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domingo, 10 de agosto de 2025

História da canção do “Trololó”

Este texto publicado na imprensa russa online em 12 de janeiro de 2021 se chama em português “A história da canção Estou muito feliz, pois finalmente estou voltando pra casa (Vokalíz)”, faixa que ficou conhecida no Ocidente pelo meme apresentando o cantor soviético-russo Eduard Anatolievich Khil (1934-2012) num clipe cantarolado sem letras. Infelizmente, este artigo guardado em meus backups não tinha indicação de autoria nem o endereço original. Porém, consegui achar usando o Yandex (mas não o Google) uma cópia, ainda sem assinatura, nesta publicação aberta da rede social VK.

Os fanáticos pela cultura russa e pela história soviética devem estar cheios de ouvir falar do grande barítono que terminou seus dias (satisfeito, ao que parece!) conhecido como “Trololó” mundo afora. Mas o texto que acabo de traduzir traz alguns detalhes engraçados e comoventes, como a briga entre o autor da melodia e o ex-futuro letrista e a brincadeira que Khil fazia com a canção em shows no exterior, dizendo que ia cantar na língua local, rs. Além disso, ao longo dos anos já publiquei vários materiais relacionados a Khil e a produções derivadas do Vokaliz, mas nenhuma história completa, ao contrário do que fiz, por exemplo, com o “Dmitri descobre” e o “9999 Gold”. Divirta-se!



Eduard Khil cantou essa vocalização (vokalíz) pela primeira vez ainda em 1965 e então passou frequentemente a inclui-la nos repertórios dos shows que fazia na URSS e no exterior. O público sempre a recebia calorosamente, mas a composição só “estourou” de verdade em 2009, quando um vídeo musical com a faixa caiu no gosto dos internautas.

O interessante é que a thumb vocal do célebre cantor soviético e russo foi tornada um meme superpopular pela audiência anglófona que apelidou Khil de “Mr. Trololo”.

A história do Vokaliz de Eduard Khil – A melodia da obra foi composta por Arkadi Ostrovski. Pressupunha-se que seria uma canção com letra de Vadim Semernin, mas depois o compositor decidiu se virar sem o texto.

Eduard Khil compartilhou recordações sobre a história da composição da canção Estou muito feliz, pois finalmente estou voltando pra casa (Rossiiskaia gazeta, 2010):

A canção era bastante fácil de cantar. Ainda mais que não tinha letra... Embora de início uma letra tivesse sido planejada. Depois que Arkadi Ostrovski compôs a melodia dessa canção, por um longo tempo não conseguimos escolher os versos adequados. Alguns poetas tentaram escrever uma letra, mas todas as variantes propostas foram rejeitadas. A que mais nos agradou foi uma letra cômica sobre um caubói:

“John em seu alazão [mustang], pelas vastidões da pradaria, corre para ver sua amada Mary, que vive no estado do Kentucky e está o esperando, tricotando meias de lã para ele...”

Mas na época soviética, não me permitiram cantar uma música com uma letra assim. No final, Ostrovski disse: “Nesse caso, que seja então uma vocalização!” E, de fato, foi o que fizemos. A única coisa que restou do texto inicial da canção foi o título Estou muito feliz, pois finalmente estou voltando pra casa.

Segue abaixo um vídeo da canção num velho registro de show.



Mikhail, filho do compositor Arkadi Ostrovski, afirmou que a censura não proibiu a letra da canção (Rossiiskaia gazeta, 2010):

Só que a história com o Vokaliz contada pelo Ed Khil não é toda verdade: ninguém proibiu a letra, meu pai simplesmente compôs a melodia num tempo em que estava brigado com o poeta Lev Oshanin. Este lhe disse que o principal numa canção era a letra e que sem o poeta, o compositor não era nada. E então meu pai lhe disse no calor da briga: “Então não preciso da tua letra pra nada, eu me viro”. Não sei pra quê Khil contou de outro jeito. Ou sua memória o traiu, ou a lenda assim o exige”.

Mais um trecho da entrevista de Mikhail Ostrovski:

O Vokaliz foi composto durante uma discussão com Lev Oshanin. Trabalhando, eles frequentemente brigavam, faziam as pazes e brigavam de novo. E eis que um belo dia, do fundo do peito, meu pai berrou: “E eu não preciso da tua letra pra canção, vou compor uma canção sem letra”. E assim nasceu o Vokaliz.

Decida você mesmo qual das duas versões da história da composição parece ser a mais verossímil.

A gravação e o lançamento do Vokaliz O compositor não pensou muito até escolher um intérprete. Conta Mikhail Ostrovski (Rossiiskaia gazeta):

Mais do que tudo, a melodia animada combinava com Eduard Khil. Então ele a entregou a Khil. Inspirados, eles a ensaiaram longamente em casa. E quando foram gravar a canção com arranjos, nosso notabilíssimo maestro Iuri Silantiev, como contou o próprio Khil, se indignou: “Como que isso não tem letra???” Chamaram o poeta V. Semernin, com quem meu pai antes disso tinha composto Aist (A cegonha).

Eduard Khil frequentemente interpretava o Vokaliz em shows e não raro o cantava em turnês internacionais. Vamos ler as recordações do artista (Rossiiskaia gazeta, 2010):

Todas as canções de Ostrovski resultavam alegres… O Vokaliz contém em si o mesmo humor. Depois que o interpretei pela primeira vez na década de 1960, ele começou a se popularizar com bastante rapidez. Mesmo 40 anos atrás, invariavelmente o público reagia bem a essa canção na Rússia, na Suécia, na Alemanha... Por exemplo, me lembro que quando chegamos pra uma turnê na Holanda, eu entrei no palco e brinquei, falando à plateia: “Agora vou cantar pra vocês esta canção em holandês sem sotaque”, e comecei: “Lá, lá, lá...”.

