E pela milésima vez nesta página, mais um texto sobre a denúncia (incompleta, claro) dos crimes de Iósif Stálin por Nikíta Khruschóv no 20.º Congresso do Partido Comunista da União Soviética, rs. Até parece que não “superei” o tema de minha iniciação científica e de meu TCC, mas por acaso achei este artigo escrito por Olivier Favier e publicado no portal da Rádio França Internacional (RFI) no último dia 13 de fevereiro. Relembrando os 70 anos da leitura do famoso “relatório secreto”, seu título traduzido do francês é “14-24 de fevereiro de 1956: Como Khruschov pôs fim ao culto a Stalin”.
Ele cita o historiador Nicolas Werth, ainda muito atuante na área e cujas sínteses sobre a história da URSS, ao contrário dos estudos mais específicos dos anglófonos que estudam o stalinismo e a Comintern, jogam bastante luz sobre o período da “guerra fria”. Segue sendo referência obrigatória, junto aos compatriotas Hélène Carrère d’Encausse e Marc Ferro. Desde 2020, Werth é chefe da filial francesa da sociedade Memorial, dissolvida na Rússia por resgatar as memórias dos perseguidos pelos bolcheviques, e tem escrito livros e artigos denunciando a manipulação da história por Vladimir Putin.
Mantive o “presente histórico”, estranho em textos jornalísticos, e tentei adaptar os outros tempos verbais conforme ficassem mais naturais em português. O célebre e famigerado “-ev”, que aparece erroneamente nos fins de alguns sobrenomes, foi devidamente corrigido pra “-ov” (variante de “-iov” após SCH e algumas outras letras), e “Iósif” não é “Josef” nem “Joseph”. Favier tem o mérito de citar, embora sem se aprofundar, o que chama de “negacionistas”, como Grover Furr, um não especialista pra quem Stalin estaria sempre certo. Ele não é o único, e infelizmente tem seguidores, inclusive aqui nos Trópicos, a quem espero que chegue esta humilde tradução e as referências citadas, sem muita esperança, contudo, que possa surtir algum efeito, ao menos imediato.

Quando, em 14 de fevereiro de 1956, os 1 436 delegados do partido na URSS e os representantes dos 55 partidos-irmãos se reuniram em Moscou pro discurso de abertura do 20.º Congresso do Partido Comunista, proferido por Nikita Khruschov, primeiro-secretário do Comitê Central desde setembro de 1953, ninguém imaginava a explosão que desencadearia, dez dias depois, a leitura de um relatório “Sobre o culto à personalidade e suas consequências”, pelo mesmo homem.
Stalin deve ter chegado a acreditar que era imortal. Após falecer, em fevereiro de 1953, seus colaboradores mais próximos se veem em imediata competição e, inicialmente, decidem dividir as tarefas de forma mais ou menos igualitária entre si. Dentre eles, Lavrénti Béria, ministro do Interior e vice-primeiro-ministro, se torna o novo homem forte do regime.
Ele é um monstro absoluto, sem convicções políticas, mas movido por uma ambição desmedida. A seus inúmeros crimes de Estado se ajuntam os de um predador sexual que sequestra, estupra e mata mulheres nas noites de Moscou. Ele tinha sido o braço direito do “Paizinho dos Povos” desde 1933, e houve muita especulação, sem provas conclusivas, sobre sua responsabilidade no falecimento dele. Caído em desgraça recentemente e sabendo que estava condenado, certamente tinha todos os motivos pra o eliminar.
Um mundo de sobreviventes – Ele é o primeiro a trilhar o caminho da desestalinização, nos planos interno e externo. Mais de um milhão de prisioneiros, em sua maioria criminosos comuns, são libertados do GULAG, e ele se mostra disposto a abandonar a Alemanha Oriental em troca da promessa de que o país permaneceria desarmado. Isso foi demais pra seus rivais, que se livram dele alguns meses depois, na mais pura tradição stalinista. Um simulacro de julgamento é realizado a portas fechadas alguns meses após sua prisão, levando inevitavelmente a uma sentença de morte que parece, aliás, ter sido puramente simbólica, já que o condenado provavelmente morreu enquanto era preso.
A partir de setembro de 1953, Nikita Khruschov, que se tornou o primeiro-secretário do partido, ascende por sobre os demais burocratas. Ele também tinha crescido à sombra de Stalin, mas, diferentemente de Beria, era um revolucionário sincero, mesmo que sua adesão ao bolchevismo tenha sido relativamente tardia e puramente estratégica. Da mesma forma, após a morte de Lenin, inicialmente se inclina pra Trotsky antes de aderir à linha majoritária, decisão que o levará a fazer sua autocrítica alguns anos depois. Durante os Grandes Expurgos de 1937-38, ele não interviria quando seus colaboradores mais próximos foram eliminados pelo regime.
