Tendo guardado por alguns anos meus primeiros trabalhos escritos da graduação em História na Unicamp em seu formato impresso original, com as correções, observações e notas dos professores, resolvi um dia digitalizar a maioria deles, quando não tivesse backup dos arquivos Word originais. Nunca tinha pensado em os publicar na página, mas quando percebi que o navegador Chrome estava avançado o suficiente pra detectar textos automaticamente e possibilitar sua cópia pra outros programas, decidi tentar fazer isso com essas relíquias, que de fato só exigiram alguns reparos pontuais, pois o conteúdo saiu quase todo com espantosa exatidão!
Portanto, estou publicando hoje um trabalho de disciplina ministrada por Leila Mezan Algranti, “HH384 – História do Brasil I” (período colonial) no 1.º semestre de 2007, entregue no dia 9 de abril. O título é “Análise comparativa das obras História da Província de Santa Cruz, de Pero de Magalhães Gandavo (estava assim, talvez o correto seja Gândavo), e Tratados da terra e gente do Brasil, de Fernão Cardim”, dois cronistas portugueses do século 16 que pensavam estar fazendo as vezes de historiadores e descreveram, sobretudo, as populações indígenas da costa brasileira, com preconceitos bem peculiares aos exploradores da época. No primeiro parágrafo expliquei bem minha tarefa, mas este texto específico merece algumas observações sobre a nova edição.
Primeiro, acrescentei alguns sublinhados feitos pela própria Leila, seguidos de suas observações entre colchetes e que originalmente estavam nas laterais das folhas. Segundo, no trabalho original, bem como nesta reedição, mantive a ortografia, incluindo falta ou excesso de acentos gráficos, como figurava nos textos do século 16, o que explica, por exemplo, que nas citações a obra História da Província de Santa Cruz apareça como “História da Provincia Santa Cruz”, sem o agudo de “Província” nem a preposição “de”. E terceiro, apenas atualizei a ortografia e as normas de citação bibliográfica e corrigi pontos que realmente não davam pra engolir ou que ficariam melhores de outra forma, sem alterar, contudo, o estilo redacional geral.
Qual foi a nota? 8,5, acompanhada do garrancho (ai de mim!) ao final que transcrevo a seguir: “Erick, muito boa a pesquisa, a seleção dos autores e a contextualização. O trabalho está também bem escrito e estruturado. Senti falta, apenas, de um pouco mais de ‘liberdade’ sua para proceder à análise de alguns trechos selecionados por você.” Realmente, a gente não pode ter “liberdade” quando não é especialista num tema e tem um baita medo de parecer estar “inventando” coisas de que o professor não vai gostar, rs. Mas é essa “ousadia” que de fato vamos aprendendo a ter durante a graduação e, sobretudo, a pós-graduação. Curiosidade: era pra ter outro trabalho no fim do semestre, o que não ocorreu devido a uma das célebres greves do período, a primeira que peguei, inclusive. Portanto, em todas as matérias, ficamos com a nota do primeiro trabalho como média, neste caso... oito e meio.


O presente trabalho consiste na análise comparativa entre duas obras de dois cronistas que escreveram sobre o Brasil no século 16, a saber História da Província de Santa Cruz, de Pero de Magalhães Gandavo, e Tratados da terra e gente do Brasil, com ênfase no opúsculo Do principio e origem dos indios do Brasil, do padre jesuíta Fernão Cardim. A escolha da obra de Cardim deu-se pelo fato de seu autor compartilhar com Gandavo um mesmo projeto de colonização para o Brasil, que priorizava a conversão das populações nativas ao catolicismo em detrimento da exploração econômica [será que de fato separou?], num momento em que o Império português voltava sua atenção para a América, porquanto sua primazia no Oriente começava a se tornar menos sustentável. Será demonstrada a predominância da visão detratora com relação ao Brasil [ou seus habitantes?] por parte dos cronistas contemporâneos, e como, para isso, colaborou a projeção do imaginário, ou seja, o monstruoso (com ênfase no demoníaco) ao desconhecido, o que justificou a empreitada catequizadora em terras americanas.
