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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Canções fascistas traduzidas (4)

Além da recém-retraduzida Giovinezza, confesso que sempre achei bonitas as canções do período fascista da Itália (1922-43), quando ela se manteve formalmente como uma monarquia, mas na prática se tornou uma ditadura sob o primeiro-ministro Benito Mussolini. Fundador do Partido Nacional Fascista (PNF) e idealizador do fascismo (embora suas fontes intelectuais tenham sido diversas), ele tinha sido expulso do Partido Socialista Italiano por apoiar a participação do país na 1.ª Guerra Mundial e criou a matriz das extremas-direitas que tomariam o poder no período posterior, exacerbando o nacionalismo, destruindo o movimento operário independente e cultuando a guerra.

Melodias agradáveis, mas com cujo conteúdo e uso não posso concordar. Portanto, embora eventualmente apareçam por aqui adoradores do Duce (“guia, condutor”), estas traduções, que eu desejava fazer desde os tempos do Pan-Eslavo Brasil, meu finado canal no YouTube, têm um fim meramente educativo. Portanto, me abstenho de dizer mais, e apenas ressalto que por praticidade decidi não adicionar os nomes dos autores e que traduzi diretamente, deixando a linguagem mais informal e simples, sem mexer no conteúdo. Sempre que possível, incorporei os vídeos a partir de uma fonte mais antiga, que geralmente tem a legenda em italiano passando, e de outra que o Google gera automaticamente. Igualmente, apenas publiquei as traduções, e não as letras originais, que podem ser vistas nas respectivas fontes; coloquei todas as iniciais de linhas em maiúsculas e mantive a pontuação original quando possível.

A versão italiana do Wikisource tem uma seção só com letras de canções fascistas, embora esteja longe de ser exaustiva. Este blog publicou um ótimo trabalho sobre o hinário de Mussolini e trouxe ainda ampla ilustração sobre o colonialismo na África, com imagens particularmente racistas. Por outro lado, sempre há aqueles saudosistas que devemos citar de um jeito ou de outro, como esta coleção que inclui cantos de extrema-direita em geral e esta publicação cujo hospedeiro dispensa explicações.

As duas primeiras publicações são dedicadas à ideologia fascista de uma forma geral, e as duas últimas contêm letras com alusões à ocupação da Etiópia e da Somália, cujo arremedo de “império colonial” era crucial pra propaganda de Mussolini. As escolhas foram bem arbitrárias e, obviamente, não exaustivas. A primeira canção se chama Ti saluto, vado in Abissinia (Te saúdo, vou à Abissínia, nome histórico da Etiópia e da Eritreia), a segunda se chama Avanti gloriose schiere (Avante, fileiras gloriosas) e a terceira se chama Faccetta nera (Rostinho negro).




1. Estão se formando as fileiras e os batalhões
Que vão marchando em direção à estação.
Deixaram seus vilarejos natais
Cantando ao vento um alegre refrão.
O trem parte e em cada janela
O soldado moço repete alegremente:

Refrão:
Eu te saúdo e vou à Abissínia,
Querida Virginia, mas vou voltar.
Assim que chegar ao acampamento
Vou te escrever do regimento.
Vou te mandar da África uma bela flor
Que nasce sob o céu [da linha] do equador.
Eu te saúdo e vou à Abissínia,
Querida Virginia, mas vou voltar.

2. Um jovem soldado é todo ardor,
Outro tem no peito os sinais da bravura,
Mas vão juntos cheios de alegria
Cantando os hinos da juventude.
O velho da infantaria que não pode partir
Lamenta no coração por não poder dizer:

(Refrão)

4. Dos Alpes ao mar, chegando até o equador
Vamos hastear a Tricolor por toda parte
Eu te saúdo e vou à Abissínia,
Querida Virginia, mas vou voltar.


1. Estou deixando a mamãe, a doce casinha,
Minha pequena filha amada,
E agarro o destino que está esperando
Assinalar meu coração de glória;
E nos peitos, nos sangues de todos,
Um só grito: o Império. Vamos o ter!

Refrão:
Avante, fileiras gloriosas,
Vamos fincar as bandeiras tricolores,
A África vai ter um único nome: Roma,
É o grande nome da civilização eterna.

2. Você me beija, ó, menina gentil,
E me diz: vou partir com você, só me dê
Teu amor e um fuzil,
A coragem e a fé eu vou ter.
Sou mulher da Itália e não abandono
Que vai dar um Império à Itália.

(Refrão)

3. E a lembrança dos velhos soldados,
Que conduz sobre o novo caminho,
Tantos aviadores inexperientes abraçados,
Todos ligados por um só destino,
Estão cantando Giovinezza, e essa canção
Nos dá força, amor e conquistas.

(Refrão)




1. Se do altiplano você olhar o mar,
Moreninha, que é escrava entre os escravos,
Você vai ver, como num sonho, muitos navios
E uma Tricolor tremulando por você.

Refrão:
Rostinho negro, bela abissínia,
Aguarde com esperança, pois está chegando a hora!
Quando estivermos junto a você,
Vamos te dar uma outra lei e um outro Rei.

2. Nossa lei é a escravidão do amor,
Nosso lema é liberdade e dever,
Nós, Camisas Negras, vamos vingar
Os heróis que tombaram ao te libertarem!

(Refrão)

3. Rostinho negro, pequena abissínia,
Vamos te levar, liberta, a Roma.
Você vai ser beijada por nosso Sol,
E você também vai vestir a Camisa Negra.

4. Rostinho negro, você vai ser romana,
Tua bandeira será apenas a italiana!
Vamos marchar junto com você
E desfilar diante do Duce e do Rei!



segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Canções fascistas traduzidas (3)

Além da recém-retraduzida Giovinezza, confesso que sempre achei bonitas as canções do período fascista da Itália (1922-43), quando ela se manteve formalmente como uma monarquia, mas na prática se tornou uma ditadura sob o primeiro-ministro Benito Mussolini. Fundador do Partido Nacional Fascista (PNF) e idealizador do fascismo (embora suas fontes intelectuais tenham sido diversas), ele tinha sido expulso do Partido Socialista Italiano por apoiar a participação do país na 1.ª Guerra Mundial e criou a matriz das extremas-direitas que tomariam o poder no período posterior, exacerbando o nacionalismo, destruindo o movimento operário independente e cultuando a guerra.

Melodias agradáveis, mas com cujo conteúdo e uso não posso concordar. Portanto, embora eventualmente apareçam por aqui adoradores do Duce (“guia, condutor”), estas traduções, que eu desejava fazer desde os tempos do Pan-Eslavo Brasil, meu finado canal no YouTube, têm um fim meramente educativo. Portanto, me abstenho de dizer mais, e apenas ressalto que por praticidade decidi não adicionar os nomes dos autores e que traduzi diretamente, deixando a linguagem mais informal e simples, sem mexer no conteúdo. Sempre que possível, incorporei os vídeos a partir de uma fonte mais antiga, que geralmente tem a legenda em italiano passando, e de outra que o Google gera automaticamente. Igualmente, apenas publiquei as traduções, e não as letras originais, que podem ser vistas nas respectivas fontes; coloquei todas as iniciais de linhas em maiúsculas e mantive a pontuação original quando possível.

A versão italiana do Wikisource tem uma seção só com letras de canções fascistas, embora esteja longe de ser exaustiva. Este blog publicou um ótimo trabalho sobre o hinário de Mussolini e trouxe ainda ampla ilustração sobre o colonialismo na África, com imagens particularmente racistas. Por outro lado, sempre há aqueles saudosistas que devemos citar de um jeito ou de outro, como esta coleção que inclui cantos de extrema-direita em geral e esta publicação cujo hospedeiro dispensa explicações.

As duas primeiras publicações são dedicadas à ideologia fascista de uma forma geral, e as duas últimas contêm letras com alusões à ocupação da Etiópia e da Somália, cujo arremedo de “império colonial” era crucial pra propaganda de Mussolini. As escolhas foram bem arbitrárias e, obviamente, não exaustivas. A primeira canção se chama In Africa si va (Vamos à África), a segunda se chama La marcia delle legioni (A marcha das legiões), e a terceira se chama Africa nostra (África nossa). Até aqui você já deve ter notado como, desde a saudação até a heráldica e a arquitetura, há uma obsessão por ressuscitar a cultura romana clássica: centúrias, legiões, o feixe de varas...


1. A trombeta do barbeiro já ressoou,
É a reunião do batalhão,
Um grito apressado pra mulher amada,
Depois o desfile ao longo do bastião,
E pelas ruas que ainda dormem
Ressoa a canção dos soldados:

Refrão:
Nós vamos por Mussolini
À África Oriental,
Temos com os abissínios [etíopes]
Muita desforra pra tirar.
Pra encerrar a partida,
Estamos levando na cartucheira
O elixir da vida longa
Ao négus [Haile] Selassie!
Nós vamos por Mussolini,
Pela Itália e pelo Rei!

2. Uma velhinha, tremendo de emoção,
Caminha apressada até a estação
Pra dizer a seu filho com amor:
“Vá, faça justiça, vou estar rezando!”
“Vou voltar com a marca da bravura!”
Lhe grita o filho enquanto o trem parte.

(Refrão)

3. E num dia não muito distante,
Lá distante, sobre o altiplano
Vamos ver tremulando
Mais soberba a Tricolor!
Nós vamos por Mussolini,
Pela Itália e pelo Rei!




Roma reivindica o império,
A hora das Águias chegou!
Ressoares de trombetas saúdam o voo
Do Capitólio ao Quirinal!
Terra, queremos te dominar!
Mar, queremos te navegar!
O [couraçado] Littorio retorna o sinal
De força, de civilização!
Sete colinas [de brasão] no céu,
Sete glórias no Sol!
O gênio e o fado dos Césares
Revivem no Duce libertador!
Sob os feixes de outrora,
À luz do dia,
Passa com mil bandeiras
O povo triunfante da Itália!
A partir de Roma, ó, Sol,
Possa você um dia
Contemplar novamente
Ainda mais reluzente a cidade.
Ó, Sol, ó, Sol,
Que você possa sempre beijar
Sobre a testa invencível [invicta]
Os filhos da Urbe imortal!


1. Recolhidos de cem vizinhanças,
Das mais belas regiões do mundo,
Retomando as ruas de Roma,
Atravessando o mar profundo.

