Mostrando postagens com marcador Leon Trotsky. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Leon Trotsky. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Trotsky – Aos trabalhadores da URSS

Este é um dos últimos textos de Leyba Bronshteyn (Leon Trotsky) que estava guardado em meus backups aguardando tradução. Como disse antes, muita coisa desse período, vinda das mais variadas personalidades, não achei digna de traduzir e apenas transferi os originais pra minha biblioteca pública. Porém, um texto do dissidente ucraniano me chamou a atenção e decidi trazer uma versão em português: trata-se da “Carta aos trabalhadores da URSS” (Письмо рабочим СССР), escrita em março de 1929 e publicada em Paris, em julho seguinte, na primeira edição (n. 1-2) do Boletim da Oposição (bolcheviques leninistas).

É preciso rolar um pouco pra baixo a referida página até acharmos a carta em questão. Porém, o site como um todo é um grande portal de referência sobre a obra e a militância de Trotsky, e se você sabe russo, pode se deliciar com os originais disponíveis! O estudo do Boletim da Oposição diretamente do original seria uma atividade tão saudável quanto a exploração de suas Obras completas, caídas em domínio público e também digitalizadas há poucos anos. Não sou um fã de Trotsky nem do regime soviético como um todo, mas a leitura de seus escritos é tão mais saudável quanto seus atuais “detratores”, em geral stalinistas sem erudição, se valem de um mero copia-e-cola da propaganda da década de 1930 e a usam como “material primário confiável”.

O boletim dos exilados foi publicado em russo até o n. 87 de agosto de 1941, sucessivamente em Paris, Berlim, Paris de novo (nazismo obrigando) e enfim Nova York (após invasão alemã da França). Entre outras figuras, nele também contribuiu Christian Rakovski, soviético de etnia búlgara também imolado por Stalin, biografado genialmente por Pierre Broué e que me foi apresentado pelo prof. Alvaro Bianchi. Mantive um estilo mais formal do português e adicionei explicações entre colchetes, abrindo uma única nota de rodapé excepcional.

Ainda sobre a tradução, a palavra russa “rabóchi” pode ser traduzida mais estritamente como “operário”, mas no texto inteiro, inclusive no título, acabou ficando “trabalhador” mesmo. Trotsky assina de “Constantinopla”, que não hesitei em atualizar como Istambul, onde ele viveu parte de seu exílio iniciado em 1929. Por fim, onde se encontrar “PC da URSS”, é minha tradução, e igualmente a mais consagrada, de “VKP”, significando “KP” Partido Comunista e “V” vsesoiúznaia, ou seja, “de toda a União” (ou apenas “soviético”, se quiser). “PCUS”, tradução literal da sigla “KPSS”, refere-se apenas ao partido a partir de fins de 1952.



Caros camaradas!

Escrevo-lhes para lhes dizer mais uma vez que os Stalin, os Iaroslavski & Cia. estão os enganando. Estão lhes dizendo que recorri à imprensa burguesa para travar uma luta contra a República Soviética, em cuja formação e defesa trabalhei de mãos dadas com Lenin. Estão os enganando. Eu recorri à imprensa burguesa a fim de defender os interesses da República Soviética contra a mentira, o engano e a traição de Stalin et caterva.

Estão os mandando condenar meus artigos. Acaso vocês os leram? Não, vocês não os leram. Estão lhes dando uma tradução mentirosa, forjada de pequenos trechos isolados. Meus artigos foram publicados em russo numa brochura individual do jeito exato em que eu os escrevi. Exijam que Stalin os reimprima sem abreviações nem falseamentos! Ele não terá coragem. É mais provável que ele tema a verdade. Quero expor aqui o conteúdo básico de meus artigos.

1. Na resolução da GPU sobre meu exílio, afirma-se que lidero a “preparação de uma luta armada contra a República Soviética”. No Pravda, as palavras sobre uma luta armada foram omitidas. Por quê? Porque no Pravda (n. 41, 19 de fevereiro de 1929) Stalin não ousou repetir o que foi afirmado na resolução do GPU. Porque ele sabia que ninguém acreditaria nele. Após a história com o oficial de Wrangel, após ter sido desmascarado o agente provocador enviado secretamente por Stalin para propor aos oposicionistas uma conspiração armada, depois de tudo isso ninguém acreditará que os bolcheviques leninistas que desejam convencer o partido da justeza de suas visões estejam preparando uma luta armada. Foi por isso que Stalin não teve a coragem de mandar publicar no Pravda o que foi afirmado na resolução da GPU de 18 de janeiro. Mas afinal, em tal caso, de que serviria inserir essa óbvia mentira na resolução da GPU? Não para a URSS, mas para a Europa, e para o mundo inteiro. Por meio da agência TASS, Stalin cotidianamente colabora sistematicamente com a imprensa burguesa do mundo inteiro, difundido sua calúnia contra os bolcheviques leninistas. De outra forma, Stalin não podia explicar o exílio e as incontáveis prisões como prova da preparação de uma luta armada pela oposição. Com essa monstruosa mentira, ele causou um enorme dano à República Soviética. Toda a imprensa burguesa falou sobre como Trotsky, Rakovski, Smilga, Radek, I. N. Smirnov, Beloborodov, Muralov, Mrachkovski e muitos outros que construíram e defenderam a República estão agora preparando uma luta armada contra o Poder Soviético. Está claro até que grau tal pensamento deve enfraquecer o Poder Soviético aos olhos do mundo inteiro! Para justificar as repressões, Stalin é obrigado a criar narrativas monstruosas que estão causando um dano incalculável ao Poder Soviético. Foi por isso que considerei indispensável falar à imprensa burguesa e dizer ao mundo inteiro: não é verdade que a oposição esteja se preparando para conduzir uma luta armada contra o Poder Soviético. A oposição conduzir e conduzirá uma luta implacável pelo Poder Soviético contra todos os seus inimigos. Essa minha declaração foi reproduzida em dezenas de milhões de exemplares em línguas do mundo inteiro. Ela serve para consolidar a República Soviética. Stalin quer reforçar sua própria situação, enfraquecendo a República Soviética. Eu quero reforçar a República Soviética, desmascarando as mentiras dos stalinistas.

2. Há muito tempo já, Stalin e sua imprensa difundem no mundo inteiro a informação de que eu supostamente teria declarado que a República Soviética se tornou um Estado burguês, que o poder proletário morreu e coisas assim. Na Rússia, muitos trabalhadores sabem que essa é uma calúnia maliciosa, baseada em citações falseadas. Desmascarei essa falsidade dezenas de vezes em cartas que transmiti de mão em mão. Mas a imprensa burguesa mundial acredita nisso ou finge que acredita. Todas as citações falseadas por Stalin passeiam pelas colunas dos jornais do mundo inteiro, demonstrando como se Trotsky admitisse a inevitabilidade da morte do Poder Soviético. Graças ao enorme interesse da opinião pública mundial, sobretudo das amplas massas populares, pelo que está se passando na República Soviética, os jornais burgueses, impelidos por seus interesses mercadológicos, por sua ânsia em circular e pela pressão dos leitores, estão se vendo obrigados a publicar meus artigos. Nesses artigos, afirmei ao mundo inteiro que o Poder Soviético, apesar da política errônea da direção de Stalin, está profundamente enraizado nas massas, é muito forte e sobreviverá a seus inimigos.

Não se deve esquecer que a esmagadora maioria dos trabalhadores na Europa, em especial nos EUA, continuam se informando pela imprensa burguesa. Impus como condição que meus artigos fossem publicados sem quaisquer alterações que fossem. É verdade que determinados jornais em alguns países desobedeceram a essa condição, mas a maioria a obedeceu. Em todo caso, todos os jornais viram-se obrigados a publicar que, apesar das mentiras e calúnias dos stalinistas, Trotsky está convencido da profunda força interior do regime soviético e acredita firmemente que os trabalhadores, por meios pacíficos, conseguirão mudar a atual política mentirosa do Comitê Central.

Na primavera de 1917, Lenin, confinado em seu isolamento suíço, valeu-se do trem “blindado” dos Hohenzollern para lançar-se junto aos trabalhadores russos. A imprensa chauvinista investiu contra Lenin, chamando-o nada menos do que mercenário alemão e “Herr Lenin” [“senhor” em alemão]. Confinado pelos termidorianos no isolamento em Istambul, vali-me do trem blindado da imprensa burguesa para dizer a verdade ao mundo inteiro. Tola em sua devassidão, a investida dos stalinistas contra “Mister Trotsky” constitui uma mera repetição da investida burguesa e socialista revolucionária [ligada aos “SR”] contra “Herr Lenin”. Eu, assim como Ilich e com um tranquilo desdém, encararei a opinião pública dos filisteus e burocratas cuja alma se encarna em Stalin.

3. Em meus artigos distorcidos e falsificados por Iaroslavski, contei como, por que e sob que condições fui expulso da URSS. Os stalinistas estão espalhando na imprensa europeia o boato de que eu teria sido mandado ao exterior por solicitação própria. Também desmascarei essa mentira. Contei que fui expulso para o exterior à força, por meio de um acordo prévio entre Stalin e a polícia turca. E aqui atuei não somente nos interesses de minha proteção pessoal contra calúnias, mas também e antes de tudo nos interesses da República Soviética. Se os oposicionistas visassem deixar as fronteiras da União Soviética, ficaria claro para o mundo inteiro que supostamente teríamos considerado irremediável a situação do governo soviético. Entretanto, não há sequer resquícios disso. A política de Stalin desferiu terríveis golpes não somente na revolução chinesa, no movimento operário inglês e em toda a Comintern, mas também na estabilidade interna do regime soviético. Isso é indiscutível. Porém, a causa não foi abalada de forma alguma. Em nenhuma hipótese a oposição está se preparando para fugir da República Soviética. Recusei-me categoricamente a deixar o país, sugerindo que me trancassem na cadeia. Os stalinistas não ousaram recorrer a esse método, pois temiam que os trabalhadores se obstinassem em obter minha soltura. Preferiram chegar a um acordo com a polícia turca e forçaram minha deportação para Istambul. Expus isso para o mundo inteiro. Cada trabalhador bem-pensante dirá que se Stalin, por meio da TASS, alimenta diariamente a imprensa burguesa com calúnias contra a oposição, então eu era obrigado a agir para desmentir essas calúnias.

4. Em dezenas de milhões de exemplares, contei ao mundo inteiro que fui exilado não pelos trabalhadores russos, não pelos camponeses russos, não pelo Exército Vermelho soviético, não por aqueles com quem conquistamos o poder e combatemos ombro a ombro em todas as linhas de frente da guerra civil; fui exilado pelos apparatchiks que tomaram o poder em suas mãos, se transformaram numa casta burocrática que está ligada pelo encobrimento mútuo. Para defender a Revolução de Outubro, a República Soviética e o nome revolucionário dos bolcheviques leninistas, eu disse para o mundo inteiro a verdade sobre Stalin e os stalinistas. Lembrei mais uma vez que Lenin, em seu “Testamento” cuidadosamente elaborado, chamou Stalin de desleal. Essa palavra é compreensível em todas as línguas do mundo. Ela designa um indivíduo inescrupuloso ou desonesto que é dirigido por impulsos vis em suas ações, um indivíduo no qual não se deve confiar. Foi assim que Lenin caracterizou Stalin, e estamos vendo novamente quão correta estava sua advertência. Para um revolucionário, não há crime maior do que enganar seu próprio partido e envenenar a consciência da classe operária com mentiras. Todavia, nisso consiste a principal ocupação de Stalin. Ele está enganando a Comintern e a classe operária mundial, imputando à oposição ações e intenções contrarrevolucionárias para com o Poder Soviético. Foi exatamente por essa inclinação interna a tal modo de agir que Lenin chamou Stalin de desleal, foi exatamente por isso que ele propôs ao partido remover Stalin de seu posto. Depois de tudo o que aconteceu, é tão mais necessário agora esclarecer perante o mundo inteiro como se expressava a deslealdade, isto é, a falta de escrúpulos e a desonestidade de Stalin para com a oposição.

