“Ha messo la prima ed è partita. E come fermarla? È impossibile!” Hahaha!
Há muito tempo queria abordar esta viagem de Dilma Rousseff à Itália, que foi outro exemplo em que ela se pôs em maus lençóis na relação com os idiomas. Eu achava que ainda tinha sido sob seu mandato, porém, descobri que o referido discurso foi feito em 27 de janeiro de 2017, ou seja, durante o que foi apelidado de “turnê do gópi” pela Europa. Uma dessas paradas incluiu a Espanha, onde junto a militantes socialistas ela proferiu alguns dos discursos em ibero-dilmês (ou “dilmunhol”, como outros batizaram), um portunhol particular cuja exibição foi realmente vexatória e desnecessária.
Mesmo que na Universidade de Salento, na cidade de Lecce, bem no sul da Itália, Dilma não estivesse tentando balbuciar a língua de Dante, mantive o padrão das outras vezes em que ela realmente desembestou seus talentos, usando o endereço curto “dilmait” (it = italiano, óbvio), como fiz por ocasião do francês (“dilmafr”, mesma turnê) e do búlgaro (2011). Foi uma questão de organização mesmo. Mas a razão desta publicação não foi lançar mais um meme da família do “saudar a mandioca” e do “estocar vento”, mas tentar desmentir uma injustiça e desfazer um mal-entendido.
Quem me conhece há anos e quem acompanha meu trabalho desde o início, conhece mais ou menos minhas opções político-ideológicas e como escolho candidatos na latrina eleitoral urna. Votei em Dilma duas vezes, na primeira porque apostei que podia fazer melhor o que eu achava que Lula (com cuja pessoa nunca simpatizei) tinha feito de bom, e na segunda porque simplesmente Aécio Neves não me desce. A retórica dela era péssima, mas jamais foi comprovado um único caso de corrupção contra ela; pelo contrário, a faxina que ela tentou promover mesmo no próprio governo acelerou sua queda (a qual, aceitemos, teve base legal). Ainda prefiro ter apoiado uma vítima da tortura do regime terrorista imposto em 1964 do que justamente um de seus bajuladores, saudosistas e defensores: o boca de esgoto Jair Messias, toda a família Bolsonaro e seus apoiadores fanáticos e agressivos.
Outra coisa: nunca poupei um político, partido, regime ou ideologia, meu pensamento sempre foi estilo Casseta & Planeta, isto é, não perdoar ninguém, ainda que a zoeira seja relativamente leve. Não é por menos que publiquei todas as outras “poliglotices” de Dilma e volta e meia chamo nosso futuro presidente “tetracampeão” de Jararaca e Molusco. Porém, se tem uma coisa que abomino é injustiça, calúnia e manipulação, algo recorrente na mídia tradicional antes que as redes sociais as engolissem e regra geral entre as milícias digitais em tempos de conteúdo completamente artificial. E mesmo mídias reputadamente “sabão-em-pó” como UOL e Veja se deixaram embarcar na mentira rancorosa.
Um desses exemplos é o de um tal Reinaldo Polito, que no UOL se apresentava como especialista em oratória e propagou a distorção de que Dilma tinha “esquecido o que estava falando” na Itália. Porém, ninguém aproveitou mais a ocasião pra destilar sua misoginia reacionária quanto Augusto “Covarde” Nunes quando ainda trabalhava pra Abril, em seu compilado que (pra nossa alegria, convenhamos) traz também a transcrição das alocuções em “dilmunhol”. Pra todos os efeitos, ele foi minha fonte principal, mas vamos pôr “Os Pingos nos Is”. (Se duvidam da grave acusação de misoginia, reparem que ele e um comparsa mantiveram por anos no portal a etiqueta “dilmês” não tanto pra atacar os delírios da “nova matriz econômica”, mas sobretudo, como todo crácico do gênero, pra chamar a primeira mulher eleita chefe de Estado de burra, louca e petulante.)
