domingo, 22 de fevereiro de 2026

Canções fascistas traduzidas (2)

Além da recém-retraduzida Giovinezza, confesso que sempre achei bonitas as canções do período fascista da Itália (1922-43), quando ela se manteve formalmente como uma monarquia, mas na prática se tornou uma ditadura sob o primeiro-ministro Benito Mussolini. Fundador do Partido Nacional Fascista (PNF) e idealizador do fascismo (embora suas fontes intelectuais tenham sido diversas), ele tinha sido expulso do Partido Socialista Italiano por apoiar a participação do país na 1.ª Guerra Mundial e criou a matriz das extremas-direitas que tomariam o poder no período posterior, exacerbando o nacionalismo, destruindo o movimento operário independente e cultuando a guerra.

Melodias agradáveis, mas com cujo conteúdo e uso não posso concordar. Portanto, embora eventualmente apareçam por aqui adoradores do Duce (“guia, condutor”), estas traduções, que eu desejava fazer desde os tempos do Pan-Eslavo Brasil, meu finado canal no YouTube, têm um fim meramente educativo. Portanto, me abstenho de dizer mais, e apenas ressalto que por praticidade decidi não adicionar os nomes dos autores e que traduzi diretamente, deixando a linguagem mais informal e simples, sem mexer no conteúdo. Sempre que possível, incorporei os vídeos a partir de uma fonte mais antiga, que geralmente tem a legenda em italiano passando, e de outra que o Google gera automaticamente. Igualmente, apenas publiquei as traduções, e não as letras originais, que podem ser vistas nas respectivas fontes; coloquei todas as iniciais de linhas em maiúsculas e mantive a pontuação original quando possível.

A versão italiana do Wikisource tem uma seção só com letras de canções fascistas, embora esteja longe de ser exaustiva. Este blog publicou um ótimo trabalho sobre o hinário de Mussolini e trouxe ainda ampla ilustração sobre o colonialismo na África, com imagens particularmente racistas. Por outro lado, sempre há aqueles saudosistas que devemos citar de um jeito ou de outro, como esta coleção que inclui cantos de extrema-direita em geral e esta publicação cujo hospedeiro dispensa explicações.

As duas primeiras publicações são dedicadas à ideologia fascista de uma forma geral, e as duas últimas contêm letras com alusões à ocupação da Etiópia e da Somália, cujo arremedo de “império colonial” era crucial pra propaganda de Mussolini. As escolhas foram bem arbitrárias e, obviamente, não exaustivas. A primeira canção se chama Duce a noi (Um guia/Duce pra nós). A segunda se chama Il canto degli italiani (O canto dos italianos), cujo título não deve ser confundido com um dos apelidos do hino nacional moderno. A terceira se chama Inno a Roma (Hino a Roma), por vezes acompanhada do nome de seu letrista, Fausto Salvatori, que a escreveu em 1919, portanto, antes da entronização de Mussolini.




1. Na Itália dos fascistas
Os meninos também são guerreiros,
Somos balilla ou mosqueteiros,
A florada valente do regime.

As medalhas que portamos
Com o Duce aqui no peito,
Servem de escudo a nosso afeto
E o orgulho acende no coração!

Refrão:
O olhar do Duce brilha
Fixamente sobre seus balilla!
Que seja a centelha de amor que um dia
Saiu do coração dele! (Sim, sim).

O Duce [guia] de seus balilla
Ressoa a fé bem alto
Um nome mais doce
Que o teu não existe!

Um guia, um guia pra você!

2. Temos um belo mosquete
E a Itália o deu pra nós:
Mosqueteiros, com armas aos pés,
O destino a ser preparado!

Se Balilla tinha uma pedra,
Nós atiramos nossos corações:
O ardor másculo dos pequenos
Quer construir a Grande Itália!

(Refrão)

3. Primavera dos povos,
Roma retorna a seus destinos:
Mussolini foi quem o desejou,
Seu sonho já está em marcha!

Atados ao Duce, consagramos
À Grande Mãe os camponeses [cioru] invictos;
A Roma eterna vai apontar orgulhosa
Seus tesouros ao mundo!

(Refrão)

Esta terceira parte está ausente da maioria dos registros. A única ocorrência dessa palavra dialetal “cioru” está num fórum italiano que alude a uma balsa a cabo usada pra facilitar o transporte de operários, muitos deles de origem camponesa, que partiam da Igreja da Gran Madre di Dio, em Turim, à fábrica da Fiat localizada no distrito de Lingotto. O prédio dessa mesma fábrica foi considerado um dos primeiros projetos futuristas importantes do fascista Marinetti. A ditadura inicialmente resistia, sem sucesso, a que camponeses migrassem pra trabalhar na cidade, mas com o tempo essa barreira foi sendo removida pra que eles substituíssem os trabalhadores mandados à guerra em 1940. Não sei ao certo se cioru se refere aos operários, aos camponeses ou ao trabalho em geral e seu transporte.




Nascemos como um crepúsculo escuro
De renúncia, vergonha e dor:
Nascemos num ato de amor
Redimindo a desonra de outrem.
Nascemos no nome da Itália,
Coligados em torno de nossa bandeira:
A primavera renasceu conosco,
Reacendeu-se uma Chama no coração.
Surja, Itália, pra uma nova vida,
Assim deseja quem morreu por você,
Quem deu seu sangue,
Quem enfrentou o inimigo
Vai dar justiça pra Pátria.
Itália, ilumine seu rosto,
Tenha fé: o futuro é nosso.
Reaja, reaja, ó, Itália!
Tua juventude está renascendo.
Vamos ser tua vanguarda,
Coragem, italianos: sigam em frente.
O destino sorri somente aos fortes;
Liberem a Pátria, o Trabalho.
Vamos ser a Chama da Itália,
Os rebentos de uma aurora triunfal,
A avalanche impetuosa que surge:
Coragem, italianos: venham conosco!
Surja, Itália, pra uma nova vida.




1. Roma divina, a você sobre o Capitólio,
Onde verdeja eternamente o louro sagrado,
A você, nossa fortaleza e nosso orgulho,
O coro se eleva.
Salve, Deusa Roma! Em teu rosto cintila
O Sol que nasce sobre a nova história;
Com o brasão reluzente, no último horizonte
Se encontra a Vitória.

Refrão:
Sol, você que surge livre e sorridente
Doma teus cavalos sobre nossa colina;
Você não vai ver nada no mundo
Maior que Roma, maior que Roma!

2. O céu inteiro é um voo de bandeiras
E a paz do mundo hoje é latina:
A [bandeira] Tricolor domina
Sobre o canteiro de obra, sobre a oficina.
Você é mãe que dá a lei aos povos
Eterna e pura como o Sol que nasce,
Você abençoa o arado antigo e o rebanho
Numeroso que pasta!

(Refrão)

3. Você abençoa o descanso e o cansaço
Que se renova pela virtude do amor,
A juventude em flor e a idade
Antiga que está morrendo.
Mãe de homem e de rebanhos ovinos,
De obras diretas e de escolas pensativas,
Os regimentos voltam a tua casa
E o Sol nasce.

(Refrão)



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