5. Os caluniadores (Iaroslavski e outros agentes de Stalin) fazem barulho a respeito dos dólares americanos. Em outras condições, é pouco provável que valesse a pena reclinar-se até esse lixo. Mas a imprensa burguesa mais malévola se deleita em revirar a sujeira de Iaroslavski. Para não deixar nada sem esclarecer, também falarei, por essa razão, sobre os dólares.

Transmiti meus artigos à agência americana de imprensa em Paris. Dezenas de vezes, tanto Lenin quanto eu demos a esse tipo de agências entrevistas e declarações escritas com nossas visões sobre essas e outras questões. Graças a meu exílio e a suas circunstâncias secretas, o interesse por esse caso foi colossal no mundo inteiro. A agência esperava ter bons lucros e me propôs metade do ganho. Eu lhe respondi que não pegaria nenhum tostão para mim, mas que a agência deveria, seguindo minha indicação, transmitir metade de seu ganho com meus artigos, e que com esse dinheiro eu editaria em russo e em línguas estrangeiras toda uma série de obras de Lenin (seus discursos, artigos cartas) qte tinham sido proibidas da República Soviética pela censura de Stalin. De forma equivalente, com esse dinheiro publicarei toda uma série de documentos partidários principais (atas de conferências e congressos, cartas, artigos etc.) que são escondidos do partido somente porque escancaram o quão infundado é Stalin em teoria e política. É essa a literatura “contrarrevolucionária” (nas palavras de Stalin e Iaroslavski) que estou preparando para publicação. No tempo devido, será publicado um relatório preciso sobre os valores para isso despendidos. Cada trabalhador dirá que é imensuravelmente melhor usar o dinheiro recebido, na forma de tributo casual, da burguesia para publicar as obras de Lenin do que usar o dinheiro tirado dos trabalhadores e camponeses russos para difundir calúnias sobre os bolcheviques leninistas. Não se esqueçam, camaradas: o “Testamento” de Lenin ainda é considerado na URSS um documento contrarrevolucionário por cuja difusão prendem e exilam. Não é por acaso: Stalin está travando uma luta em escala internacional contra o leninismo. Não sobrou quase nenhum país no mundo onde permanecessem hoje à frente de um partido comunista os revolucionários que lideraram esses partidos no tempo de Lenin. Quase todos eles foram expulsos da Internacional Comunista. Lenin dirigiu os quatro primeiros congressos da Comintern. Elaborei junto com Lenin todos os documentos básicos da Comintern. No 4.º Congresso (1922), Lenin bipartiu comigo o informe básico sobre a Nova Política Econômica [a famosa NEP] e as perspectivas da revolução internacional. Após a morte de Lenin, quase todos os participantes, em todo caso, sem exceção, todos os participantes influentes dos quatro primeiros congressos, foram expulsos da Comintern. Por toda à parte, à frente dos partidos comunistas, encontram-se pessoas novas, aleatórias, que ainda ontem estavam no campo dos adversários e inimigos. Para conduzir uma política antileninista, a primeira coisa necessária era derrubar a direção leninista. Stalin fez isso, apoiando-se na burocracia, nos novos círculos pequeno-burgueses, no aparelho de Estado, na GPU [antecessora do NKVD e, mais tarde, do KGB], nos meios materiais do Estado. Isso se produz não somente na URSS, mas também na Alemanha, na França, na Itália, na Bélgica, nos Estados Unidos, na Escandinávia, resumidamente, em quase todos os países, sem exceção. Somente um cego pode não entender o sentido do fato de os colaboradores e companheiros de luta mais próximos de Lenin no PC da URSS e em toda a Comintern, todos os participantes e dirigentes dos partidos comunistas nos difíceis primeiros anos, todos os participantes e dirigentes dos quatro primeiros congressos terem sido, quase sem exceção, removidos dos postos, difamados e expulsos. Essa luta selvagem contra a direção leninista é necessária aos stalinistas para conduzirem uma política antileninista.

Enquanto os bolcheviques leninistas eram fulminados, o partido era tranquilizado pelo fato de que a partir de então ele seria monolítico. Vocês sabem que o partido está agora mais dividido do que nunca. E isso ainda não é o fim. No caminho stalinista não há salvação. Só é possível conduzir uma política à la Ustrialov [ustriálovskaia] (1), ou seja, consequentemente termidoriana, ou uma política leninista. A posição centrista de Stalin está inevitavelmente conduzindo à acumulação de enormes dificuldades econômicas e políticas e à destruição e esfacelamento definitivos do partido.

Ainda não é tarde para mudar de rumo. É preciso mudar abruptamente e política e o regime partidário no espírito da plataforma da oposição. É preciso cessar a vergonhosa perseguição aos melhores leninistas revolucionários no PC da URSS e em todo o mundo. É preciso restaurar a direção leninista. É preciso condenar e erradicar os métodos desleais, isto é, inescrupulosos e desonestos do aparelho stalinista. A oposição está pronta para ajudar com todas as forças o núcleo proletário do partido a realizar essa tarefa vital. A caçada selvagem, as calúnias nefastas e as repressões estatais não podem obscurecer nossa relação com a Revolução de Outubro ou com o partido internacional de Lenin. Permanecemos ambos [o PC da URSS e a Comintern] fiéis até o fim – nas prisões stalinistas, no desterro ou no exílio.

Saudações bolcheviques

L. Trotsky.
Istambul, 29 de março de 1929.


(1) Referência a Nikolái Vasílievich Ustriálov (1890-1937), jurista, filósofo e político russo, precursor do “nacional-bolchevismo” e fuzilado junto a vários seguidores durante os “grandes expurgos”. Inicialmente um constitucional democrata (“cadete”), entrou para o lado dos “brancos” na guerra civil e por volta de 1921, em Praga, desenvolveu ideias encorajando a imigração a retornar à URSS e aceitar os bolcheviques. Como o novo regime, a seu ver, evoluiria para uma espécie de nacionalismo burguês, preferiu não aderir ao comunismo e se denominou “nacional-bolchevique”, refletindo sua eslavofilia de origem. As ideias de Ustrialov, atacadas por Lenin e Trotsky, ganharam aceitação limitada na URSS nas décadas de 1920 e 1930, e ele mesmo passou anos exilado na Manchúria. Voltou em 1935, tendo depois dificuldades para refazer sua vida (passado “branco” em seu rastro), até finalmente ser mandado para o GULAG.



domingo, 2 de março de 2025

Discursos de Trotsky (áudio ou vídeo)

Assim como eu fiz alguns anos atrás com Vladimir Lenin e Iosif Stalin, estou tentando fazer com Lev Bronstein, mais conhecido pela história como Leon Trotsky (1879-1940), uma listagem única de todos os seus discursos. Ao contrário de Lenin, que teve poucos discursos gravados em áudio, mas bem definidos, e de Stalin, que apareceu no topo do poder soviético por décadas, há bem menos áudios e vídeos de Trotsky. Muito cedo, ele foi alijado da liderança revolucionária e foi exilado, primeiro, na Sibéria e, mais tarde, em vários países em sucessão. Mas ao contrário dos outros dois, não há apenas discursos seus gravados em russo, mas também em inglês, francês e alemão, línguas que ele dominava mais ou menos bem (o inglês, a pior de todas).

Os vídeos legendados tinham sido originalmente publicados no Pan-Eslavo Brasil, meu antigo canal do YouTube. Aqueles sem legenda e apenas com a tradução escrita são posteriores a 2021, quando o Google “suicidou” a joia de minha coroa. A própria plataforma foi a fonte da maioria dos vídeos traduzidos, mas no site Sovmusic.ru, o maior acervo online de áudios e cartazes da era soviética, também existem gravações com o áudio de alguns dos discursos de Trotsky em MP3 pra se escutar lá mesmo ou se baixar. Nesta lista, não incluí os artigos escritos, que podem ser acessados clicando na tag “Leon Trotsky”.

As publicações listadas abaixo, classificadas por ordem cronológica, não fazem parte de uma produção padronizada e controlada, como ocorreu com os discursos de Lenin. Elas surgiram de acordo com minha possibilidade corrente de traduzir os discursos de Trotsky em texto e em vídeo. É pouco possível que surjam outras mídias faladas do ucraniano, mas esta lista pode ser atualizada, até se esgotarem todas as possibilidades.

____________________


1. União fraternal das repúblicas soviéticas (abril de 1919)

2. A tarefa sagrada do Exército Vermelho (1920)

3. Trotsky defende a Revolução de Outubro (27 de novembro de 1932)

4. Trotsky antevê hegemonia dos EUA (novembro de 1932; título meu)

5. Os dez anos da Oposição de Esquerda (outubro de 1933; título meu)

6. Trotsky condena Processos de Moscou (fevereiro de 1937 ou depois; título meu)

7. Sobre a fundação da Quarta Internacional (18 de outubro de 1938)



quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Trotsky fala em alemão (27/11/1932)

No mesmo vídeo documental com cenas da vida e militância de Leon Trotsky entre 1931 e 1938, produzido pelo estúdio Pathé Frères (França, Reino Unido e Países Baixos) e republicado pelo museu visual holandês Eye, do qual traduzi o discurso em francês, há também um discurso em alemão não identificado. Mantive o trecho guardado até dar um jeito de arranjar uma transcrição, sendo o jeito mais fácil encontrar algum tradutor ou especialista do idioma pra que pelo menos transcrevesse, e depois eu traduzisse com o Google e revisasse com dicionários.

Quando tomei coragem de retornar ao material, decidi tomar “outra coragem” pra testar alguma ferramenta online que usasse a inteligência artificial pra transcrever o áudio. E não é que deu certo? Dentre várias que não exigiam registro prévio nem qualquer forma de pagamento (mesmo que com um período de teste exigindo nosso número de cartão...), escolhi aleatoriamente uma chamada Clipto. Claro, pra cópia do texto, precisava me registrar, mas consegui a versão integral tendo apenas que digitar a partir da tela. Milagre!

Por meio da primeira frase, acabei descobrindo duas matérias da seção cultural da Rádio Alemanha que citavam a maior parte do discurso, uma de 2007 e outra de 2011. Faltavam umas poucas frases, mas foi o suficiente pra poder corrigir a transcrição (sim, IA ainda não é perfeito...) e enfim traduzir corretamente, inclusive revendo o resultado do Google! As duas matérias citadas diziam que as palavras concerniam ao 15.º aniversário da Revolução de Outubro, ou seja, novembro de 1932, mas não davam mais informações sobre o contexto (o dia, ou se era escrito, falado, enfim).

Naquele período, ele estava em seu exílio numa ilha do litoral da Turquia. Mais um pouco de meu faro de detetive ativado, e descobri por meio de várias fontes que Trotsky fez um périplo pela Europa até poder chegar numa conferência a convite da Associação dos Estudantes Social-Democratas da Dinamarca, cujo governo só teria permitido sua entrada porque os comunistas seriam fracos no país nórdico. No dia 27 de novembro de 1932, ele fez um longo discurso em alemão, língua na qual alegava ainda não se expressar perfeitamente, embora ao menos suprisse seu desconhecimento do dinamarquês (o país faz fronteira com a Alemanha). A mídia soviética teria chegado a alegar que seu discurso, explicando as razões do sucesso da Revolução de Outubro e atacando Stalin, seria uma “provocação” patrocinada pelo Reino Unido contra os bolcheviques.

