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quinta-feira, 12 de junho de 2025

Novo hino dos golpistas africanos


Endereço curto: fishuk.cc/hino-aes


Outro dia, ouvindo a RFI, soube que foi lançado um novo hino pra chamada “AES” (Aliança – às vezes “Confederação” – dos Estados do Sahel), entidade dissidente e alternativa à ECOWAS ou CÉDÉAO (Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental) e fundada pelas juntas militares que assumiram o poder nos últimos anos no Mali, no Burquina-Fasso e no Níger. Lideradas atualmente pelos respectivos oficiais Assimi Goïta, Ibrahim Traoré e Abdourahamane Tiani, ascenderam sob o pretexto de combater o jihadismo à própria maneira e dispensar a presença militar francesa que travava, sem grandes resultados, o mesmo combate. Além disso, carregaram no discurso anticolonial e crítico do domínio econômico que Paris ainda mantém na região, sobretudo pelo uso do franco CFA como moeda.

A ECOWAS também é acusada de corrupção, inação e vassalagem perante a Europa. Até aí tudo bem. Não fossem sutis detalhes, como a presença em massa de mercenários russos (primeiro sob o rótulo Wagner, depois com o infeliz nome Africa Corps – em inglês), que, depois dos crimes de guerra na Ucrânia, matam civis inocentes, roubam as riquezas minerais dos países e são eles mesmos frequentemente mortos ou capturados, entre outros, pelo Daesh. Todas as juntas também são acusadas (que novidade!) de prender e matar civis sem critério, sobretudo opositores, e não serem mais eficazes que a França no combate antijihadista. Quanto às promessas anticoloniais e reformadoras, o balanço é mais matizado, mas tende a ser insuficiente (e certamente vai ser negativo, na ausência de instituições democráticas), mesmo quando elas foram mais ressaltadas, como ocorreu no Burquina-Fasso. Sobre o país, o italiano Simone Guida fez um ótimo vídeo bem mais imparcial do que eu, rs.

Como sempre, minha birra principal é com a célebre “ex-querda bananeira”. A imagem mais trabalhada nas redes sociais foi a de Traoré, que ainda é capitão, tem minha idade (37 primaveras) e se apresenta como a reencarnação de Thomas Sankara, outro oficial burquinense golpista e “anticolonialista”, relativamente jovem, da década de 1980, mas que tinha um tino social mais refinado e terminou assassinado. Jones “PCBR” Manoel, embora seja um admirador de Sankara, pelo menos no começo teve um pé atrás com Traoré, e hoje parece (prudentemente) publicar pouca coisa sobre o tema, assim como fecha o bico sobre Putin e a Ucrânia. Já Silvio Almeida, pra minha surpresa, parece desorientado com a vida e recentemente publicou em seus stories do Instagram trechos de discursos legendados do Napoleão complexado, como tem feito boa parte dos radicais chic de sofá. Pra quem acompanha há anos notícias direto da francofonia, é triste ver fanáticos ideológicos pegando o bonde andando...



De um ponto de vista mais técnico, queria chamar a atenção pra esta “reportagem” laudatória da Aliança dos Golpistas do Sahel e vergonhosamente publicada por nossa mídia estatal. O jornalista tem passagem por outros produtores de falsidades, como o Vermelho e o Brasil de Fato, e trata o processo como algo normal: cedo pra chamar de “ditaduras” (igual ao “governo” corrupto e assassino de Gaddafi), chama os golpes de “levantes com apoio popular”, ignora que Mohammed Bazoum, por exemplo, foi democraticamente eleito no Níger e some com os abusos de direitos humanos. Sem entrar em detalhes, o “dois pesos, duas medidas” de que tanto acusam a direita lhes cairia bem caso se olhassem no espelho: afinal, a mesma retórica, os mesmos métodos (incluindo “transições” que nunca acabam) e as mesmas justificativas foram usados pelos milicos em Mianmar, Coreia do Sul, Europa Meridional e América Latina durante o século 20. A junta argentina de Videla, por exemplo, se autodenominava “reorganização”, exatamente como a EBC parece descrever Traoré...