Eduard Khil contou sobre o Vokaliz em apresentações no exterior (Life.ru):

Graças à ausência de letra na canção, podia interpretá-la em todas as línguas. Chegando à Alemanha, disse ao público que cantaria uma canção em alemão. As pessoas pensavam que seria realmente isso. Esperavam a hora de terminar esses inacabáveis “lá, lá, lá” na primeira estrofe, depois na segunda, e na terceira estrofe começavam a rir. Na Holanda eu dizia que ia cantar uma canção em holandês e assim por diante. E por coincidência, esse mesmo clipe que caiu na internet foi filmado na Suécia. E esse mesmo terno com o qual interpreto o hit eu comprei na Suécia.


O clipe Estou muito feliz, pois finalmente estou voltando pra casa Fãs reuniram num único vídeo musical as famosas gravações do Vokaliz a partir de diversos shows de Eduard Khil. Assista ao clipe:


A história do “Trololó” – Por volta do fim de 2009, um clipe com o Vokaliz foi publicado na internet. Em literalmente poucos meses, o vídeo filmado pro especial de TV Canções de Arkadi Ostrovski. Canta Eduard Khil (1976) alcançou alguns milhões de visualizações.

Os internautas estrangeiros se apaixonaram pelo artista russo, que foi apelidado no Ocidente desenvolvido de “Mr. Trololo”. Eduard Khil ficou sabendo da popularidade inesperada graças ao neto:

Ele se aproximou da escola de começou a cantarolar: “Lalá, lalá, lalá! Urra-rá-rá”. Me lembro que então ainda estava espantado sobre por que foi que de repente ele se lembrou dessa canção. E ele correu até mim e disse: “Vovô, sua música se tornou um hit de novo! Eu vi na internet”. Disse que estavam até vendendo online camisetas e bótons com meus retratos.

Reconheço que no começo fiquei confuso, mas depois liguei o computador e vi que era realmente isso. Por toda parte, vídeos feitos com essa canção: estudantes, donas de casa e empregados de escritório me imitavam e lançavam os vídeos na rede mundial.

Khil afirma que as paródias filmadas pelos fãs não o ofendem nem um pouquinho. Ele também contou de qual clipe mais gostou (Rossiiskaia gazeta, 2010):

É claro que foi do vídeo do ator Christoph Waltz! Não é todo dia que você vê um ganhador do Oscar te imitando. Ele encarnou bem o papel: parodiou não somente meu jeito de interpretar a canção, mas também tentou recriar a decoração do clipe.

Vamos assistir à paródia musical de Vokaliz, nomeada Der Humpink e gravada por Christoph Waltz:



Covers de Estou muito feliz... A obra também foi interpretada por outros artistas. Eis Muslim Magomaiev cantando o Vokaliz:


O Vokaliz na versão de Valeri Obodzinski:


E agora o Vokaliz de János Koós, que cantou com uma letra em húngaro [veja minha tradução em português]:


Curiosidades:

  • Iegor Letov utilizou o Vokaliz na faixa Liotchik Li (O piloto Li) do álbum Rodina slyshit (A pátria escuta) da banda Kommunizm.
  • O Vokaliz na versão de Obodzinski é tocado na animação Ia vstretil vas (Encontrei vocês) e no longa-metragem Dom (A casa).
  • O Vokaliz de Khil foi tocado em muitos programas populares da TV americana, na série 12 Monkeys, no filme Pacific Rim: Uprising e na dublagem russa do filme Cell.

Citações sobre a canção:

Já faz uns 40 anos que tenho amizade com o Ed. Meu pai o estimava muito. E se ele ainda estivesse vivo, teria ficado doido de felicidade com o sucesso mundial do Vokaliz. Pra ele, o principal prêmio sempre era não o dinheiro, mas a popularidade de suas canções. Vocês precisavam ver o que se passava com ele quando encontrava na rua um grupo de amigos entoando alto um hit seu. (Mikhail Ostrovski, Rossiiskaia gazeta, 2010)
Fico feliz que o humor contido no Vokaliz não se apagou, mas vive até hoje. (Eduard Khil, Rossiiskaia gazeta, 2010)
Tudo isso é muito bom. Agora posso me apresentar usando não o nome Eduard Khil, mas o pseudônimo “Trololoman”. Pelo menos, estou considerando essa hipótese. (Eduard Khil, RIA Novosti)


quinta-feira, 2 de março de 2023

O universo comunista em vídeos (2)


Endereço curto: fishuk.cc/video-comuna2

Lancei esta publicação em abril de 2019 como um primeiro repositório de vídeos variados ou engraçados sobre o mundo comunista antigo e moderno, mas ainda com imagens incorporadas a partir de meu antigo canal no YouTube. Como o Google resolveu apagá-lo em agosto de 2021, comecei aos poucos a redirecionar os arquivos do Drive do próprio Google. Estou relançando bem aos poucos (porque realmente é muita coisa!) na página tudo o que tinha lá, com ou sem as descrições originais, apenas pra fins culturais e memoriais, sem pretensões de viralizar. Na publicação de hoje, seguem alguns vídeos de teor histórico, e não humorístico, relacionados à história do bolchevismo e dos países concernidos ao longo do século 20. Bom proveito!