O único registro completo é a imperfeita transcrição, de forma que os trechos em inglês mais ou menos equivalentes ao original em alemão estão espalhados por momentos separados, e também reuni abaixo os que podem equivaler ao falado no vídeo. Em todo caso, seguem também o registro disponibilizado pela Holanda, minha tradução e a transcrição em alemão:


O fato de o proletariado ter chegado ao poder primeiramente em um dos países mais atrasados da Europa parece, à primeira vista, totalmente misterioso, mas, ainda assim, é totalmente legítimo. Lenin deu a essa explicação uma fórmula sucinta: assim como um urso quando fica de pé sobre as patas traseiras, a corrente sempre se quebra em seu elo mais fraco. Quando está insatisfeito, quando está zangado, o campesinato é terrível, mas é impotente. Tendo surgido na Idade Média, ele não consegue abstrair sua própria raiva politicamente. Ele procura o líder. Ele clama por um chefe. E pela primeira vez na história mundial, o campesinato russo encontrou esse líder no proletariado. E isso lhes explica, senhores, o mistério da Revolução de Outubro.

Die Tatsache, dass das Proletariat in einem der zurückgebliebensten Länder Europas zuerst zur Macht gekommen ist, scheint auf den ersten Blick ganz rätselhaft, ist aber nichtsdestoweniger vollständig gesetzmäßig. Dieser Erklärung hat Lenin eine prägnante Formel gegeben: die Kette ist an ihrem schwächsten Gliede zerrissen, so wie ein Bär, wenn er sich auf die Hinterpfoten stellt. Wenn es unzufrieden ist, wenn es wütend ist, das Bauerntum ist schrecklich, aber es ist hilflos. Das aus dem Mittelalter sich emporhebende Bauerntum kann seine eigene Wut nicht politisch verallgemeinern. Es sucht den Führer. Es heißt einen Leiter. Und diesen Führer hat das russische Bauerntum zum ersten Mal in der Weltgeschichte im Proletariat gefunden. Und das erklärt Ihnen das Rätsel der Oktoberrevolution.

The fact that the proletariat reached power for the first time in such a backward country as the former Tsarist Russia seems mysterious only at first glance; in reality, it is fully in accord with historical law. [...] The first and most general explanation is: Russia is a backward country, but only a part of world economy, only an element of the capitalist world system. In this sense Lenin exhausted the riddle of the Russian revolution with the lapidary formula, “The chain broke at its weakest link.” [...] Once the peasant bear stands up on his hind feet, he becomes terrible in his wrath. But he is unable to give conscious expression to his indignation. He needs a leader. For the first time in the history of the world, the insurrectionary peasantry found a faithful leader in the person of the proletariat.


sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

[REPOST] Trotsky alerta sobre Hitler

Originalmente, publiquei parte deste “discurso” solo de Trotsky em 4 de setembro de 2018, mas há algumas semanas encontrei a versão completa, integrando um conjunto documental maior produzido entre 1931 e 1938, provável ano do discurso, pelo estúdio Pathé Frères (França, Reino Unido e Países Baixos) e republicado pelo museu visual holandês Eye. Em 2018, achei o trecho legendado em grego (longe de ser literal), com base no qual transcrevi com dificuldade o francês. Na primeira vez, fui grato aos tradutores Rui Correia, Jane Lamb e Silvio Levy pelo auxílio na transcrição, mas agora, pra revisar meu serviço completo, contei com o auxílio do profissional em tradução e interpretação Jens Munck. Por sua gentileza e paciência em ouvir os “buracos” que ficaram, recomendo que conheçam seu trabalho!

O dissidente soviético Leon Trotsky é filmado no exílio criticando, em língua francesa com sotaque, a política da Internacional Comunista (Comintern) dirigida por Iosif Stalin, de rejeição à “frente única” com os socialistas e a social-democracia. Isso teria levado à vitória de Adolf Hitler e, embora ele só fale em “desdobramentos na Alemanha” e “os eventos confirmaram”, parece evidente que ele fala da ascensão do nazismo. Há algumas semanas publiquei que ele podia estar em Coyoacán, perto da Cidade do México, onde viveu seu último exílio e foi assassinado. Porém, como seu exílio no México só começou em janeiro de 1937, como ele menciona os dez anos da formação da Oposição de Esquerda na URSS (ocorrida em outubro de 1923) e como ele fala em francês, a data deve ser aproximadamente outubro de 1933, já que em julho de 1933 ele tinha passado a viver na França. Em todo caso, não há indicação sobre se os trechos foram organizados cronologicamente.

Em 1921, diante do isolamento da Revolução Russa, Lenin decidiu lançar um apelo de unidade aos trabalhadores que ainda aderiam ao reformismo, política chamada “frente única”. Ao longo dos anos, sobretudo após a morte de Lenin, em 1924, essa política fracassou diante da resistência dos sociais-democratas, das lutas internas no PC soviético e da hostilidade ocidental à URSS. Na prática, desde 1928, Stalin e a Comintern tinham abandonado a política de “frente única”, embora mantivessem em palavras. As esquerdas não bolcheviques culparam a hostilidade para com os socialistas, que pros comunistas seriam um perigo “pior do que o fascismo”, pelo caminho deixado aberto pra Hitler ser escolhido chanceler em 1933. Na verdade, outros fatores também influíram nessa eleição, mas o racha das esquerdas alemãs enfraqueceu qualquer possibilidade de resistência, em meio a um ódio SPD vs. KPD que era mútuo.

Devemos lembrar que, na prática, a política da Comintern esteve imbricada, na maior parte do tempo, à política externa soviética, e que apenas em 1934 ia se pensar numa amenização dos ataques. Em 1935, a linha de “frentes populares” antifascistas obteve resultados unitários num curto prazo, mas não impediu o avanço de Hitler e o recrudescimento de Stalin. Trotsky, distante de sua terra desde 1929, excomungado por seu partido e por sua Internacional, faz outra atuação quixotesca desesperada, insistindo que a união com a social-democracia era imprescindível naquele instante. Discursando sozinho numa sala fechada pra um público imaginário, o pretenso chefe do proletariado luta insistentemente contra um moinho de vento que é o direcionamento stalinista do bolchevismo soviético. Ele não percebeu que se tornou uma peça descartada assim que pôde, na hora em que explodiu a luta pela sucessão de Lenin.

Seguem abaixo minha primeira legendagem, o trecho completo conservado pelo Eye, minha tradução e a transcrição, agora sem a cópia das legendas em grego.




Camaradas!

Vocês querem que eu responda à pergunta: por que pertenço à fração dos bolcheviques leninistas, que está em aguda oposição à atual política da Internacional Comunista e do governo soviético? Vou tentar esboçar pelo menos os pontos mais importantes da questão.

O objetivo maior do Partido Comunista consiste em formar a vanguarda proletária reforçada pelas consciências de classe, capaz de combater, resoluta, pronta para a revolução. Mas a educação revolucionária exige um regime de democracia interna. A disciplina revolucionária nada tem a ver com obediência cega. A combatividade não pode ser preparada de antemão nem ditada por uma ordem vinda de cima: ela deve sempre se renovar e se fortalecer por si mesma.

A disciplina revolucionária [pequeno ruído] todo trabalhador comunista honesto e consciente, temos democracia no Partido: sim ou não? Fazer a pergunta é respondê-la. Até os mais irrisórios vestígios da democracia partidária estão desaparecendo mais a cada dia. Na União Soviética, o Partido Comunista está no poder, os sucessos econômicos são incontestáveis, o número de trabalhadores no país dobrou e triplicou, o nível cultural das massas aumentou notavelmente nos últimos quinze anos.

Nessas condições, a democracia partidária quer alcançar maior abrangência. Estamos vendo o exato oposto: apesar de todas as realizações e sucessos, o proletariado está preocupado com eles, e a vanguarda comunista em particular está presa pelo alicate de aço da burocracia do Partido e do Estado. A piora sem precedentes do regime partidário deve ter profundas causas sociais e políticas. Nós, Oposição de Esquerda, no decorrer do período posterior a Lenin, mais de uma vez analisamos e revelamos suas causas.

Alguma vez a liderança oficial do Partido submeteu honestamente nossos argumentos para discussão no Partido? Nunca! Quanto menos o funcionário é controlado pelas massas, menor é sua estabilidade, mais sensível ele se torna às influências externas, mais inevitavelmente as convulsões dos políticos tomam a forma de um tribunal febril, até malárico. É isso o centrismo. Repito: é isso o centrismo!

A aniquilação da democracia se torna eleitoralmente interessante para o desenvolvimento das influências ditas burguesas, oportunistas ou ultraesquerdistas. As divergências começaram em 1923 e residiam no funcionamento do regime partidário, na industrialização e nas relações com os kulaks. Em adição a isso, a plataforma da Oposição de Esquerda. Vocês tinham conhecido a Oposição de Esquerda russa de 1926. Vocês acompanharam o desdobramento subsequente da luta em torno do plano quinquenal e pela coletivização? Em todas essas questões, a contribuição da oposição consiste, de fato, em que, armada com um método marxista, ela exgergou corretamente, previu algo e alertou a tempo contra os erros.

Vocês leram os documentos que vieram a lume na luta de frações sobre as questões da revolução chinesa? Vocês conhecem as opiniões divergentes sobre o Comitê Anglo-Russo, a aplicação da frente única somente a partir de cima e, de fato, contra as massas em luta? Onde são conhecidos os escritos da oposição nesses domínios? Caso contrário, é dever de vocês familiarizarem-se com esses textos antes de definirem sua posição diante da Oposição de Esquerda.

Vocês certamente guardaram a memória das aventuras insensatas do “terceiro período”, que claramente comprometeram o comunismo aos olhos de todos os trabalhadores conscientes. Pode ainda um único comunista ter dúvidas a esse respeito?

Os novos desdobramentos na Alemanha dão um exemplo flagrante da política essencialmente falsa da direção do proletariado: assimilação da democracia ao fascismo, repúdio à política de frente única e, por conseguinte, renúncia aos sovietes, porque os sovietes só são possíveis com a realização da frente única dos operários pertencentes às diferentes organizações e inclusive aos diferentes partidos. Ninguém ajudou em tamanha medida a social-democracia alemã a se manter à tona quanto a política do aparelho stalinista internacional. Nós, Oposição de Esquerda, continuamos fielmente devotados à União Soviética e à Internacional Comunista.

Por outra devoção, por uma lealdade totalmente diferente, aquela da maioria da burocracia oficial, o operário que se considera comunista, mas se alimentou de fofocas, que não estuda documentos, não verifica por si mesmo os fatos, não vale grande coisa. Não, não vale grande coisa! Foi sobre esse tipo de gente que Lenin cunhou sua dura fórmula: “Aquele que acredita na palavra de um apolítico não passa de um idiota sem salvação”.

No décimo ano desde seu surgimento, a Oposição de Esquerda está próxima. Grandes eventos testaram e confirmaram nossa atitude. Quadros sérios estão sendo formados. Olhamos com confiança para o futuro. Nenhuma força poderá nos separar da vanguarda proletária internacional. A União Soviética é nossa pátria. Nós a defenderemos até o fim! As ideias e métodos de Marx e Lenin se tornarão as ideias e métodos da Internacional Comunista.


Camarades !

Vous voulez de moi une réponse à la question : pourquoi est-ce que j’appartiens à la fraction des bolchéviks-léninistes, qui est en opposition aigüe avec la politique actuelle de l’Internationale Communiste et du gouvernement soviétique ? Je vais essayer d’esquisser au moins les points les plus importants de la question.

