sábado, 14 de fevereiro de 2026

[REPOST] Giovinezza (hino fascista, 1925)



Quando publiquei este conteúdo pela primeira vez, em 30 de julho de 2019, minha intenção era apresentar o modo como se tocava em geral o “Hino da Itália” em cerimônias oficiais durante a era fascista de Benito Mussolini (ou “Vintênio Fascista”, 1922-1944): a primeira parte da Fanfara e Marcia Reale d’Ordinanza (Fanfarra e Marcha Real da Ordenança), por vezes tocada sem a Fanfara, como nos áudios abaixo, logo seguida por uma execução instrumental da canção patriótica Giovinezza (Juventude; em italiano moderno, a palavra mais corrente é “gioventù”), adaptada em 1925 pra ser o hino do Partido Nacional Fascista (PNF).

Porém, minha intenção era atualizar a publicação no futuro, com a letra inteira de Giovinezza traduzida pro português, pois eu só tinha inserido a primeira estrofe e o refrão. Só hoje tomei coragem pra fazer isso, e abaixo temos a versão que foi adotada e oficializada pelo PNF em 1925, a mais conhecida ao redor do mundo. Há uma primeira versão datada de 1922, quando Mussolini foi escolhido primeiro-ministro, e outra de 1944, quando o ditador em fuga tentou fundar uma república fascista no norte da Itália; não as traduzi. Mas a história da canção, como se lê abaixo, é mais antiga e complexa.

Adaptei levemente o conteúdo de 2019, e apenas adiciono que era comum, sobretudo na última versão, cantar-se no fim do refrão “Per Benito Mussolini:/Eja, eja, alalà!”. Pode-se traduzir a ideia como “Por Benito Mussolini:/[Gritemos] Hip, hip, hurra!”, mas a versão italiana do grito de guerra, posteriormente indissociável dos ritos fascistas, foi criada por Gabriele D’Annunzio em 1917, enquanto lutava na 1.ª Guerra Mundial, justamente pra substituir o “bárbaro” Hip, hip, hurra! D’Annunzio é considerado uma das maiores inspirações do fascismo italiano, sobretudo no aspecto ritual, mas ele mesmo nunca participou ativamente da ditadura nem se autodeclarava fascista.

A Marcia Reale foi a melodia empregada pelo Reino da Itália desde a unificação, em 1861, até a proclamação da república por um plebiscito, em 1946. Não está claro como e quando surgiu a Fanfarra e Marcha Real, em algum momento do início da década de 1830, mas a versão atual da Marcha é atribuída a Giuseppe Gabetti. Com a abolição da monarquia, em 1946, a melodia foi abandonada, nunca chegando a ter uma letra oficial, apesar dos muitos textos apresentados. Mesmo sob o comando de facto do “Duce” desde 1922, a Itália continuou sendo formalmente uma monarquia, nunca também chegando a se chamar “Império Italiano”, apesar de existir um incipiente império colonial na África e nos Bálcãs até o fim da 2.ª Guerra Mundial.

Giovinezza era originalmente uma canção estudantil com melodia de Giuseppe Blanc e letra de Nino Oxilia, surgida em 1909 sob o título Il commiato. Com letras sempre mudadas, a melodia também baseou os hinos da seção dos “Arditi” do Exército Italiano (1917, letra anônima), dos esquadristas paramilitares do fascismo (1919, letra de Marcello Manni) e finalmente do partido fascista (1925, letra de Salvatore Gotta). Acossado pelos Aliados, ao fundar a breve República Social Italiana (ou República de Salò, 1943-45), Mussolini adotou Giovinezza, com outra letra, como hino único dessa entidade, já desligada da monarquia. Hoje, embora a Itália proíba a apologia do fascismo ou a refundação de seu partido, não há lei que interdite a execução pública de Giovinezza.

Entre 1943 e 1944, o Reino da Itália chegou a utilizar La canzone del Piave como hino nacional, no processo de crise institucional e de desintegração causado pelo conflito mundial. Logo depois a Marcia Reale d’Ordinanza foi reintroduzida, na esperança de que a monarquia pudesse seguir seu caminho livre do fascismo. Mas um referendo promovido em 2 e 3 de junho de 1946, com resultado proclamado no dia 10, optou pela adoção do regime republicano (54,3% contra 45,7%), com a maior parte do sul da Itália (incluindo a Sicília e a Sardenha), que já tinha sido um reino independente no passado, votando a favor do rei. Umberto 2.º, o último monarca, filho e sucessor do célebre Vittorio Emanuele (Vitório Emanuel) 3.º, partiu então ao exílio, pra nunca mais voltar.

