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sábado, 18 de julho de 2026

Sorria: a Argentina pode estar roubando


erickfishuk.blogspot.com/pessi



Este meme resume a publicação. Pesquise a respeito.


Se já não disse aqui, escrevo agora: não gosto nem de jogar nem de assistir a futebol e só me interesso por ele na medida em que se relaciona a temas de minha predileção, como história, política, geopolítica, culturas e idiomas. E humor também, claro. E pra minha alegria, cada Copa do Mundo tem se tornado sempre mais geopolítica, sendo a deste ano o ápice do processo. A começar por se realizar em três países ao mesmo tempo, sendo que um deles, o Zesteite, se situa “de sanduíche” entre os outros dois, os quais, pra piorar, estão com as relações diplomáticas azedadas com o primeiro. E sempre pode ficar ainda pior: os três logo caíram fora do torneio, e o Canadá está literalmente “esfumaçando” a final que vai se realizar no vizinho do sul.

A coisa fica ainda mais divertida com a popularização das redes sociais, hoje facilmente portáveis nos smartphones a um bolso de distância. Mesmo quem não as usa acaba recebendo respingos das intermináveis discussões, com seus memes, polêmicas e virais de todo tipo, um novo modo de expressão a ser estudado pela história cultural. Por essas razões, mesmo em se tratando da campanha abominável da çelessão Canalhinha, ela se torna assunto entre todos os jornalistas e figuras públicas e condiciona a relação do gado trouxa público com o resto da competição. E o que pode mais eriçar um tupiniquim senão um sucesso da eterna rival Argentina, pior, sua segunda chegada consecutiva ao final do certame? Por alguns instantes a crônica bananeira se precipitou em comparar o que “nós” erramos com o que “eles” acertaram, mas mesmo do exterior podemos perceber que a coisa não é direta assim.

Quero testemunhar a impressão positiva que me têm despertado os textos de Milly Lacombe no UOL, a besta-fera da Machosfera horrorizada com sua intromissão “woke” num âmbito outrora monopolizado por bovinos de barrigão Pilsen e pinto murcho. Reconheço que também sou “uouquista” (não “oquista”, atenção!), mas não sou radical, e também julgo que a Milly não é. Concomitantes ao avanço da horda do Méçi Careca de fase em fase, começaram a aparecer vídeos de youtubers lixo tentando dissertar “Por que a Argentina é um país tão racista?”, sugeridos até junto a programas estrangeiros nada a ver com o assunto e que sigo regularmente. Pra meu alívio e agrado, a Milly fez um ótimo contraponto a esse antirracismo freestyle, dizendo que nossa história teve um racismo muito mais violento materializado na escravidão e que ele continua até hoje estruturando nossas relações sociais. Eu acrescentaria que justamente o fato de nossa equipe, ao contrário da argentina, contar com muitos jogadores de cor (até porque técnico negro nunca vi; feliz foi Pelé que não enveredou pela mesma cilada do Marabola!), assistidos por um público majoritariamente descorado, só mostra que esse foi um dos poucos espaços em que lhes foi permitido alcançar destaque, em detrimento da política, da economia e da ciência.

O destino me pegou de surpresa: e não é que jornalistas de outros países começaram justamente a apontar a dimensão inaudita do racismo na torcida platina, sem contar outros trambiques que estariam favorecendo os tricampeões? De fato, exceto casos isolados que ocorrem em nossos próprios campeonatos nacionais, nunca vi os fanáticos amarelentos imitarem símios, jogarem bananas ou gritarem ofensas contra a melanina alheia. Isso não limpa a ignomínia de como o tecido social do Gigante Adormecido (e jamais despertado) foi construído, mas talvez eu (e a Milly?) tenha subestimado a vergonha alheia que os hermanos despertam em quem compartilha com eles a mesma arquibancada. E dois artigos da mídia estrangeira me despertaram justamente pra essa reflexão, além de trazer elementos interessantíssimos pra deixarem as neymarzetes com a pulga atrás da orelha.

O primeiro é uma reportagem de Adèle Léron publicada na RFI francesa e intitulada “Copa do Mundo de 2026: por que a Argentina é alvo de suspeitas de favoritismo?”, e o segundo é uma entrevista dada pelo escritor Adam Elder ao jornalista George Louis Martínez, da americana NPR e intitulada “Por que muitos fãs de futebol podem torcer contra a Argentina na final da Copa?”. De família equatoriana, George usa o apelido “A Martínez” (assim mesmo, sem ponto, lê-se “ei Martínez”), mas aqui me referi a ele como “George Martínez” por praticidade. Também não mantive os links do original francês nem adicionei notas explicativas pra certas pessoas e coisas. Sugiro uma pesquisa à parte, especialmente o caso de IShowSpeed.

Da série “traduzi sem autorização, phodasse”, no caso da entrevista, como ela não veio com uma transcrição, obtive-a usando esta ferramenta online quase perfeita, devendo ter o resultado cotejado com o áudio, sobretudo quando as pessoas falam meio rápido, o que ocorreu na conversa. Pra fins de pesquisa e registro histórico de raridades, mantive a transcrição do áudio da NPR, após revisar a redação, em especial a divisão de parágrafos, que o site faz de modo totalmente aleatório. Se alguém mais entendido que eu em termos técnicos do ludopédio quiser sugerir alguma escolha melhor pra tradução, sobretudo se souber um pouco de inglês e francês, comente à vontade. Boa leitura e, pra quem for assistir, boa final:



Após se classificar pras semifinais da Copa do Mundo de 2026 com uma campanha considerada fácil e marcada por diversas decisões controversas da arbitragem, a Argentina se tornou alvo de acusações de favorecimento. No centro das críticas está Lionel Messi, pra quem esta Copa, apresentada como a última, alimenta fantasmas, teorias e desconfiança com relação à FIFA.

“Lionel Messi consegue seu juiz favorito pra semifinal Inglaterra-Argentina.” A manchete do Daily Mail dá o tom. Na véspera do confronto entre as duas seleções, o tabloide britânico reacende as acusações de favoritismo contra o time argentino.

Apresentado como “o juiz favorito” do capitão argentino , a nomeação do americano Ismail Elfath reforça em muitos a crença de que Lionel Messi estaria obtendo um tratamento preferencial nesta Copa do Mundo.

