sábado, 7 de fevereiro de 2026

Ucrânia NÃO persegue língua russa!

Qualquer conversa com uma ucraniana ou ucraniano exilado ou uma simples pesquisa em fontes que não sejam de propaganda vinda diretamente do Kremlin ou feita por simpatizantes direitistas ou esquerdistas de Putin já bastaria pra desmentir a ideia de que “há um genocídio de russos no Donbás” e que “a junta neonazista que deu um golpe de Estado em 2014 proibiu o uso da língua russa”. Ou melhor, basta uma imersão na realidade ucraniana que esses mitos, como diz o hino nacional, se desfazem “como o orvalho sob o Sol”.

Minha experiência pessoal pode ser suspeita, mas antes de 2014, sempre conversei no Facebook e no VK com ucranianos em russo (que aprendi na Unicamp de 2007 a 2010), e nunca nenhum deles expressou, até pra meu espanto, qualquer sinal de “russofobia” (e o inverso também vale). A partir de 2014, nas mesmas redes sociais, obviamente a hostilidade aumentaria, mas nenhum ucraniano jamais se recusou a usar o russo comigo; é óbvio que não converso com extremistas, que existem dos dois lados e sempre foram ínfima minoria.

Chegam 2022, quando eu já não usava mais várias redes sociais, e a invasão putinista, com sua leva de massacres civis e a proibição da cultura ucraniana nos territórios “libertados”. E ainda assim... ainda assim, sites ucranianos de notícias mantêm versões em língua russa; canais informativos que de Kyiv também transmitem pelo YouTube têm programas e vídeos inteiros em russo; todas essas mesmas mídias recebem, geralmente online, especialistas de outras nações, incluindo Israel, falantes de russo, e ucranianos (entre os quais destaco o politólogo Volodymyr Fysenko, sem contar os próprios funcionários do governo) falam na língua de Pushkin pra mídias russófonas exiladas.

Eu mesmo, se não soubesse russo, não teria nem uma fração do conhecimento que tenho sobre a guerra; só não domino ucraniano por falta de tempo, e não de vontade. Pra se ter uma noção, a língua russa sempre esteve tão integrada à vida pública ucraniana que todas as tentativas, incluindo as de 2014, de reduzir seu papel foram invariavelmente barradas pela Rada Suprema (o parlamento). Ucranianas e ucranianos no exterior, inclusive no Brasil, geralmente ensinavam russo porque sempre teve muito mais demanda que o ucraniano, mas muitos pararam exatamente por causa da facada nas costas dada por Putin. Hoje, se você sair numa rua da Rússia portando um tryzub (brasão nacional), uma bandeira ucraniana ou vestimentas que, nas mesmas cores dispostas na mesma forma, sejam remotamente semelhantes, é no mínimo detido e multado pesadamente por “simbologia extremista”!

A leitura da ótima história da Ucrânia por Serhii Plokhy já nos revela como, pelo contrário, foi o Império Russo, ao longo dos séculos 18 e 19, enquanto se expandia a partir dos territórios moscovitas originais, que proibiu o uso do ucraniano (que já era, adiciono, uma língua separada pelo menos desde o fim da Idade Média) em nome de um nacionalismo centrado no “grande irmão” e tutor dos “pequenos russos” e “russos brancos” (belarussos; sem relação com a reação antibolchevique). Na URSS, apenas sob Stalin, e especialmente de 1929-30 até a invasão alemã, a russificação forçada foi brutal, e embora Brezhnev e Gorbachov não perseguissem abertamente o ucraniano, sua negligência como língua pública, sobretudo da ciência e política, em prol do russo fizeram estragos enormes.

Já recaio no domínio do improvável, mas imagine a seguinte situação: e se o Brasil implicasse pra que o Uruguai adotasse o português não como obrigatório nas escolas (o que já acontece, aliás) ou mesmo cooficial, mas oficial, com os mesmos direitos do espanhol, alegando ter sido a “Cisplatina” uma “região histórica” do finado Império? Ou que a Bolívia e o Paraguai apenas sugerissem que a língua de Cervantes fosse oficializada no Acre (outrora sob domínio de La Paz), Rondônia, Mato Grosso ou Mato Grosso do Sul, devido à proximidade das populações? O militante de sofá vai bater o pé e alegar uma falsa equivalência. Mas não, é essa mesma a linha de raciocínio.

Portanto, como nos informa Dmitri Gorkaliuk, influenciador moldovo que mantém o canal Málenkaia straná (Pequeno País), é natural que Kyiv, após a independência, promovesse políticas de revitalização do ucraniano em todas as esferas. Mas pra propaganda imperialista do Kremlin, qualquer favorecimento do ucraniano só pode vir em “detrimento” do pobre e coitado russo! A língua de Lenin, da Comintern, anteparo ao “nacionalismo fascista” de todo mundo que não mimetizasse Moscou, dirá nossa esquerda desinformada! E por mais que esses mitos possam ser facilmente derrubados, nunca é demais colaborar pra internet em língua portuguesa com qualquer conteúdo anti-Putin que seja.

Por isso, decidi separar deste vídeo recente, em que Gorkaliuk faz um especial de “perguntas e respostas”, um questionamento sobre a suposta “perseguição” de falantes de russo na Ucrânia. Eu apresentei todo esse pano de fundo pré-2022 porque ele foca exatamente na atualidade, o que não tira seu valor, pois muitos moldovos, sobretudo os de língua e cultura russas, são facilmente enganados pela propaganda moscovita, e é ela que Gorkaliuk se propõe a combater. Após traduzir, só tirei a referência a seu vídeo sobre o fechamento da Casa Russa na Moldova, mas pus o link pra quem se interessar:


A segunda pergunta: o que está acontecendo com os falantes de russo na Ucrânia? Eles estão realmente sendo oprimidos? O mito da opressão contra os falantes de russo é um dos principais argumentos usados pela propaganda russa para justificar a guerra.