Vou ser claro como fui várias vezes aqui, me lixando pro que pensem radicais, revolucionários ou comunazis: não existe ditadura nem golpe militar “com conteúdo de classe”, pois não há desenvolvimento baseado no arbítrio ou na mera força de vontade. Ou existem instituições democráticas (por mais imperfeitas que sejam), ou não existem. O “jorna-lulista” chega à desfaçatez de assimilar as juntas militares com a experiência do Senegal, que na verdade sempre foi considerado uma exceção “democrática” na região e cujos atuais presidente e primeiro-ministro, apesar da retórica nacionalista anti-França, tinham sido perseguidos pelo antecessor e ascenderam após eleições justas. E nem nesse país, nem no Gabão, onde outro golpista, um ano depois, recentemente se “elegeu” com mais de 90% dos votos, havia bandeiras ruSSas por todo lado. A esquerdalha vai dizer que “eles têm direito de trocar de mestre”, mas quem acompanha o putinismo há anos, sabe que ele é traiçoeiro e te larga nos piores momentos.

Essa linha “democracia pra nós, ditadura pra eles” não passou despercebida por um colunista do Völkischer Beobachter curitibano, que comentou a mesma “reportagem”, mas entrou em mais detalhes sobre a conjuntura no Sahel e as contradições de nossos “militontos”. Ele chama Traoré, frequentemente comparado a Che Guevara, de “novo ditador queridinho da esquerda brasileira”, porém, ignora todo o contexto neocolonial que prendia a África Ocidental à França (abordagem aliás, muito distinta da adotada pela Commonwealth britânica) e a arrogância repugnante de Macron ao lidar com qualquer ser vivo não originário de Amiens. Além disso, e esse tópico é o que mais me atiça, a real vassalagem se revela no modo como “Os Três Patetas” não apenas se abstêm, mas votam contra qualquer condenação da invasão à Ucrânia (país não muito priorizado por nossos “conservadores”) em votações na ONU. Acompanham Belarus, Nicarágua e Coreia do Norte.

Após tentar mostrar como bolsofachos e stalinetes igualmente instrumentalizam democratismo e autoritarismo pra suas próprias paranoias, lembro que tudo começou com uma “musiquinha”, rs. Segundo a RFI, o hino, batizado na língua bambara como Sahel Benkan (A Aliança do Sahel, “entente” em francês), mas todo redigido no idioma de Molière, surgiu exatamente pra motivar as populações do Mali, do Níger e do Burquina-Fasso, sobretudo os jovens, a atuarem como bucha de canhão se engajarem pessoalmente no combate ao jihadismo, cujo foco hoje é justamente o Sahel, e não mais os países árabes e muito menos o Ocidente desenvolvido. Este artigo, que também revela como a composição ficou a cargo de uma equipe dirigida por Amadou Mailallé, mostra que Sahel Benkan substitui outra canção usada desde um ano atrás e é erroneamente chamada nas redes sociais de La Confédérale (A Confederal).

O nigerino Mailallé, que parece partilhar o colonialismo linguístico de Léopold Sédar Senghor, é o mesmo especialista em hinos “peidados” que usou igual procedimento coletivo pra compor a nova canção nacional de seu país, em 2023. A partir deste artigo com outras informações, traduzi o texto do original francês, que também segue abaixo, junto com dois vídeos igualmente acompanhados da letra e, ao final, a primeira execução pública instrumental presidida por nosso polêmico Ibrahim Traoré. Vejam a cara de animação do povo ao qual foi permitido testemunhar tamanho evento histórico...