Essas teorias surgiram antes mesmo do início da Copa. Em 5 de dezembro de 2025, durante o sorteio, internautas já expressavam surpresa com os adversários oferecidos à Argentina. Um passeio, segundo alguns. A Albiceleste enfrentaria Argélia, a Jordânia e, enfim, a Áustria. Depois, Cabo Verde nos 16 avos de final [sim, esse é o nome oficial em português da bizarrice inventada por Infantino...], o Egito nas oitavas e, finalmente, a Suíça nas quartas. Esse trajeto alimentou suspeitas: até as semifinais, Lionel Messi e seus companheiros não teriam enfrentado nenhuma seleção entre as dez melhores da classificação da FIFA. Isso seria, aliás, inédito na história das Copas.

De forma inversa, os outros semifinalistas tiveram um torneio mais difícil. A França enfrentou o Senegal (3x1) e o Marrocos (2x0), ambos finalistas da última Copa Africana de Nações, além da Noruega, que eliminou o Brasil. A Espanha se livrou de Portugal e depois da Bélgica, enquanto a Inglaterra precisou derrotar o México antes de eliminar a Noruega de Erling Haaland.

No papel, portanto, o caminho da Argentina parece bem mais suportável que o de seus principais concorrentes.

Arbitragem polêmica – Um sorteio favorável, mas também decisões da arbitragem que estão sendo criticadas.

Logo na primeira partida contra a Argélia, Messi escapou de qualquer punição após esmagar o tornozelo de Aïssa Mandi na primeira meia-hora de jogo. No entanto, o ex-árbitro internacional Bruno Derrien considera que o camisa 10 “podia ter sido expulso”. Amplamente dominada, a Argélia acabou perdendo por 3x0, e seu técnico anunciou que iria exigir explicações da FIFA.

As partidas seguintes reforçaram ainda mais essa impressão entre alguns torcedores. A partir das fases eliminatórias, a Argentina teve dificuldades pra vencer. Em três ocasiões, os campeões do mundo foram atropelados, chegando a ficar atrás no placar. E em todas elas, as decisões da arbitragem inverteram o rumo dos jogos.

Primeiro, contra Cabo Verde. Incapaz de superar a 64.ª colocada na classificação mundial, a Albiceleste se beneficiou de várias intervenções controversas: uma falta na entrada da área em Hélio Varela que não foi punida, um toque de mão de Cristian Medina que também passou imune e uma falta cobrada às pressas por Lionel Messi enquanto o goleiro Vozinha ainda tomava posição na trave. A Argentina acabou vencendo por 3x2 nos acréscimos.

Os técnicos tomam partido – No jogo contra o Egito, o cenário se repetiu. Perdendo por 2x0 até os 79 minutos, a Albiceleste conseguiu virar (3x2). Após o jogo, o técnico egípcio exigiu a demissão do juiz francês François Letexier. Ele citou especificamente um pênalti não marcado após um puxão na camisa de Hamdy Fathy, um contato entre Mohamed Salah e Julián Álvarez na área e a anulação de um gol egípcio após revisão do VAR.

Finalmente, contra a Suíça. Dominada durante grande parte do jogo, a Argentina se aproveitou de um inesperado empurrão do destino. Aos 71 minutos, após revisão do VAR, o juiz português João Pinheiro anulou o cartão amarelo do argentino Paredes e o deu a Breel Embolo por simulação.

Já com esse cartão, o atacante suíço foi expulso e deixou o campo, deixando seu time com dez jogadores. Após o jogo, o técnico suíço denunciaria “cotoveladas, cabeçadas e soladas” que ficaram impunes.

À medida que a Argentina avança na Copa, apanhados de decisões controversas se multiplicam no TikTok e no X. Uma delas, intitulada “Uma compilação de nove minutos de faltas cometidas pela Argentina contra a Suíça sem consequências”, já soma centenas de milhares de visualizações.

Outros internautas também se surpreenderam com os meros três minutos de acréscimo concedidos contra Cabo Verde, enquanto outros jogos da Copa obtiveram seis ou até dez minutos, devido às pausas pra hidratação.

Messi no centro das teorias – Essas suspeitas não são novas. Ainda durante a vitória da Argentina no Catar em 2022, diversas decisões da arbitragem alimentaram o debate. A Albiceleste, em particular, foi beneficiada com cinco pênaltis, mais que qualquer outra seleção naquela Copa.

É principalmente a figura de Lionel Messi que alimenta essas teorias. Em 2017, Gianni Infantino declarou ao La Nación que “seria injusto Messi se aposentar sem ter conquistado uma Copa do Mundo”, acrescentando que o argentino precisava “marcar sua época”, tal como Diego Maradona tinha feito.

Aos 39 anos, esta edição é apresentada como a última Copa do camisa 10. A conquista do título selaria definitivamente seu espaço entre os maiores jogadores da história. Com ou sem a ajuda dos juízes...



George Martínez – Não é difícil adivinhar que os torcedores da seleção espanhola de futebol vão torcer contra a Argentina este fim de semana, quando os dois times se enfrentarem na final da Copa do Mundo, mas há muito mais gente ao redor do mundo torcendo pra que a Argentina perca. Adam Elder é um escritor especializado em esportes e cultura. Adam, o que há no estilo de jogo da Argentina que, historicamente, gera tanta rejeição?

Adam Elder – Pois é, há muita coisa envolvida aí. A Argentina ganhou três Copas, mas sempre teve um estilo que divide opiniões. Eles conseguem jogar com talento e, claro, têm Lionel Messi, mas também sabem jogar com brutalidade, digamos, chutando o adversário, subindo nas costas, derrubando com força, pressionando o juiz. Tudo isso é comum na América Latina. Tanto é que escrevi sobre isso num livro meu, mas a questão é que ninguém faz isso melhor que a Argentina.

Eles basicamente conseguem jogar tanto em alto nível quanto de forma muito baixa, e com frequência os vemos fazendo as duas coisas. Além disso, há episódios bem documentados de racismo da parte de torcedores e jogadores, com músicas e outras manifestações, especialmente contra pessoas negras; seja contra a seleção francesa, composta em grande parte por jogadores negros, ou espectadores famosos, como o streamer IShowSpeed na Copa deste ano.

GM – É, houve muito disso, o que anda prejudicando a imagem da Argentina, mas quatro anos atrás a situação parecia diferente. Parecia que as pessoas queriam ver Lionel Messi ganhar uma Copa. Então, o que realmente mudou de lá para cá?

