quarta-feira, 14 de outubro de 2026

V. Kará-Murzá em francês (8/10/2026)


    Na manhã de 8 de outubro de 2026, o político e historiador russo Vladímir Kará-Murzá concedeu uma nova entrevista em francês à Rádio França Internacional (RFI), desta vez se concentrando nos movimentos de oposição na Rússia, em especial o partido Iábloko, contrário à guerra, e na incapacidade das potências ocidentais de frear a agressão de Putin contra a Ucrânia. Abaixo você pode assistir à íntegra de sua conversa com o jornalista Arnaud Pontus no canal oficial, e achei o conteúdo tão importante que decidi, mesmo sem autorização, traduzir pro português e colocar aqui. No portal da RFI em inglês também há uma transcrição adaptada da entrevista, mas não a usei pra fins de comparação.

Usei o site Turboscribe pra tirar do vídeo uma primeira versão da transcrição usando a tecnologia IA, depois comparei o resultado com o áudio e finalmente traduzi com o Google a versão corrigida, tendo revisado manualmente o resultado. Sendo um grande intelectual, Kará-Murzá é fluente em francês, mas tive que tirar alguns cacoetes orais mais repetitivos e corrigir a gramática. Não sendo o francês minha língua materna, meu trabalho pode não estar perfeito, mas espero que possa ter contribuído a quem se interessa pelo assunto:


Olá, Vladimir Kará-Murzá.

Olá e muito obrigado por seu convite.

Nós que agradecemos por estar aqui na RFI. Após mais de quatro anos e meio de guerra na Ucrânia, a Rússia intensifica seus ataques, especialmente contra a capital, Kyiv. Estaria Vladimir Putin, hoje, embarcando numa fuga pra frente?

Vladimir Putin está no poder há quase 27 anos. Durante todo esse tempo, esse homem continuou matando em nosso país, no interior da Rússia, e também fora de nossas fronteiras. O regime de Putin significa guerra. O regime de Putin significa agressão. O regime de Putin significa represálias. Portanto, enquanto esse homem permanecer no poder, essa guerra vai continuar. De fato, esse é o único jeito dele se manter no poder, porque obviamente ele é um usurpador e não possui nenhuma legitimidade democrática, já que não há eleições na Rússia há muitos anos.

Houve eleições recentemente, as eleições legislativas em setembro?

Entre aspas, sim, claro. Eleições entre aspas, isso sem falar do controle total do governo sobre a mídia e o sistema político. Mas mesmo nessas condições, como você sabe muito bem, o único partido contrário à guerra, chamado Iábloko – um partido liberal que se opõe à guerra na Ucrânia e pede um cessar-fogo imediato –, foi excluído do pleito pelo regime de Putin. Eles temiam que, mesmo com todo o controle, toda a censura e todas as manipulações, não conseguissem esconder o fato de que milhões e milhões de pessoas na Rússia se opõem a essa guerra e a essa ditadura. Isso poderia ser uma repetição do que vimos em Belarus há seis anos, em 2020.

Mesmo numa eleição que não passa de uma farsa, que não é uma eleição de verdade, se existe uma alternativa na cédula, milhões de russos votam nela, e por isso o regime de Putin excluiu esse partido da disputa. Mas, ao mesmo tempo, eles deram uma clara e eloquente demonstração de medo, pois admitiram que toda aquela propaganda sobre todos na Rússia estarem aparentemente apoiando essa guerra não passa de uma grande mentira.

Vladimir Kará-Murzá, como você entende a estratégia de Putin? Que ele precisa absolutamente da guerra pra se manter no poder, que essa é a única maneira dele continuar?

Todo ditador precisa de inimigos.

Inimigos internos ou externos?

Ambos. Ao mesmo tempo, é claro. E as coisas estão ligadas. Eu, por exemplo, fui preso porque me opus publicamente à guerra na Ucrânia. São os dois lados da mesma moeda.

Gostaria de relembrar brevemente que você foi condenado a 25 anos de prisão por condenar essa guerra na Ucrânia, a invasão russa da Ucrânia, e que foi condenado por alta traição.

Sim, agora é isso. Na Rússia de hoje em dia, é considerado crime manifestar-se publicamente contra o governo, sobretudo contra a guerra. Temos agora mais de 2 mil presos políticos identificados na Rússia, pelo que se pode sabe até o momento. Em meados da década de 1980, havia cerca de 750 presos políticos identificados nominalmente em toda a URSS, isso englobando o que são hoje 15 países. Só a Rússia, atualmente, tem mais de 2 mil presos políticos. E, claro, a categoria que cresce mais rapidamente é a de pessoas, meus compatriotas russos, que se manifestam publicamente contra essa guerra criminosa e cruenta que o regime de Putin está travando na Ucrânia.

Vladimir Kará-Murzá, você fala em presos políticos. Há alguns dias, Dmitri Peskov, porta-voz do Kremlin, negou categoricamente a existência de presos políticos na Rússia. O que esse tipo de declaração lhe inspira?