Nunes jamais usou esse tom e linguagem com seu ex-milico de estimação que dispensa nomeação, apesar dos ataques contra mulheres jornalistas, do negacionismo científico, do baixíssimo calão nas mais diversas ocasiões (mesmo que o Véio do Chapéu volta e meia recaia no mesmo vício) e do ódio que propaga contra diversos grupos vulneráveis ou meramente discordantes. Ao modo de Alexandre Garcia, ele foi chutado de todos os veículos que ainda dependiam da mamata foderal e encontrou seu nicho entre a escumalha bolsonarista que se reagrupou na “revista” Oeste. O duplo padrão é asqueroso, mas há nove anos ele ainda propalava que Dilma “esquecia” seus discursos, quando na verdade não foi bem assim.
Não pude localizar a íntegra, e infelizmente a publicação de Nunes é um dos poucos registros daquele dia do qual me lembro mais ou menos bem. Não vamos julgar Dilma politicamente nem mesmo a utilidade de sua “euroturnê”, mas nos ater ao óbvio: ela estava sendo interpretada por uma profissional, isto é, não incorreu em fazer o imbróglio que abriu tanto flanco a seus detratores naqueles dias. Qual foi o problema? Ela simplesmente “desembestou” a falar e literalmente esqueceu que precisava dar pausas porque a interpretação era consecutiva.
Claro que numa hora dessas, em que os próprios nervos não ajudam muito, a gente nem sempre expressa limpidamente nossos pensamentos, e “Esqueci que tava falando” (e não “o que tava falando”, o que faz toda a diferença!) deve ser interpretado como esquecer que estava sendo interpretada e, portanto, continuar discursando como se a audiência a estivesse entendendo. Sim, dois lapsos típicos do “dilmaware”: ignorar a intérprete e não achar as palavras certas pra se fazer entender. Mas a oposição babante lhe atribuiu um terceiro lapso, inexistente, e seguiu divulgando “esqueci o que tava” no lugar de “esqueci que tava” sem o menor escrúpulo.
Porém, nunca compro passagem pra uma viagem perdida. Portanto, quem vai ganhar nosso Troféu Joinha de hoje é a intérprete, cuja identidade e destino não localizei, rs. Ela pelo menos, depois de uma gargalhada muito mais engraçada que qualquer verborreia de político, aproveita pra tirar uma da cara da ex-presidentA quando esta se lembra (mas não se esquece!) de sua existência, dizendo “Esqueci” (que havia uma intérprete, claro), e responde “Mas eu tento” (isto é, “Vou tentar retomar tudo e traduzir do dilmês pro toscano”...). Quando Dilma profere um “Engrenei uma primeira e fui”, ela traduz, curiosamente na terceira pessoa, “Ha messo la prima ed è partita” e acrescenta da própria lavra “E come fermarla? È impossibile! Allora ci provo” (E como a parar? É impossível? Então vou tentar [traduzir]).

“Modus bolsonarandi”!
Não sei se foi exigido atestado ideológico pra moça atuar como intérprete, se ela já integrava a trupe, se simplesmente foi contratada como autônoma ou se fazia mesmo parte dos membros da universidade. Porém, tenha sido ou não a tirada interpretada “na boa”, foi muito melhor que o fechamento da matéria da Veja com um “Já foi tarde” pelo “Covarde”. Afinal, o Mito dele foi tarde até demais, e como diria Cid Gomes, também “está preso, babaca!”.
Antes que eu é quem me esqueça, descobri por acaso, pesquisando material pra esta humilde publicação, que o Verdevaldo recentemente deu uma entrevista pra seu ex-agressor no vlogueco em que este atua, na ocasião do que seria uma “reconciliação”. Título constrangedor demais... Tanto mais quando sabemos que agora é o ex-Intercept quem passou pro lado do conspiracionismo e se uniu ao antigo desafeto pra ambos centrarem fogo no Xandão. Igual o Picolé de Chuchu, que em 2006 disse que “ele quer voltar à cena do crime”, mas em 2022 o chamou de “maior líder popular da história desse país”: é politicalha que chama???

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