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segunda-feira, 24 de março de 2025

Votos de fim de ano dos presidentes da França desde 2007

Esta publicação reúne a tradução direta do francês pro português de todos os discursos de fim de ano dos presidentes da República Francesa de 2007 a 2024, e ao longo dos anos pode seguir sendo atualizada. Desde que o Pan-Eslavo Brasil, meu canal no YouTube, foi “suicidado” pelo Google em agosto de 2021, tomei como tradição obrigatória publicar aqui, todo começo de ano, pelo menos os discursos comemorativos dos presidentes da França, da Rússia, da Bulgária e da Moldova. Os dois últimos, por mera afinidade cultural, e os dois primeiros, devido a minha familiaridade com suas línguas e meus longos anos de pesquisa sobre a antiga URSS e de contato com a história da Rússia contemporânea.

Sempre fui muito perfeccionista, portanto, legendar pra mim sempre foi uma atividade meio penosa, mesmo que em se tratando de uma atividade amadora e de uns poucos minutos de audiovisual. Como o Pan-Eslavo Brasil era focado nos países eslavos, os votos de Feliz Ano Novo de Vladimir Putin saíam com maior regularidade, a partir de 2018, 2019, mais ou menos, e, sobretudo, quando chegou em casa a internet por fibra óptica. Além disso, a cada novo ano, seus discursos ficavam mais curtos e mais repetitivos, o que tornava a tarefa ainda mais fácil, sem contar que tenho pleno domínio do vocabulário soviético e burocrático de Putin. Quanto à França, fui deixando de legendar os discursos de Emmanuel Macron, porque ele já começou falando mais do que a média dos anteriores, e a cada ano, ao contrário do Kremlin, aumentava ainda mais, me desanimando num cotidiano cada vez mais premido pelo doutorado.

O YouTube acabou, o doutorado também, mas “Ainda estou aqui” na página, e como ela é hoje meu único meio de comunicação, tento atualizar com uma publicação por dia, por mais besta que seja o conteúdo. Lembra? Começou com uma por semana, depois uma a cada dois dias, depois tive intervalos de longas pausas, e finalmente tô “firmão” aqui, rs. Outra vantagem é que, ao contrário dos discursos anteriores, traduzidos palavra por palavra e com ocasionais consultas ao dicionário, agora tomei a coragem de usar o Google Tradutor, mas de forma sábia: a “máquina” me dá o texto central, mas o reviso todo, confrontando com o original. É o mínimo que se espera de alguém que, mesmo sem formação oficial, se arroga o título de tradutor!

Portanto, esta iniciativa vem preencher uma lacuna, pois em anos anteriores, tanto na página quanto no antigo canal, apareceram discursos isolados com votos de fim de ano de Putin, François Hollande e Emmanuel Macron (sem contar Aliaksandr Lukashenka, dono de Belarus que – pra minha alegria! – só fala russo), também listados abaixo, quando já antigos. A iniciativa também se alinha a minha atividade preferida de tradução, que foi a razão de eu ter fundado tanto meu finado canal quanto está página: disponibilizar ao público leigo ou especializado documentos que podem servir pra pesquisa e compreensão históricas, contornando as barreiras linguísticas e dando a oportunidade pra que todo mundo tire criticamente suas próprias conclusões por meio do acesso direto às fontes. Em cada publicação, estão listadas as fontes dos vídeos e, quando fosse o caso, dos textos já transcritos.

Por enquanto, estou começando com Nicolas Sarkozy e passando por François Hollande e Emmanuel Macron, mas no futuro, se eu achar os vídeos, talvez eu também traduza as alocuções de 1974-1975 a 2006-2007 feitas por Valéry Giscard d’Estaing, François Mitterrand e Jacques Chirac, embora eu não vá legendar o audiovisual. Procurei manter um estilo mais formal e padronizado, sem as constantes abreviações e oralidades que emprego aqui, e com recursos gramaticais que também costumo evitar (futuro do presente simples, pronome enclítico). Cada ano se refere ao que vai começar no dia seguinte, ou seja, pro qual o presidente está fazendo votos ainda na noite de Réveillon (votos pra 2010 feitos em 31/12/2009, votos pra 2025 feitos em 31/12/2024 etc.).

Lembrando, claro, que devido à agilização produtiva, decidi manter sem legendas os vídeos posteriores ao Pan-Eslavo Brasil e publicar apenas os textos. Portanto, se você tem vontade de se voluntariar pra colocar legendas, sinta-se livre pra me contatar! Se você tiver essa coragem, também permito que coloque em seu próprio YouTube ou outra rede social as legendas com meu texto, mas por favor, em prol da educação, pelo menos cite o autor (i.e. eu) e o link da tradução original.


Nicolas Sarkozy (2007-2012)


François Hollande (2012-2017)


Emmanuel Macron (2017-2022 e 2022-2027)



terça-feira, 4 de março de 2025

Votos de Nicolas Sarkozy pra 2012


Endereço curto: fishuk.cc/voeux2012

Desde a primeira posse de Emmanuel Macron, em 2017, os registros no site oficial do Elysée começaram a ficar muito bagunçados, e alguns discursos sumiram, outros ficaram mais difíceis de encontrar, não foi constituído um acervo de vídeos históricos etc. Por isso, fiquei dependente do que pude encontrar pelo Google ou no YouTube.