Este canal publicou a principal cena do filme Outubro, filmado e dirigido na URSS em 1927 pelo célebre Sergei Eisenstein, em que aparece a tomada do Palácio de Inverno pela população e por tropas comandadas pelos bolcheviques. Existe uma lenda segundo a qual teriam morrido mais pessoas nessa filmagem do que nos próprios acontecimentos reais, dos quais infelizmente não há registros midiáticos, rs.

Costuma-se dizer que no início do século 20 a Rússia teve três revoluções: a de 1905, que arrancou algumas migalhas democráticas da autocracia retrógrada do tsar Nicolau 2.º; a de fevereiro (março) de 1917, que derrubou a monarquia e instaurou uma república comandada por frágil coalizão; e a de outubro (novembro) de 1917, que foi comandada por Vladimir Ilich Ulianov (dito Lenin) e seus companheiros, afastando o governo provisório com o apoio da maioria do povo. Por vários acasos da revolução, os bolcheviques acabaram impondo um Estado autoritário a partir de 1918, mas aí já é outra história.

O Palácio de Inverno em Petrogrado (depois Leningrado, hoje São Petersburgo), antiga residência imperial e de onde o governo provisório republicano despachava, foi facilmente tomado pela turba na madrugada de 6 pra 7 de novembro (segundo nosso calendário) de 1917, de tão impotente e ignorado que estava o comando de Aleksandr Kerenski, desacreditado pela fome e pelas derrotas na 1.ª Guerra Mundial.

No primeiro trecho, temos a própria cena da tomada bélica do palácio, e no segundo, que encerra o filme, Lenin faz a proclamação do “poder dos sovietes” e anuncia enfim a vitória de seu golpe e de seu partido, em frente ao famoso letreiro escrito na ortografia russa pré-1918: “Todo o poder aos sovietes!”. Veja também os papéis que aparecem no final, onde estão contidos o “Decreto sobre a paz” e o “Decreto sobre a guerra”.




Este vídeo bem curto mostra o momento da chegada das tropas soviéticas em frente ao Reichstag, o parlamento alemão, em Berlim, no dia 9 de maio de 1945, encerrando assim a Segunda Guerra Mundial (ao menos na Europa) iniciada em 1939.

Iosif Stalin, o ditador soviético que também exercia no momento o comando-em-chefe das Forças Armadas, tinha ordenado ao Exército Vermelho hastear a Bandeira da Vitória sobre o Reichstag, como símbolo do triunfo definitivo sobre o poderio alemão. Como visto, seus soldados cumpriram a ordem. Este vídeo, que foi minha fonte, provavelmente deve ser parte de um documentário maior, que não descobri qual é, eu apenas baixei e legendei. O locutor diz as seguintes frases em russo:

“У всех сейчас только одна мысль, одно стремление - водрузить Знамя Победы над Рейхстагом!... Водрузить Знамя Победы над Рейхстагом!... Водрузить Знамя Победы над Рейхстагом!... Знамя Победы над Рейхстагом водружено! Приказ товарища Сталина выполнен!”


Estes são trechos da grande parada militar comemorando os 40 anos da libertação da Iugoslávia contra o jugo nazista e fascista, ocorrida em 9 de maio de 1985, quando o país ainda era uma república federal socialista. Fundada em 1943 pelo líder da Resistência e militante comunista Josip Broz, mais conhecido como Marechal Tito, estava comemorando o aniversário sem o antigo ditador, falecido em 1980. É uma das demonstrações mais famosas do JNA, o Exército Popular Iugoslavo, que nos tempos da “guerra fria” chegou a ser o quarto maior do mundo.

Embora os modelos comunistas do antigo Leste europeu tenham se inspirado basicamente na URSS, muitos deles tinham particularidades nacionais marcantes, como o iugoslavo, em que havia alguma liberdade de mercado, Tito era um líder carismático e a memória da Libertação antifascista moldou a cultura socialista local, sobretudo na Eslovênia. Em 1974, foi estabelecida uma “presidência coletiva” na Iugoslávia, mas como o próprio Tito foi escolhido pra presidir esse órgão, ele passou a ser considerado “presidente vitalício”, enquanto à chefia dessa presidência coletiva, que passava a ser rotativa entre as várias unidades da Iugoslávia, competia o cargo de vice-presidente geral. Quando Tito morreu, quem ocupava o cargo era o presidente da Macedônia (hoje a Macedônia do Norte independente), Lazar Koliševski, então ele passou a exercer a liderança dessa presidência coletiva, dando origem a essa bizarra instituição da “presidência da presidência” cujo ocupante era trocado anualmente.

Nos 40 anos da Libertação, quem “presidia a presidência” da Iugoslávia era o montenegrino Veselin Đuranović, e em 15 de maio seria escolhido Radovan Vlajković, da Voivodina. No primeiro trecho toca-se uma marcha militar que foi colocada por cima da imagem do vídeo e que, segundo a fonte em que apurei, foi composta por Stanislav Binički. No segundo trecho (hoje apagado do YouTube), além do Hino Nacional da Iugoslávia (Hej, Slaveni) no início do vídeo e das evidentes marchas militares, podem-se ouvir também canções no estilo dito “koračnica”, ou seja, em ritmo de marcha ou bater dos pés (korak = passo, marcha), como Po šumama i gorama e, no finzinho, Moj je otac bio partizan.




Eu achei este vídeo por acaso, num canal húngaro, e apenas cortei o quadro e tirei uma parte apenas com imagens e uma música protegida por direitos autorais. Trata-se de propagandas e produtos antigos, transmitidos na TV e vendidos na Hungria durante as décadas de 1970 e 1980, as finais sob o regime comunista comandado por János Kádár, chefe do partido único. Infelizmente, por falta de tempo e conhecimento, não fiz a tradução das falas. Mas pra quem tem um bom faro visual e artístico, já será um belo material de divertimento e aprendizado histórico!