Sabe-se pouco sobre a vida de Fernão Cardim, cuja data de nascimento é objeto de discórdia, sendo a hipótese mais provável a de que tenha nascido em 1548, em Viana do Alentejo. Foi ministro do Colégio de Évora e, a 5 de março 1583, partiu para o Brasil, tendo passado por várias cidades da costa brasileira, o que lhe rendeu material para a Narrativa epistolar, encerrada quando ainda era reitor do Colégio da Bahia. Eleito na congregação provincial para procurador da Província do Brasil em Roma, Cardim partiu para lá em 1598 e, ao sair da Europa, a 24 de setembro de 1601, teve o navio em que viajava abordado por corsários ingleses. Isso resultou na sua condução à Inglaterra como prisioneiro, onde teve seus manuscritos tomados, retornando ao Brasil apenas em 1604. De volta, recebeu o cargo de provincial, que ocupou até 1609 e, mais tarde, assumiu o cargo de vice-provincial e, novamente, de reitor do Colégio da Bahia, até que, em 1624, os holandeses tomaram a Bahia e expulsaram muitos padres do Colégio, e, na ausência do provincial, Cardim assumiu o governo da província, falecendo a 27 de janeiro de 1625. (1)
Também são escassas as informações sobre a vida de Pero de Magalhães Gandavo, nascido em Braga, em ano desconhecido. Filho de pai flamengo, possuía conhecimentos do latim (que ele lecionava) e do grego, como todo humanista, escreveu uma Gramática da língua portuguesa acompanhada de um diálogo sobre a elegância da língua vernácula e foi moço de câmara do rei D. Sebastião. Tendo trabalhado na transcrição de documentos na Torre do Tombo, em Lisboa, é possível que tenha ocupado o cargo de Provedor-Mor do Brasil no Governo-Geral de Mem de Sá entre 1565 e 1570, período em que teria residido na Bahia e talvez teria visitado outras regiões da colônia portuguesa. De seus registros, para os quais teria auxiliado seu contato com líderes jesuítas, que possuíam grande prestígio político, publicou História da Província de Santa Cruz, em 1576, e, se é válida a hipótese de que ele nunca esteve no Brasil, deve ter se valido de informações fornecidas por jesuítas, o que se nota pela semelhança de sua obra com as cartas jesuíticas ao tratar de certos assuntos. Gandavo morreu em 1579, em Portugal, em local incerto. (2)
Apesar de Cardim ter atuado no campo religioso e Gandavo, no civil, ambos representaram uma época na qual o Brasil começava a tomar relevância em termos estratégicos no Império português, mas cuja colonização ainda era basicamente missionária, e cujo projeto de colonização será ferrenhamente defendido por esses dois homens ligados aos jesuítas, um diretamente, outro indiretamente. Cardim pertenceu à Companhia de Jesus, instituição cujo prestígio no Brasil era grande, como dito acima, e que influenciou as primeiras formas de povoamento do país, enquanto Gandavo gozava de prestígio perante a coroa portuguesa, vista a sua nomeação para um importante cargo em um local que também estava começando a adquirir importância. (3) Cabe ressaltar ainda que Cardim não conhecera os indígenas em estado totalmente selvagem, como os encontraram os primeiros colonizadores, mas, em grande parte, já catequizados, após a chegada dos jesuítas em 1549, o que é um empecilho para o reconhecimento de que “o amor à natural devia incliná-lo aos índios”. (4)
Gandavo, no “Prologo ao lector” da História da Província de Santa Cruz, chama sua própria obra de “historia”, e informa que ninguém havia ainda feito uma sobre o Brasil de “melhor estillo” ou “mais copiosamente” escrita do que a sua. Ele denuncia também a cobiça que os estrangeiros têm pela nova terra e a falta de conhecimento sobre a terra pelos portugueses, que dela deveriam aproveitar as riquezas e seu “remedio” aos “pobres e desamparados”, e lamenta a pouca afeição dos portugueses pela “escritura”, pela qual ele desejava dar à eternidade as “cousas” da terra, assim como faziam os antigos com outras nações. Enfim, após se mostrar “desejoso de agradar a todos os que della quizerem ter notícia”, julga seu próprio estilo “facil, e chão, como meu fraco engenho me ajudou”. (5)