AE – Muita coisa mudou durante esta edição. Eles chegaram como os atuais campeões, e a trajetória tem sido incrível. Lionel Messi, aos 39 anos, liderando o time na reta final de sua carreira. Ele marcou seis gols, se não me engano, nos três primeiros jogos, e as partidas têm parecido eventos quase religiosos. A emoção é avassaladora: a paixão, o barulho. É uma grande história.

O problema é que muitos têm a impressão de que a FIFA, entidade vilã que comanda o futebol, também gosta muito dessa narrativa, se você olhar de um certo ângulo. É quase como se as coisas tivessem tomado outro rumo após a fase de grupos – depois que a Argentina por pouco superou Cabo Verde, a indiscutível zebra da Copa –, pois, nos três jogos seguintes, muitos torcedores diriam que a Argentina foi beneficiada por decisões generosas da arbitragem, pelo uso muito generoso do VAR [o que inclusive fez os brasileiros criarem o apelido “VARgentina”!] e também pela falta de uso dele quando talvez fosse necessário.

Então, como acabei de dizer, a FIFA já aparece por si só como vilã; junte a isso o estilo de jogo peculiar da Argentina, as viradas incríveis que a seleção protagonizou e, talvez, uma arbitragem favorável, e chegamos ao cenário atual.

GM – Há décadas existe o sentimento, entre muitos latino-americanos, de que os argentinos se consideram superiores de alguma forma, o que faz com que sempre torçam contra eles. Mas o que você acha da ironia de que, neste caso, os latino-americanos prefiram torcer pra Espanha, nação que por séculos colonizou a América Latina?

AE – Pois é, esse é só um dos aspectos. Parece que sob vários pontos de vista vai ser um grande confronto. Obviamente há implicações ligadas à colonização e, veja bem, se a Argentina jogar como tem jogado em toda esta Copa – algo que, como discutimos, tem se desenvolvido mais ou menos por cinco semanas –, vai ser um jogo realmente interessante. Não vejo a hora de assistir e, pra ser claro, acho que tudo isso faz dos esportes algo bem melhor. Adoro ter um vilão. Claro, sou escritor, mas pessoalmente adoro isso.



George Martínez – It’s an easy assumption that fans of Spain’s national soccer team will be rooting against Argentina this weekend when the two teams face off in the World Cup final, but there are a lot more people around the world hoping Argentina loses. Adam Elder is a sports and culture writer. Adam, so what’s about the way Argentina plays that’s historically been unpopular?

Adam Elder – Oh boy, there’s so much going on here. Well, Argentina’s won three World Cups, but they’ve always had a style that’s very polarizing. You know, they can play with flair, and of course they have Lionel Messi, but they can also play with brutality, let’s say, kicking you, climbing on you, chopping you down, working the ref. This stuff is common throughout Latin America. In fact, I wrote about it in a book of mine, but the thing is, no one does this stuff better than Argentina.

They can essentially play at the highest levels or the lowest, and often you’ll see them doing both. Now, there’s also been some well-documented racism by fans and players and songs and whatnot, particularly towards black people; whether it’s about the French national team made up largely of black players or famous spectators like the streamer IShowSpeed at this year’s World Cup.

GM – Yeah, so there’s been a lot of that which hasn’t helped Argentina lately, but it seemed like four years ago things were different. It seemed like people wanted to see Lionel Messi win a World Cup. So what really has changed between then and now?

AE – A lot’s changed within this tournament. They came in as the defending champions, and it’s been this great story. Lionel Messi, aged 39, leading the team, twilight of his career. He scored six goals, I believe, in the first three games, and their matches have resembled these quasi-religious events. It’s emotionally overwhelming, the passion, the noise. It’s a great story.

The problem is, it appears to many that FIFA, soccer’s villainous governing body, likes that storyline a lot as well, if you look at it from a certain angle. It’s almost as if things took a turn after group play, after Argentina barely got past Cape Verde, the tournament’s undisputed Cinderella team, because in their next three matches, a lot of fans watching would contend that Argentina benefited from some generous calls, some very generous use of VAR, the video assistant referee, and also the non-use of it when perhaps it was needed.

So FIFA is, as I just said, such this great villainous organization on their own, and you combine now with Argentina’s occasional style of play and these incredible comebacks they’ve staged and, you know, perhaps generous refereeing, and this is where we are right now.

GM – You know, there’s been a decades-long feeling by many Latin Americans that Argentines believe themselves to be superior somehow, so that means they’ll always root against them. But what do you think of the irony that in this case, Latin Americans would rather root for Spain, the nation that colonized Latin America for hundreds of years?

AE – Yeah, I mean, that’s just one layer of it. It’s looking like a great matchup in so many ways. There’s obviously some colonial implications and, you know, if Argentina show up the way they’ve been playing throughout this tournament, which, as we talked about, has changed in the past five weeks or so, it’s going to be a really interesting game. I’m looking forward to it, and to be clear, I think all this stuff makes sports much better. I love having a villain. Of course, I’m a writer, but I personally love this stuff.


terça-feira, 14 de julho de 2026

Prevenção da demência 2: os supercaminhantes

Minha primeira tradução de um artigo no site da National Public Radio (NPR) dos Estados Unidos sobre a prevenção da demência foi um sucesso, o que me deixou muito alegre. Felizmente, em 6 de julho passado, Alisson Aubrey veio novamente com uma reportagem, que pode ser ouvida em formato podcast na própria página, sobre a relação entre exercício físico e fortalecimento cerebral. Em tradução livre pro português, seu título poderia ser “Um estudo descobriu que pessoas com mais de 80 anos que caminham em ritmo acelerado reduzem pela metade o risco de declínio cognitivo” e fala de novos estudos relacionando a manutenção da acuidade cerebral em pessoas com mais de 80 anos que mantêm o hábito da caminhada rápida.

Não são aqueles anúncios “pegadinha” miraculosos que pululam no Google, mas estudos sérios que achei por bem partilhar aqui, mesmo sem autorização da NPR, rs. A maior contribuição do artigo é o conceito de “super mover”, que o tradutor inicialmente transformou em “supermoventes”, mas deu inúmeras soluções díspares ao longo do texto. Assim, joguei na busca tanto “supermoventes” pra ver se era um termo corrente quanto “super mover em português” pra achar alguma relação com estudos existentes. O termo era realmente novo e o Gemini, IA do Google, acabou sugerindo “supercaminhantes” a partir de diversas fontes, uma delas um recente artigo da revista Veja que por coincidência abordou o mesmo tema. Porém, o texto trata quase exclusivamente do trabalho de só um dos cientistas envolvidos, enquanto aqui você pode conhecer o esforço completo!