Após as revoltas de 1956, em que a população húngara conseguiu depor o ditador stalinista Mátyás Rákosi e depois resistiu à invasão de tanques soviéticos pra tirar o reformista Imre Nagy do governo, chegou-se a uma solução de compromisso. A Hungria não sairia do Pacto de Varsóvia e os políticos rebelados seriam executados, mas lhe seria permitido adotar uma forma mais branda do comunismo, com mais abertura de mercado e atenção maior aos bens de consumo. Apesar da crise do endividamento externo na década de 1980, a chamada “Era Kádár” foi considerada por muitos uma era de ouro do comunismo húngaro, e até hoje é lembrada com nostalgia pelos cidadãos comuns.

Esquerdistas brasileiros desonestos pegam esses relatos positivos como uma pintura do comunismo europeu como um todo, mas a situação era bem diferente nos vários países do bloco, tanto pela economia quanto pela cultura ou dependência diante de Moscou. É claro que a Hungria sofreu fortemente no início da implantação do capitalismo, e que hoje muitos consideram o extremista Viktor Orbán como até pior do que os comunistas. Mas lembremos que esse “comunismo gulache”, mais brando, apesar da repressão política, foi uma conquista popular arrancada de maneira rara da URSS, cujo regime nunca foi muito bem aceito num país que nem é de cultura eslava.


Poucos devem saber, mas o célebre meme do “Mr. Trololó”, que viralizou com o falecido cantor soviético Eduard Khil em 2010 fazendo uma vocalização sem letra, foi retirado de uma transmissão completa relembrando diversas outras composições de Arkádi Ilích Ostróvski (1914-1967). O compositor russo de origem judaica escreveu em 1966 a canção “Я очень рад, ведь я, наконец, возвращаюсь домой” (Estou feliz porque finalmente estou voltando pra casa), que falava de um caubói nos EUA. Mas por diversas razões decidiu-se gravá-la sem a letra, apenas com a “vocalização” da melodia, o que foi feito por Khil, Valeri Obodzinski, Muslim Magomaiev e outros cantores. Caubói, EUA, “guerra fria”... censura não muito diferente da atualidade!

Em 1976, em memória de Ostrovski, Khil gravou o referido especial, que recomendo ver de ponta a ponta! Nos anos 2000, o especial foi retransmitido pelo canal retrô russo “Vrémia”, no programa Nas ondas de minha memória, e no fim de 2009 alguém colocou a vocalização de Khil no YouTube. Nascia assim o meme do “Mr. Trololó”, que ganhou a simpatia do Ocidente, e agora você pode ver um raro registro dele falando em tom normal nessa época!

Khil está introduzindo a coletânea especial, e eu mesmo transcrevi e traduzi o texto e legendei o trecho que tirei daquele vídeo maior. Versão russa:

“Сегодня я вам хочу напомнить некоторые песни Аркадия Ильича Островского. Это песни, которые были написаны в середине 60-х [шестидесятых] годов. Песни, которые прошли испытание временем. Эти песни очень добрые, очень светлые, я бы сказал, «солнечные» песни, и они надолго останутся в нашей памяти и в нашем сердце.”

(Hoje quero lhes recordar algumas canções de Arkadi Ilich Ostrovski. São canções que foram compostas em meados dos anos 60. Canções que resistiram à prova do tempo. Essas canções são muito boas, muito luminosas, canções “ensolaradas”, eu diria, e por muito tempo elas vão ficar em nossa memória e em nosso coração.)


sábado, 5 de fevereiro de 2022

Trololó e as crianças – “Пять колец”

Este é o célebre cantor soviético Eduard Khil, mais conhecido no Ocidente como “Mr. Trololó”, que gravou a canção e o clipe com o Grande Coral Infantil soviético, “Пять колец” (Piat kolets), Cinco anéis, em alusão ao símbolo dos Jogos Olímpicos. Como neste ano de 2022 também estão ocorrendo os Jogos Olímpicos de Inverno em Pequim, capital da China, fica aqui também uma lembrança e homenagem!

A canção foi composta por Mikhail Iosifovich Riabinin (1931-1995), que também participou da criação de outros sucessos de Khil. O clipe é de 1981, fazendo alusão às Olimpíadas de Moscou, que tinham acontecido em 1980, evento que representou grande abertura da URSS pro resto do mundo. O evento foi algo tão inédito pra eles, que nunca mais lhes saiu da memória, como o mascote Misha, o ursinho que aparece no cartaz. Houve até a chamada “geração da Olimpíada”, que nasceu de relacionamentos entre atletas soviéticos e esportistas de outros países!

Já Eduard Anatolievich Khil (1935-2012) é um show à parte. Com sua simpatia e performance humorística, ele se tornou um célebre cantor da era soviética, mas ficou conhecido no resto do mundo por um vídeo seu, gravado na década de 1970 e que caiu na rede em 2010, vocalizando uma canção sem letras. Parecendo que a única letra era “Trololó, lololó”, ele ficou conhecido como “Mr. Trololó” e deu origem a montagens e outros memes. Pra quem era criança na época e não lembra ou não usava YouTube, aqui está um “meme raiz” (que na época chamava “viral”).

