quinta-feira, 13 de junho de 2024

Meu Big Brother Brasil dos sonhos


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Quem nunca pensou em sua própria lista pro Big Brother Brasil, ou quem nunca brincou com novas possibilidades bizarras entre amigos? Inspirado numas conversas que tive com um amigo, fiz minha própria lista com personalidades mais ou menos conhecidas da internet e do mundo da cultura, sabendo que pensei em muitas outras mais e que você pode a achar incompleta e ter esperado outros nomes, rs. Mesmo tentando ser representativo entre gênero, sexualidade, ideologia, idade e cor, foi a isto que cheguei. Uma das primeiras montagens dessa monta que consegui fazer, relembrando a primeira edição, única da qual tenho alguma “nostalgia”:


Foi revelado que Liza, filha de Dmitri Peskov, porta-voz de Vladimir Putin pra imprensa, está sob sanções ocidentais (porque ela vive nas custas do papai, e como este está sancionado...), mas ainda consegue fazer compras de luxo no Cazaquistão. As fotos mostradas outro dia na Radio Svoboda são tão fofas que decidi fazer uma montagem orkutizada com o trecho, usando uma canção ainda mais brega de Rick & Renner sobre o “amor de pai”, rs:


Até o cacique Raoni, agora “Cavaleiro da Legião de Honra” da França (seja lá o que isso signifique numa República), tá mandando o Lula acordar diante da queda livre da popularidade do governo. Olhe a cara de medo da Jararaca, até o Macron precisa “traduzir” o apelo, rs:


Andréia Sadi, alguns anos atrás, involuntariamente resumia no Jornal Hoje como todos os partidos alternantes sempre tentam “mamar nas tetas do Estado”, sem exceção alguma (ignore o “TV Eslavo” de meu antigo YouTube):


A canção Moshiach (ou Mashiach, “Messias”), típica do judaísmo hassídico, é interpretada nesta versão pelo cantor Mordechai Ben David, também conhecido como MBD. Há também a versão mais célebre de Eitan Masuri, com tradução em português no link, mas em todo caso, pra quem não sabe do que se trata nem entende hebraico, não vai distinguir do tema de abertura de qualquer desenho japonês que fazia sucesso na extinta TV Manchete na primeira metade da década de 1990, rs. Só agora estou publicando, mas faz um tempo que fiz esta montagem com parte do primeiro áudio pra mostrar como pode não fazer nenhuma diferença. Meu próprio amigo que me apresentou a música adorou a montagem, e outros comentaristas nos vídeos da gravação também acharam parecida com o gênero nipônico:


As prisões francesas são condenadas na TV estatal por acolherem cecço, dorgas e... telefone, rs:


terça-feira, 11 de junho de 2024

Piquet comenta vitórias de Verstappen



Espero que recentemente você não tenha jogado seu dinheiro esperando por vitórias do N... Lewis Hamilton, rs:


domingo, 9 de junho de 2024

Esquerdista de iPhone (banda Milei)


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Depois de descobrir os lançadores do tema da campanha de Javier Milei, que na verdade se trata da adaptação de uma antiga canção do ano 2000 usada sem a autorização de “La Renga”, banda que a tinha gravado, vi que aqueles primeiros também lançaram umas coisas bem bizarras ligadas com a aversão às esquerdas em geral. Com seus áudios publicados no YouTube e no Spotify, a conta chamada “La Mancha Venenosa” (gíria portenha pra uma espécie de jogo), ainda com poucos seguidores, publica a maioria dos jingles de Milei e outras canções relacionadas à ideologia antissocial dos libertários latino-americanos. Não pude concluir se se trata de uma banda que grava as ditas faixas, mas achei uma das músicas tão engraçada e parecida com nossos debates de internet que decidi traduzir e publicar aqui!

Com o título Zurdos con iPhone, pode ser literalmente traduzida “Canhotos com iPhone”, deduzindo-se que zurdo (canhoto; “surdo” em espanhol é sordo) seja equivalente ao “esquerdista” brasileiro e que sob ambos os rótulos se oculte um balaio de gatos com elementos muitas vezes totalmente opostos entre si. De modo mais amplo, a ideia de “zurdo con iPhone” pode também ser traduzida “esquerda caviar” (um decalque do francês gauche caviar) ou, em inglês, “champagne socialist”. Porém, a meu ver, “esquerda caviar” alude mais à elite propriamente, intelectual ou econômica (o “rico de esquerda”, bem como o professor universitário comunista que vai lecionar nos EUA ou na Europa), enquanto Socialista de iPhone, que escolhi pra traduzir e é muito mais direto pros jovens no Brasil, remete mais a qualquer pessoa, rica ou não, que nas redes sociais defende os países socialistas, mas se aproveitando de ferramentas bastante acessíveis e “criadas pelo capitalismo”.



A riqueza dela sendo “distribuída” no chão, rs!


Ou seja, é um xingamento direitista muito comum nas brigas digitais, embora eu ache o fundo da crítica um pouco incoerente e não esteja defendendo a linha política de “La Mancha Venenosa” ou muito menos de Milei. Pra mim, o grande problema da maior parte da direita é colocar as esquerdas no mesmo saco, chamando-as de “socialistas” ou mesmo “comunistas” e daí achando que todas devam defender Lenin, Stalin, Mao, Fidel, os Kim etc. Um grande espantalho pra criticar qualquer veleidade social ou coletiva, do mesmo jeito que a esquerda radical chama qualquer direitista ou mesmo liberal de “fascista”. Mesmo assim, até por ser um topos muito comum também entre nós e por eu ter participado de “debates” políticos desde os tempos do Orkut, achei o texto bem engraçado e não deixo de concordar com a maior parte das incoerências apontadas pelo autor (quem?), rs.

Outra nota tradutória: zurdos con OSDE é uma expressão argentina equivalente a zurdos con iPhone (ou seja, esquerda caviar), referindo-se a um sistema de planos privados de saúde reunidos como uma entidade pública, que pode ser pago individualmente ou a funcionários de empresas. Ou seja, você é “socialista”, mas paga ou recebe planos privados... A pérola também pode ser ouvida no Spotify, e seguem abaixo o clipe no YouTube, o original no qual fiz algumas correções e minha tradução, não totalmente literal em muitos pontos:


Zurdos con iPhone, zurdos con OSDE
Zurdos con fotos en New York y en Londres
Zurdos con sesgos de ideología
Odian los datos, niegan la biología

Zurdos con sueños de rebeldía
Publican en TikTok o Facebook su vida
Zurdos en Harley, vistiendo Levi’s
Te hablan de patria, de igualdad y de Lenin

Odian el uso del sentido común
Adoran asesinos como Mao Tsetung
Ven el pasado con nostalgia total
Ignoran el horror y sólo ven su ideal

Yo sólo quiero que por vos mismo
Entiendas que ya fracasó el socialismo
Ese modelo liberticida
Ya se ha cargado a millones de vidas

Dicen representar al trabajador
Les tirás una pala y huyen como un roedor
Y si es de izquierda y es homosexual
Seguro al Che Guevara en su remera tendrá

La izquierda te vio débil y se aprovechó
De tu resentimiento y de tu frustración
De tus obligaciones te desligó
Y crees que te persigue un sistema opresor

____________________


Esquerdistas de iPhone e que pagam OSDE
Que tiram fotos em Nova York e em Londres
Esquerdistas com vieses ideológicos
Odeiam os dados, negam a biologia

Esquerdistas com sonhos de rebeldia
Publicam sua vida no TikTok ou no Facebook
Esquerdistas em Harley, que vestem Levi’s
Te falam sobre pátria, igualdade e Lenin

Odeiam o uso do senso comum
Idolatram assassinos como Mao Zedong
Veem o passado com total nostalgia
Ignoram o horror e só enxergam seu ideal

Quero apenas que, por sua própria conta
Você entenda que o socialismo já fracassou
Esse modelo liberticida
Já acabou com milhões de vidas

Dizem que representam o trabalhador
Lhes jogue uma pá, vão fugir como um roedor
E se você é de esquerda e homossexual
Certamente vai ter uma camiseta com Che Guevara

A esquerda te viu fraco e se aproveitou
De seu ressentimento e de sua frustração
Te livrou de suas obrigações
Mas você se crê perseguido por um sistema opressor



sexta-feira, 7 de junho de 2024

Todas as formas de “wokismo”


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/wokismo


Este meme mandado por um amigo ilustra bem o novo fantasma da direita conservadora e da extrema-direita no Ocidente. O “wokismo” está sendo considerado o novo espantalho, ou “mamadeira de piroca” se quiser, das culturas ocidentais urbanizadas, já que o medo do comunismo e mesmo da Rússia não assustam nem enganam mais ninguém. (Inclusive, os “antiwokistas” muitas vezes não escondem sua admiração pela autocracia reacionária de Putin!) O conceito básico é o de que a mídia hegemônica, as universidades, os intelectuais e mesmo os influenciadores digitais querem empurrar como “normais” ou até “obrigatórios” padrões de comportamento que não seriam majoritários nem aceitáveis entre a maioria das populações.