Tendo usado o Google Tradutor pra obter a base do texto, fiz o que se tornou ainda mais imprescindível depois da multiplicidade de traduções pra “super movers”: revisar manualmente, sobretudo termos médicos, pra não ficar algo antinatural ou simplesmente passado “na máquina”... Além disso, imprimi ao conjunto meu próprio estilo de redação e simplifiquei o que fosse possível, mesmo que o resultado “robótico” permanecesse aceitável. Desta vez, com uma única exceção, não mantive os links originais pra outros artigos, trabalhos e sites. Finalmente, como fiz outras vezes, sugiro a leitura do artigo (entrevista) da pesquisadora Gislene Nogueira sobre o conceito de public radio na legislação americana, no qual se encaixa a NPR, uma empresa privada sem fins lucrativos que sobrevive de doações de indivíduos, empresas e organizações e de repasses do Estado (estes cortados por Trump em 2025).



Palavras cruzadas e quebra-cabeças são há muito tempo considerados maneiras de manter a mente afiada. Mas um novo estudo aponta pra outra estratégia que pode ser igualmente importante: manter a rapidez nos pés.

Pesquisadores descobriram que pessoas na faixa dos 80 anos que mantêm um ritmo de caminhada excepcionalmente rápido, apelidadas de “supercaminhantes”, também são muito mais propensas a manter a mente afiada em comparação com seus coetâneos que se movem mais lentamente.

“Um supercaminhante é alguém com mais de 80 anos que apresenta um desempenho muito superior ao de seus coetâneos”, afirma a dra. Sofiya Milman, do Albert Einstein College of Medicine, uma das autoras do estudo.

Milman e seus colaboradores analisaram dados de cerca de 4 mil idosos inscritos num estudo de longo prazo sobre envelhecimento. Os participantes realizaram um teste de caminhada cronometrada, e os 9% mais rápidos – que apresentaram uma velocidade de marcha pelo menos 1,5 desvios padrão acima da média de seus pares da mesma idade – foram classificados como supercaminhantes. Esses indivíduos também apresentaram uma probabilidade significativamente menor de sofrer declínio cognitivo.

“A principal conclusão foi que os supercaminhantes têm cerca de 50% menos probabilidade de desenvolver declínio cognitivo que seus coetâneos que não são supercaminhantes, o que é muito impressionante”, diz Milman. Os resultados foram publicados na revista médica Neurology.

A conexão com a saúde muscular – Caminhar bem exige equilíbrio, coordenação e força, e todos esses fatores dependem de músculos saudáveis, afirma Bonnie Tsui, redatora científica e autora de On Muscle: The Stuff That Moves Us and Why It Matters (em tradução livre, Sobre músculos: o que nos move e a importância disso).

“Acho que a descoberta não é surpreendente, porque sabemos que a saúde muscular está muito correlacionada com a saúde cognitiva, especialmente à medida que envelhecemos”, diz Tsui. “O exercício faz seus músculos crescerem, mas também faz seu cérebro crescer.”

Pesquisas anteriores associaram a prática regular de exercícios físicos a um maior volume do hipocampo, o centro do cérebro responsável pela memória e pela orientação. O novo estudo descobriu que os supercaminhantes tendiam a preservar o volume do hipocampo à medida que envelheciam.

Tsui afirma que os benefícios estão relacionados ao que acontece dentro dos músculos em contração durante o exercício.

“O músculo é um tecido endócrino, o que significa que, quando nos movemos, nossos músculos liberam moléculas sinalizadoras que afetam outros sistemas do corpo, incluindo o estímulo ao crescimento de células cerebrais e a regulação do metabolismo”, diz ela. “Portanto, saúde muscular é saúde cognitiva.”

Entre essas moléculas de sinalização está uma proteína conhecida como fator neurotrófico derivado do cérebro, ou BDNF, que ajuda a regular a glicose e desempenha um papel importante na sobrevivência e manutenção dos neurônios, auxiliando na memória e na função cognitiva.

A rede de um corpo em funcionamento – O dr. Amit Saini, geriatra do consórcio de saúde Kaiser Permanente no norte da Califórnia, afirma que caminhar e manter a capacidade de caminhar bem são indicadores de boa saúde, pois diversos sistemas do corpo são empregados simultaneamente. Ele diz que caminhar beneficia a saúde cardiovascular e pulmonar.

“Ao caminhar, seu coração bate mais rápido e, quando o coração bate mais rápido, ele bombeia sangue não só pros músculos, mas também pro cérebro, nervos e outros sistemas do corpo”, diz Saini. “Seus pulmões também respiram um pouco mais rápido, o que, por sua vez, os mantém mais leves e saudáveis.”

Uma das descobertas mais surpreendentes do estudo: alguns supercaminhantes apresentaram placas e emaranhados neurofibrilares no cérebro, proteínas anormais associadas à doença de Alzheimer e à demência, apesar de não apresentarem sintomas. Os pesquisadores afirmam que isso sugere que o movimento e todos os benefícios de se manter ativo podem ajudar o cérebro a permanecer resiliente, mesmo sofrendo alterações relacionadas à idade.

A genética e o estilo de vida também são importantes – A genética provavelmente desempenha um papel importante em quem se torna um supercaminhante. Um estudo recente descobriu que a genética é responsável por cerca de 50% da expectativa de vida humana, e Milman afirma que, entre os superidosos – pessoas que estão bem aos 80 anos ou mais –, o papel da genética pode ser ainda maior.

No entanto, os autores enfatizam que os hábitos de vida, incluindo as decisões diárias sobre alimentação, priorização do sono e tempo dedicado ao relaxamento e à convivência com amigos e familiares, são todos importantes. De fato, pesquisas mostram que cerca de metade de todos os casos de demência podiam ser prevenidos ou adiados com a intervenção em 14 fatores de risco modificáveis.

As pessoas têm poder de influência sobre suas chances de envelhecer com saúde, e uma maneira de avaliar seus riscos pessoais e tomar medidas pra os reduzir é calcular sua Pontuação de Cuidado Cerebral. É uma ferramenta online gratuita, desenvolvida por médicos do Hospital Geral de Massachusetts, pra calcular teus riscos e sugerir medidas, por meio de mudanças nos hábitos diários, que podem ajudar a diminuir o risco de AVC, demência, doenças cardíacas e câncer.

