Mostrando postagens com marcador Artigos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Artigos. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Ativismo da diáspora ucraniana nos EUA

    Este texto, provavelmente traduzido a partir do inglês, tem o título “Como os ucranianos nos EUA defendem os interesses da Ucrânia” e foi escrito por Michael Sawkiw, Jr., presidente do UCCA (Comitê Ucraniano do Congresso da América, ou Comitê Congressional Ucraniano da América). Vitório Sorotiuk, que o enviou a um grupo de WhatsApp comum e chamou o autor de “Mykhailo Savkiv” (nome ucraniano original, mas que quase me impediu de achar uma foto pública sua), informa o seguinte: “Nós somos primos, a mãe dele é Drohomeredskyi e a minha avó pelo lado paterno è Drohomeredskyi. O texto é muito importante pois relata a ação dos descendentes de ucranianos nos Estados Unidos.”

Além de presidente do UCCA, Sawkiw também é presidente do Conselho de Política Internacional do Congresso Mundial Ucraniano (UWC), diretor do Serviço Nacional de Informação da Ucrânia (UNIS) e detentor da Ordem do Mérito da Ucrânia, 2.ª classe, concedida pessoalmente pelo presidente Zelensky. Como escreveu Sawkiw, “ajudar a Ucrânia pode ser feito de muitas maneiras, e cada uma delas é importante”; portanto, que tal divulgar esta publicação, acompanhar e compartilhar conteúdo pró-Ucrânia em português e inglês e continuar falando nas redes sociais sobre a resistência antirrussa? Segue o conteúdo original, com alterações na redação apenas quando estritamente necessário:


A comunidade ucraniana nos Estados Unidos tem trabalhado há décadas para garantir que as relações entre a Ucrânia e os Estados Unidos permaneçam fortes e que a Ucrânia tenha parceiros confiáveis em Washington.

O Comitê Ucraniano do Congresso dos Estados Unidos (UCCA) é uma organização apartidária de ucraniano-americanos que representa os interesses da comunidade desde 1940. Nossa posição não depende de qual partido está no poder, e nossa missão é proteger os interesses da Ucrânia. Em nosso trabalho e comunicações, explicamos consistentemente ao público americano que apoiar a soberania ucraniana é importante para os próprios Estados Unidos.

Uma das áreas de nossa atuação é o aumento da pressão econômica sobre a Rússia. Como parte desse trabalho, apoiamos, entre outras coisas, iniciativas legislativas dos senadores Lindsey Graham e Richard Blumenthal para fortalecer as sanções contra o Kremlin.

As últimas decisões da administração do presidente dos EUA, Donald Trump, em particular no que diz respeito ao retorno do combustível diesel russo ao mercado mundial e ao alívio das sanções contra a Rússia, contradizem nossa posição sobre a necessidade de aumentar a pressão econômica sobre o Kremlin, uma vez que fornecem à Rússia recursos adicionais para continuar a guerra.

Embora o governo dos EUA possa justificar o acordo sobre o diesel como um desejo de “reduzir os preços dos combustíveis” para os consumidores americanos, o alívio das sanções deve ser avaliado à luz de suas consequências. Uma decisão que supostamente proporciona apenas benefícios marginais aos cidadãos americanos, ao mesmo tempo que aumenta as receitas russas utilizadas para financiar sua guerra, é contrária aos interesses de segurança de longo prazo dos EUA e, principalmente, aos valores e princípios democráticos globais.

Discordamos também da crítica do governo dos EUA aos ataques ucranianos à infraestrutura petrolífera russa como argumento para concessões ao Kremlin. A Ucrânia está se defendendo de um Estado que lançou uma invasão em grande escala em 24 de fevereiro de 2022 e ainda não demonstrou disposição para cessar a agressão. Concessões unilaterais por parte dos parceiros não garantem, por si só, a paz.

Além disso, a experiência dos últimos anos demonstra que Vladimir Putin não busca um compromisso em prol de uma paz justa, mas sim a oportunidade de continuar a guerra em termos que lhe sejam favoráveis. Portanto, em sua comunicação com o público americano, a UCCA tenta explicar claramente as verdadeiras intenções da Rússia e discutir mecanismos reais para deter o agressor.

Ao mesmo tempo, vemos que as preocupações com essas decisões são compartilhadas não apenas pelos democratas, mas também pelos republicanos no Congresso. Isso é importante, porque o apoio à Ucrânia não deve se tornar refém de disputas internas no partido.

Não apenas protestos – Ao falarmos sobre a influência da comunidade ucraniana nos Estados Unidos, é importante compreender as peculiaridades do sistema político americano. A democracia americana possui mecanismos próprios para influenciar o governo, e os protestos de rua em massa são apenas um deles. Podem chamar a atenção para o problema, mas por si só não garantem uma mudança no rumo político.

Manifestações em larga escala sobre diversas questões de política interna e externa ocorrem regularmente nos Estados Unidos. No entanto, nossa experiência nos convence de que, se quisermos alcançar resultados concretos para a Ucrânia, devemos trabalhar simultaneamente em vários níveis: no Congresso, na mídia, com organizações da sociedade civil, representantes empresariais e diversas comunidades étnicas.

As atividades da UCCA não se limitam a ações públicas; mantemos também contato constante com membros da Câmara dos Representantes e do Senado, transmitimos nossa posição aos círculos políticos de ambos os partidos, cooperamos com jornalistas e procuramos garantir a presença da questão ucraniana no espaço informativo americano.

Estabelecemos parcerias com outras comunidades, incluindo as polonesas, bálticas, georgianas, judaicas e cubanas. Por exemplo, em 1994, a UCCA desempenhou um papel fundamental na fundação da Coalizão da Europa Central e Oriental (CEEC), que une os interesses de mais de 20 milhões de cidadãos americanos de ascendência da Europa Central e Oriental. Muitos deles têm suas próprias razões históricas para serem sensíveis à agressão russa, ao autoritarismo e às questões de segurança internacional. Trabalhar em conjunto ajuda a explicar ao público americano em geral por que apoiar a Ucrânia não é apenas do interesse dos ucranianos, mas também dos Estados Unidos e seus aliados.

Também trabalhamos com representantes empresariais. Se empresários influentes apoiarem publicamente decisões que possam enfraquecer a capacidade da Ucrânia de se defender, é importante que os americanos compreendam as consequências de tais decisões e prestem especial atenção às empresas americanas que têm sido alvo de ataques russos na Ucrânia desde 24 de fevereiro de 2022.

Consideramos a comunicação pública e as ações pacíficas perto de instalações comerciais como uma forma de chamar a atenção para a responsabilidade das empresas pelo seu impacto nos processos sociais.

Nossa tarefa não é simplesmente expressar discordância, mas transmitir argumentos ao público mais amplo possível e transformar o apoio público à Ucrânia em decisões políticas concretas.

Vemos justificativa para isso. De acordo com a pesquisa sociológica em que nos baseamos, a maioria dos americanos apoia a ajuda à Ucrânia e considera a Rússia uma ameaça existencial aos interesses americanos. Ao mesmo tempo, esse apoio não pode ser dado como certo – ele precisa ser constantemente fortalecido, explicando aos americanos o que está em jogo.

A força reside na capacidade de unir – A comunidade ucraniana nos Estados Unidos não é homogênea, e entre os ucraniano-americanos há apoiadores de democratas e republicanos, representantes de diferentes gerações de emigração, pessoas com diferentes experiências e visões sobre a política interna dos EUA.

A UCCA tem sido uma organização que une a comunidade em torno de interesses nacionais comuns, independentemente de filiação partidária. Mantemos contato com pessoas que trabalharam em administrações republicanas e democratas, e cooperamos com representantes de ambos os partidos. Isso nos permite transmitir a posição ucraniana a diferentes ambientes políticos, independentemente de quem esteja no comando da Casa Branca ou do Congresso.

A diversidade da nossa comunidade não é uma fraqueza, mas sim uma vantagem. Ela nos dá a oportunidade de falar com diferentes públicos na linguagem dos seus valores e interesses. Para alguns, o principal argumento é a proteção da democracia, para outros, a segurança nacional, e para outros ainda, a necessidade de impedir que regimes autoritários agressivos alterem as fronteiras internacionais pela força.

Os ucranianos que chegaram aos Estados Unidos após o início da invasão em larga escala requerem atenção especial. A questão do futuro deles e do seu status imigratório continua sendo importante, e estamos trabalhando com nossos parceiros no Congresso e outras autoridades governamentais para defender seus interesses.

Ao mesmo tempo, a contribuição dessas pessoas para o apoio à Ucrânia já é extremamente tangível. A comunidade ucraniana nos Estados Unidos está arrecadando fundos, organizando o envio de suprimentos humanitários, auxiliando hospitais e a população civil. Desde o início da guerra em grande escala, dezenas e centenas de milhões de dólares em ajuda foram enviados à Ucrânia por meio de diversas iniciativas públicas e projetos beneficentes.

Nem todos podem participar de uma manifestação ou se pronunciar publicamente contra uma determinada decisão política. Mas ajudar a Ucrânia pode ser feito de muitas maneiras, e cada uma delas é importante. Nosso objetivo é criar oportunidades para que todos participem, independentemente de sua origem, crenças políticas ou circunstâncias de vida.

Uma de nossas áreas de atuação é o apoio humanitário direto à Ucrânia. Recentemente, participei da missão “Foco na Ucrânia” para transportar ambulâncias montadas na Europa e entregues à Ucrânia. Desta vez, foram cerca de cinquenta veículos destinados às necessidades da Defesa Territorial Ucraniana e de outras unidades que necessitam de transporte médico.

Outra área importante é a defesa de interesses políticos. Em 2000, a UCCA lançou os Dias Ucranianos em Washington, D.C., para que representantes das comunidades ucranianas de todo o país pudessem se encontrar com seus congressistas e senadores, grupos de reflexão [think tanks], diplomatas e outras figuras influentes. Após a agressão russa em 2014, intensificamos esse trabalho.

Também estamos trabalhando com outras iniciativas para fortalecer o apoio americano à Ucrânia. Nosso princípio fundamental é que a voz da comunidade ucraniana deve ser ouvida constantemente, não apenas quando surge a próxima crise.

A segurança da Ucrânia é a segurança dos Estados Unidos – Durante décadas, a liderança americana e a cooperação com os aliados europeus têm sido essenciais para a estabilidade do mundo democrático. Se os Estados Unidos se distanciarem de seus parceiros na Europa ou criarem a impressão de que a agressão pode ser recompensada com concessões, as consequências não serão sentidas apenas pelos ucranianos. Isso afetará a confiança dos aliados nos compromissos americanos, a capacidade de dissuadir futuros conflitos e um sistema internacional no qual a soberania dos Estados não deve depender da força de seus vizinhos.

Estamos trabalhando diligentemente para garantir que a cooperação entre a Casa Branca e o Congresso possa encontrar um caminho para uma política mais consistente com relação à Ucrânia. É importante que a questão da nossa segurança não se torne um instrumento de luta política interna e que o apoio à Ucrânia permaneça um interesse estratégico compartilhado pelos Estados Unidos.

Muitas vezes me lembro das palavras do pastor americano Mark Burns, que, após visitar a Ucrânia e ver a situação com os próprios olhos, disse: “A Ucrânia é América em primeiro lugar”. Essas palavras são especialmente eloquentes no contexto do slogan “América em primeiro lugar” [America First], frequentemente usado pelo presidente Trump. Seu significado é que proteger a Ucrânia não contradiz os interesses americanos. Pelo contrário, a Ucrânia faz parte do mundo democrático, e o resultado desta guerra afetará a segurança, a estabilidade e o futuro muito além de suas fronteiras.