Na verdade, todos esses “comportamentos” que antes eram colocados no saco do “esquerdismo”, do “comunismo” ou o que valha, termos agora inadequados porque muitos esquerdistas e comunistas do passado são justamente contra essas bandeiras “identitárias”, se relacionam a setores da população cujas opções ou características diferem da maior parte ou dos grupos dominantes: progressistas ou reformistas sociais, mulheres, negros, não héteros, não cis, estrangeiros, não cristãos, pró-direito ao aborto, não monogâmicos etc. Basicamente, o “wokismo” (pros conservadores) seria dar um peso ou papel a essas populações, nas representações cotidianas, que não corresponderia à realidade, muitas vezes exagerando sua presença em épocas em que não se faziam ver tão ostensivamente. Como vemos no meme acima, por exemplo, seria colocar “gays demais” onde seriam de aparecimento pouco provável, ou apenas pra fazer o povo os aceitar como “normais” (?) ou agradar a essas “minorias”.

Falta de alteridade ou empatia. A não ser que uma pessoa, sobretudo muito jovem, esteja com problemas psicológicos ou de socialização, ela não vai “mudar” sua sexualidade, religião, opção política etc. só porque viu na televisão, no cinema ou no streaming. De fato, não é que o “wokismo” quer “super-representar” certos grupos em produções culturais, mas sim, como essa produção sempre esteve dominada pelas “maiorias” ou pela “normatividade” dominante, esses grupos estavam é sub-representados, e aí sim, sua onipresença era negada pelos grupos dominantes. Não sou grande consumidor de mídias de massa, mas é interessante que, por um lado, esses grupos em tese deveriam ser “revolucionários” e “contra o sistema”, portanto querendo o destruir e não ligando pra “representatividade”, enquanto na verdade se revelou o contrário, assim como o fato de que por décadas, as “minorias” tiveram sua própria “cartilha” moldada por setores das “maiorias” que intelectualmente rompiam com o sistema e dominavam, por exemplo, as universidades e partes da mídias. Por outro lado, parece hipócrita que esses mesmos conservadores ou extremistas de direita critiquem a representatividade “exagerada”, mas eles mesmos digam “não ver mais Globo, não ler mais Folha”, portanto ou estão sabendo demais, ou consumindo às escondidas.

Caso clássico é o do deputado federal “paulista” Eduardo Bananinha Bolsonaro, o “Zero-Três”, que há alguns anos reclamou no então Twitter (infelizmente não guardei a publicação) que a grade da Globo tinha virado uma “perversão” durante as manhãs, com o programa Encontro, quando muitas crianças podiam estar assistindo e deveria haver, portanto, os velhos desenhos do passado, como os da TV Globinho. Inquietação um tanto peculiar pra um adulto, não? Ainda mais considerando que as crianças de então e de hoje sequer viam mais desenho na TV aberta naquela hora, mais provavelmente estando na escola ou usando a internet. Uma versão mais brutal desse argumento foi dada pela mesma época por Nando Moura em seu período mais “porralouca”, e apenas sugiro que pesquise “priquito fedorento” no YouTube pra talvez achar o vídeo.

As palavras woke e wokism de fato foram criação dos próprios militantes e derivam do verbo inglês pra “despertar” ou “levantar-se”, neste caso de modo figurado em referência à opressão ou preconceito dos citados grupos sempre dominantes no Ocidente. A meu ver, representam uma ruptura com as esquerdas clássicas, sobretudo a comunista, que submetia todas as reivindicações à questão de classe e à destruição completa do modo de produção capitalista, esquerdas que, de fato, durante a década de 2010 usaram muito o termo “identitário” como um termo pejorativo pra essas bandeiras que, seguindo Sabrina “Tese Onze” Fernandes, prefiro chamar de “antiopressão”. Por isso, o fogo é duplo: das esquerdas “tradicionais” e, sobretudo, de parte da direita que adotou a tese da “guerra cultural”, manteve aí a dianteira por um tempo, mas começou a perder terreno com a retomada das redes sociais pelos que ela passou justamente a chamar de “wokistas”. (Como marcos dessa retomada, eu apontaria, no Brasil, as eleições de 2022 e a vitória de Lula, e no mundo, o movimento que levou em 2024 à vitória da narrativa anti-Israel entre a geração Z e às turbulências nas universidades americanas.) Assim, surgiu um novo rótulo pega-tudo que é ao mesmo tempo vago e forte o suficiente pra se ancorar nas brigas de redes sociais.


Na política francesa, por exemplo, o termo “wokismo” como descrição pejorativa foi popularizado pelo partido Rassemblement national e por suas figuras de proa, Marine Le Pen e Jordan Bardella, geralmente se referindo ao partido La France insoumisse, que levou a defesa da causa palestina às últimas consequências. Só nesta semana, por exemplo, a LFI foi punida duas vezes por deputados brandirem a bandeira da Palestina dentro do plenário, ato proibido com qualquer bandeira que não seja a da França. Da última vez, os “insubmissos” chegaram ao cúmulo de virem todos vestidos apenas com uma das cores da bandeira palestina, o que provocou terror na presidente macronete da Assembleia Nacional, Yaël Braun-Pivet, de família judaica, ao se ver diante da pressão de uma nova bancada da melancia:


“Mente poluída” também pode ser considerada “wokismo”? Rs:


E por fim, uma cena que filmei outro dia e que eu poderia chamar de “wokismo reverso”...

Bolsominions: As universidades públicas são ateístas, pervertidas, perseguem os cristãos, doutrinam pro comunismo, ensinam maus valores e só sabem entrar em greve! (Nota: nunca pisaram numa universidade pública.)

Unicamp em 2024, hora do almoço:


quarta-feira, 5 de junho de 2024

Como pronunciar latim eclesiástico (6)


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/fale-latim6


Finalmente, depois de mais de três anos de pausa (fevereiro de 2021), volto a publicar minhas leituras de textos em latim! Só pra relembrar: em fevereiro de 2018, decidi gravar em áudio e publicar no antigo canal Pan-Eslavo Brasil, em forma de vídeo montado com as ilustrações correspondentes, todos os textos dos livros Gradus Primus e Gradus Secundus, de Paulo Rónai. Além da tradução literal livre na descrição, minha locução trazia em voz alta as leituras destinadas ao ensino do idioma latino no ginásio (mais ou menos 5.º a 9.º ano atuais) e criadas por volta da década de 1950. Paulo Rónai foi linguista, tradutor, escritor e crítico literário, e nasceu na Hungria antes de se radicar no Brasil.

Uma das críticas feitas por latinistas acadêmicos a esse método é que os textos são muito artificiais e não refletem a realidade romana antiga da língua. Mas eu gostava muito dele porque pra quem não sabe nada, é uma introdução bem didática, e serve ainda muito bem como manual autodidata. Aqui na página, eu sempre publicava as leituras de 10 em 10, e a última publicação da coleção trouxe os textos lidos das lições 1 a 10 do Gradus Secundus, mas eu já tinha carregado no canal as leituras até a lição 16. Acontece que nesse meio-tempo, houve a derrubada do Pan-Eslavo Brasil em agosto de 2021, a mudança completa da página pra outra conta do Google, o exame de qualificação do doutorado, a defesa da tese e muitas outras coisas que “pediram” pra ser publicadas antes aqui... Apenas agora gravei e montei os quatro vídeos restantes, por isso seu design está um pouco diferente, em especial pela ausência de alusões (agora inúteis) ao YouTube!

Como eu disse nas outras publicações com leituras do Gradus Primus e do Gradus Secundus, decidi seguir a chamada “pronúncia eclesiástica”, baseada na língua italiana e hoje usada em larga escala (quando se emprega o latim) pela Igreja Católica Romana, porque ela é a mais simples, menos artificial e não padece da condição de hipótese, tal como a “pronúncia reconstituída”. Comecei esta série no YouTube por diversão, e pra quem não sabe nada da língua latina, embora não seja propriamente um curso. O latim também pesou pra evangelização dos eslavos e pra elaboração cultural feita pelos santos Cirilo e Metódio, codificadores da primeira língua eslava escrita. Além disso, muitos povos eslavos (ocidentais, além de croatas e eslovenos) não caíram sob a influência ortodoxa de matriz grega.

Seguem abaixo os vídeos das lições 11 a 20 do Gradus Secundus já gravadas (de 11 a 16, ainda em 2021). Você pode ler também as traduções livres que eu mesmo fiz, já que elas não acompanham os livros. Até a lição 16, as traduções vieram nas descrições dos vídeos no YouTube, quando eu ainda estudava o livro e o conhecimento estava “fresco” em minha mente. Pros outros vídeos, seria (e será no futuro) difícil e demorado eu mesmo traduzir sozinho, porém, achei uma playlist no canal do prof. Húdson Canuto com aulas baseadas justamente nos dois manuais de Rónai, nas quais ele lê os textos em voz alta, os traduz oralmente e explica a gramática. Claro que a tradução é vagarosa, ele não a dá pronta de uma só vez e considero sua locução bastante monótona, mas pelo menos pra esta publicação, foi uma mão na roda pra que, com minhas próprias adaptações, eu pudesse enfim desengavetar o rascunho!