Pela análise do “Prologo”, nota-se que a escrita de Gandavo tem como característica a exaltação dos grandes feitos do passado, associados aos sucessos militares e às ações bélicas necessários à manutenção do Império, sendo, portanto, seus chefes militares e líderes políticos os destinatários privilegiados, todos homens da corte portuguesa. De igual para igual, Gandavo, em seu lugar de autoridade, também alerta sobre a importância do saber letrado na tomada de decisões políticas equilibradas. Quanto ao seu desejo de dar notícia sobre a terra, é bom lembrar que a História não é uma propaganda “voltada ao público popular”, mas a tentativa de propagação de “um modelo de colonização prudente” junto ao público cortesão. Esse modelo torna-se mais visível ao se notar a preferência de Gandavo pelo nome “Terra de Santa Cruz”, que remete às finalidades devotas da busca da salvação, em detrimento de “Brasil”, ao qual está ligada a ideia da exploração puramente econômica. (6) O estilo casual é o reflexo de uma prática decorosa nas práticas retóricas e políticas da corte, da qual se infere principalmente o “efeito de naturalidade ou simplicidade”, a fim de que o relato se aproximasse mais à verdade do que “algo construído pela arte”. (7)
Nos Tratados da terra e gente do Brasil, em especial nos dois primeiros opúsculos que o integram, encontram-se informações brutas, que não tiveram a escrita devidamente polida e circularam anônimas, tendo sido atribuídas, por muito tempo, ao irmão Manuel Tristão. Deve-se lembrar que, na Companhia de Jesus, as informações brutas eram coletadas por irmãos, e não por padres, cabendo a estes a especulação teológica sobre elas e, se fossem autorizados, a escrita de obras de síntese “capazes de produzir um discurso edificante e como informação aos superiores para o recrutamento de missionários para terras além-mar”, (8) o que provavelmente é o caso dos Tratados. São características dos escritos de Cardim a simplicidade, a naturalidade e a ausência de artifícios de estilo e preocupações eruditas, com toques de bom humor, vivacidade, graça e comparações imprevistas. Além de ser um bom orador, provavelmente também estava a par dos saberes correntes em seu século, em especial a ciência médica. (9)
Os textos de Fernão Cardim, assim como os de Gabriel Soares de Souza e os de Pero de Magalhães Gandavo, não são livros de História, ainda que possam ser usados por especialistas da área, mas “descrições da realidade brasileira”. Os Tratados da terra e gente do Brasil são, na verdade, a reunião de três opúsculos: Do clima e terra do Brasil, Do principio e origem dos indios do Brasil e Narrativa epistolar. Este último foi o primeiro a ser publicado em português, em Lisboa, em 1847, foi reimpresso no Brasil em 1860 e recebeu reproduções parciais em revistas brasileiras nas décadas posteriores. Quanto aos dois primeiros, seus originais estavam entre os manuscritos roubados de Cardim durante sua prisão na Inglaterra, e foram publicados em inglês na coleção Purchas his Pilgrimes, de Samuel Purchas, com o título A treatise of Brazil written by a Portuguese which had long lived here, em 1625, tendo sido sua autoria atribuída ao irmão Manuel Tristão. Já no século 19, a obra em inglês foi comparada com dois manuscritos existentes na Biblioteca de Évora, do que se concluiu que as duas partes do Treatise eram capítulos de uma mesma obra, que estava sendo escrita em 1584. Pelo fato de os manuscritos não estarem assinados, a certeza da autoria só veio com a comparação do Treatise com a Narrativa epistolar, seguindo-se a publicação, no Brasil, em 1881, dos dois tratados separadamente e, finalmente, em 1925, o aparecimento dos três opúsculos em um só volume. Nele aparece a importância do caráter da obra de Cardim e suas múltiplas facetas, como geógrafo, etnólogo, zoólogo, botânico e o “historiador diserto”, como resultado de suas várias viagens pelo Brasil, em especial em seus primeiros anos de estadia. (10)