Portanto, continuaremos a explicar aos americanos que a assistência à Ucrânia não é apenas uma questão de solidariedade, mas também um investimento na segurança internacional e na proteção dos princípios da democracia americana.

Quero dizer ao povo da Ucrânia que estamos trabalhando incansavelmente pela vitória da Ucrânia. A Ucrânia permanece em nossos pensamentos, em nosso trabalho humanitário, em nossos encontros com políticos e em todas as nossas tentativas de convencer a sociedade americana de que nossa luta é importante para todo o mundo democrático.

Tendo visitado pessoalmente a Ucrânia diversas vezes desde o início da invasão russa em larga escala, minha organização e eu compreendemos o que é viver sob constantes ataques de foguetes e drones, e a importância crucial do apoio de parceiros. É por isso que continuaremos a trabalhar – em contextos humanitários, na defesa de causas políticas e na construção de parcerias que ajudem a Ucrânia a sobreviver.

Gostaria de agradecer aos ucraniano-americanos pelo seu trabalho incansável. Independentemente de quando eles ou suas famílias chegaram aos Estados Unidos, de suas opiniões políticas ou de como se envolvem nos esforços de ajuda humanitária, suas contribuições são inestimáveis.

Devemos permanecer unidos em torno de um objetivo comum. Não precisamos concordar em todas as questões da política interna americana para entender que uma Ucrânia livre, democrática e soberana é do interesse tanto da Ucrânia quanto dos Estados Unidos.

Nossa tarefa é dar continuidade ao nosso trabalho, expandir nossa rede de parceiros, encontrar novas maneiras de comunicar nossa posição e transformar o apoio em ações concretas. Estou convencido de que uma Ucrânia forte, democrática e soberana sempre será um importante parceiro estratégico dos Estados Unidos. E é exatamente nisso que estamos trabalhando.



sábado, 19 de setembro de 2026

Memória dos comunistas no Brasil, 1922-60


    Este texto em formato de ensaio foi inicialmente destinado à publicação nos anais de um encontro periódico do Centro de Memória da Unicamp (CMU), ocorrido no final de julho de 2026 e no qual eu devia, num dos grupos de trabalho, fazer uma apresentação oral sobre o tema proposto. O título completo é “A memória dos comunistas no Brasil e as operações de lembrança/esquecimento no PCB (1922-1960)”, e meu objetivo era relacionar, de modo meio superficial, as operações de “lembrança” e “esquecimento” voluntários sobre fatos e pessoas nos países e partidos comunistas, em particular no Partido Comunista Brasileiro, a algumas reflexões dos historiadores Aleida Assmann e Pierre Nora. Porém, como não pude comparecer ao evento, o “oral” ficou na vontade e o artigo foi literalmente pros “anais”, ou seja, esta página, rs. Não sei se o CMU vai publicá-lo oficialmente, mas seja como for, ei-lo na íntegra:


Resumo: Inaugurado pela Revolução Socialista de Outubro na Rússia imperial, em novembro de 1917, sob a liderança de Vladimir Ulianov (Lenin), o movimento comunista internacional apresentou uma peculiaridade em relação a outras ideologias, regimes e partidos políticos, a saber, a dependência em modelar as representações sobre si mesmo, a constante mudança nas narrativas oficiais e a cisão radical entre passado e presente. O Partido Comunista do Brasil (PCB), tendo surgido em março de 1922 sob o influxo das notícias a respeito do triunfo dos bolcheviques sobre a monarquia tsarista, moldou-se conforme os mesmos procedimentos e sofreu diversas reviravoltas influenciadas, de acréscimo, pelas próprias lutas internas e pela conjuntura nacional. Muito já se escreveu e se pesquisou sobre a história propriamente programática e organizativa do PCB e, com menor frequência, sobre os detalhes de suas ligações materiais e institucionais com a Internacional Comunista (Comintern) e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), mas o mecanismo que levava a viradas discursivas tão bruscas constitui um filão a se explorar. Inspirada em escritos clássicos de Pierre Nora e Aleida Assmann, esta comunicação traz as “operações da memória” como um possível ponto de partida nesse sentido, considerando-se a interação dialética entre a “lembrança” dos momentos de glória e o “esquecimento” das derrotas e dos militantes caídos em desgraça.
Palavras-chave: União das Repúblicas Socialistas Soviéticas; Partido Comunista do Brasil (PCB); operações da memória.


A instauração do regime bolchevista na Rússia em 1917-18 e a fundação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) em 1922 no espaço do antigo império tsarista representou, na mente de seus promotores, um corte brusco com o passado capitalista e plutocrático predominante no resto do mundo e a abertura de novas possibilidades para forjar uma “nova humanidade” no bojo de uma economia socialista. Desde o triunfo de Vladimir Lenin e de seus partidários, a criação de uma narrativa histórica representando a monarquia pretérita como um ambiente retrógrado, opressivo e irracional e a “ditadura do proletariado” em construção como o apogeu da ideologia marxista e o início do domínio das classes trabalhadoras sobre os meios de produção e sobre a organização política deixou uma rica literatura e se tornou o dogma do partido comunista agora único.

Enquanto a dura realidade dos tempos da guerra civil e dos anos de privações legavam um cenário distante do ideal pretendido e a gradual ascensão de Iosif Stalin e seu grupo a partir da morte de Lenin (1924) até 1929 tolhia os “velhos bolcheviques” tanto dos cargos no Estado quanto do registro oficial dos heróis, a conquista do poder transformou-se rapidamente em conquistas de corações e mentes no país e no exterior. Essa verdadeira “operação de lembrança/esquecimento” empreendida pelo Kremlin teve como objetivo principal a formação de um discurso bem articulado sobre a história da construção do Estado soviético e a tentativa de controle absoluto sobre sua representação interna e externa, em um esforço obsessivo que provavelmente não teve precedentes em outros regimes, mas faria escola nos séculos 20 e 21.

Com a criação da Internacional Comunista (Comintern, ou 3.ª Internacional) em 1919, buscou-se coordenar a partir de um único centro a plêiade de grupos e partidos que começavam a abandonar a herança social-democrata ou simplesmente surgiam do zero em apoio à revolução proletária na Rússia e à ideologia leninista. O novo organismo valeu-se de seus congressos mundiais para popularizar as “conquistas” do regime e moldar a organização dos membros conforme a mesma “operação da memória” realizada na URSS, isto é, uma rigorosa supervisão sobre a escrita da história do movimento comunista em cada país e a transmissão, de cima para baixo, do que os partidos comunistas deveriam relatar sobre as realizações de Stalin aos públicos nacionais. Mais do que o procedimento em si, chamam a atenção as viradas bruscas da narrativa dominante e a necessidade de racionalizá-las junto ao povo soviético e, parte mais difícil, junto aos militantes estrangeiros, que, embora pouco soubessem da realidade cotidiana sob o socialismo, possuíam outra vivência com a qual comparar a “Vulgata” padronizada.

Assim, em sequência, inúmeras viradas, algumas de 180 graus, e resoluções em aparente contradição com a doutrina marxista tomaram tempo e energia enormes na criação de representações convincentes: a política de apoio às forças antifascistas no Ocidente após o combate à social-democracia (1935), os “grandes expurgos” de 1936-38, o pacto de não agressão com a Alemanha nazista (1939), a guerra de defesa nacional (1941), a dissolução da Comintern “na canetada” (1943), o grande pacto com as potências capitalistas (1944-45), a transformação da zona soviética de influência na Europa Central e Meridional em satélites autoritários (1948) e a invasão da Coreia do Sul por Kim Il-sung (1950). E a lista se limita ao período anterior à morte de Stalin (1953), pois o tratamento sinuoso da memória não mudou bruscamente sob o comando de Nikita Khruschov (1953-1964): “coexistência pacífica” com o mundo capitalista, denúncia aberta dos crimes do stalinismo (1956), repressão sangrenta da revolta na Hungria (1956), a “crise dos mísseis” que minou a credibilidade de Khruschov no PC soviético (1962) e a ruptura com a China maoista (década de 1960) – tudo envolto pela mística criada em torno das primeiras vitórias diante dos EUA na “corrida espacial”.

Surgido em 1922 em um meio político, cultural e operário sem um sólido movimento marxista prévio, inicialmente animado por intelectuais, profissionais liberais e poucos operários, o Partido Comunista do Brasil (PCB – a partir de 1961, Partido Comunista Brasileiro) reuniria espontaneamente os simpatizantes nacionais da revolução bolchevique e mimetizaria os passos de Lenin e Stalin, começando por sua adesão à Comintern em 1924. Desde o início, expiar o passado, demarcar-se dos inimigos, explicitar as profissões de fé e tratar os debates políticos-ideológicos, basicamente, como uma questão de “sim ou não”, foram escolhas que condicionaram seu combate aos anarquistas, a precoce expulsão do “pró-maçom” Antonio Bernardo Canellas, a cisão de Joaquim Barbosa contra a instrumentalização dos sindicatos (1928), a rejeição das insurreições militares daquela década e, a partir de 1929, a renegação da geração de fundadores (notadamente Astrojildo Pereira e Octavio Brandão) varrida pela “stalinização” incondicional do movimento. A partir de 1930, a despeito das tratativas em curso na cúpula da Comintern, o Capitão Luiz Carlos Prestes e o “prestismo” tornaram-se a encarnação do “radicalismo pequeno-burguês”, e a rejeição ao golpe da Aliança Liberal, conjugada com a intervenção dos enviados de Moscou no Comitê Central, ajudou o PCB a forjar uma identidade própria, contraposta às outras esquerdas, e isolou-o do cenário político nos poucos anos seguintes.

Cada virada tática da Comintern que o PCB procurava seguir, inclusive por intermédio do Secretariado Latino-Americano (SLA/IC) sediado em Moscou e do Secretariado ou Birô Sul-Americano (SSA/IC, BSA/IC), era acompanhada de uma “releitura” da história partidária mais recente e de um requisitório apontando os novos “inimigos” que teriam induzido os comunistas a erro. Assim, as lutas intestinas dilaceraram o partido na primeira metade da década de 1930; a social-democracia (ou o que quer que se achasse de mais semelhante a ela no Brasil) passou a ser o inimigo principal; redimido do “prestismo”, leia-se “stalinizado”, Prestes foi admitido – e imposto – como o mais novo florão do bolchevismo tropical; a tática de “frentes populares” por meio da Aliança Nacional Libertadora (ANL) trouxe o fascismo – no caso, o integralismo – de volta à mira; após o quase desaparecimento do PCB sob o Estado Novo, a 2.ª Guerra Mundial e a aliança entre a URSS e o Ocidente democrático impeliram à “união nacional” em torno do outrora execrado Getúlio Vargas. Ressignificações que culminaram na legalidade e sucesso eleitoral inéditos de 1945 a 1947, quando a “luta de classes” passou a segundo plano, apenas para chegar a nova clandestinidade sob Eurico Dutra com a eclosão da “guerra fria” e o alinhamento brasileiro com os EUA.