Queria fazer apenas duas observações: logo no primeiro vídeo, cometi o pequeno deslize de, ao invés de pronunciar ignosco em ignosco libenter como “inhósko”, que é a forma correta, pronunciei “inhócho”. E no vídeo “Os primeiros cônsules”, minha única discórdia pra com o autor é logo no começo, eu não escreveria iam (já), mas jam, igual nos escritos católicos medievais e modernos, por ser semiconsoante:


ORBÍLIO INTERROGA SEUS ALUNOS

ORB. – Vocês estudaram a lição, meninos?

ALUNOS – Estudamos, professor.

ORB. – Quantos reis os romanos tiveram, Sexto?

SEXTO – Sete.

ORB. – Por quanto tempo (no total) eles reinaram?

SEX. – Duzentos e quarenta e três anos.

ORB. – Quem foi o primeiro rei de Roma?

SEX. – O primeiro rei de Roma foi Rômulo.

ORB. – Ótima resposta. De quem Rômulo era filho, Aulo?

AULO – Da vestal Rea Sílvia e do deus Marte.

ORB. – Ele tinha um irmão?

AUL. – Tinha, de fato gêmeo, Remo.

ORB. – A quem Amúlio levou os gêmeos?

AUL. – A um escravo.

ORB. – Por quê?

AUL. – Para que ele os matasse.

ORB. – Onde o escravo abandonou os pequeninos?

AUL. – Na beira do rio.

ORB. – Como a loba cuidou dos pequeninos?

AUL. - Alimentando-os com leite.

ORB. – Você também é um menino diligente. Agora me responda diretamente você, Lúcio. Numa reinou depois de quem?

LÚCIO – Depois de Rômulo e antes de Tulo.

ORB. – Quem sucedeu a Tulo?

LUC. – Anco Márcio.

ORB. – E a este?

LUC. – Tarquínio, o Soberbo.

ORB. – Você pensa dessa forma, Quinto?

QUINTO – De forma alguma, professor. O sucessor de Anco era Tarquínio Prisco.

LUC. – Isso mesmo. Confundi os dois Tarquínios. Perdoe pelo erro, professor.

ORB. – Claro que perdoo, Lúcio: “errar é humano”.


(SOBRE) OS ESTUDOS DAS MENINAS

Júlia, Lívia e Sílvia são levadas pela escrava Drusila para a casa de Semprônia, para que elas retomem os estudos com a professora. A professora é saudada afavelmente pelas alunas.

MENINAS – Olá, professora!

SEMPR. – Olá, meninas! Como vão?

MENINAS – Muito bem, professora. E a senhora [lit. “tu/você mesma”], como vai?

SEMPR. – Muito bem. Senti muita falta de vocês nessas férias. O que vocês querem aprender hoje?

LÍVIA – Dite provérbios para nós.

SEMPR. – Aqui estão quatro entre os mais belos:

Os amigos certos são discernidos nas horas (lit. “coisa”) incertas.

Devemos ser (ou “nos deixar ser”) advertidos de boa vontade pelos amigos.

A verdadeira virtude é exibida pelos atos.

O outro lado (lit. “A outra parte”) também deve ser ouvido.

Os provérbios são explicados pela professora e são copiados nas tábuas pelas alunas com estilete.


(SOBRE) OS PRIMEIROS CÔNSULES

ORBÍLIO – Já vimos como os romanos expulsaram Tarquínio, o sétimo e último rei. Então, em vez de apenas um rei, foram eleitos dois cônsules pela razão que, se um deles fosse mau, seria reprimido pelo outro. Mas aos cônsules foi dado o reinado de um ano.

QUINTO – Por que não durável, professor?

ORB. – Foi decidido que eles não tivessem um reinado maior do que um ano só para que não se tornassem arrogantes demais com a longa duração do poder, mas sempre fossem corteses. Portanto, foram cônsules no primeiro ano Lúcio Júnio Bruto e Tarquínio Colatino.


(SOBRE) AS GUERRAS QUE O REI EXPULSO CONDUZIU CONTRA ROMA

QUINTO – O rei expulso de Roma aceitou a ofensa com o espírito resignado?

ORBÍLIO – De forma alguma. Pelo contrário, conduziu guerras contra Roma para que tivesse o reinado restabelecido. Na primeira batalha o cônsul Bruto e Arunte, filho de Tarquínio, mataram um ao outro; porém, os romanos saíram vencedores dessa batalha, e Tarquínio vencido. Também no segundo ano Tarquínio conduziu uma guerra à pátria com a ajuda de Porsena, rei dos etruscos, e quase capturou Roma; mas também então saiu derrotado.

SEXTO – Assim finalmente a república (livre) pôde pôr as discórdias de lado.

ORB. – Ainda não. O rei expulso não descansou até sua morte. No nono ano um enorme exército foi reunido por seu genro para vingar a ofensa ao sogro. Porém, as tropas foram novamente vencidas pela virtude dos cidadãos.

SEX. – E como Tarquínio Soberbo terminou sua vida?

ORB. – Ele se transferiu para Cumas e nessa cidade logo morreu consumido pela velhice e pela aflição.


SOBRE O RESPEITO PARA COM OS IDOSOS

Enquanto Semprônia ensinava as alunas em casa, uma velha entrou para visitá-la. Escrevendo a lição, as meninas não se levantaram. Pouco depois a velha foi embora e Semprônia narrou esta história às meninas:

Lacedemônia [i.e. Esparta] era um domicílio honradíssimo para os idosos. Em nenhum outro lugar a velhice era mais venerada. Um dia, em Atenas, certo velho entrou num teatro; na grande plateia nenhum dos seus cidadãos cedeu-lhe o lugar. Então o velho se aproximou de embaixadores espartanos que estavam sentados em certo lugar. Todos eles se levantaram e o receberam para que se sentasse. Quando a plateia toda aplaudiu fortemente os embaixadores, um deles disse: “Os atenienses sabem o que é certo, mas não querem fazê-lo”.

As meninas ficaram muito perturbadas com a história da professora.

– Entendi a história, professora – disse Lívia. – Agimos mal. Perdoe o erro. Daqui em diante sempre demonstraremos respeito à velhice [i.e. aos idosos].


SOBRE CORIOLANO

ORBÍLIO – Vocês já conhecem a história dos sete reis e da república. Se desejam saber mais alguma coisa, perguntem.

SEXTO – Já ouvi muitas vezes o nome de Coriolano. Explique-nos, professor, quem foi ele e que coisas realizou.

ORB. – Caio Márcio Coriolano, general romano que havia capturado Coríolos, a cidade dos volscos, foi expulso injustamente de Roma. Irritado, ele se dirigiu aos próprios volscos e aceitou a ajuda deles para se vingar da ofensa.

Coriolano venceu os romanos muitas vezes. Recusou-se a receber os embaixadores romanos que foram enviados para oferecer a paz. Ele estava – algo terrível de dizer – prestes a sitiar a pátria, quando sua mãe e sua esposa saíram de Roma ao seu encontro.

Vencido pelo choro e pela súplica das mulheres, Coriolano afastou seu exército. E este foi o segundo general depois de Tarquínio que se voltou contra sua pátria.


(SOBRE) MÚCIO CÉVOLA (Primeira parte)

LÚCIO – Professor, recentemente o senhor falou sobre Coriolano, um inimigo de sua pátria. Peço que hoje fale sobre algum homem ilustre que a amasse.

ORBÍLIO – Pedido correto, Lúcio. Os exemplos dos homens fortes despertam os ânimos dos jovens com o amor pela glória. Por isso vou lhes contar agora um caso do tipo que vocês estão pedindo, digno de admiração e meditação.

Vocês já ouviram o nome de Porsena, rei dos etruscos e companheiro de Tarquínio Soberbo, o qual o povo expulsara de Roma. Porsena atormentava nossa cidade com uma grave e constante guerra. Suportando-a com dificuldade, o jovem nobre Múcio, cingido com a espada, entrou secretamente no acampamento militar do rei. Após tentar em vão matar o rei, que estava fazendo sacrifícios ao altar, foi subjugado pelos soldados que ameaçaram o torturar.


(SOBRE) MÚCIO CÉVOLA (Segunda parte)

SEXTO – As ameaças de Porsena atemorizaram Múcio?

ORBÍLIO – De forma alguma. Ele não escondeu dos soldados a razão de sua vinda; pelo contrário, mostrou a todos com admirável paciência o quanto desprezava as torturas. De fato, detestando sua mão direita, por não poder se valer de seu serviço para assassinar o rei, colocou-a dentro de um braseiro e aguentou as queimaduras.

A paciência de Múcio também obrigou o próprio Porsena, que tinha se esquecido do perigo, a transformar sua vingança em admiração.

– Múcio – diz ele –, volte para junto dos seus e lhes diga isto: “O rei devolveu a vida a mim, que queria atentar contra a dele.”


(SOBRE) RÉGULO (Primeira parte)

AULO – O que aconteceu depois com Múcio?

ORBÍLIO – Viajando para Roma, parecia mais triste pela saúde de Porsena do que alegre pela sua própria. Mas os cidadãos, admirando sua virtude, lhe deram um cognome [Cévola, no caso] de glória eterna. O que vocês acham desse exemplo de virtude?