Desde muitos séculos, os europeus acreditavam que os habitantes de terras longínquas constituíam uma humanidade à parte, fantástica e monstruosa, e que, após a exploração de grande parte do mundo, em especial a Ásia e a África, não mais habitavam os confins desses continentes, mas a América e o oceano Atlântico. A partir do século 15, não só os monstros tenderam a se demonizar, como se somou a eles a concepção do homem selvagem, que não era tema novo e dependia da representação hierárquica da sociedade cristã, justificando a empresa colonial enquanto difusora de cultura e religião entre aqueles que não as tinham. Assim, os indígenas foram pensados, ao mesmo tempo, como uma outra humanidade, como animais e como demônios. (11) Foram fruto dessa tendência de demonização os relatos a respeito dos indígenas brasileiros escritos por Gandavo e Cardim, que enxergaram o puro pecado em práticas indígenas consideradas demoníacas, como a “cauinagem”, o paganismo, a preguiça, as guerras por vingança e a antropofagia. Tal demonização foi mais uma justificativa para a necessidade do trabalho missionário, pelo qual a Companhia de Jesus estaria conquistando espaços que antes pertenciam ao demônio, (12) mas também pode ter resultado da prática cristã de excluir os instintos de si mesmo, atribuindo-o ao Outro em termos negativos (13), e da ideia de que aqueles que não pertencem a Deus necessariamente pertencem ao diabo. (14)
A demonização não aparece somente em aspectos gerais da população indígena, mas especialmente em caracteres específicos, sendo o primeiro aqui posto em análise a personalidade. Não por acaso, Gandavo encerra a série de capítulos que edenizam a natureza brasileira com um capítulo IX dedicado especialmente ao choque de Baltezar Ferreira com o lendário monstro indígena Hipupiàra, morto por aquele homem em 1564. Quando, numa noite, uma índia alerta Ferreira da presença do monstro, "como elle fosse nam menos sizudo que esforçado, e esta gente da terra seja digna de pouco credito, nam Iho deu logo muito às suas palavras”, (15) o que resultou num susto maior. No capítulo seguinte, Gandavo não hesitou em qualificar os indígenas da costa como
de muito pouco consideraçam: sam desagradecidos em gran maneira, e mui deshumanos e crueis, inclinados a pelejar e vingativos por extremo. Vivem todos mui descançados sem terem outros pensamentos senam de comer, beber e matar gente [...]. Sam mui inconstantes e mudaveis: crêm de ligeiro tudo aquilo que lhes persuadem [...]. Sam mui deshonestos e dados á sensualidade [...]. (16)
Cardim faz poucas revelações a respeito da personalidade indígena, mas dá algumas pistas ao comentar sobre as “setenta e seis nações" de tapuias com as quais os portugueses não possuíam relações por serem “gente brava, silvestre e indomita”, “contrarias quasi todas do gentio que vive na costa do mar, vizinhos dos Portuguezes”. Com as tribos tapuias especificadas (que não são todas as existentes, mas grande parte delas), “não se pode fazer conversão por serem muito andejos, e terem muitas e diferentes linguas difficultosas”. (17)
Costumes também não escapam da detração, a começar pela língua falada pelos indígenas da costa, que, apesar de ser fácil e branda, “nam se acha nella F, nem L, nem R, cousa digna despanto porque assi nam têm Fé, nem Lei, nem Rei, e desta maneira vivem desordenadamente”, (18) ou seja, à maneira do inferno. Os dois autores também tratam dos adornos, mas de lados opostos: Gandavo diz que “ha [alguns] que trazem o rosto todo cheio de buracos e pedras, e assi parecem muito feios e disformes”, (19) enquanto Cardim informa que esses enfeites “são as riquezas que mais estimão que quanto têm. (20)
Como jesuíta, Cardim dá ênfase às crenças dos indígenas, e inicia o opúsculo Do principio e origem dos indios do Brasil informando que eles não têm “conhecimento do principio do Mundo” e descrevendo algumas de suas lendas. Mais adiante, diz que eles “têm grande medo do demonio, ao qual chamam Curupira, Taguaigba, Macachera, Anhanga [...]. Algumas vezes lhe apparecem os diabos, ainda que raramente, e entre elles ha poucos endemoniados”. (21) Essa afirmação (a de que os indígenas têm medo do diabo) entra em choque com a posterior demonização desse povo, que se inicia pela descrição dos pajés: “Entre elles se alevantarão algumas vezes feiticeiros, a que chamão Caraíba, Santo ou santidade, e é de ordinario algum Indio ruim de vida”. (22) Os pajés, considerados “mentirosos e enganadores”, eram um dos alvos preferidos da detração jesuítica, pois os “feiticeiros”, como eram chamados, afirmavam, entre outras coisas, que a água batismal gerava doenças mortais. Da conexão entre pajés e demônios, nasceu uma guerra vencida pelos jesuítas, que incluiu a pregação e a detração, seguidos da violência levada a cabo pelas autoridades influenciadas pelos religiosos. (23)