Como hino nacional da nova República Italiana, adotou-se então na prática Il Canto degli Italiani, canção que data de 1847, mas só em 2017 foi oficializada por lei. Curiosidade: apenas em 1945, ainda antes do fim da guerra e com o norte da Itália ocupado pelos alemães pró-Mussolini, o governo de Roma permitiu por decreto o sufrágio feminino, praticado pela primeira vez no plebiscito de 1946, quando mais mulheres do que homens estavam aptas a votar. Eu baixei a Marcia Reale desta página, tendo somente, no primeiro vídeo, diminuído um pouco o andamento pra você aproveitar melhor, e no segundo, cortado alguns trechos que não eram essenciais pra ilustração. A versão de Giovinezza é cantada por Beniamino Gigli, mas conservei apenas a abertura instrumental, que alonguei um pouco pra poder ilustrar bem.

O terceiro vídeo é parte da cena em que o general fascista Rodolfo Graziani chega a Benghazi, na Líbia italiana, pra combater uma rebelião anticolonial liderada pelo imã e professor Omar al-Mukhtar em 1931. Ela foi extraída do filme líbio Lion of the Desert (O leão do deserto), que foi estrelado em 1981 pelo célebre Anthony Quinn (Zorba, o grego) no papel de Al-Mukhtar e chegou a ser censurado na Itália (Il leone del deserto) logo depois de ser lançado. Segundo o então primeiro-ministro Giulio Andreotti, a obra “ofende a honra do exército italiano”, mas teve a execução pública enfim liberada em 2009, com diversas reprises pela plataforma Sky. Com filmagens nos EUA, na Itália e na Líbia, o ex-ditador líbio Muammar Gaddafi financiou parte dos trabalhos com 35 milhões de dólares, chegando a pedir a inclusão de uma cena historicamente inexata, mas transmitindo várias vezes o filme na TV líbia. Oliver Reed esteve no papel do general Graziani, e Rod Steiger no de Benito Mussolini.

Na cena do filme, Graziani é acompanhado ainda do príncipe Amedeo (Amadeu) de Saboia-Aosta, o duque de Aosta (1898-1942), que deu apoio ao fascismo e foi vice-rei da Etiópia (1937) e governador-geral e comandante-em-chefe da África Oriental Italiana. Sky du Mont faz seu papel em O leão do deserto. Eu baixei o vídeo desta página, que já tem um trecho selecionado (da dublagem francesa do filme), e eu fiz mais cortes ainda no começo e no fim.

Todos os dados históricos e sobre o filme, bem como os arquivos das bandeiras, estão na Wikipédia italiana. No primeiro vídeo, a bandeira era a nacional e mercantil do Reino da Itália, sendo uma versão com a coroa em cima do brasão (bandeira igual à do Reino da Sardenha em 1851-61) usada como “bandeira de Estado” em escritórios, residências dos monarcas, sedes parlamentares e representações diplomáticas. No segundo vídeo, a outra bandeira era usada apenas como bandeira de guerra da República de Salò, sendo a nacional idêntica à atual, ou seja, sem o brasão real nem a águia. Seguem abaixo os três vídeos, a letra em italiano da Giovinezza fascista (1925) e sua tradução:






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1. Salve o popolo d’eroi,
salve o patria immortale,
son rinati i figli tuoi
con la fede e l’ideale.
Il valor dei tuoi guerrieri,
la virtù dei tuoi pionieri,
la vision dell’Alighieri
oggi brilla in tutti i cuor.

Ritornello (2x):
Giovinezza, giovinezza,
primavera di bellezza,
per la vita, nell’asprezza,
il tuo canto squilla e va!

2. Nell’Italia nei confini,
son rifatti gli Italiani,
li ha rifatti Mussolini
per la guerra di domani.
Per la gloria del lavoro,
per la pace e per l’alloro,
per la gogna di coloro
che la Patria rinnegar.

(Ritornello 2x)

3. I poeti e gli artigiani,
i signori e i contadini,
con orgoglio d’Italiani
giuran fede a Mussolini.
Non v’è povero quartiere,
che non mandi le sue schiere,
che non spieghi le bandiere
del Fascismo redentor.

(Ritornello 2x)

____________________


1. Salve, ó povo de heróis!
Salve, ó pátria imortal!
Os seus filhos renasceram
com a fé e com o ideal.
A bravura dos seus soldados,
a virtude dos seus pioneiros
e a ampla visão de [Dante] Alighieri
brilham hoje em cada coração.

Refrão (2x):
Juventude, ó juventude,
primavera cheia de beleza,
pela vida, nas dificuldades,
o seu canto segue ressoando!

2. Nos confins da Itália,
os italianos foram refeitos,
Mussolini os refez
para a guerra de amanhã.
Pela glória do trabalho,
pela paz e pelo louro [i.e. vitória],
pela vergonha daqueles
que renegaram a Pátria.

(Refrão 2x)

3. Os poetas e os artesãos,
os fazendeiros e os camponeses,
com orgulho de italianos
juram fé a Mussolini.
Não existe bairro pobre
que não mande suas tropas,
que não desfralde as bandeiras
do Fascismo redentor.

(Refrão 2x)



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