Eu mesmo traduzi direto do russo e fiz as legendas em duas línguas: assista ao vídeo duas vezes, lendo um texto após o outro! Seguem o clipe legendado, o original russo e a tradução:


Пять колец, пять колец,
Пять колец пяти цветов
Это пять, это пять
Это пять материков
И опять, и опять
На спортивный честный бой
Сыновей, дочерей
Посылает шар земной
Сыновей, дочерей
Посылает шар земной

На спортивных куртках, шлемах
Олимпийская эмблема
На эмблеме как венец,
На эмблеме как венец
Олимпийских пять колец

Пять колец, пять колец,
Пять колец пяти цветов
Это пять, это пять
Это пять материков
И опять, и опять
На спортивный честный бой
Сыновей, дочерей
Посылает шар земной
(Весь шар земной)
Сыновей, дочерей
Посылает шар земной

Как прекрасно быть спортсменом
Сильным, ловким и умелым
Снится каждому, что он
Снится каждому, что он
Олимпийский чемпион

Пять колец, пять колец...

Пять колец пяти цветов!

Это пять материков!

И опять, и опять
На спортивный честный бой
Сыновей, дочерей
Посылает шар земной
(Весь шар земной)
Сыновей, дочерей
Посылает шар земной

____________________


Cinco anéis, cinco anéis,
Cinco anéis de cinco cores,
São os cinco, são os cinco,
São os cinco continentes
E de novo, e de novo
À gloriosa luta esportiva
O globo terrestre envia
Seus filhos e filhas
O globo terrestre envia

Nas jaquetas e capacetes esportivos
Está o emblema olímpico
E no emblema, coroando,
E no emblema, coroando
Os cinco anéis olímpicos

Cinco anéis, cinco anéis,
Cinco anéis de cinco cores
São cinco continentes
E de novo, e de novo
À gloriosa luta esportiva
O globo terrestre envia
Seus filhos e filhas
(Todo o globo terrestre)
O globo terrestre envia
Seus filhos e filhas

Que maravilha é ser um atleta
Forte, ágil e corajoso
Todos sonham com que ele
Todos sonham com que ele
Seja um campeão olímpico

Cinco anéis, cinco anéis...

Cinco anéis de cinco cores!

São cinco continentes!

E de novo, e de novo
À gloriosa luta esportiva
O globo terrestre envia
Seus filhos e filhas
Todo o globo terrestre
O globo terrestre envia
Seus filhos e filhas


sábado, 5 de maio de 2018

“Нам нужна одна победа”: URSS 1970


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/odnapobeda

Esta canção foi criada pelo poeta e compositor russo-soviético Bulat Okudzhava em 1970 e incluída na trilha sonora do filme soviético Estação belarussa, dirigido por Andrei Smirnov no mesmo ano. Ela se chama “Нам нужна одна победа” (Nam nuzhna odna pobeda), Precisamos de uma vitória, e fala dos piores combates ocorridos na União Soviética contra os nazistas na 2.ª Guerra Mundial, tendo duas gravações interessantes que apresento abaixo. A primeira possui o barítono inconfundível de Eduard Khil em 1977, mesma data do vídeo, um dos raros clipes fora do estilo mais brincalhão, agora bem sério ao falar de combates. A segunda foi cantada em 2010 pela banda russo-cazaque A’Studio, nas comemorações do Dia da Vitória (7 de maio). Esse grupo de música pop (site oficial) surgiu em 1987, ainda na era soviética, tendo passado por várias formações e contando desde 2005 com a georgiana Ketevan (Keti) Topuria como vocalista.

Nesta página está o vídeo com Eduard Khil, e nesta outra está o da banda A’Studio, ambos sem legendas. Eu mesmo traduzi direto do russo, a partir do texto que copiei desta página, e legendei. Seguem abaixo as legendagens, a letra em russo e a tradução em português:




1. Здесь птицы не поют,
Деревья не растут,
И только мы, к плечу плечо
Врастаем в землю тут.

Горит и кружится планета,
Над нашей Родиною дым,
И значит, нам нужна одна победа,
Одна на всех – мы за ценой не постоим.
Одна на всех – мы за ценой не постоим.

Припев:
Нас ждет огонь смертельный,
И все ж бессилен он.
Сомненья прочь, уходит в ночь отдельный,
Десятый наш десантный батальон.
Десятый наш десантный батальон.

2. Лишь только бой угас,
Звучит другой приказ,
И почтальон сойдет с ума,
Разыскивая нас.

Взлетает красная ракета,
Бьет пулемет неутомим,
И значит нам нужна одна победа,
Одна на всех – мы за ценой не постоим.
Одна на всех – мы за ценой не постоим.

(Припев)

3. От Курска и Орла
Война нас довела
До самых вражеских ворот.
Такие, брат, дела.

Когда-нибудь мы вспомним это,
И не поверится самим.
А нынче нам нужна одна победа,
Одна на всех – мы за ценой не постоим.
Одна на всех – мы за ценой не постоим.

(Припев)

____________________


1. Aqui não cantam pássaros,
As árvores não crescem,
Apenas nós, braço a braço,
Penetramos nesta terra.

O planeta gira ardente,
Fumaça sobre nossa Pátria,
Então precisamos de uma vitória,
Uma a todos nós, por qualquer preço!
Uma a todos nós, por qualquer preço!

Refrão:
O fogo mortal nos espera,
Porém ele é impotente.
Sem hesitar, entra na noite nosso 10.º
Batalhão especial de desembarque.
Batalhão especial de desembarque.

2. O combate mal terminou
E já ressoa outra ordem,
E o carteiro fica maluco
Tentando nos encontrar.

O míssil vermelho decola,
A metralhadora não para,
Então precisamos de uma vitória,
Uma a todos nós, por qualquer preço!
Uma a todos nós, por qualquer preço!