Curiosamente, os europeus pareciam gostar nos anos 2000 muito mais do Dailymotion ou do Vimeo do que do próprio YouTube, portanto, foi muito mais fácil achar os discursos de Sarkozy na primeira plataforma. Não foi o caso, porém, destes votos pra 2012. Além disso, até hoje não entendo por que nenhum vídeo do presidente François Hollande foi publicado no YouTube oficial, enquanto o Dailymotion oficial é o mais completo de todos. E ainda por cima, conforme as datas dos vídeos, há um “buraco” no YouTube entre 28 de janeiro de 2011 e 15 (“Ao vivo”) ou 18 (“Vídeos”) de janeiro de 2019...

O ano de referência sempre é o próximo, ao qual cada presidente está desejando votos, e não o que está acabando, quando o discurso é gravado e lançado. Uso o Google Tradutor pra obter os textos mais rapidamente, mas revisando e confrontando manualmente com os originais. Pra França, a fonte desses textos, como é o caso dos votos pra 2012, está sendo um site de informações políticas, econômicas e sociais chamado “Vie publique”, ligado ao gabinete do primeiro-ministro, mas infelizmente pouco divulgado.



Meus caros compatriotas,

O ano de 2011 está chegando ao fim. Nele, muitas convulsões ocorreram.

Desde o início da crise que em três anos levou várias vezes a economia mundial à beira do colapso, nunca escondi de vocês a verdade sobre sua gravidade nem sobre as consequências que ela podia ter sobre o emprego e o poder de compra.

Essa crise sem precedentes, que pune 30 anos de desordem planetária na economia, no comércio, nas finanças e na moeda, e sem dúvida a mais grave desde a Segunda Guerra Mundial, essa crise ainda não acabou.

Ela arrastou para a turbulência países como Grécia, Irlanda e Portugal, bem como países tão poderosos quanto a Espanha e mesmo a Itália.

Na tempestade, vocês sofreram. Sei que a vida de muitos de vocês, já testada por dois anos difíceis, foi severamente testada mais uma vez. Vocês terminam o ano mais preocupados consigo mesmos e com seus filhos.

Entretanto, há motivos para esperança. Devemos e podemos continuar confiando no futuro. Pois se tantos países passaram por dificuldades insuperáveis, a França aguentou. Ela resistiu.

Se ela aguentou, se ela resistiu, se ela até agora conseguiu afastar a dúvida que desencadeia a crise de confiança, foi graças à coragem e ao sangue frio que vocês têm demonstrado há três anos, foi graças à solidez de nossas instituições, foi graças a nossa proteção social, que garante a solidariedade durante as adversidades, foi graças às reformas que realizamos nos últimos anos. Penso em particular na reforma da previdência e em todas as medidas visando reduzir nossos gastos públicos, que permitiram à França manter a confiança dos que lhe emprestam suas poupanças para financiar a economia nacional.

Não se trata de negar as dificuldades que estamos atravessando. Mas nessas adversidades, a França conseguiu preservar o essencial. Gostaria de prestar uma homenagem especial a todas e todos vocês que, com seu trabalho, contribuíram para o desenvolvimento de nossa economia.

Meus caros compatriotas,

Devemos ser corajosos, devemos ser lúcidos.

O que está acontecendo no mundo anuncia que o ano de 2012 será o de todos os riscos, mas também de todas as possibilidades. De todas as esperanças, se soubermos enfrentar os desafios. De todos os perigos, se ficarmos parados.

Adiar as escolhas porque elas são difíceis é a pior opção. Quando se decide tarde demais, o preço a pagar é mais alto e os sofrimentos são maiores.

Em 2012, o destino da França pode mudar mais uma vez.

Sair da crise, construir um novo modelo de crescimento, engendrar uma nova Europa: eis alguns dos desafios que nos aguardam. Quero expressar minha convicção de que, unidos a nossos parceiros europeus, seremos mais fortes para enfrentá-los.

Mas esses desafios são impostos a nós. Não podemos recusá-los nem os afastar. Não podemos ignorar esse mundo novo.

Daqui a cinco meses, teremos eleições presidenciais. É uma data importante, pois quando chegar a hora, vocês farão sua escolha. Mas até lá, devo continuar agindo, pois a história das próximas décadas está sendo escrita agora.

Junto com o Primeiro-Ministro, reuniremos no próximo dia 18 de janeiro os representantes das forças econômicas e sociais de nosso país. Ouvirei as propostas de todos e, antes do fim de janeiro, tomaremos e assumiremos decisões importantes, pois as apostas são cruciais.

A crise é grave, as circunstâncias são excepcionais, as decisões devem fazer jus a essa gravidade. É um dever do qual não fugirei.

Não subestimo os impactos que as agências de classificação de risco e as agitações do mercado financeiro podem ter sobre nossa economia, nem igualmente nossos erros passados, mas digo isto para que todos possam ouvir: não são os mercados nem as agências que farão a política da França.

No fundo, a única maneira de preservar nossa soberania e controlar nosso destino é escolher, como fizemos até agora, o caminho das reformas estruturais em vez do caminho das reações precipitadas que só aumentam a confusão e a desordem, sem restaurar a confiança.

Não está em questão uma nova rodada de cortes de gastos para o próximo ano. O que tinha que ser feito, foi feito pelo Governo.

Agora devemos trabalhar prioritariamente pelo crescimento, pela competitividade e pela reindustrialização, as únicas coisas que nos permitirão criar empregos e poder de compra.

Três assuntos me parecem dominar os outros.

Não sairemos dessa deixando para trás quem já está sofrendo as consequências dolorosas de uma crise pela qual não é responsável. Não construiremos nossa competitividade com base na exclusão, mas em nossa capacidade de dar a todos um lugar na Nação. Por isso, quem perdeu seu emprego deve receber agora toda a nossa atenção.