QUINTO – A paciência do jovem nos comove à máxima admiração.

ORB. – Admirando e imitando tais exemplos, vocês vão servir à pátria.

LÚCIO – Mas diga, professor, Roma teve outros homens parecidos com Múcio?

ORB. – Teve, muitos até. Ouçam o feito do insigne Régulo. Sendo já célebre o nome da cidade de Roma, eclodiu a guerra púnica contra os africanos [i.e. cartagineses]. Essa guerra foi longuíssima e de futuro duvidoso. Com o auxílio dos espartanos, os exércitos africanos venceram e capturaram parte do exército romano, incluindo o imperador Régulo.

Porém, dois anos depois, Metelo, outro general romano, derrotou os africanos na Sicília e vingou a derrota [de Régulo]. Então, os cartagineses pediram a Régulo, a quem tinham capturado, que viajasse até Roma, obtivesse a paz junto aos romanos e fizesse a troca de prisioneiros.


(SOBRE) RÉGULO (Segunda parte)

LÚCIO – O general romano poderia executar ordens de inimigos?

ORBÍLIO – Espere um pouco e você já vai ver se agiu como um enviado dos púnicos [i.e. cartagineses] ou um cidadão romano.

Tendo chegado a Roma, Régulo foi levado ao Senado. Evitando o abraço da esposa [lit. “Afastando a esposa do abraço”], persuadiu os cidadãos a não fazerem a paz com os cartagineses.

– Prostrados por muitas desgraças – disse ele –, eles não têm nenhuma esperança. Eu, por Hércules, um único velho, não valho tanto para que seja trocado, junto com uns poucos romanos que estão presos comigo, por tantos milhares de prisioneiros.

Seguindo o conselho de Régulo, nenhum romano recebeu os africanos que pediam a paz. Os cidadãos fracassaram em reter Régulo em Roma. Ele voltou à África e morreu sob todo tipo de tortura.


segunda-feira, 3 de junho de 2024

(18+) Tortura na Iacútia ao evitar guerra


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/iacutos


No perfil Instagram da “Free Yakutia Foundation” (Fundação Iacútia Livre), contrária à ditadura de Vladimir Putin e defensora dos direitos da população autóctone da República de Sakhá, unidade federativa russa também chamada de Iacútia, foi publicado um vídeo mostrando combatentes feridos na invasão à Ucrânia que depois vão ser enviados ao centro de detenção de Iakutsk, cidade capital da região. Aqueles que, depois do tratamento, se recusam a voltar ao front são presos no comando da Polícia Militar, situada na travessa Viliuisk, n.º 20 A, onde sofrem torturas e violências físicas e são proibidos de ir ao banheiro e de se comunicar com os parentes. As autoridades tentam os enviar de volta à força, e tudo isso ocorre ao som da canção Eu sou russo!, do “cantor” Shaman, ligada no último volume.

Já vou avisando que as imagens não são agradáveis, e os próprios combatentes filmaram e enviaram ao perfil militante Polit Sakhá, de onde a Free Yakutia Foundation tirou parte do material. Pros idiotas bananeiros, de “direita” ou “esquerda”, que ainda defendem Putin, ou não defendem e acham a invasão “legítima”, ou criticam ambos do canto da boca e preferem “culpar” Zelensky ou a OTAN, sobretudo comprando a narrativa falsa do “genocídio russo na Donbás”, tomem uma amostra do que é viver na moderna Rússia infernal.



Eu poderia caçar ou republicar muito do material semelhante que vejo na mídia alternativa, mas não tenho tempo, vontade ou intenção de criar um tipo de “contrapropaganda em massa”, por isso o melhor é que você mesmo use minha página apenas como um ponto de partida pra futuras pesquisas. Porém, achei essa notícia tão grotesca que precisei cutucar três pontos pouco contestados no Brasil: a “normalidade” de uma guerra de predação (que inclui a aceitação da narrativa putinista, a ignorância do sofrimento causado aos conscritos, a impressão de que o Exército Russo é funcional, entre outras coisas), o mito da harmonia multinacional na Rússia e o suposto apoio maciço do povo à invasão. Infelizmente, vou ter que parafrasear o Padre Kelmon no debate da TV Globo, mas “aqui só se fala de Palestina, parece que não acontece outra coisa”. E sim, o problema de nossa “esquerda”, mesmo de setores do governo Lula, não é se contrapor à matança em Gaza e à opressão na Cisjordânia, mas é se calar ou mesmo justificar um crime muito maior, com impacto geopolítico muito maior e que não tem nenhuma justificativa, mesmo diante da inépcia primordial de Zelensky pra política e do antiatlantismo acrítico de muitos militantes, a saber a invasão da Ucrânia por uma ditadura racista e expansionista.



No canal Telegram da mesma Free Yakutia Foundation, também se encontra o vídeo acima, mas achei ainda este outro abaixo, que mostra um bravo e inteligente “defensor da Mãe-Rússia” desviando um drone “fascista nazista sionista banderista otanista humorista”... com o pé. Até quis fazer uma edição com a sonoplastia das Videocassetadas do Faustão, mas fiquei com preguiça (ele já estava no canal com essa música):


A última edição do Géopolitis da RTS suíça me inspirou a fazer dois memes, de gosto mais ou menos duvidoso: o professor de educação sexual na China de Deng Xiaoping, que na década de 1980 impôs a “política do filho único” (abolida em 2015) e reformou completamente a economia; e o indiano que acaba de ter sua filha no agora país mais populoso do mundo.




sábado, 1 de junho de 2024

Como se elege o presidente dos EUA


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Na mídia brasileira, todo ano em que há eleições presidenciais nos EUA é feita uma explicação do estrambótico, arcaico e injusto sistema eleitoral do país, pelo menos pra esse cargo mais alto. Foi o caso do Jornal Nacional em 2 de novembro de 2020, quando Biden ganhou e Trump disse que não perdeu, do qual você pode ver abaixo uma cópia de menor qualidade, que na época tirei do YouTube. Mas hoje lhe dou de presente uma espécie de versão premium, ou seja, a reportagem da edição mais recente do programa Géopolitis da Rádio e Televisão Suíça francófona (RTS), explicando exatamente conceitos como “colégio eleitoral”, “grandes eleitores”, “delegados” etc.

A transcrição é minha, tendo passado o texto no Google Tradutor e depois o configurado de acordo com minhas próprias escolhas e estilo. Não sei se minha tradução ficou perfeita, mas ela está inteligível, e pros estudantes de francês, pus também a transcrição dos números longos, lembrando que na Suíça eles dizem septante (70), huitante (80) e nonante (90), e não os soixante-dix, quatre-vingts e quatre-vingt-dix que atemorizam todo iniciante! O vídeo sem legendas apresentado e narrado por Laurent Huguenin-Élie, repórter que também é formado em História, também segue abaixo:




O sistema que conduz à eleição do presidente ou da presidenta é um tanto peculiar. Ele também é uma herança dos pais fundadores. Originalmente, eles tinham pensado numa votação em duas etapas, primeiro pra indicar os homens de confiança que elegem, a seguir, a pessoa mais qualificada pra se tornar presidente. Esses homens de confiança são os grandes eleitores. Hoje, seu papel é na verdade simbólico, já que representam, de certa forma, pontos a serem ganhos. Esses intermediários permitem que falemos em sufrágio universal indireto.

Os 50 estados do país indicam um total de 538 grandes eleitores que formam o Colégio Eleitoral. A cada estado é atribuído um número de grandes eleitores correspondente ao número de seus representantes no Congresso [Nacional]. É um truque que permite que os estados pequenos e menos populosos não sejam esmagados pelos grandes. Por exemplo: o estado do Wyoming tem um total de três eleitores – um que equivale a seu deputado na Câmara dos Representantes, mais dois, já que cada estado conta com dois senadores, independentemente de seu peso demográfico. Assim, um mais dois são três. A Califórnia, o estado mais populoso, pode contar com 54 grandes eleitores, ou seja, 52 mais dois.

No dia das eleições, os cidadãos americanos são convidados a marcar [na cédula] a opção correspondente aos candidatos de sua escolha. Assim, o candidato que ficar em primeiro lugar num estado leva todos os seus grandes eleitores. É eleito presidente aquele que conseguir no mínimo a maioria dos grandes eleitores, a saber 270 dos 538, mesmo que não tenha conseguido a maioria dos votos a nível nacional. Mas ainda não chegamos nessa etapa: neste verão [do Hemisfério Norte], democratas e republicanos vão apontar oficialmente, durante as convenções partidárias, os nomes de seus preferidos, ou seja, o candidato à presidência e o companheiro ou companheira de chapa à vice-presidência.


Le système qui mène à l’élection du président ou de la présidente est un peu particulier. On le doit là encore aux constituants. Ils avaient à l’origine imaginé un vote à deux étages, pour désigner d’abord les hommes de confiance qui élisent, en suite, la personne la plus qualifiée pour devenir président. Les hommes de confiance, ce sont les grands électeurs. Leur rôle est aujourd’hui en réalité symbolique, puis qu’ils représentent, en quelque sorte, des points à gagner. Ces intermédiaires font que l’on parle de suffrage universel indirect.