A memória sobre os feitos passados e as realizações presentes sempre foi a maior vítima das bruscas oscilações do PCB entre radicalismo e moderação, tão criticadas por observadores internos e externos. A linha ultraesquerdista do “Manifesto de Agosto” (1950) não trouxe mais frutos do que a recepção acrítica dos mais diversos elementos e a baixa da guarda perante as autoridades no quinquênio anterior, e a passagem imediata dos ataques a Vargas enquanto presidente constitucional para a tentativa de capitalizar sua popularidade após o suicídio (1954) expôs o improviso reativo da cúpula partidária. Em 1956, os impulsos sucessivos do degelo político promovido por Juscelino Kubitschek e da recepção e deglutição desastradas do “relatório secreto” de Khruschov escancararam ainda mais a não antecipação das brechas de abertura: Diógenes Arruda, controlador do aparelho do PCB e de sua linha ideológica, tornou-se o “bode expiatório” de todos os males derivados do isolamento que teria imposto a um Prestes ainda na mira da Justiça; vários militantes fiéis subitamente renegaram o comunismo aos quatro ventos e transmutaram-se em “democratas” e “antistalinistas”, deixando as fileiras para buscar um marxismo “renovado” e organizar-se de modo “não burocrático”. Foi apenas o primeiro capítulo de uma disputa interna em que Prestes, privado ante as novas gerações de sua velha aura de “Cavaleiro da Esperança”, perdeu o controle sobre outros dirigentes e em que o gradual declínio do prestígio da URSS e a atração exercida pelos modelos das “guerrilhas” e das lutas anticoloniais impuseram novos desafios ideológicos.

Esta comunicação tem por objetivo analisar parte da história do PCB sob a ótica do que, nos rastros de Pierre Nora (NORA, 1984) e Aleida Assmann (ASSMANN, 1999), poderiam chamar-se “operações da memória” (CHARTIER, 2021) dentro de uma dialética de lembrança dos momentos considerados fortes na trajetória partidária e, sobretudo, de esquecimento – mais semelhante a um apagamento seletivo e sistemático – dos “erros” passados, das figuras caídas em desgraça e de outros aspectos em evidente contradição com um presente expurgado e autojustificado. Tendo sido já muito estudadas a própria história institucional do partido e as mudanças táticas conforme as viradas na Internacional Comunista, na URSS e na conjuntura política brasileira, constituem interessante objeto passível de estudo próprio os mecanismos que visavam legitimar essas mudanças por meio de representações e rótulos, a velocidade com que se processavam as transformações e a abundância simbólica deixada pelos comunistas em forma de textos e imagens. À maneira do regime soviético, cuja legitimação simbólica era tão ou mais importante do que sua aprovação pelas realizações e pelos benefícios sentidos pelo povo, os partidos comunistas mimetizaram, durante e depois da existência da Comintern, as mesmas “operações da memória” para criarem a imagem que queriam ter de si próprios e dividirem o mundo entre “mocinhos” e “bandidos”, categorias facilmente intertransitáveis.

O jurista e revolucionário marxista (social-democrata) russo Vladimir Ulianov (1870-1924), no mais das vezes escrevendo sob o pseudônimo “Nikolai Lenin” e passado à história como Vladimir Lenin, não poupava adjetivos e invectivas quando debatia politicamente com adversários ou mesmo aliados. Na juventude, suas leituras de Nikolai Chernyshevski, notadamente do livro Que fazer?, moldaram seu projeto exclusivista de revolução proletária – ele mesmo jamais tendo trabalhado em uma fábrica – e seu modelo de partido baseado na dedicação integral, consciência inculcada “de cima para baixo” e tomada violenta do poder. Mais do que traçar uma visão ideal de sociedade futura, seus escritos polêmicos visavam dotar a social-democracia russa de uma ideologia robusta, refutar pontos de vista que julgava errôneos e estabelecer as táticas para a ação política e revolucionária mais imediata.

Assim, fosse na Rússia imperial, fosse no exílio centro-europeu ou mesmo no país natal em convulsão social, Lenin não conhecia limites relacionados à proximidade pessoal ou à inventividade em suas representações do interlocutor: assim, o ainda menchevique Leon Trotsky teria sido chamado de “Judas” (*) durante os embates no exílio em 1911 (LENIN, 1973, p. 96), enquanto o então “papa” do movimento marxista internacional, ao criticar o rumo autoritário seguido por Moscou, foi respondido com a nada lisonjeira brochura A revolução proletária e o renegado Kautsky. E indo além, resgatou o termo empregado pelo jovem Marx e renomeou seu próprio movimento como comunista, almejando não mais somente humanizar o capitalismo ou adiar a revolução para as calendas gregas, ao contrário da “carcomida” social-democracia, mas lutar ativamente pela sociedade sem classes, pelo comunismo.

(*) A própria história desse manuscrito revela como as inúmeras reedições das Obras completas de Lenin e de Stalin durante décadas na URSS refletem a imagem que os próprios sucessores queriam deixar dos dois líderes. Datado de 1911, ele permaneceu entre os papéis pessoais de Lenin, que nunca o tinha divulgado, até 1932, quando o jornal Pravda o publicou bem em meio ao processo de eliminação de qualquer dissidência. Denominado “Sobre o enrubescimento do Iudushka Trotsky”, faz uma referência ao personagem Iudushka Golovliov, do romance A família Golovliov, publicado pelo romancista russo Mikhail Saltykov-Schedrin em 1880. Em qualquer polêmica pública na virada do século, associava-se a alcunha “Iudushka” à personalidade hipócrita e traiçoeira do personagem do livro, referência entendida pelos cultos da época, mas provavelmente não pelas bases bolcheviques da década de 1930. Portanto, a matreira publicação – perpetuada nas edições das Obras de Lenin – do manuscrito e a associação velada não a Saltykov-Schedrin, mas diretamente ao Judas bíblico, pode ter sido toda uma fabricação de Stalin. Cf. “pravda1917” (pseud. de Aleksandr Maisurian). O mito sobre o “iudushka”. Materiais. In: MAISURIAN, Aleksandr. Товарищ Троцкий [Camarada Trotsky] (blog em russo). [S. l.], 7 jul. 2014. Disponível nesta página. Acesso em: 9 abr. 2026.


Como toda revolução política, decalcada no modelo da Revolução Francesa (mais especificamente na tomada da Bastilha em 1789), os bolcheviques russos buscaram criar uma completa cisão entre o passado “feudal”, “monárquico” e “reacionário” e o presente/futuro “socialista”, “científico”, “proletário”. Não bastavam o poderio militar tsarista, a robusta industrialização incipiente, as conquistas científicas do século anterior e a relativa autossuficiência das unidades camponesas: importava, sobretudo para a propaganda externa, exorcizar o predomínio do “arado de madeira”, a tirania dos grandes proprietários de terra e o obscurantismo da monarquia ortodoxa. Pouco incomodavam o apoio logístico e financeiro do Kaiser alemão a Lenin, a acefalia que permitiu aos bolcheviques “arrombarem as portas abertas” do Palácio de Inverno, a derrota na Assembleia Constituinte – e sua posterior dissolução, que não encontra nenhuma outra justificativa –, a invasão da Polônia e a repressão cruenta do levante de Kronstadt. O “golpe de outubro” recebeu massivo apoio operário, o “poder soviético” tirou a Rússia da “guerra interimperialista”, a supressão das liberdades políticas e econômicas (o “comunismo de guerra”) justificava-se pelo cerco internacional e pelas tentativas de restauração e a manutenção dos povos eslavos orientais e não eslavos no mesmo território do antigo império foi “voluntária”, apesar da persistente centralidade russa. De episódios cuidadosamente selecionados e articulados, era um discurso voltado especialmente a jogar mais lenha na fogueira revolucionária da Europa destruída pela guerra mundial e tirar a “fortaleza sitiada” do isolamento.

A guerra civil, bem como a má gestão da economia, provocou no início da década de 1920 a primeira grande fome entre os camponeses, e rapidamente campanhas em prol dos “famintos do Volga” comoveram o Ocidente, com destaque para o trabalho de propaganda do empresário e milionário comunista alemão Willi Münzenberg e citada inclusive como moção na ordem do dia da sessão que fundou o PCB. A solidariedade nos meios intelectuais e progressistas foi suficiente para obnubilar as requisições necessárias para alimentar a frente de batalha e as cidades necessitadas – traindo, assim, as promessas de redistribuição da terra feitas aos camponeses – e as execuções sumárias de quem se recusasse pela Cheká, embrião do NKVD e, depois, do KGB.

Com o fim da insurreição europeia e a crescente debilidade física de Lenin, o massivo exílio forçado de pensadores dissidentes e o relativo recuo da “nova política econômica” (NEP) não abalaram a fé dos novos comunistas ao redor do mundo, facilmente propensos a aceitar cegamente a narrativa de Moscou e sem ligações físicas ou pessoais com a Rússia/URSS, de forma que o hoje chamado “viés de confirmação” sobrepunha-se à verificação fatual. A partir daí, uma estratégia que faria escola durante o século 20 trabalhou essa “operação da lembrança” não somente entre militantes, mas também entre os “companheiros de viagem” simpatizantes: as viagens programadas e enquadradas pelas autoridades (TÔRRES, 2013), com total protagonismo das realizações reais ou imaginadas do “poder soviético” e mínimo contato direto com a população comum.

Em meio à ritualização dos funerais de Lenin promovida por Stalin e à transformação dos escritos de ambos em teoria canônica, renegando todos os teóricos pretéritos (exceto, claro, Marx e Engels) e engessando os futuros, a Comintern continuou a auxiliar na fundação de partidos comunistas em outros continentes. Embora os quatro primeiros congressos vivessem um clima de considerável debate, a partir de 1925 a opção pela chamada “bolchevização” representou uma política de decalque da organização soviética, sem a possibilidade antes aventada de adequar o “leninismo” a cada realidade local. Assim, a Internacional tornou-se progressivamente uma mera correia de transmissão da tática staliniana, tratando os partidos como simples “seções”, em contraste com a autonomia desfrutada na Segunda Internacional social-democrata, e facilitando seu uso como arma de influência e propaganda ideológicas, de fato uma verdadeira “diplomacia paralela” concorrente com o próprio Ministério do Exterior soviético.

A prática da autocrítica, que Lenin recomendava a todo comunista, acabou tornando-se um instrumento de poder dos dirigentes partidários sobre suas bases e do PC da URSS sobre todos os outros membros da Comintern: líderes e precursores estavam sempre certos, portanto, eles exigiam dos demais uma verdadeira expiação ritual pública, impondo-lhes de fato as próprias viragens teóricas e “esquecimentos” deliberados. Na década de 1930, quando Stalin já detinha o poder absoluto em Moscou, tomaram uma forma brutal a marginalização de seus opositores políticos, a justificação das políticas de coletivização agrícola forçada e aceleração industrial – ambas com altos custos humanos –, a exigência de alinhamento incondicional e o desmantelamento de avanços societários que haviam imprimido uma fachada de progresso à década anterior.

Assim como Stalin não precisava justificar-se perante seu próprio povo, os comunistas no exterior deviam racionalizar como pudessem as incontáveis mudanças na política exterior soviética, e nesse carrossel a Comintern perdia gradualmente sua importância, pois os “enviados plenipotenciários” já eram expedidos in loco para garantir nos partidos mais importantes a aplicação da política vigente, ou seja, a fidelidade acrítica. Após o 5.º Congresso Mundial em 1924, o sexto só se reuniria em 1928, e o sétimo e último em 1935, quando subitamente a ordem do conclave anterior de aplicar o golpe principal na social-democracia foi substituída pela diretiva de aliar o máximo possível de forças progressistas visando combater o nazismo e o fascismo. É verdade que o isolamento autoimposto pelos comunistas tornou-lhes vulneráveis à repressão de regimes cada vez mais reacionários, mas ainda assim era difícil “desradicalizar” as mentes educadas sob o exclusivismo stalinista.

