no vizinho do sul.

A coisa fica ainda mais divertida com a popularização das redes sociais, hoje facilmente portáveis nos smartphones a um bolso de distância. Mesmo quem não as usa acaba recebendo respingos das intermináveis discussões, com seus memes, polêmicas e virais de todo tipo, um novo modo de expressão a ser estudado pela história cultural. Por essas razões, mesmo em se tratando da campanha abominável da çelessão Canalhinha, ela se torna assunto entre todos os jornalistas e figuras públicas e condiciona a relação do gado trouxa público com o resto da competição. E o que pode mais eriçar um tupiniquim senão um sucesso da eterna rival Argentina, pior, sua segunda chegada consecutiva ao final do certame? Por alguns instantes a crônica bananeira se precipitou em comparar o que “nós” erramos com o que “eles” acertaram, mas mesmo do exterior podemos perceber que a coisa não é direta assim.

Quero testemunhar a impressão positiva que me têm despertado os textos de Milly Lacombe no UOL, a besta-fera da Machosfera horrorizada com sua intromissão “woke” num âmbito outrora monopolizado por bovinos de barrigão Pilsen e pinto murcho. Reconheço que também sou “uouquista” (não “oquista”, atenção!), mas não sou radical, e também julgo que a Milly não é. Concomitantes ao avanço da horda do Méçi Careca de fase em fase, começaram a aparecer vídeos de youtubers lixo tentando dissertar “Por que a Argentina é um país tão racista?”, sugeridos até junto a programas estrangeiros nada a ver com o assunto e que sigo regularmente. Pra meu alívio e agrado, a Milly fez um ótimo contraponto a esse antirracismo freestyle, dizendo que nossa história teve um racismo muito mais violento materializado na escravidão e que ele continua até hoje estruturando nossas relações sociais. Eu acrescentaria que justamente o fato de nossa equipe, ao contrário da argentina, contar com muitos jogadores de cor (até porque técnico negro nunca vi; feliz foi Pelé que não enveredou pela mesma cilada do Marabola!), assistidos por um público majoritariamente descorado, só mostra que esse foi um dos poucos espaços em que lhes foi permitido alcançar destaque, em detrimento da política, da economia e da ciência.

O destino me pegou de surpresa: e não é que jornalistas de outros países começaram justamente a apontar a dimensão inaudita do racismo na torcida platina, sem contar outros trambiques que estariam favorecendo os tricampeões? De fato, exceto casos isolados que ocorrem em nossos próprios campeonatos nacionais, nunca vi os fanáticos amarelentos imitarem símios, jogarem bananas ou gritarem ofensas contra a melanina alheia. Isso não limpa a ignomínia de como o tecido social do Gigante Adormecido (e jamais despertado) foi construído, mas talvez eu (e a Milly?) tenha subestimado a vergonha alheia que os hermanos despertam em quem compartilha com eles a mesma arquibancada. E dois artigos da mídia estrangeira me despertaram justamente pra essa reflexão, além de trazer elementos interessantíssimos pra deixarem as neymarzetes com a pulga atrás da orelha.

O primeiro é uma reportagem de Adèle Léron publicada na RFI francesa e intitulada “Copa do Mundo de 2026: por que a Argentina é alvo de suspeitas de favoritismo?”, e o segundo é uma entrevista dada pelo escritor Adam Elder ao jornalista George Louis Martínez, da americana NPR e intitulada “Por que muitos fãs de futebol podem torcer contra a Argentina na final da Copa?”. De família equatoriana, George usa o apelido “A Martínez” (assim mesmo, sem ponto, lê-se “ei Martínez”), mas aqui me referi a ele como “George Martínez” por praticidade. Também não mantive os links do original francês nem adicionei notas explicativas pra certas pessoas e coisas. Sugiro uma pesquisa à parte, especialmente o caso de IShowSpeed.

Da série “traduzi sem autorização, phodasse”, no caso da entrevista, como ela não veio com uma transcrição, obtive-a usando esta ferramenta online quase perfeita, devendo ter o resultado cotejado com o áudio, sobretudo quando as pessoas falam meio rápido, o que ocorreu na conversa. Pra fins de pesquisa e registro histórico de raridades, mantive a transcrição do áudio da NPR, após revisar a redação, em especial a divisão de parágrafos, que o site faz de modo totalmente aleatório. Se alguém mais entendido que eu em termos técnicos do ludopédio quiser sugerir alguma escolha melhor pra tradução, sobretudo se souber um pouco de inglês e francês, comente à vontade. Boa leitura e, pra quem for assistir, boa final:



Após se classificar pras semifinais da Copa do Mundo de 2026 com uma campanha considerada fácil e marcada por diversas decisões controversas da arbitragem, a Argentina se tornou alvo de acusações de favorecimento. No centro das críticas está Lionel Messi, pra quem esta Copa, apresentada como a última, alimenta fantasmas, teorias e desconfiança com relação à FIFA.

“Lionel Messi consegue seu juiz favorito pra semifinal Inglaterra-Argentina.” A manchete do Daily Mail dá o tom. Na véspera do confronto entre as duas seleções, o tabloide britânico reacende as acusações de favoritismo contra o time argentino.

Apresentado como “o juiz favorito” do capitão argentino , a nomeação do americano Ismail Elfath reforça em muitos a crença de que Lionel Messi estaria obtendo um tratamento preferencial nesta Copa do Mundo.

