O escritor (sobretudo romancista), pintor e escultor marroquino Mahi Binebine, nascido em Marrakesh em 1959, é daquelas figuras pouco conhecidas no Brasil devido à barreira linguística, mas que certamente seria muito divertido encontrar. De origem pobre, a história de sua família foi usada no enredo de alguns romances, notadamente Le fou du roi (O bobo da corte) e La nuit nous emportera (A madrugada vai nos levar embora), ainda não traduzidos pro português. Ele justamente chama a trajetória dela de “shakespeariana”, pois seu pai foi exatamente bobo da corte do autoritário rei Hassan 2.º do Marrocos (pai do atual, Mohammad 6.º), a quem basicamente deveria contar histórias pra o entreter antes de dormir, e seu irmão participou de um golpe de Estado que fracassou em derrubar o monarca, obtendo com isso 20 anos na prisão.
Em 1980 Binebine se mudou pra Paris, onde estudou matemática e lecionou a disciplina por oito anos. Depois, passando a se ocupar como escritor e pintor, morou em Nova York de 1994 a 1999, onde seus quadros obtiveram grande sucesso. Em 2002 se instalou definitivamente em Marrakesh, mas partilha seu tempo entre o Marrocos, a França (cuja língua é a usada em sua obra) e os EUA. Em parceria com amigos, também trabalha na inserção psicossocial e econômica, por meio da arte e da cultura, de jovens marroquinos desfavorecidos. Autor de 13 romances (até agora), teve sua produção plástica e literária amplamente reconhecida e premiada nos dois lados do Atlântico e do Mediterrâneo.
Isso é o que a Wikipédia em francês diz sobre Mahi Binebine. O que fica pra conferência do próprio internauta, porém, é a posse de uma das risadas asmáticas mais engraçadas que alguém pode ter visto e a fina voz idêntica, ou quase, à do personagem de desenho Bob Esponja! Posso parecer maldoso, mas hoje trago uma seleção das melhores gargalhadas desse figura, a partir das seguintes fontes: uma conversa no antigo programa INA Arditube, uma entrevista ao jornalista Patrick Simonin no programa L’Invité da TV5MONDE, uma entrevista a Fatimata Wane, sua parceira de iniciativas, ao Journal de l’Afrique da France 24 e, a melhor de todas, uma entrevista com o apresentador marroquino Oussama B (de “Benjelloun”). Esta última deve ter se dado na língua oral marroquina (de forte extração amazigue), na qual, como podemos ver, abundam as palavras e frases inteiras em francês.
A fruição dessa pérola dispensa conhecer as línguas envolvidas, pois sua alegria contagia tanto quanto a do comediante espanhol Juan “El Risitas” Joya Borja, um dos maiores memes da história. Sua risada banguela num programa de entretenimento em 2002 foi publicada no YouTube pela primeira vez em 2007, e a Irmandade Muçulmana egípcia fez a primeira “falsa legenda” com ele pra zombar do ditador militar presidente As-Sissi em 2014. A partir daí, várias outras versões foram sendo feitas em diversas línguas sobre diversos assuntos, com o pico de popularidade atingido em 2015. Como eu mesmo não entendo árabe marroquino, o vídeo com Oussama B, em que Binebine ainda por cima parece muito mais à vontade, serve ainda mais a propósito parecido. Se você conhece francês, alguns fragmentos ainda podem ficar engraçados dentro do contexto.
Porém, cabe traduzir duas falas do Leandro Karnal gaulês, que deixei mais ou menos na íntegra e traduzem bem o sentimento despertado por um espírito como Mahi Binebine: “O riso é uma forma de sobrevivência, uma forma de resistência” (Ele responde: “Na África, quanto mais alguém afunda, mais dá risadakkkkkk”!); “Os que gostam de Mahi Binebine, o artista que tenho diante de mim, sabem que essa risada que escutamos testemunha uma força, mas também uma profunda humanidade dentro de você” (Resposta: “Foi a natureza que fez isso, oras”).
Nesta publicação deixo uma lembrança (e não tanto uma homenagem) aos pobres jovens marroquinos e de outros países africanos, sem perspectiva de emprego em sua terra natal e que, enganados por gente inescrupulosa nas redes sociais, acha que mais um “rolezão na praia” em Ceuta como o tencionado pra hoje pode resolver seus problemas. É o Magrebe pra além dos destinos paradisíacos ao estilo O Clone, esquecido pelos influenciadores nômades...
Opinião de dois jornalistas da Sky News sobre esta publicação:


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