Enquanto em países com pujantes movimentos antifascistas, como a França e o Brasil, as “frentes populares” conservaram seu apelo mesmo após o chamado “pacto Molotov-Ribbentrop” de não agressão entre a Alemanha e a URSS, a proibição repentina de condenar Adolf Hitler e Benito Mussolini desorientou em definitivo muitos militantes. Ao mesmo tempo, os estrangeiros trabalhando para a Comintern viram-se engolidos pelo turbilhão dos “grandes expurgos” de 1936-38, em que os “velhos bolcheviques” tornaram-se “inimigos a soldo do exterior” e foram condenados pelo mero dissenso ou por crimes inventados. Jamais na história se pôde imaginar tantas mudanças de narrativa em um regime político, passíveis de pôr em risco a vida de cidadãos comuns da noite para o dia e que também concerniam a grupos externos que se arrogaram a missão de “fazer como na Rússia”, mas não tinham tempo de internalizar as mudanças de humor na “pátria do socialismo” sobre o que eram o bem e o mal.

Para quem não engoliu a pílula do retorno ao radicalismo vigente, em tese, de 1928 a 1935, não foi difícil entender a invasão alemã à URSS em 1941 – embora a expansão moscovita na Finlândia, nos Bálticos e na Polônia tenha sido rapidamente “esquecida”, isso quando foi realmente conhecida, omissão que predomina até hoje – e o combate de vida ou morte contra o Eixo. Porém, mais desafiador foi explicar a aliança de Stalin com as grandes potências capitalistas e imperiais, contra as quais ele imprecava desde a Revolução de Outubro e que ele responsabilizava por ambas as guerras mundiais, mas que o ajudariam incondicionalmente a derrotar Hitler em 1945. Embora alguns comunistas, incluindo alguns brasileiros e com o PC dos EUA de Earl Browder à frente, julgassem a própria existência de seus partidos “injustificável” perante a nova conjuntura internacional, a eclosão da “guerra fria” em 1947 frustrou todas as expectativas quanto a uma convivência harmoniosa entre regimes capitalistas e socialistas.

O afastamento dos comunistas da vida política ou mesmo sua criminalização em muitas nações ocidentais, após vitórias eleitorais inéditas que capitalizaram a vitória soviética e inclusive sua entrada em efêmeros “governos de união nacional”, muitas vezes levou novamente a uma radicalização que somente comprovava a dificuldade da extrema-esquerda em criar uma narrativa coerente e duradoura. Mais ziguezagues comprovam como as “operações da memória”, por mais insidiosas que fossem, convenciam cada vez menos os espíritos mais esclarecidos: da nova onda de repressões na década de 1950 – interrompida com a morte de Stalin – à abertura comandada por Georgi Malenkov e Nikita Khruschov, que iniciaram o desmantelamento do GULAG; da denúncia espetacular dos crimes stalinistas – cujos cúmplices, em sua maioria, ainda estavam vivos – à intervenção violenta na Hungria, ambos em 1956; da ruptura com a China de Mao Zedong, que criticava justamente o “revisionismo” quanto à possibilidade de coexistência pacífica entre os dois “blocos”, à cada vez maior concentração de poderes nas mãos do primeiro-secretário.

Tanto a história da URSS e do PC soviético quanto a trajetória do PCB podem ser analisadas entre os anos de 1922 e 1960 como um mesmo período internamente coerente, abarcando a consolidação do “poder soviético” e a crise do modelo estatal e governativo legado por Stalin, sob os quais a ideologia comunista também se espalhou ao redor do mundo na forma de partidos operários e produções intelectuais anticapitalistas. 1922 foi igualmente o ano de criação do PCB, que desde o início retratou-se como um salto qualitativo na organização proletária, contra um anarquismo que já estaria deixando de alcançar vitórias, embora vários de seus fundadores, entre eles Astrojildo Pereira e Octavio Brandão, tivessem começado a militância radical enquanto anarquistas. Pouco espaço na narrativa dos comunistas é dedicado aos primeiros leitores de Karl Marx no Brasil – que remontam ao fim do século 19 –, aos primeiros congressos operários no início do século 20 e aos efêmeros “partidos socialistas” fundados por intelectuais reformistas. Apesar das constantes acusações de atuarem “a soldo de Moscou” – o que o PCB nunca negou categoricamente, até porque o financiamento soviético era crucial –, o partido só foi aceito plenamente na Comintern em 1924, contrariando narrativas tanto sobre sua “implantação” a partir da URSS quanto sobre a real importância que era dada ao Brasil no processo da revolução mundial.

A adesão ao PCB era vista como um “novo nascimento”, e o comunista devia fazer tábula rasa do passado e renegar todas as suas adesões anteriores: anarquismo, catolicismo, sindicalismo, socialismo, positivismo, todos inferiores à “ciência da revolução proletária” que constituía o marxismo. Por isso mesmo, filiar-se era como trocar de família e incorporar uma nova essência, e romper ou ser expulso significaria perder todo o chão ontológico, toda a orientação existencial. Contudo, defecções e excomunhões foram muito mais comuns do que o desejado e chegaram a fazer parte da rotina partidária e dos pavores cotidianos de cada militante. Antonio Bernardo Canellas foi expulso ainda em 1923, quando foi responsabilizado pela não aceitação do PCB na Comintern no ano anterior, acusado de apoiar os comunistas franceses favoráveis à aceitação de maçons no movimento, algo categoricamente rejeitado por Trotsky. Em 1928, Joaquim Barbosa, um dos fundadores do partido, dirigente sindical e crítico do uso instrumental que os comunistas desejavam fazer dos sindicatos, liderou uma cisão conhecida como “Oposição Sindical”, a primeira grande saída em massa da agremiação. Por fim, acusados de não aplicarem plenamente a linha de Stalin, Astrojildo Pereira e Octavio Brandão, dois dos principais teóricos e presenças constantes em Moscou, perderam seus postos de lideranças e tiveram suas ideias oficialmente condenadas pela Comintern em 1929, mesmo período em que Leôncio Basbaum, um dos fundadores da organização juvenil, também enfrentou problemas. Todas essas figuras eram silenciadas nos relatos históricos oficiosos ou as linhas que lhes eram dedicadas justificavam a posteriori a condenação dos “erros” e do atentado à “unidade” e à “disciplina”.

A década de 1930, turbulenta no tocante à política interna brasileira, também marcou a aplicação explícita da uniformização stalinista, já em curso nos partidos da Europa, e a inconstância na formação dos organismos dirigentes. Primeiramente, já vítimas de todo um requisitório elaborado pelo PC soviético, os trotskistas revelaram-se discretamente no Brasil, até entrarem em choque completo com a direção e tentarem formar seu próprio movimento, que jamais obteria a mesma influência no país; o próprio adjetivo “trotskista” – assim como o epíteto “titoísta” a partir de 1948 – passaria a ser uma pecha lançada ao sabor das ocasiões. A seguir, “enviados plenipotenciários” vieram diretamente de Moscou, destacando-se o casal August e Inês Guralski, para reestruturar o PCB por cima dos próprios secretários-gerais, que se sucederiam aos montes no início da década, enquanto a ditadura de Vargas perseguia implacavelmente o movimento operário independente. A rotatividade só terminou quando assumiu Antônio Maciel Bonfim, partidário da coluna militar que havia percorrido o sertão na década anterior sob a liderança do Capitão Luiz Carlos Prestes, ele mesmo se encontrando na URSS para receber uma formação de líder partidário. Em um movimento discursivo típico daqueles tempos, o “prestismo” enquanto “ideologia da pequena burguesia radicalizada” e a adesão do ex-militar ao partido eram rechaçados publicamente, enquanto o “novo” Prestes stalinizado, na verdade em contato com literatura soviética desde o exílio na Bolívia, preparava-se para encarnar outros tempos: sem histórico anarquista ou socialista, com prestígio popular considerável e observando in loco a “edificação socialista”.

A Comintern, na figura do secretário Dmytró Manuilsky, literalmente impôs a filiação do “Cavaleiro da Esperança”, apesar das persistentes resistências no Brasil, a quem se devia convencer do caráter pretérito do “prestismo”, e os documentos oficiais do PCB rapidamente refletiram a mudança de opinião. Por volta de 1935, mais difícil era decidir se o país deveria passar por uma revolução violenta ou por governos radicais de transição antes de instituir o socialismo. Enquanto uma decisão não era tomada nem em Moscou, nem no Rio de Janeiro, o discurso disruptivo passou a conviver com uma prática mais flexível, imposta pelo aumento da repressão varguista, pela ascensão do integralismo e pelo surgimento da ANL (Aliança Nacional Libertadora), uma ampla frente antifascista sem distinção de classe ou ideologia. Vista como a encarnação nacional da linha de “frentes populares” da Comintern, foi animada sumamente pelos comunistas, que sequer precisaram se preocupar com uma “autocrítica” da tática anterior “errônea”. Mas o caráter ambíguo do “governo popular nacional e revolucionário” que no papel substituía a “revolução socialista” também comportou os levantes militares de novembro de 1935, ele mesmo assimilado de modos diversos: um “levante antifascista”, uma “precipitação radical” ou, para o status quo, uma “tentativa de golpe comandada diretamente da URSS”, visões essas em confronto durante todo o século 20.

A prisão de Prestes no início de 1936 proporcionou ao PCB um símbolo para seu combate à ditadura nos anos seguintes, apesar dos constantes desmantelamentos do aparelho e das sucessivas prisões de dirigentes, o que levou o partido à inexistência prática até a conferência de reorganização em 1943. Enquanto militantes como Octavio Brandão, exilado desde 1931, ajudavam a irradiar propaganda e materiais traduzidos, diretamente da “pátria dos trabalhadores”, e sofriam as agruras da invasão alemã, os comunistas brasileiros repartiam-se entre “Comitês Centrais” isolados uns dos outros, espalhados por cidades tão díspares quanto São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador. Realidades tão distintas quanto a vivência soviética, a prisão e a clandestinidade se chocariam no momento de reconstruir o PCB, no ocaso do Estado Novo, levando a um verdadeiro compromisso: a elevação de Prestes ao supremo posto de secretário-geral (que só assumiria com a anistia em 1945) – que também coroava o afluxo de ex-oficiais dissidentes do “tenentismo” –, a manutenção da fidelidade a Stalin – apesar das tendências “liquidacionistas” em meio à euforia dos avanços aliados – e a marginalização definitiva da “geração fundadora” em prol de dirigentes mais jovens, temperados no combate antifascista e com grande presença de nortistas e nordestinos. Nem na reorganização de 1943, nem na legalização de 1945, novamente nenhum balanço detalhado do período imediatamente anterior ou o devido reconhecimento a cada personalidade em separado.

Para o PCB, pareceu muito fácil mudar seu discurso ou sua linha oficial ao sabor da conjuntura nacional, que com a eclosão da “guerra fria” lhe foi extremamente desfavorável: afluência desordenada de afiliados e “conciliação com o capitalismo” em 1945, condenação do governo “fascista” do presidente Eurico Dutra após a cassação do registro partidário pelo TSE em 1947 e radicalismo antissistema marcado pelo “Manifesto de Agosto” em 1950 – coincidindo com o ápice do controle stalinista sobre a URSS e sobre os novos regimes europeus nela decalcados. Em cinco anos, a “colaboração” tornou-se “insurreição”, mantendo-se inexplicavelmente o arsenal teórico da extinta Comintern sobre o “etapismo” da revolução nos países “coloniais e semicoloniais”, até a vibração causada pelo nacionalismo desenvolvimentista e o clima de relativo arejamento político sob o presidente Juscelino Kubitschek suavizarem gradualmente a combatividade pecebista. Quase ao mesmo tempo (1956), o impacto do “relatório Khruschov” renegando a herança de Stalin causou um racha entre os comunistas brasileiros, mas o equilibrismo de Prestes junto a um grupo “centrista” pragmático conseguiu afugentar os mais críticos, apaziguar os mais aferrados à ortodoxia e simplesmente acompanhar os ventos de Moscou, mantendo o suporte material e a dependência ideológica. O PCB via-se obrigado a repensar-se em meio à transformação do próprio movimento comunista internacional – em que às reformas soviéticas somavam-se a ascensão chinesa e a novidade cubana – e à estabilidade geral dentro do capitalismo vigente na segunda metade da década de 1950.