Essas teorias surgiram antes mesmo do início da Copa. Em 5 de dezembro de 2025, durante o sorteio, internautas já expressavam surpresa com os adversários oferecidos à Argentina. Um passeio, segundo alguns. A Albiceleste enfrentaria Argélia, a Jordânia e, enfim, a Áustria. Depois, Cabo Verde nos 16 avos de final [sim, esse é o nome oficial em português da bizarrice inventada por Infantino...], o Egito nas oitavas e, finalmente, a Suíça nas quartas. Esse trajeto alimentou suspeitas: até as semifinais, Lionel Messi e seus companheiros não teriam enfrentado nenhuma seleção entre as dez melhores da classificação da FIFA. Isso seria, aliás, inédito na história das Copas.

De forma inversa, os outros semifinalistas tiveram um torneio mais difícil. A França enfrentou o Senegal (3x1) e o Marrocos (2x0), ambos finalistas da última Copa Africana de Nações, além da Noruega, que eliminou o Brasil. A Espanha se livrou de Portugal e depois da Bélgica, enquanto a Inglaterra precisou derrotar o México antes de eliminar a Noruega de Erling Haaland.

No papel, portanto, o caminho da Argentina parece bem mais suportável que o de seus principais concorrentes.

Arbitragem polêmica – Um sorteio favorável, mas também decisões da arbitragem que estão sendo criticadas.

Logo na primeira partida contra a Argélia, Messi escapou de qualquer punição após esmagar o tornozelo de Aïssa Mandi na primeira meia-hora de jogo. No entanto, o ex-árbitro internacional Bruno Derrien considera que o camisa 10 “podia ter sido expulso”. Amplamente dominada, a Argélia acabou perdendo por 3x0, e seu técnico anunciou que iria exigir explicações da FIFA.

As partidas seguintes reforçaram ainda mais essa impressão entre alguns torcedores. A partir das fases eliminatórias, a Argentina teve dificuldades pra vencer. Em três ocasiões, os campeões do mundo foram atropelados, chegando a ficar atrás no placar. E em todas elas, as decisões da arbitragem inverteram o rumo dos jogos.

Primeiro, contra Cabo Verde. Incapaz de superar a 64.ª colocada na classificação mundial, a Albiceleste se beneficiou de várias intervenções controversas: uma falta na entrada da área em Hélio Varela que não foi punida, um toque de mão de Cristian Medina que também passou imune e uma falta cobrada às pressas por Lionel Messi enquanto o goleiro Vozinha ainda tomava posição na trave. A Argentina acabou vencendo por 3x2 nos acréscimos.

Os técnicos tomam partido – No jogo contra o Egito, o cenário se repetiu. Perdendo por 2x0 até os 79 minutos, a Albiceleste conseguiu virar (3x2). Após o jogo, o técnico egípcio exigiu a demissão do juiz francês François Letexier. Ele citou especificamente um pênalti não marcado após um puxão na camisa de Hamdy Fathy, um contato entre Mohamed Salah e Julián Álvarez na área e a anulação de um gol egípcio após revisão do VAR.

Finalmente, contra a Suíça. Dominada durante grande parte do jogo, a Argentina se aproveitou de um inesperado empurrão do destino. Aos 71 minutos, após revisão do VAR, o juiz português João Pinheiro anulou o cartão amarelo do argentino Paredes e o deu a Breel Embolo por simulação.

Já com esse cartão, o atacante suíço foi expulso e deixou o campo, deixando seu time com dez jogadores. Após o jogo, o técnico suíço denunciaria “cotoveladas, cabeçadas e soladas” que ficaram impunes.

À medida que a Argentina avança na Copa, apanhados de decisões controversas se multiplicam no TikTok e no X. Uma delas, intitulada “Uma compilação de nove minutos de faltas cometidas pela Argentina contra a Suíça sem consequências”, já soma centenas de milhares de visualizações.

Outros internautas também se surpreenderam com os meros três minutos de acréscimo concedidos contra Cabo Verde, enquanto outros jogos da Copa obtiveram seis ou até dez minutos, devido às pausas pra hidratação.

Messi no centro das teorias – Essas suspeitas não são novas. Ainda durante a vitória da Argentina no Catar em 2022, diversas decisões da arbitragem alimentaram o debate. A Albiceleste, em particular, foi beneficiada com cinco pênaltis, mais que qualquer outra seleção naquela Copa.

É principalmente a figura de Lionel Messi que alimenta essas teorias. Em 2017, Gianni Infantino declarou ao La Nación que “seria injusto Messi se aposentar sem ter conquistado uma Copa do Mundo”, acrescentando que o argentino precisava “marcar sua época”, tal como Diego Maradona tinha feito.

Aos 39 anos, esta edição é apresentada como a última Copa do camisa 10. A conquista do título selaria definitivamente seu espaço entre os maiores jogadores da história. Com ou sem a ajuda dos juízes...



George Martínez – Não é difícil adivinhar que os torcedores da seleção espanhola de futebol vão torcer contra a Argentina este fim de semana, quando os dois times se enfrentarem na final da Copa do Mundo, mas há muito mais gente ao redor do mundo torcendo pra que a Argentina perca. Adam Elder é um escritor especializado em esportes e cultura. Adam, o que há no estilo de jogo da Argentina que, historicamente, gera tanta rejeição?