Assim como outros líderes do regime, Khruschov é um sobrevivente. Ele quer reerguer a economia do país, devastada pela guerra e pela destruição das elites orquestrada por Stalin. Em 1955, com o Pacto de Varsóvia, ele tinha dado ao Bloco Oriental uma estrutura militar, que considerava um equivalente de direito à OTAN, criada seis anos antes. Investe na agricultura com algum sucesso, aumentando a renda média da população e conquistando certa popularidade. Acima de tudo, pretende dar aos líderes, como um todo, os meios pra desfrutarem de seus privilégios, se afastando de um regime de terror em que qualquer responsabilidade levava, mais cedo ou mais tarde, à desgraça e à morte.
Uma explosão – Em março de 1956, é hora de retornar às grandes cerimônias rituais dos congressos do Partido Comunista. Não havia ocorrido um desde 1952, e essa vigésima edição nasce sob o signo de um renovado senso de continuidade. Os 1 436 delegados presentes, assim como os representantes dos 55 partidos-irmãos, esperam, portanto, reconhecer uma certa continuidade. O discurso de abertura, aliás, trabalha nessa direção, lembrando a todos que a URSS e seus valores tinham sobrevivido perfeitamente ao homem que os tinha personificado por quase trinta anos. Stalin não é denunciado; ele simplesmente aparece como uma figura do passado.
Dez dias depois, em 24 de março, no final da tarde, Khruschov convoca uma reunião a portas fechadas apenas com representantes da União Soviética e lhes apresenta seu “Relatório sobre o culto à personalidade e suas consequências”. Sob completo silêncio, se pôs a ler em voz alta o que se revela uma demolição completa de seu antecessor, apoiada por estatísticas. Lembrou como 70% dos membros do Politburo [Birô Político] de 1934 tinham sido executados, essencialmente durante os julgamentos-espetáculo de 1937-38. Evoca o destino trágico das minorias, a apatia de Stalin e, depois, suas decisões erráticas durante a invasão nazista de 1941-42, e sua obsessão paranoica por conspirações. Até o trotskismo, até então definido como a pior forma de traição, recebe certa indulgência em suas observações.
Juiz e cúmplice de muitas das atrocidades que detalha, ele evita cuidadosamente detalhar os episódios em que muitos sabem que esteve diretamente envolvido. Além disso, seu requisitório começa em 1934 e não contém uma palavra sobre o genocídio ucraniano, o Holodomor, que precedeu imediatamente esse período. De modo geral, ele prioriza os crimes políticos que visavam líderes do regime em detrimento dos crimes massivos que atingiram o povo e estavam no cerne da máquina mortífera stalinista. Nos dias seguintes, o relatório é lido em voz alta, proibindo-se de fazer anotações, em todos os escritórios do partido em território soviético. No final de março, o New York Times ecoa o relatório. Contudo, ele só é publicado em 1989 e desde então passa a ser conhecido como “relatório secreto”. A partir daí, seus contornos podem ser interpretados livremente.
Um negacionismo persistente – Na França, onde o partido é dominado por stalinistas leais, se fala, portanto, no “relatório atribuído ao camarada Khruschov”. O secretário-geral Maurice Thorez, que possuía uma cópia, chegou a afirmar que o texto descrevia “os defeitos e méritos do camarada Stalin”. A pressão que ele e outros conservadores exercem sobre Moscou leva Khruschov a moderar o tom, o qual ele próprio, além disso, não admitiu que era pessoalmente seu.
Foi produzido outro relatório, considerado mais aceitável. Jeannette Thorez-Vermeersch, esposa do dirigente francês, vai se manter firme em sua posição até morrer, em 2001: “Não sejamos anões que cospem nos túmulos de gigantes”. Esse negacionismo ainda persiste em algumas publicações recentes traduzidas pro francês, como o estonteante Khruschov mentiu [Khrushchev Lied], do medievalista americano Grover Furr.
Khruschov foi o primeiro chefe de Estado soviético a deixar ao poder, embora contra sua vontade, em 1964. Ele morre sete anos depois. Com ele, a URSS passou, como escreve o historiador Nicolas Werth, “de um sistema que pode ser descrito como totalitário a um Estado autoritário e policial” [Histoire de l’URSS, PUF, 2021, coleção Que sais-je ?]. O caminho exatamente oposto está sendo trilhado na Rússia de hoje, onde Vladimir Putin transforma Stalin num herói nacional e Lenin, no defensor de um internacionalismo inerentemente falho e prejudicial aos interesses do país.

Em protesto contra a ocupação soviética, os húngaros derrubam a estátua de Iosif Stalin durante a revolta de Budapeste em 28 de outubro de 1956. Ela quebra na altura dos joelhos sob os golpes da multidão enfurecida. Poucos meses após o relatório de Khruschov, a desestalinização mostra suas limitações. (Imagem da Associated Press)
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