Quando publiquei este conteúdo pela primeira vez, em 30 de julho de 2019, minha intenção era apresentar o modo como se tocava em geral o “Hino da Itália” em cerimônias oficiais durante a era fascista de Benito Mussolini (ou “Vintênio Fascista”, 1922-1944): a primeira parte da Fanfara e Marcia Reale d’Ordinanza (Fanfarra e Marcha Real da Ordenança), por vezes tocada sem a Fanfara, como nos áudios abaixo, logo seguida por uma execução instrumental da canção patriótica Giovinezza (Juventude; em italiano moderno, a palavra mais corrente é “gioventù”), adaptada em 1925 pra ser o hino do Partido Nacional Fascista (PNF).
Porém, minha intenção era atualizar a publicação no futuro, com a letra inteira de Giovinezza traduzida pro português, pois eu só tinha inserido a primeira estrofe e o refrão. Só hoje tomei coragem pra fazer isso, e abaixo temos a versão que foi adotada e oficializada pelo PNF em 1925, a mais conhecida ao redor do mundo. Há uma primeira versão datada de 1922, quando Mussolini foi escolhido primeiro-ministro, e outra de 1944, quando o ditador em fuga tentou fundar uma república fascista no norte da Itália; não as traduzi. Mas a história da canção, como se lê abaixo, é mais antiga e complexa.
Adaptei levemente o conteúdo de 2019, e apenas adiciono que era comum, sobretudo na última versão, cantar-se no fim do refrão “Per Benito Mussolini:/Eja, eja, alalà!”. Pode-se traduzir a ideia como “Por Benito Mussolini:/[Gritemos] Hip, hip, hurra!”, mas a versão italiana do grito de guerra, posteriormente indissociável dos ritos fascistas, foi criada por Gabriele D’Annunzio em 1917, enquanto lutava na 1.ª Guerra Mundial, justamente pra substituir o “bárbaro” Hip, hip, hurra! D’Annunzio é considerado uma das maiores inspirações do fascismo italiano, sobretudo no aspecto ritual, mas ele mesmo nunca participou ativamente da ditadura nem se autodeclarava fascista.
A Marcia Reale foi a melodia empregada pelo Reino da Itália desde a unificação, em 1861, até a proclamação da república por um plebiscito, em 1946. Não está claro como e quando surgiu a Fanfarra e Marcha Real, em algum momento do início da década de 1830, mas a versão atual da Marcha é atribuída a Giuseppe Gabetti. Com a abolição da monarquia, em 1946, a melodia foi abandonada, nunca chegando a ter uma letra oficial, apesar dos muitos textos apresentados. Mesmo sob o comando de facto do “Duce” desde 1922, a Itália continuou sendo formalmente uma monarquia, nunca também chegando a se chamar “Império Italiano”, apesar de existir um incipiente império colonial na África e nos Bálcãs até o fim da 2.ª Guerra Mundial.
Giovinezza era originalmente uma canção estudantil com melodia de Giuseppe Blanc e letra de Nino Oxilia, surgida em 1909 sob o título Il commiato. Com letras sempre mudadas, a melodia também baseou os hinos da seção dos “Arditi” do Exército Italiano (1917, letra anônima), dos esquadristas paramilitares do fascismo (1919, letra de Marcello Manni) e finalmente do partido fascista (1925, letra de Salvatore Gotta). Acossado pelos Aliados, ao fundar a breve República Social Italiana (ou República de Salò, 1943-45), Mussolini adotou Giovinezza, com outra letra, como hino único dessa entidade, já desligada da monarquia. Hoje, embora a Itália proíba a apologia do fascismo ou a refundação de seu partido, não há lei que interdite a execução pública de Giovinezza.
Entre 1943 e 1944, o Reino da Itália chegou a utilizar La canzone del Piave como hino nacional, no processo de crise institucional e de desintegração causado pelo conflito mundial. Logo depois a Marcia Reale d’Ordinanza foi reintroduzida, na esperança de que a monarquia pudesse seguir seu caminho livre do fascismo. Mas um referendo promovido em 2 e 3 de junho de 1946, com resultado proclamado no dia 10, optou pela adoção do regime republicano (54,3% contra 45,7%), com a maior parte do sul da Itália (incluindo a Sicília e a Sardenha), que já tinha sido um reino independente no passado, votando a favor do rei. Umberto 2.º, o último monarca, filho e sucessor do célebre Vittorio Emanuele (Vitório Emanuel) 3.º, partiu então ao exílio, pra nunca mais voltar.