Adam Elder – Pois é, há muita coisa envolvida aí. A Argentina ganhou três Copas, mas sempre teve um estilo que divide opiniões. Eles conseguem jogar com talento e, claro, têm Lionel Messi, mas também sabem jogar com brutalidade, digamos, chutando o adversário, subindo nas costas, derrubando com força, pressionando o juiz. Tudo isso é comum na América Latina. Tanto é que escrevi sobre isso num livro meu, mas a questão é que ninguém faz isso melhor que a Argentina.

Eles basicamente conseguem jogar tanto em alto nível quanto de forma muito baixa, e com frequência os vemos fazendo as duas coisas. Além disso, há episódios bem documentados de racismo da parte de torcedores e jogadores, com músicas e outras manifestações, especialmente contra pessoas negras; seja contra a seleção francesa, composta em grande parte por jogadores negros, ou espectadores famosos, como o streamer IShowSpeed na Copa deste ano.

GM – É, houve muito disso, o que anda prejudicando a imagem da Argentina, mas quatro anos atrás a situação parecia diferente. Parecia que as pessoas queriam ver Lionel Messi ganhar uma Copa. Então, o que realmente mudou de lá para cá?

AE – Muita coisa mudou durante esta edição. Eles chegaram como os atuais campeões, e a trajetória tem sido incrível. Lionel Messi, aos 39 anos, liderando o time na reta final de sua carreira. Ele marcou seis gols, se não me engano, nos três primeiros jogos, e as partidas têm parecido eventos quase religiosos. A emoção é avassaladora: a paixão, o barulho. É uma grande história.

O problema é que muitos têm a impressão de que a FIFA, entidade vilã que comanda o futebol, também gosta muito dessa narrativa, se você olhar de um certo ângulo. É quase como se as coisas tivessem tomado outro rumo após a fase de grupos – depois que a Argentina por pouco superou Cabo Verde, a indiscutível zebra da Copa –, pois, nos três jogos seguintes, muitos torcedores diriam que a Argentina foi beneficiada por decisões generosas da arbitragem, pelo uso muito generoso do VAR [o que inclusive fez os brasileiros criarem o apelido “VARgentina”!] e também pela falta de uso dele quando talvez fosse necessário.

Então, como acabei de dizer, a FIFA já aparece por si só como vilã; junte a isso o estilo de jogo peculiar da Argentina, as viradas incríveis que a seleção protagonizou e, talvez, uma arbitragem favorável, e chegamos ao cenário atual.

GM – Há décadas existe o sentimento, entre muitos latino-americanos, de que os argentinos se consideram superiores de alguma forma, o que faz com que sempre torçam contra eles. Mas o que você acha da ironia de que, neste caso, os latino-americanos prefiram torcer pra Espanha, nação que por séculos colonizou a América Latina?

AE – Pois é, esse é só um dos aspectos. Parece que sob vários pontos de vista vai ser um grande confronto. Obviamente há implicações ligadas à colonização e, veja bem, se a Argentina jogar como tem jogado em toda esta Copa – algo que, como discutimos, tem se desenvolvido mais ou menos por cinco semanas –, vai ser um jogo realmente interessante. Não vejo a hora de assistir e, pra ser claro, acho que tudo isso faz dos esportes algo bem melhor. Adoro ter um vilão. Claro, sou escritor, mas pessoalmente adoro isso.



George Martínez – It’s an easy assumption that fans of Spain’s national soccer team will be rooting against Argentina this weekend when the two teams face off in the World Cup final, but there are a lot more people around the world hoping Argentina loses. Adam Elder is a sports and culture writer. Adam, so what’s about the way Argentina plays that’s historically been unpopular?

Adam Elder – Oh boy, there’s so much going on here. Well, Argentina’s won three World Cups, but they’ve always had a style that’s very polarizing. You know, they can play with flair, and of course they have Lionel Messi, but they can also play with brutality, let’s say, kicking you, climbing on you, chopping you down, working the ref. This stuff is common throughout Latin America. In fact, I wrote about it in a book of mine, but the thing is, no one does this stuff better than Argentina.

They can essentially play at the highest levels or the lowest, and often you’ll see them doing both. Now, there’s also been some well-documented racism by fans and players and songs and whatnot, particularly towards black people; whether it’s about the French national team made up largely of black players or famous spectators like the streamer IShowSpeed at this year’s World Cup.

GM – Yeah, so there’s been a lot of that which hasn’t helped Argentina lately, but it seemed like four years ago things were different. It seemed like people wanted to see Lionel Messi win a World Cup. So what really has changed between then and now?

AE – A lot’s changed within this tournament. They came in as the defending champions, and it’s been this great story. Lionel Messi, aged 39, leading the team, twilight of his career. He scored six goals, I believe, in the first three games, and their matches have resembled these quasi-religious events. It’s emotionally overwhelming, the passion, the noise. It’s a great story.

The problem is, it appears to many that FIFA, soccer’s villainous governing body, likes that storyline a lot as well, if you look at it from a certain angle. It’s almost as if things took a turn after group play, after Argentina barely got past Cape Verde, the tournament’s undisputed Cinderella team, because in their next three matches, a lot of fans watching would contend that Argentina benefited from some generous calls, some very generous use of VAR, the video assistant referee, and also the non-use of it when perhaps it was needed.

