Esses dias, um amigo meu me repassou este artigo escrito pela historiadora Tamara Eidelman em 2022 e publicado na coluna “State of Affairs” da revista ortodoxa The Wheel. Não sei se foi escrito direto em inglês ou se foi traduzido a partir do russo. Em português, ele se chama “O putinismo como o novo fascismo” e, em pleno início da invasão russa à Ucrânia, a renomada intelectual associa vários aspectos da ditadura de Vladimir Putin – que ficariam muito mais fortes e evidentes no decorrer da matança – ao que o filósofo Umberto Eco chamava de “fascismo eterno” ou “ur-fascismo”. São algumas características de ideologias, partidos ou regimes que o escritor italiano associava não ao encaixe automático no rótulo de fascismo, mas à possibilidade de evoluírem nesse sentido e, portanto, causarem os mesmos estragos.
O sufixo “ur-”, típico do inglês e, sobretudo, do alemão, significa “proto-”, “primitivo”, “original”, ou seja, o núcleo mínimo pra que possa aparecer um fenômeno fascista; não precisa ser a lista completa, mas a verificação da maioria dos itens já acende o sinal de alerta. Se jogarmos no Google, o texto de Eco costuma estar associado a portais de esquerda na década de 2010, sobretudo quando Jair Bolsonaro começava a ganhar notoriedade. Contudo, se aguçarmos nosso senso crítico, podemos associá-lo não só ao putinismo (em especial a Aleksandr Dugin, seguidor de Julius Evola), mas também a Iosif Stalin e ao inferno no qual ele transformou a URSS. O ex-querdista mérdio vai repugnar ambas as associações, só tendo consumido, claro, material de propaganda, e até hoje vai suportar a vergonha de vociferar que “Putin é de extrema-direita, mas não fascista”.
Eidelman, hoje obviamente exilada, tem seu próprio canal no YouTube, com verdadeiras aulas magnas sobre vários períodos da história e uma abordagem pra fazer qualquer ur-idiota útil ou ur-quenga de ditador, à direita ou à esquerda, querer enterrar a cara no chão. Vitório Sorotiuk já dissertou magistralmente sobre o que os ucranianos batizaram então “rashizm”, mas pôde ser facilmente adaptado pro português como “ruscismo” (russo + fascismo). O historiador Timothy Snyder foi outro que defendeu a pertinência e até a “elegância” do termo. Sem mais, e com ocasionais notas e adaptações minhas, vamos lá:
Muitas vezes me pedem para comparar a situação atual na Rússia com a União Soviética de Stalin e a Alemanha de Hitler. Não sou a favor de tais comparações. Elas sempre me parecem um tanto artificiais. Países, épocas e pessoas são sempre diferentes, e tais comparações só podem ser usadas como jogos mentais. É possível observar algumas características em comum, mas é evidente que o regime atual na Rússia é mais brando do que na época de Stalin, e tenho certeza de que não é tão terrível quanto a Alemanha na década de 1930 – por enquanto. Mas, ao mesmo tempo, todo historiador pode tentar analisar e descrever a situação de um país. E para mim, é claro que o regime político russo, a Rússia no momento, pode ser descrito como fascista.
O grande linguista e filósofo italiano Umberto Eco formulou uma lista de 14 características do fascismo. Infelizmente, podemos ver todas ou a maioria delas na Rússia de hoje. Devemos entender que o fascismo nem sempre é a Alemanha nazista, nem sempre é Auschwitz, mas possui muitas características desagradáveis. Vejamos o que Umberto Eco escreveu.