Como hino nacional da nova República Italiana, adotou-se então na prática Il Canto degli Italiani, canção que data de 1847, mas só em 2017 foi oficializada por lei. Curiosidade: apenas em 1945, ainda antes do fim da guerra e com o norte da Itália ocupado pelos alemães pró-Mussolini, o governo de Roma permitiu por decreto o sufrágio feminino, praticado pela primeira vez no plebiscito de 1946, quando mais mulheres do que homens estavam aptas a votar. Eu baixei a Marcia Reale desta página, tendo somente, no primeiro vídeo, diminuído um pouco o andamento pra você aproveitar melhor, e no segundo, cortado alguns trechos que não eram essenciais pra ilustração. A versão de Giovinezza é cantada por Beniamino Gigli, mas conservei apenas a abertura instrumental, que alonguei um pouco pra poder ilustrar bem.
O terceiro vídeo é parte da cena em que o general fascista Rodolfo Graziani chega a Benghazi, na Líbia italiana, pra combater uma rebelião anticolonial liderada pelo imã e professor Omar al-Mukhtar em 1931. Ela foi extraída do filme líbio Lion of the Desert (O leão do deserto), que foi estrelado em 1981 pelo célebre Anthony Quinn (Zorba, o grego) no papel de Al-Mukhtar e chegou a ser censurado na Itália (Il leone del deserto) logo depois de ser lançado. Segundo o então primeiro-ministro Giulio Andreotti, a obra “ofende a honra do exército italiano”, mas teve a execução pública enfim liberada em 2009, com diversas reprises pela plataforma Sky. Com filmagens nos EUA, na Itália e na Líbia, o ex-ditador líbio Muammar Gaddafi financiou parte dos trabalhos com 35 milhões de dólares, chegando a pedir a inclusão de uma cena historicamente inexata, mas transmitindo várias vezes o filme na TV líbia. Oliver Reed esteve no papel do general Graziani, e Rod Steiger no de Benito Mussolini.
Na cena do filme, Graziani é acompanhado ainda do príncipe Amedeo (Amadeu) de Saboia-Aosta, o duque de Aosta (1898-1942), que deu apoio ao fascismo e foi vice-rei da Etiópia (1937) e governador-geral e comandante-em-chefe da África Oriental Italiana. Sky du Mont faz seu papel em O leão do deserto. Eu baixei o vídeo desta página, que já tem um trecho selecionado (da dublagem francesa do filme), e eu fiz mais cortes ainda no começo e no fim.
Todos os dados históricos e sobre o filme, bem como os arquivos das bandeiras, estão na Wikipédia italiana. No primeiro vídeo, a bandeira era a nacional e mercantil do Reino da Itália, sendo uma versão com a coroa em cima do brasão (bandeira igual à do Reino da Sardenha em 1851-61) usada como “bandeira de Estado” em escritórios, residências dos monarcas, sedes parlamentares e representações diplomáticas. No segundo vídeo, a outra bandeira era usada apenas como bandeira de guerra da República de Salò, sendo a nacional idêntica à atual, ou seja, sem o brasão real nem a águia. Seguem abaixo os três vídeos, a letra em italiano da Giovinezza fascista (1925) e sua tradução:
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1. Salve o popolo d’eroi,
Ritornello (2x):
2. Nell’Italia nei confini,
(Ritornello 2x) 3. I poeti e gli artigiani,
(Ritornello 2x) ____________________
Refrão (2x):
2. Nos confins da Itália,
(Refrão 2x) 3. Os poetas e os artesãos,
(Refrão 2x) |





Esta é a primeira versão (original) do Hino Nacional da República Socialista Soviética da Moldávia (Imnul de Stat al Republicii Sovietice Socialiste Moldovenești), formada em 1940 com partes da Bessarábia e partes da RSS Autônoma da Moldávia, que integrava a RSS da Ucrânia. A Bessarábia era uma região histórica pertencente à Romênia, anexada então pela URSS na sequência da guerra contra os romenos, que tinham um governo aliado ao Eixo. Atualmente, a maior parte da antiga Bessarábia pertence à Moldova (por vezes ainda chamada pelo nome russo “Moldávia”), e outra parte pertence à Ucrânia. Essencialmente, a “língua moldova” (ou moldava) é o nome local dado ao romeno, e no país hoje também se fala russo e outras línguas. Atualmente, a Moldova é um dos países mais pobres da Europa.








