Hoje vamos de algo mais “leve”, se é que de leve a reportagem tem só o tamanho mesmo. Há 15 anos assistíamos aos bombardeios de países da OTAN contra a infraestrutura da Líbia e as tropas do ditador Moammar Gaddafi, mais conhecido como “o rei africano dos looks”. Seu legado ainda é contraditório: se opôs à ingerência ocidental no país riquíssimo em petróleo e redistribuiu essa riqueza pra alcançar o maior IDH do continente; porém, foi extremamente brutal contra os críticos, financiou o terrorismo ao redor do mundo e surrupiou a maior parte dos royalties do ouro negro, enquanto a população ficava só com o mínimo necessário.
Minha geração (nasci em 1988) se acostumou, ou se resignou, a ver os EUA e seus aliados europeus intervirem militarmente em países africanos e asiáticos sob pretextos humanitários, pra fazer gato e sapato dos governos e instituições locais. Claro que a grande maioria era tiranias sanguinárias, mas a derrubada delas devia ser obra do próprio povo. O levante armado contra Gaddafi eclodiu na esteira das “revoltas árabes” de 2011, quando ele acabou massacrando a oposição – como Bashar al-Asad, que só cairia após 13 anos de guerra civil –, mas foi enfraquecido pela intervenção da OTAN, que o acusou de promover um “banho de sangue”, embora os próprios ocidentais tivessem feito a mesma coisa.
Gaddafi terminou assassinado em circunstâncias misteriosas em 20 de outubro de 2011, em Sirte – cidade natal aonde tinha fugido –, mas seu regime já tinha praticamente terminado em 23 de agosto, quando os rebeldes tomaram o controle das instalações do governo na capital Trípoli. A guerra civil em si terminou antes do fim do ano, mas pelo menos dois governos paralelos, apoiados por grupos diferentes de países, até hoje disputam o monopólio do reconhecimento internacional. Nesta edição de 21 de agosto de 2026 do Jornal da África (Rádio França Internacional), da qual separei o trecho, os âncoras introduzem o relato da jornalista Houda Ibrahim, feito nos dois últimos parágrafos.
Após usar esta ferramenta online pra transcrever o áudio por IA e corrigir os poucos erros ainda cometidos, traduzi sem usar o Google e adaptei a transliteração do árabe dos nomes líbios a minha própria prática, mais baseada na fonologia. Deixei a transcrição pra ajudar quem esteja aprendendo francês.
15 anos após a queda de Moammar Gaddafi, a Líbia continua dividida. Fraturado entre dois governos rivais que buscam se eternizar, o país mergulha numa profunda crise institucional e securitária. Porém, em 20 de agosto de 2011, enquanto caía o regime de Gaddafi, esperava-se um vento de liberdade e prosperidade. Mas hoje os líbios estão presos num verdadeiro inferno econômico, reféns de um impasse político cujo fim eles não conseguem enxergar. Reportagem de Houda Ibrahim.
Curiosamente, os 15 anos da queda de Gaddafi foram acompanhados por uma onda de violência que castigou o leste e o oeste do país, começando pelo assassinato em Benghazi do General [Fawzi] Al-Mansori, chefe do serviço de inteligência do Marechal Khalifa Haftar, passando pelo lançamento de drones contra instalações energéticas essenciais em Zawiya, no oeste. Os dois poderes são responsáveis em medida igual pela crise que se transforma numa realidade à qual as partes envolvidas, dentro e fora da Líbia, se adaptam e pra qual deixam de buscar uma verdadeira solução.
No final, as eleições gerais aguardadas pro fim de 2023 não ocorreram. O Estado desmoronou, assim como a transição política. As forças que emergiram de suas ruínas conseguiram construir interesses que tornam vantajoso pra eles manter o status quo. Ano após ano, as administrações, as redes econômicas, os aparelhos de segurança e as elites locais vão se enraizando nessa realidade, tornando cada vez mais difícil a unificação do Estado. A unidade implica necessariamente uma redistribuição do poder, das riquezas e da influência.

15 ans après la chute de Muammar Kadhafi, la Libye reste toujours divisée. Fracturée par deux gouvernements rivaux qui cherchent à se pérenniser, le pays, s’enfonce lui dans une crise institutionnelle et sécuritaire profonde. Pourtant, le 20 août 2011, le régime de Muammar Kadhafi tombait, à l’espoir d’un vent de liberté et de prospérité. Mais les Libyens sont pris aujourd’hui dans un véritable enfer économique, otages d’une impasse politique dont ils ne voient pas la fin. [Reportage de] Houda Ibrahim.
Curieusement, le 15e anniversaire de la chute de Kadhafi s’est accompagné d’une série de violences qui ont touché l’Est et l’Ouest du pays, à commencer par l’assassinat à Benghazi du général al-Mansouri, chef du service de renseignement du maréchal Khalifa Haftar, en passant par les frappes de drones ayant visé des installations énergétiques vitales à Zawiya à l’Ouest, renvoyant dos à dos les deux pouvoirs responsables de la crise qui se transforme en une réalité à laquelle les parties prenantes, internes et externes, s’adaptent, en cessant de chercher une vraie solution.
Les élections générales espérées pour fin 2023 n’ont finalement pas eu lieu. L’État a échoué, tout comme la transition politique. Les forces qui ont émergé de cet échec ont réussi à construire des intérêts qui rendent le statu quo avantageux pour elles. Année après année, les administrations, les réseaux économiques, les appareils sécuritaires et les élites locales sont racinées dans cette réalité, rendant l’unification de l’État de plus en plus difficile. L’unité implique nécessairement une redistribution du pouvoir, des richesses et de l’influence.

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