1. O culto à tradição. “Basta olhar para o programa de estudos de qualquer movimento fascista para encontrar os principais pensadores tradicionalistas. A gnose nazista foi alimentada por elementos tradicionalistas, sincréticos e ocultistas.” (Umberto Eco, “Ur-Fascism,” New York Review of Books, June 22, 1995,)
O culto à tradição certamente está presente na Rússia. Não apenas hoje, é claro. Teoricamente, o culto à tradição sempre esteve presente. Mas nos últimos 10 ou 20 anos, ele se tornou cada vez mais forte, e a tradição agora é percebida como uma compreensão muito agressiva e fundamentalista do cristianismo e das antigas tradições russas em geral. Isso significa uma vida familiar muito tradicional, juntamente com a permissão moral e até judicial da violência doméstica. Ao mesmo tempo, fica claro que o Estado russo hoje se entende como a continuação do Estado russo anterior à revolução. Podemos identificar muitas coisas boas na Rússia antes de 1917, mas a Rússia de hoje em dia absorve principalmente aquilo que, na minha opinião, levou à revolução há mais de cem anos, como o cristianismo rígido, o desejo de impedir quaisquer reformas e assim por diante. Portanto, sim, o culto à tradição faz parte da Rússia atual.
2. Rejeição do modernismo. “O Iluminismo, a Idade da Razão, é visto como o início da depravação moderna. Nesse sentido, o ur-fascismo pode ser definido como irracionalismo.”
A Era do Iluminismo está fortemente ligada ao desenvolvimento europeu moderno. Na maioria dos países europeus, a vida se baseia hoje nas ideias da Revolução Francesa: liberté (liberdade), fraternité (fraternidade), égalité (igualdade). Essas ideias foram formuladas no final do século 18 e vêm se desenvolvendo desde então. No momento, a Rússia está rejeitando a maioria das coisas que vêm do Ocidente, especialmente aquelas relacionadas aos direitos humanos (que também vieram do Iluminismo), e está promovendo a velha ideia de que o Ocidente é frio demais, racional demais, intelectual demais, enquanto a Rússia é emocional, o que significa irracional.
3. O culto da ação pela ação. “Sendo a ação bela em si mesma, ela deve ser tomada antes ou sem qualquer reflexão prévia. Pensar é uma forma de castração [lit. “emasculação”].”
Pode não ser tão claro quanto era na Alemanha da década de 1930 ou na Itália de Mussolini, mas o sr. Putin se promove como uma imagem de tal ação. Pelo menos, ele tentou antes da guerra. Hoje em dia o vemos muito raramente, mas antes da guerra e antes da covid, ele sempre se apresentava como uma pessoa fisicamente muito forte, alguém que podia andar a cavalo, voar de parapente, nadar, lutar e assim por diante. Era a imagem de um machão que nunca pensa muito, um exemplo para o povo russo.
4. Discordar é traição. “O espírito crítico faz distinções, e distinguir é um sinal de modernismo. Na cultura moderna, a comunidade científica elogia a discordância como uma forma de aprimorar o conhecimento.”
Na Rússia, é claro que discordar é traição. Lembre-se das centenas, talvez milhares, de russos que tentaram demonstrar sua discordância. Primeiro, Aleksei Navalny, um dos mais importantes líderes da oposição na Rússia, que agora está preso e recebe uma nova sentença a cada poucos meses [como se sabe, ele “seria morrido” em fevereiro em 2024]. E é claro que a ideia das autoridades de Putin é mantê-lo na prisão o máximo de tempo possível. Mas outras pessoas que não são tão famosas quanto Navalny também são presas por discordar, por dizer que a paz é melhor do que a guerra, ou simplesmente por aparecer num local público com um pedaço de papel em branco no qual nada está escrito. Até mesmo algo assim é entendido como discordância perigosa.
5. Medo da diferença. “O primeiro apelo de um movimento fascista ou prematuramente fascista é um apelo contra os intrusos. Assim, o ur-fascismo é racista por definição.”
É evidente que a Rússia é um país verdadeiramente racista, e esse racismo é apoiado e promovido pelo Estado. Temos exemplos terríveis e repugnantes de atitudes racistas contra migrantes da Ásia Central e contra pessoas não brancas. No momento, por mais absurdo que isso pareça, existe uma espécie de racismo contra o povo ucraniano, que é todo apresentado como nazista, como um inimigo perigoso.