Avançam em terra africana,
Cintilantes de alegria pugnaz,
Pra doar à Pátria distante
Um diadema de terra e de mar.

Refrão:
Somos os Camisas Negras,
Somos da infantaria ou soldados alpinos,
Somos mil fileiras valentes,
Somos os heróis de Mussolini!
Artilheiros e fuzileiros,
Vamos fazer nossa história,
Com os canhões e os [destróieres] Aviere,
Com as bombas e com os punhais!

2. Vai ser extirpado pela machadinha
Sacudida pela mão lictória [i.e. fascista]
Quem se opuser às metas seguras
Que o Fascismo assinalou à glória.

No florescer de aço e de cantos solenes,
A vitória radiosa vai resplandecer,
Na luz fulgurante das armas
A Abissínia [Etiópia] vai ser redimida!

(Refrão)



domingo, 22 de fevereiro de 2026

Canções fascistas traduzidas (2)

Além da recém-retraduzida Giovinezza, confesso que sempre achei bonitas as canções do período fascista da Itália (1922-43), quando ela se manteve formalmente como uma monarquia, mas na prática se tornou uma ditadura sob o primeiro-ministro Benito Mussolini. Fundador do Partido Nacional Fascista (PNF) e idealizador do fascismo (embora suas fontes intelectuais tenham sido diversas), ele tinha sido expulso do Partido Socialista Italiano por apoiar a participação do país na 1.ª Guerra Mundial e criou a matriz das extremas-direitas que tomariam o poder no período posterior, exacerbando o nacionalismo, destruindo o movimento operário independente e cultuando a guerra.

Melodias agradáveis, mas com cujo conteúdo e uso não posso concordar. Portanto, embora eventualmente apareçam por aqui adoradores do Duce (“guia, condutor”), estas traduções, que eu desejava fazer desde os tempos do Pan-Eslavo Brasil, meu finado canal no YouTube, têm um fim meramente educativo. Portanto, me abstenho de dizer mais, e apenas ressalto que por praticidade decidi não adicionar os nomes dos autores e que traduzi diretamente, deixando a linguagem mais informal e simples, sem mexer no conteúdo. Sempre que possível, incorporei os vídeos a partir de uma fonte mais antiga, que geralmente tem a legenda em italiano passando, e de outra que o Google gera automaticamente. Igualmente, apenas publiquei as traduções, e não as letras originais, que podem ser vistas nas respectivas fontes; coloquei todas as iniciais de linhas em maiúsculas e mantive a pontuação original quando possível.

A versão italiana do Wikisource tem uma seção só com letras de canções fascistas, embora esteja longe de ser exaustiva. Este blog publicou um ótimo trabalho sobre o hinário de Mussolini e trouxe ainda ampla ilustração sobre o colonialismo na África, com imagens particularmente racistas. Por outro lado, sempre há aqueles saudosistas que devemos citar de um jeito ou de outro, como esta coleção que inclui cantos de extrema-direita em geral e esta publicação cujo hospedeiro dispensa explicações.

As duas primeiras publicações são dedicadas à ideologia fascista de uma forma geral, e as duas últimas contêm letras com alusões à ocupação da Etiópia e da Somália, cujo arremedo de “império colonial” era crucial pra propaganda de Mussolini. As escolhas foram bem arbitrárias e, obviamente, não exaustivas. A primeira canção se chama Duce a noi (Um guia/Duce pra nós). A segunda se chama Il canto degli italiani (O canto dos italianos), cujo título não deve ser confundido com um dos apelidos do hino nacional moderno. A terceira se chama Inno a Roma (Hino a Roma), por vezes acompanhada do nome de seu letrista, Fausto Salvatori, que a escreveu em 1919, portanto, antes da entronização de Mussolini.




1. Na Itália dos fascistas
Os meninos também são guerreiros,
Somos balilla ou mosqueteiros,
A florada valente do regime.

As medalhas que portamos
Com o Duce aqui no peito,
Servem de escudo a nosso afeto
E o orgulho acende no coração!

Refrão:
O olhar do Duce brilha
Fixamente sobre seus balilla!
Que seja a centelha de amor que um dia
Saiu do coração dele! (Sim, sim).

O Duce [guia] de seus balilla
Ressoa a fé bem alto
Um nome mais doce
Que o teu não existe!

Um guia, um guia pra você!

2. Temos um belo mosquete
E a Itália o deu pra nós:
Mosqueteiros, com armas aos pés,
O destino a ser preparado!

Se Balilla tinha uma pedra,
Nós atiramos nossos corações:
O ardor másculo dos pequenos
Quer construir a Grande Itália!

(Refrão)

3. Primavera dos povos,
Roma retorna a seus destinos:
Mussolini foi quem o desejou,
Seu sonho já está em marcha!

Atados ao Duce, consagramos
À Grande Mãe os camponeses [cioru] invictos;
A Roma eterna vai apontar orgulhosa
Seus tesouros ao mundo!

(Refrão)

Esta terceira parte está ausente da maioria dos registros. A única ocorrência dessa palavra dialetal “cioru” está num fórum italiano que alude a uma balsa a cabo usada pra facilitar o transporte de operários, muitos deles de origem camponesa, que partiam da Igreja da Gran Madre di Dio, em Turim, à fábrica da Fiat localizada no distrito de Lingotto. O prédio dessa mesma fábrica foi considerado um dos primeiros projetos futuristas importantes do fascista Marinetti. A ditadura inicialmente resistia, sem sucesso, a que camponeses migrassem pra trabalhar na cidade, mas com o tempo essa barreira foi sendo removida pra que eles substituíssem os trabalhadores mandados à guerra em 1940. Não sei ao certo se cioru se refere aos operários, aos camponeses ou ao trabalho em geral e seu transporte.




Nascemos como um crepúsculo escuro
De renúncia, vergonha e dor:
Nascemos num ato de amor
Redimindo a desonra de outrem.
Nascemos no nome da Itália,
Coligados em torno de nossa bandeira:
A primavera renasceu conosco,
Reacendeu-se uma Chama no coração.
Surja, Itália, pra uma nova vida,
Assim deseja quem morreu por você,
Quem deu seu sangue,
Quem enfrentou o inimigo
Vai dar justiça pra Pátria.
Itália, ilumine seu rosto,
Tenha fé: o futuro é nosso.
Reaja, reaja, ó, Itália!
Tua juventude está renascendo.
Vamos ser tua vanguarda,
Coragem, italianos: sigam em frente.
O destino sorri somente aos fortes;
Liberem a Pátria, o Trabalho.
Vamos ser a Chama da Itália,
Os rebentos de uma aurora triunfal,
A avalanche impetuosa que surge:
Coragem, italianos: venham conosco!
Surja, Itália, pra uma nova vida.




1. Roma divina, a você sobre o Capitólio,
Onde verdeja eternamente o louro sagrado,
A você, nossa fortaleza e nosso orgulho,
O coro se eleva.
Salve, Deusa Roma! Em teu rosto cintila
O Sol que nasce sobre a nova história;
Com o brasão reluzente, no último horizonte
Se encontra a Vitória.

Refrão:
Sol, você que surge livre e sorridente
Doma teus cavalos sobre nossa colina;
Você não vai ver nada no mundo
Maior que Roma, maior que Roma!

2. O céu inteiro é um voo de bandeiras
E a paz do mundo hoje é latina:
A [bandeira] Tricolor domina
Sobre o canteiro de obra, sobre a oficina.
Você é mãe que dá a lei aos povos
Eterna e pura como o Sol que nasce,
Você abençoa o arado antigo e o rebanho
Numeroso que pasta!

(Refrão)

3. Você abençoa o descanso e o cansaço
Que se renova pela virtude do amor,
A juventude em flor e a idade
Antiga que está morrendo.
Mãe de homem e de rebanhos ovinos,
De obras diretas e de escolas pensativas,
Os regimentos voltam a tua casa
E o Sol nasce.

(Refrão)



sábado, 21 de fevereiro de 2026

Canções fascistas traduzidas (1)

Além da recém-retraduzida Giovinezza, confesso que sempre achei bonitas as canções do período fascista da Itália (1922-43), quando ela se manteve formalmente como uma monarquia, mas na prática se tornou uma ditadura sob o primeiro-ministro Benito Mussolini. Fundador do Partido Nacional Fascista (PNF) e idealizador do fascismo (embora suas fontes intelectuais tenham sido diversas), ele tinha sido expulso do Partido Socialista Italiano por apoiar a participação do país na 1.ª Guerra Mundial e criou a matriz das extremas-direitas que tomariam o poder no período posterior, exacerbando o nacionalismo, destruindo o movimento operário independente e cultuando a guerra.

Melodias agradáveis, mas com cujo conteúdo e uso não posso concordar. Portanto, embora eventualmente apareçam por aqui adoradores do Duce (“guia, condutor”), estas traduções, que eu desejava fazer desde os tempos do Pan-Eslavo Brasil, meu finado canal no YouTube, têm um fim meramente educativo. Portanto, me abstenho de dizer mais, e apenas ressalto que por praticidade decidi não adicionar os nomes dos autores e que traduzi diretamente, deixando a linguagem mais informal e simples, sem mexer no conteúdo. Sempre que possível, incorporei os vídeos a partir de uma fonte mais antiga, que geralmente tem a legenda em italiano passando, e de outra que o Google gera automaticamente. Igualmente, apenas publiquei as traduções, e não as letras originais, que podem ser vistas nas respectivas fontes; coloquei todas as iniciais de linhas em maiúsculas e mantive a pontuação original quando possível.

A versão italiana do Wikisource tem uma seção só com letras de canções fascistas, embora esteja longe de ser exaustiva. Este blog publicou um ótimo trabalho sobre o hinário de Mussolini e trouxe ainda ampla ilustração sobre o colonialismo na África, com imagens particularmente racistas. Por outro lado, sempre há aqueles saudosistas que devemos citar de um jeito ou de outro, como esta coleção que inclui cantos de extrema-direita em geral e esta publicação cujo hospedeiro dispensa explicações.

As duas primeiras publicações são dedicadas à ideologia fascista de uma forma geral, e as duas últimas contêm letras com alusões à ocupação da Etiópia e da Somália, cujo arremedo de “império colonial” era crucial pra propaganda de Mussolini. As escolhas foram bem arbitrárias e, obviamente, não exaustivas. A primeira canção se chama All’armi siam fascisti (Às armas, sejamos fascistas), embora “siam(o)” possa ser traduzido tanto “somos” quanto “sejamos”; acho que ambas dão certo. A segunda se chama Vincere!, que é fácil, né: Vencer!