Precisamos mudar nossa visão sobre o desemprego. Fazer com que a especialização dos desempregados se torne a principal prioridade, para que todos possam reconstruir um futuro para si. Nosso objetivo deve ser especializar, e não apenas indenizar. Ninguém deve poder eximir-se dessa obrigação ou ser privado dessa possibilidade.

A segunda questão é o financiamento de nossa proteção social, que não pode mais se basear principalmente no trabalhador, muito vulnerável à deslocalização. Precisamos aliviar a pressão sobre o trabalhador e fazer com que as importações, que competem com nossos produtos devido à mão de obra barata, contribuam financeiramente. Há anos esse tópico tem estado no centro de todos os debates. Ouvirei as propostas dos parceiros sociais e então decidiremos.

O terceiro assunto é o da desregulamentação financeira, que choca vocês tanto mais que ela está, em grande parte, na raiz das dificuldades atuais.

O mercado financeiro deve estar envolvido na reparação dos danos que ele mesmo causou. É uma questão de eficiência. É uma questão de justiça. É uma questão de moral. O imposto sobre transações financeiras deve ser implementado.

Meus caros compatriotas,

Meu dever é o de encarar os desafios e proteger vocês.

Podem ter certeza de que assumirei completamente e até o fim as pesadas responsabilidades que vocês me confiaram e que jamais deixarei de agir em nome do interesse geral.

Todos deverão assumir suas responsabilidades, razão pela qual apelo a todos os que tomam as decisões nos negócios e na economia para que façam todo o possível para preservarem empregos. Apelo a todos os agentes do serviço público para que redobrem os cuidados para com todos os que precisarem de nossa solidariedade.

Meus caros compatriotas,

Tenho confiança nas forças da França.

Estou certo do caminho que devemos seguir.

A vocês, a todos os que lhes são queridos, a nossos soldados que arriscam suas vidas fora de nossas fronteiras, a suas famílias que vivem na ansiedade e a todos aqueles no mundo que lutam pela liberdade, dirijo esta noite meus melhores votos de felicidade para o ano que começa.

Feliz Ano Novo a todos.

Viva a República! E viva a França!



segunda-feira, 3 de março de 2025

Votos de Nicolas Sarkozy pra 2011


Endereço curto: fishuk.cc/voeux2011

Desde a primeira posse de Emmanuel Macron, em 2017, os registros no site oficial do Elysée começaram a ficar muito bagunçados, e alguns discursos sumiram, outros ficaram mais difíceis de encontrar, não foi constituído um acervo de vídeos históricos etc. Por isso, fiquei dependente do que pude encontrar pelo Google ou no YouTube.

Curiosamente, os europeus pareciam gostar nos anos 2000 muito mais do Dailymotion ou do Vimeo do que do próprio YouTube, portanto, foi muito mais fácil achar os discursos de Sarkozy, como estes votos pra 2011, na primeira plataforma. Além disso, até hoje não entendo por que nenhum vídeo do presidente François Hollande foi publicado no YouTube oficial, enquanto o Dailymotion oficial é o mais completo de todos. E ainda por cima, conforme as datas dos vídeos, há um “buraco” no YouTube entre 28 de janeiro de 2011 e 15 (“Ao vivo”) ou 18 (“Vídeos”) de janeiro de 2019...

O ano de referência sempre é o próximo, ao qual cada presidente está desejando votos, e não o que está acabando, quando o discurso é gravado e lançado. Uso o Google Tradutor pra obter os textos mais rapidamente, mas revisando e confrontando manualmente com os originais. Pra França, a fonte desses textos, como é o caso dos votos pra 2011, está sendo um site de informações políticas, econômicas e sociais chamado “Vie publique”, ligado ao gabinete do primeiro-ministro, mas infelizmente pouco divulgado.



Meus caros compatriotas,

O ano de 2010 está chegando ao fim. Sei que ele foi difícil para muitos de vocês. A crise econômica e financeira, iniciada há 3 anos, continua fazendo seus efeitos serem sentidos, e muitas pessoas perderam seus empregos, o que só exacerbou o sentimento de injustiça ressentido pelos assalariados que não tiveram nenhuma responsabilidade pela crise.

No entanto, graças ao trabalho dos franceses, a sua coragem, a sua capacidade de adaptação, à força de nossa economia e às vantagens de nosso modelo social, a recessão foi menos severa e duradoura do que a vivida por muitos de nossos parceiros.

E o ano de 2011 promete trazer esperança. O crescimento está voltando. As grandes reformas empreendidas estão começando a dar frutos. Nossas universidades, finalmente autônomas, estão se abrindo e se modernizando como nunca antes no passado. Nossos pesquisadores receberam recursos financeiros consideráveis graças ao grande empréstimo [programa de financiamento público massivo]. Nossas empresas aproveitam ao máximo o crédito fiscal de pesquisa para inovar. Mais de cinco milhões de assalariados cumpriram horas extras totalmente isentas de impostos, tanto para si mesmos quanto para as empresas em que trabalhavam, o que permitiu, apesar da crise, segurar o poder de compra. Nosso sistema previdenciário foi protegido da inevitável falência que o espreitava se não tivéssemos feito nada. As aposentadorias de nossos idosos é que foram salvas e, pela primeira vez, a França pôde enfrentar uma reforma capital sem violência nem bloqueio, graças ao serviço mínimo que funcionou bem e ao espírito de responsabilidade dos franceses que sabiam bem que esse compromisso, por mais doloroso que fosse, era inevitável. Quero prestar homenagem a sua maturidade e a sua inteligência coletiva.