6. Apelo à frustração social. “Uma das características mais típicas do fascismo histórico foi o apelo a uma classe média frustrada, uma classe que sofria com uma crise econômica ou sentimentos de humilhação política e que se sentia amedrontada pela pressão dos grupos sociais mais baixos.”
Não tenho certeza se o regime russo visa exatamente a classe média russa, porque a classe média é bastante fraca na Rússia, mas é claro que Putin, desde o início de seu governo, explorou esse sentimento de frustração social que milhões de russos infelizmente sentem desde a década de 1990. Após o colapso da União Soviética, as pessoas se sentiram humilhadas pela má situação econômica, o que levou muitas pessoas – que estavam acostumadas a um certo nível de conforto nos tempos soviéticos – a perderem seus cargos, seus empregos, seu respeito próprio e, claro, seu grande império soviético, com o qual se identificavam. Assim, quando Putin começou a promover sentimentos imperialistas com a anexação da Crimeia em 2014, isso, estranha e tristemente, deu a muitas pessoas um sentimento de orgulho nacional, justamente por causa da frustração social que sentiam antes.
7. Obsessão por conspirações. “Na raiz da psicologia ur-fascista está a obsessão por conspirações, possivelmente internacionais. Os seguidores precisam se sentir sitiados.”
Esta é uma ideia favorita agora; muitas forças diferentes estão conspirando contra a Rússia! O imperialismo americano, claro, é suspeito de querer derrubar o regime russo e enfraquecer a Rússia, como se a Rússia não fosse fraca por si só. Agora os europeus também são considerados inimigos. A União Europeia está conspirando contra a Rússia; eles não querem nosso gás e petróleo. Os ucranianos fazem parte dessa conspiração. E a oposição russa é vista como ligada a esses inimigos terríveis.
8. O inimigo é forte e fraco ao mesmo tempo. “Por meio de uma mudança contínua do foco retórico, os inimigos são, ao mesmo tempo, muito fortes e muito fracos.”
Isso fica claro se observarmos a imagem dos Estados Unidos na propaganda russa. Por um lado, as pessoas são informadas de que os EUA estão tramando para destruir a Rússia. Estão tentando trazer uma série de coisas ruins, do McDonald’s à corrupção moral. Essa imagem mostra os EUA como um inimigo forte e terrível. Ao mesmo tempo, a propaganda apresenta os EUA como um país fraco. Pessoas que se consideram especialistas em política explicam que o país logo entrará em colapso, que a economia americana é fraca, que a situação política americana é muito turbulenta. Assim, os EUA, por um lado, são um inimigo terrível, mas, por outro, caminham rapidamente para sua ruína.
9. O pacifismo é negociar com o inimigo. “Para o ur-fascismo, não há luta pela vida, mas sim a vida é vivida para a luta.”
No momento, na Rússia, não se pode nem chamar de “guerra” o que está acontecendo na Ucrânia. Há uma expressão usada, uma descrição muito estranha dessa situação: a “operação especial”. Não se pode criticar a guerra porque a Rússia não está em guerra com ninguém. A Rússia é apresentada como um país pacífico, embora ao mesmo tempo seja um país que avança com seus exércitos porque luta pela razão certa. Você não pode se opor a isso. Se o fizer, você é um inimigo; ou pior ainda, você é um traidor.
10. Desprezo pelos fracos. “O elitismo é um aspecto típico de qualquer ideologia reacionária.”
Ser uma pessoa fraca, ou ter qualquer tipo de fraqueza, é considerado vergonhoso na Rússia. Existem milhares e milhares de pessoas com deficiência, que recebem muito pouca ajuda do Estado. E (talvez ainda pior) pessoas com deficiência, crianças com problemas físicos ou mentais, são constantemente ridicularizadas, às vezes perseguidas na escola, deixadas em isolamento. Idosos, assim como qualquer um que não seja fisicamente forte e capaz de espancar quem quiser, são considerados ninguém ou quase ninguém.