Le but capital du Parti communiste consiste à constituer l’avant-garde prolétarienne forte des consciences de classe, apte au combat, résolue, prête pour la révolution. Mais l’éducation révolutionnaire exige un régime de démocratie intérieure. La discipline révolutionnaire n’a rien à faire avec l’obéissance aveugle. La combativité ne peut être préparée par avance ni dictée par un ordre d’en haut : elle doit toujours se renouveler par elle-même, et par elle-même s’étramper.

La discipline révolutionnaire [petit bruit] tout honnête et conscient travailleur communiste, avons-nous la démocratie dans le Parti : oui ou non ? Poser la question, c’est y répondre. Même les plus misérables vestiges de la démocratie du Parti s’évanouissent chaque jour davantage. Dans l’Union soviétique [sic], le Parti communiste est au pouvoir, les succès économiques sont incontestables, le nombre de travailleurs dans le pays s’est doublé et s’est triplé, le niveau culturel des masses s’est sensiblement élevé dans les quinze années.

Dans ces conditions, la démocratie du Parti veut atteindre plus d’ampleur. Nous voyons tout le contraire : malgré toutes les réalisations et tous les succès, le prolétariat en sont inquiets, et l’avant-garde communiste en particulier, sont étreints par les tenailles d’acier de la bureaucratie du Parti et de l’État. L’aggravation inouïe du régime du Parti doit avoir de profondes causes sociales et politiques. Nous, Opposition de gauche, dans le cours de la période après Lénine, nous avons plus d’une fois analysé et révélé ses causes.

La direction officielle du Parti a-t-elle jamais soumis loyalement à la discussion du Parti nos arguments ? Jamais ! Moins le fonctionnaire est contrôlé par les masses, d’autant moins grande est sa stabilité, plus il devient sensible aux influences extérieures, d’autant plus inévitablement les convulsions des hommes politiques épousent la forme de la cour fébrile, même paludéenne. C’est cela le centrisme. Je le répète : c’est cela le centrisme !

L’anéantissement de la démocratie devient d’intérêt d’élections pour le développement d’influences dites bourgeoises, opportunistes ou ultragauchistes. Les divergences commencèrent en 1923, et ce fut dans l’action du régime du Parti, l’industrialisation et les rapports avec les koulaks. Pour surplus, la plateforme de l’Opposition de gauche. L’Opposition de gauche russe de 1926, vous l’aviez connue. Avez-vous suivi le développement ultérieur de la lutte autour du plan quinquennal et de la collectivisation ? Dans toutes ces questions, l’apport de l’opposition consiste en fait que, armée d’une méthode marxiste, elle a vu juste, elle a prévu quelque chose et mis en garde à temps contre les fautes.

Avez-vous lu les documents qui se sont fait jour dans la lutte des fractions dans les questions de la révolution chinoise ? Connaissez-vous les divergences de conception sur le Comité anglo-russe, l’application du front unique par en haut seulement, et en fait contre les masses en lutte ? Les travaux de l’opposition dans ces domaines, où sont-ils connus ? Sinon il est de votre devoir de vous familiariser avec ces textes avant de fixer votre position envers l’Opposition de gauche.

Vous avez certainement gardé la mémoire des aventures insensées de la « troisième période », qui ont clairement compromis le communisme aux yeux de tous les travailleurs conscients. Est-ce qu’un seul communiste peut avoir encore des doutes à ce sujet ?

Les nouveaux développements en Allemagne donnent un exemple saisissant de la politique fondamentale fausse de la direction du prolétariat : assimilation de la démocratie au fascisme, répudiation de la politique de front unique et par suite renonciation aux soviets, parce que les soviets ne sont possibles qu’avec la réalisation du front unique des ouvriers appartenant aux différentes organisations et même aux différents partis. Personne n’a aidé, dans une telle mesure, la social-démocratie allemande à se maintenir à la surface que la politique de l’appareil stalinien international. Nous, Opposition de gauche, restons fidèlement dévoués à l’Union soviétique et à l’Internationale Communiste.

Par un autre dévouement, par toute une autre fidélité, qui est la majorité de la bureaucratie officielle, l’ouvrier qui se tient pour un communiste, mais qui s’est nourri des racontars, qui n’étudie pas des documents, ne vérifie pas par lui-même les faits, ne vaut pas grand-chose. Non, il ne vaut pas grand-chose ! C’est sur des gens pareils que Lénine a forgé sa formule dure : « Celui qui croit à la parole d’un apolitique n’est qu’un idiot sans espoir ».

La dixième année depuis la naissance, l’Opposition de gauche est proche. Les grands évènements ont vérifié et confirmé notre attitude. Des cadres sérieux sont éduqués. Nous regardons avec confiance dans l’avenir. Aucune force ne pourra nous détacher de l’avant-garde prolétarienne internationale. L’Union soviétique, c’est notre patrie. Nous la défendrons jusqu’au bout ! Les idées et les méthodes de Marx et de Lénine deviendront les idées et les méthodes de l’Internationale communiste.


quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

Trotsky funda 4.ª Internacional, 1938

Vocês já devem estar pensando que tenho uma queda por Leyba Bronstein ou que, por estar saturando com ele o Natal de vocês, estou lhes “passando um Trotsky”... rs (tá, essa doeu). Ocorre que, ficando tudo mais corrido em dias de festa (saídas, refeições, sono mais prolongado), embora eu mesmo não seja um fanático pelo Dia do Sol Invicto, essas tarefas relacionadas ao fundador do Exército Vermelho se revelaram mais rápidas e fáceis de “desencalhar”. Aliás, devido a várias correções que fiz na transcrição ao comparar com o áudio, o trabalho com Pierre Broué se revelou mais árduo e demorado, ao contrário deste, cuja curta transcrição tinha poucas divergências em relação ao som.

Em seu último exílio, Trotsky se fixou perto da capital do México, na cidade de Coyoacán, onde seria assassinado em 1940 e onde hoje existe uma casa-museu sobre sua vida e luta. Segundo a edição feita pelo Marxists.org, a gravação do discurso abaixo foi feita em 18 de outubro de 1938 em seu novo lar, transmitida num comício de trabalhadores em Nova York (ao qual o governo americano teria impedido o líder de se dirigir) no dia 28 seguinte e publicada em escrito pela primeira vez em novembro de 1938. Aborda-se a fundação da chamada “Quarta Internacional”, ou “Internacional trotskista”, pra alguns, resultante do insucesso da luta de Trotsky contra uma alegada “degeneração” do regime soviético e da Comintern (a “Terceira” Internacional) sob Iosif Stalin, seu inimigo pessoal de longa data. Primeiramente ele formou em Moscou uma “oposição de esquerda” dentro do Partido Bolchevique, passo seguido por outros comunistas ao redor do mundo, mas sem obter êxito, acabou criando seu próprio movimento, muito menor, mas ferozmente perseguido pelo Kremlin.

A 4.ª Internacional tinha sido fundada em setembro de 1938, em congresso reunido perto de Paris, na casa de Alfred Rosmer, figura de destaque na Comintern que tinha passado pro lado de Trotsky. Mas ao longo dos anos, ela se dividiu em diversas facções, brigando por causa de “cousas miúdas”, e hoje vários grupos se reivindicam, sem muita justificativa, como continuadores da “Quarta”. O exclusivismo abstrato e o complexo de vanguarda de Trotsky, evidentes neste texto, mostram como há pouca ruptura com os vícios da Rússia soviética e do marxismo apocalíptico (e nada construtivo) iniciado por Vladimir Lenin. Não por menos, o “trotskismo”, sem uma visão de mundo clara nem propostas concretas pra melhorar a vida do povo pobre, tem hoje como principal público jovens radicalizados nas universidades e está cada vez mais espremido entre a nova ascensão de movimentos fascistas, a reabilitação do stalinismo criminoso em roupagem “eurasianista” e uma centro-esquerda dita “de governo”, por vezes com tintura populista, preocupada somente com mesquinharias eleitorais.

Abaixo seguem um vídeo com o áudio completo do discurso de Trotsky gravado em Coyoacán e exibido em Nova York, que achei exatamente hoje, e outros dois com partes distintas, que eu já tinha guardado há uns anos, um deles indicando erroneamente Copenhague como local da gravação. Eu traduzi a partir do original inglês indicado acima, usando o Google Tradutor e depois refazendo todo o texto conforme meu estilo pessoal e o cotejamento com o áudio. E pra não quebrar o ritmo da leitura, coloquei também umas poucas notas explicativas entre colchetes, e não em rodapé, como se poderia esperar:






Queridos camaradas e amigos!

Espero que desta vez minha voz chegue até vocês e que me seja permitido, desta forma, participar de sua dupla comemoração. Ambos os eventos – o décimo aniversário de nossa organização americana e o congresso de fundação da 4.ª Internacional – merecem dos trabalhadores uma atenção incomparavelmente maior do que os gestos bélicos dos chefes totalitários, as intrigas diplomáticas ou os congressos pacifistas.

Ambos os eventos vão entrar pra história como marcos importantes. Agora, ninguém tem o direito de duvidar disso.

É necessário lembrar que o nascimento do grupo americano de bolcheviques leninistas, graças à corajosa iniciativa dos camaradas [James Patrick] Cannon [1890-1974], [Max] Shachtman [1904-1972] e [Martin] Abern [nascido Abramowitz, 1898-1949], não ocorreu sozinho. Coincidiu aproximadamente com o início do trabalho internacional sistemático da Oposição de Esquerda. É verdade que a Oposição de Esquerda surgiu na Rússia em 1923, 15 anos atrás, mas o trabalho regular em escala internacional começou com o 6.º Congresso da Comintern.

Sem um encontro pessoal, chegamos a um acordo com os pioneiros americanos da 4.ª Internacional, antes de tudo, quanto à crítica do programa da Internacional Comunista [Comintern]. Então, em 1928, começou o trabalho coletivo que, dez anos depois, levou à elaboração de nosso próprio programa recentemente adotado por nossa Conferência Internacional. Temos o direito de dizer que nessa década, o trabalho não foi apenas persistente e paciente, mas também honesto. Os bolcheviques leninistas, os pioneiros internacionais, nossos camaradas em todo o mundo, como autênticos marxistas, buscaram o caminho da revolução não em seus sentimentos e desejos, mas na análise da sucessão objetiva dos acontecimentos. Acima de tudo, fomos guiados pela preocupação de não enganar os outros nem a nós mesmos. Nossa busca foi séria e honesta. E nós descobrimos algumas coisas importantes. Os acontecimentos confirmaram tanto nossa análise quanto nossas previsões. Ninguém pode negar. Agora é necessário que permaneçamos fiéis a nós mesmos e a nosso programa. Não é algo fácil de se fazer. São gigantescas as tarefas, e incontáveis os inimigos. Só temos o direito de dedicar nosso tempo e atenção à comemoração do jubileu na medida em que, a partir das lições do passado, possamos nos preparar pro futuro.

Queridos amigos, não somos um partido como os outros. Não ambicionamos meramente ter mais membros, mais jornais, mais dinheiro em caixa, mais deputados. Tudo isso é necessário, mas apenas como um meio. Nosso objetivo é a plena libertação material e espiritual dos trabalhadores e explorados por meio da revolução socialista. Ninguém vai a preparar e guiar, exceto os bolcheviques leninistas. Repito: ninguém exceto nós mesmos. As velhas Internacionais – a Segunda, a Terceira, a de Amsterdã, às quais também juntamos o Birô de Londres [o efêmero Centro Marxista Revolucionário Internacional, que em 1932-40 rejeitou tanto Stalin quanto Trotsky] – estão inteiramente podres.