No período anterior ao golpe de Estado de 1964, o 6.º Congresso do partido (1960) foi o último momento em que ocorreu uma abrangente “operação da memória”, lembrando aquilo que se julgava conveniente e esquecendo aquilo que obscurecia as vitórias. O impacto gerado pelas revoltas e reviravoltas no bloco soviético em 1956 foi absorvido como uma mera “correção de rumos” do governo Khruschov, sem uma análise global do que havia levado vários membros, sobretudos intelectuais, a deixarem o PCB nem uma tentativa de compreender o desfecho violento na Hungria – “conspiração do imperialismo” era a resposta padrão. A acolhida do “nacional-desenvolvimentismo” como linha político-econômica geral e a consequente tática sempre mais próxima do reformismo surgiram como que por inércia, sem um trabalho com as correntes mais à esquerda que persistiam – o que foi determinante no surgimento do PCdoB – nem uma avaliação realista do clima político, julgado bastante tranquilo para uma atuação menos dissimulada. Em 1961, os atos finais do período foram a mudança do nome do partido (“do Brasil” para “Brasileiro”) sem mudança de sigla, visando à legalização e a uma imagem mais “nacional”, e a expulsão dos últimos “stalinistas” e (como se autodenominavam) “antirrevisionistas”, verdadeiro recalque de tensões que Prestes e seu “núcleo dirigente” simplesmente não queriam encarar de frente.

Com esta comunicação, pretendeu-se aplicar parte das reflexões sobre a memória e as operações conscientes e inconscientes de sua manipulação teorizadas por Pierre Nora e Aleida Assmann às transformações ideológicas e ao apontamento de “heróis” e “inimigos” nas histórias da União Soviética – e, por extensão, da Internacional Comunista – e do Partido Comunista do Brasil de 1922 a 1960. Nesse espaço, era constante a tentativa de eternizar certas lembranças sobre fatos e características pessoais úteis na promoção da causa e ocultar, com maior ou menor sucesso, políticas fracassadas e críticos da direção que pudessem descreditar as ideias de Lenin e Stalin perante o público externo ou, o que exigia controle, perante o público interno. As “viradas de página” eram feitas do modo mais suave e imperceptível possível, mas não somente os observadores mais argutos percebiam as intervenções simbólicas “in the making”, como também o passado que se procurava expurgar, apagar ou formatar sempre deixava rastros reaproveitados por futuras dissidências e, sobretudo, pela historiografia acadêmica. No Brasil e na URSS, o esforço discursivo que acompanhou a luta propriamente política pela implantação de uma sociedade sem classes também foi uma forma de luta política, com seus próprios métodos, funcionários, regras e códigos, infelizmente ainda pouco estudada enquanto tal e quase sempre deixada como caudatária da rotina burocrática e das disputas pelo poder dentro dos partidos e entre eles e o mundo circundante.


Bibliografia

ASSMANN, Aleida. Erinnerungsräume: Formen und Wandlungen des kulturellen Gedächtnisses. Munique: C. H. Beck, 1999.

______. Espaços da recordação: formas e transformações da memória cultural. Tradução Paulo Soethe. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2011.

BRANDÃO, Gildo Marçal. A esquerda positiva: as duas almas do Partido Comunista – 1920/1964. São Paulo: Hucitec, 1997.

BROUÉ, Pierre. Histoire de l’Internationale Communiste, 1919-1943. Paris: Fayard, 1997.

CANALE, Dario. O surgimento da Seção Brasileira da Internacional Comunista (1917-1928). São Paulo: Anita Garibaldi: Fundação Maurício Grabois, 2013.

CARRÈRE D’ENCAUSSE, Hélène. L’URSS de la Révolution à la mort de Staline, 1917-1953. Paris: Seuil, 1993.

CHARTIER, Roger. O passado no presente. História Revista, Goiânia, v. 26, n. 2, p. 29-53, maio-ago. 2021.

CHILCOTE, Ronald H. O Partido Comunista Brasileiro: Conflito e integração – 1922-1972. Tradução Celso Mauro Paciornik. Rio de Janeiro: Graal, 1982.

CLAUDÍN, Fernando. La crisis del movimento comunista. 2. ed. Barcelona: Ibérica, 1977. (1. “De la Komintern al Kominform”.)

DREYFUS, Michel et al. (dir.). Le siècle des communismes. 2. éd. augmentée et mise à jour. Paris: Les Éditions de l’Atelier: Éditions Ouvrières, 2004.

FITZPATRICK, Sheila. Everyday Stalinism: Ordinary Life in Extraordinary Times: Soviet Russia in the 1930’s. Nova York: Oxford University Press, 2000.

JEIFETS, Lazar; JEIFETS, Víctor. América Latina en la Internacional Comunista, 1919-1943: diccionario biográfico. Santiago do Chile: Ariadna, 2015.

LENIN, Vladimir Ilich. Полное собрание сочинений [Obras completas]. 5. ed. T. 20. Moscou: Politizdat, 1973.

MORAES, João Quartim de et al. (org.). História do marxismo no Brasil. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2007. 6 v.

NORA, Pierre. Entre mémoire et histoire. La problématique des lieux. In: NORA, Pierre (dir.). Les lieux de mémoire. Paris: Gallimard, 1984, p. xv-xlii. (T. I. “La République”.)

______. Entre memória e história. A problemática dos lugares. Projeto História, São Paulo, n. 10, p. 7-28, dez. 1993. Tradução Yara Aun Khoury.

PANDOLFI, Dulce Chaves. Camaradas e companheiros: memória e história do PCB. Rio de Janeiro: Relume-Dumará: Fundação Roberto Marinho, 1995.

PINHEIRO, Paulo Sérgio. Estratégias da ilusão: a revolução mundial e o Brasil, 1922-1935. 2. ed. rev. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

PONS, Silvio. A revolução global: história do comunismo internacional (1917-1991). Tradução Luiz Sérgio Henriques. Rio de Janeiro: Contraponto; Brasília: Fundação Astrojildo Pereira, 2014.

PRESTES, Anita Leocadia. Luiz Carlos Prestes: um comunista brasileiro. São Paulo: Boitempo, 2015.

REIS, Daniel Aarão. Luís Carlos Prestes: Um revolucionário entre dois mundos. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

STUDER, Brigitte. The Transnational World of the Cominternians. Basingstoke: Palgrave Macmillan, 2015.

TÔRRES, Raquel Mundim. O inferno e o paraíso se confundem: viagens de brasileiros à URSS (1928-1933). Campinas, SP: [s. n.], 2013. Dissertação (mestrado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Campinas, SP, 2013.



terça-feira, 1 de setembro de 2026

Octavio Brandão ataca PC do B (1963)

    Em 28 de maio de 2015, segundo consta nos metadados dos dois arquivos de imagem que eu tinha guardados em meus backups, fotografei com a autorização do Arquivo Edgard Leuenroth da Unicamp (AEL/IFCH) o artigo datilografado “Dissidentes do PCB”, escrito por Octavio Brandão em 1.º de janeiro de 1963 e depositado no fundo que leva seu nome. Aquele ano era o segundo de meu mestrado e, assim como no doutorado, os papéis do comunista histórico brasileiro foram essenciais pra eu escrever minhas teses nos dois níveis, que tratavam das relações entre o Partido Comunista do Brasil (nome do PCB até 1961) e a Terceira Internacional (ou Comintern). Porém, por alguma razão, copiei o texto aparentemente inédito, mesmo sendo mais relacionado ao tema do TCC que defendi em fevereiro de 2012, ou seja, o impacto do “relatório Khruschov” de 1956 e da “desestalinização” soviética sobre o PCB de 1956 a 1961. Sobre este tema, já escrevi vários textos e já publiquei várias traduções aqui na página, portanto, vamos direto ao assunto.

Sem entrar no mérito teórico de sua interpretação do marxismo, mais precisamente do leninismo e da vulgata staliniana, Brandão teve uma vida venturosa antes e depois de seu ingresso no PCB. Farmacêutico de formação, o sertanejo alagoano fez vários estudos amadores sobre a geologia de seu estado e é considerado um dos pioneiros (esquecidos) na consideração da possibilidade de existir petróleo no subsolo brasileiro. Envolvido na militância anarquista após se mudar pro Rio de Janeiro, simpatizou com a revolução bolchevique e entrou no PCB meses após sua fundação. Foi o principal teórico do partido na década de 1920, quando tentou conciliar a revolução proletária com o envolvimento das classes médias radicalizadas, mas em 1929 caiu no ostracismo quando a Comintern impôs o exclusivismo classista e as insurreições imediatas.

Mesmo assim, Brandão conseguiu diversos postos técnicos voltados ao público latino-americano na Internacional, tendo fugido das precoces repressões de Getúlio Vargas e se exilado na URSS de 1931 a 1946. Lá, durante a invasão alemã, conheceu a evacuação pra distante cidade de Ufá, onde faleceu doente sua esposa, a poetisa Laura Brandão. De volta ao Brasil, sem jamais ter deixado ou sido expulso do PCB, Octavio nunca retomou postos de direção, e os diversos núcleos dirigentes que se sucederam parecem nunca ter reabilitado a importância de sua atuação. Porém, se analisarmos a abundante documentação deixada por ele, percebemos que sua colaboração política continuou frutífera e que talvez ele exagerasse a condição de pobreza e esquecimento da qual frequentemente se queixava em artigos na imprensa comunista. Seja como for, sofreu igual a todos os outros os golpes da repressão estatal, qualquer que fosse o regime, e faleceu em 1980, sempre fiel à linha pró-Moscou do “Partidão”.

Recentemente, sua biografia e sua obra teórica têm sido cada vez mais estudadas, embora o segundo volume de suas memórias, Combates e batalhas, que cobre o período posterior a 1945 e cujo manuscrito permanece no AEL, jamais tenha sido publicado. “Dissidentes do PCB”, cujas fotos também aparecem abaixo, é exemplar em vários aspectos, a começar pela menção nominal aos principais fundadores do futuro PC do B, que os exalta até hoje, em especial pela pena de historiadores como Osvaldo Bertolino e Augusto Buonicore. Também é notável que a cisão tenha começado pela tomada de um dos órgãos do partido, algo comum na história das esquerdas no século 20 e já tendo o precedente da discussão sobre o “relatório Khruschov”, iniciada sem a autorização “de cima” pela própria redação da Voz Operária.

É igualmente curioso como Brandão engole naturalmente as viradas moscovitas, como é o caso da relação com Stalin, falecido em 1953, que os “dissidentes” ainda veem como o único líder ainda certo, mas que o alagoano até tinha vergonha de citar, depois de cantar loas a sua pessoa por décadas. Outro destaque são as cisões antissoviéticas que começavam a ganhar força no mundo socialista: a China não é citada, mas a Albânia de Hoxha está aí (aliás, é o único caso em que vi Brandão o nomeando). E como cereja do bolo, as “contribuições” nos mostram a importância dos “fundões” quando não temos o almoço pago pela URSS... Atualizei a ortografia e parte da redação e adicionei umas poucas notas explicativas:





Os dissidentes do Partido Comunista do Brasil – Maurício Grabois, Pedro Pomar, João Amazonas e outros – foram expulsos como traidores e passaram a fazer uma série de manobras: realizaram uma “Conferência Nacional Extraordinária” em São Paulo, em fevereiro de 1962, adotaram o título de “Partido Comunista do Brasil”, lançaram um “manifesto-programa” e apropriaram-se d’A Classe Operária, órgão do PCB, jornal de tradições gloriosas desde 1925.