A Europa conseguiu lidar com a tempestade, certamente não com suficiente completude, e muitas vezes sem a rapidez necessária, mas a Europa resistiu e nos protegeu.

Não acreditem, meus caros compatriotas, naqueles que propõem que abandonemos o euro. O isolamento da França seria uma loucura. O fim do euro seria o fim da Europa. Com todas as minhas forças me oporei a esse retrocesso que desrespeitaria 60 anos de construção europeia que trouxeram paz e fraternidade a nosso continente. Digo isso com tanto mais firmeza por sempre ter militado pela preferência comunitária e sempre lutado pela proteção de nossa indústria, pela reciprocidade e pelo fim da ingenuidade nas discussões comerciais com nossos principais parceiros. A Europa é essencial para nosso futuro, nossa identidade e nossos valores.

Minha mais profunda convicção para 2011 é que devemos continuar incansavelmente fortalecendo nossos pontos fortes e removendo nossos pontos fracos, sendo mais competitivos, formando melhor nossos jovens, trabalhando melhor, reduzindo nossos gastos públicos e nossos déficits, sob pena de ver nossa independência seriamente ameaçada. Vejamos o que aconteceu na Europa. Os países que quiseram viver acima de suas possibilidades, sem pensar no futuro, foram duramente punidos. Meu primeiro dever é proteger a França dessa perspectiva. Portanto, a França cumprirá seus compromissos equilibrando suas contas. Não vou abrir mão desse objetivo.

Sei que 2012 será um encontro eleitoral de grande importância. Mas estamos em 2011, não podemos nos dar ao luxo de um ano de imobilismo pré-eleitoral, enquanto o mundo avança a uma velocidade estonteante. Portanto, 2011 deve ser um ano útil para os franceses. A dificuldade não importa quando estão em jogo os interesses da nação e o bem comum dos franceses.

Em todas as circunstâncias, meu dever é colocar o interesse geral em primeiro lugar. Até o último minuto de meu mandato, essa será minha única regra. Assim, continuaremos com as reformas porque são a única maneira de preservar nosso modelo e nossa identidade, a única maneira de proteger a França e os franceses. Protegê-los da dependência, pois todos têm direito a sua dignidade diante dos tormentos da velhice. Protegê-los das deslocalizações, harmonizando nossa tributação com a de nossos vizinhos alemães. Protegê-los da violência cada vez mais brutal da parte de delinquentes reincidentes, abrindo nossos tribunais criminais para os júris populares. Assim, é o povo quem poderá opinar sobre a dureza da resposta a ser dada a comportamentos que deixam o país exasperado.

Com o primeiro-ministro François FILLON, em quem tenho total confiança, e com o governo, devemos trabalhar incansavelmente durante todo este ano a serviço de uma prosperidade francesa recuperada, que nos permitirá criar os empregos de que precisamos. Cumprirei meu dever ouvindo, dialogando, mas quando chegar a hora, tomando as decisões necessárias com espírito de verdade e justiça.

Farei isso respeitando escrupulosamente nossos mais caros princípios republicanos: a laicidade e a rejeição do comunitarismo. A lei que proíbe a burca será aplicada tanto no espírito quanto na letra. Faço a todos um lembrete de que não pode haver direitos sem a contrapartida de deveres. Por isso a escola é obrigatória. A evasão é inaceitável porque condena ao fracasso aqueles que nela recaem. O respeito à lei é intocável, ela não deve ser desrespeitada. Da mesma forma, o respeito devido à França por aqueles que acolhemos é uma exigência. A igualdade de oportunidades e a justiça, a não se confundirem com o igualitarismo ou o assistencialismo, devem nos levar a considerar a revalorização do trabalho como uma prioridade absolutamente intocável. Por fim, a liberdade deve andar de mãos dadas com o respeito que cada um deve aos outros.

Ao longo do ano, meus caros compatriotas, a França carregará a pesada responsabilidade da dupla presidência do G20 e do G8. Ela defenderá a ideia de um mundo mais regulado, menos brutal, onde a interdependência obriga todos a ouvirem mais os outros. Ela defenderá vigorosamente os interesses da França, sem jamais renunciar a seus valores, no que diz respeito ao multilateralismo, ao respeito pelos direitos humanos, à luta pelo desenvolvimento e ao imperativo da proteção de nosso planeta.

Meus caros compatriotas, quero lhes dirigir meus melhores votos, meus mais sinceros e calorosos votos de felicidade para este ano de 2011.

Tenho um pensamento especial para os que estão sofrendo e desorientados, especialmente nossos reféns, pelos quais seguiremos mobilizando todas as nossas forças até o dia de sua libertação, e para nossos soldados que estão passando este fim de ano longe de suas famílias, arriscando suas vidas para defender nossos valores e nossa liberdade.

Meus caros concidadãos,

Viva a República! E viva a França!



quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

Votos de Nicolas Sarkozy pra 2010


Endereço curto: fishuk.cc/voeux2010

Desde a primeira posse de Emmanuel Macron, em 2017, os registros no site oficial do Elysée começaram a ficar muito bagunçados, e alguns discursos sumiram, outros ficaram mais difíceis de encontrar, não foi constituído um acervo de vídeos históricos etc. Por isso, fiquei dependente do que pude encontrar pelo Google ou no YouTube.