“Caminhar rápido é um indicador de que o cérebro e o corpo estão envelhecendo bem”, diz Joe Verghese, chefe do Departamento de Neurologia da Stony Brook Medicine em Nova York e um dos autores do estudo. “Mas também é possível que as pessoas que caminham mais rápido, ao se envolverem nessas atividades, também protejam a saúde do cérebro por meio de diversos mecanismos, reduzindo inflamações, melhorando a saúde cardiovascular e promovendo o crescimento cerebral em áreas essenciais pra manter a função cognitiva à medida que envelhecemos.”

Verghese afirma que as descobertas trazem uma mensagem pra pessoas de todas as idades e níveis de condicionamento físico.

“Uma das principais mensagens é: mantenha-se ativo”, diz ele. “Faça exercícios regularmente, pois isso pode te colocar no caminho pra se tornar um supercaminhante à medida que envelhecer.”

Seja caminhando, nadando ou pedalando, os pesquisadores afirmam que a forma do movimento importa menos que sua consistência. É um hábito que pode trazer benefícios tanto pros músculos quanto pra memória no longo prazo.



quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

Fazer o bem faz bem... literalmente


Endereço curto: fishuk.cc/fazerobem

Aproveitando o espírito de Natal, foi publicada em 25 de dezembro de 2024, no site da National Public Radio (NPR) dos EUA, uma reportagem assinada por Maria Godoy, editada em texto por Jane Greenhalgh e que pode ser ouvida em formato podcast na própria página. Em tradução livre pro português, seu título poderia ser “Quando a gentileza se torna um hábito, ela melhora nossa saúde” e se trata de mais um apanhado de pesquisas sobre como simples mudanças no cotidiano podem fazer um bem danado pro corpo e pra mente. Cientistas americanas têm observado que a persistência em atitudes altruístas, sobretudo o engajamento em voluntariado, pode reduzir o risco de doenças cardiovasculares, fortalecer nosso cérebro e prevenir dores físicas. As descobertas ainda estão em estágio inicial, mas parecem promissoras.

Em todo caso, quem nunca constatou na prática uma sensação espontânea de bem-estar após ajudar alguém, sem ser com segundas intenções (o que geraria o estresse de esperar pela retribuição)? Vale lembrar que os estudos não levam em conta a variável “beber cerveja toda vez que se apresenta num show musical”, mas dado o histórico em Xerém, quem sabe também não haja aí uma relação de causa e efeito? Rs. Após usar o Google Tradutor pra obter a base do artigo, revisei manualmente, imprimi meu próprio estilo e simplifiquei quando possível. Mantive todos os links originais, sem traduzir, portanto, os textos aos quais eles levam.





Imagens aleatórias do Zeca Pagodinho meramente ilustrativas, rs!


Pesquisas mostram que pessoas que se dedicam regularmente ao voluntariado têm risco menor de mortalidade e melhor saúde física à medida que envelhecem.

É aquela época do ano em que se costuma ser um pouco mais gentil e fazer coisas boas pros outros. Bem, aqui vai algo interessante: pesquisas sugerem que quando tornamos os atos de gentileza um hábito, isso também é bom pra nossa saúde.

Seja como voluntário num banco de alimentos local ou levando sopa pra um vizinho doente, há muitas evidências de que quando ajudamos os outros, isso pode aumentar nossa própria felicidade e bem-estar psicológico. Mas cada vez mais pesquisas também afirmam que isso melhora igualmente nossa saúde física, diz Tara Gruenewald, psicóloga social e de saúde da Chapman University.

A maioria das evidências vem de estudos observacionais de pessoas que praticam o voluntariado regular. Mas também há evidências experimentais. Talvez a mais impressionante venha do teste Baltimore Experience Corps, um amplo experimento em que adultos com 60 anos ou mais foram designados aleatoriamente ou como voluntários em escolas de ensino fundamental ou como parte de uma lista de espera. Os voluntários passaram pelo menos 15 horas por semana fornecendo tutoria a crianças carentes. Dois anos depois, os pesquisadores descobriram que os voluntários tiveram mudanças mensuráveis em sua saúde cerebral.

“Eles não sofreram declínios na memória e no controle cognitivo, como vimos em nossos participantes de controle”, diz Gruenewald, uma das pesquisadoras envolvidas no teste. “E houve até mesmo mudanças de volume em áreas do cérebro que dão suporte a esses diferentes processos cognitivos”.

Os voluntários também eram fisicamente mais ativos, “o que é importante pra manter tanto a saúde cognitiva quanto a física à medida que as pessoas envelhecem”, explica.

Outras pesquisas descobriram que pessoas que praticam o voluntariado regular têm menor risco de mortalidade e melhor capacidade física à medida que envelhecem. “As pessoas conseguem caminhar mais em idades mais avançadas, têm melhor equilíbrio e assim por diante”, diz Laura Kubzansky, professora de ciências sociais e comportamentais na Harvard T. H. Chan School of Public Health.

Kubzansky estuda a interação entre saúde física e mental. Ela tem descoberto em suas pesquisas que pessoas mais engajadas no voluntariado e em doações de caridade têm níveis menores de dor física.

Ela diz que os pesquisadores ainda não sabem os mecanismos exatos pelos quais o voluntariado e os atos de gentileza melhoram a saúde das pessoas, mas é provável que vários processos desempenhem um papel.

Por exemplo, o estresse causa no corpo reações em cascata que podem elevar a pressão arterial e, por fim, levar a níveis mais altos de colesterol e a outras mudanças que aumentam o risco de doenças cardiovasculares e outros danos à saúde. Kubzansky diz que o voluntariado pode ajudar a amortecer esse desencadeamento do estresse.

“Ser voluntário ou fazer um ato de gentileza pode te distrair de alguns dos problemas que você pode estar vivendo, então você mesmo pode ficar um pouco menos reativo”, continua. E “pode te ajudar a ampliar a perspectiva sobre quais são seus próprios problemas”.

E quando você sai pra ajudar os outros, também se torna mais ativo fisicamente e menos solitário. O isolamento social é um conhecido fator de risco pra problemas de saúde física e mental, sobretudo à medida que envelhecemos.

“Sabemos que uma saúde mental melhor está associada a uma saúde física melhor”, diz.

A maioria das pesquisas nesse campo tem observado adultos mais velhos e de meia-idade. Há menos evidências sobre os benefícios de atitudes altruístas à saúde quando se trata de pessoas mais jovens, diz Julia Boehm, professora associada de psicologia na Chapman University e estudiosa dos fatores sociais e psicológicos que influenciam a saúde em crianças e adolescentes.