Esses dissidentes e traidores passaram a fazer uma obra de confusão. Atacaram, no papel, o revisionismo, o dogmatismo e o sectarismo, transcreveram opiniões de Lenin, fingiram defender o internacionalismo proletário, a União Soviética e a revolução cubana, lançaram frases contra o imperialismo norte-americano e a miséria dos operários e camponeses do Brasil.

Mas os dissidentes arrancaram a máscara, meses depois. Publicaram o retrato de Enver Hoxha na primeira página d’A Classe Operária de 1-15 de dezembro de 1962, com elogios a esse “talentoso e valente líder” e ao seu Partido do Trabalho da Albânia, “cuja fidelidade aos princípios do marxismo-leninismo não pode deixar de ser reconhecida por todos os que almejam o triunfo do socialismo no mundo inteiro”. Tais as palavras textuais.

A Classe Operária dissidente ignora o 20.º Congresso do PC da União Soviética. Em seu número de 16-31 de dezembro de 1962, canta um hino exaltado à personalidade de Stalin e transcreve um trecho do livro dele Sobre os Fundamentos do Leninismo. No mesmo número, os dissidentes hostilizam o compromisso da União Soviética e dos Estados Unidos, que evitou a invasão de Cuba e a guerra mundial termonuclear. Igualmente, no mesmo número d’A Classe Operária, aparece um artigo do antigo fascista-integralista Otto Alcides Olwheiler [sic pra Ohlweiler (1914-1991); deputado estadual pelo PCB do RS de 1947 a 1951, era químico e publicou também sobre filosofia política, sendo expurgado da UFRGS em 1968], segundo o qual, por ocasião do bloqueio de Cuba, “a paz momentânea foi paga à sanha dos imperialistas norte-americanos com o atendimento de seus caprichos”.

Na política brasileira, A Classe Operária dissidente ataca violentamente o governo João Goulart e prega a abstenção no plebiscito de 6 de janeiro de 1963 [que restaurou o presidencialismo em detrimento do parlamentarismo ad hoc imposto antes da posse de Goulart, em 1961]. Lança palavras de ordem “esquerdistas” e frases pomposas e vazias. Faz propaganda de “guerrilhas” prematuras e da “ação armada como meio de sobrevivência”. Não abre nenhuma perspectiva para o povo brasileiro, exceto uma “revolução” caída do céu. Afirma, em seu número de 1-15 de dezembro de 1962: “Única saída: a revolução do povo”. Sustenta no “manifesto-programa”: “Só a luta revolucionária dará ao povo um novo poder”.

Os dissidentes e traidores têm uma base financeira de origem duvidosa, publicam n’A Classe Operária listas de “contribuições” monetárias importantes, mas vagas e suspeitas...

1.º de janeiro de 1963



domingo, 30 de agosto de 2026

Irmão de Lenin, líder da “RSS” da Crimeia

    Poucos brasileiros, mesmo entre os comunistas, conhecem a vida e a biografia dos parentes mais próximos de Vladímir Ilích Uliánov, o Lenin, exceto, talvez, a de seu irmão mais novo, Aleksandr (1866-1887), que foi executado por enforcamento após participar de uma trama pra assassinar o tsar Alexandre 3.º. Também se sabe que Lenin se uniu maritalmente a Nadézhda Krúpskaia, outra revolucionária marxista, mas que ele não tiveram filhos; há boatos de que o líder teve amantes, sobretudo no período em que se exilou na Europa Ocidental. Um desses desconhecidos é seu irmão Dmítri (1874-1943), citado em matéria de 30 de janeiro de 2021 no obscuro jornal russo Ekspress gazeta. Redigida por Marina Sidorova e intitulada “Engenheiros, químicos, programadores: quantos descendentes Lenin teve e que profissões eles seguiram”, não fala exatamente dos “descendentes” que Lenin não teve, mas da prole de Dmitri, que, como ela informa, foi o único dos três irmãos e três irmãs a ter filhos.

Sidorova menciona seus dois casamentos, mas não nomeia as esposas: Antonina Nescheretova (sem filhos) e Aleksandra Karpova (filha Olga, 1922-2011), enquanto a citada Ievdokia Cherviakova, mãe de Viktor (1917-1984), era na verdade um caso extraconjugal. Outras mortes atualizadas na Wikipédia russa são da neta Maria (1943-2021) e da bisneta Ielena (1978-2026, de sepse, ou infecção generalizada). O site também informa que Dmitri Ulianov foi presidente do Conselho de Comissários do Povo – ou seja, o líder de fato – da chamada República Socialista Soviética (RSS) da Crimeia, que existiu brevemente de 6 de maio a 26 de junho de 1919. Médico de formação, acumulou o cargo de comissário do povo (ministro) da Saúde e da Seguridade Social do próprio gabinete.

Porém, a existência da entidade acabou com a invasão da maior parte do sul da Rússia (hoje sul da Ucrânia, parte do qual está ocupado de novo por Moscou) pelas tropas chamadas “brancas”, notadamente sob a liderança sucessiva de Denikin e Wrangel. Somente em 1921 os bolcheviques retomariam a península e criariam a República Socialista Soviética Autônoma (RSSA) da Crimeia, dentro da composição da Rússia soviética, como informa esta publicação feita por um coletivo de tártaros da Crimeia. Lembremos que, na hierarquia organizativa, uma “RSSA” tinha amplas competências, mas se localizava “abaixo” de uma “RSS”; após a 2.ª Guerra Mundial, em 1945 (a lei só seria publicada em 1946), foi ainda mais rebaixada e se tornou uma simples região (óblast) da Rússia. Em 1954, passaria a ser uma região da Ucrânia, mas aí é outra história que já conhecemos bem.

Eu traduzi o artigo da Ekspress gazeta e a legenda do vídeo no Instagram, cujo texto coloquei ao final e completei com informações contidas na descrição da publicação. As fotos também foram incorporadas a partir do referido jornal. Aliás, alguém também notou como Ievgeni é parecido com o tetravô Iliá Ulianov?...



Foto de família dos Ulianov, 1879. Em pé (da esquerda pra direita): Olga (8 anos), Aleksandr (13), Anna (15). Sentados (da esquerda pra direita): Maria Aleksandrovna (44 anos) segurando sua filha Maria (1), Dmitri (5), Iliá Nikolaievich (48), Vladimir (9).


Dos seis irmãos e irmãs, apenas Dmitri Ilich teve filhos.

Todos que frequentaram uma escola soviética se lembram muito bem de que Vladimir Ilich Lenin tinha cinco irmãos e irmãs e até conseguem nomeá-los: Aleksandr, Dmitri, Anna, Olga e Maria. Cinco dos filhos do casal Ulianov não deixaram descendência. Aleksandr foi executado por suas atividades revolucionárias e não teve tempo de constituir família. Olga morreu de febre tifoide aos 19 anos, e Anna e Maria permaneceram sem filhos por toda a vida. Vladimir Ilich, é claro, não tinha tempo pra alegrias familiares: estava decidindo o destino de um vasto país.

Apenas Dmitri Ulianov teve filhos. Em 1917, Dmitri Ilich, médico hospitalar, e a enfermeira Ievdokia Cherviakova tiveram um filho, Viktor. Depois, em seu segundo casamento, nasceu Olga, em 1922.

Olga Ulianova se formaria no Instituto de Química da Universidade de Moscou e se tornaria, por assim dizer, a representante oficial da família Ulianov e do titio Volódia. Na época soviética, os eventos dedicados a Lenin ficavam incompletos sem ela.

A filha de Olga e sobrinha-neta de Lenin, Nadezhda Maltseva, trabalhou no Museu-Reserva Estatal do Kremlin de Moscou. Portanto, assim como seu tio-avô, ela frequentemente estava no Kremlin. Ela tem uma filha, Ielena, que é bisneta de Dmitri Ilich.

O segundo sobrinho de Lenin, Viktor Dmitrievich Ulianov, formou-se no Instituto Bauman e trabalhou na indústria de defesa. Em 1940, nasceu seu filho Vladimir, batizado em homenagem ao tio-avô, e três anos depois, sua filha Maria.

Vladimir Viktorovich, sobrinho-neto de Lenin, escolheu uma especialidade técnica e se tornou engenheiro. Trabalhou no Instituto de Pesquisa em Mecânica de Precisão e Engenharia da Computação da Academia de Ciências da URSS. Sua filha Nadezhda, sobrinha-bisneta de Lenin, fez pós-graduação [kandidat] em Química.

Maria Viktorovna, sobrinha-neta de Vladimir Ilich, também seguiu carreira na área da química, trabalhando no desenvolvimento de medicamentos. Em particular, fez parte de uma equipe que trabalhava na criação de um medicamento pra diabéticos que pudesse ser consumido por via oral.

Em 1971, Maria Viktorovna deu à luz Aleksandr, sobrinho-bisneto de Lenin. Ele trabalhava no ramo editorial e tem dois filhos: Ievgeni Ulianov, nascido em 1989, e Fiodor Ulianov, 17 anos mais novo que o irmão.

Ievgeni, sobrinho-trisneto de Vladimir Ilich, se formou no Instituto de Eletrônica e Matemática de Moscou e se tornou um programador de sucesso, trabalhando pra grandes e prestigiosas empresas. Sua esposa é Nina, colega de escola com quem se casou assim que completaram 18 anos. Eles têm uma filha, que é sobrinha-tetraneta do líder do proletariado.

Todos os descendentes de Lenin tentam manter seu parentesco em segredo, pois seu ancestral comum é uma figura altamente controversa. Isso até podia ser vantajoso na época soviética, mas agora não faz sentido.

“Durante a perestroika, os Ulianov aparentemente sofreram bullying e assédio e não contam muita coisa. Chegamos a assinar um termo de confidencialidade, nos comprometendo a não divulgar seus contatos: eles pediram muito que não fossem incomodados”, disse Tatiana Bryliaieva, diretora da Casa-Museu de Lenin em Ulianovsk, a um correspondente da Ekspress gazeta.

No entanto, os amigos de Ievgeni Ulianov dizem que, entre os mais próximos que sabem de quem ele é parente, ele se permite fazer piadas sobre isso. Aliás, ele é levemente dislálico, mais um motivo de humor.

Ao contrário dos descendentes de Stalin, Khruschov, Andropov e Gorbachov, que vivem no exterior, todos os parentes de Lenin permaneceram na Rússia.



Ievgeni Ulianov e a esposa Nina (perfil do Facebook de Ievgeni)


Em 18 de outubro de 1921, foi criada a República Socialista Soviética Autônoma (RSSA) da Crimeia, dentro da composição da RSFS da Rússia. O tártaro da Crimeia e o russo se tornaram línguas oficiais. Basicamente, a república era a entidade autônoma dos tártaros da Crimeia, que foram alçados aos postos da liderança local. A organização administrativa era conduzida na língua tártara da Crimeia, a imprensa nessa língua se desenvolveu, e seis dos 20 distritos da Crimeia se tornaram “nacionais” [i.e. com estatuto que permite a proteção de uma etnia específica, ou “nacionalidade”, no vocabulário russo-soviético].