Os grandes acontecimentos que se precipitam sobre a humanidade não vão deixar pedra sobre pedra dessas organizações remanescentes. Somente a 4.ª Internacional encara o futuro com confiança. É o partido mundial da Revolução Socialista! Nunca houve na Terra uma tarefa maior. Repousa sobre cada um de nós uma gigantesca responsabilidade histórica.

Nosso partido exige por completo cada um de nós. Que os filisteus persigam no vácuo sua própria individualidade. Pra um revolucionário, entregar-se inteiramente ao partido significa encontrar a si mesmo.

Sim, nosso partido toma por completo cada um de nós. Mas em troca dá a cada um de nós a satisfação suprema: a consciência de estar participando da construção de um futuro melhor, de carregar em seus ombros uma partícula do destino da humanidade e de não ter vivido sua vida em vão.

A fidelidade à causa dos trabalhadores exige de nós a mais alta devoção a nosso partido internacional. É claro que o partido também pode errar. Pelo esforço comum, vamos corrigir seus erros. Em suas fileiras podem adentrar elementos sem mérito. Pelo esforço comum, vamos os eliminar. Milhares de novos membros provavelmente vão entrar amanhã em suas fileiras sem a instrução necessária. Pelo esforço comum, vamos elevar seu nível revolucionário. Mas nunca vamos esquecer que nosso partido é agora a maior alavanca da história. Privados dessa alavanca, nenhum de nós tem significado. Com essa alavanca na mão, somos tudo, tudo, tudo!

Não somos um partido como os outros. Não é à toa que a reação imperialista nos persegue loucamente, colada furiosamente em nossos calcanhares. Os assassinos a seu serviço são os agentes do bando bonapartista de Moscou. Nossa jovem Internacional já conhece muitas vítimas. Na URSS, se contam os milhares. Na Espanha, às dezenas. Em outros países, às unidades. Com gratidão e amor, recordamos todos eles nestes momentos. Eles continuam lutando em espírito em nossas fileiras.

Em sua obtusidade e cinismo, os carrascos pensam que é possível nos amedrontar. Estão errados! Enquanto apanhamos, mais fortes ficamos. A política bestial de Stalin é uma simples política de desespero. Pode-se matar soldados individuais de nosso exército, mas não os amedrontar. Amigos, e especialmente vocês, jovens amigos, vamos repetir novamente neste dia de comemoração: é impossível nos amedrontar.

Queridos camaradas, foram necessários dez anos pro bando do Kremlin estrangular o Partido Bolchevique e transformar o primeiro Estado Operário numa sinistra caricatura. Foram necessários dez anos pra 3.ª Internacional [Comintern] amassar na lama seu próprio programa e transformar a si mesma num cadáver fétido. Dez anos! Apenas dez anos! Permitam-me terminar com uma previsão: durante os próximos dez anos, o programa da 4.ª Internacional vai se tornar o guia de milhões, e esses milhões de revolucionários vão aprender a tomar a terra e o céu de assalto.

Viva o Partido Operário Socialista dos Estados Unidos!

Viva a 4.ª Internacional!



domingo, 11 de junho de 2017

Trotsky condena Processos de Moscou

Nesta breve gravação feita no México, Lev Davidovich Bronstein (Leon Trotsky), fundador do Exército Vermelho, critica do exílio, em inglês, os julgamentos teatrais favorecidos por Iosif Stalin em Moscou entre os anos de 1936 e 1938 contra supostos “espiões sabotadores” e “inimigos do povo”. Todos os antigos bolcheviques agora julgados eram acusados de colaborar com Trotsky em complôs pra derrubar Stalin e em supostas iniciativas, financiadas pelos países capitalistas, pra invadir a URSS e desalojar os bolcheviques.

Em 1940, o próprio Trotsky seria assassinado no México por Ramón Mercader, a mando de Stalin. Existe uma polêmica que associa o galo cantando ao fundo, notável no começo e no fim do filme, à passagem bíblica em que Pedro nega falsamente três vezes aos soldados romanos que não conhecia Jesus, ao fim das quais um galo cantou ao fundo. Infelizmente, a qualidade do vídeo não está muito boa, mas somente no canal de Nikolai Iulski existe a versão integral, e a partir daí eu o baixei. Pra piorar, não achei em nenhum lugar da internet qualquer transcrição da fala de Trotsky, nem sequer fragmentos. Espero que, com esta postagem, eu possa estar suprindo a lacuna.

Eu já não sou muito fluente em inglês, então transcrevê-lo falado por um ucraniano num vídeo antigo foi quase impossível, e o trabalho ficou muito lacunar. Se não fossem os seguintes especialistas, que me ajudaram em listas de e-mail de tradutores a completar a transcrição, nada teria sido possível: Derval Aquino, David Coles, Gaby Nunes, Paula Ribeiro e Rui Silva. Eu mesmo traduzi do inglês pro português, legendei o vídeo e carreguei-o no meu antigo canal do YouTube. Seguem abaixo a legendagem, a transcrição em inglês e a tradução, que não sei se está toda correta, em português, cujo texto, apropriado pra leitura escrita, foi adaptado nas legendas:


Esteemed audience, you will easily understand if I begin my short address to you in my very imperfect English by addressing my warm thanks to the Mexican people and to the man who leads them with such merit and courage, President Cárdenas.

When monstrous and absurd accusations were hurled at me and my family, went my wife and myself under the lock and the key of the Norwegian government. Without being able to defend ourselves, the Mexican government opened the doors of this magnificent country and said to us: ‘Here, you can freely defend your right and your honor.’ Naturally, it is not a sympathy for myself, my ideas, which has motivated President Cárdenas, but a fidelity to his own ideas. All the more meritorious, then, is his act of democratic hospitality, so rare these days.

Stalin’s trial against me is built upon false confessions, extorted by modern inquisitorial methods, in the interest of the ruling elite. There are no crime in History more terrible, given intention and execution, than the Moscow trials of Zinovyev-Kamenev and then of Pyatakov-Radek. These trials developped not from Communism, not from Socialism, but from Stalinism, that is, from the irresponsible despotism of the bureaucracy over the people.

What is now my principle task? To reveal the truth, to show and to demonstrate that the true criminals hide under the cloak of the accusers. What will be the next step in this direction? The creation of an American, an European, and subsequently of the International Commission of Inquiry, composed of people who incontestably enjoy authority and public consideration. In confidence I undertake to present to such a Commission all my files, thousands of personal and open letters, in which the developments of my thought and my action is reflected day by day without any gaps. I have nothing to hide.

Dozens of witnesses who are abroad assess invariable facts and documents, which will shed light on the Moscow framers. The work of the commission of inquiry must terminate in a great counter-trial. A counter-trial is necessary to cleanse the atmosphere of the germs, of the seed, calumny, falsification, and frameups, whose source is Stalin’s police, the GPU, which has fallen to the level of the Nazi Gestapo.

Esteemed audience, you may have many varying attitude toward my ideas and my political activity for 40 years, but an impartial inquiry will confirm that there is not a stain on my honor both personal and political. Profoundly convinced that the right is on my side, I wholeheartedly salute the citizens of the New World.

____________________


Caros espectadores, vocês vão entender facilmente se eu começar minha breve mensagem a vocês em meu inglês muito imperfeito, enviando minha calorosa gratidão ao povo mexicano e ao homem que o comanda com tanto mérito e coragem, o presidente Cárdenas.

Ao serem lançadas monstruosas e absurdas acusações sobre mim e minha família, ficamos minha esposa e eu sob a proteção do governo norueguês. Sem podermos nos defender sozinhos, o governo mexicano abriu as portas desse magnífico país e nos disse: “Aqui vocês podem defender livremente seus direitos e sua honra.” Naturalmente, não foi uma simpatia por mim e minhas ideias que motivou o presidente Cárdenas, mas uma fidelidade a seus próprios ideais. Tão mais louvável, então, é seu ato de hospitalidade democrática, tão raro atualmente.

O julgamento de Stalin contra mim é baseado em falsas confissões, extorquidas com métodos inquisitoriais modernos, no interesse da elite governante. Não há crime mais terrível na história, em termos de intenção e execução, do que os julgamentos de Moscou contra Zinoviev e Kamenev, e depois contra Piatakov e Radek. Esses julgamentos derivam não do comunismo ou do socialismo, mas do stalinismo, isto é, do despotismo irresponsável da burocracia sobre o povo.

Qual é agora minha principal tarefa? Revelar a verdade, mostrar e provar que os verdadeiros criminosos se escondem sob o manto dos acusadores. Qual será o próximo passo nesse sentido? Criar uma Americana, uma Europeia e na sequência a Comissão Internacional de Inquérito, composta por pessoas que gozam de incontestável autoridade e estima pública. Eu me comprometo a apresentar privadamente a essa comissão todos os meus arquivos, milhares de cartas pessoais e abertas, nas quais se refletem os desdobramentos diários de meu pensamento e de minha ação, sem nenhuma lacuna. Nada tenho a esconder.

Dúzias de testemunhas no exterior estão analisando fatos e documentos incontestáveis que vão desvelar os falsos acusadores de Moscou. O trabalho da Comissão de Inquérito deve culminar num grande contrajulgamento. Um contrajulgamento é necessário para purgar a atmosfera dos germes, da podridão, calúnia, falsificação e conchavos, cujo ninho é a polícia de Stalin, a GPU, que decaiu ao nível da Gestapo nazista.

Caros espectadores, vocês podem ter posições muito variadas para com minhas ideias e minha atividade política em 40 anos, mas uma investigação imparcial vai confirmar que não há qualquer mancha em minha reputação, seja pessoal ou política. Profundamente convencido de que a verdade está comigo, saúdo calorosamente os cidadãos do Novo Mundo.



quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Todas as obras: Lenin, Trotsky e Stalin


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/sochinenia



Estou postando algo do qual talvez muita gente sinta falta: links com as coleções completas de todas as obras de Vladimir Lenin, Iosif Stalin e Leon Trotsky, as três principais figuras da Revolução Bolchevique. Eu sei que este não é especificamente um blog militante ou de comunismo, mas como muitos leitores se interessam pelo assunto, e como eu também posto aqui direto traduções dessas coisas, julguei que esta lista seria útil. Infelizmente quase tudo está em russo, mas tem algumas coisas em outras línguas também.

Essas coleções se chamam em russo Sochinenia (Obras) ou Polnoie sobranie sochinenii (Obras completas), daí a URL que fiz para a postagem. Para uma boa quantidade de seus textos em português, recomendo a versão correspondente do famoso e magnífico acervo do MIA (Arquivo Marxista na Internet). O administrador dessa seção é muito gente-fina, sempre aceita novas colaborações minhas! Seguem os links das bibliotecas com obras completas dos líderes, a maioria no original em russo, com os respectivos formatos de arquivo. Se tiverem mais alguma sugestão de link, é só postar um comentário:


LENIN

  • Em russo, formato DOC, inclui índices completos com a lista de obras em ordem alfabética ou sob outros critérios de classificação.
  • Em russo, disponibiliza em arquivos ZIP as versões em DOC, PDF ou DJVU (para ler este formato, recomendo o programa WinDJView), bem como alguns escritos separados e outros guias de referência.


TROTSKY

  • Em russo, pouca coisa em outras línguas, a única coleção livre de todos os seus escritos, em HTML. Só é um pouco difícil de pesquisar, porque está em ordem alfabética, e não conforme um índice cronológico, nem mesmo de acordo com o que já havia sido publicado na URSS até 1929.
  • Em espanhol, formato HTML, seus escritos (acredito que todos) de 1929 até sua morte, em 1940, facilmente pesquisáveis. O site, claro, é argentino, pois o país é um dos maiores focos atuais de cultivo e difusão da doutrina.
  • Em espanhol, disponível para baixar nos formatos EPUB e PDF, seção com as principais obras no site de livros Lectulandia, incluindo os escritos de 1929 a 1940 e outros textos avulsos (autobiografia, memórias, agitação, teoria).