Às armas! Às armas! Às armas, sejamos fascistas

E nós somos partes integrantes do Feixe,
Vamos apoiar a causa até a morte
E vamos lutar com cada vez mais força
Até nosso sangue encher o coração.
Sempre cantando louvores a nossa Pátria
Que vamos todos defender unidos
Contra adversários e traidores,
Que vamos exterminar um a um.

Às armas! Às armas! Às armas, sejamos fascistas

Todos sabemos qual é nosso objetivo:
Combater tendo a certeza da vitória,
E que isso nunca seja só pela glória,
Mas pela justa motivação da liberdade.
Os bolcheviques que combatemos
Vamos saber bem os fazer desparecer
E ao ouvir nosso grito, aquela gentalha
Sem dúvida vai tremer e morrer.

Às armas! Às armas! Às armas, sejamos fascistas

Vamos levar a vitória por toda parte
Porque a coragem não vai nos faltar,
E vamos gritar com cada vez mais força
E sustentar nossa causa sagrada.
Em guarda, amigos! Pois a cada ocasião
Vamos estar todos sempre prontos,
Até que a glória nossa, dos fascistas
Triunfe em toda a Itália.

Às armas! Às armas! Às armas, sejamos fascistas

Somos os adversários do bolchevismo
Porque eles não querem Pátria nem Família,
Porque eles são lixo e lama
Que devemos afugentar com desprezo.
Sempre gritando “Viva a Itália”,
Abaixo todos os que a renegam,
Ao alto, ao alto a Bandeira Tricolor
Que vai se sempre nosso amor.




1. Fortalecida por mil paixões,
A voz da Itália ressoou!
Centúrias, coortes, legiões,
De pé, pois chegou a hora!
Avante, juventude!
Superemos todo empecilho e obstáculo;
Despedacemos a escravidão
Que nos sufoca, prisioneiros de nosso Mar!

Refrão:
Vencer! Vencer! Vencer!
E vamos vencer, em terra, céu e mar!
É a palavra de ordem
De uma vontade suprema!
Vencer! Vencer! Vencer!
A qualquer custo, ninguém vai nos parar!
Os corações que exultam
Estão prontos pra obedecer,
Estão prontos e juram:
Ou vencer, ou morrer!

2. Capacete, punhal, mosquete,
Andamos com o passo romano!
A chama que queima no peito
Nos estimula, nos guia, e seguimos!
Avante! Vamos ousar o inaudito [inconcebível],
O impossível não existe!
Nossa vontade é invencível,
Ninguém jamais vai nos derrotar!

(Refrão)



sábado, 14 de fevereiro de 2026

[REPOST] Giovinezza (hino fascista, 1925)



Quando publiquei este conteúdo pela primeira vez, em 30 de julho de 2019, minha intenção era apresentar o modo como se tocava em geral o “Hino da Itália” em cerimônias oficiais durante a era fascista de Benito Mussolini (ou “Vintênio Fascista”, 1922-1944): a primeira parte da Fanfara e Marcia Reale d’Ordinanza (Fanfarra e Marcha Real da Ordenança), por vezes tocada sem a Fanfara, como nos áudios abaixo, logo seguida por uma execução instrumental da canção patriótica Giovinezza (Juventude; em italiano moderno, a palavra mais corrente é “gioventù”), adaptada em 1925 pra ser o hino do Partido Nacional Fascista (PNF).

Porém, minha intenção era atualizar a publicação no futuro, com a letra inteira de Giovinezza traduzida pro português, pois eu só tinha inserido a primeira estrofe e o refrão. Só hoje tomei coragem pra fazer isso, e abaixo temos a versão que foi adotada e oficializada pelo PNF em 1925, a mais conhecida ao redor do mundo. Há uma primeira versão datada de 1922, quando Mussolini foi escolhido primeiro-ministro, e outra de 1944, quando o ditador em fuga tentou fundar uma república fascista no norte da Itália; não as traduzi. Mas a história da canção, como se lê abaixo, é mais antiga e complexa.

Adaptei levemente o conteúdo de 2019, e apenas adiciono que era comum, sobretudo na última versão, cantar-se no fim do refrão “Per Benito Mussolini:/Eja, eja, alalà!”. Pode-se traduzir a ideia como “Por Benito Mussolini:/[Gritemos] Hip, hip, hurra!”, mas a versão italiana do grito de guerra, posteriormente indissociável dos ritos fascistas, foi criada por Gabriele D’Annunzio em 1917, enquanto lutava na 1.ª Guerra Mundial, justamente pra substituir o “bárbaro” Hip, hip, hurra! D’Annunzio é considerado uma das maiores inspirações do fascismo italiano, sobretudo no aspecto ritual, mas ele mesmo nunca participou ativamente da ditadura nem se autodeclarava fascista.

A Marcia Reale foi a melodia empregada pelo Reino da Itália desde a unificação, em 1861, até a proclamação da república por um plebiscito, em 1946. Não está claro como e quando surgiu a Fanfarra e Marcha Real, em algum momento do início da década de 1830, mas a versão atual da Marcha é atribuída a Giuseppe Gabetti. Com a abolição da monarquia, em 1946, a melodia foi abandonada, nunca chegando a ter uma letra oficial, apesar dos muitos textos apresentados. Mesmo sob o comando de facto do “Duce” desde 1922, a Itália continuou sendo formalmente uma monarquia, nunca também chegando a se chamar “Império Italiano”, apesar de existir um incipiente império colonial na África e nos Bálcãs até o fim da 2.ª Guerra Mundial.

Giovinezza era originalmente uma canção estudantil com melodia de Giuseppe Blanc e letra de Nino Oxilia, surgida em 1909 sob o título Il commiato. Com letras sempre mudadas, a melodia também baseou os hinos da seção dos “Arditi” do Exército Italiano (1917, letra anônima), dos esquadristas paramilitares do fascismo (1919, letra de Marcello Manni) e finalmente do partido fascista (1925, letra de Salvatore Gotta). Acossado pelos Aliados, ao fundar a breve República Social Italiana (ou República de Salò, 1943-45), Mussolini adotou Giovinezza, com outra letra, como hino único dessa entidade, já desligada da monarquia. Hoje, embora a Itália proíba a apologia do fascismo ou a refundação de seu partido, não há lei que interdite a execução pública de Giovinezza.

Entre 1943 e 1944, o Reino da Itália chegou a utilizar La canzone del Piave como hino nacional, no processo de crise institucional e de desintegração causado pelo conflito mundial. Logo depois a Marcia Reale d’Ordinanza foi reintroduzida, na esperança de que a monarquia pudesse seguir seu caminho livre do fascismo. Mas um referendo promovido em 2 e 3 de junho de 1946, com resultado proclamado no dia 10, optou pela adoção do regime republicano (54,3% contra 45,7%), com a maior parte do sul da Itália (incluindo a Sicília e a Sardenha), que já tinha sido um reino independente no passado, votando a favor do rei. Umberto 2.º, o último monarca, filho e sucessor do célebre Vittorio Emanuele (Vitório Emanuel) 3.º, partiu então ao exílio, pra nunca mais voltar.

Como hino nacional da nova República Italiana, adotou-se então na prática Il Canto degli Italiani, canção que data de 1847, mas só em 2017 foi oficializada por lei. Curiosidade: apenas em 1945, ainda antes do fim da guerra e com o norte da Itália ocupado pelos alemães pró-Mussolini, o governo de Roma permitiu por decreto o sufrágio feminino, praticado pela primeira vez no plebiscito de 1946, quando mais mulheres do que homens estavam aptas a votar. Eu baixei a Marcia Reale desta página, tendo somente, no primeiro vídeo, diminuído um pouco o andamento pra você aproveitar melhor, e no segundo, cortado alguns trechos que não eram essenciais pra ilustração. A versão de Giovinezza é cantada por Beniamino Gigli, mas conservei apenas a abertura instrumental, que alonguei um pouco pra poder ilustrar bem.

O terceiro vídeo é parte da cena em que o general fascista Rodolfo Graziani chega a Benghazi, na Líbia italiana, pra combater uma rebelião anticolonial liderada pelo imã e professor Omar al-Mukhtar em 1931. Ela foi extraída do filme líbio Lion of the Desert (O leão do deserto), que foi estrelado em 1981 pelo célebre Anthony Quinn (Zorba, o grego) no papel de Al-Mukhtar e chegou a ser censurado na Itália (Il leone del deserto) logo depois de ser lançado. Segundo o então primeiro-ministro Giulio Andreotti, a obra “ofende a honra do exército italiano”, mas teve a execução pública enfim liberada em 2009, com diversas reprises pela plataforma Sky. Com filmagens nos EUA, na Itália e na Líbia, o ex-ditador líbio Muammar Gaddafi financiou parte dos trabalhos com 35 milhões de dólares, chegando a pedir a inclusão de uma cena historicamente inexata, mas transmitindo várias vezes o filme na TV líbia. Oliver Reed esteve no papel do general Graziani, e Rod Steiger no de Benito Mussolini.

Na cena do filme, Graziani é acompanhado ainda do príncipe Amedeo (Amadeu) de Saboia-Aosta, o duque de Aosta (1898-1942), que deu apoio ao fascismo e foi vice-rei da Etiópia (1937) e governador-geral e comandante-em-chefe da África Oriental Italiana. Sky du Mont faz seu papel em O leão do deserto. Eu baixei o vídeo desta página, que já tem um trecho selecionado (da dublagem francesa do filme), e eu fiz mais cortes ainda no começo e no fim.

Todos os dados históricos e sobre o filme, bem como os arquivos das bandeiras, estão na Wikipédia italiana. No primeiro vídeo, a bandeira era a nacional e mercantil do Reino da Itália, sendo uma versão com a coroa em cima do brasão (bandeira igual à do Reino da Sardenha em 1851-61) usada como “bandeira de Estado” em escritórios, residências dos monarcas, sedes parlamentares e representações diplomáticas. No segundo vídeo, a outra bandeira era usada apenas como bandeira de guerra da República de Salò, sendo a nacional idêntica à atual, ou seja, sem o brasão real nem a águia. Seguem abaixo os três vídeos, a letra em italiano da Giovinezza fascista (1925) e sua tradução:






Prefiro não comentar...