Mas um estudo que realmente se destaca envolveu estudantes do ensino médio que foram designados aleatoriamente pra serem voluntários por 10 semanas com crianças do ensino fundamental. Comparados aos estudantes no teste que foram colocados numa lista de espera, os voluntários adolescentes tiveram melhorias em vários indicadores da saúde cardiovascular.

“Os alunos engajados em atividades de voluntariado com alunos mais jovens apresentaram índices de massa corporal (IMC), indicadores inflamatórios e colesterol total mais saudáveis”, diz Boehm. E os alunos que mais aumentaram em empatia e atitudes altruístas, e que mais diminuíram seu mau humor, também tiveram as maiores reduções no risco cardiovascular ao longo do tempo.

Outras pesquisas em adultos também relacionam a participação regular tanto em atividades voluntárias quanto em atos mais informais de gentileza – como ajudar um vizinho – a um risco menor de doenças cardiovasculares.

Considerando o que se descobriu até agora, Kubzansky diz que gostaria de ver as autoridades de saúde tornando a pesquisa sobre os benefícios do voluntariado e de outros atos de gentileza uma prioridade de saúde pública.

Nesse meio-tempo, Gruenewald diz que realmente não há erro quando adotamos comportamentos que visam a ajudar os outros.

“No mínimo, isso vai tornar o mundo um lugar um pouco melhor pra muitos outros. E podemos o tornar um pouco melhor pra nós mesmos”, diz.



quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

When Brazil’s capital is Buenos Aires

I’m not very used to write in English on my page, but since the story has once again evolved in English, I didn’t want to translate into and explain all of it in Portuguese, hehe. In this amazing edition of an NPR’s program about Latino music, an emotional story about Roberto Carlos’ song Amigo (Friend) is brought by Felix Contreras, in which he tells how a woman got moved by its lyrics in Spanish.

Yes, Roberto has composed most of his songs in Portuguese (he’s recognized as the most prominent Brazilian popular singer), and a great part of them has also been translated into Spanish to attract the rest of Latin America population. However, Contreras presented it as if it were originally written in Spanish and does not relate Roberto and his work to their actual movement, that is, the broad Brazilian ‘MPB.’ After making some corrections, I decided to publish here a letter I sent to NPR’s production, pointing out some major mistakes and omissions:



I have been very delighted this morning in listening to such a kind tribute to the simply most prolific and talented singer, composer, and musician of all Brazilian history. It is also an honor that Roberto Carlos has recorded tracks in so many languages as Spanish, Italian, and French, making him very loved by our friend Hispanic neighbors.

However, even if the woman in the story found Amigo a life-change masterpiece, I cannot help making some remarks on imprecisions and omissions about Roberto and that song, what prevents listeners to find out all complexity behind the topic.

First, you did not even mention that the original language of the song is PORTUGUESE, and I guess you know, as most of Americans, that Brazil’s official language is not Spanish. Fortunately, most of Roberto’s songs were translated into this language to be enjoyed also in the Hispanic world.

Second, ‘Carlos’ is not his last name (or surname), but a second name. His last name is Braga, but Erasmo Esteves (died in 2022) was such a close friend of Roberto’s that they regarded themselves as brothers (irmão or hermano, following the first verse of Amigo). Thus, Erasmo chose ‘Erasmo Carlos’ as his stage name, and that makes no sense in saying that ‘They are not related, despite sharing the same name.’

And third, there is also not a single mention to the movement which Roberto is really linked to, that is, the ‘MPB’ (Brazilian Popular Music), a concept too broad and of complex definition. What I can say is that, despite the undeniable Hispanic influences, any attempt to bound MPB to ‘Latino’ music in general is quite problematic, so is the relationship between Brazilian cultures and the broader Hispanic world.

Indeed, the recent tendence of Brazilians, especially students and scholars, living in the US to identify themselves as ‘Latinos,’ ignoring possible confusions with the Hispanic world, has been rather political than cultural. (But do not understand me wrongly: I do not mean Brazilians cannot anyway be considered ‘Latinos,’ but the point is the total absence of MPB in your story, which is far more relevant to describe Roberto’s work than any affiliation to ‘Latinoity.’ I guess, after all, translating his songs have had much more a financial than an intercultural sense...)

And despite much criticism, mostly against the way he treats other people, Roberto is simply considered the ‘King’ of the MPB, what is not without relevance in Brazil!


domingo, 8 de dezembro de 2024

Economia alemã está cambaleando


Endereço curto: fishuk.cc/alemanha2024

Em 30 de novembro de 2024 foi publicada no site da National Public Radio (NPR) dos Estados Unidos, uma entrevista do repórter Scott Simon com Marcel Fratzscher, presidente do Instituto Alemão de Pesquisa Econômica. Segundo a agência, eles conversam sobre o enfraquecimento da economia da Alemanha e o possível impacto que isso pode ter nas próximas eleições federais do país, e o áudio pode ser ouvido em formato podcast na própria página. Em tradução livre pro português, o título da matéria seria “A economia da Alemanha está cambaleando [ou “vacilando”]. Essa pode ser uma oportunidade pra extrema-direita”.

Eu usei o Google Tradutor pra obter a base do texto, mas fiz o que todo mundo devia fazer após usar ferramentas de IA: revisar manualmente pra não ficar algo antinatural ou simplesmente passado “na máquina”... Além disso, imprimi ao conjunto meu próprio estilo de redação e simplifiquei o texto quando possível, mesmo que o resultado “robótico” fosse totalmente aceitável. Sobre o estatuto jurídico “público” da NPR, remeto à introdução da primeira tradução que fiz de um material deles.



Scott Simon – Por décadas a Alemanha teve a maior e mais estável economia da Europa. Mas na semana passada, o país registrou um crescimento do PIB menor do que o esperado, culpando principalmente a redução da produção industrial e a guerra na Ucrânia. Marcel Fratzscher é presidente do Instituto Alemão de Pesquisa Econômica e fala direto de Berlim. Muito obrigado por estar com a gente.

Marcel Fratzscher – Obrigado por me receber.

Scott Simon – O que houve? Afinal, o modelo econômico alemão era considerado o mais bem-sucedido da Europa.