(Refrão)

3. De Kursk e de Oriol
A guerra nos impeliu
Bem às portas do inimigo.
Mano, assim são as coisas.

Um dia nos lembraremos
Sem crer em nós mesmos.
Mas agora precisamos é da vitória,
Uma a todos nós, por qualquer preço!
Uma a todos nós, por qualquer preço!

(Refrão)



domingo, 10 de dezembro de 2017

Eduard Khil – Лесорубы (Lenhadores)


Endereço curto: fishuk.cc/lesoruby


No último dia 4 de setembro, comemorando os 83 anos do nascimento do grande Mr. Trololo, os quais até o Google lembrou, enviei no meu antigo canal do YouTub) este presente pros fanáticos pela cultura soviética. Na verdade, já tinham me pedido essa música há muitos anos, e eu só estava esperando ter tempo pra legendá-la. É a canção “Лесорубы” (Lesoruby), Os lenhadores, cantada pelo grande barítono Eduard Khil. A melodia é do compositor Arkadi Ostrovski, e a letra é do poeta Mikhail Tanich. O texto fala sobre a vida dos lenhadores, profissão aparentemente banal num país como o Brasil, onde a madeira não é parte essencial de sua formação social. No hemisfério norte, dada a escassez de inúmeros outros recursos naturais e o clima frio, a construção de casas de madeira, além de outras utilidades, é parte essencial de suas culturas.

Talvez os adolescentes de hoje não o conheçam, mas Eduard Anatolievich Khil (1934-2012) foi um célebre cantor soviético, intérprete de muitas canções populares e românticas. Sua marcante voz de barítono o destaca dentro de um grupo seleto de cantores da antiga URSS, amplamente condecorados e favorecidos por um ambiente que promovia a alta cultura e a arte de qualidade. Contudo, no resto do mundo (que quase não conhecia o outro lado da “cortina de ferro”), e até na Rússia atual, poucos conheciam Khil, popularizado apenas quando viralizou no YouTube em 2010 um clipe seu dos anos 70, em que fazia uma espécie de exercícios vocálicos. A canção, na verdade, teve censurada a letra sobre um caubói americano que vivia com sua amada, e ficaram só os “trololós” que deram o apelido ao cantor. Esse fenômeno lhe rendeu uma súbita fama a posteriori, a qual ele infelizmente pôde aproveitar pouco.

Reparem que o cenário deste clipe é exatamente o mesmo em que ele gravou o célebre vídeo do “trololó”: deve ter sido feito na mesma leva, quem sabe até no mesmo dia. Eu baixei o vídeo sem legendas, postado há muitos anos já, deste canal pessoal, e tirei a letra em russo deste site, onde também há muitas outras canções. Eu mesmo traduzi, legendei e mudei o enquadramento do vídeo, e seguem abaixo a legendagem, a letra em russo e a tradução em português:


1. Лесорубы – ничего нас не берёт:
Ни пожары, ни морозы!
Поселился наш обветренный народ
Между ёлкой и берёзой.
Эге-гей!

Припев:
Привыкли руки к топорам,
Только сердце непослушно докторам,
Если иволга поёт по вечерам,
Если иволга поёт по вечерам.

2. Лесорубы – сорок семь холостяков,
Валим кедры в три обхвата.
Нам влюбиться – просто пара пустяков,
Да не едут к нам девчата...
Эге-гей, эге-гей!

(Припев)

3. Лесорубы, наша родина тайга,
Дед Морозу мы соседи.
Нас боятся и февральская пурга,
И лохматые медведи!
Эге-гей!

(Припев)

4. Лесорубы, на делянке у костров
Мы умеем веселиться!
И на стройках эхо наших топоров
Слышны в сёлах и столицах!
Эге-гей!

(Припев)

____________________


1. Nós, lenhadores, não tombamos,
Nem com incêndios ou nevascas!
Nosso povo moldado pelo vento
Fixou-se entre o abeto e a bétula.
Tro-lo-lóóó! [Ehe-hei!]

Refrão:
Mãos se adequaram a machados,
Só o coração ignora os médicos
Se o papa-figos canta toda noite,
Se o papa-figos canta toda noite.

2. Somos 47 lenhadores solteiros,
Tolhemos cedros em 3 braçadas.
Não gostamos de nos apaixonar,
Por isso a mulherada nos foge...
Tro-lo-lóóó! [Ehe-hei! Ehe-hei!]

(Refrão)

3. Nosso país de lenhador é a taiga,
O Papai Noel é o nosso vizinho.
Assustamos até os ursos peludos
E a nevasca de fevereiro!
Tro-lo-lóóó! [Ehe-hei!]

(Refrão)

4. Sabemos fruir como lenhadores
Das fogueiras no meio da terra!
Nosso machado das obras ecoa
Até ouvirem em vilas e capitais!
Tro-lo-lóóó! [Ehe-hei!]

(Refrão)


quarta-feira, 22 de março de 2017

Последняя электричка (Último trem)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/elektrichka


Há muito eu procurava esta canção na voz de Eduard Khil, o “Mr. Trololo”, mas não consegui achar no YouTube. Na busca, me deparei com um simpático moço russo tocando essa música, manuseando o acordeão como um velho mestre. Ele se chama Ievgeni Popov, e tem um canal exclusivo com apresentações públicas e caseiras, fazendo sob encomenda diversos tipos de shows em quaisquer ocasiões. A canção se chama “Последняя электричка” (Posledniaia elektrichka), O último trem elétrico, e fazendo referência aos trens urbanos tão usados por trabalhadores nas grandes cidades, foi composta em 1961 com letra de Mikhail Nozhkin e melodia de David Tukhmanov. Logo depois de tê-lo legendado, eu achei na internet um áudio com a gravação de Khil, e então fiz a montagem que também segue abaixo.