1. Salve o popolo d’eroi,
salve o patria immortale,
son rinati i figli tuoi
con la fede e l’ideale.
Il valor dei tuoi guerrieri,
la virtù dei tuoi pionieri,
la vision dell’Alighieri
oggi brilla in tutti i cuor.

Ritornello (2x):
Giovinezza, giovinezza,
primavera di bellezza,
per la vita, nell’asprezza,
il tuo canto squilla e va!

2. Nell’Italia nei confini,
son rifatti gli Italiani,
li ha rifatti Mussolini
per la guerra di domani.
Per la gloria del lavoro,
per la pace e per l’alloro,
per la gogna di coloro
che la Patria rinnegar.

(Ritornello 2x)

3. I poeti e gli artigiani,
i signori e i contadini,
con orgoglio d’Italiani
giuran fede a Mussolini.
Non v’è povero quartiere,
che non mandi le sue schiere,
che non spieghi le bandiere
del Fascismo redentor.

(Ritornello 2x)

____________________


1. Salve, ó povo de heróis!
Salve, ó pátria imortal!
Os seus filhos renasceram
com a fé e com o ideal.
A bravura dos seus soldados,
a virtude dos seus pioneiros
e a ampla visão de [Dante] Alighieri
brilham hoje em cada coração.

Refrão (2x):
Juventude, ó juventude,
primavera cheia de beleza,
pela vida, nas dificuldades,
o seu canto segue ressoando!

2. Nos confins da Itália,
os italianos foram refeitos,
Mussolini os refez
para a guerra de amanhã.
Pela glória do trabalho,
pela paz e pelo louro [i.e. vitória],
pela vergonha daqueles
que renegaram a Pátria.

(Refrão 2x)

3. Os poetas e os artesãos,
os fazendeiros e os camponeses,
com orgulho de italianos
juram fé a Mussolini.
Não existe bairro pobre
que não mande suas tropas,
que não desfralde as bandeiras
do Fascismo redentor.

(Refrão 2x)



sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

Silvio Santos vem aí (em esperanto!)


Endereço curto: fishuk.cc/silvio-eo


E hoje termino minha coleção de canções traduzidas pro esperanto! Elas são duas, pois uma é muito curta, e da outra não gostei muito, sobretudo porque arrisquei a elisão não muito comum do “e” inicial do verbo “esti” (ser, estar, haver) em vários pontos. A primeira musiquinha, Silvio Santos vem aí, cujo autor é Archimedes Messina, é a abertura do longevo programa dominical do SBT, ao qual o apresentador deu seu próprio nome.

Silvio Santos era o nome artístico de Senor Abravanel, falecido em 2024, empresário que também era proprietário do SBT e um dos maiores comunicadores da história da TV brasileira. Outra tradução possível pro esperanto seria Silvio Santos venas tuj, mas finalmente escolhi Silvio venas tien ĉi, pois o significado literal é mais parecido com o da expressão “vem aí”. A segunda canção, La più bella del mondo (A mais bela [mulher] do mundo), traduzi do italiano como La tutmonda beleco (A beleza mundial). Seu compositor é Mariano Marini e a conheci na voz de Nicola di Bari. Sua data de tradução é 28 de julho de 2003, mas não tenho a data de tradução de Silvio venas tien ĉi.


Kaj hodiaŭ mi finas mian kolekton de kanzonojn tradukitajn al Esperanto! Ili estas du, ĉar unu estas tre mallonga, kaj la alia ne tre plaĉis al mi, ĉefe ĉar mi riskis la ne tre oftan elizion de la komenca “e” de la verbo “esti” en pluraj punktoj. Per la unua kanteto, Silvio Santos vem aí, kies aŭtoro estas Archimedes Messina, komencas la longdaŭra ĉiudimanĉa TV-programo de la brazila kanalo SBT, al kiu ĝia prezentisto donis sian propran nomon.

Silvio (Silvjo, aŭ “siŭvju”) Santos estis la artonomo de Senor Abravanel, mortinta en 2024, entreprenisto, kiu ankaŭ estis la proprietulo de SBT kaj unu el la plej grandaj komunikistoj de la historio de la brazila televido. Alia ebla traduko estus Silvio Santos venas tuj, sed mi fine elektis Silvio venas tien ĉi, ĉar la laŭlitera signifo pli similas al la esprimaĵo “vem aí” (ŝ/li baldaŭ alvenos). La duan kanzonon, La più bella del mondo (La plej bela [virino] de la mondo), mi tradukis el la itala kiel La tutmonda beleco. Ĝia komponisto estas Mariano Marini kaj mi ekkonis ĝin per la voĉo de Nicola di Bari. Ĝia tradukdato estas la 28-a de julio 2003, sed mi ne havas la daton de Silvio venas tien ĉi.


Silvjo venas tien ĉi

2x:
La, la, la, la,
la, la, la, la,
la, la, la, la,
la, la, la, la, la, la.

Nun estas horo
De la ĝojado:
Ridu ni dum la kantad’!
El mond’ forportas ni nenion,
Ridu ni dum la kantad’!

2x:
La, la, la, la,
la, la, la, la,
la, la, la, la,
la, la, la, la, la, la.

Silvjo venas tien ĉi! (3 fojoj)

____________________


2x:
La, la, la, la,
la, la, la, la,
la, la, la, la,
la, la, la, la, la, la.

Agora é hora
De alegria:
Vamos sorrir e cantar!
Do mundo não se leva nada,
Vamos sorrir e cantar!

2x:
La, la, la, la,
la, la, la, la,
la, la, la, la,
la, la, la, la, la, la.

Silvio santos vem aí! (3 vezes)


La tutmonda beleco

Vi ’stas por mi la tutmonda beleco
Kaj am’ kun profundeco portas al vi.
Vi ’stas por mi infanino magia,
Kiel printempo dia por mia kor’.

Rideto lumigata
Sur dolĉa mien’ kata
Kaj sinceraj okuloj
Parolantaj pri am’.

Vi ’stas por mi la tutmonda beleco
Kaj am’ kun profundeco portas al vi.

Ĉio vi ’stas por mi!

____________________


Tu sei per me la più bella del mondo
E un amore profondo mi lega a te.
Tu sei per me una cara bambina,
Primavera divina per il mio cuor.

Splende il tuo sorriso
Sul dolce tuo bel viso
E gli occhi tuoi sinceri
Mi parlano d’amor.

Tu sei per me la più bella del mondo
E un amore profondo mi lega a te.
Tutto, tu sei per me!


sábado, 24 de agosto de 2024

Putin persegue repórter S. Battistini


Link curto à publicação: fishuk.cc/putin-rai2


Putin odeia a verdade, a discordância, o contraditório, a liberdade, a felicidade alheia, a informação, o esclarecimento. Putin tem como ideal uma sociedade submissa, embotada, obscurantista, temorosa e totalmente centrada em torno dele. E um dos sintomas é não reconhecer os fracassos, sobretudo quando derivam das piores decisões tomadas anteriormente, e querer “destruir o mensageiro, e não a mensagem”. Putin odeia a Ucrânia, porque apesar de todos os tropeços, seu povo se encaminhava em sentido totalmente oposto ao que o Kremlin estava levando a Rússia nos últimos 25 anos. Por isso, embora o evento já tenha ocorrido, começo a publicação de hoje com a imagem acima, lembrando que hoje temos mais um aniversário dos 33 anos de independência desde a desintegração da URSS e homenageando a data!

A repórter Stefania Battistini e o câmera Simone Traini, italianos que trabalham pro canal RaiUno, formaram a primeira equipe estrangeira completa a entrar na região da Rússia recentemente ocupada pelo exército da Ucrânia. Eles atravessaram a fronteira entre a província ucraniana de Súmy e a província russa de Kursk, chegando à cidade ocupada de Súdzha, de onde Battistini narrou a complexa trama dos combates locais entre os dois países. Sem qualquer base jurídica, a justiça russa (totalmente controlada por Putin) abriu um processo contra os dois profissionais por supostamente terem atravessado a fronteira ilegalmente, ameaça a que também foram submetidos outros jornalistas estrangeiros presentes na região. Por medida de segurança, a RaiUno os mandou voltarem à Itália, mas isso só mostra como o Kremlin teme doentiamente o vazamento de qualquer informação sobre sua vergonhosa fraqueza na fronteira.

Após lançar a primeira reportagem da série (17 de agosto) do Telegiornale 1 no horário das 20h de Roma, canal RaiUno, finalmente chegam com atraso os trechos traduzidos (mas não legendados) das reportagens nos dias 14, 15 e 16 de agosto! Apesar de algumas informações já estarem “velhas”, fiz breves observações sobre o que mudou até o exato dia de hoje, e creio que mesmo assim esta publicação vai servir de fonte histórica pra estudos futuros, bem como ainda pode servir pra esclarecimento da conjuntura atual mais ampla.

Após hackear os vídeos usando a extensão gratuita Video DownloadHelper, encontrada na loja do Google Chrome, eu mesmo traduzi do italiano e apenas fiquei inseguro quanto a frases bem pontuais, por não ter entendido muito bem (ajudas são bem-vindas!). Podemos ver o triângulo que tem simbolizado a operação ucraniana, desenhado em traços brancos sobre os veículos militares:


Edição de 14 de julho

Alessio Zucchini – Já faz oito dias que o exército ucraniano adentrou em território russo, e o presidente Zelensky justifica o avanço na região de Kursk com a criação de uma zona-tampão para se defender dos bombardeios inimigos. Por sua vez, Moscou afirma ter barrado as tentativas de incursão por Kyiv. E justamente através das fronteiras conseguiu chegar a equipe do Telegiornale 1, como mostra nossa enviada Stefania Battistini, que encontrou o que se segue.

Stefania Battistini – Neste momento estamos atravessando a fronteira com a Rússia. Nunca teríamos acreditado que isso teria acontecido, nunca teríamos pensado...

Militar – Estamos dentro do território russo. Esse era um veículo nosso.

Battistini – Estamos na Rússia, dentro do território russo. Estes são os campos dos quais Moscou tem atacado, por mais de dois anos e meio, o território da Ucrânia. Estas são as posições russas destruídas. Permitiram que andássemos neste blindado para chegar a Sudzha. Estamos indo rumo a Sudzha, cidade russa estratégica por abrigar a manufatura do gás.

– Vocês controlam a cidade? – Sim! Bélgorod está à esquerda! Da próxima vez vamos levá-la para lá!