Maria Zakharova, porta-voz da diplomacia russa (arquivos): “A Rada [Suprema, parlamento ucraniano] decidiu que o ucraniano será o único idioma oficial na Ucrânia.”

Mas o fato é que, mesmo com o início da uma guerra em grande escala, o idioma russo não desapareceu na Ucrânia. Sim, o ucraniano é obrigatório há muito tempo nas instituições públicas de ensino e no setor de serviços. Essa é uma política de Estado que visa fortalecer o idioma oficial. Mas no dia a dia, em casa e até mesmo fora dela, as pessoas falam o idioma que quiserem. Ninguém invade seu apartamento e o multa por falar russo na cozinha.

Além disso, a cultura em língua russa existe na Ucrânia. Livros em russo são vendidos nas lojas e artistas se apresentam cantando em russo. De fato, muitos deles voluntariamente passaram a usar o ucraniano depois de 2022. Existe o canal de TV estatal Dom, que transmite em russo. Veículos de comunicação como a UNIAN publicam vídeos e mantêm perfis em redes sociais em russo.

Quanto ao ensino, sim, o ucraniano se tornou obrigatório nas escolas, mas isso não implica que as crianças apanhem de palmatória por falarem russo, e sim que o Estado quer que seus cidadãos dominem o idioma oficial. Exatamente como na França, onde se ensina em francês, e na Alemanha, em alemão. Acredito que a relutância de muitos ucranianos em falar a língua do agressor dispensa explicações. Mas, como dizem na russófona Odesa, escolha voluntária e imposição são duas coisas muito diferentes.

Com relação à Moldova e às preocupações quanto à opressão linguística em nosso país, o governo decidiu fechar a Casa Russa em Chișinău. As autoridades justificaram a decisão dizendo que as atividades do centro iam além do intercâmbio cultural. E realmente, se analisarmos o que faziam centros russos semelhantes em diversos países, fica claro que não se tratava de Pushkin e Dostoievski, mas de promover a política do Kremlin sob o disfarce de cultura.

A Casa Russa não era o único espaço, nem um espaço necessário, pra cultura ou comunicação. Seu fechamento foi uma medida sanitária, para eliminar uma instituição que, sob o disfarce de cultura, praticava manipulação e interferência política. É exatamente por isso que existe tanta histeria em torno do assunto. Não porque ela fosse importante pra sociedade, mas porque era útil pro Kremlin.

Portanto, a resposta é simples. Os falantes de russo não estão sendo oprimidos nem na Ucrânia nem na Moldova. A Ucrânia segue uma política linguística voltada pro fortalecimento do idioma oficial. E esse é um direito soberano seu. Mas os militares russos não estão apenas oprimindo os ucranianos; estão os matando. As regiões de língua russa são as que mais têm sofrido com a guerra.


Второй вопрос. Что происходит с русскоязычными в Украине? Их, правда, притесняют? Миф о притеснении русскоязычных – один из главных аргументов российской пропаганды для оправдания войны.

“Рада приняла решение относительно того, что единственным государственным языком на Украине будет только украинский.”

Но факт состоит в том, что даже с началом полномасштабной войны русский язык в Украине никуда не исчез. Да, украинский уже давно стал обязательным для государственных учреждений образования и сферы услуг. Это политика государства, направленная на укрепление государственного языка. Но в быту, дома, да и вне его, люди говорят на том языке, на каком хотят. Никто не вырывается к вам в квартиру и не штрафует за русский разговор на кухне.

Более того, русскоязычная культура в Украине существует. Русскоязычные книги продаются в магазинах, русскоязычные артисты выступают. Правда, многие из них после 2022 года сознательно перешли на украинский. Есть государственный телеканал Дом, вещающий на русском. Медиа типа УНИАНа выкладывают видео и ведут соцсети на русском языке.

Что касается образования, да, украинский стал обязательным в школах, но это не значит, что русскоязычных детей бьют по рукам за русское слово. Это значит, что государство хочет, чтобы его граждане владели государственным языком. Точно так же, как во Франции обучают на французском, а в Германии на немецком. Нежелание многих украинцев говорить на языке агрессора, думаю, не требует объяснений. Но, как говорят в русскоязычной Одессе, добровольный выбор и притеснение – это две большие разницы.

Что касается Молдовы и опасений по поводу притеснения языка у нас, правительство приняло решение закрыть Русский дом в Кишинёве. Власти объяснили это тем, что деятельность центра выходила за рамки культурного обмена. И действительно, если посмотреть на то, чем занимались подобные российские центры в разных странах, становится понятно, это не про Пушкина и Достоевского, это про продвижение кремлёвской политики под видом культуры.

Русский дом не был ни единственным, ни необходимым пространством для культуры или общения. Его закрытие – это санитарная мера. Убрать структуру, которая под видом культуры занималась политической манипуляцией и вмешательством. Именно поэтому вокруг него так много истерики. Не потому, что он был важен обществу, а потому, что он был полезен Кремлю.

Так что ответ простой. Русскоязычных ни в Украине, ни в Молдове не притесняют. Украина проводит языковую политику, направленную на укрепление государственного языка. И это её суверенное право. А вот российские военные не просто притесняют украинцев, а убивают их. Больше всего от войны пострадали именно русскоязычные регионы.



Pro humor de cada dia, um penteado diferente, rs.

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