As ocas e as festas que nelas ocorrem constituem o lugar infernal por excelência. Gandavo já descreve as casas “feitas á maneira de cordoarias ou tarracenas fabricadas sómente de madeira”, nas quais “vivem todos muito conformes, sem haver nunca entre elles nenhumas differenças”. (24) Mas é Cardim quem falará das festas que duravam dois, três dias, durante as quais não se comia, mas apenas se bebia, “e de bebados fazem muitos desmandos, e quebrão as cabeças uns aos outros, e tomão as mulheres alheias etc.”, (25) e dos dias de comemorações que antecediam a execução de um prisioneiro: no terceiro dia, há danças com bater dos pés e toque de gaitas, fazendo “uma harmonia que parece a musica do inferno, mas elles aturão nellas como se fossem as mais suaves do mundo”, e no quarto dia, mais festas, com bebedeira, cantoria, danças e contar de histórias, “e tanto que começam a beber é um lavarinto ou inferno ve-los e ouvi-los, porque os que bailão e cantão aturam com grandiosíssimo fervor quantos dias e noites os vinhos durão”. (26) Porém, a harmonia na qual os indígenas convivem é ressaltada pela possibilidade que Cardim apresenta de se fazer conviver os costumes indígenas com a natureza cristã, gerando assim uma “narrativa de consolação” em meio à dificuldade missionária. (27)
Demonizam-se também as guerras realizadas entre os indígenas, entre os quais, segundo Gandavo, “nunca se acha nelles paz nem será possivel, segundo são vingativos e odiosos”, cuja solução seria a doutrinação católica. São “desejosos de exercitarem sua crueldade” e “mui atrevidos [...] e tam confiados em sua valentia, que nam há forças de contrarios tam poderosas que [...] os façam desviar de suas barbaras e vingativas tenções”. (28) Para Gandavo, os indígenas, na paz, se governam com justiça, mesmo com poucas noções de hierarquia, mas guerreando, são ferozes, desumanos e frágeis, cabendo aos portugueses, portanto, governá-los na paz, momento no qual o demônio estaria mais enfraquecido. (29) E é essa guerra que, em Gandavo, demonizará os aimorés, que são “mais ferozes e de menos razam”, vivem como “brutos animaes”, têm uma guerra danosa, pois “são mui barbaros, e toda a gente da terra lhes he odiosa”, são “pérfidos” e muito rápidos nas batalhas, o que os torna muito temidos. (30) Desses relatos se infere que
A violência cotidiana era uma das faces com que se pintava a humanidade-anti-humana dos ameríndios. Humanidade ameaçadora, que colocava os europeus entre o risco de ser flechado e o de ser comido. (31)
Realmente, a prática antropofágica está estritamente relacionada à guerra, cuja união se deve à cerimônia que precede a captura de um inimigo por uma aldeia. A ocasião, relatada em minúcias tanto por Gandavo quanto por Cardim, consiste no seguinte: capturado o inimigo, ele é levado à aldeia e recebido com grande entusiasmo pelos indígenas. Lá, ele permanece prisioneiro por meses ou até anos, possuindo relativa liberdade de movimentação, com uma corda amarrada ao pescoço e convivendo com uma mulher que lhe faz companhia. Marcado o dia para a sua execução, começam as festas, já descritas acima, que começam cinco dias antes, chegando ao ápice, que é o encaminhamento do prisioneiro ao seu executor. Com a corda agora na cintura, após um ritual que envolve um índio “padrinho” do algoz, o prisioneiro, sendo “tanta a bruteza destes”, provoca o carrasco, dizendo que “muito embora morra, pois muitos tem mortos, e que alem disso cá ficão seus irmãos e parentes para o vingarem”. (32) Logo após, o prisioneiro é morto com uma paulada (os cronistas chamam o instrumento de “espada”) no crânio, e logo é assado e repartido entre os convidados para que seja comido.