So FIFA is, as I just said, such this great villainous organization on their own, and you combine now with Argentina’s occasional style of play and these incredible comebacks they’ve staged and, you know, perhaps generous refereeing, and this is where we are right now.

GM – You know, there’s been a decades-long feeling by many Latin Americans that Argentines believe themselves to be superior somehow, so that means they’ll always root against them. But what do you think of the irony that in this case, Latin Americans would rather root for Spain, the nation that colonized Latin America for hundreds of years?

AE – Yeah, I mean, that’s just one layer of it. It’s looking like a great matchup in so many ways. There’s obviously some colonial implications and, you know, if Argentina show up the way they’ve been playing throughout this tournament, which, as we talked about, has changed in the past five weeks or so, it’s going to be a really interesting game. I’m looking forward to it, and to be clear, I think all this stuff makes sports much better. I love having a villain. Of course, I’m a writer, but I personally love this stuff.


quarta-feira, 8 de julho de 2026

Joãozinho Xará: “Fif lamitê fhancô ciriân!”

Quase meio ano depois de sua primeira aparição com Ray-Ban em ambientes fechados, o que suscitou dúvidas sobre sua vida privada, o copríncipe de Andorra Mané Marcão voltou a usar o acessório em público durante a primeira visita à Assíria de um presidente gaulês desde 2009, último encontro entre o Sarkolula amigo de ditadores e a Girafa de Damasco. Desta vez, ele finalmente vai encontrar in loco seu novo parça Joãozinho Xará (que antes era Joãozinho e agora é Xará), ex-corno e ex-jihadista que tomou o lugar de um regime esfarinhado.

A geopolítica tá tão maluca que nem mesmo os analistas mais calejados estão dando conta. Se antes brincávamos que nosso “subcontinente” podia ser chamado de “América Latrina”, agora parece que cada vez mais nos encaminhamos pra um Oriente Mérdio. Não que a região nunca tivesse sido um barril de pólvora acendido pelo emperializmu mauvadaum ossidentau, mas até mesmo as monarquias absolutistas árabes que tentavam se passar por ilhas de calmaria vendendo petróleo pro Til Çan sofrem com os rebosteios da Pérsia despirocada. A dinastia Al-Asad, com o aporte financeiro e militar da antiga URZZ e da atual Moscóvia, parecia irremovível, mas com um bombardeio do Bibi do Hamas aqui e um revés da “República Islâmica” ali, Joãozinho Xará pôde passear tranquilamente do norte ao sul.



Se ele não vestiu o conjunto do Toninho do Diabo como a Yalda Musa Hakim enquanto entrevistava Sucker Tarlson, o agente transatlântico do Kremlin – o cenário mesmo por ele preparado parecendo mais uma liturgia pro KPta –, pelo menos inicialmente adotou o viralizado look Fidel Castro e agora está se “desdemonizando” pra encher o rabo de euro$$$... Durante a recente visita que lhe fez o ex-banqueirinho, Xará até reciclou seu francês do colegial pra dar um “Viva à amizade franco-síria”.

Se ele não achou que estivesse encarnando o General Wojciech Jaruzelski nem apanhou de novo de sua “mãe-lher”, tanto mais que recentemente houve uma fofoca de caso extraconjugal com uma atriz de origem iraniana, o extremo-centrista também parece ter trazido de volta o artigo óptico deixado pra trás pelo tirano apeado durante a fuga. Não é a coisa mais engraçada do mundo, mas achei interessante deixar pro registro, sobretudo porque nos lembra o vetusto adágio: Diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és. E neste caso é recíproco...



sábado, 20 de junho de 2026

Entrevista del Che em francês (1964)

Esta rara entrevista está online no canal da RTS (Rádio e Televisão Suíça em francês) há quase 19 anos, mas não chegou a 1,4 milhão de visualizações, enquanto vídeos muito mais fúteis e ultrajantes chegam a muito mais do que isso em poucas horas nos canais grandes. Pra se ter uma noção, a imagem ainda tem o selo da então existente TSR (Televisão Suíça Romanda), que em 2010 se fundiria com a RSR (Rádio Suíça Romanda) pra criar a rede pública RTS. Descobri sua existência após assistir à última edição do programa semanal Géopolitis da mesma RTS, sobre a história do bloqueio a Cuba pelos EUA e da atual escalada da crise entre os dois países, sobretudo a penúria geral que assola a ilha caribenha. A apresentadora disse que a entrevista de Ernesto “Che” Guevara à mídia suíça era “inédita”, mas entendi que ela nunca tinha ido ao ar (foi mostrado um trecho exíguo). Quando localizei algo parecido com a íntegra no próprio YouTube, pensei como o Pica-Pau: “Fui tapeado!”

Se nem na própria Helvécia o vídeo era muito conhecido, que dirá nesta Terra de Santa Cruz? Hora de fazer mais uma tradução que pudesse fazer sucesso entre meus compatriotas, sobretudo aqueles vestidos de camiseta com a cara descabelada do revolucionário argentino e braço direito de Fidel Castro! Segundo a RTS, a conversa ocorreu em Genebra, em abril de 1964, conduzida por René Burri pro programa Point, apresentado pelo jornalista Jean Dumur. Então ministro da Indústria de Cuba, El Che minimiza os efeitos até então visíveis do embargo imposto por Washington e notavelmente mostra hesitação em tomar partido na disputa sino-soviética, o maior racha do mundo socialista até então. (Havana finalmente tomaria o partido de Moscou e de sua gorda mesada, mas essa é outra história.)