Les 50 [cinquante] états du pays désignent au total 538 [cinq-cent-trente-huit] grands électeurs qui forment le Collège électorale. Chaque état se voit attribuer un nombre de grands électeus qui correspond au nombre de ses représentants au Congrès. Une astuce qui permet aux petits états les moins peuplés de ne pas se faire écraser par les grands. Exemple : l’état de Wyoming compte au total trois grands électeurs - un qui encarne son élu à la Chambre des représentants, plus deux, puisque chaque état dispose de deux sénateurs, quel que soit son poids démografique. Ainsi, un plus deux égal trois. La Californie, l’état le plus peuplé, peut tabler sur 54 [cinquante-quatre] grands électeurs, à savoir 52 [cinquante-deux] plus deux.

Le jour de l’élection, les citoyens américains sont appelés à noircir la case correspondant aux candidats de leur choix. Ainsi, le candidat qui arrive en tête dans un état obtient la totalité de ses grands électeurs. Est élu président celui qui remporte au moins la majorité des grands électeurs, à savoir 270 [deux-cent-septante] sur 538, même s’il n’obtient pas la majorité des voix sur le plan national. Mais nous n’en sommes pas encore là : cet été, démocrates et républicains vont désigner officiellement, lors des conventions de partis, le nom de leurs poulains, c’est-à-dire le candidat à la présidence et la colistière ou le colistier pour la vice-présidence.



quinta-feira, 30 de maio de 2024

“Hola a todos, yo soy el león” (J. Milei)


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Como todo político populista, Javier Milei nunca abandonou o clima de campanha, embora esteja ocupando o cargo político mais alto da Argentina. No último 22 de maio, ao apresentar seu mais novo livro a uma plateia de fãs no estádio Luna Park, o ultraliberal também fez um longo discurso sobre economia e mercado em linguagem técnica, recebeu o apoio de políticos aliados presentes e, o mais notório, junto da banda La Liberal, que o apoia, “entoou” a canção Panic Show, usada durante toda a sua campanha pra tentar forjar sua imagem de “leão” político (na verdade, como se diria aqui na Favela, “tigrão” pros pobres e “tchutchuca” pro grande capital).

Contudo, a banda La Renga, de matiz anarquista e que gravou a faixa pela primeira vez ainda no ano 2000, dentro do álbum La esquina del infinito, jamais o autorizou a usá-la como jingle, e inclusive critica seu uso pra autopromoção, e não apenas pra desfrute privado. Composta por Gustavo Fabián Nápoli, Milei a usou pela primeira vez quando ainda era pré-candidato a deputado nacional, em setembro de 2021. Após receber a crítica sem ser nomeado, o economista lembrou que La Renga tinha recebido dinheiro pra atuar num show pró-Cristina Kirchner, em 2013.

Em todo caso, segundo a Wikipédia em espanhol, o álbum de 2000 tinha de fato um tom de crítica social, refletindo o rescaldo dos anos relativamente estáveis sob o presidente Carlos Menem e que já estavam se transformando em recessão econômica (até desaguarem, como se veria, na crise aguda entre 2001 e 2002). Vendo o vídeo abaixo, que foi publicado pelo portal G1, posso concluir que Milei não é apenas um “Paulo Kogos argentino, como muitos dizem aqui, mas também tem pitadas de Nando Moura, o roqueiro fracassado que promoveu o bolsonarismo e depois o renegou, deixando-o ainda mais ridículo e insuportável. A pronúncia quase vomitada em nada deve à Pandora 101, e por isso lhe apresento as duas versões, pra concluir qual delas pode ser a pior, embora o páreo seja duro, rs.

Há também a versão com a letra um pouco modificada, que Milei cantou durante a campanha e da qual pode ser escutado um dos versos no vídeo do G1. Ele troca algumas palavras de pessoas por casta (quem não se lembra dos “marajás” de Collor? Rs) e grita seu lema político após a primeira estrofe, em áudio publicado no YouTube e no Spotify por uma conta chamada “La Mancha Venenosa”, gíria portenha pra uma espécie de jogo. Ainda com poucos seguidores, ela publica a maioria dos jingles de Milei e outras canções relacionadas à ideologia antissocial dos libertários latino-americanos. E pra não quebrar a tradição em minha página, seguem a letra em espanhol disponível no site do mesmo jornal La Voz e a tradução que tentei fazer, usando como auxílio uma já disponível no portal Letras.mus.br. Em algumas aparições, Milei adaptou a letra pra colocar o famoso termo “casta” como alvo desse leão destrutivo:






Hola a todos, yo soy el león
Rugió la bestia en medio de la avenida
Todos corrieron, sin entender
[Corrió la casta, sin entender]
Panic show a plena luz del día
Por favor no huyan de mí
Yo soy el rey de un mundo perdido
Soy el rey y te destrozaré
Todos los cómplices son de mi apetito
[Toda la casta es de mi apetito]

No te escapes, ven a mí
Desnúdate y enfrenta mis dientes
Yo soy el rey, el león
Ven a saber lo que se siente
Por favor no huyan de mí
Yo soy el rey de un mundo perdido
Soy el rey y te destrozaré
Todos los cómplices son de mi apetito
[Toda la casta es de mi apetito]

Hola a todos, yo soy el león
Rugió la bestia en medio de la avenida
Todos corrieron, sin entender
[Corrió la casta sin entender]
Panic show a plena luz del día
Por favor no huyan de mí
Yo soy el rey de un mundo perdido
Soy el rey y te destrozaré
Todos los cómplices son de mi apetito
[Toda la casta es de mi apetito]

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Olá a todos, eu sou o leão
A fera rugiu no meio da avenida
Todos correram, sem entender
[A casta correu, sem entender]
Panic show [show de pânico] em plena luz do dia
Por favor, não fujam de mim
Eu sou o rei de um mundo perdido
Sou o rei e vou te destroçar
Todos os cúmplices despertam meu apetite
[Toda a casta desperta meu apetite]

Não fuja, venha até mim
Desiniba-se e enfrente meus dentes
Eu sou o rei, o leão
Venha conhecer a sensação
Por favor, não fujam de mim
Eu sou o rei de um mundo perdido
Sou o rei e vou te destroçar
Todos os cúmplices despertam meu apetite
[Toda a casta desperta meu apetite]

Olá a todos, eu sou o leão
A fera rugiu no meio da avenida
Todos correram, sem entender
[A casta correu, sem entender]
Panic show em plena luz do dia
Por favor, não fujam de mim
Eu sou o rei de um mundo perdido
Sou o rei e vou te destroçar
Todos os cúmplices despertam meu apetite
[Toda a casta desperta meu apetite]



Comentarista de um dos artigos citados. Como dizem os hermanos, #MileiSosCasta !

terça-feira, 28 de maio de 2024

Única frase ucraniana dita por Putin


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Meu amigo paranaense Tiago Rocha Gonçalves, descendente de ucranianos e estudioso da questão nacional vista pelos marxistas da Ucrânia no início da revolução bolchevique, me indicou este vídeo de 5 de dezembro de 2008, ocasião em que Vladimir Putin, segundo ele, disse a única frase que sabia em ucraniano. Conforme citação deste site, o então “primeiro-ministro” da Rússia (na verdade, um período-tampão em que Putin ainda era obrigado a seguir a Constituição, antes de conseguir a violar) respondeu à pergunta sobre se a Ucrânia, então governada pelo presidente pró-ocidental Víktor Iúshchenko e que ainda não tinha acertado suas dívidas pelo gás, podia pagar com os preços vigentes ainda aquele ano.

No que parecia ser a conferência anual de imprensa transmitida ao vivo pela TV estatal, ainda no clima mais aconchegante e menos tecnológico dos primeiros anos, ele respondeu: “Мне один мой приятель в прежние годы говорил, когда я ему чё-то там... ставил перед ним какие-то сложные вопросы, он мне говорил: Ти що, з глузду з’їхав, чи що?” (Em anos passados, um amigo meu me dizia, quando eu lhe fazia algumas perguntas difíceis: Ty shcho, z hlúzdu ziíkhav, chy shcho? [tradução: “O que houve, você enlouqueceu?”].)



Em outra entrevista coletiva em que chegou a comentar sobre a Ucrânia, mas desta vez em 18 de maio de 2019, dois dias antes da posse do novo presidente Volodymyr Zelensky, Putin repetiu a mesma frase, mas desta vez se referindo a certas políticas do governo de Petró Poroshenko, que então tinha perdido a tentativa de reeleição e sairia. O ditador já tecia partes de sua narrativa com que tentaria justificar a invasão ao vizinho: as políticas de Kyiv eram “russofóbicas”, russos e ucranianos eram “o mesmo povo” só porque tinham “uma história em comum”, a Ucrânia tentava “perseguir” os russos e impor sua própria cultura e estava difícil dialogar com aquele governo.