Para Gandavo, esse destino é “Huma das cousas em que estes Indios mais repugnam o ser da natureza humana, e em que totalmente parece que se extremam dos outros homens”, e, ao lhe comerem a carne, usam “nesta parte de cruezas tam diabolicas, que ainda nellas excedem aos brutos animaes que nam tem uso de razam nem foram nascidos pera obrar clemencia”. (33) Já Cardim julga que, dessas cerimônias, “são muitas dellas tão penosas que se alguem por amor de Deus sofresse os seus trabalhos não ganharia pouco”, e finaliza informando que “estas são as infelizes festas, em que estes tristes antes de terem conhecimento de seu Creador põem sua felicidade e gloria”. (34) As descrições de atos antropofágicos dão a clara impressão de que se está diante de cenas totalmente demoníacas, que não abrem espaço para considerações valorativas, predominando a detração, a oposição entre indígenas e cristãos e um limite, à primeira vista, intransponível, entre barbárie e verdade. (35) Como não há estado de inocência após a queda, a ausência de fé, lei, e rei, como diria Gandavo, não pode fazer com que a índole cruel se revele durante a guerra, gerando as instituições diabólicas que se fazem ver na vingança, na morte do inimigo e no consumo de sua carne. (36)
Como os comentadores das obras de Fernão Cardim e Pero de Magalhães Gandavo não cansaram de dizer, em especial Capistrano de Abreu, elas não foram as melhores histórias do Brasil escritas no século 16, se é que podem se enquadrar no gênero histórico, mas elas têm seu valor devido ao pioneirismo que carregam em si. Ainda que esses registros possam carecer de confiabilidade, pois não se tem a certeza de que foram escritos com base na observação direta, e de que os autores realmente viram as cenas que descreveram (37), eles guardam importantes dados, que são a mentalidade dos pioneiros da colonização e a carga cultural que eles levavam consigo, coisas que se perderam de geração para geração, mas se mantiveram nos documentos. As obras ajudam também a pensar na origem de muitos preconceitos com relação aos indígenas, que acompanham a população branca е católica do Brasil desde o início da formação de sua identidade.
Bibliografia
CARDIM, Fernão. Tratados da terra e gente do Brasil. Introdução e notas de Batista Caetano, Capistrano de Abreu e Rodolfo Garcia. São Paulo: Companhia Editora Nacional; Brasília: INL, 1978.
GAMBINI, Roberto. O espelho índio: os jesuítas e a destruição da alma indígena. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1988.
GANDAVO, Pero de Magalhães. História da Provincia Santa Cruz. Introdução de Capistrano de Abreu. São Paulo: Obelisco, 1964. (“Cadernos de História”, 2.)
LUZ, Guilherme Amaral. Pero de Magalhães Gandavo e a ética ultramarina portuguesa na Terra de Santa Cruz. História e Perspectivas, Universidade Federal de Uberlândia, n. 32-33, jan.-jun./jul.-dez. 2005.
