No último dia 21 de abril, os jornalistas Anton Troianovski (baseado em Washington, D.C.) e Andrew E. Kramer (baseado em Kyiv) publicaram no New York Times uma reportagem intitulada “‘Donnyland’? Ucrânia propõe renomear parte do Donbás em homenagem a Trump”. A publicação original só está disponível pra assinantes, mas usei um dos burladores disponíveis e salvei em formato PDF pra então copiar o texto e traduzir. Usei o Google Tradutor e depois comparei com o original, corrigindo eventuais falhas (cada vez mais raras nessa tecnologia!) e imprimindo um estilo mais “brasileiro coloquial” e mais pessoal. Também mantive os links indicados ao longo do texto (matérias do próprio NYT), sobre as mesmas palavras do original.
A se confiar nas “pessoas familiarizadas com as negociações” citadas a cada instante, a proposta é bem engraçada, mas diz muito mais sobre a personalidade megalômana do Laranjão do que sobre os problemas enfrentados pelos ucranianos. Quem acompanha fontes minimamente confiáveis, por exemplo, sabe que a cidade caucasiana de Tuaps, na Rússia, está virando uma “nova Chornobyl” devido aos ataques às refinarias, exatamente 40 anos depois da tragédia nuclear. Ar e água contaminados, animais morrendo, lembra muito a explosão da barragem de Nova Kakhovka, não?... Mas não vou focar em atualidades, apenas aproveite a anedota:
A proposta reflete uma realidade global em que governos apelam à vaidade do presidente Trump a fim de dispor o poderio americano a seu favor.
Quando a Polônia buscou uma base militar dos EUA em 2018, apresentou a ideia como Forte Trump.
Quando a Armênia e o Azerbaijão assinaram uma garantia de paz na Casa Branca no ano passado, batizaram a rota de transporte então criada como Rota Trump para a Paz e Prosperidade Internacionais.
Mas o caso mais improvável do nome do presidente Trump sendo emprestado a um ponto crítico geopolítico pode ser um que permaneceu fora da vista do público até agora. Nas negociações de paz na Ucrânia nos últimos meses, autoridades ucranianas sugeriram que a porção da região do Donbás pela qual a Rússia ainda luta no país poderia ser chamada de “Donnyland”.
O apelido, uma referência a “Donbás” e “Donald”, foi descrito por quatro pessoas familiarizadas com as negociações, todas falando sobre o assunto sob condição de anonimato devido ao sigilo que as envolve.
Quando um negociador ucraniano mencionou o termo pela primeira vez, em parte jocosamente, foi como parte de uma tentativa de convencer o governo Trump a resistir mais às exigências territoriais da Rússia, de acordo com três das pessoas familiarizadas com as negociações. O presidente Vladimir Putin tem prometido continuar lutando até que as forças russas alcancem uma importante fronteira administrativa no limite do Donbás, a região industrial no leste da Ucrânia onde o Kremlin iniciou a guerra em 2014.
O fato de um nome que evoca a Disneylândia ter sido aplicado a uma faixa despovoada e devastada da região ucraniana produtora de carvão e aço pode parecer chocante, visto que os combates mais mortais na Europa desde a 2.ª Guerra Mundial continuam devastando o país. Mas também reflete uma realidade global na qual os governos apelam à vaidade de Trump a fim de dispor o poderio americano a seu favor.
Pra Ucrânia, o esforço ainda não deu frutos. O termo continua sendo usado nas negociações, embora não tenha sido escrito em nenhum documento oficial. Os negociadores também aventaram a possibilidade do Conselho da Paz de Trump desempenhar um papel na administração da área, embora nem a Rússia nem a Ucrânia tenham aderido até agora, de acordo com quatro pessoas familiarizadas com as negociações.
Mas a Rússia não concordou com um acordo que fosse aceitável pra Ucrânia. Isso fez com que o destino da área que os ucranianos propuseram chamar de Donnyland – com cerca de 80 km de comprimento e 65 km de largura – se tornasse um dos principais pontos de discórdia nas negociações.
As negociações com a Ucrânia prosseguiram nos bastidores nas últimas semanas, mesmo com os principais negociadores dos EUA – Steve Witkoff, amigo próximo e enviado especial de Trump, e Jared Kushner, genro do presidente – concentrados na guerra com o Irã. O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky disse este mês que esperava que Witkoff e Kushner visitassem a Ucrânia em breve. Mas uma pessoa familiarizada com as negociações disse que os americanos ainda aguardavam progresso suficiente pra justificar tal viagem e que pretendiam também fazer outra visita à Rússia.
