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terça-feira, 14 de julho de 2026

Prevenção da demência 2: os supercaminhantes

Minha primeira tradução de um artigo no site da National Public Radio (NPR) dos Estados Unidos sobre a prevenção da demência foi um sucesso, o que me deixou muito alegre. Felizmente, em 6 de julho passado, Alisson Aubrey veio novamente com uma reportagem, que pode ser ouvida em formato podcast na própria página, sobre a relação entre exercício físico e fortalecimento cerebral. Em tradução livre pro português, seu título poderia ser “Um estudo descobriu que pessoas com mais de 80 anos que caminham em ritmo acelerado reduzem pela metade o risco de declínio cognitivo” e fala de novos estudos relacionando a manutenção da acuidade cerebral em pessoas com mais de 80 anos que mantêm o hábito da caminhada rápida.

Não são aqueles anúncios “pegadinha” miraculosos que pululam no Google, mas estudos sérios que achei por bem partilhar aqui, mesmo sem autorização da NPR, rs. A maior contribuição do artigo é o conceito de “super mover”, que o tradutor inicialmente transformou em “supermoventes”, mas deu inúmeras soluções díspares ao longo do texto. Assim, joguei na busca tanto “supermoventes” pra ver se era um termo corrente quanto “super mover em português” pra achar alguma relação com estudos existentes. O termo era realmente novo e o Gemini, IA do Google, acabou sugerindo “supercaminhantes” a partir de diversas fontes, uma delas um recente artigo da revista Veja que por coincidência abordou o mesmo tema. Porém, o texto trata quase exclusivamente do trabalho de só um dos cientistas envolvidos, enquanto aqui você pode conhecer o esforço completo!

Tendo usado o Google Tradutor pra obter a base do texto, fiz o que se tornou ainda mais imprescindível depois da multiplicidade de traduções pra “super movers”: revisar manualmente, sobretudo termos médicos, pra não ficar algo antinatural ou simplesmente passado “na máquina”... Além disso, imprimi ao conjunto meu próprio estilo de redação e simplifiquei o que fosse possível, mesmo que o resultado “robótico” permanecesse aceitável. Desta vez, com uma única exceção, não mantive os links originais pra outros artigos, trabalhos e sites. Finalmente, como fiz outras vezes, sugiro a leitura do artigo (entrevista) da pesquisadora Gislene Nogueira sobre o conceito de public radio na legislação americana, no qual se encaixa a NPR, uma empresa privada sem fins lucrativos que sobrevive de doações de indivíduos, empresas e organizações e de repasses do Estado (estes cortados por Trump em 2025).



Palavras cruzadas e quebra-cabeças são há muito tempo considerados maneiras de manter a mente afiada. Mas um novo estudo aponta pra outra estratégia que pode ser igualmente importante: manter a rapidez nos pés.

Pesquisadores descobriram que pessoas na faixa dos 80 anos que mantêm um ritmo de caminhada excepcionalmente rápido, apelidadas de “supercaminhantes”, também são muito mais propensas a manter a mente afiada em comparação com seus coetâneos que se movem mais lentamente.

“Um supercaminhante é alguém com mais de 80 anos que apresenta um desempenho muito superior ao de seus coetâneos”, afirma a dra. Sofiya Milman, do Albert Einstein College of Medicine, uma das autoras do estudo.

Milman e seus colaboradores analisaram dados de cerca de 4 mil idosos inscritos num estudo de longo prazo sobre envelhecimento. Os participantes realizaram um teste de caminhada cronometrada, e os 9% mais rápidos – que apresentaram uma velocidade de marcha pelo menos 1,5 desvios padrão acima da média de seus pares da mesma idade – foram classificados como supercaminhantes. Esses indivíduos também apresentaram uma probabilidade significativamente menor de sofrer declínio cognitivo.

“A principal conclusão foi que os supercaminhantes têm cerca de 50% menos probabilidade de desenvolver declínio cognitivo que seus coetâneos que não são supercaminhantes, o que é muito impressionante”, diz Milman. Os resultados foram publicados na revista médica Neurology.

A conexão com a saúde muscular – Caminhar bem exige equilíbrio, coordenação e força, e todos esses fatores dependem de músculos saudáveis, afirma Bonnie Tsui, redatora científica e autora de On Muscle: The Stuff That Moves Us and Why It Matters (em tradução livre, Sobre músculos: o que nos move e a importância disso).

“Acho que a descoberta não é surpreendente, porque sabemos que a saúde muscular está muito correlacionada com a saúde cognitiva, especialmente à medida que envelhecemos”, diz Tsui. “O exercício faz seus músculos crescerem, mas também faz seu cérebro crescer.”

Pesquisas anteriores associaram a prática regular de exercícios físicos a um maior volume do hipocampo, o centro do cérebro responsável pela memória e pela orientação. O novo estudo descobriu que os supercaminhantes tendiam a preservar o volume do hipocampo à medida que envelheciam.

Tsui afirma que os benefícios estão relacionados ao que acontece dentro dos músculos em contração durante o exercício.

“O músculo é um tecido endócrino, o que significa que, quando nos movemos, nossos músculos liberam moléculas sinalizadoras que afetam outros sistemas do corpo, incluindo o estímulo ao crescimento de células cerebrais e a regulação do metabolismo”, diz ela. “Portanto, saúde muscular é saúde cognitiva.”

Entre essas moléculas de sinalização está uma proteína conhecida como fator neurotrófico derivado do cérebro, ou BDNF, que ajuda a regular a glicose e desempenha um papel importante na sobrevivência e manutenção dos neurônios, auxiliando na memória e na função cognitiva.

A rede de um corpo em funcionamento – O dr. Amit Saini, geriatra do consórcio de saúde Kaiser Permanente no norte da Califórnia, afirma que caminhar e manter a capacidade de caminhar bem são indicadores de boa saúde, pois diversos sistemas do corpo são empregados simultaneamente. Ele diz que caminhar beneficia a saúde cardiovascular e pulmonar.

“Ao caminhar, seu coração bate mais rápido e, quando o coração bate mais rápido, ele bombeia sangue não só pros músculos, mas também pro cérebro, nervos e outros sistemas do corpo”, diz Saini. “Seus pulmões também respiram um pouco mais rápido, o que, por sua vez, os mantém mais leves e saudáveis.”

Uma das descobertas mais surpreendentes do estudo: alguns supercaminhantes apresentaram placas e emaranhados neurofibrilares no cérebro, proteínas anormais associadas à doença de Alzheimer e à demência, apesar de não apresentarem sintomas. Os pesquisadores afirmam que isso sugere que o movimento e todos os benefícios de se manter ativo podem ajudar o cérebro a permanecer resiliente, mesmo sofrendo alterações relacionadas à idade.

A genética e o estilo de vida também são importantes – A genética provavelmente desempenha um papel importante em quem se torna um supercaminhante. Um estudo recente descobriu que a genética é responsável por cerca de 50% da expectativa de vida humana, e Milman afirma que, entre os superidosos – pessoas que estão bem aos 80 anos ou mais –, o papel da genética pode ser ainda maior.

No entanto, os autores enfatizam que os hábitos de vida, incluindo as decisões diárias sobre alimentação, priorização do sono e tempo dedicado ao relaxamento e à convivência com amigos e familiares, são todos importantes. De fato, pesquisas mostram que cerca de metade de todos os casos de demência podiam ser prevenidos ou adiados com a intervenção em 14 fatores de risco modificáveis.

As pessoas têm poder de influência sobre suas chances de envelhecer com saúde, e uma maneira de avaliar seus riscos pessoais e tomar medidas pra os reduzir é calcular sua Pontuação de Cuidado Cerebral. É uma ferramenta online gratuita, desenvolvida por médicos do Hospital Geral de Massachusetts, pra calcular teus riscos e sugerir medidas, por meio de mudanças nos hábitos diários, que podem ajudar a diminuir o risco de AVC, demência, doenças cardíacas e câncer.

“Caminhar rápido é um indicador de que o cérebro e o corpo estão envelhecendo bem”, diz Joe Verghese, chefe do Departamento de Neurologia da Stony Brook Medicine em Nova York e um dos autores do estudo. “Mas também é possível que as pessoas que caminham mais rápido, ao se envolverem nessas atividades, também protejam a saúde do cérebro por meio de diversos mecanismos, reduzindo inflamações, melhorando a saúde cardiovascular e promovendo o crescimento cerebral em áreas essenciais pra manter a função cognitiva à medida que envelhecemos.”

Verghese afirma que as descobertas trazem uma mensagem pra pessoas de todas as idades e níveis de condicionamento físico.

“Uma das principais mensagens é: mantenha-se ativo”, diz ele. “Faça exercícios regularmente, pois isso pode te colocar no caminho pra se tornar um supercaminhante à medida que envelhecer.”

Seja caminhando, nadando ou pedalando, os pesquisadores afirmam que a forma do movimento importa menos que sua consistência. É um hábito que pode trazer benefícios tanto pros músculos quanto pra memória no longo prazo.



segunda-feira, 15 de junho de 2026

Como seguir as atualizações da página

Se você realmente quiser pular a reflexão pessoal e ir direto ao aspecto prático que interessa, clique aqui.


Esta publicação tem um pouco de vários caracteres: informativo, planificador, comunicativo, reflexivo. Por que eu estaria preocupado com o modo como os leitores frequentes deste blog que prefiro chamar de “página” recebessem atualizações de conteúdo novo, e por que eu ainda não estaria satisfeito que as pessoas simplesmente encontrassem meus textos por acaso numa busca online? A questão não é tão simples, e quero abordar alguns assuntos que têm ocupado meus pensamentos nos últimos anos.

Definitivamente, os blogs decaíram com a ascensão das novas mídias sociais, porque ninguém mais tinha energia e inteligência pra ler e escrever tanto, e porque um Facebook, um Instagram ou um YouTube da vida são muito mais ágeis quanto à distribuição e notificação de conteúdo e à obtenção de público (no qual, potencialmente, já estão teus contatos usuais). Com o fracasso das experiências do Orkut e do Google+, a Alphabet investiu massivamente no “Você Transmite”, de forma que ele acabou perdendo sua essência original de “vlogueiros caseiros” e se tornou uma verdadeira Netflix semigratuita. Aliás, acariciados com o enganoso nome “canal” (Netinho de Paula que o diga!), os velhos “vloggers” que botavam a boca no trombone se tornaram “youtubers” que morriam pra se encaixar na cultura de massas, e depois “influenciadores”, cópias ruins uns dos outros, que catequizam (por isso sendo em número bem mais restrito) os bilhões de gados dopados por seus smartphones.

Exemplo dessa negligência são os muitos usuários que criam seus blogs e, quando param ou mudam de plataforma, não o apagam nem deixam uma mensagem de adeus. Mari Moon deletou o seu, mas Viih Tube não posta desde 6 de fevereiro de 2015, e ainda podemos nos divertir com álbuns completos de sua puberdade. Uns poucos heróis, talvez por comodismo ou praticidade, se ativeram ao Blogger, antigo Blogspot, o serviço de “diários digitais” do próprio Google, a exemplo meu mesmo e da ativista e professora “Escreva Lola Escreva” Aronovich, que está há muito mais tempo na praça e, claro, chegou muito mais longe. Mas se excetuarmos uma única grande mudança técnica ocorrida uns anos atrás, o Blogger é um serviço praticamente abandonado pela casa-mãe, e estou esperando a hora em que ele pode ser subitamente fechado sob a desculpa de “não estar dando lucro”. Acho pouco provável que esse momento chegue, mas se chegar, ainda pode demorar bastante, pois a capacidade de monetizar esses dinossauros pelo Adsense lhes dá uma sobrevida, mesmo que os fins sejam os mais escusos possíveis.

Exceto pelo Wordpress, outro idoso que sempre foi o queridinho de um público mais seleto, serviços mais modernos chegaram pra reabilitar e recauchutar a “blogagem”, entre os quais o Medium e o Substack. Porém, também limitados a um nicho de usuários com outros hábitos e mentalidades, não chegam aos pés das atuais redes sociais ou “mídias digitais” onipresentes, cada vez mais poderosas e tóxicas. Não vou entrar no mérito do Twitter, que aqui chamo carinhosamente de “Équis” e se popularizou chamado de “rede de microblogs”, mas que hoje se parece muito mais com os serviços da Meta, porém com menos funcionalidades. Por enquanto não falei de notificações, mas de conteúdo, e esta foi realmente a essência de uma de minhas mudanças: após anos usando assiduamente as redes tradicionais, em 2015 (quando a discussão sobre vício ainda estava começando e ninguém falava de violência e conteúdo enganoso!) parei de ter perfis fixos ou manipulados diariamente, exceto por alguns intervalos entre 2019 e 2022, em que cheguei a usar Instagram com alguma frequência.

Como já escrevi outras vezes, e como alguns amigos e conhecidos meus já sabem, criei no YouTube o canal Pan-Eslavo Brasil em 20 de novembro de 2010 como uma simples plataforma pra carregar os vídeos históricos que eu traduzia e legendava. Nunca considerei “youtuber” uma profissão nem jamais pretendi “influenciar” ninguém. Após maturação relativamente longa, este blog que chamo de página veio mais tarde, em 1.º de agosto de 2014, quando o Blogger ainda não tinha caído no esquecimento e eu pretendia ter também uma plataforma pra meus textos escritos, fossem eles originais ou traduções de terceiros. Entre 2009 e 2011, também cheguei a escrever textos em blogs pouco divulgados e de vida curta, e de 2012 a 2014 usei o Materialismo.net pra divulgação de ideias pessoais; a criação de um espaço próprio também reuniria escritos já prontos que eu achasse interessante relançar, com pouca ou nenhuma modificação.

Pra quem não se lembra, e pra informação dos jovens, no início da década de 2010, o canal do YouTube era automaticamente vinculado a nosso perfil no Google+, onde novos vídeos eram divulgados na hora (se alguém seguia nosso perfil, em dinâmica semelhante ao Instagram) e onde devíamos fazer as mudanças (foto, nome, descrição) que se refletiriam na plataforma. Somente mais tarde surgiu a possibilidade de desvincular os dois serviços e, se quiséssemos, de apagar nosso Google+, até finalmente aparecer nosso familiar YouTube Studio. Também devo confessar que por falta de ousadia, nunca experimentei outras plataformas de blog, já que ter uma conta do Google (como foi meu caso a partir da criação do Pan-Eslavo Brasil, e tive várias além daquela) dava acesso imediato ao serviço do Blogger. Somente em algumas semanas de teste, a primeira versão do que seria meu primeiro blog, o “Pensadores Libertos” (2009-10), foi hospedada no UOL, que assinei de 2000 a 2011.

Nunca busquei vincular diretamente o canal ou a página ao Orkut (que em 2012 quase ninguém mais usava), Facebook ou Instagram, no sentido de criar um espaço dedicado especialmente a eles. No caso do Facebook, eu postava meus novos vídeos ou textos no próprio perfil pessoal ou, o que era mais arriscado, em grupos a que pertencia, mas de cujas regras nem sempre lembrávamos ou cujos administradores eram mais sensíveis a certos conteúdos... Pra ser mais exato, a primeira vez que fiz uma página do Facebook dedicada ao canal foi em meados de 2014, quando reaproveitei uma página inicialmente dedicada ao historiador Edgard Carone, mas jamais alimentada. Como interagia muito e tinha muitos contatos com os mesmos interesses que eu (mesmo que politicamente discordantes), a página cresceu espantosamente e em poucos dias chegou a ter mais de dois mil seguidores! Pra efeito de comparação, no início de 2015 o próprio canal mal reunia 1,5 mil almas... Por motivo que até hoje desconheço, decidi apagar perto do fim de 2014 aquela que poderia ter sido um sucesso de público e, quem sabe, reunido até 1 milhão de facebookers ao longo do tempo.

Nunca mais repeti a façanha. É claro que minha decepção emocional com aquele site (já que eu quase não usava o aplicativo no smartphone) de alguma forma me levaria a jogar tudo pro ar de qualquer jeito; ou quem sabe a manutenção e sucesso da página me levariam a pensar duas vezes. Em todo caso, mantive depois páginas no Facebook dedicadas ao canal ou à página por curtos períodos, sem reunir muitos seguidores e logo “enjoando” de cuidar de sua administração. O mesmo ocorreu com o Instagram, no qual cheguei a ter perfis pessoais e/ou dedicados ao canal e/ou à página, mas que não durariam muito nem chegariam ao mesmo sucesso da pioneira no Facebook em 2014, quando o fenômeno da rede social tinha chegado ao ápice; muito menos aos números do próprio canal, que alcançou os 10 mil inscritos durante a Copa na Rússia em 2018 e “faleceu” em 11 de agosto de 2021, após passar os 42 mil fãs.

O que quero dizer com toda essa digressão? Quero dizer que, exceto pelos meios muito limitados que o Blogger ainda oferece pra notificação de novas publicações a eventuais interessados, sem que eles precisem ficar visitando a página o tempo todo, jamais mantive outras mídias que as pessoas frequentassem mais e, assim, pudessem saber imediatamente das novidades. Às vezes foi falta de paciência (preferir manter o foco na alimentação da própria página), às vezes frustração (usar também como rede pessoal, mas não sentir o mesmo calor humano do passado), mas quase sempre consciência de que o império do algoritmo tornava as coisas cada vez mais difíceis pra quem (re)começava do zero, e não estava já no pedaço há um bom tempo. Se você não se engajasse com outras contas, fosse seguindo, curtindo ou comentando, nem publicasse o máximo possível, você ficaria invisível, mesmo que outros porventura procurassem exatamente o tipo de conteúdo que você publica. E mesmo querendo manter um “espaço fixo” que pudesse crescer gradualmente, com publicação ocasional, a ânsia de querer logo mais inscritos e a insatisfação com as interações pessoais minavam a possibilidade de qualquer acúmulo.

Quem conhece as principais plataformas de blogs sabe que o meio mais frequente e natural de seguir novas publicações é... tornar-se um seguidor, ora bolas! De fato, esta página não foi criada na atual conta do Google que a hospeda, datada de 2016 ou 2017, mas na conta destinada a abrigar o Pan-Eslavo Brasil e aberta na mesmíssima data em que criei o canal e carreguei o primeiro vídeo. Aliás, em novembro de 2010, após o fim de meu primeiro blog, eu estava sem conta do Google, sobretudo porque eu usava o e-mail do UOL, e não o Gmail ainda. Só recriei uma conta aqui pra poder usar o YouTube, e era justamente aquela vinculada ao correio eletrônico com nome de usuário pensamentoliberto, de que alguns conhecidos se lembram e que só abri em 2011 por causa do abandono do UOL.

Na primeira versão da página, lançada em 2014, cheguei a ter mais de 70 seguidores, alguns dos quais conhecidos que já não vejo há tempos, e (pouco até pra quase oito anos) mais de 900 mil visualizações únicas de página. Com o fim do Pan-Eslavo, em 2021, não vi sentido em manter duas contas do Google, mesmo que fosse só pra manter os inscritos da página, tanto mais que sequer podia fazer outro canal no YouTube com ela. Além disso, tinha se tornado uma conta “velha” com resquícios de recursos “velhos” que eu nem sequer conseguia apagar. Até pra “esquecer” afetivamente esse passado, resolvi transferir a página pra nova conta (esta que vocês veem agora), apesar do trabalhão que deu e, pior, da impossibilidade de manter ou comunicar aqueles mais de 70 inscritos! Verdade seja dita: muita gente ao longo dos anos criou contas no Blogger só pra seguir blogs, mas deve ter parado de os ler e simplesmente “largado” lá, o que as torna de fato seguidoras em número, e não em conteúdo.

Lançada pra valer em junho de 2022 (o espaço já estava público desde fevereiro, mas aguardando o apagamento da conta do Google 2010-2022), a versão da página nesta nova conta teve uma fortuna contraditória. Em seu pico, salvo se houver nova tendência de crescimento, alcançou apenas 26 ou 28 seguidores, o que organicamente não é irrisório, levando-se em conta que não fiz mais divulgação sistemática em redes sociais (mesmo em grupos de terceiros) e que poucos são os que hoje fazem perfis no Blogger. Contudo, em bem menos tempo, ultrapassei o 1,9 milhão de visualizações únicas, estando não muito longe de chegar a 2 milhões. Isso se deve, claro, ao aumento de usuários da internet, que chegam aqui usando inclusive ferramentas de IA, aos visitantes antigos que continuaram vindo e, talvez, divulgando, e à variação do conteúdo com ocasionais acelerações no número de novas publicações. Porém, alguém pode me corrigir, mas suspeito que haja tráfego “não orgânico”, como se fossem bots vindos não sei de onde e que também agem em redes sociais. Até porque, exceto se for caso de VPN ou imigração, boa parte desse tráfego está localizada nos EUA e outros países aos quais meu conteúdo não interessaria amplamente. Mas não é algo que me incomoda tanto.

É interessante e comovente que alguns jovens têm trilhado na contramão e criado perfis somente pra seguir determinados blogs, como é o caso da própria Lola Aronovich, bem como do meu, cuja caixinha localizada do lado direito da tela conta também com outros antigos conhecidos que “reapareceram”, rs:



O RSS é um instrumento tão arcaico e desusado que nem sequer resolvi incorporar aqui. Também não há mais a possibilidade de seguir por e-mail, e a outra possibilidade que é eu mesmo inserir manualmente os e-mails nas configurações exige, primeiramente, que a criatura aceite o convite (e alguns que eu julgava “amigos” ousaram recusar!), e ainda por cima é limitada a dez endereços, pode isso? Alguns contatos próximos recebiam essas atualizações, mas também desativei, porque essa limitação tirava toda a graça do recurso. Antes que você pergunte: sim, quando fazia páginas do Facebook pra divulgar o conteúdo, eu as incorporava aqui, mas agora você sabe o que eu terminava fazendo.

Afinal das contas, se tenho gradualmente abandonado as redes sociais, sobretudo na busca por manter um “perfil baixo”, se meu objetivo tem sido publicar mais pra ter um patrimônio cultural público do que pra adquirir engajamento e se, com o passar dos anos, tenho dado bem menos prioridade à produção de conteúdo e mesmo à tradução em geral, como era o caso na década de 2010, pra buscar ou me dedicar a atividades profissionais acadêmicas ou burocráticas... Afinal de contas, pra que me preocupar sobre como as pessoas vão seguir minha página (não tenho nenhuma pretensão de voltar ao YouTube!) se elas podem vir aqui a qualquer momento? Bem, isso implica contar sobre meus planos futuros.

Se você chegou até aqui sem pular parágrafos, ou você é um herói ou heroína “fora de seu tempo”, ou você realmente gosta muito de mim e/ou de meu conteúdo: a esmagadora maioria da “sociedade de massas” viciada em redes sociais, figurinhas coloridas e videozinhos curtos não aguentaria mais de dez linhas, quem sabe menos! Realmente, toda essa volatilidade quanto a espaços em redes sociais se deve exatamente à incerteza sobre o papel que elas podem ter em minha vida pessoal, profissional e cultural (relacionada a esta página). Afinal, até o Gemini deduziu (depois que digitei “Erick Fishuk”...) que, depois da queda do Pan-Eslavo, resolvi “centralizar” aqui todas as minhas traduções, rs. Havia também a possibilidade de, pagando ou não, publicar textos e vídeos maiores em redes tradicionais, depois de terem tecnicamente avançado muito, mas não só não desejo alimentar o modelo de negócio delas, como também tem a questão do “comodismo”: se já estou no Blogger, pra que republicar tudo “alhures” ou publicar as mesmas novidades duas vezes?

Obviamente eu uso um pingo de redes sociais: WhatsApp, porque é vital pra sobreviver nessa semicolônia latifundista e agroexportadora, e Telegram, como reserva pra qualquer hecatombe na Meta, pra outros países que o usem mais e porque acho bem mais rico em recursos. (OK, tenho usado secretamente uma conta do Instagram pra conversar com um punhado de amigos, mas até o fim de junho já tô querendo apagar de novo, então nem tente me procurar.) Pra se ter uma noção, desde que conheço o Telegram ele permite um nome de usuário particular, o que até agora nem o onipotente Zuckerberg conseguiu copiar! Além do conhecido grupo que mantive no WhatsApp de 2018 a 2020 (mais destinado, é verdade, à socialização), várias vezes criei canais nos dois aplicativos como alternativas de divulgação, mas logo perdia a paciência e apagava.

Confesso que o grande problema era a própria falta de plano de longo prazo pra manter esses espaços: primeiro, eu não tinha paciência de esperar vê-los crescerem; segundo, publicava muitos conteúdos aleatórios, inclusive links de notícias e vídeos que caberiam mais a mensagens privadas pra amigos; e terceiro, a relação com o conteúdo já existente, fossem arquivos de vídeo ou publicações escritas, era muito mal definida. Além de um desabafo, um “auxílio à memória” e um informativo histórico pra interessados, este texto, como eu disse lá no começo, também visa anunciar algumas estratégias pra retomar os meios “decentes” de divulgação e explicar como tem funcionado minha política de contatos pra falar comigo.

Por muitos anos, não permiti que as publicações recebessem comentários, justamente porque meu objetivo era fazer com que a página funcionasse exatamente como um site “puro”, isto é, apenas transmissora de conteúdo. (O já referido trabalhão somado à falta de tempo me impediu justamente que eu transferisse tudo pra outro serviço de hospedagem, como o Google Sites; essa hipótese pode ocorrer só em caso de emergência extrema.) Porém, de uns tempos pra cá, reabri essa possibilidade, em primeiro lugar pra ampliar o engajamento, mas também pra deixar as pessoas elogiarem ou agradecerem, não dar a impressão de ser antidemocrático e permitir eventuais correções ou sugestões de enriquecimento do texto. Não temo mais spams ou haters, pois eles podem ser facilmente apagados ou bloqueados. Mas está claro que essa é apenas uma forma de comunicação, e não de atualização. Assim, de alguma forma, sempre apresentei a possibilidade de entrar em contato pessoal direto comigo, em algum lugar na célebre barra direita.

Se você já observou o canto superior direito, pode ver estes três círculos que, da esquerda pra direita, se tratam respectivamente de meu Linktree (conjunto de links pessoais, tipo um miniportfólio), meu Currículo Lattes (exigido pra todo mundo que trabalha com pesquisa no Brasil) e meu perfil no Gravatar, que é multiuso pra alguns sites (incluindo o Wordpress), mas que realmente não é amplamente difundido:



Gostaria que você focasse sua atenção no Linktree, que não por acaso tem um ícone estilizado em forma de árvore, isto é, “tree”. A maioria dos links listados no perfil consiste em trabalhos acadêmicos, traduções publicadas, artigos culturais e vídeos do YouTube em que dou entrevista ou apareço como palestrante principal ou secundário. Na parte de cima, em forma de ícones, há meus principais contatos pessoais (que, exatamente por isso, não reproduzo de novo aqui): WhatsApp, e-mail, a própria página e outras redes ocasionalmente ativas (mas que podem sumir a qualquer momento).

Portanto, a instrução básica é a seguinte: sempre que houver algum contato meu disponível ou alguma rede social ativa, ela vai aparecer ali; se não aparecer, é porque ela existe, e se você vir alguma rede em meu nome, mas que não apareça ali, é falsa. A essa altura de minha vida, ninguém vai querer se passar por mim, mas é melhor prevenir do que remediar, né? Dito isso, é possível que nos próximos dias eu estruture um canal no WhatsApp (desse modelo novo, agora localizável por busca, e não do antigo modelo de grupo em que só admins podem mandar mensagem) e outro no Telegram, cujos links vão aparecer no Linktree. Então, fique alerta!

Quanto ao roteiro de atualizações, ele vai ser retroativo e progressivo. Retroativo, porque todo dia planejo publicar links antigos, o que pode inclusive proporcionar o encontro de material que boa parte dos leitores ainda não conhecia. E progressivo, porque cada nova publicação daqui pra frente também vai aparecer por lá, embora o retorno da regularidade ainda esteja em suspenso. Além de alguns concursos públicos e do estudo de idiomas, também tenho dedicado meu tempo livre, sobretudo os fins de semana, a ajudar alguns amigos com tarefas técnicas e a reorganizar meu próprio arquivo digital, o que pode ainda levar um tempão. Porém, sem prejudicar as obrigações cotidianas, há a possibilidade de eu fazer um pedaço de novas publicações por dia e, à medida que forem ficando prontas, ir programando-as pra um futuro em que eu possa garantir uma regularidade inquebrável das publicações (a cada um ou dois dias).

Outro ponto importante: os possíveis novos canais no WhatsApp e no Telegram vão conter apenas links pra publicações da página, e não vídeos antigos do Pan-Eslavo nem outros conteúdos não relacionados, como reportagens, vídeos do YouTube ou memes. Obviamente, sobretudo se já tiver algum público, posso abrir uma exceção pra serviços solidários ou notícias urgentes, caso alguém me peça pessoalmente, mas não vai ser regra. Finalmente, se o plano já estiver bem desenhado, eu deixo os canais crescendo organicamente e recebendo postagens “monótonas”, como citei acima, resistindo pra não os apagar, como infelizmente amigos meus já perceberam tantas vezes quando eram incluídos no WhatsApp “na maior festa” e, dias depois, percebiam tudo apagado...

Essa decisão firme, anunciada e detalhada de possivelmente manter canais fixos no WhatsApp e no Telegram se deve ao fato de ser importante manter ao menos um “canto” em algumas das principais redes sociais, já que hoje são quase o meio exclusivo pelo qual alguém é descoberto, e do Blogger já não oferecer mais ferramentas funcionais pro compartilhamento de conteúdo. Assim, não só os usuários comuns de internet e redes sociais, sobretudo os mais jovens, não precisam fazer uma conta no Blogger pra receber notificações nem ficar entrando na página ocasionalmente, mas também o compartilhamento entre interessados, geralmente já frequentando aquelas redes, fica bem mais fácil. Além disso, ao contrário de alguns anos atrás, o WhatsApp se tornou uma das mídias mais usadas no mundo, junto com Face e Insta (os três com o mesmo dono, claro...), o que o obrigou a se modernizar, incluindo a cópia do recurso de canais do Telegram e a possibilidade de os encontrar mesmo sem serem verificados. E, claro, a cada conteúdo compartilhado, vai um link do canal junto pra que o contato também possa entrar!

Pra terminar, vale a pena sumarizar alguns pontos a respeito dos planos futuros pra página e de minha visão sobre redes sociais:

  • Se eu abrir redes públicas, além do próprio Linktree ou Gravatar, vai ser apenas WhatsApp e Telegram (canais), que são mais práticos e estão entre os mais usados. Meu Instagram ainda disponível pode sumir a qualquer momento, e perfis em outras redes (YouTube, Facebook, Reddit, Twitter/X, TikTok, Bluesky etc.) com meu nome pessoal ou com o usuário erickfishuk não vão aparecer. Também abandonei a monetização e a possibilidade de doação por meio de pix ou PayPal, pois, além de um feed pessoal “à sua maneira”, a página não deve ser um meio de vida, e sim um complemento a qualquer outro meio de vida relacionado a minha formação em História.
  • As novas publicações estão aparecendo com a indicação do domínio “blogspot.com” porque, embora o “fishuk.cc” ainda esteja disponível, pretendo o tirar do ar em 2029, quando expirar a compra. Não é tanto uma questão de economia, já que mesmo a reserva por cinco anos não é cara demais. É uma questão de domínios curtos e/ou personalizados já não terem tanta força quanto no passado, já que são os motores de busca, agora turbinados pela IA, que avançam o conteúdo. É também uma questão de “valorizar” a marca, ou seja, exibir explicitamente o Blogspot (nome antigo do Blogger) pra mostrar que não se está acriticamente “seguindo o fluxo das massas”.
  • A página não vai “morrer”, mas, como sempre digo, ocasionalmente dou pausas ou diminuo a frequência das publicações pra dar conta das obrigações pessoais. É muito conteúdo publicado que já presta um baita serviço de utilidade pública pra sumir de uma hora pra outra, e mesmo que precise desparecer (ocasional extinção do Blogger ou, como ocorreu, derrubada do canal Pan-Eslavo), vai ressurgir de alguma outra forma. O Linktree, que é serviço confiável, serve justamente pra indicar onde estou e o que estou fazendo. De qualquer forma, nada substitui aquela visita ocasional e aquela compartilhada a algum conhecido: com ou sem café e bolo de fubá, sempre vou estar de braços abertos!

domingo, 24 de maio de 2026

José Roberto do Amaral Lapa (Globo Ciência)

Há alguns dias, terminei a leitura da coletânea O garimpeiro dos cantos e antros de Campinas: homenagem a José Roberto do Amaral Lapa, organizada por Olga Rodrigues de Moraes von Simson e publicada em 2000 pela Editora da Unicamp. Inicialmente concebida como um presente-surpresa pra marcar a aposentadoria compulsória do querido professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), ocorrida quando ele completou 70 anos em 1999, acabou se tornando um monumento póstumo, já que o docente viria a falecer em plena preparação do livro. Idealizada pelo Centro de Memória-Unicamp (CMU) que ele ajudou a fundar, reúne transcrições de entrevistas dadas por Lapa em anos bem diferentes, fotos de vários momentos da carreira, depoimentos de ex-colegas, ex-funcionários e ex-estudantes (em alguns dos quais foi mantido o tempo presente, dado o inesperado de sua morte), artigos sobre temas de sua predileção e uma lista exaustiva de seus cargos, livros, artigos científicos e jornalísticos, entrevistas e prêmios.

Embora ele fosse historiador, não conheci o “professor Lapa”, ou simplesmente “o Professor”, como diziam que ele era chamado, pois só ingressei na graduação em 2006, e mesmo que tenha ouvido falar seu nome de passagem, não o associei à pessoa, só agora totalmente conhecida por mim. Nascido em Campinas em 1929, formou-se em História e em Direito no que seria a futura PUC de Campinas, lecionou na Unesp de Marília e foi um dos primeiros professores do IFCH, onde concluiu sua carreira, tendo realizado seu sonho de voltar à terra natal. Após publicar muitas obras seminais sobre a economia colonial brasileira, Lapa realizou outro grande sonho de se tornar “o historiador” por excelência de Campinas, quando lançou A cidade: os cantos e os antros em 1995, com excelente reimpressão apenas em 2008. Apaixonado pela história local, esse livro se tornou referência obrigatória de toda uma prolífica área que se formaria, mas seu papel na fundação do CMU, iniciado com arquivos do Judiciário quase incinerados e no qual ele trabalhou até falecer, foi a realização maior de sua paixão de sempre.

Em meio à listagem exaustiva de suas entrevistas, consta na p. 324 uma participação na edição de 21 de janeiro de 1994 do antigo programa Globo Ciência (1984-2014) da TV Globo (onde mais?), sem mais detalhes. Há muitas outras participações suas em jornais e programas da EPTV, a afiliada da Globo em Campinas e região (mas não em Bragança Paulista, abarcada pela TV Vanguarda). Nunca assisti ao Globo Ciência assiduamente, mas sempre escutava falar, sobretudo nos intervalos comerciais, e seu próprio formato me dá um pouco de nostalgia da infância, quando a TV aberta era mais rica em conteúdo educativo e quando nos aferrávamos aos poucos suportes existentes pra nos informar, na ausência da saturante abundância da internet contemporânea. Apesar da imagem de benevolência passada por fundações de financiamento como a de Roberto Marinho e a do Banco do Brasil, o pouco destaque dado a esse tipo de conteúdo, influindo no generalizado atraso cultural do país atual, se nota pelo tempo dedicado (menos de meia hora) e aos horários na grade (sábado ou domingo no começo da manhã).

Todavia, não posso dizer que esse modelo não deixou frutos nas mídias modernas, em especial o YouTube, os quais, além de terem sido inspirados por mitos como Carl Sagan, Susan Greenfield, Neil deGrasse Tyson e, em menor medida, Richard Dawikins, certamente tinham idade (não tô chamando de velhos, rs!) e disposição pra assistir a essas relíquias. Entre muitos divulgadores de ciência e conhecimento, longe de fazer uma lista exaustiva, presto minha homenagem ao Pirulla, ao também unicamper Sérgio Sacani, a Átila Iamarino, Natália Pasternak, Dráuzio Varella, Marcelo Gleiser, a Leon e Nilce, bem com aos canais mais recentes “Olá Ciência” e “Nunca vi 1 cientista” e os que agora também avançam a outras ciências além das exatas e biológicas. Confesso que, mesmo eu sendo “dotô”, essa não é uma seara que assisto com tanta frequência quanto boletins de notícias, youtubers de atualidades e alguns semanários geopolíticos. Portanto, se você quer lembrar algum outro divulgador ou mídia (sem esquecer as revistas da própria Editora Globo...) que marcou ou marca sua juventude, escreva nos comentários, por favor. E faça teu próprio merchã, se quiser!

Voltando ao assunto: boa parte das informações sobre o Globo Ciência vem da Wikipédia, mas também há um bom texto de 2021 com as mesmas informações, reorganizadas e acrescidas de dois vídeos da abertura, no próprio portal Memória Globo. Em 2011, o programa foi incorporado ao Globo Cidadania, chamado de “bloco” (sequer de programa!) e conduzido por Sandra Annenberg (hoje no Globo Repórter com o mítico William Bonner). Finalmente esse “bloco” foi fundido em 2014 com vários outros “Globo alguma nerdice” no esquecido Como Será, sob a mesma liderança e, embora mais longo, sob o mesmo horário sonífero de começo das manhãs de sábado. Ele mesmo foi extinto em 2019 e reprisado até 2022, quando foi substituído por reprises do próprio Globo Repórter.



Conhece essa careca? Rs.


Entre as várias mudanças de horário e formato, a edição com o professor Lapa, que falava sobre a preservação de arquivos e também abordou instituições no Rio de Janeiro, foi feita no período aberto em 1991, quando o Globo Ciência foi relegado ao domingo cedinho, e fechado em outubro de 1995, quando voltou aos sábados. Mais exatamente, desde 1992 era apresentado pela simpática jornalista Anna Terra, que aparece no vídeo abaixo, e contava com apenas uma ou duas reportagens. Curiosamente, o dia citado na coletânea caiu numa sexta-feira, o que poderia indicar que se trata da data de gravação, e não de exibição. A edição disponível mais próxima que localizei foi a de 16 de janeiro de 1994, realmente um domingo, sendo plausível, pois, que o CMU possa ter aparecido no dia 23, uma semana depois, e não 21.

Sem muita expectativa, procurei por esse episódio no YouTube (sabia que talvez fosse praticamente impossível achar pelos arquivos públicos da própria Globo), e entre as poucas edições completas, achei uma sem data, nem mesmo o ano. E eis que, apesar da imagem passável com um áudio bem nítido, encontro na segunda metade do vídeo o professor Lapa, eternizado pelo herói Rodolfo Paes, que acredito ser o dono do canal! Não tentei discernir outras características do vídeo que pudessem confirmar a data certa, mas não há dúvidas de que seja o episódio mencionado na coletânea em sua homenagem. Pra que a descoberta se torne pública, e como minha própria homenagem a quem fez grande diferença em nossa historiografia e no IFCH, mesmo eu não o tendo conhecido, segue o episódio completo, seguido da transcrição da reportagem sobre os centros de documentação. Após um oferecimento comercial das Americanas com a cômica e saudosa Nair Bello, ela começa aos 14 min 05 seg, enquanto o próprio Lapa aparece aos 26 min 14 seg.

Infelizmente não localizei nada a respeito de Anna Terra, ainda mais que há várias homônimas, sobretudo no Instagram, e com a profissão parecida. O único registro fiável parece ser esta publicação de janeiro de 2012 no blog do jornalista cearense Wilson Ibiapina, cujas últimas postagens antecedem em pouco sua própria morte, em 2023. Anna é descrita como gaúcha e incluída com o próprio Wilson e outros quatro ex-colegas entre “globais dos anos 80”, tendo ela trabalhado na emissora em Brasília e então residindo em São Paulo. Os seis teriam se reunido na capital federal pra um almoço, e Anna aparece à frente, de blusa branca. Único registro online da profissional, nenhuma menção ao Globo Ciência no texto... Quanto ao repórter Wilson Ferreira Junior (se não falarmos ainda do cinegrafista João de Andrade), ele parece ter tido bem mais êxito, a julgar por seu LinkedIn e Instagram, que acredito serem dele devido à semelhança física.

Pra aumentar o mistério, buscando no Google pelo nome do repórter, achei o que se apresenta como parte do anuário de produções da Unicamp, relacionado à participação dos docentes do Departamento de História do IFCH em diversos tipos de eventos em 1993. Há uma menção ao professor Lapa, com a seguinte observação (acredito que redigida em primeira pessoa): “Recebemos no dia 29/10 [deve ser isso, há um ele minúsculo no lugar do número um], uma equipe do Programa Globo Ciência, da TV Globo, chefiada pelo jornalista Wilson Ferreira Júnior, que veio produzir uma matéria sobre todos os serviços que este Centro presta à Unicamp e à comunidade, Centro de Memória-Unicamp.” Era possível na época produzir algo em outubro e só exibir em janeiro? Como alguém acostumado ao imediatismo das lives, me parece estranho, o que deixa este texto ainda mais aberto a contribuições e correções externas, se necessárias!


Anna Terra: Fotografias, filmes, documentos, jornais. Sem esses registros do passado e do presente, os pesquisadores não podem reconstruir a história das cidades, dos países, das civilizações. A reportagem principal do Globo Ciência de hoje mostra três instituições brasileiras especializadas na preservação da memória do nosso país. São arquivos privados e públicos que estão abertos a especialistas e também a qualquer um de nós. O repórter Wilson Ferreira Junior e o cinegrafista João de Andrade trabalharam no Rio de Janeiro e em Campinas para mostrar como funcionam os centros de documentação.

Wilson Ferreira Junior: Nos primeiros anos do século 20, um prefeito do Rio de Janeiro mudou a cara da cidade. Pereira Passos, o prefeito, construiu grandes avenidas, derrubou as casas velhas do Centro, encomendou novos quiosques e até banheiros públicos. O que Pereira Passos fez trouxe consequências para o Rio e para o país, já que a cidade era capital da República. O saneamento melhorou, diminuiu a incidência de doenças infectocontagiosas e a cidade ficou mais parecida com as capitais europeias.

Essa história só pode ser contada porque existem fotos, documentos e outros registros guardados em arquivos como o da cidade do Rio de Janeiro. São os arquivos que permitem aos historiadores [e ao público em?] geral reconstituírem e analisarem a história de sua cidade, de seu próprio país. Mas isso não é um privilégio de profissionais. A Constituição brasileira garante a todos o acesso à informação: qualquer cidadão que estiver interessado pode recorrer aos arquivos públicos para fazer consultas a respeito do que quiser. Desde fatos importantes da história até simples curiosidades, como saber, por exemplo, qual era a cara desse lugar onde estamos agora há mais ou menos 90 anos.

Esta foto faz parte do acervo do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, que guarda 30 mil fotos, 40 mil negativos e 1 220 metros de documentos, além de outros tipos de material que reconstituem trechos da história da cidade desde o século 17 até a década passada [de 1980]. O acervo do Arquivo da Cidade do Rio de Janeiro, de certa forma, conta a história da própria cidade. E nesse acervo existem documentos muito antigos, alguns deles muito valiosos, que datam inclusive do tempo em que o Brasil era um Império. Esses documentos, os mais valiosos, estão guardados num cofre. E nós vamos ter a oportunidade de conhecer alguns desses documentos agora com a ajuda do Roberto Paulo, que é um museólogo aqui do Arquivo da Cidade do Rio de Janeiro. Vamos, portanto, abrir o cofre e vamos dar uma olhada nesses documentos. Vamos lá, Roberto!

Aqui há um auto de juramento da coroação de Dom Pedro 1.º. 1.º de dezembro de 1822, quando ele jurou a coroa depois da Independência. Aqui nós temos outros documentos: esse, por exemplo, assinado por José Bonifácio de Andrade e Silva. Veja aqui a assinatura.

Roberto Paulo Freire: Aqui é a respeito do matadouro lá em Santa Cruz. Inclusive Dom Pedro 1.º ia a cavalo até Santa Cruz.

WFJ: Além desses livros, que basicamente datam da época do Império, existem muitas outras... né?

RPF: Muitos outros que estão à disposição aqui no nosso arquivo, vários assuntos quem contam nossa história...

WFJ: O arquivo da cidade está completando 100 anos de vida, mas as pessoas que o procuram não têm acesso a todos os documentos do acervo. Isso porque só estão identificados e catalogados 25% deles. O resto permanece em depósitos e vai sendo colocado à disposição do público a conta-gotas.

José Maria Jardim: 75% do acervo não se sabe ainda. E isso que nós estamos fazendo no momento: de que se trata, como chegaram e como estão. O nosso esforço nesse momento é de abrir essa caixa-preta. Mas essa caixa-preta só é compreensiva se nós abrirmos também uma outra dimensão dessa caixa-preta, que é o que se encontra, na verdade, nos arquivos da prefeitura. Reverter isso significa uma política arquivística, significa o reconhecimento desses acervos que se encontram nos órgãos da administração municipal, o recolhimento imediato daqueles que são de valor histórico, de valor para a pesquisa científica e, mais do que isso, uma política de intervenção na produção da documentação hoje.

Locutor: Uma vida a serviço do Brasil. [Toca parte do refrão Hino à Bandeira.] Getúlio Vargas, em contato direto com os trabalhadores do Brasil, presta conta dos atos do seu governo, num exemplo do mais puro sentimento democrático e prova de respeito e amor ao povo.

WFJ: Você e todos nós podemos ver esse filme hoje porque o Centro de Pesquisa e Documentação da Fundação Getúlio Vargas o conservou. O CPDOC, ao contrário do arquivo da cidade, que guarda documentos públicos, é especializado em guardar arquivos pessoais de homens públicos brasileiros que tiveram projeção nacional a partir de 1930. Aqui se pode ver um dossiê sobre o nazismo no Rio Grande do Sul, que pertencia ao general Cordeiro de Farias, ou a carta de demissão de João Goulart do cargo de ministro do Trabalho, ou ainda o manuscrito do discurso escrito por Amaral Peixoto quando da fusão dos estados do Rio e da Guanabara. São mais de 1,5 milhão de documentos que pertenceram a 110 pessoas importantes, principalmente políticos.

Suely Braga: São os documentos que essas pessoas julgaram interessante em algum momento da vida preservar. São os documentos pessoais, como cartas, telegramas, discursos, tem originais de discursos, tem manuscritos, nós temos muitas fotografias, discos, filmes, impressos. Quer dizer, toda a natureza, todo o documento que se julgou por bem, por um motivo ou por outro, guardar ao longo do exercício da sua vida pública.

WFJ: É comum, então, que pesquisadores procurem aqui arquivos pessoais de políticos, de pessoas proeminentes para fazer um confronto com arquivos públicos, por exemplo?

SB: A natureza do documento privado, pessoal, é diferente. É um documento muito mais solto, muito mais fluido. Quer dizer, não teve toda a pressão que tem o documento público, que ele tem que estar num formato, num padrão, você tem regras de como se pronunciar, como expressar uma ideia. No arquivo privado, não. Você vai ver o político falando livremente sobre determinado assunto. Você vai ver o original de um discurso que muitas vezes não é exatamente a versão que ele proferiu em plenário. Quer dizer, esse trabalho de confronto, poder ter esses vários tipos de fonte, é fundamental para o desenvolvimento de qualquer pesquisa.

WFJ: Apertado em um andar do prédio da GV [a FGV, Fundação Getúlio Vargas] no Rio, o CPDOC tem 50 funcionários, dos quais 33 são pesquisadores. Fundado em 1973, recebe pesquisadores externos e também promove pesquisas próprias.

Alzira Abreu: Houve uma primeira parte das atividades dos primeiros anos [em que] nós trabalhamos muito com os anos 30, 37. Houve um outro período que trabalhamos já com os anos 50, e nesse momento nós estamos muito voltados já para o período 64, que nós estamos trabalhando com o regime militar. Não só com a articulação do regime, da revolução de 64, do golpe, mas também como é que ele se desenvolveu.

WFJ: Todos os arquivos, museus, bibliotecas e instituições que lidam com documentos históricos têm uma preocupação permanente com a conservação e a restauração desses documentos. Tanto que várias dessas instituições têm laboratórios próprios de restauração. É o caso do Centro de Memória da Unicamp, em Campinas, que tem no seu laboratório técnicos especializados em mexer com documentos como esses, que ilustram, aliás, as causas mais frequentes de deterioração, como mordidas de roedores, ação de insetos, de fungos e de inundações. Aqui no laboratório de restauração, documentos como esses são totalmente recuperados e se transformam em documentos como esse daqui, já totalmente recuperado e pronto para ser manuseado pelos pesquisadores.

O processo de restauração começa com uma limpeza feita com pincel largo e bisturi. Nos documentos mais sujos, os restauradores aplicam também pó de borracha. Depois de limpos, os papéis passam por três banhos diferentes: um com água destilada aquecida a 50 °C, o segundo com hidróxido de cálcio para diminuir a acidez do papel – a acidez é a responsável pela fragilidade dos papéis velhos –, o terceiro com uma cola à base de celulose, que impede o ressecamento e devolve a maciez ao documento. O próximo passo é a secagem natural. O processo termina na mesa de luz, onde é feita a reconstituição estética com tiras de papel natural e cola neutra.

Quanto tempo se leva, em média, para restaurar um livro daqueles que nós vimos todos deteriorados, para transformar num livro reconstituído?

Dulce Fernandes Barata: Olha, depende muito dos materiais disponíveis. Depende inclusive dos equipamentos. Eu acredito que de seis meses a um ano.

WFJ: E as técnicas de restauro, elas são sempre artesanais, como a senhora faz aqui, com o seu pessoal no laboratório, ou já existem equipamentos modernos que podem fazer isso em substituição ao trabalho manual?

DFB: Ah, existe com certeza, em outras instituições nacionais e internacionais. As pessoas têm usado muito o que eles chamam de restauração em massa, usado principalmente com auxílio das máquinas, máquina de obturação de papel, tem as máquinas, as câmeras de desacidificação de papéis, e isso auxilia enormemente, a produção do trabalho ganha muito na qualidade e no tempo. Porque se os trabalhos são feitos artesanalmente, nós vamos ter uma luta contra o tempo, ao passo que se tiver equipamentos, tecnologias avançadas como várias instituições têm, então a restauração vai ganhar demais em termos de quantidade e qualidade.

WFJ: Os documentos que são restaurados no Centro de Memória da Unicamp fazem parte de um acervo que reúne material histórico de Campinas e região dos últimos 200 anos. São processos do Tribunal de Justiça, arquivos da Santa Casa local, registros de escravos, da Estrada de Ferro Mogiana e das antigas fazendas de café. As fotos, negativos e todo o material visual também são conservados caprichosamente. Tudo é arquivado em sala especial, com temperatura e umidade controladas, embalado em papel neutro. Além de conservar o arquivo, o Centro de Memória tem um setor de publicações que divulga o acervo através de livros, revistas e boletins. O diretor do Centro diz que instituições como a sua ajudam a diminuir os efeitos de um dos grandes problemas brasileiros: a falta de memória.

Qual é o papel dos arquivos e centros de memória nessa resistência contra a perda do patrimônio cultural brasileiro?

José Roberto Lapa: Simplesmente recolher a documentação escrita, a documentação que pode ser por via oral, a documentação, no sentido mais largo que possa ter a palavra, representa muito, mas não tudo. A preservação da memória deve envolver forçosamente o direito e cidadania de acesso à informação. Isto é, se nós recolhermos o acervo que está correndo perigo, que está correndo o risco de se perder, não nos basta depositar esse acervo e salvá-lo. É preciso organizá-lo, é preciso acessá-lo da maneira mais ágil, mais fácil que se consiga. É preciso universalizar o seu uso e, sobretudo, transformá-lo num gerador de conhecimento, a fim de que o documento na sua frieza, o documento muitas vezes até naquilo que não está nele escrito, naquilo que ele deixa implícito, possa ter uma dinâmica e ir ao encontro do interessado e permitir a ele que a partir do documento, através do documento, além do documento, ele possa ter conhecimento histórico e contribuir para que, com esse conhecimento histórico, ele possa, quem sabe, até mudar para melhor a sociedade em que ele vive.



sexta-feira, 13 de março de 2026

Quer estudar russo? Comece aqui!

Apresento hoje uma seleção de diversas publicações que estão marcadas com o rótulo “Língua russa”, entre as mais importantes pro estudo mais ou menos aprofundado do idioma. Grande parte delas consiste em restos do minicurso livre de introdução ao russo que ministrei no programa TOPE da Unicamp no 2.º semestre de 2017, e como só recentemente editei alguns, não tive tempo de comparar com o que já estava online, portanto, me responsabilizo por eventuais repetições e redundâncias.

Infelizmente, não é um material pra iniciantes, e sim uma sistematização de noções pra quem já começou a aprender russo, embora também possa ser lido por curiosos que consigam tirar proveito de algumas das explicações dadas. A lista inclui textos que vêm sendo publicados desde 2016 com dificuldades sobre pontos específicos da pronúncia e da gramática e mais algumas coisinhas, e agora ficam mais fáceis pra ser localizados, sem depender apenas do referido rótulo, e pra ser compartilhados em redes sociais.

Esta publicação pode soar paradoxal, já que há quatro anos venho combatendo a invasão da Ucrânia por Vladimir Putin e que sou um crítico feroz da imposição da língua e cultura russas aos territórios ocupados, bem como a seu uso no exterior como uma espécie de soft power capenga pra esconder os crimes de Moscou contra a humanidade. Porém, não devemos esquecer que nem todos os russos apoiam a guerra e que muitos deles, pessoas de alto valor científico, artístico e literário, vivem hoje exilados em países capitalistas desenvolvidos.

Por isso mesmo, conhecer a língua russa, e não somente a ucraniana, pode ser uma ferramenta crucial pra entendermos o regime terrorista atualmente em vigor na Rússia e obtermos informações objetivas sobre a agressão contra o vizinho meridional, onde muitos ainda dominam o “idioma de Pushkin” e os soldados da frente de batalha costumam ser mil vezes mais sinceros que a propaganda oficial. Além disso, desde o século 19 e mais ainda sob o período soviético, a língua russa tem uma longa trajetória no campo da ciência, o que a torna essencial pra ter acesso a um vasto material de pesquisa e conhecimento. Sem contar outros “nichos” culturais, sociais, artísticos etc. que tornam sua compreensão quase indispensável.

Reitero que, apesar de meu desejo, não estou disponível pra dar aulas virtuais de qualquer língua que seja, mas posso passar indicações de profissionais disponíveis (também pra inglês, francês etc.), bem como não é difícil os encontrar em diversas redes especializadas. Apenas recomendo que evite professores omissos ou simpáticos à guerra de Putin, pois ocasionais apologias nacionalistas ou patrióticas são abjetas nesse contexto; se ele falar português, mas estiver num dos próprios países que realizam a agressão, então duvide mais ainda, e de preferência rejeite.



terça-feira, 10 de março de 2026

Memes e vídeos sobre a covid-19 (2)

Há quase exatos três anos, comecei uma coleção que não sabia se teria uma sucessão ou continuidade linear. É um pouco triste, mas trata-se da maioria dos vídeos do Pan-Eslavo Brasil, meu antigo canal no YouTube, relativos à pandemia de covid-19 (inicialmente chamado apenas de “coronavírus”, o popular “coronga” ou “coronha”...) e de caráter histórico, político ou mesmo humorístico. Os primeiros lançados ao redor do mundo dão instruções de proteção, às vezes de forma descontraída, mas com o tempo, descoberta a periculosidade do vírus e manifestada a inação de Jair Bolsonaro e Donald Trump no combate à doença, o teor vai ficando cada vez menos deglutível.

Dessa forma, obviamente muita coisa que publiquei na época imediatamente após surgir, somente pra viralizar e indignar, nem vou fazer aparecer de novo, porque em geral se trata de chiliques do marido da Michelle ou tem nula importância informativa. Já alguns absurdos e violências inspirados por este senhor podem e até devem ser resgatados, pra que os futuros jovens não sofram de amnésia coletiva (como os de hoje sofreram com relação ao adolfismo e à ditadura militar), saibam de fato o que foi essa época e não botem de novo na cadeira do Planalto um falso Messias. Hoje estou terminando de “ressuscitar” o material restante que eu tinha.

Algumas coisas eu mesmo editei, outras me chegaram por meio de um antigo grupo de WhatsApp que mantive pra admiradores do Pan-Eslavo Brasil de 2018 a 2020 e outras ainda achei assistindo à mídia de outros países. Dada a distância temporal da produção e da publicação em meu extinto YouTube, não tenho mais as fontes originais nem as descrições que eu mesmo redigi, portanto, os vídeos estão apenas com uma breve descrição ou contextualização. Alguns hoje são pérolas ou raridades perdidas, certamente apagadas da memória pública. Me perdoe se eu acabar provocando algum “gatilho” ou se tal conteúdo não te agradar, devido ao peso desses anos passados...

(Devido ao recarregamento recente no Google Drive, alguns podem ainda não estar rodando sob pretexto de “lentidão no processamento”, mas talvez apareçam dentro de alguns dias.)




Vídeos “premonitórios” do Chaves: no primeiro (episódio “Estatísticas”), Professor Girafales afirma que “a cada vez que o Chaves respira, morre uma pessoa na China”; no segundo, o mesmo Mestre Linguiça dá dicas de prevenção de infecções na barraca de sucos do Chaves e na escolinha da vila.


No começo, o tom das mídias é leve. Primeiro, o Canadian Specialist Hospital de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, dá dicas de como agir pra prevenir a contaminação (embora pareçam até leves pras consequências posteriores...).


“Proteger da vacina e de Deus lá em cima” (Jornal Hoje, 2 de junho de 2020). Será que ele quis dizer “proteção”? Rs.


Uma máscara e um rolo de papel higiênico conversam e comparam a dureza de suas funções.


Governo da província argentina de Buenos Aires faz uma paródia de Aserejé, sucesso internacional da década de 2000, pra ressaltar a importância da prevenção.


Com o tempo, as relações entre as pessoas e entre elas e o Estado, assim como a eficácia em aplicar as medidas emergenciais, vão ficando mais tensas e mais difíceis. Aqui, um cliente se recusa a usar máscara e apanha de atendente no Brasil (11 de agosto de 2020, com uma canção do povo komi da Rússia ao fundo).


Rússia é acusada por três países de roubar dados sobre vacinas (Jornal Nacional, 16 de julho de 2020).


Idosa de Bragança Paulista, minha cidade de adoção, dá chilique no Lago do Taboão por se recusar a usar máscara (17 de março de 2021).


Homem no Usbequistão foge da polícia pra escapar da quarentena.


Depois da série americana Smallville, senhor inventa o “Coronaville” no Jornal Nacional em 11 de setembro de 2020.


A pior parte está na razão pela qual Jair Bolsonaro é propriamente chamado de “genocida” por seus detratores. Este infame clipe lançado nas redes do governo, mas depois apagado, se intitulava “O Brasil não pode parar”, logo quando especialistas começavam a recomendar o lockdown.


Governistas fanáticos diziam (acho que numa praia do Rio de Janeiro) que eram “a galera do coronavírus, vamo infectá todo mundo!”... Espero que tenham sofrido bastante!


O ciclista paulistano que ficou famoso em setembro de 2020 com a frase “Não queremos a vacina, nós temos a cloroquina” (e a voz feminina que ficou famosa gritando “Não queremos a va-China!”). Também espero que não tenham tomado e tenham ficado com sequelas do vírus!


E, finalmente, enfermeiras protestam pacificamente, em silêncio, na Praça dos Três Poderes no auge da pandemia, contra a precarização de seu trabalho e o negacionismo do Planalto. São incomodadas e até agredidas por bolsominions aloprados...


Mas é claro que, se até “Trump Sempre Arrega” (TACO), o Coiso ia ter de aceitar o óbvio alguma hora, após, claro, provocar umas centenas de milhares de perdas, abrir caminho a tantas mais e deixar incontáveis cidadãos com sequelas. O que ele chamava de “va-China do Doria” agora era a “vacina do Brasil”!


Tudo isso, embora Xi Jinping tenha decretado o “fim” da pandemia na própria China ainda na segunda metade de 2020.


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

A ciência de viver bem... em 2006

Nunca assinei revistas, mas de 2003 a 2005 eu comprava na banca toda semana a revista Mundo Estranho, que inicialmente era mais voltada pra educação e curiosidades, mas depois foi se tornando um pastiche chato de entretenimento nerd (do qual nunca gostei). Ela era fininha, portanto, mais confortável de manejar e mais rápida de ler, mas depois fiz minha transição pra realmente densa Superinteressante, com matérias mais longas e mais exigentes de atenção, a qual comprei até 2007. Achei nela o mesmo conteúdo de que a Mundo Estranho, a meu ver, começou a carecer, mas com o tempo os temas também se tornaram desinteressantes ou apelativos e minhas horas livres pra concentração, agora dedicadas à graduação em História, foram escasseando.

Pode parecer estranho, mas não fui um nerd “típico” como se podia pensar de um adolescente da primeira metade dos 2000. Meu lance sempre foram os estudos normais e a busca por conhecer mais assuntos internacionais, e não diversões, filmes, jogos e literatura com conteúdo peculiar, fantástico ou complexo, em comparação com o padrão idiota de uma revista Capricho ou de uma MTV da vida. Por isso, curiosamente, assuntos que já em 2006-2007 não me atraíam muito eram incursões exaustivas em exatas e biológicas e até mesmo séries (incluindo as distópicas) estrangeiras! E quanto mais as revistas iam passando pra essa pegada de “cultura pop”, mais eu as ia deixando.

Mesmo assim, mantive pequenas coleções de ambas as revistas por alguns anos (eu tinha guardadas até mesmo umas Veja com matérias que tinham me agradado muito, rs), mas antes de me desfazer delas, escaneei esta matéria não muito longa, saída há pouco mais de 20 anos e que me impressionou muito na época. Eu guardo um afeto por ela porque exatamente nessa época fiz o vestibular e entrei na faculdade, olha só, duas décadas redondas! Com texto de uma tal Mariana Sgarioni e somada ao “descolado” editorial do jornalista Denis Russo (que se tornaria um objeto de ódio do finado Olavo de Carvalho no futuro), essa peça em pleno apogeu do Orkut e pouco anterior à era dos smartphones me impressiona em retrospecto por duas razões: a pertinência, até maior e muito mais comprovada, de vários dos conselhos citados e o abismo entre o tipo de sociedade a que leitores e editores aspiravam na época e o fosso civilizacional, com pitadas do velho apocalipse nuclear da “guerra fria”, em que parecemos nos encontrar em 2026!

Se “Está bom 2006” pra quem ainda se informava basicamente pela imprensa e pela TV, quando até os portais de notícias estavam engatinhando e Denis Russo externalizava seu humor de tiozão pra comemorar o sucesso de vendas, 2026 consegue estar medonho até pra quem, com o celular na chupeta (não aquele, claro, de telinha azul e que só suportava ligação e SMS!), já nasceu no início daquela década, quando mendigamos curtidas, visualizações e comentários num oceano de violência gratuita e, coroando a “era da pós-verdade”, montagens por IA. A passagem do tempo consegue tornar as coisas tão engraçadas ou constrangedoras que só a capa acima já traz elementos sobre os quais poderia passar horas dissertando:

  • A copa da Alemanha, quatro anos depois da euforia do “penta” sobre a mesma Alemanha e que inauguraria nossa “maldição das quartas” com aquela suspeita “arrumada na meia” por Roberto Carlos e a derrota por um único gol da França após esse arroubo estético.
  • Como assim, “Por que os gays são gays”??? Cada um faz o que quiser da vida, e hoje já nem cabe tanta letra no antigo “GLS”, pra não falar das “dezenas de gêneros” (como diria Putin) que atemorizam os criadores de formulários!
  • “A revolução do software livre”... caí de rir de minha cadeira! Esse era o mantra de meus conhecidos fissurados em Linux, mas depois dos GAFAM, foi mais um sonho que passou.
  • O melhor drone, ops, avião de papel do mundo... A Ucrânia não gostou nada disso!
  • “Você já quis matar alguém?” Melhor ficar quieto, ainda mais que hoje, com as redes antissociais, você não precisa “querer”, mas já ameaça alguém diretamente! E tenho um pensamento sério pelas cada vez mais frequentes vítimas de feminicídio.

Por preguiça e ânsia de produção, não copiei o texto de meu PDF codificado, mas apenas transformei o arquivo em várias imagens separadas. Se alguém se interessar pela cópia original, pode entrar em contato comigo por comentário ou outros meios, e eu repasso por e-mail. O legal é que o “Desligue a TV” me lembra muito uma comunidade orkutiana chamada “Desligue a TV e vá ler um livro”, que pelo jeito não deixou adeptos, rs. Não colar a cara no computador (que nem era visto como um “perigo”), então, nem previa o dano generalizado que os smartphones iam causar em nosso organismo. Pra não falar das vacinas.

Tire suas próprias conclusões sobre 2006 ou 2026 (e 2016, Dilma?) estar ou ter sido bom ou ruim... E lembre-se: use camisinha antes de comer macacos!























domingo, 8 de fevereiro de 2026

O PCB durante o Estado Novo (parte 2)

Tendo guardado por alguns anos meus primeiros trabalhos escritos da graduação em História na Unicamp em seu formato impresso original, com as correções, observações e notas dos professores, resolvi um dia digitalizar a maioria deles, quando não tivesse backup dos arquivos Word originais. Nunca tinha pensado em os publicar na página, mas quando percebi que o navegador Chrome estava avançado o suficiente pra detectar textos automaticamente e possibilitar sua cópia pra outros programas, decidi tentar fazer isso com essas relíquias, que de fato só exigiram alguns reparos pontuais, pois o conteúdo saiu quase todo com espantosa exatidão!

Portanto, estou publicando hoje a versão final do trabalho avaliativo da disciplina “HH682A – História do Brasil IV”, ministrada por Margareth Rago no 2.º semestre de 2008, entregue no dia 27 de novembro. O título foi simplificado pra “A trajetória pecebista durante o Estado Novo”, pois como informo no próprio texto, desisti de fazer o “debate historiográfico” e fiz uma simples história do Partido Comunista do Brasil (PCB, daí o adjetivo “pecebista”) usando a bibliografia listada ao final. A literatura sobre o partido cresceu muito nos últimos anos, mas naquele tempo eu ainda estava me iniciando no assunto e sempre que podia, nas matérias relacionadas ao Brasil, abordava aquele que estava começando a ser meu objeto de pesquisa. Eram atividades “didáticas”, enquanto eu ganhava minha primeira bolsa de iniciação científica (agosto de 2008 a julho de 2009).

Minha IC abordou o PCB de 1956 a 1961 e serviu de base pra monografia de graduação (TCC). Aqui, o recorte foi a ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas, curiosamente muito menos criticada e desagravada pelas esquerdas do que o condomínio dos generais em 1964-85. De fato, na pós-graduação, eu passaria a estudar o período da Comintern (Internacional Comunista), em grande parte do qual se inserem os vários governos do caudilho (governo provisório em 1930-34, presidência constitucional em 1934-37, após eleição indireta e com vários estados de sítio decretados, e autocracia aberta em 1937-45). Por isso, mesmo que os autores citados já estejam desatualizados, comecei a acumular informações básicas.

Em minha tese de doutorado, baseada em documentos primários e que defendi em 30 de janeiro de 2024, os fatos estão muito mais bem estabelecidos e organizados, e as oscilações que eu ainda apresentava em 2008 são menos frequentes. A versão final, em muitos pontos idêntica à primeira parte, recebeu da Margareth a nota 9,5, e na medida do possível absorvi aqui suas anotações sem as indicar explicitamente, mas também abri colchetes quando achei necessário explicar. Por alguma razão (“lacrar”, como diríamos hoje, pra parecer bonito diante da docente feminista?), pelo menos em minha cabeça então, associei o aporte mais recente “de mulheres” a uma espécie de “sensibilidade” analítica, e os trabalhos pioneiros “de homens” ao partidarismo mais “primário” e “menos racional”; não nessas palavras, claro. Novamente, apenas atualizei a ortografia e as normas de citação bibliográfica e corrigi pontos que realmente não davam pra engolir ou que ficariam melhores de outra forma, sem alterar, contudo, o estilo redacional geral.



O Partido Comunista do Brasil (PCB) foi a agremiação política mais longeva que já existiu na história da República, e sua importância também se deve ao fato de ter sido por muito tempo o principal representante do comunismo e do bloco soviético em terras brasileiras. Assim, o “Partidão”, por sua onipresença na sociedade e na política brasileiras dos últimos 90 anos, inspira extensa bibliografia das mais diversas especialidades das ciências humanas. Utilizando-se de material variado e simples, este trabalho procura contar um pouco da trajetória do “partido de Prestes” ao longo do Estado Novo, um de seus momentos mais críticos e no qual quase chegou a ser extinto. Abandonou-se o objetivo inicial de realizar-se um debate historiográfico entre os autores devido ao tempo disponível para sua confecção e ao reconhecimento do caráter mais modesto que o texto precisava tomar.

Os contextos de surgimento das obras e as experiências pessoais de seus escritores foram diversos, o que gerou uma análise bastante matizada. As narrativas fortemente políticas reservam-se a homens ligados, com exceção de Chilcote, direta ou indiretamente com o PCВ no panorama de falência dos militares no poder. Já as historiadoras, por vezes também ligadas ao “Partidão” em algum momento, ressaltam-se pela sobriedade crítica característica da década de 1990 e pela sensibilidade a aspectos outrora menos abordados. Caio Prado Jr. foi um dos mais notáveis contestadores da política pecebista em vigor desde os anos 1930 e por isso mereceu algum espaço aqui. Embora a paixão com que os especialistas se expressem e as particularidades de cada um os distingam marcadamente, juntos ajudam a esclarecer os principais aspectos de uma das experiências mais dinâmicas da política brasileira.


A fracassada revolta militar de 1935 gerou consequências que durariam longamente, como a interferência militar na imprensa, prisões e assassinatos em massa que minaram a atividade comunista e a repressão contra operários e progressistas. O estado de sítio foi prorrogado sucessivamente até fins de 1936, concentrando enormes e excepcionais poderes nas mãos do presidente. Houve ainda o restabelecimento da pena de morte [a Margareth sublinhou, e não sei como cheguei a essa frase; a Constituição de 1937, sim, restabeleceu a pena de morte, mas nunca houve registros de sua aplicação], a sistematização da tortura e a criação do Tribunal de Segurança Nacional para punir os rebelados, do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) e de polícias especiais. Quanto ao PCB, duramente atingido, desarticulou-se momentaneamente após a “Intentona” e transferiu o Comitê Central e o jornal A Classe Operária [do Rio de Janeiro para São Paulo, e depois] para Salvador. Após uma rearticulação clandestina da direção, esta voltou a São Paulo no final de 1936, reorganizou os Comitês Estaduais e objetivou unir os democratas “contra o golpe getulista” iminente que, segundo Pacheco, só o PCB notara. O secretário-geral Antonio Maciel Bonfim (Miranda) foi preso em 13 de janeiro de 1936 e Luiz Carlos Prestes, em 5 de março de 1936, sendo depois condenado a 16 anos e oito meses de prisão, aos quais foram acrescentados mais 30 em 1940. Para Dulce C. Pandolfi, o tempo total de condenação foi de 47 anos e meio, e acrescenta que mais tarde o heroísmo do preso aumentaria com a dignidade com que ele resistiu ao cárcere. Sua esposa Olga, em setembro de 1936, foi deportada grávida à Alemanha nazista, onde logo morreu. (1) [Adendo 2026: Óbvio que antes de ser mandada à câmara de gás, ela pôde dar à luz sua filha Anita Leocadia, que se tornaria famosa historiadora e lhe dedicaria em 2017 uma biografia documentada pelos arquivos da Gestapo.]

Nélson W. Sodré culpa o “esquerdismo” do partido e o “golpismo” da ANL (2) pelo fracasso de 1935, ressaltando que o levante não era comunista e que o momento não seria propício para a implantação do comunismo. O apoio à rebelião “pequeno-burguesa” teria sido fruto de um “sectarismo de esquerda” que desprezou os meios legais de atuação por não darem frutos imediatos, distanciando o PCB das massas. Contudo, ao longo de 1936, o partido não abandonou os clamores pela revolução e pela luta armada antifascista, que foram “respondidos pelo vazio”. Segundo Marly A. G. Vianna, a partir de instruções epistolares ilegais [leia-se “de dentro da prisão”] de Prestes, chegou-se até mesmo a apoiar um grupo de bandoleiros nordestinos, os quais eram considerados guerrilheiros. Embora já houvesse surgido críticas à tática de 1935, o “golpismo” teria continuado, acentuando uma luta interna que teria culminado na chegada de “arrivistas” à direção do PCB em 1936, no abandono da linha “revolucionária” e na adoção de uma posição que teria posto o partido “a reboque da burguesia”. Pacheco diz que teria havido no partido oscilações “à direita” e “à esquerda”, ou seja, apoiar ora uma revolução burguesa, ora uma proletária, sem haver condições para ambas as alternativas. Anita L. Prestes lembra que em 1936-38 se opunham o Comitê Regional (CR) de São Paulo, liderado por Hermínio Sacchetta, e o Secretariado Nacional (SN), controlado pelo novo secretário-geral, Lauro Reginaldo da Rocha (Bangu), tido pelo primeiro como “oportunista”. A autora confirma as oscilações da liderança central, que ora pensava em derrubar Getúlio Vargas, ora cogitava, diante da ameaça “maior” do integralismo, uma aliança ou a “neutralidade” com relação ao governo. Mas em meio a um período de acefalia partidária e desorientação tática, a prioridade central de ambos os grupos ainda era a deposição do presidente. (3)

Em meio às investigações contra os comunistas, iniciaram-se os preparativos dos políticos para as eleições presidenciais, previstas para janeiro de 1938, que geraram uma cisão no partido em 1937. Na época, de acordo com Vianna, o SN vivia entre mudanças constantes de sede pelo país e o isolamento do resto do partido. Uma minoria encabeçada por Bangu e apoiada pela Comintern teria decidido apoiar a candidatura de Armando Salles de Oliveira. Para Ronald Chilcote, opunha-se a eles uma parte que cogitara a candidatura simbólica de Prestes e controlava o Comitê Regional de São Paulo. Entretanto, Pacheco opõe a Bangu e a parte dos paulistas os comunistas do Rio de Janeiro e da maior parte do Nordeste, além da maioria do Comitê Central, que apoiavam José Américo de Almeida. Outros militantes, por outro lado, prossegue Pacheco, recusaram-se a seguir os dois candidatos sem exigir deles um programa mínimo defendido pelo PCB e criticaram o abandono das principais bandeiras por parte da direção. Para José A. Segatto, a oposição era entre os que aceitavam apoiar tanto Almeida quanto Oliveira, desde que eles adotassem o programa mínimo (os paulistas), e os que apoiariam qualquer um sem exigir tal programa (Bangu). A. L. Prestes oferece mais uma versão: a tendência que o partido já apresentava à conciliação com Vargas tê-lo-ia levado, por força de Bangu, a apoiar Almeida incondicionalmente. Contudo, não se percebia que o presidente manobrava, apoiando Américo, mas recebendo a ajuda dos integralistas, que о manteriam no poder, mas dos quais ele depois se livraria. (4)

Alude-se em todas as obras à vitória da posição do secretário-geral (para muitos, “colaboracionista”), apoiado pela Comintern, mas talvez o fato mais certo seja o apoio a Almeida, já cogitado pelo resto do CC, diante da ambivalência de Bangu. A decisão provocou a saída de um grupo que se uniu, com Sacchetta à frente, ao movimento trotskista, formando o Partido Socialista Revolucionário (PSR). Militavam ainda os trotskistas que haviam saído do PCB em 1929 e formado o Partido Operário Leninista, que com o novo partido se vinculou à Quarta Internacional. Mais tarde, o PSR passou a predominar no movimento trotskista brasileiro e tornou-se o representante oficial da Quarta Internacional no país. Pacheco difere de Segatto e Chilcote apenas ao não citar o PSR, informando que os dissidentes teriam entrado no Partido Operário Leninista. Sodré simplesmente não faz menção a nenhuma parte do episódio. Para A. L. Prestes, o PCB já tinha criticado em março de 1937 suas insurreições anteriores e, dissociando a luta contra Vargas da luta contra o integralismo, começou a não citar o presidente em seus documentos. Mesmo assim, tal posição estaria de acordo com a política de "frentes populares" antifascistas e anti-imperialistas lançada pela Comintern em 1934-35. Apesar das críticas de Sacchetta e seu grupo, expulsos do partido em novembro, o SN dizia que não pretendia apoiar Vargas, mas apressar as condições de sua derrubada. (5)

Mesmo com a campanha em curso, ressaltam Chilcote e Segatto, Vargas já estaria preparando o futuro golpe, com as intervenções políticas e militares em alguns estados e a perseguição à esquerda e à oposição em geral. Traçado, supostamente com a ajuda da AIB, o caminho à “ditadura aberta” do Estado Novo, os comunistas já o denunciavam. Para Sodré, o novo regime, propício aos objetivos da burguesia, teria tido sua instalação facilitada pela submissão dos trabalhadores, fortalecida após 1935, e a quase liquidação do PCB. Com tal ameaça, segundo Segatto, o partido procurou criar uma frente comum com outras forças sociais e ao mesmo tempo lançar candidatos populares e antifascistas. (6) Em setembro de 1937 foi revelado o falso “Plano Cohen”, uma suposta conspiração comunista que serviu de pretexto para a suspensão dos direitos constitucionais, no dia 30, e para o golpe, em 10 de novembro. Seguiram-se o fechamento do Congresso e, em 2 de dezembro, a extinção dos partidos políticos. (7)

Chilcote informa que o Estado Novo, para Vargas, visava acabar com um período de agitação e polarização política por meio do desenvolvimento industrial e do apaziguamento das tensões e das elites tradicionais sob um “Estado corporativo tecnológico”. (8) O novo regime, apoiado nas Forças Armadas e na polícia, não dependia de amplo apoio popular nem de um partido, movimento ou ideologia únicos. Houve ainda o controle da produção e do mercado, a regência de uma da burocracia sindical sobre as relações de trabalho, o fim da autonomia dos estados e uma Constituição baseada nos modelos totalitários. (9) Já Sodré diz que o Estado Novo, caracterizado pelo “uso do Estado pela burguesia”, chegou sem resistência por só restarem na política forças “conservadoras” e gerou impotência entre as forças de esquerda e populares. Contudo, Vargas não teria aderido ao anticomunismo internacional por levar em conta o comunismo apenas como problema interno. Pacheco pensa de modo semelhante, ao dizer que por trás da desculpa de “recolocar a revolução de 1930 nos trilhos” estaria uma burguesia temerosa do operariado. (10) Na análise de Sodré, os sindicatos e a CLT seriam parte da solução “reformista burguesa” para os trabalhadores, ligada ao “desenvolvimento comandado pela burguesia”. Garantiram-se muitos direitos, mas os sindicatos foram submetidos aos interesses dos órgãos governamentais e proibidos de atuar na política e de participar em organizações internacionais. Se por um lado, lembra Chilcote, a burocracia sindical ligada ao Estado controlava os trabalhadores em troca de benefícios, por outro lado oficializou-se a perseguição à esquerda, com prisões, exílios e afastamentos de líderes de grupos marxistas de cargos públicos. (11)

Em 1938, recorda A. L. Prestes, aumentou a perseguição a nazistas, integralistas e comunidades estrangeiras que deveriam ser assimiladas, especialmente após a tentativa de golpe dos adeptos do Sigma, em 11 de maio. Apoiando tais políticas, como também lembra Vianna, o PCB lançou o apelo à “União Nacional” democrática e antifascista e cogitou a possibilidade de aliança com Vargas se este se mostrasse disposto a tanto. O Putsch fracassado de Plínio Salgado, escreve A. L. Prestes, aumentou a força do Estado Novo, mas também reforçou o sentimento antinazista e anti-integralista do “Partidão”, cujo SN tendia cada vez mais a apoiar o regime. O CR de São Paulo e o grupo de Sacchetta queriam combater os “galinhas verdes” sem apoiar o ditador, mas em outubro, com a ajuda da revista Seiva, publicada em Salvador, já se consolidava a ideia da “União Nacional” com Vargas e contra os “fascismos”. Crescia o contato epistolar ilegal [novamente, “de dentro da cadeia”] com Prestes, que, segundo Vianna, embora inicialmente relutasse, manifestou apoio à nova posição, desde que a aliança não fosse incondicional, em outras palavras, desde que se evitasse o “seguidismo” com relação ao governo. Embora fosse contrário à “carta constitucional totalitária” em vigor, lembra A. L. Prestes, a Comintern apoiava a postura do PCB devido à expressão, por parte dos comunistas brasileiros, de seu repúdio aos “agentes de Hitler e Mussolini”. Sobretudo em 1938-39, o órgão recomendou a unidade de todos os que se dissessem antifascistas, em um cenário de cogitação de aliança entre Stalin e Roosevelt. Pandolfi informa que um dos pretextos de Prestes para a defesa da “União Nacional” era o de que o lado pessoal não devia sobrepor-se ao político, e que por isso, como bons comunistas, devia-se deixar o ódio a Vargas de lado naquele momento. (12)

Por volta de 1939, o PCB não tinha como pôr em prática a política de frente nacional com outras forças democráticas baseada no nacionalismo e no bem-estar popular. Sodré destaca que o partido, por considerar Vargas antifascista, ainda cogitava apoiá-lo, caso o ditador se dispusesse a assumir essa bandeira. Nas palavras de Chilcote e de Segatto, o “Partidão”, vítima do anticomunismo do governo, teve vários membros, especialmente líderes, presos e condenados entre 1939 e 1940, havendo uma drástica redução da atividade comunista e a ausência de uma direção entre 1941 e 1942. Vianna ajunta que, na época, Vargas ainda simpatizava com Hitler, o que faz pensar que a perseguição aos nazistas possa ter ocorrido pela ligação deles com o integralismo, e não por suposto antifascismo do governo. Pelos cálculos de Segatto, o PCB praticamente deixou de existir e não realizou nenhuma ação de massa importante entre 1938 e o início de 1942. Pacheco informa que no partido funcionava apenas o Socorro Vermelho, que ajudava financeiramente famílias de presos e exilados, enquanto a vida orgânica partidária em geral definhou. (13)

A. L. Prestes informa que em 1939, por conta do pacto de não-agressão firmado entre a Alemanha e a URSS, a Comintern abandonou seu sistema de alianças heterogêneas e substituiu a luta contra o fascismo pela luta contra o “imperialismo”. Dois anos depois, com a invasão nazista ao território soviético, retomou-se o discurso das frentes nacionais, que agora deveriam ser ainda mais amplas. O PCB, de modo ambíguo, correspondeu à primeira virada da Comintern, mas continuava a apoiar a união de governo e povo contra o fascismo por meio da concessão da anistia aos presos políticos. Assim, com um clima antifascista e pró-Aliados que a autora atribui ao sentimento popular, o partido praticamente deixou de lado a orientação exclusivamente anti-Roosevelt vinda de Moscou. Por volta de 1940 ele estava bastante sintonizado com os movimentos sociais nacionalistas, democráticos e antifascistas. (14)

Chilcote assevera que velhos militantes resistiam a reorganizar o PCB e a reconhecer a aliança da URSS com os países capitalistas na 2.ª Guerra Mundial. Mas, recordam Sodré e Vianna, a oposição oficial ao Eixo amenizou o anticomunismo em 1942, com Prestes não sendo mais incomunicável, embora membros do partido ainda fossem presos. As mudanças consolidaram-se em 31 de agosto, com a entrada do Brasil na guerra, aumentando as possibilidades de lutar contra o fascismo e pela democracia. A. L. Prestes e Vianna apontam a falta de investimentos alemães, compensados pelos EUA, e a pressão de Roosevelt e dos elementos americanófilos no governo como fatores que favoreceram a união com os Aliados. Segatto indica o mesmo ano como o da volta do partido ao cenário político, junto a movimentos reivindicatórios por melhores condições de vida e a grupos que contestavam o Estado Novo. De fato, prossegue o historiador, entre 1941 e 1942 houve tentativas isoladas de reorganizar o PCB a nível local, e depois a nível nacional, fato respaldado por Pacheco, que cita as reorganizações de comitês. (15) Sodré e Pacheco chegam a falar de liderança do PCB, em 1942, nos protestos antifascistas e pela entrada do Brasil na guerra, tornando-se a “vanguarda organizada da classe operária”, mesmo ilegal, sem direção e “pouco ligado às massas”. Para A. L. Prestes, a luta pela democracia com apoio condicional a Vargas e o combate ao nazismo fortaleceram-se com a segunda virada dos soviéticos [primeira: pacto Molotov-Ribbentrop e suspensão da crítica ao fascismo; segunda: invasão da URSS em 1941 e aliança com as democracias ocidentais], embora o "Partidão" estivesse pouco ligado à Comintern. As relações entre as duas instituições logo foram retomadas, quando o PCB foi instruído pelo Birô Sul-Americano da Comintern a levar adiante a “União Nacional” com Vargas. O pretexto para tal posicionamento era o de que a ditadura cairia automaticamente após a guerra. (16) [Penso que na verdade, ela devia se referir não ao BSA, cuja sede “virtual” estaria no Rio de Janeiro e àquela altura não mais operava, mas ao Secretariado Latino-Americano, que era a divisão baseada em Moscou responsável pela região.]

Chilcote e Pacheco listam três grupos comunistas da época: o Comitê de Ação (CA), de paulistas que só buscavam, com algumas exceções, os conselhos de Prestes; outro também paulista, composto por baianos fugidos da repressão; e a Comissão Nacional de Organização Provisória (CNOP), do Rio de Janeiro, que, assim como o segundo, buscava a liderança do movimento. Pacheco e Vianna lembram-se também do Comitê Regional da Bahia, o grupo mais organizado e o único reconhecido pela Comintern, com a qual articulou vários contatos. (17) Segatto e Vianna lembram que os baianos de São Paulo, após contato fracassado com os paulistas, conseguiram unir-se aos cariocas da CNOP, ambos apoiando Prestes, marginalizando os paulistas e passando à liderança da reconstrução do PCB. Segatto, assim como A. L. Prestes, menciona ainda a divergência sobre o que então se entendia por “União Nacional”: para a CNOP, que contava com a simpatia de Prestes, era o apoio a Vargas no esforço de guerra contra o nazifascismo; quanto ao ex-secretário-geral exilado, Fernando de Lacerda (não mencionado por Chilcote), concordava no geral com a CNOP, mas postulava a extinção do PCB em coerência ao fechamento da Comintern e à colaboração capitalismo-socialismo na guerra; e o CA, que incluía Caio Prado Jr. em suas fileiras, não reconhecia a CNOP, apoiava a “União Nacional”, mas contra Vargas, e desejava aliar-se a liberais democratas e outros elementos de esquerda. Sodré detém-se pouco na identificação dos grupos comunistas, mas aponta para a formação da CNOP e sua decisão de organizar a próxima Conferência Nacional. (18)

A 2.ª Conferência Nacional do PCB (“Conferência da Mantiqueira”), enfim, ocorreu em 27 de agosto de 1943 no distrito fluminense de Engenheiro Passos, (19) como resultado da conclusão das discussões entre os diversos grupos antes dispersos. Nela se decidiu oficializar a “União Nacional” em torno do governo (agora não qualificado como “fascista”) contra o nazifascismo, elegeu-se um novo CC com Prestes, embora preso, como secretário-geral e reorganizou-se o partido. Do novo CC, José Medina e, depois, Álvaro Ventura assumiriam a secretaria-geral na ausência do “Cavaleiro da Esperança”. Apareceram também as campanhas pelo envio de tropas brasileiras à URSS, pelas liberdades democráticas, de expressão e reunião, pela anistia aos prisioneiros políticos, pela legalização do PCB e contra a carestia. De acordo com Sodré, corrigiu-se o “direitismo” e o “liquidacionismo” da linha política de 1936-40 e, embora se subestimasse a luta pelas liberdades democráticas, a orientação seria “justa” para a época. Contudo, o autor não menciona o apoio comunista a Vargas, apenas se referindo à necessidade que se levantou de uma “união nacional antifascista” em torno do “esforço de guerra”. Pandolfi assevera que Prestes ficaria no cargo até 1980, apesar da alta rotatividade do CC nessas três décadas e meia, e lembra que o clima de unidade da reunião foi prejudicado pelos que não queriam apoiar o ditador que esfacelara o PCB. A. L. Prestes confirma que a “União Nacional” teria surgido de uma vaga de “nacionalismo antifascista” não coordenada que não seria liderada por um PCB ainda convalescente de seu esfacelamento. (20)

A confirmação do giro de 180 graus efetuado pelo PCB com relação a Vargas, talvez advenha da conjuntura internacional de arrefecimento da polarização política devido à guerra e à decisão dos soviéticos de apoiar todos os inimigos do Eixo. Com efeito, a Comintern, já privada de seus elementos revolucionários, dissolvera-se em maio de 1943, alegando a necessidade de dar maior independência aos partidos operários para unirem-se a coalizões democráticas antifascistas. Talvez seja esse o motivo da aparente contradição, não explicitada por Segatto, da luta pelas liberdades políticas sem a contestação do poder de Vargas, que deveria apenas realizar a abertura. Na visão do autor, em fins de 1943, boa parte das divergências desapareceu após uma carta de Prestes na qual o líder dizia que se deveria ao mesmo tempo lutar pela defesa da pátria e pela democracia. Na verdade, para Pacheco, tal carta será também uma retificação da política de “União Nacional”, que teria assumido um caráter “direitista” de apoio incondicional a Vargas. Entretanto, não se teria corrigido a prática, pois, o partido não tocou nas questões da autonomia sindical e da luta entre o capital e o trabalho. Segatto descreve um rápido desenvolvimento do partido entre 1942 e 1945, com crescimento do número de militantes na ativa, da incursão nos movimentos de massa e, desde 1942, de publicações legais.

De fato, A. L. Prestes sublinha que o secretário-geral, em 1945, criticaria o “reboquismo” da aliança, mas que na época considerava seus opositores como “pró-nazistas” е que ela não seria um fim, mas um meio de alcançar a democratização. De acordo com a autora, uma das especificidades do nacionalismo antifascista no Brasil teria sido a participação de um partido comunista preso a modelos estrangeiros, o que gerava suas constantes oscilações. Sem articular as lutas nacional e internacional pela democracia, o PCB se teria deixado arrastar acriticamente pela onda nacionalista. Já Vianna cita mais fatores que teriam feito o partido pensar que qualquer um que lutasse contra o fascismo deveria ser apoiado: “A falta de cultura política, o isolamento na prisão e a ausência de experiências de lutas verdadeiramente populares”. A autora concorda que o PCB fragilizou-se em seu momento de posterior crescimento porque não combinou a luta pela democracia com a organização da luta de classes, e não soube separar os erros dos acertos e corrigir os primeiros, especialmente os individuais. (22)

Chilcote lembra que Prestes, mesmo preso, era quem elaborava a política do PCB. Para atingir as metas que ela visava, o líder comunista chegou a propor a união do partido e da ANL a outros setores da população em uma União Democrática Nacional (homônima à UDN posterior). (23) Para Segatto, a evolução política no governo fez as forças de oposição avançarem, o que facilitou e fortaleceu a ação do PCB e obrigou Vargas a fazer concessões. Contudo, o ditador teria tentado manipular a redemocratização para não deixar o poder político cair nas mãos das oligarquias conservadoras ou de seus aliados estrangeiros interessados no Brasil. Uma das estratégias descritas por Chilcote e Pandolfi foi criar dois partidos nacionais: o Partido Social Democrático (PSD), com políticos e militares ligados ao regime, e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), de funcionários do Ministério do Trabalho. Este formava, com os comunistas, o núcleo do movimento “queremista” e, segundo Sodré, serviria para controlar os operários com base na política vigente. Os “queremistas” (do slogan “Queremos Getúlio”) pediam o adiamento das eleições presidenciais e de uma Assembleia Constituinte da qual Vargas faria parte. Para Pacheco, o apelo às massas e o controle da abertura teriam vindo com a perda do apoio das “classes dominantes”, que teria obrigado Vargas a jogar cada vez mais na defensiva. (24)

Chilcote e Segatto concordam que em 1945 aumentou a oposição contra o governo, com mal-estar mesmo entre seus próprios membros. Sodré ajunta que em 1943 já haviam ressurgido os movimentos de massa, com mobilização de estudantes, congressos sindicais e greves. Para A. L. Prestes, no mesmo ano, o movimento popular anti-Eixo começaria a influenciar o governo, apesar das resistências, enquanto ao longo dos anos seguintes estudantes e operários também teriam levantado a bandeira da “União Nacional”. Na opinião de Pacheco, boa parte da oposição vinha dos “setores ligados ao capital estrangeiro” desgostosos com a política nacionalista de Vargas. Nas palavras de Pandolfi, o movimento democrático reforçou-se em 29 de fevereiro, quando foi estabelecido um prazo de 90 dias para a fixação de um calendário eleitoral. Intelectuais e políticos clamavam pela redemocratização e por eleições, das quais Vargas, pressionado, concordou em não participar, mas lançou o Marechal Eurico Dutra como seu candidato. Em 15 de março, publicou-se o primeiro anúncio público de Prestes após sua prisão e finalmente, em 18 de abril, foi decretada anistia política, com a libertação de vários presos, entre eles o secretário-geral do PCB. (25)

Na opinião de Segatto e de Pacheco, o partido ajudou muito nessas conquistas, com campanhas pró-anistia e comícios pró-URSS e antifascistas, auxiliadas pelo prestígio mundial dos comunistas após a derrota do Eixo. Segatto informa que Prestes, libertado, defendeu a não abstenção nas próximas eleições, pediu que não se centrassem nele as decisões do PCB e defendeu o progresso e a unidade nacional sob a ordem e a democracia. Haveria a possibilidade de aliar-se a patrões “progressistas” e à “burguesia nacional”, pois não existiriam condições para a implantação do socialismo. Os trabalhadores estariam sofrendo mais com o subdesenvolvimento do que com o desenvolvimento do capitalismo brasileiro e por isso, diz Vianna, a luta da democracia burguesa para desenvolver o capitalismo também seria deles. A mesma autora revela que desde 1937 essa nova teoria da revolução brasileira já aparecia em publicações pecebistas. Para Pandolfi, era a tese da revolução nacional-democrática, ou democrático-burguesa, ou ainda antifeudal e anti-imperialista, que substituía a da revolução operário-camponesa. Para Prestes, a aliança era temporária, até que o capitalismo fosse destruído pela luta entre capital e trabalho. Chilcote recorda que o secretário-geral também pediu maiores chances de participação política do proletariado, rejeitou a ideia de um golpe de Estado contra Vargas e convocou os trabalhadores a se unirem em torno do Movimento Unificador dos Trabalhadores (MUT), a frente trabalhista do partido. (26)

Apesar de Segatto ser um pouco apologético, vale a pena citar sua breve história do MUT. O movimento operário teria renascido em 1944, junto com as greves e, desde o início de 1945, com grupos independentes de trabalhadores, muitos deles influenciados pelos comunistas. Com certa “abertura” no sindicalismo, o PCB propôs, em 30 de abril, a criação do MUT junto a líderes não comunistas. Seus objetivos eram a unidade dos sindicatos e dos trabalhadores para obter liberdade sindical, a melhoria das leis sindicais e de previdência social, o cumprimento e aperfeiçoamento das leis trabalhistas, a extensão de direitos e da sindicalização ao campo, a extinção de órgãos, dispositivos e decretos antidemocráticos e a liberdade de opinião e de organização política. Com o MUT, a partir de 1945, teria começado o esforço do PCB para aumentar a combatividade dos sindicatos, que se teria refletido em aumento do número de operários sindicalizados até a proibição do movimento, em 1946. Vale lembrar com Pandolfi que mesmo com certas mostras de insatisfação, Prestes ainda pregava a inserção dos trabalhadores no sindicalismo varguista e desencorajava as greves, sob o pretexto do temor ao fascismo e da fragilidade do regime. Os operários ficaram contrariados com a ordem de “apertar o cinto”, até que em janeiro de 1946 o PCB resolveu retomar a luta por melhores salários. Em todo o caso, no mês de março o direito de greve seria extinto na prática, o que o senador Prestes tentou reverter, sem sucesso. (27)

Para Caio Prado Jr., a origem daquela “teoria da revolução brasileira” seria a tese dos “países coloniais ou semicoloniais e dependentes”, feita pela Comintern nos anos 1920, baseada na experiência soviética e para a qual países como o Brasil estariam passando do feudalismo ao capitalismo. Contudo, ela colocaria no mesmo nível áreas tão distintas como a Ásia e a América Latina e até mesmo desprezaria as diferenças econômicas e culturais dentro do Cone Sul, o que teria feito o Birô Sul-Americano da Comintern escrever falsidades sobre o Brasil. Tal seria o resultado da aplicação acrítica de um modelo de revolução democrático-burguesa que ignoraria totalmente a realidade, mas ter-se-ia tornado, nas mãos de preconceituosos, um dogma pouco retocado ao longo dos anos. A “contradição essencial” do campo não seria a posse da terra com a “eliminação de restos feudais”, mas as “condições de trabalho e emprego” no latifúndio. Por isso, o PCB deveria conhecer os direitos trabalhistas já concedidos ao trabalhador rural e lutar para reverter o quadro de sua pífia efetivação. (28)

Com a anistia e o código eleitoral de 28 de maio de 1945, informa Chilcote, o PСB pôde reaparecer legalmente, recebendo a simpatia de intelectuais progressistas e de muitos jovens que cresceram sob a ditadura. Entre março e abril, políticos e intelectuais, incluindo socialistas e comunistas, haviam decidido formar a UDN como partido, do qual os comunistas saíram após a libertação de Prestes. Sem citar a criação da UDN, Segatto lembra que a maior aglutinação do PCB e a volta dos dirigentes proporcionou grandes comícios e a instalação de sedes em todos os estados e, em agosto, do Comitê Nacional. Em sua opinião, aparecia “um grande partido de massas”, com proliferação de células, núcleos distritais e comitês de lutas cotidianas, educação e lazer, além de uma florescente imprensa partidária. Pacheco concorda com tal crescimento do PCB legal, que teria ocorrido com o auxílio da popularidade de Prestes e apesar das tentativas “reacionárias” de “liquidá-lo” e dos “erros” da direção. (29)

Quais seriam esses “erros”? Para Pacheco, a aparente paz entre capitalismo e socialismo e a dissolução da Comintern teriam confundido os comunistas, que, oscilando entre o apoio ao operariado e à “ordem e tranquilidade”, censuraram greves e, na opinião do autor, colaboraram com a burguesia. Também se teria aplicado mal a política de “paz mundial” do comunismo internacional, traduzida pelo PCB como “negação da luta de classes” e “colaboração” entre elas. Assim, a passividade diante do sindicalismo de Vargas teria prejudicado a independência da política de classe operária e ajudado a pôr mais sindicatos na órbita do governo. Quanto ao MUT, que seria mais político (“queremista”) do que sindical, ele teria tentado escapar da “rigidez da estrutura sindical”, mas acabou por aliar-se aos “pelegos” formados no Estado Novo, e não os combater. Em suma, o PCB teria iniciado, após 1935, uma política “conciliatória” que se acentuou com a entrada do Brasil na guerra e que, distante dos movimentos reivindicatórios, teria terminado por virar-se contra os trabalhadores. Robert Alexander completa que o PCB se infiltrara no aparelho do Estado Novo por meio do controle dos sindicatos, obtendo assim amplos recursos advindos das contribuições compulsórias dos trabalhadores a essas entidades. Pandolfi completa dizendo que, embora o código eleitoral favorecesse o próprio Estado Novo, o “Partidão” não o criticou, mas apenas reclamou pela formação de uma Assembleia Constituinte com Vargas, presença rejeitada pela oposição. (30)

Contudo, Sodré cita a liderança do PCB em greves entre janeiro e abril de 1945, que teriam resultado, em maio, em importantes conquistas, as quais a burguesia quis evitar ao máximo. Já Chilcote salienta que, após liderar várias greves também entre maio e agosto, o partido tentou transformar a insatisfação operária em apoio a Vargas, enquanto o MUT promovia congressos estaduais de trabalhadores. (31) Dadas tantas opiniões sobre o papel do PCB nessas greves, pode-se talvez pensar que as greves de fato aconteceram, independentemente da vontade do PCB. Não podendo ser contidas por “ordens superiores”, o partido pode ter tentado a posteriori tomar as rédeas da situação e canalizar a insatisfação contra a burguesia, a qual Segatto, Sodré e Pacheco acusam de conspirar para o “golpe”. Realmente, Chilcote lembra que o Exército pressionou pela saída de Vargas, deposto a 29 de outubro, temendo suas relações com os comunistas e que os trabalhadores pudessem mobilizar-se para mantê-lo no cargo. Para Segatto e Pacheco, o “golpe” teria sido apoiado por “conservadores” e “imperialistas”, mas não houve retrocesso político devido à “pressão das forças populares” e ao clima do pós-guerra. Sodré diz que a burguesia teria procurado controlar a mudança de regime, todavia, para o autor, ela teria limitado as conquistas democráticas após o “golpe”, com medo dos movimentos pró-democráticos. Segundo Pandolfi, Prestes atribuiu a deposição à origem de classe de Vargas, que não lhe permitiu aliar-se aos “setores democráticos e populares”. (32)

Mesmo com certa perseguição aos comunistas, salienta Chilcote, o PCB foi registrado como partido em 10 de novembro. À época, Prestes reafirmou que seu partido preferia lutar contra a miséria por meio da “União Nacional” a implantar o comunismo, exigiu uma Assembleia Constituinte e lamentou o “golpe reacionário”. Para as eleições de 2 de dezembro, os dois principais candidatos à presidência eram Dutra, do PSD, e o brigadeiro Eduardo Gomes, da UDN. Pandolfi recorda que em 12 de novembro José Linhares, presidente em exercício, determinou que os eleitos para o Congresso elaborassem a nova Constituição antes de assumirem suas funções, o que agradou a Prestes, embora ele pedisse o adiamento das eleições presidenciais. Segundo Pacheco e Pandolfi, o PCB estaria em uma situação difícil por não se ter preparado para o pleito devido ao seu apoio a Vargas, por não apoiar os dois candidatos “reacionários” e por não poder, na teoria, lançar um candidato comunista em coerência com a política de “União Nacional”. Assim, Yeddo Fiúza foi lançado pelo PCB na corrida presidencial apenas em 16 de novembro, embora a campanha-relâmpago tivesse conhecido grande mobilização de finanças com ótimos resultados. Pandolfi ressalta que a escolha de um não comunista pouco expressivo fez com que vários membros do partido passassem a apoiar Gomes e, por isso, fossem expulsos em janeiro de 1946. (33)

Dutra venceu, mas o PCB recebeu grande quantia de votos, empossando 14 deputados, um senador (Prestes) e 109 suplentes de deputados, enquanto Fiúza obteve 10% dos votos. O partido, assim, aumentou sua influência, o que se deveu também a mudanças nas conjunturas nacional e internacional, como a união entre países capitalistas e socialistas para combater o nazismo. (34) De acordo com Leôncio Basbaum, havia sido importante, ao longo do segundo semestre de 1945, uma grande campanha na qual se utilizara o prestígio de Prestes e uma suposta “tradição de confiança do nome do PCB”. (35) Pacheco concorda com o fato de que a mobilização do PCB fora crucial para o bom desempenho nas urnas e adiciona aos números а eleição de 23 deputados em São Paulo, de 18 vereadores no Rio de Janeiro e de maiorias em diversas câmaras de vereadores. Quanto à tão sonhada Assembleia Constituinte, ela ocorreu em 1946 e, para Segatto, a bancada do PCB teria tido aí importante papel “na defesa dos interesses da classe operária”. Pandolfi concorda que a boa votação de Prestes refletira sua popularidade e que o senador cumpriu bem seu papel na Constituinte como líder da bancada pecebista. (36)

Pandolfi escreve que o PCB cresceu no período da legalidade, como os outros partidos comunistas no pós-guerra, mas tinha o desafio de aumentar sua base eleitoral sem perder seu caráter de classe. Prestes desejava um “partido de novo tipo”, de massas, que fosse dos operários e de todo o povo, mas para a legalização ocorrer apresentou-se um programa despido do palavreado leninista, ocultando outro sem essas omissões. Sendo o partido mais votado em várias cidades no final de 1945, o PCB obteve sucesso onde havia maior concentração operária e aproveitou-se de uma estrutura de caráter nacional ainda ausente em outros partidos. As regras de filiação afrouxaram-se bastante, passando, de um processo que incluía a indicação de um membro antigo e um juramento, para o preenchimento de um simples formulário. Assim, fazia-se necessário manter a homogeneidade face às diferenças pessoais por meio de uma formação teórica que tornaria a todos “verdadeiros comunistas”. Em 1945 o PCB diferenciava-se dos outros partidos, todos “das classes dominantes”, prestando contas publicamente de suas atividades parlamentares e efetivando os deputados eleitos apenas por ordens da direção. Nos anos 1980, o partido “esclareceria” que seu erro “direitista” (apoio a Vargas) teria sido um mal menor do que os deslizes “esquerdistas” (o já citado “golpismo”) e criticaria o modelo partidário personalista e autoritário surgido a partir de 1945. Na mesma época, o já octogenário Prestes criticou retrospectivamente a própria ideia do “partido de todo o povo”, lamentando-se do caráter policlassista que ela teria tomado. (37)

Sobre a dimensão que o mito de Prestes tomou na década de 1940, Pandolfi afirma que com a reestruturação partidária, os soviéticos começaram a ver o “Partidão” com bons olhos, influenciados pelo prestígio extrapartidário do secretário-geral. Embora Prestes só entrasse no partido em 1934 por determinação da Comintern e militasse pouco até 1945, os anos 1940 marcaram a fusão gradual entre as figuras do “Cavaleiro da Esperança” e do PCB. Nesse decênio, a mística em torno do senador, datada dos anos 1920, seria reforçada e incrementada, confundindo-se o povo com o proletariado, este com o partido e o último, por sua vez, com Prestes. Assim, o fascinante chefe encarnaria o destino de todos em uma só identidade coletiva e por isso era visto com um conselheiro para qualquer assunto. Conforme Pandolfi, a ascensão de Prestes coincidia com o apogeu do comunismo, quando sua doutrina “infalível” era associada a um líder também “infalível”. Este “iluminado” supostamente dominaria o marxismo e outras áreas do saber melhor do que outras pessoas, e por isso era superior e distante de seus subordinados. A projeção de Prestes como único porta-voz do PCB fortalecia um “culto à personalidade” que engessava o livre-pensamento, deformava a realidade е enxergava a verdade apenas na URSS, no secretário-geral e no CC. (38)


Após esta análise da atuação do PCB entre 1935-37 e 1945, muitos pontos são dignos de comentários, mas alguns parecem ser mais importantes. As constantes mudanças de posição, ocasionadas tanto por fatores internos quanto externos, não deixam de ser uma anomalia na vida política brasileira, à qual o partido teve de adaptar-se para poder atuar legalmente. O custo de sua sobrevivência, porém, foi um distanciamento cada vez maior do operariado devido à pouca popularidade das diretrizes do CC e à consequente perda de seu caráter de classe. De fato, era imprescindível que o Brasil estivesse unido diante do perigo da guerra, mas na onda patriótica o PCB deixou como letra morta boa parte do ideal perseguido desde 1922. A rígida disciplina partidária também limitou os debates entre suas diversas instâncias e fez com que as mudanças só se dessem em momentos de extrema pressão. Não obstante, o “Partidão” foi uma necessária voz de contestação sempre presente diante de um longo histórico nacional de autoritarismo, carências materiais e brechas muito limitadas para a atuação política e cívica.


Bibliografia

CHILCOTE, Ronald H. O Partido Comunista Brasileiro: Conflito e integração – 1922-1972. Tradução Celso Mauro Paciornik. Rio de Janeiro: Graal, 1982.

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PANDOLFI, Dulce Chaves. Camaradas e companheiros: memória e história do PCB. Rio de Janeiro: Relume-Dumará: Fundação Roberto Marinho, 1995.

PRADO JR., Caio. A revolução brasileira. 2. reimpr. da 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 2004.

PRESTES, Anita Leocadia. Da insurreição armada (1935) à “união nacional” (1938-1945): a virada tática na política do PCB. São Paulo: Paz e Terra, 2001.

SEGATTO, José Antonio. Breve história do PCB. São Paulo: Livraria Editora Ciências Humanas, 1981.

SODRÉ, Nélson Werneck. Contribuição à história do PCB. São Paulo: Global, 1984.

VIANNA, Marly de Almeida Gomes. O PCВ: 1929-43. In: FERREIRA, Jorge; REIS, Daniel Aarão (org.). As Esquerdas no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007, p. 331-363. (V. 1. “A formação das tradições (1889-1945)”.)


Notas (Clique pra voltar ao texto)

(1) CHILCOTE, Ronald H. O Partido Comunista Brasileiro: Conflito e integração – 1922-1972., Rio de Janeiro: Graal, 1982, p. 83-84; SEGATTO, José Antonio. Breve história do PCB. São Paulo: Livraria Editora Ciências Humanas, 1981, p. 42-43; SODRÉ, Nélson Werneck Sodré. Contribuição à história do PCB. São Paulo: Global, 1984, p. 105-106; PACHECO, Eliezer. O Partido Comunista Brasileiro (1922-1964). São Paulo: Alfa-Omega, 1984, p. 174; PANDOLFI, Dulce Chaves. Camaradas e companheiros: memória e história do PCB. Rio de Janeiro: Relume-Dumará: Fundação Roberto Marinho, 1995, p. 128; VIANNA, Marly de Almeida Gomes. O PCB: 1929-43. In: FERREIRA, Jorge; REIS, Daniel Aarão Reis (org.). As esquerdas no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007, p. 349-350. (V. 1. “A formação das tradições (1889-1945)”.)

(2) “Golpismo” costuma designar a opção pela tomada do poder à força, que, apesar de constituir parte do programa em várias épocas, frequentemente ganha tal alcunha quando a conjuntura não é tão propícia para tal ação ou, a posteriori, quando a tática é aplicada, mas não dá certo. Já “esquerdismo”, cujo significado nunca foi claro, talvez indique, neste contexto, “sectarismo de esquerda”, em cujo rol de atitudes se inclui o “golpismo”.

(3) SODRÉ, Nelson Werneck, Op. Cit., p. 102, 104 e 106-108; VIANNA, Op. Cit., p. 349-350; PACHECO, Eliezer, Op. Cit., p. 175; PRESTES, Anita Leocadia. Da insurreição armada (1935) à “união nacional” (1938-1945): a virada tática na política do PCB. São Paulo: Paz e Terra, 2001, p. 20-24.

(4) CHILCOTE, Ronald H., Op. Cit., p. 87; PACHECO, Eliezer, Op. Cit., p. 176; SEGATTO, José Antonio, Op. Cit., p. 43; VIANNA, Marly de Almeida Gomes, Op. Cit., p. 350-351; PRESTES, Anita Leocadia, Op. Cit., p. 25-27.

(5) CHILCOTE, Ronald H., Op. Cit., p. 87; SEGATTO, José Antonio, Op. Cit., p. 44; PACHECO, Eliezer, Op. Cit., p. 177; PRESTES, Anita Leocadia, Op. Cit., p. 16 e 28-32.

(6) CHILCOTE, Ronald H., Op. Cit., p. 85; SEGATTO, José Antonio, Op. Cit., p. 43; SODRÉ, Nelson Werneck, Op. Cit., p. 105.

(7) CHILCOTE, Ronald H., Op. Cit., р. 85.

(8) Ibid., p. 85-86.

(9) Ibid., p. 86; PACHECO, Eliezer, Op. Cit., p. 178.

(10) SODRÉ, Nelson Werneck, Op. Cit., p. 109; PACHECO, Eliezer, Op. Cit., p. 177.

(11) SODRÉ, Nelson Werneck, Op. Cit., p. 112; CHILCOTE, Ronald H., Op. Cit., p. 86.

(12) PRESTES, Anita Leocadia, Op. Cit., p. 33-50; VIANNA, Marly de Almeida Gomes, Op. Cit., p. 352-354 e 357; PANDOLFI, Dulce Chaves, Op. Cit., p. 139.

(13) CHILCOTE, Ronald H., Op. Cit., p. 87-88; SEGATTO, José Antonio, Op. Cit., p. 44; VIANNA, Marly de Almeida Gomes, Op. Cit., p. 354; SODRÉ, Nelson Werneck, Op. Cit., p. 110; PACHECO, Eliezer, Op. Cit., p. 178.

(14) PRESTES, Anita Leocadia, Op. Cit., p. 51-62.

(15) CHILCOTE, Ronald H., Op. Cit., p. 88-89; SEGATTO, José Antonio, Op. Cit., p. 45; SODRÉ, Nelson Werneck, Op. Cit., p. 113; PACHECO, Eliezer, Op. Cit., p. 178; PRESTES, Anita Leocadia, Op. Cit., p. 62-63; VIANNA, Marly de Almeida Gomes, Op. Cit., p. 355-356.

(16) SODRÉ, Nelson Werneck, Op. Cit., p. 114; PACHECO, Eliezer, Op. Cit., p. 181; PRESTES, Anita Leocadia, Op. Cit., p. 63-68, 70-73 e 75-77; VIANNA, Marly de Almeida Gomes, Op. Cit., p. 355.

(17) CHILCOTE, Ronald H., Op. Cit., p. 89; PACHECO, Eliezer, Op. Cit., p. 179-180; VIANNA, Marly de Almeida Gomes, Op. Cit., p. 355-357

(18) SEGATTO, José Antonio, Op. Cit., p. 46; PACHECO, Eliezer, Op. Cit., p. 181; PRESTES, Anita Leocadia, Op. Cit., p. 77-79; PANDOLFI, Dulce Chaves, Op. Cit., p. 137-8; VIANNA, Marly de Almeida Gomes, Op. Cit., p. 356; SODRÉ, Nelson Werneck, Op. Cit., p. 114.

(19) PANDOLFI, Dulce Chaves, Op. Cit., p. 138, data o acontecimento entre os dias 28 e 30, e VIANNA, Marly de Almeida Gomes, Op. Cit., p. 358, pontua-o no município de Barra do Piraí, também fluminense. nos dias 27 a 29.

(20) CHILCOTE, Ronald H., Op. Cit., p. 89; SEGATTO, José Antonio, Op. Cit., p. 46-48; SODRÉ, Nelson Werneck, Op. Cit., p. 114-115; PACHECO, Eliezer, Op. Cit., р. 182; PANDOLFI, Dulce Chaves, Op. Cit., p. 128-129, 136 e 138; PRESTES, Anita Leocadia, Op. Cit., p. 79-80 е 87-88.

(21) SEGATTO, José Antonio, Op. Cit., p. 47-48; PACHECO, Eliezer, Op. Cit., р. 183; VIANNA, Marly de Almeida Gomes, Op. Cit., p. 358.

(22) PRESTES, Anita Leocadia, Op. Cit., p. 80-82 e 91-93: PANDOLFI, Dulce Chaves, Op. Cit., p. 137; VIANNA, Marly de Almeida Gomes, Op. Cit., p. 353, 357-358 e 360.

(23) CHILCOTE, Ronald H., Op. Cit., p. 89-90.

(24) SEGATTO, José Antonio, Op. Cit., p. 48-49; CHILCOTE, Ronald H., Op. Cit., p. 94; PANDOLFI, Dulce Chaves, Op. Cit., p. 141; PACHECO, Eliezer, Op. Cit., p. 184; SODRÉ, Nelson Werneck, Op. Cit., p. 116.

(25) CHILCOTE, Ronald H., Op. Cit., p. 90-91; SEGATTO, José Antonio, Op. Cit., p. 49; SODRÉ, Nelson Werneck, Op. Cit., p. 116; PRESTES, Anita Leocadia, Op. Cit., p. 83-84 e 86-87; PANDOLFI, Dulce Chaves, Op. Cit., p. 128 e 139-140; PACHECO, Eliezer, Op. Cit., p. 184.

(26) SEGATTO, José Antonio, Op. Cit., p. 49-50 e 52-54; PACHECO, Eliezer, Op. Cit., p. 185; CHILCOTE, Ronald H., Op. Cit., p. 95; PANDOLFI, Dulce Chaves, Op. Cit., p. 157-158; VIANNA, Marly de Almeida Gomes, Op. Cit., p. 351.

(27) SEGATTO, José Antonio, Op. Cit., p. 55-58; PANDOLFI, Dulce Chaves, Op. Cit., p. 158-159 e 161-162.

(28) PRADO JUNIOR, Caio. A revolução brasileira. São Paulo: Brasiliense, 2004, p. 36-39 e 52-54.

(29) CHILCOTE, Ronald H., Op. Cit., p. 93-94; SEGATTO, José Antonio, Op. Cit., p. 50-51; PACHECO, Eliezer, Op. Cit., p. 194.

(30) PACHECO, Eliezer, Op. Cit., p. 187-193; ALEXANDER, Robert. Communism in Latin America. New Brunswick, New Jersey: Rutgers University Press, 1957, p. 119 apud CHILCOTE, Ronald H., Op. Cit., p. 95-96, nota 8; PANDOLFI, Dulce Chaves, Op. Cit., p. 140-141.

(31) SODRÉ, Nelson Werneck, Op. Cit., p. 116; CHILCOTE, Ronald H., Op. Cit., p. 96.

(32) CHILCOTE, Ronald H., Op. Cit., p. 96; SEGATTO, José Antonio, Op. Cit., p. 54; PACHECO, Eliezer, Op. Cit., p. 185; SODRÉ, Nelson Werneck, Op. Cit., p. 117; PANDOLFI, Dulce Chaves, Op. Cit., р. 142.

(33) CHILCOTE, Ronald H., Op. Cit., p. 96-97; PACHECO, Eliezer, Op. Cit., p. 185-186; PANDOLFI, Dulce Chaves, Op. Cit., p. 141-143.

(34) CHILCOTE, Ronald H., Op. Cit., p. 97.

(35) BASBAUM, Leôncio. História Sincera da República (1930 a 1960). V. 3. 3. ed. São Paulo: Alfa-Omega, 1976, p. 174 apud Segatto, Op. Cit., p. 54.

(36) PACHECO, Eliezer, Op. Cit., p. 187; J. A. Segatto, Op. Cit., p. 55; PANDOLFI, Dulce Chaves, Op. Cit., p. 129.

(37) PANDOLFI, Dulce Chaves, Op. Cit., p. 144-151 e 153-155.

(38) Ibid., p. 127-134.