STALIN

  • Em russo, uma das mais famosas coleções de suas obras completas, digitalizadas em HTML. Contém os quase 20 tomos tradicionais, bem como outros escritos separados, alguns só publicados recentemente. Se abrir um janelão com propaganda, espere alguns segundos e depois feche clicando no X acima à direita.
  • Em russo, disponibiliza em arquivos ZIP as versões em RTF, PDF ou DJVU, bem como alguns escritos separados (incluindo cartas íntimas, poemas e as famosas Questões do leninismo) e outros guias de referência.
  • Em inglês, é um pouco desorganizado por ser já um site antigo, mas é bastante rico em material traduzido em inglês, basta xeretar com calma. São as Obras completas e vários outros escritos, incluindo correspondência com estadistas como Truman, Attlee e Churchill. Algumas coisas estão em formato HTML, outras em DOC e outras em PDF.



domingo, 27 de dezembro de 2015

Um dia, Stalin elogiou Trotsky (1918)

Introdução (Erick Fishuk)

As palavras voam, mas os escritos ficam, já dizia Michel Temer. Se o seminário onde estudou o jovem Ioseb Dzhugashvili fosse de confissão romana, talvez ele tivesse aprendido esse ditado latino e jamais se entregado a arroubos elogiosos a colegas revolucionários que no futuro poderiam lhe dar as costas. O agora Iosif Stalin não imaginava que sua aprovação do comando militar de Leon Trotsky na Revolução de Outubro se eternizaria no periódico Pravda e seria desenterrada por futuros historiadores xeretas.

Em novembro de 1918, celebrando o aniversário da vitória bolchevique, o georgiano deixou à posteridade um relato fresco muito interessante sobre o desgaste final do Governo Provisório sucedâneo ao tsarismo e a luta armada que levou os comunistas ao poder. Até aí tudo bem. O texto só se tornaria estranho quase 100 anos depois por conta de seu reconhecimento, certamente sincero e sem dúvida justo, do papel do ex-menchevique ucraniano no êxito da revolta, sendo que ao longo dos anos 1920 os dois protagonistas travariam uma luta encarniçada pelo poder definitivo após a morte de Vladimir Lenin. Essa rixa gerou o primeiro grande racha do mundo comunista e acostumou o mundo a ver Stalin e Trotsky como antípodas desde sempre.

Dialética é enxergar as coisas além de suas aparências, em suas relações internas complexas e quase sempre contraditórias. Um mundo dividido em polos estanques é modelo do empirismo cego, e não por acaso chamado de “dialética” na língua cifrada do marxismo-leninismo triunfante na URSS. A informação que Hélène Carrère D’Encausse oferece nas páginas 123 e 124 de seu livro L’URSS de la Révolution à la mort de Staline, 1917-1953 (Paris, Seuil, 1993), de que em 1918 Stalin teria ressaltado o papel de Trotsky na Revolução de Outubro em artigo do Pravda, me fez parar a leitura e ir logo vasculhar a rede. Bastaram alguns minutos para descobrir que o artigo não somente existia, mas também havia sido adulterado para entrar nas Obras completas do líder. Os escritos ficam, e se ficam, o bicho come.

Em 6 de novembro de 1918, o jornal Pravda publicou em sua edição 241 o artigo de Stalin “Октябрьский переворот” (Oktiabrski perevorot), cujo título já faz pensar: a palavra perevorot, por exemplo, pode ser traduzida como “reviravolta”, “revolução” (na ciência, por exemplo), “golpe” (de Estado ou militar, por exemplo) ou “mudança” (política, por exemplo). Ora, Outubro foi um golpe ou uma revolução? No corpo do texto das duas versões a palavra só aparece uma vez, onde foi cômodo traduzir por “revolução”; mas notavelmente, apenas na segunda versão aparece duas vezes a expressão Oktiabrskoie vosstanie (Insurreição de Outubro), com direito a inicial maiúscula. Parece que no calor dos inícios Stalin ainda não tinha decidido criar a memória da “Grande Revolução Socialista de Outubro”, nem quis fazê-lo tão explicitamente a posteriori nos anos 1940. Assim, eu daria à tradução o título flexível e alusivo de “Revolução em outubro”.

Em essência, julguei que as alterações menores no texto das Obras completas estavam para trazer maior precisão, facilitando o entendimento, e mesmo o parágrafo que mudou de lugar corrige algo que realmente estava errado: o Governo Provisório só capitulou em definitivo entre a madrugada e a manhã de 26 de outubro (8 de novembro), e não na manhã de 25 de novembro. Porém, um novo parágrafo inicial abala o conjunto, provocando a impressão de inevitabilidade da revolta (ou golpe, ou revolução?) ante fatores relacionados à crueza da “reação”, consoante ao relato da Grande Revolução já canonizado. Mais chocante ainda é o último parágrafo dividido em dois: três figuras fundadoras desaparecem, enquanto o soviete e as tropas de Petrogrado sob a liderança de Trotsky perdem sua importância. Agora, é ler para crer.

Coloquei abaixo, completa, apenas a primeira versão, que contém minhas notas explicativas e uma das notas que aparecem nas Obras completas. Em seguida, adicionei os parágrafos modificados, separados do texto, com a outra nota das Obras completas, deixando para explicar as alterações menores nas próprias notas. A primeira versão em russo pode ser lida nesta página publicada pelo site contestador “Skepsis”, mas ela não indica todas as alterações. A segunda versão em russo foi publicada no tomo 4 das Obras completas (Moscou, OGIZ/Gospolitizdat, 1947), p. 152-154, e também pode ser lida na rede. Na Wikipédia em russo também há um exemplar da primeira versão, com diferenças na paragrafação.

___________________


Já no fim de setembro o Comitê Central (CC) bolchevique decidiu mobilizar todas as forças do partido para organizar uma insurreição vitoriosa. Para isso, o CC resolveu formar um Comitê Militar Revolucionário em Petrogrado, (1) conseguir que a guarnição dessa capital aí ficasse e convocar o Congresso Pan-Russo dos Sovietes. Esse congresso podia ser o único herdeiro do poder. Sem dúvida a conquista prévia dos Sovietes (2) de Moscou e Petrogrado, os mais influentes na retaguarda e no front, estava no plano geral de organização insurrecional.

Via Operária, (3) o órgão central do partido, obedecendo às instruções do CC, começou a conclamar abertamente à insurreição, preparando os operários e camponeses para a batalha decisiva.

A primeira rixa (4) com o Governo Provisório ocorreu por terem fechado o (5) Via Operária. Por ordem desse governo o jornal foi fechado, e por ordem do Comitê Militar Revolucionário ele foi aberto pelo caminho da revolução. (6) Tipografias foram fechadas, comissários do Governo Provisório foram demitidos. Foi em 24 de outubro.

Em 24 de outubro, (7) em toda uma série de repartições públicas centrais, comissários do Comitê Militar Revolucionário expulsaram pela força representantes do Governo Provisório, o que fez essas repartições caírem nas mãos do comitê e todo o aparato do governo se desorganizar. Ao longo do dia (24 de outubro) toda a guarnição, todos os regimentos (8) se aliaram decididos ao Comitê Militar Revolucionário – exceto apenas algumas escolas de cadetes e a divisão blindada. A conduta do Governo Provisório revelava indecisão: somente à noite ele decidiu ocupar as pontes com batalhões de choque, tendo conseguido elevar algumas delas. Em resposta, o Comitê Militar Revolucionário movimentou guardas-vermelhos do bairro Vyborg (9) e marinheiros que, tendo liquidado e dispersado os batalhões de choque, ocuparam as mesmas pontes. Neste momento começou a insurreição aberta: toda uma série de regimentos (10) foi deslocada com a missão de cercar todo o entorno do espaço onde ficam o estado-maior e o Palácio de Inverno. O Governo Provisório estava reunido no palácio. A união da divisão blindada ao Comitê Militar Revolucionário (na alta madrugada de 24 de outubro) acelerou o bom êxito da insurreição.

Em 25 de outubro, de manhã cedo, após o bombardeio do Palácio de Inverno e do estado-maior, após o tiroteio entre tropas dos sovietes e cadetes diante do palácio, o Governo Provisório capitulou.

Em 25 de outubro se abriu o Congresso dos Sovietes, ao qual o Comitê Militar Revolucionário transmitiu o poder conquistado.

Quem animou a revolução do começo ao fim foi o CC do partido, chefiado pelo camarada Lenin. Vladimir Ilich vivia então em Petrogrado, num apartamento secreto no bairro Vyborg. Na noite de 24 de outubro ele foi chamado para o comando geral do movimento no Instituto Smolny. (11) Todo o trabalho prático para organizar a insurreição se deu sob a liderança direta do camarada Trotsky, presidente do Soviete de Petrogrado. Pode-se dizer com segurança que pela rápida união da guarnição ao Soviete e pela hábil realização dos trabalhos do Comitê Militar Revolucionário, o partido deve antes de tudo e principalmente ao camarada Trotsky. Os camaradas Antonov (12) e Podvoiski (13) foram os principais ajudantes do camarada Trotsky.

___________________


A segunda versão tinha ainda o subtítulo “24 e 25 de outubro de 1917 em Petrogrado”, e antes do primeiro parágrafo original foi adicionado este:


Eis os acontecimentos mais importantes que precipitaram a Insurreição de Outubro: a intenção do Governo Provisório, após ceder Riga, de ceder também Petrogrado, a preparação do governo Kerenski para se transferir a Moscou, a decisão dos comandantes do velho exército de enviar toda a guarnição de Petrogrado ao front, deixando a capital indefesa, e finalmente o trabalho febril do congresso negro, (14) chefiado por Rodzianko (15) em Moscou, para organizar a contrarrevolução. Tudo isso, somado à crescente ruína econômica e à indisposição do front a continuar na guerra, determinou a inevitabilidade de uma rápida e áspera insurreição organizada como única saída à situação criada.

Os dois parágrafos que começam com “Em 25 de outubro” tiveram a ordem invertida, e a redação do primeiro (que se tornou segundo) passou a ser esta, poucas alterações:

Em 26 de outubro, de manhã cedo, após o bombardeio do Palácio de Inverno e do estado-maior pelo cruzador Aurora, após o tiroteio entre tropas dos sovietes e cadetes diante do palácio, o Governo Provisório capitulou.

Agora, o fatídico último parágrafo que virou dois:

Quem animou a revolução do começo ao fim foi o CC do partido, chefiado pelo camarada Lenin. Vladimir Ilich vivia então em Petrogrado, num apartamento secreto no bairro Vyborg. Na noite de 24 de outubro ele foi chamado para o comando geral do movimento no Instituto Smolny.

Papel destacado na Insurreição de Outubro tiveram os marinheiros do Báltico e os guardas-vermelhos do bairro Vyborg. Ante a excepcional coragem dessa gente, a guarnição de Petrogrado se limitou principalmente a dar apoio moral e, em parte, militar aos combatentes de vanguarda.

___________________


Notas do tradutor (Clique no número pra voltar)

(1) Em russo, “Piter”, até hoje um nome informal de São Petersburgo (Petrogrado, de 1914 a 1924).

(2) Na segunda versão: “Sovietes de Deputados”.