É familiar a vocês a relação entre trens noturnos e encontros amorosos? Pois então vocês conhecem o famoso samba brasileiro Trem das onze! Coincidentemente, o período em que o personagem russo deve partir gira em torno desse horário também, quando sai o “último trem” pro retorno à casa. Única diferença: ao que se sabe, o brasileiro não perdeu o trem, agora o russo perde todo dia! Elektrichka em russo indica o “trem elétrico”, ou seja, não os movidos a combustão, e que por isso são usados nas zonas urbanas, tipo CPTM em São Paulo. Na música, não se trata de metrô, pois não é subterrâneo. Pode-se se dizer em russo também “электропоезд” (elektropoiezd), literalmente “trem elétrico”, e ele é um tema recorrente da cultura, literatura e cantoria na Rússia. O escritor Iuri Piliar (1924-1987) também escreveu um romance de nome Posledniaia elektrichka, e a canção do vídeo também é tocada na comédia infantil (animação) soviética Vnimanie, cherepakha! (1970).

Notem ainda que, entre uma estrofe e outra, e no começo e no fim da música, o andamento animado, a onomatopeia e a altura reforçada executados (no caso do Popov) ou a melodia e o back vocal (no caso do Khil) lembram o barulho de um trem partindo, assim como a voz bradando no vazio, ao final da gravação do Khil, alude ao homem que lamenta a perda do trem.

Os autores da música ainda vivem. David Fiodorovich Tukhmanov (n. 1940) é um compositor e músico com formação clássica que foi premiado várias vezes e tem o título de Artista Popular da Federação Russa (2000). Entre suas incontáveis composições, que passam pelos gêneros art rock, pop e ópera, seu primeiro hit popular foi Posledniaia elektrichka, composto em 1961, quando ele ainda estava na faculdade, mas gravado apenas em 1966 pelo cantor Vladimir Makarov, a partir daí “bombando nas paradas”, como dizíamos. Mikhail Ivanovich Nozhkin (n. 1937), além de poeta e músico, também é ator de cinema e teatro, tendo recebido o título de Artista Popular da RSFS da Rússia em 1980. Muito condecorado, atuou em vários filmes, criticou várias vezes a perestroika e hoje apoia o KPRF (PC da Rússia).

Os russos talvez conheçam mais a gravação de Eduard Khil, que dizem ser em ritmo de twist (embora dum jeito bem soviético), mas o vídeo do jovem acordeonista Ievgeni Popov também ficou muito bom. Parece coincidência, mas ele se diz baianist, pois a “harmônica”, ou “acordeão de botões” (também “sanfona” ou “gaita” no Brasil), que ele está tocando se diz baian em russo, mas nada tem a ver com o ritmo “baião”, que vem do gentílico “baiano”, nome de uma dança antiga que inspirou o primeiro! Popov é um acordeonista profissional que dá shows na Rússia com ênfase na música folclórica e popular, podendo ser contratado em seu site pessoal, que não dá informações biográficas, mas fala sobre sua formação e prêmios. O vídeo original sem legendas está nesta página, e por razões de honestidade, visitem e se inscrevam no canal dele também!

Quanto a Eduard Anatolievich Khil (1934-2012), não preciso dizer muito, pois desde 2010, quando uma gravação sua de 1976 viralizou nas redes sociais, seu nome se tornou mais ou menos conhecido nos meios cults ocidentais e muita coisa pode ser achada sobre ele em várias línguas. A maior vantagem foi que descobrimos um grande cantor do passado, com uma linda voz e vastíssimo repertório, cujos similares russos e de países vizinhos raramente chegam até nós, tão bloqueados pela névoa pop e “enlatada”. Escutem, por exemplo, sua interpretação da celebérrima canção Dorogoi dlinnoiu, que na voz de Sergei Lazarev já postei aqui e é mais conhecida no Brasil por causa da abertura do antigo Show de Calouros. Pra quem sabe russo ou consegue se virar em sites estrangeiros, recomendo fortemente também o site oficial do barítono, fundado em 2004 e que, segundo consta, tem mais de 800 áudios, 30 vídeos e 100 fotos, afora os mais de 800 uploads relacionados a ele no YouTube.

Eu mesmo traduzi a letra em russo e fiz as legendas, tendo também montado o vídeo, no caso do Khil, cujo áudio MP3 eu baixei deste site. Está nesta página a letra completa da música, que Popov toca e canta, e Khil omite apenas a terceira estrofe, mas o resto é tudo igual, sem alterações. Seguem abaixo os vídeos de Popov e de Khil, a letra em russo e a tradução:




Как всегда мы до ночи стояли с тобой
Как всегда было этого мало
Как всегда позвала тебя мама домой
Я метнулся к вокзалу
Опять от меня сбежала последняя электричка
И я по шпалам опять по шпалам
Иду домой по привычке

А вокруг тишина а вокруг ни души
Только рельсы усталые стонут
Только месяц за мною вдогонку бежит
Мой товарищ бессонный
Опять от меня сбежала последняя электричка
И я по шпалам опять по шпалам
Иду домой по привычке

Уж восток не спеша начинает гореть
Завтра рано вставать на работу
Только хочется петь, и бежать, и лететь
Только спать неохота
Опять от меня сбежала последняя электричка
И я по шпалам опять по шпалам
Иду домой по привычке

