Esta é a republicação de parte de um conteúdo que tinha aparecido em 2019 sob o título geral de “Memes sobre Bolsonaro”, e sua aparição não tem nada a ver com a jornada eleitoral hodierna. Como tô expurgando parte de minha página de conteúdo que hoje acho muito sem graça ou de mero valor humorístico, sem acrescentar muito pra cultura, decidi pelo menos guardar dois vídeos, um com tradução, da época em que Emmanuel Macron começou a se indispor com Jair Messias por causa daquela infame reação a um moleque que comparou Michelle (“bonita”) com Brigitte (“feia”). Os textos abaixo seguem praticamente os mesmos, portanto, devem ser lidos dentro da conjuntura da época, levando-se em conta possíveis evoluções posteriores.
No ápice das turbulências internacionais em que Bolsonaro se meteu, sou a última pessoa a passar o pano pro Macron, que de fato foi oportunista ao se tornar presidente “alternativo”, fundando um partido com as iniciais do próprio nome, após ter servido como ministro das Finanças do socialista François Hollande. Mas também é difícil defender certas molecagens vindas de Abraham Weintraub, um ministro da Educação que pouco entende de sua própria área.
Pior foi o Bolsonaro cair na pegadinha de um Zé Mané no Facebook qualquer fazendo comparação besta entre esposas, algo além de tudo extremamente machista. Não vou repetir a história já muito difundida nas mídias. Já falei várias vezes que nunca quis apoiar nem atacar o presidente de forma ativa, mas como cidadão e pagador de impostos (como adoram falar os que não gostam de filme pornô ou gay se beijando na rua) tenho o direito de criticar essas atitudes, mesmo que o ofendido não seja digno dos melhores juízos.
Pra piorar o mico, junto a Macron nesta coletiva de imprensa estava Sebastián Piñera, presidente de nosso vizinho Chile que ainda por cima já teve de ouvir Bolsonaro falar bem do assassino Pinochet. Leiam a transcrição da fala, já traduzida em português no vídeo:
“Il se trouve qu’hier il [Bolsonaro] a considéré que c’était une bonne idée que son ministre [Weintraub] ‒ ça n’arrive jamais en France qu’un ministre de la République insulte quelque dirigeant que ce soit ‒ profère des insultes à mon endroit et lui, qu’il tienne des propos extraordinairement irrespectueux à l’égard de mon épouse. Qu’est-ce que je peux vous dire ? C’est triste. C’est triste, mais c’est triste d’abord pour lui et pour les Brésiliens. Et donc... moi, je pense que les femmes brésiliennes ont sans doute honte de lire ça de leur président. Je pense que les Brésiliens, qui sont un grand peuple, ont un peu honte de voir ces comportements, ils attendent quand on est président qu’on se comporte bien à l’égard des autres. Et comme j’ai beaucoup d’amitié et de respect pour le peuple brésilien, j’espère très rapidement qu’ils auront un président qui se comporte à la hauteur.”
Os “conservadores” brasileiros, vendo no mundo anglo-saxão seu modelo ideal, sempre criticaram a França e os intelectuais franceses ou radicados no país como mentores de nossa esquerda “utópica, radical e irrealista”, tendo Rousseau como mestre fundador. E parece que infelizmente, essa rusga chegou ao nível do Estado, com Bolsonaro se friccionando com Macron e a imprensa francesa ressaltando os traços mais autoritários do governo em Brasília. Dada a qualidade e interesse do conteúdo, mesmo que eu não detenha os direitos autorais da matéria, fiz um vídeo com o áudio do repórter Elcio Ramalho, do serviço em português brasileiro da Rádio França Internacional (RFI). Ele trouxe em seu programa “RFI Convida” de 6 de agosto de 2019 o jurista brasileiro Rubens Casara, que está fazendo seu pós-doutorado em Nanterre, na França.
Os temas principais da conversa foram a partidarização política do Poder Judiciário no Brasil, sua submissão aos interesses econômicos e o conceito de “pós-democracia”, segundo o qual o Estado de direito consolidado nas últimas décadas, que impunha limites ao arbítrio de certos agentes, está perdendo sua força. Ao contrário do que defendem os partidários da Lava-Jato, Casara pensa que a justiça brasileira tem partido político, sim, e tem desvelado cada vez mais sua defesa do status quo econômico em detrimento dos pobres e necessitados. A “pós-democracia”, pra ele, significa que Estados autoritários são aceitos pelo consenso geral pra que esse poder continue firme e forte: o modelo neoliberal de economia perderia seu caráter clássico pra assumir uma feição mais restritiva e predatória.
Cabe lembrar que a RFI tem uma orientação progressista levemente de esquerda e que ela tem dado ampla voz aos críticos e opositores de Bolsonaro, sobretudo brasileiros que residem em Paris ou em outras partes da França. Além disso, devido a divergências culturais, valorativas e diplomáticas, o governo do PSL [do qual Bolsonaro sairia em novembro de 2019 e que se fundiria com o Democratas em 2021-22 pra formar o atual partido União Brasil] tem entrado em constante conflito com o presidente Emmanuel Macron, que pretende ser uma espécie de “meio-termo” entre as direitas nacionalistas e as esquerdas combativas. Ouça também a transmissão completa da RFI, com outros quadros informativos.

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