Mas muitas iniciativas dos crimeanos não foram apoiadas pelo poder central, e a política de nativização [korenizátsia] na URSS começou a ser desmantelada no início da década de 1930. Em 1928, foi fuzilado o presidente do Comitê Executivo Central da RSSA da Crimeia, Veli Ibraimov. Na década posterior, as repressões se tornaram massivas e toda a elite intelectual tártara da Crimeia foi aniquilada. Depois das deportações de 1944, a RSSA da Crimeia foi extinta e começou um combate aos topônimos em língua tártara da Crimeia. Em 1946, a região autônoma foi transformada na Região [óblast] da Crimeia.


sábado, 22 de agosto de 2026

15 anos sem Gaddafi: a Líbia destruída


    Hoje vamos de algo mais “leve”, se é que de leve a reportagem tem só o tamanho mesmo. Há 15 anos assistíamos aos bombardeios de países da OTAN contra a infraestrutura da Líbia e as tropas do ditador Moammar Gaddafi, mais conhecido como “o rei africano dos looks”. Seu legado ainda é contraditório: se opôs à ingerência ocidental no país riquíssimo em petróleo e redistribuiu essa riqueza pra alcançar o maior IDH do continente; porém, foi extremamente brutal contra os críticos, financiou o terrorismo ao redor do mundo e surrupiou a maior parte dos royalties do ouro negro, enquanto a população ficava só com o mínimo necessário.

Minha geração (nasci em 1988) se acostumou, ou se resignou, a ver os EUA e seus aliados europeus intervirem militarmente em países africanos e asiáticos sob pretextos humanitários, pra fazer gato e sapato dos governos e instituições locais. Claro que a grande maioria era tiranias sanguinárias, mas a derrubada delas devia ser obra do próprio povo. O levante armado contra Gaddafi eclodiu na esteira das “revoltas árabes” de 2011, quando ele acabou massacrando a oposição – como Bashar al-Asad, que só cairia após 13 anos de guerra civil –, mas foi enfraquecido pela intervenção da OTAN, que o acusou de promover um “banho de sangue”, embora os próprios ocidentais tivessem feito a mesma coisa.

Gaddafi terminou assassinado em circunstâncias misteriosas em 20 de outubro de 2011, em Sirte – cidade natal aonde tinha fugido –, mas seu regime já tinha praticamente terminado em 23 de agosto, quando os rebeldes tomaram o controle das instalações do governo na capital Trípoli. A guerra civil em si terminou antes do fim do ano, mas pelo menos dois governos paralelos, apoiados por grupos diferentes de países, até hoje disputam o monopólio do reconhecimento internacional. Nesta edição de 21 de agosto de 2026 do Jornal da África (Rádio França Internacional), da qual separei o trecho, os âncoras introduzem o relato da jornalista Houda Ibrahim, feito nos dois últimos parágrafos.

Após usar esta ferramenta online pra transcrever o áudio por IA e corrigir os poucos erros ainda cometidos, traduzi sem usar o Google e adaptei a transliteração do árabe dos nomes líbios a minha própria prática, mais baseada na fonologia. Deixei a transcrição pra ajudar quem esteja aprendendo francês.



15 anos após a queda de Moammar Gaddafi, a Líbia continua dividida. Fraturado entre dois governos rivais que buscam se eternizar, o país mergulha numa profunda crise institucional e securitária. Porém, em 20 de agosto de 2011, enquanto caía o regime de Gaddafi, esperava-se um vento de liberdade e prosperidade. Mas hoje os líbios estão presos num verdadeiro inferno econômico, reféns de um impasse político cujo fim eles não conseguem enxergar. Reportagem de Houda Ibrahim.

Curiosamente, os 15 anos da queda de Gaddafi foram acompanhados por uma onda de violência que castigou o leste e o oeste do país, começando pelo assassinato em Benghazi do General [Fawzi] Al-Mansori, chefe do serviço de inteligência do Marechal Khalifa Haftar, passando pelo lançamento de drones contra instalações energéticas essenciais em Zawiya, no oeste. Os dois poderes são responsáveis em medida igual pela crise que se transforma numa realidade à qual as partes envolvidas, dentro e fora da Líbia, se adaptam e pra qual deixam de buscar uma verdadeira solução.

No final, as eleições gerais aguardadas pro fim de 2023 não ocorreram. O Estado desmoronou, assim como a transição política. As forças que emergiram de suas ruínas conseguiram construir interesses que tornam vantajoso pra eles manter o status quo. Ano após ano, as administrações, as redes econômicas, os aparelhos de segurança e as elites locais vão se enraizando nessa realidade, tornando cada vez mais difícil a unificação do Estado. A unidade implica necessariamente uma redistribuição do poder, das riquezas e da influência.



15 ans après la chute de Muammar Kadhafi, la Libye reste toujours divisée. Fracturée par deux gouvernements rivaux qui cherchent à se pérenniser, le pays, s’enfonce lui dans une crise institutionnelle et sécuritaire profonde. Pourtant, le 20 août 2011, le régime de Muammar Kadhafi tombait, à l’espoir d’un vent de liberté et de prospérité. Mais les Libyens sont pris aujourd’hui dans un véritable enfer économique, otages d’une impasse politique dont ils ne voient pas la fin. [Reportage de] Houda Ibrahim.

Curieusement, le 15e anniversaire de la chute de Kadhafi s’est accompagné d’une série de violences qui ont touché l’Est et l’Ouest du pays, à commencer par l’assassinat à Benghazi du général al-Mansouri, chef du service de renseignement du maréchal Khalifa Haftar, en passant par les frappes de drones ayant visé des installations énergétiques vitales à Zawiya à l’Ouest, renvoyant dos à dos les deux pouvoirs responsables de la crise qui se transforme en une réalité à laquelle les parties prenantes, internes et externes, s’adaptent, en cessant de chercher une vraie solution.

Les élections générales espérées pour fin 2023 n’ont finalement pas eu lieu. L’État a échoué, tout comme la transition politique. Les forces qui ont émergé de cet échec ont réussi à construire des intérêts qui rendent le statu quo avantageux pour elles. Année après année, les administrations, les réseaux économiques, les appareils sécuritaires et les élites locales sont racinées dans cette réalité, rendant l’unification de l’État de plus en plus difficile. L’unité implique nécessairement une redistribution du pouvoir, des richesses et de l’influence.


sábado, 18 de julho de 2026

Sorria: a Argentina pode estar roubando


erickfishuk.blogspot.com/pessi



Este meme resume a publicação. Pesquise a respeito.


Se já não disse aqui, escrevo agora: não gosto nem de jogar nem de assistir a futebol e só me interesso por ele na medida em que se relaciona a temas de minha predileção, como história, política, geopolítica, culturas e idiomas. E humor também, claro. E pra minha alegria, cada Copa do Mundo tem se tornado sempre mais geopolítica, sendo a deste ano o ápice do processo. A começar por se realizar em três países ao mesmo tempo, sendo que um deles, o Zesteite, se situa “de sanduíche” entre os outros dois, os quais, pra piorar, estão com as relações diplomáticas azedadas com o primeiro. E sempre pode ficar ainda pior: os três logo caíram fora do torneio, e o Canadá está literalmente “esfumaçando” a final que vai se realizar no vizinho do sul.

A coisa fica ainda mais divertida com a popularização das redes sociais, hoje facilmente portáveis nos smartphones a um bolso de distância. Mesmo quem não as usa acaba recebendo respingos das intermináveis discussões, com seus memes, polêmicas e virais de todo tipo, um novo modo de expressão a ser estudado pela história cultural. Por essas razões, mesmo em se tratando da campanha abominável da çelessão Canalhinha, ela se torna assunto entre todos os jornalistas e figuras públicas e condiciona a relação do gado trouxa público com o resto da competição. E o que pode mais eriçar um tupiniquim senão um sucesso da eterna rival Argentina, pior, sua segunda chegada consecutiva ao final do certame? Por alguns instantes a crônica bananeira se precipitou em comparar o que “nós” erramos com o que “eles” acertaram, mas mesmo do exterior podemos perceber que a coisa não é direta assim.

Quero testemunhar a impressão positiva que me têm despertado os textos de Milly Lacombe no UOL, a besta-fera da Machosfera horrorizada com sua intromissão “woke” num âmbito outrora monopolizado por bovinos de barrigão Pilsen e pinto murcho. Reconheço que também sou “uouquista” (não “oquista”, atenção!), mas não sou radical, e também julgo que a Milly não é. Concomitantes ao avanço da horda do Méçi Careca de fase em fase, começaram a aparecer vídeos de youtubers lixo tentando dissertar “Por que a Argentina é um país tão racista?”, sugeridos até junto a programas estrangeiros nada a ver com o assunto e que sigo regularmente. Pra meu alívio e agrado, a Milly fez um ótimo contraponto a esse antirracismo freestyle, dizendo que nossa história teve um racismo muito mais violento materializado na escravidão e que ele continua até hoje estruturando nossas relações sociais. Eu acrescentaria que justamente o fato de nossa equipe, ao contrário da argentina, contar com muitos jogadores de cor (até porque técnico negro nunca vi; feliz foi Pelé que não enveredou pela mesma cilada do Marabola!), assistidos por um público majoritariamente descorado, só mostra que esse foi um dos poucos espaços em que lhes foi permitido alcançar destaque, em detrimento da política, da economia e da ciência.

O destino me pegou de surpresa: e não é que jornalistas de outros países começaram justamente a apontar a dimensão inaudita do racismo na torcida platina, sem contar outros trambiques que estariam favorecendo os tricampeões? De fato, exceto casos isolados que ocorrem em nossos próprios campeonatos nacionais, nunca vi os fanáticos amarelentos imitarem símios, jogarem bananas ou gritarem ofensas contra a melanina alheia. Isso não limpa a ignomínia de como o tecido social do Gigante Adormecido (e jamais despertado) foi construído, mas talvez eu (e a Milly?) tenha subestimado a vergonha alheia que os hermanos despertam em quem compartilha com eles a mesma arquibancada. E dois artigos da mídia estrangeira me despertaram justamente pra essa reflexão, além de trazer elementos interessantíssimos pra deixarem as neymarzetes com a pulga atrás da orelha.

O primeiro é uma reportagem de Adèle Léron publicada na RFI francesa e intitulada “Copa do Mundo de 2026: por que a Argentina é alvo de suspeitas de favoritismo?”, e o segundo é uma entrevista dada pelo escritor Adam Elder ao jornalista George Louis Martínez, da americana NPR e intitulada “Por que muitos fãs de futebol podem torcer contra a Argentina na final da Copa?”. De família equatoriana, George usa o apelido “A Martínez” (assim mesmo, sem ponto, lê-se “ei Martínez”), mas aqui me referi a ele como “George Martínez” por praticidade. Também não mantive os links do original francês nem adicionei notas explicativas pra certas pessoas e coisas. Sugiro uma pesquisa à parte, especialmente o caso de IShowSpeed.

Da série “traduzi sem autorização, phodasse”, no caso da entrevista, como ela não veio com uma transcrição, obtive-a usando esta ferramenta online quase perfeita, devendo ter o resultado cotejado com o áudio, sobretudo quando as pessoas falam meio rápido, o que ocorreu na conversa. Pra fins de pesquisa e registro histórico de raridades, mantive a transcrição do áudio da NPR, após revisar a redação, em especial a divisão de parágrafos, que o site faz de modo totalmente aleatório. Se alguém mais entendido que eu em termos técnicos do ludopédio quiser sugerir alguma escolha melhor pra tradução, sobretudo se souber um pouco de inglês e francês, comente à vontade. Boa leitura e, pra quem for assistir, boa final:



Após se classificar pras semifinais da Copa do Mundo de 2026 com uma campanha considerada fácil e marcada por diversas decisões controversas da arbitragem, a Argentina se tornou alvo de acusações de favorecimento. No centro das críticas está Lionel Messi, pra quem esta Copa, apresentada como a última, alimenta fantasmas, teorias e desconfiança com relação à FIFA.

“Lionel Messi consegue seu juiz favorito pra semifinal Inglaterra-Argentina.” A manchete do Daily Mail dá o tom. Na véspera do confronto entre as duas seleções, o tabloide britânico reacende as acusações de favoritismo contra o time argentino.