Curiosamente, os europeus pareciam gostar nos anos 2000 muito mais do Dailymotion ou do Vimeo do que do próprio YouTube, portanto, foi muito mais fácil achar os discursos de Sarkozy, como estes votos pra 2010, na primeira plataforma. Além disso, até hoje não entendo por que nenhum vídeo do presidente François Hollande foi publicado no YouTube oficial, enquanto o Dailymotion oficial é o mais completo de todos. E ainda por cima, conforme as datas dos vídeos, há um “buraco” no YouTube entre 28 de janeiro de 2011 e 15 (“Ao vivo”) ou 18 (“Vídeos”) de janeiro de 2019...

O ano de referência sempre é o próximo, ao qual cada presidente está desejando votos, e não o que está acabando, quando o discurso é gravado e lançado. Uso o Google Tradutor pra obter os textos mais rapidamente, mas revisando e confrontando manualmente com os originais. Pra França, a fonte desses textos, como é o caso dos votos pra 2010, está sendo um site de informações políticas, econômicas e sociais chamado “Vie publique”, ligado ao gabinete do primeiro-ministro, mas infelizmente pouco divulgado.



Francesas, franceses, meus caros compatriotas,

O ano que está terminando foi difícil para todos. Nenhum continente, nenhum país, nenhum setor foi poupado. A crise econômica impôs novas dores, novos sofrimentos, na França e em outros lugares. Penso em particular em quem perdeu emprego. No entanto, nosso país foi menos afetado do que muitos outros. Devemos isso a nosso modelo social que amorteceu o choque, às medidas enérgicas que foram tomadas para apoiar a atividade e, sobretudo, para garantir que ninguém fique à beira do caminho.

Mas o maior crédito vai para cada um de vocês. Esta noite, quero prestar homenagem ao sangue frio e à coragem dos franceses face à crise. Quero prestar uma homenagem especial aos parceiros sociais que demonstraram um grande senso de responsabilidade, às associações que socorreram os que mais precisavam, aos líderes empresariais, inúmeros dos quais se esforçaram em salvar empregos.

Juntos evitamos o pior. Mas também preparamos o futuro. Num momento em que tudo indica que o crescimento retornará, vemos que durante este ano, em meio a dificuldades de todos os tipos, um novo mundo começou a ser construído.

Um novo ordenamento mundial está tomando forma por meio do G20. Problemas que há muito tempo são fonte de grande comoção e pareciam insolúveis, como bônus extravagantes ou paraísos fiscais, estão em processo de resolução. Até mesmo a cúpula de Copenhague abriu uma porta para o futuro ao conseguir fazer com que todos os Estados assumissem compromissos quantificados de combate ao aquecimento global e ao estabelecer o princípio de um financiamento para os países pobres, que será garantido pela tributação da especulação financeira. A Europa finalmente se dotou das instituições que lhe permitirão agir, e a França continuou se transformando. Ela chega ao fim deste ano com um sistema tributário mais favorável ao trabalho e ao investimento graças à reforma do imposto profissional, um ensino médio que prepara melhor para o ensino superior, universidades finalmente autônomas, um serviço mínimo de transporte público que funciona, o RSA que encoraja nossos compatriotas mais carentes a retornarem ao trabalho, uma formação profissional mais voltada para os jovens e para quem procura emprego, um sistema hospitalar, um mapa judiciário [distribuição dos tribunais em toda a França], uma organização de nossa Defesa mais adaptada às necessidades de nosso tempo, um fundo soberano à francesa que agora está ao lado de nossas empresas para ajudá-las a se desenvolver e protegê-las.

Graças a um plano de investimento sem precedentes, poderemos realizar a revolução digital, dar acesso à banda larga a todos, digitalizar nossos livros para que nossa língua e nossa cultura possam continuar a brilhar, mas também criar 20 mil vagas em internatos de excelência, para restabelecer uma igualdade real de oportunidades, e dotar nosso ensino superior e nossa pesquisa de recursos consideráveis para vencerem o desafio da inteligência.

Graças à lei Hadopi que será implementada em 2010, nossos criadores e artistas estarão protegidos.

Graças ao Fórum Ambiental de Grenelle, poderemos enfrentar o desafio de proteger nosso meio ambiente. É um domínio onde é muito difícil fazer evoluírem mentalidades e comportamentos. Mas não sou um homem que desiste na primeira dificuldade, e a tributação ecológica, que permite tributar a poluição e isentar o trabalho, é um desafio maior. No dia 20 de janeiro, o governo apresentará um novo sistema visando incentivar os consumidores a consumirem melhor e os produtores a produzirem de forma limpa.

Muitas reformas foram realizadas. Sei que elas reverteram hábitos e que, antes de produzirem seus efeitos, podem ter causado preocupações. Mas quem pode acreditar que a imobilidade seja uma alternativa neste mundo em mudança? Ainda temos muito trabalho a fazer. Eu o conduzirei com o Primeiro-Ministro e o Governo, em diálogo e com espírito de justiça. Em 2010, precisaremos: reduzir o desemprego e a exclusão, reduzir nossas despesas correntes para podermos aumentar nossas despesas futuras, simplificar nossa organização territorial pesada, complicada e cara demais, consolidar nosso sistema previdenciário, cuja sustentabilidade financeira tenho o dever de garantir, e enfrentar o desafio da dependência [dos idosos, cada vez mais numerosos devido ao envelhecimento demográfico], que nas próximas décadas será um dos problemas mais dolorosos que nossas famílias enfrentarão. Em 2010, reformaremos nossa Justiça para que ela proteja melhor as liberdades e seja mais atenciosa com as vítimas.

