terça-feira, 20 de outubro de 2026

Macron critica arruaça em Paris (2026)


    Mais uma vez a França entrou em ebulição com protestos sociais que degeneraram em quebradeira geral e violência entre policiais e jovens manifestantes nas ruas de Paris e de outras grandes cidades. Sob o governo de Emmanuel Macron, caracterizado por seu anacrônico liberalismo desmantelador da proteção social estatal e protetor dos ricaços contra taxação, esses espasmos se tornaram mais frequentes. O mais famoso deles foi o movimento dos “coletes amarelos” em 2018 e 2019, contra o aumento no preço do diesel (então devido a um imposto que o presidente queria implantar) e interrompido apenas pela pandemia de covid-19. Outro que marcou os espíritos foi contra o assassinato do jovem Nahel por policiais, dentro de um carro, em 2024, e o deste ano começou com paralisações em escolas públicas de ensino médio (os famosos lycées, ou liceus) e em universidades, às quais se juntaram outras categorias profissionais. O mote passou a ser cada vez mais a crítica ao aumento dos preços, especialmente dos combustíveis (agora ligados às instabilidades na região do Golfo), e à deterioração geral dos serviços públicos, em particular da saúde.

É curioso que no Brasil, o bolsonarismo que reivindica o “liberalismo” econômico jamais reivindicou o macronismo, preferindo a amizade com o grupo estatista de Marine Le Pen, enquanto Lula, em defesa da tal “democracia”, vive de passeios com Janja e o banqueirinho de Amiens. Além disso, o presidente vive falando que quer “dialogar, escutar, resolver tudo junto”, mas nos primeiros debates ele vira as costas e sai reclamando do mundo, resolvendo as coisas da própria cabeça. Pra piorar, veio com a desculpa de que precisava “garantir as reservas de combustível” pra escapulir exatamente pro Golfo, deixando seu premiê Tião “chifrando” sozinho os desafetos. O quadro geral é esse, e não vou entrar em mais detalhes históricos e ideológicos, destacando apenas que toda vez que algo desses ocorre na Gália, me lembro desta página “Sou fã dos franceses porque qualquer coisa eles vão lá e queimam carros” no Facebook, não atualizada desde junho de 2025, mas cuja última publicação curiosamente traz Jones Manoel bem antes de ser eleito deputado phoderal...

Macron teve de sair do silêncio e, antes de seu “Tour d’Arabes”, gravou um discurso mostrando sua opinião e, mais uma vez, seus planos fajutos pra “resolver as coisas no diálogo”. Dada a importância histórica, não pude deixar de traduzir nem de publicar o quanto antes, mesmo tendo de adiar conteúdo que já tava programado. Eu mesmo traduzi a partir do texto original publicado no portal da presidência francesa, e seguem abaixo o vídeo incorporado a partir do canal pessoal de Emmanuel Macron e o discurso completo. É curioso que mesmo em francês, a palavra “factieux”, que em português daria literalmente em “facciosos”, não é de uso comum, e pra nosso propósito traduzi como “arruaceiros”, ideia que imprimi a todo o discurso – a da “arruaça”. Sendo algumas escolhas difíceis de se resolverem literalmente, também ressalto que traduzi “préfet” (que não se trata de um “prefeito” brasileiro) como “administrador/administração regional”, não eleito por sufrágio universal, e “casseur” e “casse” (ligados a “casser”, i.e. “quebrar”) como “vândalo” e “vandalismo”:



Meus caros compatriotas, estou me dirigindo a vocês esta noite num momento de extrema gravidade, após o que vivenciamos ontem em inúmeras cidades da França, tanto no território europeu como nos ultramarinos. Ontem, sábado, 17 de outubro, arruaceiros [factieux] oriundos de grupúsculos de extrema-esquerda, aos quais se juntaram inúmeros delinquentes, promoveram uma violência desenfreada em nossas cidades. Estabelecimentos comerciais foram saqueados, prédios públicos, lojas e prefeituras foram atacados e, em alguns casos, destruídos. Centenas e centenas de policiais civis e militares ficaram feridos.

Vendo essas imagens, todos nos perguntamos: o que eles têm na cabeça? Como franceses podem fazer isso com a França? Por que incendiar a prefeitura de Limoges e o escritório de turismo em Lyon, invadir a prefeitura em Marselha ou atacar a residência do administrador regional [préfet] em Bordeaux? Como podem chegar a esse ponto? Nada justifica, nada explica e nada desculpa tais atos.

Esta noite, todos sentimos raiva e vergonha. É insuportável ver as ruas de nossas cidades devastadas assim. Em nome de vocês, expresso o apoio da nação a nossas forças da ordem e de segurança interna. Elas resistiram e fizeram o melhor que podiam. Somos solidários com os inúmeros feridos e suas famílias. Expresso também nosso apoio a todos os nossos prefeitos e políticos. Quero demonstrar também nosso apoio aos inúmeros comerciantes, artesãos e agentes econômicos que sofreram as consequências dessa violência e que se encontram hoje em total desamparo. Alguns defenderam por conta própria suas lojas e vitrines contra os delinquentes. Quero lhes dizer que não vão ser deixados sozinhos diante dessas dificuldades. O governo vai lhes trazer respostas. A partir de amanhã, o primeiro-ministro vai presidir um comitê de crise pra mobilizar os auxílios mais rápidos possíveis e acompanhar aquelas e aqueles que atravessam esses momentos tão difíceis.