Apresentado como “o juiz favorito” do capitão argentino , a nomeação do americano Ismail Elfath reforça em muitos a crença de que Lionel Messi estaria obtendo um tratamento preferencial nesta Copa do Mundo.

Essas teorias surgiram antes mesmo do início da Copa. Em 5 de dezembro de 2025, durante o sorteio, internautas já expressavam surpresa com os adversários oferecidos à Argentina. Um passeio, segundo alguns. A Albiceleste enfrentaria Argélia, a Jordânia e, enfim, a Áustria. Depois, Cabo Verde nos 16 avos de final [sim, esse é o nome oficial em português da bizarrice inventada por Infantino...], o Egito nas oitavas e, finalmente, a Suíça nas quartas. Esse trajeto alimentou suspeitas: até as semifinais, Lionel Messi e seus companheiros não teriam enfrentado nenhuma seleção entre as dez melhores da classificação da FIFA. Isso seria, aliás, inédito na história das Copas.

De forma inversa, os outros semifinalistas tiveram um torneio mais difícil. A França enfrentou o Senegal (3x1) e o Marrocos (2x0), ambos finalistas da última Copa Africana de Nações, além da Noruega, que eliminou o Brasil. A Espanha se livrou de Portugal e depois da Bélgica, enquanto a Inglaterra precisou derrotar o México antes de eliminar a Noruega de Erling Haaland.

No papel, portanto, o caminho da Argentina parece bem mais suportável que o de seus principais concorrentes.

Arbitragem polêmica – Um sorteio favorável, mas também decisões da arbitragem que estão sendo criticadas.

Logo na primeira partida contra a Argélia, Messi escapou de qualquer punição após esmagar o tornozelo de Aïssa Mandi na primeira meia-hora de jogo. No entanto, o ex-árbitro internacional Bruno Derrien considera que o camisa 10 “podia ter sido expulso”. Amplamente dominada, a Argélia acabou perdendo por 3x0, e seu técnico anunciou que iria exigir explicações da FIFA.

As partidas seguintes reforçaram ainda mais essa impressão entre alguns torcedores. A partir das fases eliminatórias, a Argentina teve dificuldades pra vencer. Em três ocasiões, os campeões do mundo foram atropelados, chegando a ficar atrás no placar. E em todas elas, as decisões da arbitragem inverteram o rumo dos jogos.

Primeiro, contra Cabo Verde. Incapaz de superar a 64.ª colocada na classificação mundial, a Albiceleste se beneficiou de várias intervenções controversas: uma falta na entrada da área em Hélio Varela que não foi punida, um toque de mão de Cristian Medina que também passou imune e uma falta cobrada às pressas por Lionel Messi enquanto o goleiro Vozinha ainda tomava posição na trave. A Argentina acabou vencendo por 3x2 nos acréscimos.

Os técnicos tomam partido – No jogo contra o Egito, o cenário se repetiu. Perdendo por 2x0 até os 79 minutos, a Albiceleste conseguiu virar (3x2). Após o jogo, o técnico egípcio exigiu a demissão do juiz francês François Letexier. Ele citou especificamente um pênalti não marcado após um puxão na camisa de Hamdy Fathy, um contato entre Mohamed Salah e Julián Álvarez na área e a anulação de um gol egípcio após revisão do VAR.

Finalmente, contra a Suíça. Dominada durante grande parte do jogo, a Argentina se aproveitou de um inesperado empurrão do destino. Aos 71 minutos, após revisão do VAR, o juiz português João Pinheiro anulou o cartão amarelo do argentino Paredes e o deu a Breel Embolo por simulação.

Já com esse cartão, o atacante suíço foi expulso e deixou o campo, deixando seu time com dez jogadores. Após o jogo, o técnico suíço denunciaria “cotoveladas, cabeçadas e soladas” que ficaram impunes.

À medida que a Argentina avança na Copa, apanhados de decisões controversas se multiplicam no TikTok e no X. Uma delas, intitulada “Uma compilação de nove minutos de faltas cometidas pela Argentina contra a Suíça sem consequências”, já soma centenas de milhares de visualizações.

Outros internautas também se surpreenderam com os meros três minutos de acréscimo concedidos contra Cabo Verde, enquanto outros jogos da Copa obtiveram seis ou até dez minutos, devido às pausas pra hidratação.

Messi no centro das teorias – Essas suspeitas não são novas. Ainda durante a vitória da Argentina no Catar em 2022, diversas decisões da arbitragem alimentaram o debate. A Albiceleste, em particular, foi beneficiada com cinco pênaltis, mais que qualquer outra seleção naquela Copa.

É principalmente a figura de Lionel Messi que alimenta essas teorias. Em 2017, Gianni Infantino declarou ao La Nación que “seria injusto Messi se aposentar sem ter conquistado uma Copa do Mundo”, acrescentando que o argentino precisava “marcar sua época”, tal como Diego Maradona tinha feito.

Aos 39 anos, esta edição é apresentada como a última Copa do camisa 10. A conquista do título selaria definitivamente seu espaço entre os maiores jogadores da história. Com ou sem a ajuda dos juízes...



George Martínez – Não é difícil adivinhar que os torcedores da seleção espanhola de futebol vão torcer contra a Argentina este fim de semana, quando os dois times se enfrentarem na final da Copa do Mundo, mas há muito mais gente ao redor do mundo torcendo pra que a Argentina perca. Adam Elder é um escritor especializado em esportes e cultura. Adam, o que há no estilo de jogo da Argentina que, historicamente, gera tanta rejeição?

Adam Elder – Pois é, há muita coisa envolvida aí. A Argentina ganhou três Copas, mas sempre teve um estilo que divide opiniões. Eles conseguem jogar com talento e, claro, têm Lionel Messi, mas também sabem jogar com brutalidade, digamos, chutando o adversário, subindo nas costas, derrubando com força, pressionando o juiz. Tudo isso é comum na América Latina. Tanto é que escrevi sobre isso num livro meu, mas a questão é que ninguém faz isso melhor que a Argentina.

Eles basicamente conseguem jogar tanto em alto nível quanto de forma muito baixa, e com frequência os vemos fazendo as duas coisas. Além disso, há episódios bem documentados de racismo da parte de torcedores e jogadores, com músicas e outras manifestações, especialmente contra pessoas negras; seja contra a seleção francesa, composta em grande parte por jogadores negros, ou espectadores famosos, como o streamer IShowSpeed na Copa deste ano.

GM – É, houve muito disso, o que anda prejudicando a imagem da Argentina, mas quatro anos atrás a situação parecia diferente. Parecia que as pessoas queriam ver Lionel Messi ganhar uma Copa. Então, o que realmente mudou de lá para cá?

AE – Muita coisa mudou durante esta edição. Eles chegaram como os atuais campeões, e a trajetória tem sido incrível. Lionel Messi, aos 39 anos, liderando o time na reta final de sua carreira. Ele marcou seis gols, se não me engano, nos três primeiros jogos, e as partidas têm parecido eventos quase religiosos. A emoção é avassaladora: a paixão, o barulho. É uma grande história.

O problema é que muitos têm a impressão de que a FIFA, entidade vilã que comanda o futebol, também gosta muito dessa narrativa, se você olhar de um certo ângulo. É quase como se as coisas tivessem tomado outro rumo após a fase de grupos – depois que a Argentina por pouco superou Cabo Verde, a indiscutível zebra da Copa –, pois, nos três jogos seguintes, muitos torcedores diriam que a Argentina foi beneficiada por decisões generosas da arbitragem, pelo uso muito generoso do VAR [o que inclusive fez os brasileiros criarem o apelido “VARgentina”!] e também pela falta de uso dele quando talvez fosse necessário.

Então, como acabei de dizer, a FIFA já aparece por si só como vilã; junte a isso o estilo de jogo peculiar da Argentina, as viradas incríveis que a seleção protagonizou e, talvez, uma arbitragem favorável, e chegamos ao cenário atual.

GM – Há décadas existe o sentimento, entre muitos latino-americanos, de que os argentinos se consideram superiores de alguma forma, o que faz com que sempre torçam contra eles. Mas o que você acha da ironia de que, neste caso, os latino-americanos prefiram torcer pra Espanha, nação que por séculos colonizou a América Latina?

AE – Pois é, esse é só um dos aspectos. Parece que sob vários pontos de vista vai ser um grande confronto. Obviamente há implicações ligadas à colonização e, veja bem, se a Argentina jogar como tem jogado em toda esta Copa – algo que, como discutimos, tem se desenvolvido mais ou menos por cinco semanas –, vai ser um jogo realmente interessante. Não vejo a hora de assistir e, pra ser claro, acho que tudo isso faz dos esportes algo bem melhor. Adoro ter um vilão. Claro, sou escritor, mas pessoalmente adoro isso.



George Martínez – It’s an easy assumption that fans of Spain’s national soccer team will be rooting against Argentina this weekend when the two teams face off in the World Cup final, but there are a lot more people around the world hoping Argentina loses. Adam Elder is a sports and culture writer. Adam, so what’s about the way Argentina plays that’s historically been unpopular?

Adam Elder – Oh boy, there’s so much going on here. Well, Argentina’s won three World Cups, but they’ve always had a style that’s very polarizing. You know, they can play with flair, and of course they have Lionel Messi, but they can also play with brutality, let’s say, kicking you, climbing on you, chopping you down, working the ref. This stuff is common throughout Latin America. In fact, I wrote about it in a book of mine, but the thing is, no one does this stuff better than Argentina.

They can essentially play at the highest levels or the lowest, and often you’ll see them doing both. Now, there’s also been some well-documented racism by fans and players and songs and whatnot, particularly towards black people; whether it’s about the French national team made up largely of black players or famous spectators like the streamer IShowSpeed at this year’s World Cup.

GM – Yeah, so there’s been a lot of that which hasn’t helped Argentina lately, but it seemed like four years ago things were different. It seemed like people wanted to see Lionel Messi win a World Cup. So what really has changed between then and now?

AE – A lot’s changed within this tournament. They came in as the defending champions, and it’s been this great story. Lionel Messi, aged 39, leading the team, twilight of his career. He scored six goals, I believe, in the first three games, and their matches have resembled these quasi-religious events. It’s emotionally overwhelming, the passion, the noise. It’s a great story.

The problem is, it appears to many that FIFA, soccer’s villainous governing body, likes that storyline a lot as well, if you look at it from a certain angle. It’s almost as if things took a turn after group play, after Argentina barely got past Cape Verde, the tournament’s undisputed Cinderella team, because in their next three matches, a lot of fans watching would contend that Argentina benefited from some generous calls, some very generous use of VAR, the video assistant referee, and also the non-use of it when perhaps it was needed.

So FIFA is, as I just said, such this great villainous organization on their own, and you combine now with Argentina’s occasional style of play and these incredible comebacks they’ve staged and, you know, perhaps generous refereeing, and this is where we are right now.

GM – You know, there’s been a decades-long feeling by many Latin Americans that Argentines believe themselves to be superior somehow, so that means they’ll always root against them. But what do you think of the irony that in this case, Latin Americans would rather root for Spain, the nation that colonized Latin America for hundreds of years?

AE – Yeah, I mean, that’s just one layer of it. It’s looking like a great matchup in so many ways. There’s obviously some colonial implications and, you know, if Argentina show up the way they’ve been playing throughout this tournament, which, as we talked about, has changed in the past five weeks or so, it’s going to be a really interesting game. I’m looking forward to it, and to be clear, I think all this stuff makes sports much better. I love having a villain. Of course, I’m a writer, but I personally love this stuff.