Nada de novo aqui. Na década de 1950, por exemplo, Nikita Khruschov, então líder da URSS, disse exatamente a mesma coisa. De fato, é uma simples repetição direta. Ele dizia que não havia prisioneiros políticos na URSS, mas apenas criminosos ou loucos. Afinal, como você sabe muito bem, os dissidentes eram enviados pelo regime soviético não apenas a prisões, mas também a hospitais psiquiátricos. Isso é uma forma de tortura. Portanto, não surpreende nem um pouco que o porta-voz da propaganda putinista diga isso.

O que me surpreende – e acredito ser importante falar sobre isso aqui em Paris – é que, como você sabe, há duas semanas a França pediu a suspensão das sanções contra dois grandes oligarcas do Kremlin, Alisher Usmanov e Mikhail Fridman. A União Europeia o fez em conjunto, mas por iniciativa da França. E pra mim, antes de tudo, isso é um sinal muito perigoso de que o Ocidente, a UE e, especificamente, a França estão dispostos a retomar o business as usual com o regime de Putin, a normalizar novamente as relações com o Kremlin. Mas o fato da França estar tão determinada, por razões que desconheço, a suspender as sanções contra esses dois oligarcas próximos a Putin é algo absolutamente incompreensível pra mim. Por que o governo francês não pediu, pelo menos, a libertação de alguns prisioneiros políticos russos que estão à beira da morte?

Você gostaria de ter criado uma moeda de troca? Que houvesse uma troca, de certa forma? Teria sido mais aceitável, nesse contexto, suspender as sanções contra oligarcas russos em troca da libertação de prisioneiros políticos?

Primeiramente, como já disse, pra mim é completamente incompreensível por que a França fez isso, em primeiro lugar, porque o que foi que eles fizeram, Fridman ou Usmanov? Eles criticaram o regime de Putin? Não. Eles tomaram distância da guerra na Ucrânia? Não. E não consigo ver absolutamente nenhuma razão pra França estar tão determinada a suspender as sanções. Mas o que digo é: se o governo francês tinha suas razões, as quais desconheço, pra suspender as sanções contra esses dois senhores realmente próximos do Kremlin e da ditadura de Putin, enquanto a guerra na Ucrânia continua e as represálias dentro da Rússia aumentam a cada dia, o mínimo que a França podia fazer era exigir, em troca, a libertação de, sei lá, uma centena de presos políticos russos que podem morrer amanhã ou na semana que vem.

E pra mim, o fato da França não ter feito isso é espantoso, incompreensível. E, se me permite a palavra, em minha opinião, é vergonhoso. Mas também preciso dizer que não quero ficar sentado aqui criticando apenas a França, pois não é só ela. Existe uma tendência perigosa em todo o mundo ocidental. Por exemplo, há um mês, o Canadá suspendeu as sanções contra outro oligarca putinista, Anatoli Chubais, novamente sem qualquer motivo.

Você quer nos dizer que existe uma tendência geral no mundo de pensar: “Ora, pois, no fim das contas vamos poder conversar, vamos ter que conversar com Putin”.

Mas isso é uma loucura total, porque, pra mim, uma das lições mais claras da história do século 20 é que as tentativas de apaziguar um agressor, na verdade, nunca levaram à paz. Sempre levam a mais guerra, mais sangue, mais dor e mais crimes. Porque tentar apaziguar um agressor, um ditador, só serve pra aumentar seu apetite e suas ambições. E já vimos isso acontecer com Vladimir Putin ao longo dos últimos 27 anos.

E pra mim, é absolutamente espantoso que os países ocidentais estejam prestes a fazer isso novamente. Há apenas uma semana, Donald Trump, presidente dos EUA, convidou Putin pra cúpula do G20 em Miami, em dezembro. Lembre-se que Putin tem um mandado de prisão expedido pelo Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra. E o presidente dos EUA, aparentemente a democracia mais importante do mundo, o convida pra uma cúpula... Não tenho palavras, nem em russo, e não apenas em francês, pra descrever o que penso sobre tudo isso.

A Rússia é acusada com frequência pela Europa de intensificar, em seu território, o que se chama de ataques híbridos, tentativas de sabotagem e violações do espaço aéreo por drones. Você vê nisso uma tentativa de intimidação por parte do presidente russo? E a resposta europeia lhe parece suficientemente firme?

Primeiro, por favor, não chame Putin de presidente. Ele não é presidente, é um ditador sob vários aspectos.

Entendo o que você diz. Vladimir Putin está tentando intimidar os europeus? E os europeus estão dando a resposta adequada?

Quanto à primeira pergunta, sim. Quanto à segunda, não, infelizmente. Porque, mais uma vez, vemos essa tendência muito perigosa...

Estão querendo normalizar as relações, é isso?

Apaziguar, normalizar as relações com alguém que não entende só a linguagem dos princípios, a linguagem de uma posição firme. Mas, infelizmente, não vemos isso. E, sobretudo, com o crescimento do apoio político a forças pró-Putin aqui na França, na Alemanha, em outros países da Europa Ocidental... Normalmente, trata-se da extrema-esquerda ou da extrema-direita. Eles são... Talvez sejam diferentes em qualquer outro aspecto, mas quanto à atitude perante Putin, são realmente iguais. E isso é muito perigoso, em minha opinião.