É preciso ser lúcido. Ontem, nossas forças da ordem, apesar de seu profissionalismo, tiveram de enfrentar uma violência inaudita em inúmeras cidades, por várias vezes. Solicitei ao governo que extraia todas as lições necessárias em matéria de inteligência e antecipação, garantindo que tais episódios não voltem a ocorrer. Estou esperando respostas claras e garanto que a transparência vai ser total; foi o que pedi ao ministro do Interior. As investigações vão ser conduzidas com toda a diligência necessária e o mais rápido possível, e o ministro da Justiça solicitou ao procurador a maior firmeza possível. O monitoramento judicial deve ser exemplar. Nossos juízes estão administrando a justiça em nome de vocês e sabem o que vocês esperam. Sempre que infrações são cometidas, elas devem resultar nos devidos monitoramentos judiciais. Quem destruiu deve pagar. Quem saqueou deve reembolsar. Quem tentou derrubar a República vai ter de responder por isso.

É preciso também observar com lucidez o que está se expressando no país. Ontem, centenas e centenas de milhares de nossos compatriotas protestaram, desejando trazer reivindicações legítimas. Jamais devemos confundir estes últimos com os que destruíram, quebraram e saquearam. Esses manifestantes demonstraram sua preocupação com o custo de vida e o preço dos combustíveis, cuja origem reside no conflito deflagrado no Golfo Pérsico, do qual a França não participou, mas cujas consequências estamos sofrendo. Entendo perfeitamente sua preocupação. Aliás, ela também se expressa em várias outras capitais europeias. Nesse sentido, tomei várias iniciativas em nível internacional pra garantir nosso abastecimento de combustíveis e gás e atuar nos mercados de energia. Vou dar sequência a essas ações a partir de amanhã de manhã, visitando países do Golfo pra assegurar nosso suprimento. O primeiro-ministro e o governo também tomaram decisões, em articulação com os distribuidores de combustíveis, pra que esses esforços se reflitam concretamente nos preços. O governo está fazendo o máximo esforço pra resolver a questão fundamental do poder de compra. Sei que os franceses esperam resultados concretos, e vamos continuar agindo.

E há várias semanas, nossos jovens vêm expressando uma angústia profunda nas escolas de ensino médio e nas universidades. Uma inquietação quanto ao futuro, às condições de vida e de estudo, à capacidade de se orientar, fazer planos e encontrar seu lugar na sociedade. De algum modo, a ideia de que o futuro pode não ser desejável. Entendo nossos secundaristas e universitários. Eles estão no centro de minha atuação política há mais de dez anos. Suas vozes devem ser ouvidas, sem preconceitos e sem minimizar as dificuldades. O governo já iniciou um trabalho nesse sentido. O ministro da Educação Nacional se mobilizou e criou uma plataforma que reuniu mais de 100 mil contribuições, somando-se às reuniões realizadas no nível das circunscrições educacionais [académies] e das escolas. Isso vai nos permitir construir respostas adequadas junto com nossos jovens.

Portanto, nossa responsabilidade é dupla: ouvir a raiva e atuar sobre suas causas, bem como garantir o firme respeito à ordem republicana. Não devemos confundir as reivindicações legítimas com a violência nem permitir que a violência impeça essas reivindicações de serem ouvidas. Por isso, nesta noite quero apresentar um método claro. Primeiro, no contexto atual, as administrações regionais vão tomar decisões em articulação com os prefeitos pra proteger nossas cidades, prédios públicos e estabelecimentos comerciais, inclusive proibindo, se necessário, certas aglomerações e adotando todas as medidas cabíveis. Segundo, apelo a todos os partidos políticos, organizações profissionais e sindicatos que condenem inequivocamente qualquer violência e peçam calma. Cada um deve assumir suas responsabilidades. O país precisa de ordem e pacificação, não de ainda mais tensão. Nos próximos dias, o primeiro-ministro vai reunir esses grupos pra obter posicionamentos claros e públicos. Terceiro, não podemos pedir a nossos jovens que acreditem no futuro sem lhes dar a possibilidade de construir as respostas e estar à mesa de negociação. Sim, precisamos nos sentar à mesa e juntos construir soluções. Alunos, universitários, professores, representantes das organizações patronais e sindicais, autoridades locais e parlamentares, a partir desta semana, vão elaborar propostas concretas com o governo. O primeiro-ministro vai os reunir nos próximos dias com esse objetivo. Quero ser muito claro aqui: vamos ser implacáveis com os vândalos e todos que cometem violência. A escuta e o diálogo não significam fraqueza nem impunidade.

Meus caros compatriotas, estamos a seis meses de nossa eleição presidencial. A seis meses. Portanto, todos os que hoje dizem a vocês que a prioridade é ir pra rua protestar e causar desordem têm um só objetivo: estragar a República e roubar o debate. As escolhas que vocês e todos nós teremos de fazer pro futuro daqui a seis meses são fundamentais. A França é uma grande força democrática e merece esses debates. Eles devem ocorrer em reuniões públicas, congregando os partidos, e não na rua por meio da violência. Devem ocorrer nos jornais, nas bancadas de televisão e em manifestações pacíficas, onde conversamos e esclarecemos com respeito, e nunca na desordem e no vandalismo. Em seis meses, nosso país merece uma bela eleição presidencial. Ela também está se definindo agora, mediante o senso de responsabilidade. Sim ao diálogo, sim às respostas concretas de curto prazo e à preparação das decisões futuras. Mas não à violência, sempre, seja ela qual for. Precisamos de unidade, calma e respeito.

Viva a República e viva a França.


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