Meus caros compatriotas, mesmo que as provações não tenham terminado, 2010 será um ano de renovação. Os esforços que estamos fazendo há dois anos e meio darão frutos.

Neste momento crucial, devemos permanecer unidos, como soubemos estar no auge da crise. Foi essa união que nos permitiu tomar a iniciativa de puxar os outros. As ideias que a França defende poderão prevalecer na busca por uma nova ordem mundial: mais equilíbrio, mais regulação, mais justiça e paz. Essas ideias impõem que nos mostremos exemplares.

Respeitemo-nos uns aos outros, façamos um esforço para nos entender, evitemos palavras e atitudes que magoem. Sejamos capazes de debater sem nos destruir, nos insultar, nos desunir.

Uma França unida, confiando em si mesma, olhando para o futuro como a promessa de uma realização, é o desejo que tenho para nosso país.

A cada um de vocês, meus queridos compatriotas, faço meus votos de felicidade para o próximo ano, com um pensamento especial em nossos soldados, separados de suas famílias e que arriscam suas vidas para defender nossos valores e garantir nossa segurança.

A nossos compatriotas ultramarinos, quero expressar minha determinação de que a República mantenha para com eles a promessa de igualdade e dignidade que no passado não foi cumprida o bastante.

E aos mais vulneráveis entre nós, aos fragilizados pela idade, aos que foram duramente afetados pelos acidentes da vida, quero dizer esta noite que eles não serão abandonados. Diante do isolamento e da solidão, tão disseminados em nossas sociedades modernas, espero que 2010 seja o ano em que daremos um novo significado à bela palavra “fraternidade”, que está inscrita em nosso lema republicano.

Meus caros compatriotas,

Viva a República e viva a França!



terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

Votos de Nicolas Sarkozy pra 2009

Desde a primeira posse de Emmanuel Macron, em 2017, os registros no site oficial do Elysée começaram a ficar muito bagunçados, e alguns discursos sumiram, outros ficaram mais difíceis de encontrar, não foi constituído um acervo de vídeos históricos etc. Por isso, fiquei dependente do que pude encontrar pelo Google ou no YouTube.

Curiosamente, os europeus pareciam gostar nos anos 2000 muito mais do Dailymotion ou do Vimeo do que do próprio YouTube, portanto, foi muito mais fácil achar os discursos de Sarkozy, como estes votos pra 2009, na primeira plataforma. Além disso, até hoje não entendo por que nenhum vídeo do presidente François Hollande foi publicado no YouTube oficial, enquanto o Dailymotion oficial é o mais completo de todos. E ainda por cima, conforme as datas dos vídeos, há um “buraco” no YouTube entre 28 de janeiro de 2011 e 15 (“Ao vivo”) ou 18 (“Vídeos”) de janeiro de 2019...

O ano de referência sempre é o próximo, ao qual cada presidente está desejando votos, e não o que está acabando, quando o discurso é gravado e lançado. Uso o Google Tradutor pra obter os textos mais rapidamente, mas revisando e confrontando manualmente com os originais. Pra França, a fonte desses textos, como é o caso dos votos pra 2009, está sendo um site de informações políticas, econômicas e sociais chamado “Vie publique”, ligado ao gabinete do primeiro-ministro, mas infelizmente pouco divulgado.



Meus caros compatriotas,

O ano de 2008 está terminando. Ele foi rude.

Por essa razão, quero recordar primeiramente aqueles em quem a vida deu um duro golpe, os que perderam seus empregos sem terem culpa alguma por isso, os que são vítimas de injustiça, os que devem enfrentar a ausência de um ente querido.

Quero recordar nossos soldados que neste exato momento estão arriscando suas vidas por nossa segurança e pela paz. Quero recordar as famílias deles, que vivenciam dolorosamente essa separação. E mais ainda os que choram a perda de um filho, um marido, um noivo, um pai.

Para todos os franceses, este ano foi difícil. A crise econômica e financeira mundial acrescentou sua cota de dor e sofrimento. Cada um de vocês sofre suas consequências.

Face a essa crise, estou ciente de minha responsabilidade. Assumirei essa responsabilidade para que todos os que dela precisam sejam protegidos pelo Estado e para que nosso país saia mais forte dessa provação.

Desde que as dificuldades surgiram, sempre lhes disse a verdade e agi. Era meu dever.

Teria seria pior se, nessa situação, cada país tivesse tomado decisões sem se preocupar com os outros. As iniciativas que tomei em nome da presidência francesa da União Europeia para coordenar a ação de todos os europeus e reunir os chefes de Estado das vinte maiores potências mundiais em Washington permitiram evitar que o mundo recaísse na propensão do “cada um por si”, o que teria sido fatal. O imobilismo, igualmente, seria um erro.

Prometi que as mesmas causas não produziriam mais os mesmos efeitos. A França exigiu mudanças para moralizar o capitalismo, promover o empreendedor em detrimento do especulador, punir os excessos inaceitáveis que com razão escandalizaram vocês e devolver à dimensão humana seu devido lugar na economia. Teremos resultados na próxima cúpula em Londres, em 2 de abril.

Em um momento de crise como o mundo não via há muito tempo, tentei mudar a Europa. Sempre estive convencido de que a Europa não deve sofrer, mas agir e proteger. Com a resposta comum à crise financeira, a resolução da crise georgiana, a criação da União para o Mediterrâneo e o acordo sobre o clima e a energia, agora ficou provado que é possível. Foi apenas um primeiro passo. Devemos continuar, pois continuo convencido de que o mundo precisa de uma Europa forte, independente e imaginativa.