11. Todos são educados para se tornarem heróis. “Na ideologia ur-fascista, o heroísmo é a norma. Esse culto ao heroísmo está estritamente ligado com o culto à morte.”
Era muito forte na época de Stalin. Os atos suicidas durante a guerra eram apresentados como uma espécie de modelo para todos. Todos deveriam estar preparados para morrer pela pátria. E agora, durante esta guerra que não diz seu nome, também se espera que as pessoas lutem pela pátria – pelo menos é o que dizem (não se pode julgar o que elas sentem ou pensam). Dizem que estão prontas para morrer e para entregar seus filhos ao Estado, porque ser um herói é melhor do que estar vivo.
12. Machismo e armamentismo. “O machismo implica tanto desprezo pelas mulheres quanto intolerância e condenação de hábitos sexuais não convencionais, da castidade à homossexualidade.”
Não tenho certeza sobre a castidade, mas quanto à homossexualidade, assim como aos direitos das mulheres, tudo isso está fora de questão na Rússia de hoje. A homofobia é generalizada; a violência doméstica está em toda parte e é mais ou menos apoiada pelo Estado e pela Igreja. É visto como uma antiga tradição russa que o marido possa bater na esposa e o pai possa espancar e maltratar os filhos. Não há nada de errado nisso. Talvez se deva moderar a violência – não os espancar até a morte –, mas a ideia de maus-tratos físicos é considerada uma tradição russa.
13. Populismo seletivo. “Há em nosso futuro um populismo da televisão ou internet, no qual a resposta emocional de um grupo selecionado de cidadãos pode ser apresentada e aceita como a Voz do Povo.”
Isso é constantemente evidente na TV e em comícios organizados pelo Estado, onde milhares de professores, profissionais da saúde ou outros que recebem salário do Estado são convocados para demonstrar seu apoio. Jovens choram e gritam o quanto adoram seu presidente. Às vezes, tudo isso é completamente falso. Às vezes, as pessoas são dominadas por essa onda de entusiasmo organizado, e esses eventos são apresentados como a vontade de todo o país. Agora temos um debate acalorado sobre quantas pessoas realmente apoiam a guerra. Embora seja claro que muitas pessoas apoiam, nem todos têm tanta certeza de que os apoiadores da guerra sejam realmente tão numerosos quanto a propaganda apresenta. Mostrar todos esses comícios e grupos de idosas gritando seu apoio a Putin é uma forma de sugerir o quanto as pessoas amam seu presidente.
14. O ur-fascismo fala em novilíngua. “Todos os livros escolares nazistas ou fascistas faziam uso de um vocabulário empobrecido e uma sintaxe elementar, a fim de limitar os instrumentos para o raciocínio complexo e crítico.”
Não é tão fácil explicar isso para um público de língua inglesa, mas a novilíngua, como entendida por George Orwell, está claramente presente na Rússia. A língua russa está se tornando cada vez mais empobrecida, cada vez mais primitiva. Há um ou dois anos, um linguista russo muito importante e conhecido, Gasan Guseinov, escreveu um artigo chamando o idioma russo oficial – o idioma usado na mídia atualmente – de uma língua “porcaria”. Isso gerou uma onda de protestos e mudou a posição social desse acadêmico anteriormente respeitado. Ele deixou a Rússia e agora leciona em algum lugar da Europa. Ficou claro que todos os protestos e discursos de ódio dirigidos contra essa pessoa e suas ideias foram inspirados pelo Estado, porque o Estado reconheceu a veracidade de suas acusações.
Todas essas 14 características do fascismo estão presentes na Rússia de hoje, algumas em maior e outras em menor grau. É uma conclusão muito triste e eu realmente espero que não seja assim para sempre. Espero que eu ainda esteja viva para ver mudanças. Digamos não à guerra.

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