Battistini – Chegamos em Sudzha. Esta é a cidade russa de Sudzha, agora sob o controle das forças ucranianas. Até agora só tínhamos ouvido esse silêncio nas cidades ucranianas. Aqui ainda há cadáveres... E ali há civis.

– Por que vocês decidiram ficar aqui? – Os russos mandaram que nos reuníssemos aqui, e depois eles foram embora. – Deixaram vocês sozinhos? – Sim. – Como se comportam os soldados ucranianos? São bons com vocês, ou... – São muito gentis.

Militar – Você está vendo a diferença entre nós e os russos. Aqui as casas dos civis não foram destruídas.

Zucchini – E não somente operações terrestres: o exército ucraniano ataca com drones as bases militares russas. Estamos ao vivo com a correspondente Stefania Battistini. Stefania, quais são então os objetivos dos drones ucranianos?

Battistini – Sim, trata-se do maior ataque a aeroportos russos desde o início da guerra, Alessio, isso segundo o serviço de segurança ucraniano. Aeroportos militares, obviamente, sendo que também nas províncias de Kursk e de Vorónezh são os aeroportos dos quais decolam os jatos que lançam as bombas aéreas teleguiadas que destroem as cidades ucranianas. Enquanto isso, os ucranianos continuam construindo fortificações a pelo menos 20 km de distância da fronteira russa. São fortificações muito importantes que vimos enquanto voltávamos da província russa de Kursk com Simone Traini, embora também tenhamos visto um míssil KAB que atingiu uma casa bem na estrada que leva até Sudzha. Por isso, Zelensky volta a pedir que os aliados lhe permitam ataques de longo alcance contra alvos militares dentro da Rússia.


Edição de 15 de julho

Alessio Zucchini – Boa noite do Telegiornale 1. No décimo dia de incursão em território russo, os ucranianos reivindicam a tomada da cidade de Sudzha e anunciam a criação de uma administração militar para os territórios conquistados. Moscou corre para se proteger, preparando linhas de defesa para bloquear o avanço. Nossa correspondente Stefania Battistini foi a primeira jornalista estrangeira a entrar em território russo e a ver as trincheiras de Moscou agora em mãos ucranianas. Veja em sua reportagem.

Stefania Battistini – Acaba de explodir uma bomba... [Ela narra vagamente as destruições.] Um helicóptero! Estamos dentro do território russo. Isso é o que restou das posições russas.

Soldado – Os russos deixaram aqui o colete. Nossas tropas de assalto capturaram a área e depois a estabilizamos. Aqui não é tão seguro: ainda há soldados russos atrás de nós, rondando por aqui. Estes capturamos ontem, veja-os aqui [mostra no celular].

Battistini – Estas são baterias ou...?

Militar – Sim, para drones FPV [teleguiados por óculos de imersão]. Somos um “UAV striking group”, um grupo de ataque por drones. No primeiro dia, fizemos a cobertura das tropas de assalto, depois entramos e estabilizamos as posições. A operação foi preparada minuciosamente, mantivemos o mais absoluto segredo.

Battistini – Que tipo de soldados russos vocês encontraram aqui na fronteira? Conscritos, treinados...?

Militar – A maior parte integrava o exército regular russo, mas em posições mais avançadas os nossos já encontraram kontráktniks [voluntários que assinam um contrato temporário]. Também capturamos soldados das tropas chechenas de Kadýrov.

Battistini – Vocês estão reescrevendo a narrativa da guerra?

Militar – Veja, quando eu soube dos planos dessa operação, disse: “Rapazes, essa é a história. E será uma história louca.” Mostramos ao mundo todo que não devem ter medo da Rússia: se conseguimos fazer isso, então todos podem o fazer.

Zucchini – E a Rússia reage com bombardeios em várias regiões ucranianas, fazendo ao menos cinco vítimas. Mas hoje Kyiv angariou um apoio muito importante: ao vivo, nossa correspondente Stefania Battistini. Stefania, do que se trata?

Battistini – Sim, Alessio, o apoio chega de Londres, que diz claramente que a Ucrânia tem o pleno direito de utilizar [no ataque à Rússia] as armas que lhes fornecemos em respeito ao direito internacional, com exceção dos Storm Shadows de longo alcance, que a Ucrânia só vai poder utilizar contra seus próprios territórios ocupados pelos russos. Enquanto isso, o general Sýrsky, comandante das forças armadas, anunciou hoje, como você disse, [a criação] de uma primeira administração militar na província russa de Kursk e ressaltou que 82 localidades [hoje, dia 24, já são mais de 90] estão sob o controle ucraniano. Pelo que pudemos ver com Simone Traini nestes dias, ao menos a região de Sudzha está controlada. Obviamente não temos a possibilidade de ver, senão parcialmente, fragmentos de territórios que conseguimos sondar nestes dois dias. Naqueles controlados pelos ucranianos, chegam drones russos, enquanto por outro lado, Moscou continua avançando em Donetsk [província], muito perto da cidade de Pokróvsk, que é um ponto estratégico, onde apenas hoje fez cinco vítimas entre civis. É com você!


Edição de 16 de julho

Alessio Zucchini – A região de Sumy é a mais visada pelas forças russas que têm por base a província de Kursk, e milhares de pessoas foram obrigadas a deixar seus lares. Estamos ao vivo com a correspondente Stefania Battistini. Stefania, quais são então as últimas atualizações?

Stefania Battistini – As últimas atualizações chegam da área institucional, porque Syrsky, o comandante das Forças Armadas, e Zelensky disseram que ainda estão avançando na província de Kursk, que faz fronteira exatamente com a província [ucraniana] de Sumy, entre um e três quilômetros por dia; que estão fazendo muitos prisioneiros a fim de serem trocados. É uma notícia que chega pelo New York Times, reverberando, por sua vez, algumas fontes ucranianas segundo as quais, paralelamente à operação em Kursk, também teria sido lançada uma operação em Belgorod [província russa], que não teve sucesso e deixou soldados ucranianos feridos, conforme relata agora o jornal. Como você disse, estivemos realmente naqueles vilarejos fronteiriços, que têm estado sob cerco há dois anos e meio, desde quando a Rússia os agrediu e se veem hoje bombardeados por ela todos os dias com mísseis KAB. Vamos ver juntos, com filmagem de Simone Traini.

Battistini (no lugar) – Caminhamos pelas estradas desertas de Iunakivka, que está sob cerco há dois anos e meio. Aqui, alguns resistiram.

– Bom dia! Todos foram embora daqui... [A senhora] É a única que ficou! – Você pode levar um cachorro ou um gato, mas e as cabras, como faz? Vivo e queria morrer só aqui! [Mostrando fragmentos.] Veja, chegou esta manhã com as bombas KAB, lançadas de aviões, mas você não consegue os ver, só ouve o assobio da bomba. – Os russos continuam atacando esta área? – Bombardeiam, bombardeiam, bombardeiam... Às três da madrugada, às 11 da manhã, sempre. Tudo bem se eu morrer em um segundo, mas se perder uma perna... quem vai cuidar de mim? Nossos vizinhos não querem vivem em paz com agente. Espero voltar a viver em paz.

Battistini (com outra pessoa) – Um trator com toda a sua casa, a gaiola dos animais nos braços e o resto da casa na carroceria. – Olá! – Aonde está indo com o gato no trator? – Estou indo pra casa de parentes, com toda minha casa ali atrás. – A gata chama Sónia? – Temos outros animais, mas receamos que tenham sido mortos pelas bombas russas.

Zucchini – E se tornou o assunto do momento a reportagem da equipe do Telegiornale 1 na região de Kursk. Nas redes sociais, se sucedem as reações dos pró-Rússia: segundo alguns órgãos de imprensa em Moscou, nossos colegas arriscariam ser alvos de um inquérito policial. O ministro russo do Exterior convocou a embaixadora italiana em Moscou. Nossos colegas receberam solidariedade da Usigrai, da Federação Nacional de Imprensa e da UniRai. Vamos ouvir Andrea Luchetta.

Luchetta – As mensagens começam imediatamente a se difundir: a reportagem de Stefania Battistini e Simone Traini, primeira equipe estrangeira a entrar em Sudzha na quarta-feira [dia 14], viralizou nas redes sociais. Para os ucranianos, demonstra o sucesso de uma operação imprevisível duas semanas atrás; para os russos, as imagens testemunham as dificuldades de seu exército. Nas redes sociais, diversas contas russas acusam a equipe, segundo dizem, de infringir a lei ao entrar sem autorização em território russo, devendo ser investigados. Alguns comentários vão mais longe e ameaçam abertamente nossos colegas. Hoje, no Telegram, o canal Baza, que tem 1,5 milhão de seguidores, anuncia a intenção do Ministério do Interior de lançar um inquérito policial. A notícia é compartilhada por diversos sites, bem com por Vladímir Solovióv, um dos propagandistas mais influentes da Rússia. Contatado pela Agência Jornalística Italiana, o Ministério do Exterior de Moscou não comenta a possibilidade de abrir um inquérito e solicita indagar o Ministério do Interior. Fontes do Ministério do Exterior italiano, ouvido pela mesma agência, dizem que a embaixada da Itália em Moscou está em estreito contato com o Ministério do Exterior e realizando as verificações adequadas. “O jornalismo não é um crime”, escreve a Ordem dos Jornalistas italiana, expressando solidariedade a nossos colegas. Mensagens de apoio a Battistini e Traini também chegam dos sindicatos da categoria, da Federação dos Jornalistas Europeus e do mundo político italiano. A representação sindical do Telegiornale 1 escreve: “A eventualidade de inquéritos policiais contraria o princípio universal da liberdade de imprensa. Portanto, defendemos os colegas contra intimidações e ataques de qualquer natureza.”