Só após traduzir
A canção Tooruktuğ dolgay tañdım (A floresta cheia de pinhões) serviu de hino nacional da República Popular de Tuva (Tıva Arat Respublik), um pequeno país socialista que chegou a existir de 1921 a 1944 após a Revolução de Outubro. Hoje quase ninguém sabe de sua existência, porque de fato apenas a própria URSS e a República Popular da Mongólia o reconheciam e mantinham relações diplomáticas com ele, sendo no final das contas, assim como a própria Mongólia, basicamente um satélite soviético. Esse “hino”, baseado numa melodia popular tuvana, foi adotado em 1944 e tem letra da maestrina e diretora artística Ayana Samiyaevna Monguş (em cirílico, “Аяна Самияевна Монгуш”), que é ou foi diretora da Orquestra Nacional de Tuva e cuja biografia praticamente inexiste na internet. Quando o país foi anexado pela URSS durante a 2.ª Guerra Mundial, o hino continuou usado pelo agora Oblast Autônomo de Tuva (cujas fronteiras não correspondiam exatamente às da antiga nação), dentro da RSFS da Rússia, e depois, quando foi promovida a República Socialista Soviética Autônoma de Tuva, em 1961, e finalmente quando foi formada a República de Tuva dentro da Rússia capitalista em 1991. Somente em 2011 a entidade recebeu um novo hino, Men – Tyva Men (Eu sou tuvano).
Este é o Hino Nacional da República Socialista Soviética Carelo-Finlandesa (Karjalais-suomalaisen sosialistisen neuvostotasavallan hymni), também conhecido por seu primeiro verso, Oma Karjalais-suomalaiskansamme maa (Nossa terra dos povos carelo-finlandeses). Essa desconhecida RSS, também chamada apenas de “Carélia” ou “Carélia Soviética”, resultou da fusão de territórios da Carélia histórica que já pertenciam à RSFS da Rússia com o resto da Carélia e outros territórios que até 1940 pertenciam à Finlândia, um país independente do antigo Império Russo desde 1917. Após a chamada “guerra de inverno” entre o país e a URSS (1939-1940), a paz foi assinada, em contrapartida da concessão daqueles territórios aos soviéticos, que chegaram a ser retomados com a ajuda da Alemanha nazista em 1940-44, mas caíram de novo com o selamento definitivo do Armistício de Moscou. Nos dois períodos, boa parte da população careliana e finlandesa foi evacuada pra Finlândia.
Este é o Hino Nacional da República Socialista Soviética do Usbequistão (Ўзбекистон Совет Социалистик Республикасининг давлат мадҳияси, Oʻzbekiston Sovet Sotsialistik Respublikasining davlat madhiyasi), uma das componentes da URSS formada logo no início da união e com cultura e língua túrquicas. Em 1940, foi imposto o alfabeto cirílico por Stalin, mas desde 1992, após a independência do país, o cirílico conviveu com versões do alfabeto latino sucessivamente reformadas, prevendo-se o abandono completo do cirílico em 2023. O hino usbeque soviético foi composto e adotado em 1947, com letra de Temur Fattoh e Turob To‘la (Turab Tula) e melodia de Mutal Burhonov. A partir de 1956, o hino passou a ser executado sem letra, e um novo texto sem menções a Stalin, que é o apresentado aqui, foi adotado em 1978.
Este é o Hino Nacional da República Socialista Soviética da Ucrânia (Державний гімн Української Радянської Соціалістичної Республіки, Derzhavny himn Ukrainskoi Radianskoi Sotsialistychnoi Respubliky), adotado em 1949 com letra do poeta Pavló Hryhorovych Tychyna e melodia feita por um coletivo de compositores dirigido por Anton Dmytrovych Lebedynets. A primeira versão continha menções ao então governante Stalin, e assim como ocorreu com os outros hinos de RSS, inclusive o da própria URSS, a letra foi reelaborada em 1978 por Mykola Platonovych Bazhan, pra excluir essa e outras menções agora incômodas. O hino vigorou até 1992, ano em que a Ucrânia se tornou um país independente e adotou uma lei deliberando sobre o
Este é o Hino Nacional da República Socialista Soviética do Turcomenistão (Түркменистан Совет Социалистик Республикасы Дөвлет Гимни, Türkmenistan Sowet Sotsialistik Respublikasy Döwlet Gimni), formada como uma república autônoma em 1924 a partir da junção de outras entidades menores, incluindo parte da famosa RSS Autônoma do Turquestão. Na era comunista, a região também era conhecida pelo nome russificado “Turcomênia” ou “Turkmenia”. Como a maioria das repúblicas vizinhas, hoje países independentes, com nomes terminados em “-istão”, é de maioria cultural túrquica, sendo a língua turcomena pertencente ao ramo oghuz das línguas túrquicas, ou seja, é mais próxima do turco, do azerbaijano e do gagaúzo do que das outras línguas túrquicas dos países vizinhos, quase todas pertencentes aos ramos kipchak ou karluk. O turcomeno recebeu uma primeira versão do alfabeto latino em 1928, mas passou ao cirílico em 1940, até readotar o latino em 1993, que sofreu algumas modificações em 1999.