Considera-se que esse seja o único registro público do francês falado por Ernesto Guevara, que teria, segundo comentários à publicação de 2007, passado boa parte de sua juventude lendo renomados escritores franceses no original, devido ao repouso prolongado imposto por sua condição de asmático. Eis aqui, então, mais uma tentativa de contribuir pra tradução da história do comunismo em português, ressaltando que editei profundamente o texto em francês das legendas que baixei por meio de um site. Em grande parte, não corresponde à fala, mas tenta passar as ideias originais mantendo o máximo do estilo, e o resultado segue depois da tradução. A base desta saiu do Google Tradutor, que deu várias soluções interessantes, mas o resultado foi atentamente cotejado com minha transcrição editada.

Adicionei notas explicativas entre colchetes e links pra páginas relacionadas quando necessário, nas duas versões, e realmente a conversa parece “começar no meio”, subentendendo-se já estar em discussão um assunto. Se havia um trecho gravado antes disso ou se foi um mero cacoete linguístico de René Burri, jamais saberemos:


Mas, em sua opinião, houve alguma mudança na atitude dos EUA com relação a Cuba?

Talvez, eu lhe digo, seja difícil lhe responder diretamente. De qualquer forma, não baseamos nossa posição escutando ou observando o que os EUA fazem ou o que os EUA querem. Bem, conduzimos nossa política internacional e, naturalmente, observamos atentamente o que eles fazem porque é nosso inimigo, estão perto de nós, são muito poderosos.

Hoje, nos últimos dias, há algumas vozes americanas, nós as conhecemos, o senador [James William] Fulbright [presidente do Comitê de Relações Exteriores do Senado dos EUA], por exemplo, que falaram numa linguagem completamente diferente. Mas imediatamente, o sr. [David Dean] Rusk [secretário de Estado dos EUA], o sr. Thomas Mann [diplomata americano que forjou a política de intervenção direta nos países latino-americanos], falaram na linguagem usual, e não podemos saber se a atitude de Fulbright, por exemplo, reflete realmente uma mudança na posição dos EUA ou se é simplesmente uma voz isolada.

O bloqueio econômico imposto pelos EUA tem afetado a vida em Cuba?

Sim, antes de mais nada, tem mudado completamente a vida em Cuba. Mudamos nossas fontes de suprimento, que passaram a ser a Europa, especialmente os países socialistas. Mudamos nosso próprio estilo de vida, e os artigos de luxo, bens de consumo durável, digamos assim – não sei o termo em francês –, quase desapareceram em Cuba. Havia muitas coisas em falta. Nossas indústrias passaram por um período bastante longo sem peças de reposição, e às vezes era preciso parar. Não conseguíamos as manter funcionando, mas essa situação até forçou nossa industrialização no setor mecânico.

E neste momento podemos nós mesmos suprir quase todos os suprimentos mecânicos essenciais, isto é, peças de reposição e, naturalmente, tudo o que não podemos comprar de países socialistas ou outros países da Europa. Pois devemos considerar que Cuba é um país onde quase toda a indústria, toda a técnica e toda a tecnologia dependiam dos EUA e das fábricas dos EUA, e mudar tudo isso é algo muito difícil. Conseguimos fazer isso e, desde o ano passado, o bloqueio já é realmente um completo fracasso.

Mas você está satisfeito com a atual situação econômica de Cuba?

Não, nunca podemos estar satisfeitos. Aspiramos a muito mais, mas o ano passado foi o pior, especialmente no início, quando a economia estava em seu ponto mais baixo. Desde esse momento, começamos a expandir nossa indústria e agricultura, e podemos dizer que essa é a direção geral que a economia está tomando, uma melhora gradual e sustentada. Infelizmente, não é algo maravilhoso, mas todos os dias podemos ver os resultados concretos do que estamos fazendo, e pro povo isso é encorajador.

A ajuda soviética a Cuba é necessária pra vocês?

Naturalmente é necessária. Acho que a ajuda de todos os povos é necessária. Se você que saber se é indispensável, acho que não. Mas precisamos esclarecer bem o que estamos chamando de ajuda, pois sempre há alguns erros, alguns equívocos. Por exemplo, os americanos falam da ajuda soviética em termos comerciais, e temos um comércio bilateral muito forte em ambos os lados. Isso não é ajuda. A ajuda soviética consiste em alguns acordos de longo prazo, como os acordos sobre a cana-de-açúcar e os acordos pra fornecer empréstimos de longo prazo pra conclusão de empresas industriais. Isso é muito importante pra nosso desenvolvimento. E digo que a URSS, você me perguntou, não sei se você está se referindo especificamente à URSS ou aos países socialistas. Mas temos esse tipo de relacionamento com todos os países socialistas.

Mas ainda há soldados soviéticos em Cuba?

Técnicos, mais exatamente. Eles estão lá, sim.

Vocês precisam deles?

Eles são nossos instrutores em algumas áreas.

Em quais áreas?

Na área de tecnologia de defesa avançada. Abatemos um U-2: só a URSS consegue fazer isso, a China também, acredito, e naturalmente é uma técnica muito difícil. Até agora não a dominamos.

Qual é a posição de Cuba diante do conflito que opõe Moscou a Pequim?

Lamentamos profundamente essas questões. Até agora não nos pronunciamos sobre isso nem vamos nos pronunciar oficialmente.