Preciso abrir um parêntese pessoal. Soloviov, que em tom sério e em rede nacional culpou pela morte do ex-presidente iraniano Ebrahin Raisi “o agente do Mossad Eli Kopter”, é o propagandista mais fanático do canal Rossia 1. Seus programas, com cenário estilo “direto do inferno”, quase não são mais vistos ao vivo, mas volta e meia viralizam nas redes trechos mais ou menos estridentes. Sua mais nova especialidade é chamar de “covardes” e “chorões” os residentes de áreas do sul da Rússia ocasionalmente atingidas por drones ou outros artefatos ucranianos, quando eles reclamam providências do Kremlin. Mais recentemente, ele chamou os habitantes de Iekaterinburg de “demônios”...



domingo, 18 de agosto de 2024

Putin quer perseguir repórter italiana


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/putin-rai


Putin odeia a verdade, a discordância, o contraditório, a liberdade, a felicidade alheia, a informação, o esclarecimento. Putin tem como ideal uma sociedade submissa, embotada, obscurantista, temorosa e totalmente centrada em torno dele. Putin odeia a Ucrânia, porque apesar de todos os tropeços, seu povo se encaminhava em sentido totalmente oposto ao que o Kremlin estava levando a Rússia nos últimos 25 anos. E um dos sintomas é não reconhecer os fracassos, sobretudo quando derivam das piores decisões tomadas anteriormente, e querer “destruir o mensageiro, e não a mensagem”.

É o caso da repórter Stefania Battistini e do câmera Simone Traini, italianos que trabalham pro canal Rai Uno e formaram a primeira equipe estrangeira completa a entrar na região da Rússia recentemente ocupada pelo exército da Ucrânia. Eles atravessaram a fronteira entre a província ucraniana de Súmy e a província russa de Kursk, chegando à cidade ocupada de Súdzha, de onde Battistini narrou a complexa trama dos combates locais entre os dois países. Sem qualquer base jurídica, a justiça russa (totalmente controlada por Putin) abriu um processo contra os dois profissionais por supostamente terem atravessado a fronteira ilegalmente, ameaça a que também foram submetidos outros jornalistas estrangeiros presentes na região. Por medida de segurança, a Rai Uno os mandou voltarem à Itália, mas isso só mostra como o Kremlin teme doentiamente o vazamento de qualquer informação sobre sua vergonhosa fraqueza na fronteira.

Esta é parte da edição completa de ontem, 17 de agosto, do Telegiornale 1 no horário das 20h de Roma, canal Rai Uno, que hackeei usando a extensão gratuita Video DownloadHelper, encontrada na loja do Google Chrome. Ela mostra o processo movido pela Rússia contra os italianos e outros estrangeiros, e Battistini conta parte dos bastidores da aventura entre a Rússia e a Ucrânia. Eu mesmo traduzi do italiano, mas receio que cometi erros na parte dos prédios destruídos em Sudzha, por não ter entendido muito bem (ajudas são bem-vindas!). Durante a semana, vou também publicar os trechos traduzidos (mas não legendados) das reportagens nos dias 14, 15 e 16 de agosto:


Alessio Zucchini – Mas hoje também é o dia em que Moscou abriu oficialmente um inquérito policial contra nossa correspondente Stefania Battistini e seu câmera, Simone Traini, devido às reportagens das zonas russas que são teatro da ofensiva ucraniana. Ouvimos Andrea Luchetta.

Luchetta – O FSB, serviço de segurança da Rússia, abriu na quarta-feira [dia 14] um inquérito policial contra nossos colegas Stefania Battistini e Simone Traini. Foram a primeira equipe estrangeira a entrar em Sudzha após o início da ofensiva ucraniana na província de Kursk. Por isso, o FSB os acusa de ter cruzado ilegalmente a fronteira, infringindo o artigo 322 do Código Penal, cuja pena pode levar a cinco anos de prisão.

Segundo a agência RIA Novosti, os serviços russos estariam cogitando a possibilidade de investigar também Nick Paton Walsh, correspondente da CNN que visitou a mesma área depois de Battistini e Traini. Ontem à noite [dia 16], o Ministério do Exterior em Moscou convocou a embaixadora italiana Cecilia Piccioni, expressando um veemente protesto pelo trabalho de nossos colegas.

Hoje, a RAI comunicou que fez Battistini e Traini voltarem temporariamente à Itália apenas para garantir sua segurança e proteção pessoais, de acordo com os protocolos, como se lê no comunicado. Hoje continuam as declarações de apoio a Battistini e Traini da parte de sindicatos e associações da categoria. A EFJ, Federação dos Jornalistas Europeus, condenou duramente as ameaças. “Essas intimidações equivalem a uma censura”, escreveu, “e visam impedir que a opinião pública seja informada sobre a operação em curso”.

Zucchini – Como vocês ouviram, Stefania Battistini e Simone Traini integram a primeira equipe estrangeira na zona da ofensiva ucraniana, um furo de dimensão internacional feito com respeito às normas do direito internacional. Agora queremos lhes contar como ele surgiu, vejamos.

Battistini – Atravessamos a fronteira russa assim, na quarta-feira, num simples carro dirigido por militares, com Simone Traini. Passamos através do território ucraniano e registramos os sinais de combate, quando pela primeira vez o exército de Kyiv invadiu a província russa de Kursk. Primeiramente, chegamos às posições conquistadas pela brigada ucraniana que aceitou nos levar embedded, isto é, num veículo blindado e escoltado, para chegarmos à cidade estratégica de Sudzha, a primeira conquistada por Kyiv.

Fizemos isso vestindo cores que nos distinguissem dos militares, a inscrição “PRESS” sobre coletes à prova de balas, como estipulam as normas internacionais. Isso porque o correspondente de guerra é uma figura especificamente descrita na Convenção de Genebra no artigo 4: estipula aos repórteres que sigam o exército numa zona de guerra uma proteção completamente reforçada e obviamente condiciona que os que não participam diretamente do conflito se diferenciem visivelmente dos militares. Mesmo assim, estamos cientes de que isso não salvou a vida do jornalista francês [Frédéric] Leclerc-Imhoff em Severodonetsk, Brent Renaud e Oleksandra Kuvshynova em Irpin e [Stuart] Ramsay em Bucha [este não morreu, mas quase]. Nesta guerra, a inscrição “PRESS” na verdade transformou os jornalistas em alvos.

Saímos num veículo blindado para chegar ao centro da cidade através de ruas transitáveis e margeadas por casas. Entre os sinais de combate, vimos prédios administrativos e centros de poder danificados. No prédio da prefeitura, totalmente destruído, ainda havia um cadáver ao chão. Os prédios vizinhos estavam danificados, logo ajeitados. Mas no mesmo dia, a TV ucraniana estava presente, e um dia antes, na alfândega de Sudzha, estava o New York Times. Dali, transmitiu hoje Nick Paton Walsh pela CNN, bem como jornalistas poloneses, enquanto a reação de Moscou foi coberta pela France Presse.

Seguimos esse conflito desde 10 dias antes da agressão russa: cobrimos as consequências em Irpin, em Bucha e em Borordianka. Na quarta-feira, achamos por bem mostrar a vocês também esta parte da guerra, sem querer infringir as leis da Federação Russa ou tomar o partido de um dos lados, mas pensando apenas em seguir os fatos, como sempre fizemos. Por definição, a reportagem de guerra é sempre parcial, porque só podemos contar a vocês o que nos é permitido ver e registrar, mas nos parecia importante estar presentes e contar pelo menos a parte da realidade.



domingo, 11 de agosto de 2024

Abuso sexual contra Nadia Comăneci

Dada a importância do assunto e seu relativo desconhecimento no Brasil, resolvi procurar esta coletânea de breves artigos traduzidos, antes de terminarem as Olimpíadas de Paris e ao invés de me dedicar a trabalhos de reforma da página. A ginasta romena Nadia Elena Comăneci é conhecida no mundo todo por ter tirado a primeira nota 10 na ginástica olímpica durante os jogos de Montréal, em 1976, quando tinha somente 14 anos de idade, tendo assim se tornado uma eterna estrela do esporte. Ela também brilharia nas Olimpíadas de Moscou em 1980 e se aposentaria em 1984, mas sem ter do que viver e proibida de sair da Romênia, Comăneci fugiu do país em 1989, pouco antes da revolução popular que levaria à fuga do ditador Nicolae Ceaușescu, e se casou com o também ginasta americano Bart Conner em 1996.

Embora Comăneci tenha sempre negado a existência e se recusado a falar sobre esse tópico, pesquisas nos arquivos do partido comunista revelaram que ela foi forçada a manter uma relação estável com Nicu Ceaușescu (1951-1996), filho mais novo do ditador e provável candidato à sucessão. Aprisionada no palácio da família ditatorial, ela teria sofrido abusos sexuais e até físicos de Nicu, levando-a à depressão e quase ao suicídio, segundo sua própria mãe, Alexandrina, que nunca escondeu os fatos e sempre tentou interceder junto às autoridades, em vão.

Pra piorar, o casal de húngaros que a treinou desde pequenina, Béla e Márta Károlyi, também era conhecido por maltratar as ginastas sob seu comando e, no caso de Béla, até de as abusar sexualmente. Curiosamente, eles mesmos também fugiram da Romênia em 1981 e, piorando ainda mais, era no rancho do casal no Texas que o tristemente famoso e atual prisioneiro Larry Nassar, abusador em massa de jovens ginastas dos EUA, realizava o “treinamento” das adolescentes. Se alguém ainda tem dúvidas do caráter macabro do “socialismo” romeno, espero que também tenho nojo desses fanáticos isolados, mesmo na Banânia, que ainda chamam o carniceiro de “camarada Ceaușescu” (argh!) nas redes sociais...

Estou publicando aqui diretamente as traduções de quatro artigos de diversos veículos sobre o mesmo tema, o principal deles sendo o publicado em 25 de novembro de 2020 no Calcio Mercato e escrito por Marco Bernardini, sobre um dos principais livros que, baseado naquela pesquisa de arquivo, revelou os abusos do clã Ceaușescu contra Comăneci. O segundo artigo, publicado em 22 de abril de 2021 no português Visão sobre o mesmo livro, não tem autoria e apenas adaptei em parte a meu próprio estilo do português brasileiro, embora geralmente eu não ache isso digno. Outros três menos importantes são um de 26 de fevereiro de 1990 pelo Tampa Bay Times, um de 21 de setembro de 2019 pelo The Social Post (por Stefania Rao, o único também assinado) e um de 12 de novembro de 2019 pelo macedônio Sloboden pechat (a partir da tradução em inglês).

Eu usei o Google Tradutor pra gerar os textos-base e depois revisei manualmente (pra mim, esse é o modo como toda ferramenta baseada em IA devia ser usada, ou seja, como o meio, e não o fim), pra mim importando mais dar informações básicas e você mesmo ir atrás de complementos, se for o caso. Padronizei as grafias de nomes próprios e as corrigi onde devesse e não mantive a maioria dos recursos de destaque feitos pelas próprias edições nem possíveis links originais, eu mesmo inserindo novos quando decidisse.