Marcel Fratzscher – Bem, a Alemanha foi atingida com uma força excepcional pela pandemia e, agora, pelo choque energético devido à guerra na Ucrânia. Antes dela, a Alemanha era muito dependente de combustíveis fósseis russos, implicando um grande aumento do custo da energia. E a Alemanha tem uma indústria que usa energia com grande intensividade. Essa é uma parte da história. A outra parte é que, depois de uma década de 2010 muito bem-sucedida, muitas empresas alemãs falharam na transição pra novas tecnologias.

Scott Simon – O que você acredita que as empresas alemãs precisariam fazer pra tornar a economia em geral mais bem-sucedida?

Marcel Fratzscher – As empresas alemãs precisam fazer duas coisas: primeira, remodelar ou reequilibrar seu modelo de globalização. Elas são dependentes demais da China, então, diversifiquem, sejam menos dependentes da China e dos EUA. Essa é outra grande ameaça vinda do governo Trump e do conflito comercial em que ele provavelmente vai se engajar com a Alemanha e a Europa.

Segunda coisa: precisam inovar mais em tecnologias digitais e tecnologias verdes. Carros elétricos são um exemplo em que as empresas aproveitaram o sucesso da última década, mas, até certo ponto, foram vítimas de seu próprio sucesso.

Scott Simon – Quais são as implicações políticas? Afinal, claro, o governo de coalizão entrou em colapso há apenas algumas semanas.

Marcel Fratzscher – Bem, num mundo ideal, o governo interviria e haveria um grande estímulo fiscal – talvez, até certo ponto, comparável ao que a economia dos EUA experimentou tanto sob Trump quanto sob Biden, talvez um pouco menos forte, porque isso aumentaria enormemente a dívida pública. Mas o governo alemão tem feito o contrário: um freio da dívida que basicamente não permite que o governo, tanto o federal quanto os estaduais, tenham déficits.

Então, cortar gastos e investimentos públicos específicos em tempos difíceis, como agora, é o pior que um governo pode fazer. Mas, pra isso, ele realmente precisa mudar de rumo e dar um grande impulso aos investimentos, incluindo cortes de impostos pra empresas e cidadãos.

Scott Simon – Quais partidos políticos estão em posição de se beneficiar?

Marcel Fratzscher – Há expectativas completamente irrealistas entre os cidadãos sobre o que o governo e o Estado devem oferecer. A Alemanha tem um modelo econômico muito diferente do americano, com um sistema de previdência social muito grande. Há essa expectativa de que o governo deva cuidar dos cidadãos, e isso não é nada realista numa situação dessas, em que as empresas devem fazer a maior parte do trabalho pesado.

Assim, a oposição está claramente se beneficiando nesta campanha pro novo governo – eleições que vão ocorrer no fim de fevereiro de 2025. Mas os cidadãos vão se decepcionar, porque o novo governo, não importa por qual coalizão seja formado, não vai ser capaz de viver com essas expectativas.

Scott Simon – E isso às vezes promove o populismo e o extremismo?

Marcel Fratzscher – Bem, na Alemanha, temos uma crescente polarização social com a desigualdade de poupanças. E as pessoas que perdem com a globalização e a inovação tecnológica frequentemente têm renda e qualificação mais baixas. Isso traz muito apoio aos partidos de extrema-direita. A antidemocrática AfD (Alternativa para a Alemanha, na sigla em alemão) recentemente avançou em muitas pesquisas e eleições estaduais. Então, o populismo está em alta porque populistas fingem que há soluções fáceis, quando não há.

Scott Simon – Mas seguindo sua explicação dos acontecimentos, parece que muitos alemães da classe trabalhadora têm razões pra estar insatisfeitos.

Marcel Fratzscher – Se você olhar pros fatos, temos emprego recorde. Nunca tivemos mais pessoas empregadas quanto hoje. Os salários têm aumentado, inclusive pros trabalhadores de baixa renda, e desde 2015 o salário mínimo aumentou substancialmente mais de 40%. Mas as preocupações, as inquietudes com o futuro, são totalmente compreensíveis. A sociedade alemã está envelhecendo, então, os benefícios sociais vão ter que ser reduzidos pra continuarem geríveis. Alguns também vão precisar pagar mais impostos pra financiarem os gastos do governo. Há a mudança climática. Há conflitos geopolíticos na Europa com a Ucrânia, que fica bem ao lado da União Europeia. Então, meu ponto é: olhando pros últimos 15 anos, acho que a Alemanha se saiu muito bem. A guerra concerne aos próximos 15 anos, e essas preocupações são plenamente justificadas e compreensíveis.

Scott Simon – Sr. Fratzscher, tenho certeza que não preciso lhe dizer que o resto do mundo fica um pouco mais preocupado com qualquer avanço da extrema-direita na Alemanha do que em outros lugares.

Marcel Fratzscher – Sim, a história da Alemanha tem uma mancha muito, muito escura nas décadas de 1930 e de 1940. A democracia alemã tem muitos freios e contrapesos. Os cidadãos alemães são, em última análise, pró-europeus. E eu sei que é preciso ter cuidado ao dizer isso, mas acho mesmo que eles se lembram bem da história e tiraram lições dela. Então, estou realmente bastante confiante que a democracia alemã é forte o suficiente pra resistir aos conflitos que estamos vivendo atualmente.


Adendo (10/1/2025): Não foi só a NPR que percebeu essa decadência da antiga potência germânica. Um vídeo especial produzido pela BBC News Brasil e apresentado pela sempre ótima Camilla Veras Mota foi publicado há três dias sobre o mesmo problema, que pode ser percebido até pelos mais néscios!



segunda-feira, 25 de novembro de 2024

Prevenção da demência

Foi publicada hoje, no site da National Public Radio (NPR) dos Estados Unidos, uma reportagem assinada por Alisson Aubrey, editada em texto por Jane Greenhalgh e que pode ser ouvida em formato podcast na própria página. Em tradução livre pro português, seu título poderia ser “Você pode reduzir o risco de adquirir demência. Veja como começar” e fala de um estudo sobre como a demência e outras doenças cerebrais podem ser evitadas ou adiadas com simples mudanças nos hábitos cotidianos. Não são aqueles anúncios “pegadinha” miraculosos que pululam no Google, mas estudos sérios que achei por bem partilhar aqui, mesmo sem autorização da NPR, rs.