Com certeza. Há um descontentamento crescente entre os cidadãos russos, hoje na Rússia, devido aos efeitos da guerra na Ucrânia. Vemos incursões de drones ucranianos quase diariamente, escassez de combustível, cortes de internet... Será que tudo isso pode ter um desdobramento político? Se fôssemos um pouco românticos, seríamos tentados a perguntar: acaso poderia haver uma revolta?

É apenas uma questão de tempo até que ocorram grandes mudanças políticas na Rússia. Vimos uma demonstração muito clara de medo por parte do Kremlin, em agosto de 2026, quando Putin excluiu o Iábloko, único partido contrário à guerra, das eleições legislativas, pois percebeu que, mesmo com todo o controle, toda a censura e tudo a seu dispor, haveria milhões de russos que votariam nesse partido. Mas o problema pro Kremlin é que, tudo bem, eles conseguiram excluir da disputa o partido de oposição, o partido contrário à guerra. Mas isso não muda o fato de haver milhões de pessoas na Rússia hoje que se opõem a essa ditadura e a essa guerra, que querem que a Rússia um dia se torne um país normal, democrático, europeu. E mesmo que Vladimir Putin não o queira realmente, esse dia chegará.

Mas a oposição russa poderia tirar algum proveito político disso? A oposição russa está hoje muito desunida e fragmentada.

Não acredito sequer que se possa usar a palavra “oposição” quando se fala de uma ditadura. “Oposição” é um termo do vocabulário dos países democráticos, como aqui na França. Mas a questão, pra mim, não é a oposição, mas os milhões de russos, incluindo muitos jovens, que têm uma visão muito diferente pro futuro de nosso país. Sabe, no dia em que o Iábloko, o partido contrário à guerra, foi excluído do pleito, a decisão partiu formalmente da Suprema Corte, embora todos saibam que foi Putin quem decidiu. Mas naquele dia havia milhares de pessoas ao redor da Corte, jovens, de fato a geração de meus filhos, com 18, 19, 20 anos, algo assim. E eu via os vídeos e as fotos de Moscou e observava como aqueles jovens gritavam palavras de ordem contra a guerra, cantavam e riam diante dos policiais que estavam ali. E eu pensava: essa juventude é o futuro da Rússia, enquanto o ditador septuagenário no Kremlin não é e nunca vai ser.

O opositor russo exilado Garry Kasparov afirmou que sua vida corria perigo. Na última quinta-feira, ele disse ter sido informado pelos serviços de segurança lituanos e americanos de que devia tomar medidas de precaução. Você também é um opositor exilado: se sente igualmente em perigo?

Não penso nisso. Todos conhecem a realidade do regime de Vladimir Putin.

Você não acha que, como opositor exilado, poderia sofrer ameaças diretas ou correr risco de vida?

Veja, pra mim, permanecer em meu país sempre foi uma questão de princípio. A razão pela qual estou aqui é aquela troca de prisioneiros que você mencionou. Pra mim, sempre foi uma questão de princípio ficar em nossa terra, em minha casa, em meu país. E o FSB, o serviço de segurança de Putin, me envenenou duas vezes, em 2015 e em 2017. Depois, me deram esses 25 anos de prisão: podiam ter me matado lá dentro a qualquer momento. Portanto, não há nada de novo. A única novidade aqui é que, aparentemente, agora coisas assim também podem acontecer nos EUA. Porque antigamente havia aquela teoria de que, na década de 1970, os serviços secretos americano e soviético firmaram um “acordo de cavalheiros” pra não realizar ações desse tipo em território um do outro.

Não se elimina ninguém no país do outro.

Exatamente. Mas, com essa notícia, esse anúncio do Departamento de Justiça americano [que Kará-Murzá chama erroneamente de “ministério”], a questão da repressão transnacional em si não é novidade. Sabemos que o regime de Putin ataca seus opositores políticos não apenas na Rússia, mas também no exterior. Isso ocorreu em Londres, em Berlim, mas nunca, até agora, nos EUA. Então, a verdadeira novidade aqui é que, aparentemente, isso também pode ocorrer em solo americano.

Você não se sente protegido? Não há ameaça, você se sente seguro onde quer que esteja exilado?

Não penso nisso. Tenho trabalho demais pra pensar nessas coisas, porque...

Você toma precauções especiais?

Não, na verdade, não. O que se pode fazer?

Pois é, estamos conversando livremente, você chegou aqui tranquilamente.

O que se pode fazer? Não, se vivermos cada dia pensando nisso, ficamos paranoicos. E tenho trabalho demais pra entrar nessa enrascada.

E já fico claro que isso não vai o intimidar, de qualquer forma, Vladimir Kará-Murzá?

Não, mas acredito no que estou fazendo. Amo meu país e quero que a Rússia tenha um futuro normal, que a Rússia se torne um país civilizado, moderno, europeu, democrático, e vou fazer tudo o que estiver a meu alcance pra que esse dia chegue um pouco mais cedo.

Obrigado, Vladimir Kará-Murzá, por ter vindo à RFI.

Muito obrigado a vocês.



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