A história de Nadia Comăneci, a estrela olímpica prisioneira do carrasco Nicu e de um estupro de Estado

O mundo inteiro comemora hoje o dia contra a violência às mulheres, uma ferida aberta e infectada no corpo da humanidade pra qual parece ter sido encontrada uma cura. As cifras relativas às atrocidades, domésticas ou não, sofridas pela outra metade do Universo continuam a impressionar e nem mesmo o sentido da razão que deveria guiar este mundo iluminado parece amenizar essa tendência de sociedade primitiva.

Nem mesmo o esporte ficou imune a essa praga. Um dos episódios mais espetaculares nesse sentido remete a muitos anos atrás, até 1976, quando, nas Olimpíadas de Montreal, brilhou luminosíssima a estrela de Nadia Comăneci, uma jovem de quatorze anos que ganhou o ouro na ginástica artística com uma nota “dez perfeita”. Ela terminou a apresentação pulando no tapete sem uma gota de suor na testa e sem perder o fôlego. Pro mundo, era um milagre competitivo, e pra Romênia, o país dela, o símbolo máximo da propaganda do regime de Ceaușescu. O poder se apaixonou por ela de todas as maneiras, mesmo aquelas ilícitas por se tratar de uma criança, e com seus tentáculos quis a tornar sua, a agarrando pelas mãos de Nicu, o terceiro filho do ditador.

Apelidado “o príncipe”, o rapaz dez anos mais velho que Nadia era indicado por todos como o sucessor natural de seu pai, o qual ele secundava nos assuntos de Estado. Viciado em jogos de azar, mulheres e álcool, violento e psicopata, Nicu não lhe deixava faltar nada. Ninguém podia lhe dizer “não” sem que depois sumisse do nada. Um sujeito que era melhor não encontrar pelo caminho. Nadia Comăneci, a princesinha de uma nação e quase invisível para o mundo antes de sua chegada, não pôde evitar o encontro com o homem que reclamava e obtinha o “jus primæ noctis” (direito de desvirginar) com todas as filhas dos hierarcas do regime.

Quatro anos de autêntica prisão dourada no Palácio do Poder, de onde Elena, mãe de Nicu, nunca a deixou sair, exceto pra treinar ou participar de competições. Depois, tarde da noite, chegava seu “namorado oficial”, que na verdade era seu carrasco, quase sempre bêbado. Não havia amor na cama, mas verdadeiros estupros alternados com torturas de todo tipo e charutos apagados na pele de Nadia. Até um aborto forçado coroou esse inferno. Tudo isso até as Olimpíadas de Moscou, quando Comăneci foi “roubada” de suas medalhas por um júri corrupto que favoreceu as atletas soviéticas de modo vergonhoso.

Foi nesse momento que a jovem campeã romena decidiu fugir. Ela cruzou a fronteira como uma fugitiva, alcançou Viena e de lá voou pros EUA, onde se tornou cidadã americana e se casou com Burt Conner, atleta apaixonado por ela desde os tempos de Montréal. Eles dirigem uma academia juntos, e há poucos dias, no dia 12 de novembro, Nadia completou 59 anos. A NBC a entrevistou, mas ela se recusou a falar sobre sua prisão no Palácio de Ceaușescu. Daquela horrível trama criminosa, restam cicatrizes em seu corpo e outras, mais profundas e dolorosas, em sua alma.


Nadia Comăneci: como o regime de Ceaușescu sabia dos abusos do treinador, mas não fez nada

A lendária ginasta era xingada constantemente e chegou a levar tapas por engordar 300 gramas. Um novo livro revela “o terror e a brutalidade” de seu dia a dia, sempre seguido de perto pela Securitate, a temida polícia secreta romena.

“Longe de ter sido uma privilegiada, como era apresentada na época, Nadia foi uma vítima do regime.” Stejărel Olaru não afirma isso de forma leviana. Pra escrever o livro Nadia și Securitatea (Nadia e a Securitate), o historiador consultou milhares de relatórios da temida agência da polícia secreta romena, em que abundam as denúncias e os telefonemas sobre a atleta que era chamada pelo codinome “Corina”.

A jovem prodígio que, aos 14 anos, foi a primeira ginasta a obter a classificação máxima de 10, nos Jogos Olímpicos de Montreal de 1976, vivia muito longe do conto de fadas propagandeado pelo regime do ditador Nicolae Ceaușescu. Os documentos, recentemente desclassificados, revelam a “relação abusiva” do treinador da seleção romena de ginástica, Béla Károlyi, pra com Nadia Comăneci e as demais atletas de elite.

“As meninas eram agredidas com tanta força que sofriam hemorragias nasais”, lê-se num dos relatórios, de 1974, que relata “o terror e a brutalidade” impostos por Károlyi. A humilhação era também uma constante. Um antigo médico da seleção, entrevistado por Olaru pra este livro agora lançado na Romênia, acusa o treinador de as chamar com frequência de “vacas” e “idiotas”.

Tudo isso era conhecido pela Securitate, que não se limitava a ter agentes vigiando Nadia em permanência. A polícia secreta recolhia igualmente informações junto a médicos, responsáveis da federação de ginástica e elementos da sua própria equipe. Um pianista e um coreógrafo foram duas das fontes privilegiadas da polícia secreta, explicou o historiador à AFP.

Não é a primeira vez que se ouve falar de abusos, físicos e psicológicos, por parte de Béla Károlyi e de sua mulher, Márta. Nadia, que tem hoje 59 anos e é cidadã americana, quase nunca tocou no assunto, mas foram muitas as atletas que, nas últimas décadas, denunciaram os maus tratos por parte do casal de treinadores. E não apenas romenas, como você vai ler.

Károlyi sempre se defendeu das acusações aludindo às medalhas obtidas pelas atletas. “Minhas ginastas são as mais bem preparadas do mundo, e elas ganham, é tudo o que conta”, dizia. “Por natureza, nunca estou satisfeito”, justificava-se. “Nunca é suficiente, nunca.”

O certo é que, apenas seis meses depois de Montréal, Nadia se recusou a continuar sendo treinada por ele. Béla Károlyi era seu treinador e mentor desde os seis anos de idade.

Agora, com a publicação de Nadia și Securitatea, ficamos sabendo que a ginasta deu uma entrevista em 1977, em que reconhecia ser “xingada” constantemente pelo treinador e que tinha chegado a levar tapas por ter engordado 300 gramas. “Aconteceram coisas demais […], não aguento mais”, dizia nessa entrevista que não foi publicada, mas acabou indo parar nos arquivos da Securitate porque a casa de Nadia, em Onești, estava sob escuta.

A certa altura, a polícia secreta também teve acesso a seu diário pessoal, em que descrevia as agressões que todas as ginastas sofriam quando cometiam um erro durante um exercício; e como treinavam até a exaustão e nem sempre eram observadas por médicos quando se lesionavam.

A mãe de Nadia, aliás, chegou a apresentar queixa na federação, tendo mesmo solicitado uma audiência com Ceaușescu que foi anulada de última hora, sem qualquer explicação. O mesmo regime que promovia Comăneci como uma “heroína do trabalho socialista” fingia não saber o que acontecia durante seus treinos – “por puro calculismo político”, lamenta Olaru.

O próprio treinador era vigiado pela Securitate, conta o historiador. O fato de Béla Károlyi pertencer à minoria étnica húngara fazia com que a polícia secreta suspeitasse que ele promovesse atividades hostis contra a Romênia.

Em 1981, Béla e Márta desertaram pros EUA e acabaram sendo convidados a treinar as ginastas da seleção nacional. Durante décadas, foram reverenciados pelas medalhas que ajudaram a conquistar, mas, recentemente, o escândalo que levou à prisão do médico da Federação Americana de Ginástica, Larry Nassar, por abuso sexual de várias jovens atletas e pornografia infantil, não os poupou. Afinal, era em seu rancho, no Texas, que as atletas de elite estagiavam.

No início de 2018, após grande pressão da ginasta olímpica Simone Biles, o rancho deixou de ser o centro de treinamento da seleção de ginástica feminina dos EUA e um dos locais de eleição do comitê olímpico americano. Até hoje, os dois treinadores negam ter tido qualquer envolvimento no escândalo que deu origem a um documentário da Netflix, mas várias ginastas garantem que ambos eram abusivos e fomentavam uma cultura de medo.

“Dá uma sensação estranha assim que a gente pisa no Rancho Károlyi”, contava à CNN a ex-ginasta Mattie Larson, antes de seu encerramento. “É muito remoto e, em caso de emergência, o hospital mais próximo fica tão longe que só de helicóptero. Pra chegar lá, é preciso dirigir por uma estrada de terra, durante uma eternidade… Além disso, não há sinal de celular. O rancho está completamente isolado, e é de propósito. É assim que os Károlyi querem. O completo distanciamento do mundo exterior, além dos adultos negligentes, fez do rancho o ambiente perfeito pra que os abusadores e os assediadores prosperassem.”

Nos EUA, onde Nadia se exilou em 1989, poucas semanas antes da revolução na Romênia, esse novo livro foi recebido como a confirmação de que os métodos de Béla Károlyi já vinham de longe.

Quanto à ginasta, por enquanto não deu nenhuma entrevista sobre o livro, mas disse à AFP que esteve em contato com Olaru e respondeu a algumas de suas perguntas. O historiador a vê como uma mulher “rebelde” e uma “lutadora” que foi capaz de se reerguer das provações por que passou. “Ela fez o que tinha de fazer pra cumprir suas ambições.”



Nicu Ceaușescu capturado e televisionado na revolução romena (22/12/1989)


Filho de Ceaușescu acusado de agredir Comăneci

A ginasta campeã Nadia Comăneci foi espancada repetidamente durante seu relacionamento de cinco anos com o filho do ditador romeno Nicolae Ceaușescu, afirmou a mãe dela no domingo [25/2/1990]. “Gostaria de enforcá-lo pela língua e vê-lo morrer”, disse Alexandrina Comăneci, cuja filha ganhou três medalhas de ouro e obteve um “10” perfeito nas Olimpíadas de Montréal em 1976.

Numa entrevista, a sra. Comăneci revelou detalhes do relacionamento entre sua filha e Nicu Ceaușescu.