As dificuldades que nos aguardam em 2009 serão grandes. Tenho plena consciência disso. Estou mais decidido do que nunca a enfrentá-las, com preocupação pela justiça, com obsessão por obter resultados. Após preservar as economias de todos graças ao plano de resgate dos bancos, agora são os empregos de todos que devem ser salvos. Contribuirá para isso o plano de recuperação massiva, que foi decidido, com investimento de 26 bilhões de euros. É um esforço considerável. Medidas foram tomadas para salvar nossa indústria automobilística, em troca do compromisso dos fabricantes de não realocarem mais sua produção. Outras iniciativas serão tomadas com o fundo soberano que criamos para preservar nosso tecido industrial.

Seremos pragmáticos, atentos, reativos e, se precisarmos fazer mais, faremos, mas sem perder o sangue frio.

Temos meios, meus caros compatriotas, de enfrentar as dificuldades, desde que sejamos solidários uns com os outros. Não deixarei os mais fracos lutarem sozinhos nas piores dificuldades. Em tempos de provação, a solidariedade deve entrar em ação sem desencorajar o trabalho. Por essa razão, desejei a criação do RSA [auxílio desemprego sob condição de buscar trabalho ou realizar alguma atividade], que será aplicado pela primeira vez em 2009. A partir de agora, todo francês que retornar ao trabalho será encorajado, valorizado e recompensado.

Para sairmos dessa, todos deverão fazer esforços. Pois dessa crise nascerá um mundo novo para o qual devemos nos preparar trabalhando mais, investindo mais, continuando as reformas que não há como parar por serem vitais para nosso futuro.

Durante o ano de 2009, mudaremos os hospitais, cujo pessoal é admiravelmente dedicado e qualificado, a formação profissional indispensável para que todos tenham oportunidade de emprego, nossa organização territorial tornada inextricável por tanto conservadorismo, a pesquisa que condiciona nossa competitividade.

Penso também na reforma do ensino médio, necessária para evitar o fracasso de tantos de nossos jovens no ensino superior e a injustiça que faz tantos filhos e filhas de famílias modestas não terem as mesmas oportunidades do que os outros. Pedi que fosse dedicado tempo à consulta, porque reservar um tempo para refletirmos juntos não significa perder tempo com a reforma, mas ganhar.

Por fim, penso na reforma de nosso processo penal, tão importante para proteger melhor nossas liberdades individuais, cuja necessidade tão óbvia se evidenciou diversas vezes no ano que passou.

Meus caros compatriotas, realizarei todas essas reformas com o primeiro-ministro François Fillon e o governo, não por sistematismo, mas porque são a condição que permitirá à França conquistar seu lugar nesse novo mundo em construção. Assim, nos tornaremos mais competitivos, mais inovadores. E, ao mesmo tempo, preservaremos os valores que nos tornam únicos: o trabalho, o esforço, o mérito, a laicidade e a solidariedade, sem a qual nenhum esforço é aceitável.

Por fim, a França continuará a atuar na África, na Ásia e, claro, no Oriente Médio, para onde irei na segunda-feira, porque é a vocação da França buscar os caminhos da paz em todos os lugares, assim como é sua vocação atuar pelos direitos humanos.

Meus caros compatriotas,

A crise nos obriga a mudar de forma mais rápida e profunda. A crise é um teste, e também um desafio. Quero assumir esse desafio com vocês. Podem contar comigo.

Temos atributos consideráveis. Há no povo francês, quando unido, bastante energia, inteligência e coragem para que tenhamos juntos confiança no futuro.

Sairemos dessa crise mais fortes.

Do fundo do coração, faço a cada um de vocês meus melhores votos para 2009.

Viva a República, e viva a França!



segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

Votos de Nicolas Sarkozy pra 2008


Endereço curto: fishuk.cc/voeux2008

Estou começando hoje um projeto que acalentei durante anos, desde os tempos do Pan-Eslavo Brasil no YouTube. Nas próximas semanas, vou lançar todos os dias os discursos traduzidos de Ano Novo, mas ainda não publicados aqui, dos presidentes franceses e russos, após ter programado os conteúdos durante os fins de semana. Infelizmente, a única diferença é que os vídeos não vão ser legendados, aparecendo apenas no final da página tal como surgiram inicialmente.

Por enquanto, vou me limitar aos da França a partir de 2008, quando assumiu Nicolas Sarkozy, e da Rússia a partir de 2001, o segundo de Vladimir Putin, já que o primeiro da virada do 2000, feito em conjunto com o demissionário Boris Ieltsin, publiquei no fim do ano passado, devido a sua importância histórica. Futuramente, se encontrar os textos e os respectivos vídeos, posso traduzir também de presidentes anteriores ou mesmo estender minha coleção a outros países.

Com essa iniciativa, recupero uma “pegada” mais histórico-documental, talvez a mais estimada pelo público da página e que era a preferida (depois das canções, acredito, rs) da audiência do finado Pan-Eslavo Brasil. Ocasionalmente, posso interromper a sequência com outros artigos informativos, sobretudo traduzidos, mas vou evitar a publicação de “humor” duvidoso, notas aleatórias e memes de baixa qualidade. Ao final, com a tradução de todos os discursos encontrados, vou lançar a página unificada, pra ficar disponível à consulta de todos os pesquisadores e interessados em história contemporânea.