De fato, Poroshenko foi muito mais antipático ao Kremlin do que Zelensky foi inicialmente, e o ex-ator judeu era até considerado mais “pró-Rússia” só por causa de sua língua materna e porque teve muito mais votos nas regiões orientais do que nas ocidentais (onde, mesmo assim, também ganhou no segundo turno). Inclusive Aleksei Navalny, em vídeo da época que vi outro dia, receava que Zelensky fosse mais simpático a Putin do que aos povos dos dois países, o que acabou não se revelando verdade, embora Moscou jamais estivesse com a razão, pois ajudou a desestabilizar o Donbás desde março de 2014, quando também roubou a Crimeia, isto é, bem antes da posse de Poroshenko, eleito pelo voto popular.



Descobri também esta entrevista por acaso, enquanto pesquisava o caso da frase em ucraniano. Com seu repórter quase privativo, Pável Zarúbin, Putin comenta em outubro de 2023 o cerceamento cada vez maior do ex-chanceler (ex-premiê) social-democrata da Alemanha, Gerhard Schröder, por sua antiga participação no quadro de acionistas da estatal russa Gazprom e sua recusa a condenar a invasão da Ucrânia. Além da amizade com o ditador, Schröder tem sido acusado, enquanto chefe de governo, de ter ajudado seu país a ficar cada vez mais dependente dos recursos fósseis russos, o que, na verdade, em grande parte também foi culpa de sua sucessora democrata-cristã, “Mutti” Merkel.

Hoje liderando uma instável coalizão entre sociais-democratas, verdes e liberais, Olaf Scholz azedou as relações com o colega de partido e, além de romper completamente com o Kremlin, abandonar todos os contratos de importação de gás e petróleo e ajudar Kyiv militarmente, somou-se às sanções internacionais que visariam enfraquecer a invasão. Obviamente, quem não concorda com Putin é “banderista”, “nazista”, “russófobo”, “imperialista” e o que valha, e nessa linha de desinformação, ele disse a Zarubin: “Quanto mais longe de [Gerhard] Schröder, mais próximo de Anthony Rota, que simpatiza com nazistas”, e depois fez questão de repetir em seu surrado alemão dos tempos do Stasi em Dresden, “pra que os próprios alemães entendessem”: “Je weiter von Schröder, desto näher zu Anthony Rota, der [mit] Nazisten sympathisiert.

Até a preposição mit ele comeu, já que em alemão, assim como em português, não “simpatizamos alguém”, e sim “simpatizamos com alguém”. O perfil da embaixada da Rússia na Alemanha reverberou o teatro, embora mais uma vez o Kremlin estivesse surfando numa onda de desinformação, com direito a mentiras sobre Yaroslav Hunka, o concernido nazista de 98 anos.

No início daquele outubro, o premiê canadense Justin Trudeau e o presidente do Parlamento, Anthony Rota, tinham recebido Zelensky pra uma homenagem na câmara, e a certa altura o deputado declarou que estava sentado nas galerias “um veterano da 2.ª Guerra Mundial que lutou pela independência ucraniana contra os Russos”, assim o homenageando publicamente e lhe dedicando uma salva de palmas. Contudo, seu filho Martin Hunka o trouxe lá sem avisar nenhum dos dois governos envolvidos, mas apenas a Rota, que o aceitou sem ser informado de que se tratava de um ex-combatente do braço ucraniano das Waffen-SS nazistas, ainda passível de condenação e jamais arrependido de seus crimes. Após a revelação pública de seu passado, o escândalo fez com que Rota se desculpasse e renunciasse à presidência do Parlamento.

Bem diferente do criminoso de guerra Putin, que não tendo nenhum escrúpulo em estuprar a Constituição pra se perpetuar no poder, esconde nazifascistas debaixo de suas asas (Prigozhin, Utkin, Dugin), deixa o antissemitismo correr impune entre seus burocratas (Lavrov, o pogrom no Daguestão), mata veteranos antinazistas quase centenários na Ucrânia e adota uma estética alusiva ao nazismo em sua propaganda (ver os clipes de Shaman, “cantor” oficial do regime). Martin e sua família, que em sã consciência praticamente plantaram lá o velho, não sabemos a que interesses atendendo, simplesmente sumiram e fugiram da mídia quando “a bomba estourou”, mas apesar dos esclarecimentos, já era tarde demais. E como sói ocorrer pra toda propaganda bananeira pró-Kremlin, o desmentido não vale nada, a exemplo da “mídia” fake news Brasil 247, que copiou e colou conteúdo do desinformador Sputnik, mas em todo caso comunicou sobre o sumiço voluntário dos Hunka.



Meu amigo Claudio, o célebre paranaense do Rio de Janeiro (rs), publicou em seus stories do Instagram uma montagem mostrando o rosto de Zelensky a cada ano desde sua posse como presidente. Me inspirei nele pra fazer esta outra pequena montagem com Putin, incluindo um retrato de sua juventude como espião frustrado na antiga RDA e a tomada numa de suas “posses” que o fez parecer, após 500 plásticas, um moai da Ilha de Páscoa, rs:


Créditos a meu amigo carioca Raphael, que tirou não sei de onde esta sugestiva foto (eu não sabia que ele assistia a rúgbi...) e disse que podia me dar “a ideia de um meme”. Esta foi a primeira que eu tive, e se alguém tiver outra, me comunique, pois ainda tenho o modelo “liso” (template), rs:


E por fim, vemos neste print um momento da entrevista de Ekaterina Kotrikadze (TV Rain), na semana passada, com um ex-vice-premiê de Israel, que em minha visão parece mais o Silvio Santos careca. Lembremos, claro, que o Homem do Baú tem ascendência judaica de origem grega. Quanto à cara da Katya que captei, ela mesma podia se tornar um meme à parte, rs:


segunda-feira, 27 de maio de 2024

Xandão internacional pró “Pelé Stein”


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Calvície por calvície, parece que o ministro do STF Alexandre “Xandão” de Moraes encontrou seu “clone” em escala internacional e ONUsiana, embora ele seja mais claro e de origem anglo-paquistanesa. Karim Khan é desde 2021 o procurador do Tribunal Penal Internacional sediado em Haia, e sugeriu à corte (que ainda deve ratificá-la) a prisão de Vladimir Putin, Binyamin Netanyahu, Ismail Haniya e outros líderes da Rússia, de Israel e do Hamas por crimes de guerra. Nos dois últimos casos, os mais recentes, ambas as partes rejeitaram a equiparação uma à outra, mas apenas Jerusalém foi defendida por vários países ricos ocidentais. Porém, Khan disse que não está igualando pessoas ou instituições, e sim os alegados crimes cometidos.

Claro que Moraes, como juiz da corte suprema, tem o poder de mandar prender ou soltar pessoas, enquanto Khan apenas investigou e sugeriu que os juízes do TPI executassem os mandados na medida do possível. “Possível” porque, ao contrário do interior de um país, no cenário internacional os acusados só podem ser presos se entrarem num dos países cujo parlamento tenha ratificado a competência do tribunal, o que não é o caso nem de Israel, nem da Rússia e nem mesmo dos EUA. Em todo o caso, ambos os juristas estão amplamente execrados pelos defensores dos campos em questão, e sua visibilidade midiática pode os deixar ainda mais expostos ao hate.

Khan é filho de uma enfermeira inglesa e de um dermatologista nascido no que hoje paz parte do Paquistão. Pra pequena história, seu irmão Imran (não confundir com o ex-premiê paquistanês Imran Khan) foi deputado conservador na Câmara dos Comuns, mas foi cassado em 2022 após condenação por abuso sexual de menor.


Com todos os tropeços, Karim Khan tenta proteger as vidas dos civis árabes e israelenses que pouco ou nada têm a ver com essa guerra por poder e riquezas. Ele é, portanto, sensível a todos os jovens mais ou menos radicais que têm parado as universidades americanas e gritado pro mundo todo: Fri, fri, Pelé Stein! Fri, fri, Pelé Stein! (desculpem, essa foi horrível, rs). Mais conhecido como sogro do Maurício Manieri (e pra quem não conhece este, foi uma subcelebridade da música bananeira dos anos 90-2000), o judeu de origem franco-egípcia fez sucesso na segunda metade do século 20 gravando sucessos da música francesa, brasileira e hebraica, é ator e também atuou na novela global Esperança (2002-2003), uma cópia fracassada da Terra Nostra, como pai da Ana Paula Arósio.

Hoje só é visto participando de programas de auditório na Gazeta, Rede TV ou TV Aparecida que ninguém vê e cantando em bares e restaurantes frequentados pela nata desocupada da elite quatrocentona paulistana. Quando ele resolveu incorporar o finado Rei do Ludopédio, foi adotado pelos graduandos progressistas ocidentais e, na qualidade de lema bradado em toda parte, inspirou a proteção do Xandão internacional!




Nesta apresentação, Pelé Stein canta seu maior e único sucesso fonográfico, rs:




domingo, 26 de maio de 2024

Presidente do Irã desceu pra baixo


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/raisi


Se você estranhou ou achou de mau gosto a presença de certo presidente sul-americano na foto, pergunte pras pessoas que ficaram total ou parcialmente cegas após receberem balas de “borracha” na fuça nos protestos de 2019!