(3) [Nota 34 das Obras de Stalin, pp. 421-422] “Via Operária” (Rabochi Put) – Órgão central impresso do partido bolchevique, lançado após o Pravda ter sido fechado pelo Governo Provisório durante as Jornadas de Julho de 1917. Publicado de 3 de setembro a 26 de outubro de 1917, Via Operária tinha como redator-chefe I. V. Stalin.

(4) Na segunda versão: “A primeira rixa aberta”.

(5) Na segunda versão: “fechado o jornal bolchevique”.

(6) A adição de uma pequena partícula na segunda versão ressalta a ideia de reviravolta súbita, e a frase poderia ser assim retraduzida: “Por ordem desse governo o jornal foi fechado, mas por ordem do Comitê Militar Revolucionário logo foi aberto pelo caminho da revolução.”

(7) Lembrar que até 1.º de fevereiro de 1918 a Rússia usava o calendário juliano, que tinha um atraso de 13 dias em relação ao calendário gregoriano usado em todo o Ocidente.

(8) Na segunda versão: “regimentos em Petrogrado”.

(9) Em russo, “Vyborgskaia storona”. Além de várias outras acepções, a palavra storona também designava naquela época algumas regiões de São Petersburgo.

(10) Na segunda versão: “regimentos nossos”.

(11) Em russo, apenas “Smolny”, subentendendo-se que era o instituo de educação de moças nobres transferido em outubro de 1917 para Novocherkassk, cujo prédio vazio serviu de quartel-general para os bolcheviques insurretos e, até a transferência da capital para Moscou, foi estado-maior e residência do governo bolchevique, inclusive de Lenin. Atualmente pertence à administração regional.

(12) Vladimir Aleksandrovich Antonov-Ovseienko (1883-1938), ex-menchevique, um dos organizadores do assalto ao Palácio de Inverno na Revolução de Outubro ao lado dos bolcheviques, ocupou vários cargos na administração e diplomacia soviéticas. Aliado de Trotsky na oposição, foi cônsul-geral em Barcelona durante a Guerra Civil Espanhola e, mais tarde, preso e fuzilado pelo NKVD.

(13) Nikolai Ilich Podvoiski (1880-1948), bolchevique desde 1903, foi um dos organizadores militares da Revolução de Outubro e primeiro comissário de assuntos militares da Rússia soviética. Proeminente no Partido, presidiu o Sportintern (seção esportiva da Internacional Comunista), atuou em Outubro de Eisenstein no papel de si mesmo e desde 1935 prosseguiu na propaganda do regime.

(14) [Nota 33 das Obras de Stalin, pp. 421-422] Congresso negro – conferência ocorrida em Moscou de 12 a 14 de outubro de 1917 e presidida por Rodzianko. Nela participaram grandes latifundiários, industriais e usineiros, representantes do clero, generais e oficiais. A conferência se deu sob o signo da unificação das forças contrarrevolucionárias no combate ao bolchevismo e à crescente revolução.

(15) Mikhail Vladimirovich Rodzianko (1859-1924), militar e político do Império Russo, um dos fundadores do partido outubrista (grandes proprietários de terra liberais e moderados que pregavam a limitação dos poderes do tsar), tentou defender a manutenção da monarquia e participou do Governo Provisório até outubro de 1917. Após ter estado no Exército Branco, morreu no exílio.



domingo, 25 de outubro de 2015

Trotsky antevê hegemonia dos EUA

Leon Trotsky foi desde 1917 um notável líder bolchevique, fundou o Exército Vermelho e ocupou cargos importantes no Estado soviético e na Comintern, mas na luta de poder contra Iosif Stalin, que controlava de fato o país após a morte de Vladimir Lenin, terminou afastado de todos os seus cargos e exilado primeiro em Alma Ata, depois no estrangeiro, onde pulou de país em país até se fixar no México.

No desterro, Trotsky fez algumas declarações em inglês e francês, gravadas em áudio e vídeo, tendo sido esta, segundo o site Dangerous Minds, dada em Copenhague, capital da Dinamarca, em 1932, no período de quatro anos em que ele estava vivendo na ilha Büyükada, na costa da Turquia. A tomada, originalmente intitulada “Trotzky Makes Debut before Microphone”, é produção da Fox Movietone News, que em quadro inicial descreve o texto como “uma revelação exclusiva de sua visão dos assuntos europeus gravada em Copenhague”.

Dispensa explicações: a própria ocasião de ver Trotsky ao vivo legendado, e falando em inglês, já vale a pena. As breves informações sobre o vídeo e uma transcrição que completei e retifiquei (e que segue mais abaixo com a tradução em português, após a peça legendada) estão nesta página, e o vídeo sem legendas pode ser assistido nesta página.


The war and the post-war developments, including the Russian Revolution, have totally changed the economic, political, military and diplomatic face of our planet. The present crisis will mean a new era in history. The new face is not a stable one. The equilibrium of Europe has become a bitter reminiscence or a formless hint. Europe, in general, has ceased to be the centre of the world. It is foolish to hope that Europe as it is will again occupy that position. The present terrific crisis, in spite of its devastating effects on the United States, will change the relation of forces still further not in favour of Europe, but in favour of the United States and the colonial countries. To see far it is best to stand on the roof of a skyscraper. The most suitable point for observing the world panorama in every respect I consider to be New York.

As consequências da guerra e do pós-guerra, incluindo a Revolução Russa, mudaram toda a face econômica, política, militar e diplomática de nosso planeta. A crise atual abrirá uma nova era na história. Essa nova face não é estável. O equilíbrio da Europa se tornou amarga lembrança ou alusão disforme. A Europa, no geral, deixou de ser o centro do mundo. É leviano esperar que no atual estado ela volte a ocupar essa posição. A terrível crise atual, mesmo tendo efeitos devastadores sobre os Estados Unidos, mudará ainda mais a relação de forças a favor não da Europa, mas dos EUA e dos países coloniais. A vista mais ampla se tem no topo de um arranha-céu. Julgo ser Nova York o ponto mais adequado para observar todos os aspectos do panorama mundial.


domingo, 13 de setembro de 2015

A tarefa sagrada do Exército Vermelho

Este é o segundo dos raros discursos que pronunciou no início da Revolução de Outubro Leon Trotsky (nascido Lev Davidovich Bronstein), líder social-democrata ucraniano que se aliou aos bolcheviques em 1917 e se tornou fundador e chefe do Exército Vermelho, vencedor da Guerra Civil Russa contra os opositores de Lenin e garante da consolidação do poder comunista na futura URSS. Aparentemente, no período inicial da Revolução Russa, só existem dois discursos gravados por ele, a despeito de seu papel ainda enorme no regime, tendo sido o primeiro, de 1919, sobre as repúblicas soviéticas, já postado aqui no blog. Trotsky filmou outros discursos em inglês e francês no período tardio de sua vida, e pretendo postá-los legendados em breve.

Trotsky conta a história de um velho tártaro que o havia visitado para agradecer pela expulsão de tropas cossacas antibolcheviques da região em que morava, alegando que eles cometiam abusos e extorsões supostamente evitados pelos comunistas. A partir desse exemplo, o líder procura orgulhoso definir um caráter de classes à guerra civil em curso, postando os “brancos” ao lado de uma burguesia assassina e antipopular, e os “vermelhos” como defensores dos pobres e da liberdade. Por isso, o soldado de Lenin não deveria se esquecer de lutar sempre no interesse do combate à pobreza.

Este discurso, cujo título inicial é “Sviaschennaia zadacha Krasnoi armii”, parece incógnito até para os próprios russos. O áudio tem qualidade sofrível, e isso deve ter atrapalhado a transcrição na íntegra: o colaborador do SovMusic.ru pareceu o mais perdido, e outro site tem uma versão mais completa. Com esforço e pesquisa, completei de algum jeito as poucas lacunas e o datei do ano de 1920, como faz a maioria dos sites, embora alguns indiquem 1919. A seguir, antes dos textos em português e russo, está o vídeo legendado, no qual fiz as necessárias simplificações para acelerar a leitura:


[A tarefa sagrada do Exército Vermelho. Discurso do Comissário do Povo para Assuntos Militares e Navais, camarada Trotsky.]

Camaradas soldados do Exército Vermelho! Em 8 de março deste ano, veio me ver no Comissariado do Povo para Assuntos Militares o velho tártaro Burmai, (1) natural da província de Samara. (2) Ele foi mandado a Moscou pelos conterrâneos, trabalhadores camponeses tártaros, e com lágrimas nos olhos agradeceu ao Poder Soviético por ter libertado sua província dos bandos de Dutov. (3) Eis o que ele me disse:

“A presença dos cossacos em nosso povoado foi terrível. Seus oficiais não apenas tomavam nossos cavalos, gado, cereais, sem pagar nada, principalmente aos camponeses pobres. Não, mais ainda, nos humilhavam, perseguiam, agrediam, fuzilavam! Nós, tártaros, sofríamos o pior. Ouvimos que o Exército Vermelho estava se deslocando para a província de Samara, mas não sabíamos se seria melhor ou pior. E quando os cossacos deixaram o povoado, dando lugar aos soldados vermelhos, logo vimos que era outra gente. Não fomos mais ultrajados, os soldados falavam conosco como irmãos, no povoado e em todo o entorno se instalou a ordem. Respiramos aliviados e bendissemos o Exército Vermelho!”

Assim me disse o velho tártaro, pai de uma família numerosa, e ouvindo essas palavras, camaradas soldados, fui sentindo imenso orgulho de nosso Exército Vermelho Operário-Camponês. Este pequeno exemplo traduziu o legítimo caráter das tropas revolucionárias, bem como o pleno sentido desta guerra que nos obrigam a travar. De um lado, as tropas burguesas carniceiras representam na prática, em todo e qualquer lugar a que chegam, a pior forma de ludíbrio que havia sob os tsares, a opressão dos pobres. Do outro lado, as tropas vermelhas trazem a libertação a todos.

Então lembrem-se: é muito claro que cabe a vocês garantir o comer e beber dos pobres. Azar ao soldado que não entende a que foi indicado. E ao autêntico soldado do Exército Vermelho, que corajoso e honesto defende os direitos e interesses dos pobres, honra e glória, e a gratidão das massas trabalhadoras!

____________________


[Священная задача Красной армии. Слово народного комиссара по военным и морским делам товарища Троцкого.]

Товарищи солдаты Красной армии! 8 марта этого года пришёл ко мне, в народный комиссариат по военным делам, старый татарин Бурмай, родом из Самарской губернии. Явился он в Москву по воле своих односельчан – трудовых татарских крестьян и со слезами на глазах благодарил Советскую власть за освобождение Самарской губернии от дутовских банд. Вот что он сказал мне:

«Когда у нас стояли в селе казаки, много мы горя натерпелись. Казацкие офицеры не только забирали у нас лошадей, скот, хлеб, ничего не платя, особенно беднякам. Нет, мало того – они издевались над нами, преследовали нас, били, расстреливали! Нам, татарам, приходилось тяжелее всего. Мы слышали о том, что Красная армия движется на Самарскую губернию, но не знали – будет ли нам лучше или хуже. Когда же село наше было покинуто казаками, и к нам вступили красноармейцы, мы сразу увидели, что это другой народ. Нас перестали обижать, солдаты с нами разговаривали по-братски, в селе и везде вокруг установился порядок. Мы свободно вздохнули и благословили Красную армию!»

Так сказал мне старый татарин, отец многочисленной семьи, и слушая эти слова, я, товарищи солдаты, испытывал чувство гордости за нашу Рабоче-крестьянскую Красную армию. На этом маленьком примере обнаружился подлинный характер революционных войск, а также весь смысл этой войны, какую мы вынуждены вести. С одной стороны буржуазные боенские (4) войска, представляют на деле куда бы они ни пришли везде и всюду худшую форму неправды, которая была при царях, угнетение бедноты. С другой стороны, Красные войска которые несут всем освобождение.