1) Homenagem ao povo do Sahel
Herdeiro dos grandes impérios
Portador de um tempo novo
Que anuncia liberdade e progresso
Sob o estandarte de combates épicos

2) Povo da AES
Intrépido e soberano
Pelo verbo [i.e. persuasão] e pelas armas
Rompa as correntes que o prendem
Para que suas riquezas voltem a você
E que resplandeça o espírito fértil da África

Refrão:
Todos nós somos soldados
Determinados, resilientes e unidos
Para que a AES permaneça
Um Espaço, Um Povo, Um Destino

3) Povo da AES
Povo da África, de tenacidade
De sangue e de suor
Você vai escrever a história
Para que, orgulhosos de seu passado,
Seus filhos forjem o presente
E construam um mundo melhor

(Refrão)

Povo da AES!

____________________


1) Hommage au peuple du Sahel
Héritier des grands empires
Porteur d’un temps nouveau
Qui annonce liberté et progrès
Sous l’étendard de combats épiques

2) Peuple de l’AES
Intrépide et souverain
Par le verbe et par les armes
Brise les chaines qui te tiennent
Pour que tes richesses te reviennent
Et que scintille l’esprit fertile de l’Afrique

Refrain :
Soldats, nous le sommes tous
Déterminés, résilients et unis
Pour que l’AES demeure
Un Espace, Un Peuple, Un Destin

3) Peuple de l’AES
Peuple d’Afrique, de ténacité
De sang et de sueur
Tu écriras l’histoire
Pour que fiers de leur passé
Tes enfants forgent le présent
Et bâtissent un monde meilleur.

(Refrain)

Peuple de l’AES !



sábado, 30 de setembro de 2023

Hino Nacional no Níger desde 2023


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/hino-niger


Quando a junta militar que governa o Níger há mais de dois meses tomou o poder do presidente Mohamed Bazoum, em mais um enésimo golpe nessa região da África em poucos anos, acabei conhecendo a Télé Sahel, que é o canal de TV oficial daquele país. Ela transmitia a maioria dos eventos políticos de então, às vezes em inumeráveis reprises, com uma versão ao vivo no site oficial e algumas versões gravadas no YouTube. Enquanto ficou disponível na plataforma, consegui baixar uma dessas gravações ao vivo e achei o que descobri ser o hino nacional do Níger recém-adotado, pouco antes do golpe e que agora pode correr o risco de ser associado a esse período. As informações abaixo são traduções das Wikipédias em inglês e alemão, e na maioria das versões há pouca ou nenhuma informação sobre o novo hino. Acredito que em português esta publicação é a primeira, ou uma das primeiras, a explicar a canção e dar sua tradução literal.

L’Honneur de la Patrie (A Honra da Pátria) é o hino nacional da República do Níger, adotado em 22 de junho de 2023 pra substituir La Nigérienne (A Nigerina), adotada em 1961, um ano após o país ganhar a independência e deixar de ser uma colônia da França. De fato, o próprio hino tinha sido composto em 1961 pelos franceses Maurice Albert Thiriet (letra), Robert Jacquet e Nicolas Abel François Frionnet (melodia), na esteira da descolonização dos países da África Ocidental. Em 2019, o presidente Mahamadou Issoufou anunciou que estava planejando substituir La Nigérienne, pois reclamava-se que sua letra podia ser interpretada como uma demonstração de gratidão para com a antiga potência colonial: um dos versos mais visados era sobre serem “orgulhosos e gratos pela recém-obtida liberdade”. Estabeleceu-se um comitê de 15 especialistas nativos pra deliberar sobre o hino de então e, se fosse necessário, criar um novo hino, até que finalmente o parlamento do Níger adotou L’Honneur de la Patrie em substituição a La Nigérienne.

A iniciativa partiu, entre outros, de Assoumana Malam Issa, então Ministro do Renascimento Cultural, e o projeto foi fortemente apoiado por representantes de organizações juvenis e estudantis. O referido comitê incluiu membros do governo, especialistas, artistas e outros trabalhadores da cultura, presididos por Amadou Mailallé, mas com a garantia de que a sociedade civil em todas as regiões do país também se envolvesse sem qualquer pressão com prazos. Não foi especificado desde o início até que ponto as mudanças deveriam ser feitas e se elas afetariam apenas o texto ou a melodia também. O comitê viu uma análise crítica de La Nigérienne como sua tarefa mais importante, mas inicialmente também pediu propostas pra um novo hino nacional e fez uma seleção preliminar de três canções das 38 inscritas. Em fevereiro de 2020, o comitê disse que tinha levantado uma série de metas que iam desde como elaborar um hino até seu conteúdo programático. Após alguns meses de trabalho, o projeto quase foi suspenso.