Mas voltando à antiga Pérsia, o ditador islâmico supremo, Ali Cãomenei, quis dar uma de bispo Bergoglio e chegou a pedir ao povo neste domingo que “rezasse” pela vida do subditador:


Ardente defensor de Israel (com direito a bandeirinha na bancada e tudo), o jornalista argentino Eduardo Feinmann, que também trabalha no La Nación chupando o saco do Loco, comentou profeticamente a morte de Raisi em famoso meme de anos atrás. Lembremos que o Irã é o único inimigo geopolítico da Argentina, devido ao atentado não esclarecido a um centro judaico em 1994:


E se vocês acham que sou muito “misantropo” por estar celebrando a descida dessa carniça pelo elevador, saiba que há gente mais “misantropa” que eu, rs (a começar pelo biliardário mimado e viciado em redes sociais):


Atualizações! Num de seus canais no Telegrão, o Hamas culpa um agente do Mossad pelo acidente que matou seus financiadores e alimentadores: seu nome seria Eli Copter, hahaha:






Enquanto isso, na cidade curda onde nasceu Jîna Emînî (Mahsā Amini), morta em Teerã pela “polícia dos costumes” da ditadura em setembro de 2022, assim como em outras cidades do Irã, partes do povo estão comemorando a “perda” de “seu” presidente:


E na versão em persa do canal e TV Voice of America, produzida e transmitida a partir de Washington, foi convidado pra comentar os acontecimentos Carlos Massa, especialista também apelidado com o nome de um roedor, rs:




E por sugestão de um amigo, coloco também este deepfake que fizeram com base na famosa canção Ring of Fire (Anel de fogo), de Johnny Cash, também usada em outros memes no passado, rs: “Eu caí dentro de um círculo de fogo ardente, eu descia, descia, descia e as chamas subiam. E queima, queima, queima o círculo de fogo, o círculo de fogo...”




sexta-feira, 24 de maio de 2024

Tu é muito raro mesmo, né Bolsonaro


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/bolzonaro

Nesta página consegui achar um pequeno material sobre a origem e significado do sobrenome italiano Bolzonaro, forma original portada um dos antepassados do ex-presidente brasileiro Jair Messias Bolsonaro e que foi modificada em sua chegada ao novo país. Eu mesmo traduzi (tentei pelo menos) a partir do italiano, e achei interessante não só os possíveis significados ocultos, mas também o fato de mesmo na Itália ser considerado “muito raro”. Veja, é “Mito” porque é “muito raro”, rs!

Uma pequena dica: se você decidir ver o mapa da distribuição do sobrenome Bolzonaro na Itália, troque “BOLZONARO” no final da URL por qualquer outro que você desejar. Pra quem é descendente de italianos, é uma ferramenta bem interessante!


Origem do sobrenome Bolzonaro

Origem: É provável que derive do topônimo [nome de lugar] Bolzano Vicentino (VI) e indique o local de proveniência do fundador da família [capostipite], ou derive de um apelido originado do vocábulo vêneto bolzon, que possui diversos significados: pode indicar “uma flecha, um dardo”, mas também, como apelido jocoso, “pássaro chamariz” ou ainda “aríete pra derrubar as muralhas”.

Nota (Erick): A palavra zimbello também tem vários sentidos: além de “pássaro chamariz” vivo ligado a um cordão ou um bastão e servindo pra atrair outros pássaros, pode ser um “assobio” com a mesma função, ou também, por extensão, um “recurso pra chamar a atenção ou o interesse” de alguém ou, o mais engraçado, “pessoa que atrai zombarias” e se torna alvo delas no interior de um grupo.

O sobrenome Bolzonaro, muito raro, é típico da zona entre Pádua e Rovigo.

Presença: Existem cerca de 126 famílias Bolzonaro na Itália. Clique aqui e descubra o mapa de difusão do sobrenome Bolzonaro na Itália!

Popularidade: O sobrenome Bolzonaro é o 4693.º mais popular na região do Vêneto, o 753.º mais popular na província de Rovigo e o 16.º mais popular na comuna de San Martino di Venezze (RO).


Nesta outra página sobre nomes próprios e sobrenomes no Brasil, a explicação sobre a origem e significado de Bolzonaro é praticamente a mesma, mas com um pouco menos de detalhes (o link possui o texto completo):


quarta-feira, 22 de maio de 2024

Joël Legendre – “J’ai vu le loup” (1976)


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Este menino canadense (reportagem em francês) aparece numa montagem que um amigo meu me enviou pelo Instagram, feita por um professor de francês, brincando que passamos anos aprendendo o idioma, pra depois chegar no Canadá francófono (no essencial, a província do Québec) e não entender nada. Pesquisando melhor, descobri que esse vídeo viralizou em abril e em maio por meio do TikTok e que se trata do ator canadense Joël Legendre (n. 1966) quando tinha 10 anos de idade e participava então do antigo programa folclórico televisivo Soirée canadienne (Noite Canadense). Exibido todo sábado pelo canal CHLT e, depois, também pela Télé-Métropole, durou de 1960 a 1983, apresentado por Louis Bilodeau (1924-2006).

Legendre é apresentador de rádio e TV, ator e diretor, mais conhecido por quase sempre ter dublado os atores americanos Leonardo DiCaprio e Neil Patrick Harris, mas também é vegetariano, abstêmio e não fumante e milita por esse modo de vida. Segundo diz em seu Instagram, apresenta programas na rádio Rouge FM e um concurso televisivo de confeitaria no Québec, e sem querer ser homofóbico, acho que sua condição de gay assumido explica um pouco de seu “gingado” na tela, rs. Em 2015, chegou a ficar um tempo longe do público após um jornal ter revelado que ele foi multado por ter batido punheta num parque, à vista potencial dos passantes.

E a canção em si? Curiosamente, a viralização do vídeo, que se deve provavelmente à publicação numa conta do TikTok de recordação da juventude quebequense antiga, gerou uma onda de zombaria da parte dos franceses com relação ao sotaque do Québec. É algo parecido com o preconceito que alguns portugueses ainda têm com a variante brasileira do idioma (querendo ou não, de longe a mais falada e ela mesma subdivida em incontáveis falares e sotaques), tanto mais que, ao contrário desse caso, o “parisiense” ainda tem prestígio mundial e são poucos os estrangeiros que estudam especificamente a língua no Canadá. Isso porque as variações usadas na África não são consideradas “variantes” ou “padrões” à parte, enquanto no Québec o idioma chegou ainda no século 17 e sofreu tantas modificações quanto o português no Brasil. Ou seja, em alguns aspectos, na América os idiomas se tornaram até mais “conservadores”, sobretudo na pronúncia e em parte do vocabulário.

Por isso, muitos dizem mesmo que, longe de “não ser francês” ou ser um “francês deturpado”, o quebequense seria até “mais francês do que o próprio parisiense”, já que na própria França a língua padronizada só se imporia no território como um todo bem depois do século 17. É o caso, por exemplo, da região sul (o Midi, ou “Meio-Dia”), onde línguas românicas mais próximas do catalão e das nativas do norte da Itália eram predominantes e hoje ainda são um pouco cultivadas, em especial o occitano e sua variante majoritária, o provençal. De fato, sendo uma canção anônima transmitida oralmente e, portanto, de letra original impossível de se definir, é possível que a versão provençal, mais antiga, remonte ao século 13. Ai vist lo lop, lo rainard, la lèbre (Vi o lobo, a raposa, a lebre) tem um teor claramente de crítica social figurada, dirigida aos nobres, clérigos e reis que se divertiriam em orgias, enquanto o povo trabalhava duro por nada. A versão da Borgonha (J’ai vu le loup, le renard, le lièvre), que serviu de base pra Legendre, tem a parte política menos explícita, embora vários usuários do YouTube tenham visto nos animais uma metáfora do poder.

De fato, a letra como um todo parece não fazer muito sentido, o que é comum pra canções populares passadas oralmente, e ainda mais passadas a crianças. Tanto que uma versão folclórica quebequense também é conhecida como M’en revenant de Saint-André, e Legendre curiosamente mudou o nome do santo pra Sainte-Hélène, suponho que em referência a sua cidade natal, Sainte-Hélène-de-Bagot. Desde a década de 1970, várias bandas folclóricas regravaram a canção de modo mais ou menos modificado. Apesar da viralização e montagens recentes, a primeira versão do YouTube surgiu no canal de certo Steven Grimard ainda em janeiro de 2014, e nesta página de canções do Québec apareceu em dezembro de 2020.