Помните же: твёрдо наружи вам рученность еды и питья бедноты. (5) Горе солдату, который не понимает своего назначения. А настоящему солдату Красной армии, который мужественно и честно защищает права и интересы бедноты – ему честь и слава, и благодарности трудящихся масс!

___________________


Notas (Erick Fishuk)

(1) As transcrições que encontrei davam, sem ter certeza, o nome como “Бурлаев” (Burlaiev) ou “Бурлай” (Burlai), mas a meu ouvido pareceu mais “Бурмай” (Burmai), que também pode ser tanto um prenome quanto sobrenome de origem túrquica.

(2) Em russo, “província de Samara” é “Самарская губерния” (Samarskaia gubernia), sendo a gubernia uma divisão administrativa hoje extinta e dita governorate em inglês. Define-se a rigor em português, mas sem tradução exata, como divisão administrativa dirigida por um governador, e uma das definições do Aurélio (2004) para “governo” é justamente “Território da jurisdição de um governador”. A Wikipédia em português oscila entre as traduções “província” (verbete “guberniya”), forma que adotei para fluir a leitura e evitar confusão, e “governo-geral” (verbete “governorate”).

(3) Aleksandr Ilich Dutov (1879-1921), líder de tropas cossacas durante o período tsarista, já em novembro de 1917 liderou uma revolta antibolchevique no sul da Rússia, depois se integrou às tropas “brancas” da guerra civil e, após a derrota, foi morto no exílio chinês por um agente comunista.

(4) Trotsky aparentemente pronuncia “боинские” (boinskie), com acento no primeiro И (i), que deve ser uma forma antiga ou dialetal da palavra.

(5) O trecho “наружи... бедноты” não constava em nenhuma das transcrições online, e fui eu quem tirou de ouvido, mesmo não tendo certeza da exatidão.



domingo, 22 de fevereiro de 2015

Nova “classe” ou “camada” média em Trotsky?


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/camada

As traduções de clássicos do pensamento sistemático mundial a partir de línguas bem diferentes em estrutura das euro-ocidentais (inglês, francês, espanhol, italiano, português) sempre levantaram muitas dificuldades e deram origem a mal-entendidos, especialmente no tocante ao vocabulário. Freud a partir do alemão deve ser o desafio mais conhecido, e também o mais rico em casos, dentre os quais cito apenas a polêmica distinção entre “cultura” e “civilização”. Até dizem por aí, também, que a virgindade de Maria teria se baseado em problemas de tradução dos textos sagrados do hebraico para o grego...

O russo não causa menos problemas, principalmente porque em vários domínios seu vocabulário é bem mais rico do que os das línguas euro-ocidentais, e só para “trabalho”, “trabalhador”, “escravo”, “batalha” e “lutador”, por exemplo, existem diversos sinônimos que ainda por cima, às vezes, fazem o favor de aparecer juntos em trechos bem curtos de texto! Na semana passada mesmo troquei alguns e-mails com Alvaro Bianchi, professor de ciência política da Unicamp, militante do PSTU, especialista e teórico da ideologia e prática trotskistas, a respeito de uma expressão que aparece em algumas traduções inglesas de textos de Leon Trotsky, e que Alvaro julgava ser a tradução errada de alguma expressão do alemão ou do russo.

Segue abaixo o essencial de sua primeira mensagem do dia 19 de fevereiro, com algumas adaptações, mas que nos ensina muita coisa interessante: “Trotsky escrevia em russo, obviamente, mas também era fluente em alemão e ocasionalmente escrevia em francês. O problema está com os textos do exílio mexicano, os quais eram vertidos para o inglês imediatamente e publicados nessa língua em revistas como New International, ou no jornal The Militant. Minha dúvida está com uma expressão que geralmente é traduzida por ‘nova classe média’. Ela aparece em dois textos publicados em inglês em 1938 e 1939 como ‘new middle classes’. Minha dúvida é se essa foi uma tradução exata. Em Marx é comum a expressão ‘Mittelstand’, que literalmente é camadas ou estratos médios. Com Marx as traduções em inglês cometem a impropriedade de traduzir ‘Mittelstand’ por ‘middle class’.”

“O erro pode ter se reproduzido com Trotsky. Na literatura alemã, particularmente nos textos de Kautsky, nos quais aparece pela primeira vez essa noção, a expressão utilizada é ‘neuen Mittelstand’. Em alguns textos de Trotsky que eu tenho certeza que foram imediatamente publicados em alemão (particularmente aqueles sobre o nazismo), a palavra usada é ‘neuen Mittelstand’ (ler o texto “Was Nun?”). Ele pode ter escrito esses textos em alemão ou revisado as traduções. Em outros, aparentemente traduzidos do inglês, a expressão utilizada é ‘neuen Mittelklassen’ (ler o texto “Neunzig Jahre Kommunistisches Manifest). A resposta para a questão pode estar nas edições russas de Nossas tarefas políticas (ler a parte 3 em inglês) e de 1905 (ler o capítulo 4 em inglês), ambas existentes nas Sochinenia, as obras completas de Trotsky. Nas edições em inglês aparece a expressão ‘new middle classes’. Você faz ideia de qual é a palavra utilizada por Trotsky em russo nesses dois textos? Tem como descobrir isso?”

Na sequência, as ideias principais de minha resposta. Entre os dias 19 e 20, fiz uma pesquisa no Google e em páginas com obras de Trotsky em russo digitalizadas, e a primeira coisa que notei foi a citação, no prefácio em inglês de Nossas tarefas políticas que o Alvaro me indicou, de quão raro é achar essa obra em qualquer língua, por causa da contradição entre seu conteúdo político e a adesão posterior de Trotsky às fileiras bolcheviques. E de fato, mesmo procurando muito, não achei em russo nem essa obra, que de fato existe como uma brochura chamada Наши политические задачи [Nashi politicheskie zadachi], nem 1905.

Porém, combinei algumas palavras em russo também no Google com o que seria “nova classe média” em russo (“новый средний класс” [novy sredni klass]), e acabei chegando a obras de Trotsky que usavam o termo “новое среднее сословие” [novoye sredneie soslovie], sendo “сословие” [soslovie], pois, o termo em torno do qual gira a questão.

Segundo minhas consultas a dicionário e enciclopédia, “сословие” [soslovie] tem várias traduções, dentre as quais “classe” mesmo, “estamento”, “estado” (como em “terceiro estado”), “casta”, “grêmio”, “ofício”, “grupo” (por exemplo, na expressão “женское сословие” [zhenskoie soslovie], “o mulherio”), e acredito que se refira a um grupo mais fechado, que exige algum tipo de iniciação ou a posse de uma característica inata ou herdada, sendo que na Wikipédia o artigo em russo “Soslovie” remete ao português “Estamento”. Não conheço alemão para confirmar a equivalência com os termos que o Alvaro me indicou nessa língua, e lhe sugeri polidamente que talvez ele compreendesse melhor do que eu essa sociologia das “camadas” e “classes” ao longo da história.

Em todo caso, apontei-lhe ainda que nessa busca acabei caindo em outros escritos de Trotsky, e um deles que me chamou mais a atenção está no tomo 4 das Sochinenia, tomo que se chama “Ante um limiar histórico. Crônica política” e tem artigos dele relacionados a acontecimentos políticos entre 1900 e 1914. Como o Alvaro disse, vários desses artigos foram publicados em jornais estrangeiros e tiveram de ser traduzidos para o russo. Nesse tomo, há uma subdivisão chamada “Às vésperas da revolução” (referência à Revolução Russa de 1905), em que se encontram vários artigos publicados no Iskra (periódico de socialistas russos exilados do início do século 20) entre 1903 e 1905, e sete deles estão agrupados sob o título geral de “Cartas políticas”, embora eu não saiba o contexto geral de sua redação, nem por que receberam juntas esse título.

O referido artigo saiu no número 59 do Iskra de 10 de fevereiro de 1904 e tem o longo título “Новое ‘среднее сословие’. Выборы в Петербургскую думу. ‘Более или менее социалистическая’ демократия. ‘Оседло-образовательный’ ценз. Кто скажет последнее слово?”, traduzindo aproximadamente, “A nova ‘classe [soslovie] média’. Eleições para a Duma de São Petersburgo. Uma democracia ‘mais ou menos socialista’. Grau de ‘instrução-sedentarismo’. Quem dirá a última palavra?”. A tradução dos escritos dessa época é um tanto difícil, porque Trotsky se vale de um estilo muito peculiar, com ironias e repetições só compreensíveis naquele contexto. Porém, as primeiras palavras do artigo são as seguintes, muito sugestivas:

Русская “интеллигенция” дописывает последние страницы своей истории. Ее рост, развитие, упрочение ее позиций вызывают полное ее перерождение. Из своеобразного “ордена” с привлекательной романтической окраской она превращается в прозаическое “среднее сословие” буржуазного общества. В среднее сословие, ибо она стоит между крайними социальными классами, буржуазией и пролетариатом.
Tradução aproximada:
A “intelligentsia” russa está concluindo a escrita da última página de sua história. Seu crescimento, desenvolvimento e o fortalecimento de suas posições estão provocando seu pleno renascimento. De algo semelhante a uma “ordem” com uma atraente coloração romântica, ela está se transformando numa prosaica “classe [soslovie] média” da sociedade burguesa. É uma classe [soslovie] média, pois se localiza entre as classes [klassami, instrumental plural de klass] sociais extremas, a burguesia e o proletariado.
Como o paciente leitor deste blog deve ter notado, falei, falei, joguei inúmeras informações e no fim não dei nenhuma resposta pronta sobre a tradução da palavra russa “soslovie”. De fato, só notei isso ao terminar de transformar esta conversa em postagem, mas acredito que a resposta agradecida do Prof. Alvaro Bianchi já no fim da tarde do dia 20 deu o fecho que supre minha omissão involuntária: “Fiz outras consultas e cheguei à conclusão de que no início do século 20 a palavra ‘soslovie’ era utilizada na literatura marxista com o sentido de ‘estamento’ ou ‘casta’. Assim, parece-me que a melhor tradução para ‘новое среднее сословие’ [novoie sredneie soslovie] é ‘nova camada média’ ou ‘novos estamentos médios’. Quando se fala de classe burguesa ou classe operária, em russo o termo é sempre ‘класс’ [klass], e nunca ‘soslovie’.”

Coisas da vida, hehehe. Minha alegria só aumentou quando ele comunicou, por fim, que “Quando terminar de redigir a pequena nota na qual estou trabalhando te envio para dar uma olhada.” Vamos aguardar, quem sabe até eu não comunique algo a vocês quando sair!

Nota (29/5/2015): Um acadêmico, após ler esta postagem, enviou em meu e-mail pessoal alguns excertos de textos de Gregory L. Freeze, historiador da Rússia e professor da Universidade Brandeis, localizada em Waltham, perto de Boston, nos EUA. Um deles é o curto verbete “Soslovie”, da Encyclopedia of Russian History, publicado no site Encyclopedia.com. Outro é o artigo “The Soslovie (Estate) Paradigm and Russian Social History”, publicado na American Historical Review, vol. 91, n. 1 (Feb., 1986), pp. 11-36, e que pode ser visualizado e baixado na base de dados JSTOR, mas apenas em computadores de faculdades ou outras entidades cadastradas. Eu não tive tempo de ler a fundo os textos, mas quem quiser se aventurar, fique à vontade! Também agradeço ao amigo correspondente pelas dicas.



“Até a próxima postagem, amigos! Nos encontramos na revolução!”