“A Ucrânia está avançando. Gostaria que eles pudessem se entender”, disse Trump a repórteres na semana passada. “Vamos ver o que acontece. Há coisas acontecendo lá.”
É claro que na campanha presidencial, Trump prometeu acabar com a guerra na Ucrânia em 24 horas. Já faz mais de um ano que ele e seus principais negociadores tentam forjar um acordo de paz, dedicando horas a conversas com Putin e frustrando autoridades ucranianas com a aparência de que estavam agindo como mediadores em vez de defender a Ucrânia.
A “Donnyland” foi uma das maneiras pelas quais os ucranianos tentaram fazer Trump ficar mais do lado deles. Desde que Trump se encontrou com Putin no Alasca em agosto passado, o governo Trump até sinalizou que podia apoiar um acordo de paz no qual a Ucrânia se retirasse pra fronteira administrativa da região de Donetsk, uma das províncias do Donbás – medida que os críticos viram como uma concessão maior ao Kremlin.
Autoridades ucranianas afirmam que cerca de 190 mil pessoas vivem nesse território atualmente. Outras pessoas próximas às negociações dizem que o número real pode ser cerca de metade disso. A região fica tão perto da linha de frente que a principal rodovia de acesso está coberta por redes de proteção contra drones explosivos russos.
Pouco restou da economia local além de uma mina de carvão em operação e comércios que atendem os soldados baseados na área, incluindo lojas que vendem balões e flores pros soldados comprarem às esposas ou namoradas que os visitam.
A Ucrânia insiste que pode defender essa área e que não vai entregá-la. Mas em dezembro, Zelensky sinalizou estar aberto a um compromisso que formaria uma zona desmilitarizada ou uma zona econômica livre sem o controle total de nenhuma das partes beligerantes.
Os ucranianos consideraram, mas não endossaram, propostas pra um administrador neutro ou órgão governamental que teria representantes russos e ucranianos, contanto que a Rússia não pudesse reivindicar o território após a guerra.
O Kremlin afirmou que a Rússia poderia estar aberta à formação de uma zona desmilitarizada se a polícia russa ou soldados da guarda nacional tivessem permissão pra patrulhá-la – medida inaceitável pra Kyiv.
A Ucrânia queria que o governo Trump pressionasse Moscou pra suavizar ainda mais sua posição. Os negociadores ucranianos passaram a chamar a zona proposta de Donnyland, uma área que não seria totalmente controlada por nenhum dos lados e considerada uma conquista pra Trump.
Samuel Charap, cientista político do think tank RAND Corporation que acompanhou as negociações de perto, argumentou que tanto Moscou quanto Kyiv têm mostrado certa flexibilidade quanto ao futuro dessa parte do Donbás ainda controlada pela Ucrânia.
Pra Ucrânia, uma preocupação fundamental é o risco de ceder esse território junto com as fortificações aí construídas e, assim, acabar facilitando uma futura renovação da invasão russa. Charap disse que a Ucrânia parecia ver um benefício de segurança em ter o nome de Trump associado à área.
“Acho que provavelmente eles considerariam ter a chancela de Trump numa zona econômica livre como uma espécie de dissuasão”, disse Charap, referindo-se à Ucrânia.
Outra sugestão foi chamar o acordo pós-guerra de “modelo de Mônaco”, referência à cidade-Estado no Mediterrâneo francês. Assim como Donnyland, tratava-se de um possível mini-Estado semiautônomo que desfrutaria do estatuto de zona econômica offshore. A expressão “modelo de Mônaco” apareceu em rascunhos de tratados, enquanto Donnyland só surgiu em discussões, de acordo com uma pessoa com conhecimento direto das estratégias ucranianas de negociação.
Mas as negociações travaram no final de fevereiro devido à questão territorial, justamente quando a guerra com o Irã distraiu a equipe de negociação dos EUA. Sergei Lavrov, ministro das Relações Exteriores da Rússia, disse que o país aceitaria apenas o controle legal total do Donbás. E Zelensky minimizou as perspectivas de trocar território por paz, dizendo que fazê-lo seria um “grande erro”.
Desde então, Rússia e Ucrânia não cederam quanto ao controle do território, mesmo que as negociações sobre outras questões continuassem, incluindo os compromissos dos EUA em garantir a segurança da Ucrânia após a guerra, de acordo com pessoas familiarizadas com as negociações.
Um negociador ucraniano até criou pelo ChatGPT uma bandeira pra Donnyland – nas cores verde e dourado – e um hino nacional, disse a pessoa que conhece as estratégias ucranianas de negociação. Não está claro se o lado americano chegou a vê-los.
Até os autores tiveram de dizer que a imagem foi feita por IA, rs.
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