Ни унять ни понять мною радость мою
Так вот каждую ночь коротаю
Завтра снова с любимой до звезд простою
И опять опоздаю
Не жди ты меня пожалуй последняя электричка
Уж я по шпалам опять по шпалам
Пойду домой по привычке

____________________


Como sempre, fiquei até a noite com você
Como sempre, foi pouco tempo
Como sempre, sua mãe te chamou pra casa
E eu voei pra estação
De novo me escapou o último trem elétrico
E andando de novo pelos dormentes
Pra variar, eu vou pra casa

Silêncio ao redor, ninguém ao redor
Só os trilhos cansados gemendo
Somente a Lua corre ao meu encalço
Minha camarada insone
De novo me escapou o último trem elétrico
E andando de novo pelos dormentes
Pra variar, eu vou pra casa

Logo a aurora sem pressa começa a raiar
Amanhã cedo tenho que trabalhar
Minha vontade era de cantar, correr, voar
E não de ter que dormir
De novo me escapou o último trem elétrico
E andando de novo pelos dormentes
Pra variar, eu vou pra casa

Não posso conter ou entender minha alegria
É assim que passo todas as noites
Amanhã de novo com a amada até anoitecer
E me atraso de novo
Não precisa me esperar, último trem elétrico
Pois andando de novo pelos dormentes
Pra variar, eu vou pra casa



quarta-feira, 13 de julho de 2016

Eduard Khil – Такое чудо (Tal tesouro)

Quando postei esta legendagem no meu antigo canal do YouTube, em 2013, certamente foi o primeiro videoclipe de Eduard Khil, o famoso e memético “Mr. Trololo”, traduzido para o português. Celebrizado na internet em 2010 quando foi postada no site de vídeos uma antiga atuação sua dos anos 1960 realizando exercícios vocais com a melodia de uma antiga canção norte-americana, deve ter sido o primeiro “meme” viralizado não mais por e-mails, mas pelas redes sociais, e “meme” no sentido de “material que viralizava” (termo usado só com o advento das redes sociais), e não de imagem humorística padrão que se presta a inúmeras mensagens.

Talvez muitos adolescentes de hoje não conheçam, mas o pessoal da minha idade (28 anos) ou um pouco mais novo se lembra como ele passou a ser conhecido por “Silvio Santos soviético”, por causa da voz grave, do penteado, do terno e do jeito de “dançar”... Realizem, em 2010 (o canal Pan-Eslavo Brasil era de 20 de novembro desse ano) quase ninguém tinha YouTube, e os canais de Felipe Neto e Kéfera Buchmann ainda eram rascunho de filmografia caseira!

Não estou postando aqui o vídeo que viralizou, mas uma verdadeira canção interpretada por Khil, que mesmo assim não se desvia do peculiar estilo que fez sua fama na rede. Ela se chama “Такое чудо” (Takoie chudo), que traduzi como Tal tesouro, mas de fato a palavra chudo pode ter várias traduções, como “milagre” (muito comum em russo) ou “maravilha”, mas julguei que “tesouro” ficaria bom em todos os pontos do texto em que aparece. A melodia é de Vladimir Dmitriev e a letra é de Mikhail Riabinin, dois compositores muito produtivos, talentosos e famosos na antiga URSS.

Longe da caricatura que ficou consolidada no Ocidente, Eduard Khil, condecorado Artista Popular da RSFS da Rússia em 1974, foi realmente um cantor muito célebre e formidável em seu país, tendo gravado inúmeros sucessos que ficariam na memória do povo. Viveu uma infância difícil por causa da guerra e desde jovem, crescendo num meio artístico, teve formação musical acadêmica e logo ganhou os palcos, mantendo a popularidade na Rússia mesmo depois de 1991. Sua visibilidade se tornou realmente mundial em 2010, com o vídeo-meme que citei acima, mas infelizmente Khil logo nos deixou em 2012.

Eu baixei o vídeo sem legendas deste canal, que não por acaso tem o nome “Trololoman”. Seguem abaixo o vídeo que legendei para o meu canal, e depois a letra em russo e a tradução:


1. Откуда ты пришло такое чудо
По имени любовь, по имени любовь?
Откуда к нам пришёл, скажи откуда
Тот день, когда мы встретились с тобой

Припев:
Я до сих пор не верю, не верю, не верю
Что выпала счастливая звезда
Что ты в мой дом сейчас откроешь двери
И ключ себе оставишь навсегда

2. Быть может у судьбы свои причуды
Кому-то повезёт, кому-то не везёт
И если, кто ещё не встретил чуда
Его на крыльях время принесёт

(Припев)

3. И вот над нами небо голубое
И дождь уже прошёл, и снег уже прошёл
Но что бы ни случилось мы с тобою
Отныне наше чудо сбережём

(Припев)

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1. De onde você veio, tal tesouro
Chamado amor, chamado amor?
De onde veio até nós, diga, de onde
Esse dia em que encontrei você?

Refrão:
Até agora não acredito, não acredito, não acredito
Que a minha estrela brilhou
Que você vai destrancar as portas da minha casa
Entrar e guardar a chave consigo para sempre

2. Talvez o destino tenha seus próprios caprichos
Uns têm sorte, outros não têm
E quem ainda não encontrou esse tesouro
Vai recebê-lo pelas asas do tempo

(Refrão)

3. E eis o céu azul sobre nós
E a chuva já passou, e a neve já passou
Mas o que quer que aconteça, você e eu
A partir de agora preservaremos nosso tesouro

(Refrão)