Eu usei o Google Tradutor pra obter a base do texto, mas fiz o que todo mundo devia fazer após usar ferramentas de IA: revisar manualmente pra não ficar algo antinatural ou simplesmente passado “na máquina”... Além disso, imprimi ao conjunto meu próprio estilo de redação e simplifiquei o texto quando possível, mesmo que o resultado “robótico” fosse totalmente aceitável. Mantive todos os links originais, sem traduzir, portanto, os textos aos quais eles levam. Cabe aqui observar que segundo a legislação americana, e ao contrário do que acontece na Europa e no Brasil, uma public radio como a NPR não é exatamente uma entidade estatal, mas uma empresa privada sem fins lucrativos que sobrevive de doações de indivíduos, empresas e organizações e de repasses do Estado. Este artigo (entrevista) recente de pesquisadora Gislene Nogueira fala exatamente do exemplo da NPR como importante pra manutenção das democracias.



Um dos segredos pro envelhecimento saudável é manter a mente afiada.

E algumas das melhores estratégias pra evitar demência, AVC e até mesmo depressão na terceira idade se resumem a nossos hábitos diários.

“Você pode reduzir substancialmente os riscos por meio das escolhas que faz no estilo de vida”, diz o dr. Jonathan Rosand, neurologista e cofundador do McCance Center for Brain Health no Massachusetts General Hospital.

Rosand e seus colaboradores desenvolveram um meio de avaliar e rastrear a saúde do cérebro, com uma escala de 21 pontos chamada de pontuação de cuidado cerebral. A pontuação ajuda as pessoas a entenderem a importância de hábitos diários como o sono, a alimentação e os exercícios (você pode calcular sua pontuação em cerca de cinco minutos).

“Todos nós temos uma boa dose de controle”, diz Rosand.

Cerca de 40% dos casos de demência poderiam ser prevenidos ou adiados se atentássemos a 14 fatores de risco modificáveis, de acordo com o relatório de uma comissão da revista The Lancet. E até mesmo pessoas com fatores de risco genéticos podem se beneficiar. Uma pergunta que Rosand costuma ouvir é: “Doutor, o que posso fazer pra não ter demência, como meu pai, meu irmão ou minha irmã?”

Ruth Bernstein conhece essa angústia. “Vimos minha avó ser privada de sua identidade” por causa do Alzheimer, diz. E agora a mesma coisa está acontecendo com sua mãe. “É realmente devastador.”

Sendo mãe de duas crianças, Bernstein quer fazer o possível pra proteger seu cérebro, e o cálculo da pontuação de cuidado cerebral a ajudou a entender os muitos ajustes que ela pode fazer no estilo de vida. “Tem sido superútil”, diz. “Isso realmente me motivou porque eu entendo como tudo isso pode somar.”

Bernstein se vê passando por uma lista de verificação de itens na pontuação: “Tenho evitado o sedentarismo? Como está meu sono? Estou controlando meu estresse?” Num encontro social recente, ela bebeu uma taça de vinho, mas recusou uma segunda. Limitar o álcool a menos de 4 doses por semana ajuda a elevar a pontuação.

Pra calcular sua pontuação de cuidado cerebral, você se classifica em 12 diferentes fatores de risco que passam por alimentação, consumo de álcool, fumo, sono e quantidade de exercícios feita. Pressão arterial, açúcar no sangue, colesterol e IMC também são incluídos. Fatores sociais e emocionais também são envolvidos, incluindo senso de propósito, controle do estresse e conexões sociais. Cada resposta recebe o valor de um ponto, e quanto maior sua pontuação, melhor.

Vários estudos mostram que uma alta pontuação de cuidado cerebral está ligada a um risco significativamente menor de doenças. Por exemplo, um estudo publicado na Frontiers in Psychiatry descobriu que cada aumento de cinco pontos numa pontuação de cuidado cerebral estava associado a um risco 33% menor de depressão na terceira idade e um risco composto 27% menor de demência, derrame e depressão.

“O que nos surpreendeu foi o enorme poder de tudo isso”, diz o dr. Kevin Sheth, diretor do Center for Brain and Mind Health da Universidade de Yale e coautor do estudo recente. “Ter um efeito dessa ordem de magnitude é significativo”, diz.

Um estudo de acompanhamento publicado este mês na revista Neurology, que estratificou os participantes por risco genético, descobriu que uma pontuação mais alta estava associada a um risco menor de doenças cerebrais, incluindo demência e derrame, mesmo entre pessoas que herdaram um risco genético aumentado pra essas doenças.

“A boa notícia é que se você adotar comportamentos saudáveis, vai estar muito mais protegido da demência do que se não fizer essas coisas”, diz o dr. Christopher Anderson, autor do estudo e chefe da Divisão de Derrame e Doenças Cerebrovasculares do Brigham and Women’s Hospital.

“O objetivo é fugir da ideia de determinismo genético”, quando as pessoas sentem que não podem fazer nada contra seus riscos, e enfatizar, em vez disso, o enorme poder das escolhas saudáveis”, diz Anderson.

Kevin Sheth, de Yale, diz que a pesquisa de pontuação cerebral teve um impacto em seus próprios hábitos. Ele trocou sobremesas açucaradas por frutas em algumas refeições e adicionou mais folhas verdes e gorduras saudáveis em sua dieta. “Estou motivado porque conheço os dados”, diz.

Outra forma de aumentar sua pontuação de cuidado cerebral é controlar condições crônicas, como pressão alta e diabetes. Mudanças no estilo de vida podem ajudar, mas muitas vezes as pessoas precisam de remédios. “Se conseguíssemos eliminar a pressão alta”, que é apenas um componente da pontuação, “poderíamos [reduzir] a demência em ordens de magnitude”, diz Sheth. Segundo ele, também é importante reconhecer os desafios que as pessoas podem enfrentar pra mudar de hábitos. Quando se trata de comer bem, nem todos podem comprar muitas frutas e vegetais frescos.

Rosand e Sheth dizem que a pontuação do cuidado cerebral não deve ser vista como um teste em que você pode falhar. “Muito poucos conseguem ter uma pontuação perfeita”, diz Sheth. “O objetivo é ter a melhor pontuação possível e a monitorar ao longo do tempo.”

Há muitas sobreposições entre a pontuação e o Life’s Essential 8 da American Heart Association, que inclui medidas cruciais pra melhorar a saúde da coração. Isso faz sentido, diz a dra. Helen Lavretsky, psiquiatra integrativa geriátrica da UCLA, porque está cada vez mais claro que muito do que faz bem pro coração também faz bem pro cérebro.

E nunca é cedo demais pra focar na prevenção. “Quanto mais cedo você começar, melhor”, diz Lavretsky.