O sr. Khrushchov deseja convocar uma conferência comunista mundial pra resolver esse conflito de uma forma ou de outra. Se essa conferência acontecer, Cuba vai participar?

Esta pergunta está irmanada à anterior. Não vamos nos pronunciar sobre esse assunto. De qualquer forma, não considero este momento oportuno.

Quais são atualmente as relações de Cuba com o resto da América Latina?

São fracas. Mantemos relações diplomáticas com cinco países e relações comerciais com apenas dois ou três. Elas não são significativas. O bloqueio americano foi imposto aos países latino-americanos, creio eu, de forma mais eficaz que em outras regiões do mundo. Os países americanos [i.e. das três Américas] nos condenaram em Punta del Este, no Uruguai, numa conferência em 1962. Fomos expulsos da Organização dos Estados Americanos e muitos países romperam suas relações diplomáticas e comerciais conosco. Essa situação permanece até hoje.

Você acha que existem atualmente países na América Latina maduros, prontos pra uma revolução do tipo castrista, do tipo cubano?

Existem alguns onde a luta já está em curso. Não se fala disso aqui, mas há luta na Venezuela, na Guatemala e talvez em outros países onde o povo pegou em armas. Aconteceu conosco: lutamos por muitos anos e ninguém falava de nós.

Você mencionou a Venezuela e a Guatemala, mas Cuba está ajudando os revolucionários desses países?

Apenas moralmente. Cuba considera que a luta deles é justa, mas só os ajuda até esse ponto.


Mais d’après vous, est-ce qu’il y a quelque chose de changé dans l’attitude des États-Unis à l’endroit du Cuba ?

Peut-être je vous dis, c’est difficile à vous répondre directement. En tout cas, nous ne fixons pas notre position en écoutant, en regardant ce que les États-Unis font ou ce que les États-Unis veulent. Bon, nous faisons notre politique internationale et naturellement nous regardons avec attention ce qu’ils font parce que c’est notre ennemi, ils sont près de nous, ils sont très forts.

Aujourd’hui, dans ces derniers jours, il y a quelques voix américaines, on les connait, le sénateur [James William] Fulbright [président de la Commission des affaires étrangères du Sénat des États-Unis], par exemple, qui a parlé un langage absolument différent. Mais immédiatement monsieur [David Dean] Rusk [secrétaire d’État des États-Unis], monsieur Thomas Mann [diplomate américain qui a forgé la politique d’intervention directe dans les pays latino-américaines] ont parlé dans le langage habituel, et nous ne pouvons pas savoir si l’attitude de Fulbright, par exemple, correspond vraiment à un changement de la position des États-Unis ou si elle n’est qu’une voix isolée.

Est-ce que le blocus économique imposé par les États-Unis a affecté la vie à Cuba ?

Oui, en premier lieu, il a fait changer absolument toute la vie à Cuba. Nous avons changé nos sources de ravitaillement, qui se sont déplacées vers l’Europe, surtout vers les pays socialistes. Nous avons changé toute notre vie même, et les articles de luxe, les articles de consommation à long terme, on peut dire – je ne connais pas le mot en français –, et ça a presque disparu à Cuba. Il y avait beaucoup de choses qui manquent. Nos industries sont passées par une période assez longue où il n’y avait pas de pièces de rechange, il a fallu s’arrêter quelquefois. Nous ne pouvons pas les mettre en fonctionnement, mais cette condition même a forcé notre industrialisation dans la mécanique.

Et en ce moment nous pouvons fournir presque tous les ravitaillements essentiels de type mécanique, c’est-à-dire des pièces de rechange par notre propre main, et naturellement ce que nous ne pouvons pas acheter dans des pays socialistes ou dans d’autres pays de l’Europe. Parce qu’on doit considérer que Cuba est un pays où presque toute l’industrie, toute la technique et toute la technologie dépendaient des États-Unis et des usines des États-Unis, et changer tout ça, c’est une chose assez difficile. Nous l’avons pu faire, et depuis cette dernière année, le blocus est déjà vraiment un échec absolu.

Mais vous êtes satisfait de la situation économique actuelle à Cuba ?

Non, jamais on ne peut être satisfait. Nous aspirons à beaucoup plus, mais l’année dernière a été l’année plus basse, surtout dans les premières parties de l’année, où l’économie était dans le moment le plus bas. Depuis ce moment, nous avons commencé à accroitre notre industrie, notre agriculture, et ça c’est, on peut dire, la direction générale que suit l’économie, c’est-à-dire, une amélioration progressive, soutenue. Malheureusement ce n’est pas une chose merveilleuse, mais chaque jour on peut voir concrètement les choses que nous faisons, et c’est encourageant pour le peuple.

L’aide soviétique à Cuba, est-ce qu’elle vous est nécessaire ?

Naturellement qu’il est nécessaire. Je pense que l’aide de tous les peuples est nécessaire. Si vous demandez si elle est indispensable, je pense que non. Mais on doit préciser bien ce qu’on appelle l’aide, parce qu’il y a toujours quelques erreurs, quelques tromperies. Par exemple, les Américains parlent de l’aide soviétique en ce qui concerne le commerce, et nous avons un très fort commerce sur une base bilatérale de part et d’autre. Ça n’est pas de l’aide. L’aide soviétique, ce sont quelques accords à long terme, comme les accords pour la canne à sucre et les accords pour fournir des crédits à long terme aux entreprises industrielles complètes. C’est très important pour notre développement. Et je dis, l’Union soviétique, vous m’avez demandé, je ne sais pas si vous parlez précisément de l’Union soviétique ou des pays socialistes. Mais c’est avec tous les pays socialistes que nous avons ce type de relation.