A caça sempre teve um papel central na cultura canadense, e a própria expressão ferme ta boîte (feche tua caixa) foi interpretada de modo dúbio por alguns: ou uma expressão figurada pra “cale tua boca”, ou o pedido pra fechar uma armadilha que estava sendo montada pra caçar os “bichos”. Eu mesmo traduzi literalmente do francês, que tem poucas expressões propriamente quebequenses, e não reproduzi os versos repetidos. Seguem abaixo o vídeo de 2014, o mesmo áudio legendado por outro canal também em inglês, o Ai vist lo lop provençal que também é bonito e um dos “remixes” com Legendre e a letra original:








M’en revenant de Sainte-Hélène
Ferme donc ta boîte
Laisse-moi donc chanter
Trois beaux canards s’en vont à baignade
Touchez haut, touchez bas, touchez-y, touchez-y pas
Laissez ça, la m’man veut pas
Je me revire de bord, j’y touche encore
J’ai vu le loup, le renard, le lièvre
J’ai vu le loup, le renard passer

Trois beaux canards s’en vont à baignade
Ferme donc ta boîte
Laisse-moi donc chanter
Le fils du roi s’en va chassant
Touchez haut, touchez bas, touchez-y, touchez-y pas
Laissez ça, la m’man veut pas
Je me revire de bord, j’y touche encore
J’ai vu le loup, le renard, le lièvre
J’ai vu le loup, le renard passer

Le fils du roi s’en va chassant
Ferme donc ta boîte
Laisse-moi donc chanter
Avec son beau fusil d’argent
Touchez haut, touchez bas, touchez-y, touchez-y pas
Laissez ça, la m’man veut pas
Je me revire de bord, j’y touche encore
J’ai vu le loup, le renard, le lièvre
J’ai vu le loup, le renard passer

Avec son beau fusil d’argent
Ferme donc ta boîte
Laisse-moi donc chanter
Visa le noir, tua le blanc
Touchez haut, touchez bas, touchez-y, touchez-y pas
Laissez ça, la m’man veut pas
Je me revire de bord, j’y touche encore
J’ai vu le loup, le renard, le lièvre
J’ai vu le loup, le renard passer

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Retornando de Sainte-Hélène,
Então feche tua caixa
Então me deixe cantar
Três belos patos vão tomar banho
Atirem pra cima, pra baixo, atirem, não atirem
Deixem isso, a mamãe não quer
Respondo com força, continuo atirando
Eu vi o lobo, a raposa e a lebre
Eu vi o lobo e a raposa passarem

Três belos patos vão tomar banho
Então feche tua caixa
Então me deixe cantar
O filho do rei se vai caçando
Atirem pra cima, pra baixo, atirem, não atirem
Deixem isso, a mamãe não quer
Respondo com força, continuo atirando
Eu vi o lobo, a raposa e a lebre
Eu vi o lobo e a raposa passarem

O filho do rei se vai caçando
Então feche tua caixa
Então me deixe cantar
Com seu belo fuzil de prata
Atirem pra cima, pra baixo, atirem, não atirem
Deixem isso, a mamãe não quer
Respondo com força, continuo atirando
Eu vi o lobo, a raposa e a lebre
Eu vi o lobo e a raposa passarem

Com seu belo fuzil de prata
Então feche tua caixa
Então me deixe cantar
Mirou no preto, matou o branco
Atirem pra cima, pra baixo, atirem, não atirem
Deixem isso, a mamãe não quer
Respondo com força, continuo atirando
Eu vi o lobo, a raposa e a lebre
Eu vi o lobo e a raposa passarem



sábado, 18 de maio de 2024

Fabrice Luchini e a “merda de celular”


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/merda-celular


A edição de 8 de maio do C dans l’air, programa diário de debate entre especialistas sobre assuntos do momento exibido pelo canal estatal francês France 5, foi dedicada à morte do escritor e apresentador Bernard Pivot, muito adorado na França por comandar programas de literatura e concursos de ditado, os quais despertaram em muitos o gosto pelos livros e pelo idioma. Não somente pelo palavrão (tão adorado pelos brasileiros!), mas também pelo conteúdo crítico da submissão das sociedades ocidentais aos smartphones, decidi separar e traduzir o trecho em que o ator francês Fabrice Luchini deplora que a sociabilidade tem sido minada pelo vício nas telas; que ele mesmo se considera “viciado” e encara o teatro como uma forma de escape e resistência; e que, viajando um pouco na maionese geopolítica, a despeito de todos os conflitos globais, “essa merda chamada (telefone) celular” pode destruir o próprio Ocidente.

Não costumo publicar palavrões na página, e mesmo quando eles aparecem, adoto termos mais eufêmicos nas traduções. Porém, a expressão foi tão extrema que vai muito além da crítica que eu mesmo também faço aqui dessa nova ordem informativa, tanto de minha lavra quanto de textos copiados, no mais das vezes, sem autorização. O subtítulo da edição era “Mas quem ainda lê?”, e se refere ao fato de Pivot ter sido no passado um vulgarizador da leitura e da literatura, enquanto hoje o volume e a qualidade dos leitores parecem estar em queda – fato que justamente não é unânime entre os convidados. Eu mesmo traduzi, mas não legendei o vídeo (disponível no fim da página) nem ofereci uma transcrição do original francês, não procurei ser literal em alguns pontos e pus algumas observações entre colchetes.

Também já vou fazer aqui as notas explicativas, ao invés de as deixar pro fim do texto. O livro que Luchini menciona, de autoria de Gérald Bronner, se chama Apocalypse cognitive: La face obscure de notre cerveau (Apocalipse cognitivo: A face obscura de nosso cérebro), e há inclusive uma conferência virtual disponível ao público, em que brasileiras o discutem. Sobre o poema de Charles Baudelaire, trata-se do soneto “À une passante” (A uma passante), publicado em seu livro Les fleurs du mal (As flores do mal), de 1857, muito criticado e perseguido pelas autoridades em seu tempo. Há pelo menos duas boas traduções em português disponíveis, só você procurar no Google.

Aproveite o conteúdo e a reflexão sobre ele, e torça comigo pra que o doidão ator Fabrice volte pra Atibaia, Jundiaí ou Bragança Paulista e fique cuidando de uma das três filiais da concessionária Chevrolet da família, rs:



Caroline Roux: Tive a oportunidade, Fabrice Luchini, de ver os livros com os quais você trabalha. São livros completamente usados, avariados, anotados, há uma relação física com o objeto do livro no modo como você se apropriava deles.

Fabrice Luchini: Duas coisinhas rápidas: a primeira é que há um livro extraordinário de Bronner a se ler, que mostra a tragédia que está invadindo os adultos, bem como os adolescentes e as crianças. Quer dizer... há um poema de Baudelaire, não tenho tempo de o ler inteiro, mas quando ele diz: La rue assourdissante autour de moi hurlait [tradução minha: “A rua ensurdecedora berrava a meu redor”], ele conta que vê uma mulher maravilhosa, “alta, magra, de luto fechado” etc. E é exatamente essa cena de Baudelaire vendo essa mulher, essa pedestre sublime, isso não é mais possível. Porque a alienação em que estamos todos – no cair da noite estou no teatro pra escapar de meu vício, porque sou viciado... Então, atualmente estou atuando num filme, mas a verdade é que passo horas monstruosas na frente da tela. Então o teatro...

Caroline Roux: Me deixe entender bem o que você está dizendo, Fabrice Luchini: seu vício em telas?

Fabrice Luchini: Ele é real, não tenho vontade de julgar as outras pessoas! Fico aterrado ao ver o isolamento no TGV [trem-bala], mas eu mesmo agora estou viciado em tudo isso, e escapo por meio da prática teatral. [Victor] Hugo me salvou completamente este ano, é extraordinário servir à prosa de Hugo e ter 500 pessoas [assistindo]. O que eu queria dizer é que quando você lê Bronner... leiam Bronner, ele explica que o psiquismo dos seres humanos vai se reduzir ao “curti, não curti, curti, não curti”. Todas as nuances da realidade, todas as imensas cores da variedade da vida, todo o gênio oferecido pelos grandes escritores são aniquilados em reações simplistas de “curti, não curti”. Então, há uma civilização que está... o verdadeiro drama é obviamente a guerra na Ucrânia, é obviamente a China, é obviamente o drama em Israel, é por isso. Mas o drama é que o Ocidente vai perecer, porque vai ser reduzido à dependência dessa merda chamada [telefone] celular. Não estamos nos dando conta que não podemos mais nos apaixonar olhando um rosto de mulher, não estamos nos dando conta da vida em que vamos parar. E é por isso que o teatro é uma maravilha, é um lugar de resistência.


quinta-feira, 16 de maio de 2024

Bonner na condição de sexagenário


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/bonner60


A edição do Jornal Nacional de 13 de maio de 2024 foi mais uma das ultimamente apresentadas por William Bonner direto do Rio Grande do Sul, devido às tragédias provocadas pelas fortes chuvas e consequentes inundações em todo o estado desde o início de maio. Pode parecer inumano trazer um meme a partir de cenário tão desolador, mas ficou muito engraçado quando ele pronunciou a seguinte frase na abertura da edição, a partir de Porto Alegre, comentando a mudança de roupa repentina desde a escalada da abertura do jornal:

“E antes que você estranhe a diferença de vestimenta entre a abertura do Jornal Nacional e este momento, eu tenho que dizer que a temperatura caiu muito nos minutos que separaram um momento do outro. Eu estou respeitando o frio e a minha condição de sexagenário.

Como Bonner sempre teve uma compostura bem rígida e cuidou muito da linguagem, esse erudito “sexagenário” também lhe pareceu bem característico, embora dissonante do fundo com prédios em ruínas, rs. Claro que como “meme” falado por uma personalidade famosa, ainda mais com fama de galã no passado, o “minha condição de sexagenário” pode ter usos variados. Aproveite a versão integral do trecho e a última frase publicada à parte: