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sábado, 24 de outubro de 2026

Sargon Gabriel – “Hakkari” (canção assíria)

    Desde a vinda pra Bragança Paulista de um grupo de caldeus (às vezes chamados “assírios”) residente em Sarcelles, periferia de Paris, em julho de 2013, antes que partissem ao Rio de Janeiro pra participar da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) católica – primeiro grande evento internacional do recém-empossado papa Francisco –, fiquei fascinado por essa cultura quanto à língua, história e música. Eles são cristãos que praticam o “rito caldeu”, em comunhão com a igreja de Roma, e usam o aramaico como língua litúrgica, enquanto seu próprio idioma oral familiar é uma variante aramaica simplificada e modernizada. Apesar da diáspora já grande, os caldeus viviam em grande parte no noroeste do Iraque e no nordeste da Síria, mas em 2014 a expansão ofensiva do Daesh (vulgo Estado Islâmico) praticamente esvaziou a região dessa população. Apenas recentemente começou a haver um ressurgimento, sobretudo no Curdistão iraquiano, mais autônomo que seu congênere sírio.

Do ramo semítico a que também pertencem o árabe e o hebraico, o aramaico e suas variantes modernas, incluindo o sureth (ou suret), a mais usada delas, quase não são mais falados por populações nativas e correm o risco de ter a transmissão geracional cortada, em particular na diáspora euro-americana. Uma de minhas principais fontes sobre o assunto é o livro Parlons soureth, de Bruno Poizat, especialista francês que escreveu muitas outras obras didáticas, mas há também inúmeros sites sob o título genérico de “Learn Assyrian” ou “Assyrian Language”. Não vou entrar no mérito do gentílico “assírio”, embora há quem use a forma conciliatória “assírio-caldeu” e eu prefira usar “caldeu” pro idioma atual e seus dialetos modernos. Importa dizer que a cultura musical ainda é riquíssima, e quem se interessa pelas culturas do Levante, do Cáucaso e da Turquia em geral (há também ativas comunidades no sul da Rússia, especialmente em Krasnodar), vai achar aí um poço inesgotável de diversão.

Uma dessas canções que fala sobre a saudade da terra natal e a complexidade da história ancestral foi gravada várias vezes pelo cantor Sargon Gabriel. Infelizmente, a primeira versão (talvez a original solo, se descontados duetos antigos que ele fez), que era minha preferida, sumiu do YouTube, mas na gravação de 2004, que segue incorporada abaixo, um usuário trouxe em comentário a tradução em inglês da canção, cuja correção não pude confirmar. Por isso, estou a trazendo junto com minha própria versão em português, quase toda dependente desse texto em inglês. O título é Hakkari e se refere a uma região montanhosa, de maioria historicamente caldeia (vou usar aqui o termo como sinônimo de “assírio” em outras fontes), abrangendo atuais partes do extremo nordeste da Turquia e o extremo norte do Iraque e sonhada como futura pátria independente após a 1.ª Guerra Mundial.

Hoje, Hakkâri (com circunflexo) é nome de uma cidade, de um distrito e de uma província na Turquia, historicamente partes da citada região, mas hoje habitados majoritariamente por curdos, cuja relação com os caldeus até hoje está longe de ser tranquila. Hakkari esteve sob domínio nominal turco desde o século 16, mas até 1868, quando se tornou um sancak (ou sanjak, ou “sanjaco”, uma divisão administrativa) do Império Otomano, era na prática administrada de forma autônoma pelos caldeus e curdos. Os caldeus dessa região pertenciam a uma denominação cristã sem comunhão com Roma e viveram aí até 1924, quando foram expulsos os últimos remanescentes do genocídio perpetrado pelos turcos durante o conflito mundial (geralmente eclipsado pelo que ocorreu com os armênios). Suas exigências por um Estado próprio nas conferências de paz em Paris em 1919 não foram ouvidas, e após as rebeliões de 1924, os poucos que puderam ficar tiveram de se aliar aos curdos e se converter ao catolicismo caldeu.

Sargon Gabriel nasceu no centro do Iraque em 1947 e fez sua primeira aparição televisada em Bagdá, aos 17 anos, tendo feito back vocal pro cantor caldeu Albert Ruel Tamras antes de iniciar carreira solo. Seu primeiro álbum foi lançado em 1973, e desde então, entre duetos e a ajuda no lançamento de outros artistas caldeus, teve suas canções popularizadas em regravações de outros membros da diáspora e na execução em casamentos, festas e outros eventos sociais. Gabriel, que hoje vive em Chicago, lançou mais de 20 álbuns, o mais recente em 2012, e colaborou em vários outros, tendo como um de seus mais notáveis letristas o poeta sírio Adwar Mousa.

Esta página tem uma tradução alternativa de Hakkari, e segundo ela a melodia é anônima e vem do folclore turco tradicional, enquanto a letra foi criada por Melis Ishaya (às vezes “Eshaya”), cantor e produtor também focado na cultura caldeia. Os arranjos modernos são de Francis “Bijou”, baixista, compositor e produtor que colaborou longamente com Gabriel. Seguem abaixo o vídeo a que me referi, uma versão em karaokê (escrita perso-arábica) de um canal especializado em canções “assírias” e uma tradução pro polonês que achei por acaso; com esta, pelo menos, consegui comparar parte da gramática, que estava meio estranha em minha fonte. E finalmente minha tradução indireta pro português e a versão em inglês que utilizei (cada estrofe é cantada duas vezes):






Refrão:
Vou subir as montanhas de Hakkari
As montanhas de teu avô e de meu avô
Meu pai vem das montanhas e vales
Minha mãe vem das planícies e desertos
Meu pai vem das montanhas e vales
Minha mãe vem das planícies e desertos

1. Vou beber um vinho velho
Servido pelas mãos das donzelas
Vou cantar um rawe sobre a saudade
Da terra natal, que nunca esqueci

(Refrão)

2. E as donzelas de bela aparência
Vão estar ornadas com joulet khomaleh
Com faixas douradas e prateadas
E também lenços vermelhos e amarelos

(Refrão)

3. A dança em fila longa vai começar
A dança da juventude heroica
De Jilu, de Baz e até de Tyare
E Tkhuma com suas espadas e escudos

(Refrão)

4. A zurna e o tambor vão ser tocados
Vão ressoar em alto e bom som
Os cantores vão cantar
E os moços vão dançar com as donzelas

(Refrão)

Notas culturais:
1) O rawe é um canto folclórico tradicional e a cappella do povo caldeu, considerado uma das expressões mais antigas de sua literatura oral e herança cultural. São cantos épicos, melancólicos ou narrativos que expressam a vida social, as emoções, as dores e a história dos caldeus, em geral executados sem acompanhamento instrumental ou com ritmos tradicionais marcados.
2) Joulet khomaleh (ou julet khomala, que sei lá por que cargas d’água foi traduzido como “clothes of garages”) é o traje folclórico e vestimenta tradicional do povo caldeu, reservado pra ocasiões festivas, casamentos e celebrações importantes.
3) Jilu, Baz, Tyare e Tkhuma (junto com Dez) eram tribos cristãs não católicas e autogovernadas que povoavam localidades na referida região histórica de Hakkari, até o início de sua expulsão durante a 1.ª Guerra Mundial.

Chorus:
I will ascend the mountain of Hakkari
The mountains of your grandfather
    [and my grandfather
My father from the mountain and valley
My mother from the plain and desert
My father from the mountain and valley
My mother from the plain and desert

1. I will drink old wine
In the hands of maidens, held
I will sing rawe in [on?] my longed for
Country that I haven’t forgotten

(Chorus)

2. And the good-looking maidens
Ascended with clothes of garages
Gold and silver, belts/sashes
Red and yellow the shawls

(Chorus)

3. The long line-dance will begin
Heroic youths dance
Of Jilu and Baz even Tyari
Tkhume with his sword and shield

(Chorus)

4. The zurna and drum striking (playing)
Thundering with a loud sound
The singers singing
The youths and maidens dancing

(Chorus)



domingo, 9 de agosto de 2026

Pynia, uma paródia de Putin (2012)

    Em setembro de 2026, vão ocorrer na Rússia as chamadas “eleições” pra Duma Estatal, a câmara baixa (tipo a dos Deputados) da Assembleia Federal, isto é, do parlamento. Coloquei eleições entre aspas porque pelo menos desde 2012, se não antes, o pleito é completamente fraudado pra dar maioria absoluta ao Rússia Unida, partido de Vladimir Putin liderado por seu ex-premiê, Dmitri Medvedev, e hoje comparado ao Partido Comunista único na extinta URSS e países de regime similar. Exceto por outros partidos-satélites e candidatos inofensivos, possíveis críticos ao poder já têm o registro negado pelo Comitê Eleitoral Central, chefiado pela fiel Ella Pamfilova, ou as urnas são descaradamente violadas por funcionários escolhidos a dedo, quase sempre filmados pelas próprias câmeras de circuito interno.

O exemplo mais notório do primeiro caso foi o do político Boris Nadezhdin, quase candidato à presidência em 2024 e que na época César Tralli chamou até de “Nadesim”. Recentemente, recebeu o estatuto jurídico de “agente estrangeiro” (ou inoagent), o que na prática o torna um “cidadão menos igual que os outros”, e foi processado por exibir “simbologia extremista” numa live, na verdade um retrato de Aleksei Navalny. Tudo isso praticamente acabou com suas pretensões de voltar a ocupar uma cadeira de opositor na Duma, onde já esteve de 2000 a 2003.

As fraudes – sem contar os assassinatos políticos – já eram conhecidas desde as décadas de 1990 e 2000, mas elas tomaram uma escala inaceitável pra maioria da população em 2011 (eleições pro Conselho Municipal de Moscou) e 2012 (eleições pra Duma Estatal). Na virada desses dois anos, ocorreram os maiores protestos de rua por todo o país desde o fim da URSS e que só seriam quase igualados pelos rapidamente abortados protestos contra a invasão da Ucrânia, logo depois que ela começou. O “milagre econômico” putinista dos anos 2000, resultante em grande parte, como no Brasil, do “boom das commodities” mundial, não foi acompanhado de reformas estruturais relevantes e começou a demonstrar desgaste antes mesmo da explosão de nossas “Jornadas de Junho” em 2013. Putin sabia que seu reino estava seriamente ameaçado, e as imagens de ditadores árabes depostos ou “cancelados” durante o ano de 2011, dizem, o teriam atemorizado profundamente.

Num cenário desses, a única forma de se manter no poder era pela força, pelo terror e pela eclosão de guerras que despertassem o brio patriótico das massas: assim foi com o roubo da Crimeia em 2014, com o assassinato de Boris Nemtsov em 2015 bem nos arredores do Kremlin e com o assalto à Ucrânia em 2022, o qual, porém, ficou muito longe de ter o mesmo efeito de oito anos antes. Ao contrário dos noviços viciados em Instagram que ainda acham que a Rússia toda ama Putin (e isso independente de língua, etnia e religião!), o povo de verdade já criticava e fazia piadas desde sempre, de fato, com sua fisionomia insossa e sua estatura minguada caindo na zoeira antes mesmo da generalização da corrupção, precarização dos serviços públicos e autoritarismo. O antológico programa Kúkly, em que políticos eram figurados por bonecões manipuláveis e dublados por atores na virada do século, saiu do ar exatamente quando o trombadinha de Leningrado começou a ser retratado como uma cria infeliz de Ieltsin. Na mídia estatal, o burocrata inexpressivo, malvestido e desajeitado foi todo repaginado pra dar essa imagem do “lutador de judô” e “cavalgador de ursos” até hoje idolatrada por viúvas de ditadores no Ocidente.

Mesmo assim, nos tempos mais distendidos ou mais repressivos, a zombaria nunca cessou, e uma das caricaturas de Putin talvez pouco conhecida na Banânia seja a do “Pýnia” (Пыня), surgida dentro da própria propaganda estatal em 2011 e retomada pela oposição em 2017. Segundo o Wikcionário em russo, baseado em outras fontes, o substantivo comum “pynia” é uma gíria típica da região de Kaluga indicando uma pessoa esnobe, arrogante, exibida, orgulhosa, petulante, cheia de si, e geralmente se refere a mulheres. Já segundo o portal YouSlang, pynia também significaria um golpe dado no estômago, mas seu uso mais amplo era o de uma referência irônica a um liberal ocidental ou pró-Ocidente, que defenderia suas ideias de forma burra ou desconexa, mais ou menos o que entendemos por “liberaloide”.

Aqui devo abrir um parêntese. No embate político da Rússia, sobretudo online, “liberal” sempre foi considerado um xingamento, muito mais do que na Terra de Santa Cruz. Aqui, exceto por sua oposição a “conservador” em questões societárias (quando preferimos geralmente usar o termo “progressista”), tendemos a considerar “liberal” alguém que apoia o livre mercado, a democracia política e a redução do papel do Estado na economia ao mínimo necessário. A estigmatização fica mais a cargo de extremos vagamente definidos, como “fascista” e “comunista”. Na Moscóvia, “liberal” se tornou uma ofensa, pelo menos entre os putinistas, exatamente por causa de tudo o que estes defendem: supremacismo russo, fechamento ao mundo exterior, demonização dos EUA e da Europa Ocidental, estatismo econômico, Estado autoritário e centralizado, expansionismo territorial, ortodoxia religiosa, culto à guerra e crença no chefe infalível. É claro que “liberalismo” não tem um sentido unívoco em todas as épocas e lugares, por vezes chegando a combinar um completo laissez-faire com a ditadura militar mais terrorista. Mas fecho o parêntese aqui.

O fórum em língua russa Dvach (também conhecido como “2ch”, em referência à palavra chan) foi a principal plataforma em que surgiram as primeiras manifestações do Pynia, mas também as primeiras tretas entre apoiadores do regime e críticos que começaram a usar o personagem contra o próprio Putin. Conta a lenda que a animação, representando um adolescente “militante de sofá”, sustentado pela mãe e sem vida social, que passava seus dias a atacar o Kremlin por todos os males do país, foi criada por agitadores pagos bem na época desses protestos de 2011-12, mais exatamente contra Aleksei Navalny, então despontando como o maior opositor nacional. Segundo esse estereótipo (curiosamente aplicado no Brasil a esquerdistas, muitos dos quais apoiam Putin), os navalnistas seriam essa figura inútil, descuidada, desocupada e obcecada por fóruns virtuais, como a plataforma de blogs Livejournal, na qual o político angariou fama.

Não sei se a intenção inicial foi fazer uma alusão à fisionomia de “Nalvane” (como o chamou Renata Vasconcellos) – ver o exemplo deste blog abandonado –, mas parece ter sido um dos clássicos casos em que o feitiço se voltou contra o feiticeiro. De fato, se observarmos num dos em que sobreviveu a série de cinco vídeos postados bem no início de 2012 (é impossível retraçar a verdadeira gênese, enquanto o endereço indicado não parece apontar mais a um canal semelhante), o rosto do Pynia tem traços muito mais alusivos aos do ditador, sobretudo antes da primeira presidência e toda vez que ele precisa reaplicar seu botox. Pra piorar, “Pynia” não podia ser mais alusivo sonoramente ao sobrenome “Putin”, de forma que, segundo o mesmo YouSlang e as Wikipédias em inglês e francês, o meme antes referente aos liberais acabou sofrendo reversão e se tornando um sinônimo de Vladimir Vladimirovich.

Antes que as BRICSetes aqui presentes comecem a espernear, aviso que Volodymyr Zelensky também tem seus apelidos, alguns dos quais criados pela própria oposição ucraniana e em referência pejorativa ao fato do ex-ator ter outrora (até 2014) trabalhado muito mais na Rússia e/ou em russo. Escolha o seu: Zélia, Zelúpa, Zielieiób (que joga com a pronúncia russa), Zelebóba... Porém, o “povo” que “venceu os adolfistas” e “lançou o satélite e o homem no espaço” não podia ser menos criativo pra apelidar os próprios governantes. Pynia tem diversos derivados, entre eles “Pynebábve” (“Zimbábue de Putin”), “pyneliúb” (adorador de Putin) e “Pynestán” (“Putinstão”). Meu preferido, porém, é “pynekhódy” (пынеходы, algo como “pyniamóvel”), celebrizado como referência aos supostos calços que o ditador usaria em seus sapatos pra parecer pelo menos 10 cm mais alto do que realmente é.

Vou deixar outras explicações pra dois artigos de época que traduzi abaixo: um escrito pelo ucraniano Ivan Iakovyn, disponível em russo e ucraniano e intitulado “A guerra em torno do Pynia: como os russos garraram ódio de Putin” (15 de novembro de 2018), e outro publicado ainda em 2017 na enciclopédia de memes russos, contando o essencial da história. Coloquei notas explicativas entre colchetes onde achei necessário. Antes deles, os seis vídeos que integravam a série em outro canal e dos quais fiz backup pra qualquer eventualidade, e entre eles, alguns dos principais memes ou montagens do “Pynia” já putinizado que selecionei no Google. Dos vídeos traduzi apenas o título e resumi o conteúdo, pois a transcrição completa daria muito trabalho e não teria tanta graça.

A riqueza linguística do debate na Rússia exige ainda a explicação de outros termos. O primeiro e principal deles é a sigla “PZhiV” (ПЖиВ), que Pynia pronuncia o tempo todo nos primeiros vídeos como “pjif, pjif, pjif...” (daí a ortografia humorística “PZhiFF/ПЖиФФ”) e significa “Pártia zhúlikov i voróv” (Partido de Bandidos e Ladrões). Referência pejorativa ao Rússia Unida de Putin, tem a paternidade reivindicada por vários políticos, mas se popularizou no início da década de 2010 entre Navalny e seus apoiadores durante os protestos de rua e as manifestações online. Num dos vídeos também aparece a gíria “Iá – D’Artanián” (Eu sou D’Artagnan), significando o sentimento ególatra de estar sempre certo e considerar os outros errados. Há ainda a expressão “nashísty”, uma fusão de “Náshi”, movimento de apoio juvenil a Putin de 2005 a 2019, com “nazistas” (natsísty) – por isso também chamado de “Putinjugend”. No sentido inverso, também se referia ao partido “Násha Ukraína”, fundado em 2005 pra apoiar a candidatura do presidente ucraniano Viktor Iushchenko e virtualmente invisível desde 2013.


Este é o verdadeiro primeiro episódio, embora num dos canais ele não apareça e o segundo é que esteja indicado como primeiro. As características básicas do Pynia são apresentadas: adolescente, ele não estuda direito, não socializa e não faz as tarefas de casa, fica o dia inteiro reclamando de Putin na internet. A mãe lhe pede pra comprar coisas, mas ele responde que “a vida está uma porcaria”. Pede-lhe pra estudar visando ser alguém na vida, mas ele responde que está “combatendo a corrupção” e que “nesse país, não adianta nada estudar”. Ela lhe pede até pra ir visitar a avó doente, mas ele critica o governo porque “não cuida dos aposentados e lhes dá uma pensão de nada”.

30 anos depois, Pynia ganha pelos e gordura, mas continua só criticando o governo nos fóruns virtuais. Sua mãe idosa não vive mais lá e se aposentou, mas até a pensão dela ele parasita, porque não faz mais nada na vida. Nem mesmos consertos básicos ele quer fazer na casa dela: só quando Putin cair é que as coisas vão melhorar...


Pynia nasceu na década de 1990, quando a Rússia estava falida e sua mãe precisava trabalhar pra sobreviver. Seus pais são separados e o pai já vive com outra família. Pynia sempre tem que estar “lutando” por alguma coisa porque se sente sozinho, já que não sai pra socializar ou mesmo pra fazer esportes, dos quais não gosta, ou artes, às quais não se adequou. Esteve particularmente ativo online durante os protestos do fim de 2011. Está o tempo todo no computador, mas não vê nem mesmo outros tipos de vídeos mais leves que viralizam – a não ser, claro, que se canse da luta política.

No quadro, a chinchila (que “anda em círculos” o tempo todo) está repetindo a sigla humorística “Pjif, pjif, pjif...” e diz “Meus milhões”, provável referência a acusações de corrupção contra Navalny, jamais comprovadas, envolvendo milhões de rublos.


Aqui é contado como Pynia se tornou popular na internet. Ele tentou ficar popular postando vários vídeos seus no YouTube fazendo coisas engraçadas, mas não teve sucesso e só recebia críticas. Finalmente, ele consegue notoriedade e elogios falando mal de Putin e de Medvedev, ao que recebe muitas visualizações e comentários de apoio.


Pynia não foi aos protestos de 2011 contra a falsificação das eleições em Moscou, mas está assistindo à transmissão online, sentido como se estivesse lá. (É curioso como os próprios governistas não problematizam o termo “falsificação” dos opositores...) Boris Akunin, célebre escritor russo contemporâneo, opositor de Putin e hoje exilado, foi um dos líderes dessas manifestações. Como os protestos eram basicamente coisa de fóruns da internet, segundo os putinistas, foi nesse espaço que Akunin teria dado aos manifestantes a “lição de casa” de derrubar Putin. Pynia pensou longamente como fazer isso, mas basicamente só dizia a si mesmo que se isso ocorresse, tudo na vida e no país seria melhor, como uma “solução mágica”. Até dinheiro, namorada e filhos ele conseguiria!


Neste vídeo, Pynia conversa com um “amigo” virtual seu, provavelmente dos EUA (aliás, meio parecido com Gianni Infantino, rs). O americano usa contas falsas apenas pra zoar com os russos, e ele faz Pynia de trouxa, porque enquanto o elogia “na cara”, demonstra desprezo pela Rússia intimamente. O americano passa a imagem de EUA que funcionam e onde você nem precisa estudar pra ser alguém na vida (aliás, Pynia sequer é bom aluno na escola). Diz que o amigo nasceu no país errado e que a “Rasha” (alusão à pronúncia inglesa de Russia) não serviria pra ele revelar suas “qualidades”. Pynia mimetiza o amigo dizendo “maldita Rasha, maldita Rasha” o tempo todo, até que o americano sai da conversa, mas entra de novo com um perfil diferente. E lá vai ele de novo zoar com Pynia...


Aqui, Pynia participa de um “concurso” virtual pra melhor música contra o “Partido de Corruptos e Ladrões” (o Rússia Unida, lembremos). Ele compõe oito versos bem bobos, que dizem basicamente que Putin não presta e só ele (Pynia) tem razão. Ele publica e obtém novo “sucesso” na internet, mas não dizem se ele ganhou ou não. “Pynia pra presidente”, alguém escreve; afinal, como ele mesmo diz, “Já está comprovado que xingar Putin é o caminho mais curto pra fama”. Em todo caso, o sucesso lhe “sobe à cabeça” e Pynia já planeja todos os detalhes de sua nova “carreira”. No final, lhe vem a indagação sobre se sua mãe já tinha ou não comprado pão...


O último vídeo mostra o que chamam de “Hino a Navalny”, que não deve ser confundido com canções homônimas lançadas por reais apoiadores. Os “Pynias” (ou seja, esses apoiadores “liberaloides de sofá”) são retratados como um exército de zumbis acríticos que seguem e acreditam em tudo o que o oposicionista publicava em seu blog pessoal. Nem preciso dizer que a caricatura cabe muito mais a Putin e aos putinistas, não se podendo descartar a hipótese de uma “sabotagem interna” durante a produção desse clássico...

Segue o que consegui tirar da letra e a tradução, pelo menos as partes mais relevantes, já que em boa parte do tempo a primeira estrofe é repetida várias vezes:

Navalny é tudo pra nós
Somos felizes em servi-lo
Ele semeia bondade, ele traz luz
PZhiV, PZhiV, PZhiv

Somos um pouco jovens e belos
E incrivelmente inteligentes
Escolhemos um caminho importante na vida
Lutar pelo bem do país

Não precisamos trabalhar nem nos esforçar
Assim é nosso método de luta
Devemos urrar o mais alto possível
Contra os bandidos e ladrões

Precisamos grunhir pela internet
Sobre os milhões esbanjados
Não nos importa que tipo de governo é esse
Simplesmente somos oposicionistas

Não precisamos trabalhar nem nos esforçar
Quem foi trouxa, que se esforce
Só precisamos ler o LiveJournal
O LiveJournal é nossa Bíblia

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Навальный – это наше всё
Ему мы рады служить
Он сеет добро, он свет несёт
ПЖиВ, ПЖиВ, ПЖиВ

Молоды и красивы немного
И невероятно умны
Мы выбрали важную в жизни дорогу
Бороться во благо страны

Не надо работать, не надо пахать
Наш метод борьбы таков
Надо как можно громче орать
Про жуликов и воров

Надо в интернетах повизжать
Про списанные миллионы
Что там за власть да нам плевать
Мы просто оппозиционные

Не надо работать, не надо пахать
Глупое было, пусть пашет
Только ЖеЖешечку надо читать
ЖеЖешечка – Библия наша



Há alguns dias, aconteceu na Rússia algo inofensivo, mas, ao que me parece, revelador

Na distante e pacata cidade de Perm, amarraram a um poste Vladimir Putin vestido de presidiário e com a palavra “ladrão” [na foto acima, está “mentiroso”] escrita na testa. É verdade que desta vez não era o próprio presidente que se encontrava no poste, mas um boneco dele. Mesmo assim, até em Moscou tais protestos são raros, e mais ainda no interior. Outro ponto: os passantes não se indignaram com o boneco nem demonstraram qualquer simpatia por Putin. Pior, todos riam e tiravam fotos com ele.

Ao verem a instalação, os policiais ficaram horrorizados e começaram a deter quem tirava fotos com o falso Putin amarrado ao poste. Depois até foram liberados, pois não se conseguiu acusá-los de nada.

Mesmo assim um processo ainda foi aberto. Aleksandr Shabarchin, um dos colaboradores da sede local de Navalny, chegou a ser preso. Como formalmente ele não tinha cometido nenhum crime, as autoridades decidiram o enviar ao exército: agora ele está no comissariado de alistamento militar. Ele próprio diz que não está bem de saúde, mas acho que lá vai se recuperar prontamente.

Seja como for, o protesto teve um momento divertido: outra inscrição sobre o boneco de Putin dizia: “V. V. Pynia, criminoso de guerra”. Esse meme não é muito conhecido na Ucrânia, onde Putin é mais frequentemente chamado de “la-la-la” [provável referência ao lema “Putin Cabeça de Rola”, originalmente seguido do canto]. Porém, na internet russa, travou-se uma verdadeira guerra entre os apoiadores e opositores de Putin.

A mando do Kremlin, blogueiros putinistas elaboraram uma imagem genérica de seu inimigo: um intelectual nulo, patético e mimado, dependente dos pais, sem namorada nem trabalho. Chamaram-no “Pynia” e investiram uma fortuna pra promover essa imagem de quem apoia a oposição. Mas algo deu errado. Os criadores do meme lhe deram um rosto muito parecido com o do presidente. Além disso, “Pynia” soa parecido com o sobrenome “Putin”. Resultou que a imagem do parasita vil, repugnante e inútil na qual o Kremlin investiu terminou colada a seu mandatário.

Oposicionistas começaram a chamar Putin de “Pynia”, o que despertou uma fúria selvagem e insana entre os blogueiros e estrategistas políticos do Kremlin. Eles foram privados da imagem que cultivaram meticulosamente durante vários anos.

Nas vastidões da internet foi travada uma longa guerra em torno do Pynia. Os adoradores de Putin sonhavam em restaurar seu significado original e até acusaram a Ucrânia de roubar o Pynia. Mas o protesto em Perm finalmente colou esse apelido no presidente da Rússia. Agora, para todos os russos, ele vai ser V. V. Pynia, um ladrão e criminoso de guerra.

Esta notícia ficaria incompleta sem as últimas informações sobre as chamadas eleições na Rússia. Na distante República da Cacássia [Khakásia, vai, sejamos justos...], onde a Mongólia é mais próxima que Moscou, esse mesmo Pynia sofreu mais uma grande derrota. Todos os esforços das autoridades pra impedir a vitória do candidato comunista fracassaram.

Já perderam eficácia a propaganda, a dinheirama, as falsificações em massa e os estrategistas políticos da capital. No interior, o povo está cada vez mais odiando o poder. E eu acho isso muito bom.









Pynia é um meme que inicialmente representava uma imagem genérica de um apoiador passivo da oposição, mas que após alguns anos passou a ser associado a Vladimir Putin.

Origem: Tudo começou com uma série de vídeos online sobre o Pynia. O primeiro apareceu no YouTube em 29 de dezembro de 2011. Nele, um típico liberal de sofá [ou “militante de sofá”, como diríamos no Brasil] passava dias inteiros criticando o governo na internet.

Em janeiro de 2017, alguém resolveu reviver o meme e apresentou no Dvach um novo Pynia – “ou, resumindo, uma imagem genérica do gado liberal-ucraniano, permitam lhes apresentar”.

Os usuários do fórum consideraram que o meme estava sendo deliberadamente promovido pelos chamados “olgintsy” ou “savushkintsy” (pessoas pagas pra escrever comentários pró-governo e alimentar disputas políticas online).

Os membros anônimos do Dvach não quiseram suportar isso e decidiram virar o meme contra os próprios trolls:

Os Pynias receberam de seu mestre a tarefa de espalhar o máximo possível de memes com o Pynia. Na verdade, os olgintsy não sabem pra quem estão trabalhando, já que as ordens são encaminhadas usando centenas de pequenas empresas de fachada e podem sinceramente estar “lutando” contra os olgintsy.

Significado: Graças aos esforços dos usuários do Dvach, apareceram inúmeras imagens engraçadas de Putin retratado como o Pynia, e a busca do Google a respeito do assunto começou a indicar artigos sobre o presidente.

Muitos chamam esse confronto de “Guerras Pýnicas”. A vitória foi dos membros anônimos. Agora, ao buscar por “Pynia” na internet, é possível encontrar principalmente fotos de Vladimir Putin, e nas redes sociais, qualquer notícia sobre o presidente é comentada com uma menção ao Pynia.



Uma das versões associando Pynia a Navalny.

sexta-feira, 6 de março de 2026

Verdades sobre a vida

Um amigo meu quis fazer besteira com IA (até agora não entendi o que passou pela cabeça dele), mas acabei tendo outra ideia:



É como reza a sabedoria popular: a beleza passa...



... mas a virtude e o caráter...



... sempre permanecem!


domingo, 1 de março de 2026

A guerra eterna de Putin (The Economist)

Um amigo meu me mandou esta matéria da revista britânica The Economist, publicada na coluna Leaders da edição de 21 de fevereiro de 2026 e intitulada “Putin’s forever war”. A tradução do título, sugerida pelo Google, foi “A guerra sem fim de Putin”, mas eu prefiro chamar de guerra eterna, já que, além de soar mais elegante, forever de fato significa “pra sempre”. Como ficou óbvio, usei o Google pra poupar tempo de digitação, mas como sempre faço nesses casos – e reitero pra que ninguém esqueça –, confrontei o resultado com o original em inglês, já que a mão humana sempre deve finalizar os trabalhos automáticos. Salvo por algumas particularidades redacionais, optei por mexer o mínimo possível no resultado e não lhe imprimir meu famoso “estilo coloquial”.

Exceto pelas curtas notas, concordo em cada vírgula com o texto (que deve ser editorial), pois ele reflete inclusive as análises do jornalismo opositor russo mais próximo das realidades locais – em Moscou e em Kyiv – e de outras organizações ao redor do mundo dedicadas a monitorar os combates. A montagem abaixo, inclusive, vem de um print que fiz do programa analítico semanal de Mikhail Fishman na TV Rain. E é incrível como a mentalidade dos intelectuais e acadêmicos brasileiros continua muito alheia a isso, alegando “distância sanitária” do mundo “imperialista”. E mesmo que o imperialismo ocidental seja um dado irrefutável, como prova a intervenção israelo-americana no Irã iniciada ontem, ainda não programei materiais sobre o que pode futuramente acontecer na região.



O presidente da Rússia não consegue vencer a guerra, mas teme a paz

Você poderia pensar que, após quatro anos sangrentos, uma guerra que nenhum dos lados consegue vencer teria se extinguido sozinha. Mas não a guerra na Ucrânia. E a culpa recai sobre um único homem.

Vladimir Putin está preso em um dilema criado por ele mesmo. As chances de seus exércitos na Ucrânia produzirem algo que ele possa chamar de vitória estão diminuindo. Muitas pessoas esperam que as negociações de paz, que continuam em Genebra esta semana, lhe deem uma saída, porque o presidente Donald Trump forçará a Ucrânia a ceder território. Na verdade, essa rota de fuga está se tornando cada vez menos provável. E mesmo que um acordo de paz fosse concluído, as consequências dentro da Rússia poderiam causar instabilidade econômica e política, arruinando os planos de Putin de ser considerado um dos maiores tsares da história.

O primeiro problema para o presidente da Rússia é o campo de batalha. Na Grande Guerra Patriótica, de junho de 1941 a maio de 1945, o Exército Vermelho avançou 1 600 km de Moscou a Berlim. Nesta guerra prolongada, as forças russas em Donetsk, o foco principal, avançaram apenas 60 km – a mesma distância entre Washington e Baltimore.

A Rússia não conseguiu gerar força de combate suficiente para romper as linhas ucranianas. Na “zona de morte” de 10 a 30 km ao redor da linha de frente, vulnerável a drones e seus operadores oniscientes, soldados e equipamentos não podem se concentrar sem se tornarem alvos. Mesmo que as forças russas consigam romper as linhas ucranianas, elas têm dificuldades para explorar seu sucesso.

Na trajetória atual, Putin não conseguirá mudar isso. Nos primeiros três anos, a Rússia estava construindo seu exército. No final do ano passado, estava perdendo mais homens do que conseguia recrutar. Eles são mal treinados, o moral está baixo e as taxas de deserção estão mais altas do que nunca. A Starlink cortou o acesso das forças russas aos terminais contrabandeados dos quais dependiam para localizar alvos. Seu próprio governo cortou o Telegram, que eles usavam para se comunicar na linha de frente.

Putin terá dificuldades para aumentar a quantidade e a qualidade dos recrutas. A Rússia depende do dinheiro, e não do patriotismo, para alistar soldados. A probabilidade de morte ou ferimentos, a negligência com os veteranos e a tentativa do Estado de se esquivar do pagamento de indenizações [“coffing money”, entre aspas no original] às famílias dos soldados mortos estão elevando o custo do recrutamento. Desde junho de 2025, segundo o think tank Re: Russia [portal independente de análises e discussões], o bônus médio de alistamento aumentou meio milhão de rublos, chegando a 2,43 milhões de rublos (US$ 32 mil). Está cada vez mais difícil encontrar dinheiro. A conta anual de 5,1 trilhões de rublos para tudo isso equivale a 90% do déficit orçamentário federal. O restante da economia está encolhendo. Os pagamentos da dívida estão aumentando. A perspectiva para as receitas do petróleo é ruim.

O esforço de guerra da Rússia não está prestes a entrar em colapso. Putin pode atacar cidades e redes elétricas ucranianas para destruir o moral e a economia. Mas é improvável que ataques aéreos por si só levem à capitulação. Ele pode acreditar que a Europa abandonará a Ucrânia, mas o apoio europeu aumentou no ano passado. Sua maior esperança pode ser que a Ucrânia, sofrendo com grave escassez de mão de obra e equipamentos, passe por uma crise política ou comece a ficar sem combatentes e armas antes da Rússia. No entanto, a aposta de Putin no colapso ucraniano tem sido perdedora nos últimos quatro anos – e as probabilidades estão diminuindo.

Por que, então, ele não concorda com a paz? Se Putin pudesse consolidar os ganhos da Rússia e se reagrupar, ele sempre poderia atacar a Ucrânia novamente em algum momento no futuro.

Na verdade, é improvável que qualquer plano de paz satisfaça a Rússia. As negociações têm um caráter de fachada [Potemkin quality], ilustrado pela promessa absurda de um dividendo de paz de US$ 12 trilhões, grande parte a ser dividida entre a Rússia e os EUA (ver a seção Finanças). Também é improvável que elas deem a Putin o território que ele não conseguiu tomar pela força e que ele deseja para declarar vitória.

Para a Ucrânia, entregar seu território mais bem defendido seria um desastre estratégico. E embora Trump ainda tenha influência, sua capacidade de pressionar Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia, a aceitar um mau acordo já passou de seu auge. É verdade que os EUA ainda vendem armas vitais para a Europa, que as repassa para a Ucrânia. Mas a Ucrânia agora depende menos da inteligência americana do que antes, e os EUA reduziram em 99% seu financiamento da guerra. Se, como parece provável, qualquer acordo de paz envolver garantias de segurança americanas para a Ucrânia que estejam consagradas em um tratado, o Senado terá que ratificá-lo. Isso também ajudará a evitar um acordo unilateral.

Outro motivo para Putin ser cauteloso quanto a um acordo é que a própria paz poderia desencadear uma crise na Rússia. Como explica nossa coluna de opinião, a Rússia desviou tantos recursos para a defesa, agora representando 8% do PIB, que o restante da economia está debilitado (ver a seção By Invitation). A ilegalidade do regime e a perspectiva de novas hostilidades afastarão novos investidores. O desafio de realocar recursos da guerra para a paz, incluindo encontrar trabalho para os soldados que retornam da frente de batalha, pode induzir uma profunda recessão.

A situação política também seria desagradável. Veteranos descontentes desestabilizam regimes, especialmente na Rússia, como aconteceu antes da revolução de 1917 e depois da guerra no Afeganistão na década de 1980. Pesquisas sugerem que os russos inicialmente receberiam bem o fim dos combates. Mas certamente surgiriam questionamentos: sobre a campanha mal conduzida, o desperdício de vidas e recursos e a humilhante dependência da Rússia em relação à China para apoio financeiro e militar em nome da preservação de sua própria civilização. Isso poderia limitar a capacidade de Putin de reiniciar a guerra. Poderia inclusive representar uma ameaça a seu poder.

Putin não pode desistir da guerra, mas o custo de mantê-la está aumentando. Se suas tentativas de gerar mais força de combate apenas enfraquecerem ainda mais a Rússia, isso poderá levar a uma crise. Caso contrário, a Ucrânia e a Rússia ficarão presas no conflito. Há algo que possa ser feito para acabar com isso? Investigar a frota secreta da Rússia e ativar um plano do Senado para punir os compradores de seu petróleo poderia limitar as receitas de exportação. Contrariar a propaganda de Putin de que os EUA e a Europa estão empenhados em destruir a Rússia ajudaria. Assim como corrigir suas alegações de uma inevitável vitória russa: ninguém, muito menos Trump, gosta de apoiar um perdedor.

É difícil forçar um ditador a agir. Em última análise, a disposição de Putin em continuar lutando depende da dor que ele está disposto a infligir. Mas quanto mais dor houver, mais claro ficará para os russos que ele está trazendo a ruína sobre eles.



quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Canções fascistas traduzidas (4)

Além da recém-retraduzida Giovinezza, confesso que sempre achei bonitas as canções do período fascista da Itália (1922-43), quando ela se manteve formalmente como uma monarquia, mas na prática se tornou uma ditadura sob o primeiro-ministro Benito Mussolini. Fundador do Partido Nacional Fascista (PNF) e idealizador do fascismo (embora suas fontes intelectuais tenham sido diversas), ele tinha sido expulso do Partido Socialista Italiano por apoiar a participação do país na 1.ª Guerra Mundial e criou a matriz das extremas-direitas que tomariam o poder no período posterior, exacerbando o nacionalismo, destruindo o movimento operário independente e cultuando a guerra.

Melodias agradáveis, mas com cujo conteúdo e uso não posso concordar. Portanto, embora eventualmente apareçam por aqui adoradores do Duce (“guia, condutor”), estas traduções, que eu desejava fazer desde os tempos do Pan-Eslavo Brasil, meu finado canal no YouTube, têm um fim meramente educativo. Portanto, me abstenho de dizer mais, e apenas ressalto que por praticidade decidi não adicionar os nomes dos autores e que traduzi diretamente, deixando a linguagem mais informal e simples, sem mexer no conteúdo. Sempre que possível, incorporei os vídeos a partir de uma fonte mais antiga, que geralmente tem a legenda em italiano passando, e de outra que o Google gera automaticamente. Igualmente, apenas publiquei as traduções, e não as letras originais, que podem ser vistas nas respectivas fontes; coloquei todas as iniciais de linhas em maiúsculas e mantive a pontuação original quando possível.

A versão italiana do Wikisource tem uma seção só com letras de canções fascistas, embora esteja longe de ser exaustiva. Este blog publicou um ótimo trabalho sobre o hinário de Mussolini e trouxe ainda ampla ilustração sobre o colonialismo na África, com imagens particularmente racistas. Por outro lado, sempre há aqueles saudosistas que devemos citar de um jeito ou de outro, como esta coleção que inclui cantos de extrema-direita em geral e esta publicação cujo hospedeiro dispensa explicações.

As duas primeiras publicações são dedicadas à ideologia fascista de uma forma geral, e as duas últimas contêm letras com alusões à ocupação da Etiópia e da Somália, cujo arremedo de “império colonial” era crucial pra propaganda de Mussolini. As escolhas foram bem arbitrárias e, obviamente, não exaustivas. A primeira canção se chama Ti saluto, vado in Abissinia (Te saúdo, vou à Abissínia, nome histórico da Etiópia e da Eritreia), a segunda se chama Avanti gloriose schiere (Avante, fileiras gloriosas) e a terceira se chama Faccetta nera (Rostinho negro).




1. Estão se formando as fileiras e os batalhões
Que vão marchando em direção à estação.
Deixaram seus vilarejos natais
Cantando ao vento um alegre refrão.
O trem parte e em cada janela
O soldado moço repete alegremente:

Refrão:
Eu te saúdo e vou à Abissínia,
Querida Virginia, mas vou voltar.
Assim que chegar ao acampamento
Vou te escrever do regimento.
Vou te mandar da África uma bela flor
Que nasce sob o céu [da linha] do equador.
Eu te saúdo e vou à Abissínia,
Querida Virginia, mas vou voltar.

2. Um jovem soldado é todo ardor,
Outro tem no peito os sinais da bravura,
Mas vão juntos cheios de alegria
Cantando os hinos da juventude.
O velho da infantaria que não pode partir
Lamenta no coração por não poder dizer:

(Refrão)

4. Dos Alpes ao mar, chegando até o equador
Vamos hastear a Tricolor por toda parte
Eu te saúdo e vou à Abissínia,
Querida Virginia, mas vou voltar.


1. Estou deixando a mamãe, a doce casinha,
Minha pequena filha amada,
E agarro o destino que está esperando
Assinalar meu coração de glória;
E nos peitos, nos sangues de todos,
Um só grito: o Império. Vamos o ter!

Refrão:
Avante, fileiras gloriosas,
Vamos fincar as bandeiras tricolores,
A África vai ter um único nome: Roma,
É o grande nome da civilização eterna.

2. Você me beija, ó, menina gentil,
E me diz: vou partir com você, só me dê
Teu amor e um fuzil,
A coragem e a fé eu vou ter.
Sou mulher da Itália e não abandono
Que vai dar um Império à Itália.

(Refrão)

3. E a lembrança dos velhos soldados,
Que conduz sobre o novo caminho,
Tantos aviadores inexperientes abraçados,
Todos ligados por um só destino,
Estão cantando Giovinezza, e essa canção
Nos dá força, amor e conquistas.

(Refrão)




1. Se do altiplano você olhar o mar,
Moreninha, que é escrava entre os escravos,
Você vai ver, como num sonho, muitos navios
E uma Tricolor tremulando por você.

Refrão:
Rostinho negro, bela abissínia,
Aguarde com esperança, pois está chegando a hora!
Quando estivermos junto a você,
Vamos te dar uma outra lei e um outro Rei.

2. Nossa lei é a escravidão do amor,
Nosso lema é liberdade e dever,
Nós, Camisas Negras, vamos vingar
Os heróis que tombaram ao te libertarem!

(Refrão)

3. Rostinho negro, pequena abissínia,
Vamos te levar, liberta, a Roma.
Você vai ser beijada por nosso Sol,
E você também vai vestir a Camisa Negra.

4. Rostinho negro, você vai ser romana,
Tua bandeira será apenas a italiana!
Vamos marchar junto com você
E desfilar diante do Duce e do Rei!



segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Canções fascistas traduzidas (3)

Além da recém-retraduzida Giovinezza, confesso que sempre achei bonitas as canções do período fascista da Itália (1922-43), quando ela se manteve formalmente como uma monarquia, mas na prática se tornou uma ditadura sob o primeiro-ministro Benito Mussolini. Fundador do Partido Nacional Fascista (PNF) e idealizador do fascismo (embora suas fontes intelectuais tenham sido diversas), ele tinha sido expulso do Partido Socialista Italiano por apoiar a participação do país na 1.ª Guerra Mundial e criou a matriz das extremas-direitas que tomariam o poder no período posterior, exacerbando o nacionalismo, destruindo o movimento operário independente e cultuando a guerra.

Melodias agradáveis, mas com cujo conteúdo e uso não posso concordar. Portanto, embora eventualmente apareçam por aqui adoradores do Duce (“guia, condutor”), estas traduções, que eu desejava fazer desde os tempos do Pan-Eslavo Brasil, meu finado canal no YouTube, têm um fim meramente educativo. Portanto, me abstenho de dizer mais, e apenas ressalto que por praticidade decidi não adicionar os nomes dos autores e que traduzi diretamente, deixando a linguagem mais informal e simples, sem mexer no conteúdo. Sempre que possível, incorporei os vídeos a partir de uma fonte mais antiga, que geralmente tem a legenda em italiano passando, e de outra que o Google gera automaticamente. Igualmente, apenas publiquei as traduções, e não as letras originais, que podem ser vistas nas respectivas fontes; coloquei todas as iniciais de linhas em maiúsculas e mantive a pontuação original quando possível.

A versão italiana do Wikisource tem uma seção só com letras de canções fascistas, embora esteja longe de ser exaustiva. Este blog publicou um ótimo trabalho sobre o hinário de Mussolini e trouxe ainda ampla ilustração sobre o colonialismo na África, com imagens particularmente racistas. Por outro lado, sempre há aqueles saudosistas que devemos citar de um jeito ou de outro, como esta coleção que inclui cantos de extrema-direita em geral e esta publicação cujo hospedeiro dispensa explicações.

As duas primeiras publicações são dedicadas à ideologia fascista de uma forma geral, e as duas últimas contêm letras com alusões à ocupação da Etiópia e da Somália, cujo arremedo de “império colonial” era crucial pra propaganda de Mussolini. As escolhas foram bem arbitrárias e, obviamente, não exaustivas. A primeira canção se chama In Africa si va (Vamos à África), a segunda se chama La marcia delle legioni (A marcha das legiões), e a terceira se chama Africa nostra (África nossa). Até aqui você já deve ter notado como, desde a saudação até a heráldica e a arquitetura, há uma obsessão por ressuscitar a cultura romana clássica: centúrias, legiões, o feixe de varas...


1. A trombeta do barbeiro já ressoou,
É a reunião do batalhão,
Um grito apressado pra mulher amada,
Depois o desfile ao longo do bastião,
E pelas ruas que ainda dormem
Ressoa a canção dos soldados:

Refrão:
Nós vamos por Mussolini
À África Oriental,
Temos com os abissínios [etíopes]
Muita desforra pra tirar.
Pra encerrar a partida,
Estamos levando na cartucheira
O elixir da vida longa
Ao négus [Haile] Selassie!
Nós vamos por Mussolini,
Pela Itália e pelo Rei!

2. Uma velhinha, tremendo de emoção,
Caminha apressada até a estação
Pra dizer a seu filho com amor:
“Vá, faça justiça, vou estar rezando!”
“Vou voltar com a marca da bravura!”
Lhe grita o filho enquanto o trem parte.

(Refrão)

3. E num dia não muito distante,
Lá distante, sobre o altiplano
Vamos ver tremulando
Mais soberba a Tricolor!
Nós vamos por Mussolini,
Pela Itália e pelo Rei!




Roma reivindica o império,
A hora das Águias chegou!
Ressoares de trombetas saúdam o voo
Do Capitólio ao Quirinal!
Terra, queremos te dominar!
Mar, queremos te navegar!
O [couraçado] Littorio retorna o sinal
De força, de civilização!
Sete colinas [de brasão] no céu,
Sete glórias no Sol!
O gênio e o fado dos Césares
Revivem no Duce libertador!
Sob os feixes de outrora,
À luz do dia,
Passa com mil bandeiras
O povo triunfante da Itália!
A partir de Roma, ó, Sol,
Possa você um dia
Contemplar novamente
Ainda mais reluzente a cidade.
Ó, Sol, ó, Sol,
Que você possa sempre beijar
Sobre a testa invencível [invicta]
Os filhos da Urbe imortal!


1. Recolhidos de cem vizinhanças,
Das mais belas regiões do mundo,
Retomando as ruas de Roma,
Atravessando o mar profundo.

Avançam em terra africana,
Cintilantes de alegria pugnaz,
Pra doar à Pátria distante
Um diadema de terra e de mar.

Refrão:
Somos os Camisas Negras,
Somos da infantaria ou soldados alpinos,
Somos mil fileiras valentes,
Somos os heróis de Mussolini!
Artilheiros e fuzileiros,
Vamos fazer nossa história,
Com os canhões e os [destróieres] Aviere,
Com as bombas e com os punhais!

2. Vai ser extirpado pela machadinha
Sacudida pela mão lictória [i.e. fascista]
Quem se opuser às metas seguras
Que o Fascismo assinalou à glória.

No florescer de aço e de cantos solenes,
A vitória radiosa vai resplandecer,
Na luz fulgurante das armas
A Abissínia [Etiópia] vai ser redimida!

(Refrão)



domingo, 22 de fevereiro de 2026

Canções fascistas traduzidas (2)

Além da recém-retraduzida Giovinezza, confesso que sempre achei bonitas as canções do período fascista da Itália (1922-43), quando ela se manteve formalmente como uma monarquia, mas na prática se tornou uma ditadura sob o primeiro-ministro Benito Mussolini. Fundador do Partido Nacional Fascista (PNF) e idealizador do fascismo (embora suas fontes intelectuais tenham sido diversas), ele tinha sido expulso do Partido Socialista Italiano por apoiar a participação do país na 1.ª Guerra Mundial e criou a matriz das extremas-direitas que tomariam o poder no período posterior, exacerbando o nacionalismo, destruindo o movimento operário independente e cultuando a guerra.

Melodias agradáveis, mas com cujo conteúdo e uso não posso concordar. Portanto, embora eventualmente apareçam por aqui adoradores do Duce (“guia, condutor”), estas traduções, que eu desejava fazer desde os tempos do Pan-Eslavo Brasil, meu finado canal no YouTube, têm um fim meramente educativo. Portanto, me abstenho de dizer mais, e apenas ressalto que por praticidade decidi não adicionar os nomes dos autores e que traduzi diretamente, deixando a linguagem mais informal e simples, sem mexer no conteúdo. Sempre que possível, incorporei os vídeos a partir de uma fonte mais antiga, que geralmente tem a legenda em italiano passando, e de outra que o Google gera automaticamente. Igualmente, apenas publiquei as traduções, e não as letras originais, que podem ser vistas nas respectivas fontes; coloquei todas as iniciais de linhas em maiúsculas e mantive a pontuação original quando possível.

A versão italiana do Wikisource tem uma seção só com letras de canções fascistas, embora esteja longe de ser exaustiva. Este blog publicou um ótimo trabalho sobre o hinário de Mussolini e trouxe ainda ampla ilustração sobre o colonialismo na África, com imagens particularmente racistas. Por outro lado, sempre há aqueles saudosistas que devemos citar de um jeito ou de outro, como esta coleção que inclui cantos de extrema-direita em geral e esta publicação cujo hospedeiro dispensa explicações.

As duas primeiras publicações são dedicadas à ideologia fascista de uma forma geral, e as duas últimas contêm letras com alusões à ocupação da Etiópia e da Somália, cujo arremedo de “império colonial” era crucial pra propaganda de Mussolini. As escolhas foram bem arbitrárias e, obviamente, não exaustivas. A primeira canção se chama Duce a noi (Um guia/Duce pra nós). A segunda se chama Il canto degli italiani (O canto dos italianos), cujo título não deve ser confundido com um dos apelidos do hino nacional moderno. A terceira se chama Inno a Roma (Hino a Roma), por vezes acompanhada do nome de seu letrista, Fausto Salvatori, que a escreveu em 1919, portanto, antes da entronização de Mussolini.




1. Na Itália dos fascistas
Os meninos também são guerreiros,
Somos balilla ou mosqueteiros,
A florada valente do regime.

As medalhas que portamos
Com o Duce aqui no peito,
Servem de escudo a nosso afeto
E o orgulho acende no coração!

Refrão:
O olhar do Duce brilha
Fixamente sobre seus balilla!
Que seja a centelha de amor que um dia
Saiu do coração dele! (Sim, sim).

O Duce [guia] de seus balilla
Ressoa a fé bem alto
Um nome mais doce
Que o teu não existe!

Um guia, um guia pra você!

2. Temos um belo mosquete
E a Itália o deu pra nós:
Mosqueteiros, com armas aos pés,
O destino a ser preparado!

Se Balilla tinha uma pedra,
Nós atiramos nossos corações:
O ardor másculo dos pequenos
Quer construir a Grande Itália!

(Refrão)

3. Primavera dos povos,
Roma retorna a seus destinos:
Mussolini foi quem o desejou,
Seu sonho já está em marcha!

Atados ao Duce, consagramos
À Grande Mãe os camponeses [cioru] invictos;
A Roma eterna vai apontar orgulhosa
Seus tesouros ao mundo!

(Refrão)

Esta terceira parte está ausente da maioria dos registros. A única ocorrência dessa palavra dialetal “cioru” está num fórum italiano que alude a uma balsa a cabo usada pra facilitar o transporte de operários, muitos deles de origem camponesa, que partiam da Igreja da Gran Madre di Dio, em Turim, à fábrica da Fiat localizada no distrito de Lingotto. O prédio dessa mesma fábrica foi considerado um dos primeiros projetos futuristas importantes do fascista Marinetti. A ditadura inicialmente resistia, sem sucesso, a que camponeses migrassem pra trabalhar na cidade, mas com o tempo essa barreira foi sendo removida pra que eles substituíssem os trabalhadores mandados à guerra em 1940. Não sei ao certo se cioru se refere aos operários, aos camponeses ou ao trabalho em geral e seu transporte.




Nascemos como um crepúsculo escuro
De renúncia, vergonha e dor:
Nascemos num ato de amor
Redimindo a desonra de outrem.
Nascemos no nome da Itália,
Coligados em torno de nossa bandeira:
A primavera renasceu conosco,
Reacendeu-se uma Chama no coração.
Surja, Itália, pra uma nova vida,
Assim deseja quem morreu por você,
Quem deu seu sangue,
Quem enfrentou o inimigo
Vai dar justiça pra Pátria.
Itália, ilumine seu rosto,
Tenha fé: o futuro é nosso.
Reaja, reaja, ó, Itália!
Tua juventude está renascendo.
Vamos ser tua vanguarda,
Coragem, italianos: sigam em frente.
O destino sorri somente aos fortes;
Liberem a Pátria, o Trabalho.
Vamos ser a Chama da Itália,
Os rebentos de uma aurora triunfal,
A avalanche impetuosa que surge:
Coragem, italianos: venham conosco!
Surja, Itália, pra uma nova vida.




1. Roma divina, a você sobre o Capitólio,
Onde verdeja eternamente o louro sagrado,
A você, nossa fortaleza e nosso orgulho,
O coro se eleva.
Salve, Deusa Roma! Em teu rosto cintila
O Sol que nasce sobre a nova história;
Com o brasão reluzente, no último horizonte
Se encontra a Vitória.

Refrão:
Sol, você que surge livre e sorridente
Doma teus cavalos sobre nossa colina;
Você não vai ver nada no mundo
Maior que Roma, maior que Roma!

2. O céu inteiro é um voo de bandeiras
E a paz do mundo hoje é latina:
A [bandeira] Tricolor domina
Sobre o canteiro de obra, sobre a oficina.
Você é mãe que dá a lei aos povos
Eterna e pura como o Sol que nasce,
Você abençoa o arado antigo e o rebanho
Numeroso que pasta!

(Refrão)

3. Você abençoa o descanso e o cansaço
Que se renova pela virtude do amor,
A juventude em flor e a idade
Antiga que está morrendo.
Mãe de homem e de rebanhos ovinos,
De obras diretas e de escolas pensativas,
Os regimentos voltam a tua casa
E o Sol nasce.

(Refrão)



sábado, 21 de fevereiro de 2026

Canções fascistas traduzidas (1)

Além da recém-retraduzida Giovinezza, confesso que sempre achei bonitas as canções do período fascista da Itália (1922-43), quando ela se manteve formalmente como uma monarquia, mas na prática se tornou uma ditadura sob o primeiro-ministro Benito Mussolini. Fundador do Partido Nacional Fascista (PNF) e idealizador do fascismo (embora suas fontes intelectuais tenham sido diversas), ele tinha sido expulso do Partido Socialista Italiano por apoiar a participação do país na 1.ª Guerra Mundial e criou a matriz das extremas-direitas que tomariam o poder no período posterior, exacerbando o nacionalismo, destruindo o movimento operário independente e cultuando a guerra.

Melodias agradáveis, mas com cujo conteúdo e uso não posso concordar. Portanto, embora eventualmente apareçam por aqui adoradores do Duce (“guia, condutor”), estas traduções, que eu desejava fazer desde os tempos do Pan-Eslavo Brasil, meu finado canal no YouTube, têm um fim meramente educativo. Portanto, me abstenho de dizer mais, e apenas ressalto que por praticidade decidi não adicionar os nomes dos autores e que traduzi diretamente, deixando a linguagem mais informal e simples, sem mexer no conteúdo. Sempre que possível, incorporei os vídeos a partir de uma fonte mais antiga, que geralmente tem a legenda em italiano passando, e de outra que o Google gera automaticamente. Igualmente, apenas publiquei as traduções, e não as letras originais, que podem ser vistas nas respectivas fontes; coloquei todas as iniciais de linhas em maiúsculas e mantive a pontuação original quando possível.

A versão italiana do Wikisource tem uma seção só com letras de canções fascistas, embora esteja longe de ser exaustiva. Este blog publicou um ótimo trabalho sobre o hinário de Mussolini e trouxe ainda ampla ilustração sobre o colonialismo na África, com imagens particularmente racistas. Por outro lado, sempre há aqueles saudosistas que devemos citar de um jeito ou de outro, como esta coleção que inclui cantos de extrema-direita em geral e esta publicação cujo hospedeiro dispensa explicações.

As duas primeiras publicações são dedicadas à ideologia fascista de uma forma geral, e as duas últimas contêm letras com alusões à ocupação da Etiópia e da Somália, cujo arremedo de “império colonial” era crucial pra propaganda de Mussolini. As escolhas foram bem arbitrárias e, obviamente, não exaustivas. A primeira canção se chama All’armi siam fascisti (Às armas, sejamos fascistas), embora “siam(o)” possa ser traduzido tanto “somos” quanto “sejamos”; acho que ambas dão certo. A segunda se chama Vincere!, que é fácil, né: Vencer!


Às armas! Às armas! Às armas, sejamos fascistas

E nós somos partes integrantes do Feixe,
Vamos apoiar a causa até a morte
E vamos lutar com cada vez mais força
Até nosso sangue encher o coração.
Sempre cantando louvores a nossa Pátria
Que vamos todos defender unidos
Contra adversários e traidores,
Que vamos exterminar um a um.

Às armas! Às armas! Às armas, sejamos fascistas

Todos sabemos qual é nosso objetivo:
Combater tendo a certeza da vitória,
E que isso nunca seja só pela glória,
Mas pela justa motivação da liberdade.
Os bolcheviques que combatemos
Vamos saber bem os fazer desparecer
E ao ouvir nosso grito, aquela gentalha
Sem dúvida vai tremer e morrer.

Às armas! Às armas! Às armas, sejamos fascistas

Vamos levar a vitória por toda parte
Porque a coragem não vai nos faltar,
E vamos gritar com cada vez mais força
E sustentar nossa causa sagrada.
Em guarda, amigos! Pois a cada ocasião
Vamos estar todos sempre prontos,
Até que a glória nossa, dos fascistas
Triunfe em toda a Itália.

Às armas! Às armas! Às armas, sejamos fascistas

Somos os adversários do bolchevismo
Porque eles não querem Pátria nem Família,
Porque eles são lixo e lama
Que devemos afugentar com desprezo.
Sempre gritando “Viva a Itália”,
Abaixo todos os que a renegam,
Ao alto, ao alto a Bandeira Tricolor
Que vai se sempre nosso amor.




1. Fortalecida por mil paixões,
A voz da Itália ressoou!
Centúrias, coortes, legiões,
De pé, pois chegou a hora!
Avante, juventude!
Superemos todo empecilho e obstáculo;
Despedacemos a escravidão
Que nos sufoca, prisioneiros de nosso Mar!

Refrão:
Vencer! Vencer! Vencer!
E vamos vencer, em terra, céu e mar!
É a palavra de ordem
De uma vontade suprema!
Vencer! Vencer! Vencer!
A qualquer custo, ninguém vai nos parar!
Os corações que exultam
Estão prontos pra obedecer,
Estão prontos e juram:
Ou vencer, ou morrer!

2. Capacete, punhal, mosquete,
Andamos com o passo romano!
A chama que queima no peito
Nos estimula, nos guia, e seguimos!
Avante! Vamos ousar o inaudito [inconcebível],
O impossível não existe!
Nossa vontade é invencível,
Ninguém jamais vai nos derrotar!

(Refrão)



domingo, 7 de dezembro de 2025

Pra assessor de Putin, capivara inexistia

Em seu boletim semanal ironicamente chamado Notícias Terríveis, o editor-chefe da Novaya Gazeta Evropa (exilada em Riga, capital da Letônia), Kirill Martynov, sumariza informações sobre os crimes de guerra da Rússia na Ucrânia, a escalada da repressão no próprio país natal e, pra dar alguma leveza, curiosidades mais ou menos ligadas à reconfiguração belicista do Estado moscovita e que beiram o ridículo. Uma dessas que publiquei há alguns dias foi a presidente do Senado russo, Valentina Matvienko, dizendo que a ajuda humanitária à URSS durante seu colapso, sobretudo a distribuição das famosas “coxinhas de Bush”, foi parte de uma “guerra híbrida” contra a perdedora da “guerra fria”. Matvienko é a mesma que há quase dois anos propôs a criação de um “Ministério da Felicidade”, imitando a iniciativa (fracassada) do Butão.

Desta vez foi o historiador Vladimir Medinski, assessor pessoal de Putler e presente em negociações diretas com a Ucrânia (nas quais, pelo nível da delegação de Kyiv, deviam estar no mínimo o próprio ditador ou o sumido Sergei Lavrov, ministro do Exterior), que passou ridículo até mesmo na agência oficial TASS e na agência privada RBC, que só segue o fluxo porque não tem alternativa. Segundo as manchetes, ele assumiu que até sua filha lhe mostrar fotos da internet, pensava que as capivaras eram bichinhos fofos criados como personagens fictícios, ao modo da “Cheburashka” soviética ou dos atuais “labubus” chineses. A diretora do Zoológico de Moscou não deu ponto sem nó e aproveitou a deixa pra dar aquela chupada de saco no poder, convidando Medinski pra um “passeio didático” junto às capivaras!

Realmente, não fosse talvez a própria margem que a imprensa amordaçada se dá pra zombar levemente do regime terrorista, seria uma “não notícia” que no máximo passaria pros livros de memórias a serem fuçados por historiadores do futuro e sem grande interesse geral. Os putinistas bananeiros da blogosfera lulaminion certamente vão me condenar por estar zoando de uma “curiosidade intelectual legítima”, que poderia ocorrer com qualquer pessoa longe de um continente com animais desconhecidos. Mas se fosse um político de direita ou extrema-direita, a começar pelo presidiário Jair Messias, ou o governante de uma democracia ocidental, ah, sem dúvida que a ex-querdalha hipócrita ia se refastelar!

Medinski não é apenas um capacho do Kremlin, mas um verdadeiro ideólogo da deturpação histórica realizada em prol do “mundo ruSSo” neste primeiro quarto de século. Até mesmo historiadores sérios já fizeram longos requisitórios condenando seu nacionalismo radical e apontando erros em sua própria tese de doutorado. Ele já apareceu por aqui, quando abordei sobre os novos manuais escolares de História que louvavam Putler (não faltando, claro, espaços com citações do Grande Líder), mentiam sobre a agressão à Ucrânia e apresentavam mapas como se as quatro regiões ilegalmente invadidas (mais a Crimeia) já integrassem inteiras o Império. Sobre a Cheburashka, apelidada de “Mickey soviético”, eu também já trouxe um vídeo em que Denis Morokhin mostra que a economia era tão mal planejada que faltava até esse bichinho preferido das crianças.

A situação, certamente edulcorando a dura realidade da anexação imperialista assassina e o grande GULAG a céu aberto em que está de novo se transformando o país, também foi lembrada em memes como este, após o qual seguem as respectivas matérias da TASS e da RBC:



(Medinski) “Isso é uma capivara?”


Medinski falou sobre sua experiência de conhecer capivaras – O assessor do presidente da Rússia confidenciou que até recentemente não sabia que se tratava de animais de verdade.

Vladimir Medinski, assessor do presidente da Federação Russa e presidente da Sociedade Histórico-Militar da Rússia, contou à Agência TASS sobre sua experiência em conhecer capivaras, observando que até recentemente não sabia que eram animais de verdade.

“Antes eu pensava que a capivara era um bicho de pelúcia, algo peludinho [mokhnátoie] como a Cheburashka. Mas recentemente descobri que a capivara é um animal. Minha filha me esclareceu e me mostrou fotos”, confidenciou.

Ele disse que agora está planejando conhecer capivaras pessoalmente. “Por isso, ela e eu vamos agora fazer um passeio pra ver capivaras”, anunciou Medinski.

“Vivendo e aprendendo”, concluiu. [Essa frase consiste no ditado russo “Vek zhiví, vek uchís”, lieralmente “viva um século, aprenda um século”, que tem o mesmo sentido e se costuma traduzir como fiz acima. O Google também deu a curiosa tradução “Aprender com a experiência”.]


O Zoológico de Moscou convidou Medinski pra conhecer as capivaras

A diretora do Zoológico de Moscou, Svetlana Akulova, demonstrou interesse no desejo do assessor presidencial Vladimir Medinski de aprender mais sobre capivaras e convidou o político pra visitar o zoológico pessoalmente.

“Teríamos o maior prazer em lhe apresentar essas mesmas capivaras, lhe mostrar outros animais incríveis e simplesmente passar um ótimo momento juntos”, escreveu Akulova em seu canal no Telegram.

A diretora do zoológico também compartilhou a história de como conheceu Medinski: foi no Museu de História Militar da Sociedade Histórico-Militar da Rússia, instituição cujo presidente é Medinski.

“E como é ótimo quando nós, adultos, continuamos aprendendo e descobrindo mundos inteiros”, observou Akulova.


Achei fofo como Kirill Martynov terminou aquela edição das Notícias Terríveis, portanto, estou traduzindo a fala final dele após a “notícia” sobre Medinski e a “kapibara” (como a palavra entrou na língua russa). Onde diacho será que ele achou esse boneco de pelúcia?...

“Queria dizer a Medinski: as capivaras existem, existem capivaras, entende? São uma parte importante da fauna em geral. Na real, gaste mais tempo em autoaprendizagem, gaste menos tempo legitimando guerras agressivas. Embora isso talvez já não o ajude. Né, capivara?”


sábado, 22 de novembro de 2025

Russa: “Viver 50 já tá ruim, imagine 150”

Uma curtinha pro feriado prolongado.

Há alguns meses, viralizou uma conversa (não tanto) em off entre Vladimir Putin e Xi Jinping, decifrada por leitura labial, em que o ditador moscovita lhe confidencia que a ciência estaria em medida de prolongar a vida humana até os 150 anos. Sabe-se lá de onde ele tirou esse delírio e qual é sua preocupação com isso, dado que o mundo tem muitos outros problemas urgentes pra resolver, esses sim, passíveis de encurtar a vida muito aquém do possível. O vídeo causou bastantes piadas, mas fico pensando se isso não é uma vontade própria, pessoal, pra aproveitar ao máximo toda a roubalheira que ele arrancou ao povo russo, o que não vai conseguir, por ser mortal e não ter verdadeiros amigos.

Povo russo que já está sentindo na carne as consequências da interminável invasão à Ucrânia e sofrendo com inflação, doenças mentais, liberdades tolhidas, perda de entes queridos e isolamento internacional. Discretamente, o canal opositor Sotavision (YouTube) entrevistou populares nas ruas do país pra saber o que eles pensam dessa maluquice do ditador. A maioria, obviamente, respondeu que não só seria antinatural, como também não valia a pena prolongar a vida. Mas esta resposta, que separei usando a republicação da Radio Svoboda, mostra a referida angústia, embora não se saiba qual é a idade da mulher e qual é sua situação geral:


– Vladimir Putin disse que as pessoas poderão viver até 150 anos. A senhora gostaria de viver até os 150?

– Com essa vida, prefiro é viver só até os 50.

– Mas o que há de errado?

– E o que NÃO HÁ de errado?


Na Rússia que conheceu Boris Ieltsin, até os robôs têm que cair de bêbados, rs!


segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Canções partisans balcânicas (4)



Em tese, minha publicação com traduções de algumas das chamadas “canções partisans” iugoslavas seria a última, por isso, sugiro que a visite pra poder ter todos os detalhes a respeito desse gênero. Porém, fiquei com vontade de traduzir outras duas, a primeira porque acho importante, e a segunda porque acho muito bonita e tocante. A primeira, em servo-croata, se chama Uz Maršala Tita (Com o Marechal Tito), e a segunda, em búlgaro, se chama “Партизан се за бой стяга” (Partizán se za boi stiága), Um partisan se prepara pra luta (ou ainda “combate”, se quiser). Embora “Iugoslávia” signifique originalmente “terra dos eslavos do sul”, e os búlgaros também sejam eslavos meridionais, a Bulgária só não se uniu ao vizinho por pouco. Portanto, mesmo mantendo a numeração, intitulei estas canções como “balcânicas”.

Na Wikipédia em inglês, achei a história da canção Uz Maršala Tita, a tradução literal em inglês e a versão poética em outros idiomas iugoslavos. Porém, mesmo não tendo feito como no passado (jogar o original no Google Tradutor), me baseei essencialmente nessa tradução, procurando também as palavras no Wikcionário, quando necessário. Isso porque tanto no caso do servo-croata quanto do búlgaro, as letras são bastante simples e conheço razoavelmente os dois idiomas. No caso de Partizan se za boi stiaga, achei o texto original e uma tradução italiana neste famoso portal de canções de protesto, que já utilizei muito no passado. Aí também, fiz várias buscas no Wikcionário.

A canção iugoslava, que tem claros traços dialetais croatas (notadamente o uso de -(i)je- ao invés de e, como em smjelo, osjetiti e svijest), também é conhecida como Pjesma o pesti (Canção sobre o punho) sendo “pjesma” também croata típico. Ela foi composta em 1943 por Vladimir Nazor (letra, um croata) e Oskar Danon (melodia, um judeu bósnio), originalmente começando com o verso “Uz Tita i Staljina, dva junačka sina” (Com Tito e Stalin, dois filhos heroicos). Segundo Danon, o povo espontaneamente “rebatizou” a canção, até a versão original ser oficialmente proibida com a ruptura entre Tito e Stalin, em 1948. A referência aos godos se deve à ideia corrente entre os fascistas croatas pró-Hitler, segundo a qual seu povo teria mais origens góticas do que eslavas, algo refutado pelos comunistas. Enquanto essa era uma peça do culto à personalidade do marechal, Partizan se za boi stiaga tem autoria anônima, datando essa gravação de 1974 pelo Coral do Comitê de Televisão e Rádio da Bulgária socialista.

Escolhi usar a palavra partisan em francês, mais adequada ao contexto de 1939-45 e mais abrangente, equivalente ao eslavo meridional partizan (com “z”) e ao italiano partigiano Em francês, significa literalmente “partidário” ou “relativo a partido(s)”, mas evitei “guerrilheiro”, que às vezes é justamente traduzido como partisan fora do contexto europeu, porque a meu ver os partisans era apenas alguns dos adeptos, como vários em outros tempos e lugares, da “tática de guerrilha”. Não sei se também foi o Partizanski pevski zbor que gravou a canção iugoslava, mas o mesmo áudio está em vários vídeos, inclusive algumas traduções pro português que ignorei. Um dos vídeos em búlgaro tem a letra original, e o outro, em tom um pouco distinto, apenas o áudio lançado com direitos autorais:


Com o filho heroico Marechal Tito,
Nem o inferno vai nos deter.
Andamos valentes, de cabeça erguida
E punho fortemente cerrado.
Andamos valentes, de cabeça erguida
E punho fortemente cerrado.

Somos todos de antiga linhagem, não godos,
Somos partes dos eslavos seculares.
Quem diz outra coisa, calunia e mente,
E vai sentir nosso punho.
Quem diz outra coisa, calunia e mente,
E vai sentir nosso punho.

Todos os dedos nas mãos, na miséria e tormento
A consciência partisan se consolidou.
E agora se preciso, pro Sol ou pro céu
Erguemos o punho bem alto.
E agora se preciso, pro Sol ou pro céu
Erguemos o punho bem alto.

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Uz maršala Tita, junačkoga sina
Nas neće ni pakao smest’.
Mi dižemo čelo, mi kročimo smjelo
I čvrsto stiskamo pest.

Rod prastari svi smo, a Goti mi nismo,
Slavenstva smo drevnoga čest.
Ko drukčije kaže, kleveće i laže,
Našu će osjetit’ pest.

Sve prste na ruci u jadu i muci
Partizanska složila je svijest.
Pa sad kad i treba, do sunca do neba
Visoko mi dižemo pest.

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Уз маршала Тита, јуначкога сина
Нас неће ни пакао смест’.
Ми дижемо чело, ми крочимо смјело
И чврсто стискамо пест’.
Ми дижемо чело, ми крочимо смјело
И чврсто стискамо пест’.

Род прастари сви смо, а Готи ми нисмо
Славенства смо древнога чест.
Ко друкчије каже, клевеће и лаже
Нашу ће осјетит’ пест.
Ко друкчије каже, клевеће и лаже
Нашу ће осјетит’ пест.

Све прсте на руци у јаду и муци
Партизанска сложила је свијест.
Па сад кад и треба, до сунца до неба
Високо ми дижемо пест.
Па сад кад и треба, до сунца до неба
Високо ми дижемо пест.




Um partisan se prepara pra luta,
Joga um fuzil sobre o ombro!
“Adeus, mamãe, adeus, papai,
Adeus, querida irmãzinha!
Adeus, mamãe, adeus, papai,
Adeus, querida irmãzinha!”

“Estou indo à luta feroz,
Lá onde se morre e é morto!”
Seis meses se passaram,
A mãe ainda não viu o filho.
Seis meses se passaram,
A mãe ainda não viu o filho.

Certa manhã chegou uma carta.
A mãe pensa que o filho escreveu,
E na carta, duas-três linhas,
Comunicam do monte Chumerna:
E na carta, duas-três linhas,
Comunicam do monte Chumerna:

“Seu filho já foi morto
Na luta feroz contra o inimigo!
Foi um bom camarada nosso
E um excelente partisan.
Foi um bom camarada nosso
E um excelente partisan.”

A mãe, ao invés de chorar,
Ergueu orgulhosa sua cabeça,
Pois foi assim que educou o filho –
Pra que morresse pela pátria.
Pois foi assim que educou o filho –
Pra que morresse pela pátria.

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Партизан се за бой стяга,
Мята пушка на рамо!
“Сбогом, майко, сбогом, татко,
Сбогом, мила сестрице!
Сбогом, майко, сбогом, татко,
Сбогом, мила сестрице!”

“Аз отивам в боя люти,
Де се гине, де се мре!”
Шест месеца изминаха,
Майка сина не виде.
Шест месеца изминаха,
Майка сина не виде.

Една сутрин писмо стига.
Майка мисли син пише,
А в писмото два-три реда,
От Чемерник съобщават:
А в писмото два-три реда,
От Чемерник съобщават:

“Твоят син е веч загинал
В боя люти със врага!
Той ни беше добър другар
И отличен партизан.
Той ни беше добър другар
И отличен партизан.”

Вместо майка да заплаче,
Гордо вдигна тя глава,
Че отгледа такъв сина –
За родината да мре,
Че отгледа такъв сина –
За родината да мре.

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Partizan se za boi stiaga,
Miata pushka na ramó!
“Sbogom, maiko, sbogom, tatko,
Sbogom, mila sestritsé!
Sbogom, maiko, sbogom, tatko,
Sbogom, mila sestritsé!”

“Az otivam v boia liuti,
De se gine, de se mre!”
Shest mesetsa izminakha,
Maika sina ne vidé.
Shest mesetsa izminakha,
Maika sina ne vidé.

Edna sutrin pismo stiga.
Maika misli sin pishé,
A v pismoto dva-tri reda,
Ot Chemernik sâobshtavat:
A v pismoto dva-tri reda,
Ot Chemernik sâobshtavat:

“Tvoiat sin e vech zaginal
V boia liuti sâs vragá!
Toi ni beshe dobâr drugar
I otlichen partizan.
Toi ni beshe dobâr drugar
I otlichen partizan.”

Vmesto maika da zaplache,
Gordo vdigna tiá glavá,
Che otgleda takâv sina –
Za rodinata da mre,
Che otgleda takâv sina –
Za rodinata da mre.