O governo do presidente Mohamed Bazoum retomou o projeto e, sob a égide do Ministério da Cultura, reativou o comitê de Amadou Mailallé. O amplo envolvimento originalmente planejado do público ou a oportunidade para os indivíduos contribuírem com sugestões não ocorreu. O comitê elaborou em grande parte as etapas finais por conta própria. Em 24 de março de 2022, o governo anunciou que estava elaborando uma emenda constitucional pra um novo hino nacional, intitulado L’Honneur de la Patrie, contendo nova letra e nova melodia.

Em 22 de junho de 2023, a Assembleia Nacional aprovou a emenda constitucional que aboliu La Nigérienne e tornou L’Honneur de la Patrie o hino nacional do Níger. Ao mesmo tempo, foram divulgados o texto e a música elaborados pelo comitê de especialistas. O novo hino almeja promover a igualdade, liberdade, fraternidade, patriotismo e unidade nacional em conexão com o pan-africanismo e captar as dimensões do social, do cultural e da autodeterminação.

Eu mesmo traduzi diretamente a letra do francês, mas não inseri legendas em português no clipe da Télé Sahel (Partout et pour tous: Em toda parte e pra todos, rs). Lembrando que o Níger é o rio que dá nome ao país, e o Ténéré é um grande deserto que cobre parte do Níger e do Chade, nação vizinha. Pra acelerar o serviço, passei o texto no Google Tradutor e depois confrontei com o original pra corrigir as incoerências causadas, em parte, pela ausência de pontuação e de uniformidade ao usar iniciais maiúsculas. A tradução final é de minha lavra, mas mantive parte da falta de pontuação e o uso incoerente de iniciais maiúsculas:


Des rives du Niger aux confins du Ténéré
Frères et sœurs nous sommes
Enfants d’une même Patrie le Niger
Nourris de la sève des mêmes idéaux
Pour un Niger de paix libre fort et uni
Pour un Niger prospère le Pays de nos rêves
Pour l’honneur de la Patrie
Incarnons la vaillance et la persévérance
Et toutes les vertus de nos dignes aïeux
Guerriers intrépides déterminés et fiers
Défendons la patrie au prix de notre sang
Faisons du Niger symbole de dignité
Emblème et flambeau de l’Afrique qui avance
Pour ces nobles idéaux debout et en avant
En avant pour le travail en avant pour le combat
Nous demeurons debout
Portant haut le drapeau de notre cher Pays
Dans le ciel d’Afrique et dans tout l’Univers
Pour construire ensemble
Un monde de justice de paix et de progrès
Et pour faire du Niger la fierté de l’Afrique.

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Das margens do Níger aos confins do Ténéré
Somos irmãos e irmãs
Filhos de uma mesma pátria, o Níger
Nutridos pela seiva dos mesmos ideais
Por um Níger pacífico, livre, forte e unido
Por um Níger próspero, o País de nossos sonhos
Pela honra da Pátria
Encarnemos a valentia e a perseverança
E todas as virtudes de nossos dignos ancestrais
Guerreiros intrépidos, determinados e altivos
Defendamos a pátria à custa de nosso sangue
Façamos do Níger um símbolo de dignidade
Emblema e tocha da África que avança
De pé e avante por esses nobres ideais
Avante pelo trabalho, avante pelo combate
Vamos permanecer de pé
Levando alto a bandeira de nosso querido País
No céu da África e em todo o Universo
Pra construirmos juntos
Um mundo de justiça, paz e progresso
E fazermos do Níger o orgulho da África.