Mais est-ce qu’il y a encore des soldats soviétiques à Cuba ?

Nous disons, techniciens. Ils sont là, oui.

Ils vous sont nécessaires ?

Ils sont nos professeurs dans quelques domaines.

Dans quels domaines ?

Dans le domaine de la technique supérieure de la défense. Nous avons fait tomber un U-2, seulement l’Union soviétique peut le faire, la Chine aussi, je crois, et naturellement c’est une technique très difficile. Nous ne la dominons pas jusqu’à ce moment.

Quelle est la position de Cuba face au conflit qui oppose Moscou à Pékin ?

Ces questions, nous les déplorons beaucoup. Nous n’en avons pas parlé jusqu’à ce moment et nous n’en parlerons pas officiellement.

Monsieur Khrouchtchov désire réunir une conférence communiste mondiale pour résoudre d’une façon ou d’une autre ce conflit. Si cette conférence a lieu, est-ce que Cuba y participera ?

Cette question est frère de la précédente. Nous ne parlerons pas de cette question. Je ne trouve pas ce moment opportun, en tout cas.

Quels sont les rapports actuellement de Cuba avec le reste de l’Amérique latine ?

Ils sont faibles. Nous avons des relations diplomatiques avec cinq pays et nous avons des relations commerciales avec deux ou trois seulement. Elles ne sont pas importantes. Le blocus américain s’est imposé aussi aux pays de l’Amérique latine, je pense, plus efficacement que dans d’autres régions du monde. Les pays américains [c.à.d. des trois Amériques] nous ont condamné à Punta del Este, en Uruguay, lors d’une conférence en 1962. Nous avons été expulsés de l’Organisation des États américains et beaucoup de pays ont coupé leurs relations diplomatiques et commerciales avec nous. C’est la situation jusqu’à ce moment.

Pensez-vous qu’il y a, à l’heure actuelle, en Amérique latine des pays mûrs, prêts pour une révolution du type castriste, du type cubain ?

Il y en a quelques-uns où il y a déjà la lutte. Ici on n’en parle pas, mais la lutte existe au Venezuela, au Guatemala et peut-être dans d’autres pays où le peuple lutte avec les armes. Ça s’est passé avec nous : nous avons lutté pendant de longues années et personne ne parlait de nous.

Vous avez parlé du Venezuela et du Guatemala, mais est-ce que Cuba aide les révolutionnaires de ces pays ?

Moralement seulement. Il considère que leur lutte est juste, mais il ne les aide que jusqu’à ce point.



El Che usando a boca pra verificar se essa Coca é Fanta.

sábado, 18 de abril de 2026

“Dansons” (Céline Dion, lançamento 2026)

Após uma pausa na carreira pra tratar de uma doença que prejudicou sua voz, a cantora canadense Céline Dion lançou ontem, 17 de abril, a canção Dansons (Dancemos ou Vamos dançar) em formato single, em suas plataformas digitais. Mais adiante, incorporei diretamente o vídeo oficial (clipe) no YouTube, que tem também as legendas em francês. Por essa razão, segue abaixo apenas minha tradução pro português, sem o texto original.

Dansons foi composta pelo cantor, compositor e letrista francês Jean-Jacques Goldman (nascido em Paris em 1951), que também foi um dos responsáveis pela produção e arranjos e já colaborou outras vezes com Dion. O clipe ficou ainda mais bonito com a participação de casais anônimos de diversos tipos, dançando ao ar livre, ideia que está no cerne da letra. Por isso, dedico esta publicação a você que está estressado com o mundo atual (guerras, redes sociais, extremismo, preconceito, incivilidade) e precisa “balançar” um pouco, rs.

Tirei a letra em francês da descrição do próprio vídeo do YouTube, mas a diagramação está um pouco estranha, o que dificulta o entendimento: ora há pontuação final, ora não há; ora os versos começam com letra maiúscula, ora com minúscula. Por isso, tomei a liberdade não só de uniformizar a redação nesse aspecto, mas também, por vezes, de inverter a ordem dos versos pra facilitar a compreensão de quem lê a tradução.

Minha opção mais explícita foi por não usar a 1.ª pessoa do plural do presente do subjuntivo (“dancemos”, “flutuemos”, o que dá um ar meio de igreja: “oremos”, “louvemos”...) e substituir pela locução “vamos + infinitivo”, típica de nossa linguagem oral. Ambas estão certas, mas sempre opto pela naturalidade. Em alguns pontos, a linguagem é figurada ou claramente idiomática, portanto, pesquisei muito ao traduzir, mas sei que pode não ter ficado perfeito. Sinta-se livre pra propor outras opções nos comentários:


Vamos dançar, por cima dos abismos,
Nas cristas dos cumes,
E vamos deixar as baixadas,
Vamos voar, vamos valsear.

Vamos dançar, enquanto o mundo vacila,
Com nossos corpos enredados
A um passo, a um fio [de distância],
Nossas mãos atadas.

Pra esquecermos nossas mágoas,
Que nada nos detenha,
Nos detenha.