______. Carne Humana: a retórica do canibalismo na América portuguesa quinhentista. Tese de Doutorado. Campinas: UNICAMР, 2003.
SOUZA, Laura de Mello e. O Diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.
Notas (Clique pra voltar ao texto)
(1) GARCIA, Rodolfo. Introdução. In: CARDIM, Fernão. Tratados da terra e gente do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional; Brasília: INL, 1978, p. 10-15.
(2) LUZ, Guilherme Amaral. Pero de Magalhães Gandavo e a ética ultramarina portuguesa na Terra de Santa Cruz. História e Perspectivas, Universidade Federal de Uberlândia, n. 32-33, jan.-jun./jul.-dez. 2005, p. 70 e 82-83; “Pero de Magalhães Gândavo”. Disponível nesta página (versão arquivada). Acesso em: 08 abr. 2007.
(3) LUZ, Guilherme Amaral Luz, Op. Cit., p. 72-73.
(4) ABREU, Capistrano de. Apenso (De O JORNAL, de 27 de janeiro de 1935). In: CARDIM, Fernão, Op. Cit., p. 256.
(5) GANDAVO, Pero de Magalhães. História da Provincia Santa Cruz. São Paulo: Obeliscо, 1964, р. 22.
(6) LUZ, Guilherme Amaral, Op. Cit., p. 73 e 76-79.
(8) CASTELNAU-L’ESTOILE, Charlotte de. Les ouvriers d’une vigne stérile : les jésuites et la conversion des Indiens au Brésil, 1580-1620. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2000, p. 376-377 apud LUZ, Guilherme Amaral. Carne Humana: a retórica do canibalismo na América portuguesa quinhentista. Tese de doutorado, Campinas, SP, UNICAMP, 2003, р. 195.
(9) GARCIA, Rodolfo. Introdução. In: CARDIM, Fernão, Op. Cit., p. 19.
(10) CARDIM, Fernão, Op. Cit., p. 9, 94 e 250-252.
(11) SOUZA, Laura de Mello e Souza. O Novo Mundo entre Deus e o Diabo. In: O Diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 1986, p. 49-56.
(12) LUZ, Guilherme Amaral. Pero de Magalhães Gandavo e a ética ultramarina..., Op. Cit., p. 81.
(13) GAMBINI, Roberto. O espelho índio: os jesuítas e a destruição da alma indígena. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1988, р. 128.
(15) GANDAVO, Pero de Magalhães, Op. Cit., p. 52 (grifo nosso).
(17) CARDIM, Fernão, Op. Cit., p. 127.
(18) GANDAVO, Pero de Magalhães, Op. Cit., p. 54.
(20) CARDIM, Fernão, Op. Cit., p. 109.
(23) GAMBINI, Roberto, Op. Cit., p. 166-167 e 170-171.
(24) GANDAVO, Pero de Magalhães, Op. Cit., p. 55.
(25) CARDIM, Fernão, Op. Cit., p. 104-105.
(27) LUZ, Guilherme Amaral. Carne Humana..., Op. Cit., p. 193-194.
(28) GANDAVO, Pero de Magalhães, Op. Cit., p. 58-60.
(29) LUZ, Guilherme Amaral. Pero de Magalhães Gandavo e a ética ultramarina..., Op. Cit., p. 90.
(30) GANDAVO, Pero de Magalhães, Op. Cit., p. 65-66.
(31) SOUZA, Laura de Mello e. O Novo Mundo entre Deus e o Diabo..., Op. Cit., p. 59.
(32) CARDIM, Fernão, Op. Cit., p. 117-118.
(33) GANDAVO, Pero de Magalhães, Op. Cit., p. 62.
(34) CARDIM, Fernão, Op. Cit., p. 119-120.
(35) LUZ, Guilherme Amaral. Carne Humana..., Op. Cit., p. 196.
(37) GAMBINI, Roberto, Op. Cit., p. 150.

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