Espancado e esfaqueado por seus captores revolucionários, Nicu, de 39 anos, aguarda julgamento por acusações de genocídio e é considerado sortudo por ter escapado ao destino de seus pais: execução por pelotão de fuzilamento.

A sra. Comăneci disse que Nicu dominou sua filha “de corpo e alma” por um período de cinco anos que culminou com a fuga midiatizada de Nadia da Romênia pros EUA, semanas antes da revolução.

Ela disse que Nicu iniciou sua obsessão por Nadia, hoje com 28 anos, quando ela era a principal estrela esportiva do país, na década de 1970.

Depois que Nicolae Ceaușescu nomeou seu filho ministro da Juventude em 1981, Nicu empregou Nadia como treinadora de ginástica e coreógrafa.

Em entrevista à revista Life, publicada na semana passada, Nadia disse que os relatos de sua dominação por Nicu Ceaușescu eram “tudo mentira”. Mas a sra. Comăneci disse à Reuters:

“Nadia logo ficou à mercê de Nicu. Depois que ela se aposentou da ginástica competitiva, ela precisava trabalhar. Ela também estava com pouco dinheiro porque todos os seus ganhos tinham sido usados pela família Ceaușescu. Ele começou a lhe telefonar em casa e a nos visitar em estado de embriaguez. Então, começou a ameaçá-la e fez com que seu salário fosse cortado. Nadia repeliu repetidamente suas investidas, mas no final não conseguiu dizer não. Quando Nicu ligou, Nadia foi obrigada a dirigir 180 milhas [c. 290 km] até a cidade central de Sibiu, onde Nicu era chefe regional do partido comunista. Depois de uma de suas visitas a Sibiu, ela me mostrou hematomas nas coxas quando chegou em casa. Noutra ocasião, ela voltou de uma visita a Nicu com as unhas arrancadas. Nadia me disse que isso tinha sido causado por uma infecção, porque não queria que eu ficasse chateada. A vida de terror de Nadia com Nicu continuou até que enfim ela não aguentou mais e fez planos pra escapar.”


Nadia Comăneci e Nicu Ceaușescu: a história de um amor doentio

Nadia Comăneci, a campeã de ginástica artística, era um mito pra muitas meninas que desejavam ser como ela. Mas por trás dessa determinação estava escondida muita dor.

Uma vida dedicada à ginástica – A pequena e miúda ginasta romena, que em 1976, com apenas 14 anos, conseguiu a façanha impossível de tirar um “10 perfeito” nas Olimpíadas de Montréal, teve uma vida diferente das meninas de sua idade, marcada por um encontro que virou tudo de cabeça pra baixo.

Nadia se aproximou da ginástica artística com apenas 6 anos, imediatamente chamou a atenção pelos extraordinários resultados obtidos, uma vitória atrás da outra sem trégua, e logo se destacou por sua habilidade e determinação.

Como todos os atletas que alcançam resultados semelhantes, a pequena Nadia pontua seu cotidiano entre treinos contínuos e diários e depois, obviamente, a participação nas competições. Sua vida não é como a de outras meninas: é submetida a uma dieta muito rígida, porque não podia engordar nem mesmo cem gramas.

A pequena Nadia, apelidada de “Fada dos Cárpatos”, acordava às 5h30min da manhã e suas refeições consistiam em 100 g de carne no almoço e 50 à noite, 200 g de vegetais por refeição e três frutas. Naturalmente, devia seguir minuciosamente a dieta imposta por seu treinador e não podia comer batatas, pão, açúcar e óleo.

O encontro fatal na Romênia comunista – Sem querer, Nadia se torna “grande como um elefante”: após o recorde em Montréal, sua visibilidade é tal que toda a Romênia, bem como o mundo todo, fala dela. Nesse cenário em que o comunismo romeno era o pano de fundo, Nadia não pôde passar despercebida pelo herdeiro da família Ceaușescu, seu terceiro filho Nicu.

10 anos mais velho que ela, ele já era naquela época um rapaz perdido, viciado em álcool e drogas. Ele conseguia o que queria a qualquer custo, e dizia-se até que exigia ter qualquer mulher, casada ou não, em que ele pusesse os olhos. Houve inclusive moças que se ofereciam a ele representar o poder num país onde vigorava a ditadura de seu pai e de toda a sua família.

A relação entre os dois começa e Nadia é levada pra morar no palácio com a desprezível Elena, mãe de Nicu, que aprova o relacionamento porque Nadia permitia que o mundo falasse sobre a Romênia. A própria Nádia conta várias vezes como era usada pra fazer propaganda de seu país e exibida como um troféu.

Nádia não tinha coragem de se rebelar e fugir do regime, sofria e se conformava com tudo o que lhe acontecia. A certa altura, perdida, ela se largou a si mesma, engordando e até tentando o suicídio.

Mas o regime encobriu o escândalo e a recolocou no prumo pras Olimpíadas de Moscou. Porém, ninguém mais a considerava como Nadia, a heroína do país.

Ela conseguiu escapar e, enfim, pedir asilo político nos EUA. Estamos na “revolta” na Romênia e no fim do regime de Ceaușescu. Nicu, seu amante, foi condenado a 20 anos de prisão, acusado de cometer crimes contra o Estado. Foi solto em 1992 por motivos de saúde e morreu de cirrose hepática em 1996.

O final feliz pra Nadia – Em 1994, nos EUA, Nadia conheceu o atleta Bart Conner, que tinha se apaixonado por ela em Montréal nas famosas Olimpíadas em que se tornou a rainha da ginástica artística.

Os dois se casaram e em 2006 tiveram um filho, Dylan. Junto com o marido, ela fundou uma rede de academias e finalmente sua vida é feliz.


Nadia Comăneci: o milagre de uma criança cuja vida quase foi arruinada pelo filho de Ceaușescu e pelo serviço secreto [em macedônio]

Nadia Comăneci nasceu na cidade de Onești, Romênia, em 12 de novembro de 1961. Começou a treinar ginástica aos seis anos de idade e teve sua primeira competição internacional com apenas 10 anos.

O mundo todo descobriu quem era Nadia Comăneci aos 14 anos, quando ela se tornou uma verdadeira estrela e uma das lendas da ginástica nas Olimpíadas de Montréal de 1976, ao receber um 10, a nota mais alta no exercício de barras assimétricas.

É interessante que o placar que então mostrava as notas dos juízes não podia mostrar o número 10, portanto, sua pontuação foi escrita 1,0. O público reagiu imediatamente com assobios e protestos, o que obrigou os juízes a explicarem à pequena Comăneci que, na verdade, ela tinha alcançado um feito histórico. Nadia Comăneci se tornou uma das mais jovens campeãs olímpicas da história.

Ela terminou os Jogos de Montréal com cinco medalhas: três ouros (individual geral, trave de equilíbrio e barras assimétricas), uma prata (competição por equipes) e um bronze (exercício de solo). Quatro anos depois, ganhou quatro medalhas (dois ouros e duas pratas) nas Olimpíadas de Moscou.

Contudo, fora dos esportes, a vida privada da jovem Nadia Comăneci era um verdadeiro horror encenado pelo então Partido Comunista da Romênia, liderado por Nicolae Ceaușescu, e pelo serviço secreto.

Seus treinadores, Béla e Márta Károlyi, fugiram pros EUA durante uma exibição em 1981, enquanto Nadia, num grande erro, voltou pra Romênia. Até 1989, ela viveu enjaulada devido ao controle constante do Estado, ou seja, do casal Ceaușescu.

Nadia Comăneci foi forçada inclusive a ter um relacionamento com o filho deles, Nicu. Em 1987, quando o filho do ditador descobriu que Nadia estava se relacionando com o ator americano Stefan Bianchi e estava grávida dele, enviou agentes do serviço secreto pra o perseguir. Sob ameaça, foi forçado a esquecer Nadia, sob pena de ser morto, e no segundo dia dessa trama, Nadia Comăneci perdeu o filho e tentou o suicídio.

“Até hoje, quando me lembro desses fatos, meus olhos se enchem de lágrimas. Não contei a ninguém o que estava acontecendo comigo. Apenas meu irmão e sua esposa sabiam quem me levou secretamente à fronteira húngara. Eu temia que minha mãe morresse de tristeza quando descobrisse, mas eu não podia mais viver naquele país”, lembrou Comăneci.

Nadia finalmente conseguiu fugir pros EUA em 1989 em busca de uma vida melhor, mas o começo não era promissor. Ela foi mantida refém por Constantin Panait, que lhe permitiu fugir da Romênia por 5 mil dólares e chegar aos EUA via Hungria e Áustria. Ele percebeu que poderia ganhar um bom dinheiro em cima da melhor ginasta de todos os tempos e cobrou por todas as entrevistas e participações em programas de TV ou rádio. Estima-se que dessa forma, Constantin ganhou cerca de 200 mil dólares, dos quais Nadia não recebeu um só tostão.

Com a ajuda de amigos, ela conseguiu se livrar de Constantin Panait um ano depois e se mudar pra Montréal, no Canadá. Mas mesmo em Montréal, a vida não era um mar de rosas. Ela ganhava dinheiro anunciando equipamentos de ginástica e aeróbica, e não raro roupas íntimas.

A vida começou a melhorar quando ela voltou à cidade de Oklahoma em 1991 pra ajudar o ginasta americano e campeão olímpico Bart Conner em sua escola pra jovens ginastas. Eles ficaram noivos em 1994 e se casaram dois anos depois, perto de Bucareste. O casamento de Conner foi sua primeira visita à Romênia desde a queda do ditador Nicolae Ceaușescu.

“Enquanto me casava em Bucareste, havia cerca de 10 mil pessoas nas ruas. Naquele dia elas não foram trabalhar, foi um momento emocionante pra mim porque então eu vi o quanto as pessoas se importavam comigo”, diz Nadia Comăneci, relembrando sua primeira chegada à terra natal.

É interessante que Nadia queria que o então presidente da Romênia, Ion Iliescu, fosse seu padrinho do casamento, mas em razão do cargo que ocupava, ele teve que recusar o convite. Arnold Schwarzenegger, Hillary Clinton e Robert De Niro foram convidados pra cerimônia.

Dylan, filho do casal, nasceu em 2006, e Nadia tem dupla cidadania, romena e americana, enquanto Bart mudou de religião e se tornou cristão por amor à esposa. Nadia e Bart também participam regularmente de torneios exibitórios e doam o dinheiro pra caridade.