Vamos dançar, por cima dos grandes vazios,
Que nossa respiração nos guie,
Os corpos em uníssono,
Que toquem os violinos.

Vamos dançar, tem baile esta noite
Em meio às estrelas,
Doce encontro
Dirigido a nós e contra nós.

Vamos flutuar, testa com testa,
Flocos, sobre o horizonte,
Flocos, sobre o horizonte.

Vamos dançar, pra nos pormos e ficarmos retos,
Porque é uma obrigação
Pra todos os que não se mexem
E que não têm voz nem lei,
Porque é inútil,
Porque você e eu,
Nossos rostos, nossos braços,
Apesar de tudo, já que
Só se pode dançar de pé.

Vamos dançar, inventar nossas vertigens
Antes de ficarmos parados:
Um idílio, uma ilha
Em meio a um universo hostil.

Vamos dançar, por cima dos abismos,
Nas cristas dos cumes,
Vamos girar, porque o mundo
Não está mais dando voltas
[i.e. Não está mais funcionando].



sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Jair Khamenei + M. Zakharova em chinês

A coleção “Mix de política ao redor do mundo” chegou muito rapidamente a sua trigésima edição, né? Pois bem, começando a mixórdia de hoje, vejam que interessante essa coincidência numérica. Pois mais que no caso do Irã possamos apenas especular, seria isso uma espécie de oráculo? Esqueça os inocentes, todos são códigos no capitalismo de vigilância...


A histriônica María Zakhárova, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores russo, publicou outro dia em seu canal pessoal no Telegram (que só está devagar na Rússia, e não totalmente banido) um vídeo falado em mandarim e legendado em moscovita. A pronúncia não está ruim e a iniciativa foi muito interessante, mas coloquemos dentro do contexto: a China não só não condenou a agressão contra a Ucrânia, mas também está ajudando Putin de tudo quanto é jeito, mesmo tentando passar “por debaixo dos panos”. Além disso, especialistas apontam que Moscou está economicamente cada vez mais dependente de Pequim, quase vassala, o que parece um contrassenso, dada a imensidão territorial do império polar. Pra mim, essa “colaboração” não pode ser vista sem um pouco de amargo na boca, mas confesso que ficaram bons o cenário e o fundo musical “xing ling”, rs:

O Ano do Cavalo está chegando! Do fundo do coração, desejo a todos um feliz Festival da Primavera! Desejo-lhes um ano novo repleto de energia, que vocês sejam os primeiros em tudo, que a boa sorte lhes chegue imediatamente e que o sucesso seja instantâneo! Na Rússia, a imagem do cavalo remonta a tempos imemoriais e está amplamente presente em contos populares, fábulas e tradições. Este ano, Moscou e Pequim vão celebrar a primavera juntas pela primeira vez! Moscou vai sediar, pela terceira vez já, uma vasta celebração do Ano Novo Chinês. Ao mesmo tempo, Pequim também vai celebrar amplamente a festa russa da Máslenitsa. Convido vocês a celebrarem o Ano Novo Chinês em Moscou e a Máslenitsa em Pequim! Até breve!

Год Лошади уже на пороге. От всей души поздравляю всех с Праздником Весны! Желаю, чтобы в новом году вас переполняла энергия, чтобы вы во всём были первыми, чтобы удача пришла к вам немедленно, и чтобы успех был мгновенным! В России образ лошади идёт из глубины веков и широко отражён в народных преданиях, сказках и традициях. В этом году Москва и Пекин впервые встретят весну вместе! Москва уже в третий раз станет площадкой для масштабного празднования Китайского Нового года. Параллельно с этим в Пекине также широко отметят русскую Масленицу. Приглашаю вас на празднование Китайского Нового года в Москве и Масленицы в Пекине! До скорой встречи!


Tenho uma atitude política e ideológica: sempre que consigo, pra evitar o YouTube, vejo vídeos e fluxos ao vivo e ouço músicas e podcasts nas páginas próprias das agências de notícias, quando muito no Spotify. E nunca uso aplicativos próprios, mas o site no Chrome. Neste caso, às vezes aparece a mensagem acima toda vez que deixo tocando uma playlist ou um álbum musical antigo inserido num único vídeo. Hoje consegui tirar um print e compartilhei no WhatsApp com a seguinte legenda: “Alguém já se deparou com isso usando YouTube no Chrome?”

Uma amiga minha respondeu ao status: “Sim! Geralmente em vídeos longos pra confirmar que você não dormiu (meu caso muitas vezes)”, rs. E você? Em todo caso, “Agradecemos a colaboração”!




E pra terminar, me desculpem pela sinceridade: como alguns desinformados ou desonestos já tão mencionando aqui na Banânia, precisei aludir brevemente ao recente morrimento do militonto facho “Quentinho” em Paris, ainda que a tradução do Google tenha ficado meio bizarra, só pra deixar claros alguns pontos que a “família em conserva” (outro meme do momento!) não vai te mostrar. Olha, nunca vou apoiar extermínios políticos e detesto a LFI de Mélenchon e da “Thithi Barraqueira”, sobretudo o que ela virou desde as eleições de 2022 e seu apoio velado à fração da Irmandade Muçulmana no Likud. Mas tô passado ao saber que os herdeiros de Maurras, Barrès e Le Pen tão querendo criar um novo Horst Wessel, desta vez nascido entre os inimigos figadais dos teutônicos!