Desde a primeira posse de Emmanuel Macron, em 2017, os registros no site oficial do Elysée começaram a ficar muito bagunçados, e alguns discursos sumiram, outros ficaram mais difíceis de encontrar, não foi constituído um acervo de vídeos históricos etc. Por isso, fiquei dependente do que pude encontrar pelo Google ou no YouTube. Curiosamente, os europeus pareciam gostar nos anos 2000 muito mais do Dailymotion ou do Vimeo do que do próprio YouTube, portanto, foi muito mais fácil achar os discursos de Sarkozy, como os votos pra 2008, na primeira plataforma. Há também um backup no YouTube, de resolução igualmente baixa. Além disso, até hoje não entendo por que nenhum vídeo do presidente François Hollande foi publicado no YouTube oficial, enquanto o Dailymotion oficial é o mais completo de todos. E ainda por cima, conforme as datas dos vídeos, há um “buraco” no YouTube entre 28 de janeiro de 2011 e 15 (“Ao vivo”) ou 18 (“Vídeos”) de janeiro de 2019...

Dito isso, reitero que o ano de referência sempre vai ser o próximo, ao qual cada presidente está desejando votos, e não o que está acabando, quando o discurso é gravado e lançado. Estou usando o Google Tradutor pra obter os textos mais rapidamente, mas revisando e confrontando manualmente com os originais. Pra França, a fonte desses textos, como é o caso dos votos pra 2008, está sendo um site de informações políticas, econômicas e sociais chamado “Vie publique”, ligado ao gabinete do primeiro-ministro, mas infelizmente pouco divulgado.



Francesas, franceses, meus caros compatriotas,

Neste 31 de dezembro, ao final de um ano tão cheio para nosso país, é com gratidão pela confiança que vocês me demonstraram e consciente dos deveres que ela me impõe que me dirijo a vocês.

Esta noite, tenho um pensamento para cada um de vocês.

Penso em vocês que estão se preparando para celebrar o Ano Novo com a família, com os amigos, esquecendo as preocupações do dia a dia.

Penso em vocês que são obrigados a trabalhar esta noite a serviço dos outros e em vocês, soldados franceses em operações longe de seus lares e que arriscam suas vidas para defender nossos valores.

Penso também em vocês que estão sozinhos e para quem esta noite sem ninguém com quem conversar será uma noite de solidão como todas as outras.

Penso em vocês, a quem a vida pôs à prova e a quem a tristeza ou a dor afastou da celebração.

Quero dirigir a cada um de vocês uma mensagem de esperança, uma mensagem de fé na vida e no futuro. Gostaria de convencer até mesmo aquele que duvida de que a desgraça não é inevitável.

Em meio às alegrias e tristezas que a existência reserva para cada um de nós, podemos, por meio do esforço de todos, construir uma sociedade onde a vida será mais fácil, onde o futuro poderá ser encarado com maior confiança.

Essa é a tarefa que vocês me confiaram ao me elegerem Presidente da República em maio passado. Uma tarefa imensa, considerando o quanto a França ficou atrasada no caminhar do mundo.

Sei quão grande é a expectativa que vocês têm de uma mudança profunda após anos de esforços e sacrifícios que a maioria de vocês sente ter feito em vão.

Sei dos medos que muitos de vocês sentem quanto ao futuro de seus filhos. Sei da angústia que toma conta de vocês quando temem perder o emprego ou receiam que o aumento do custo de vida não lhes permita mais, mesmo trabalhando duro, proporcionar uma vida decente para sua família.

Sei de sua exasperação quando querem empreender ou quando querem trabalhar mais e têm a sensação de que tudo é feito para impedi-los.

Pois bem, nem tudo pode ser resolvido em um dia! Mas acreditem, minha determinação é inabalável. Apesar dos obstáculos, apesar das dificuldades, realizarei tudo o que prometi. Farei tudo simplesmente porque é do interesse da França.

Desde que vocês me escolheram para presidir os destinos de nosso país, eu quis pôr em marcha todo o possível para manter a promessa que lhes fiz de lhes devolver o orgulho de ser franceses, de lhes dar o sentimento de que, em nosso velho país, tudo poderia se tornar possível.

Nos últimos oito meses, com François Fillon e todo o governo, empreendi muitas mudanças profundas.

A quem acha que as coisas não aconteceram rápido o suficiente, quero dizer que fiz tudo o que julguei possível fazer, levando em conta a exigência de diálogo social e negociação. Não acredito na brutalidade como método de governo. Acredito que meu papel é convencer e reunir, e não ofender e dividir. É nisso que tenho me esforçado, com respeito por todos.

A quem acha que a mudança foi muito rápida, quero dizer que não devemos perder de vista o fato de nosso país ter esperado demais e de o tempo estar se esgotando, se quisermos continuar sendo donos de nosso destino.

Eu quis que todos encarassem suas responsabilidades. Tomei as minhas. Posso ter cometido erros. Mas durante oito meses, agi apenas com a preocupação de defender os interesses da França, e não houve um dia em que não repetisse a mim mesmo o compromisso que assumi com cada um de vocês: “Não os enganarei, não os trairei.”

Eu lhes devo a verdade. Sempre a direi a vocês. Não me permitirei nenhuma hipocrisia. Coloquei todo meu coração e toda minha energia em ser o presidente de todos os franceses, e não apenas daqueles que sempre compartilharam minhas convicções. Foi por isso que eu desejava a abertura, foi por isso que eu a fiz isso com homens e mulheres de valor. Eu não pedi que eles se renegassem. Simplesmente lhes propus que servissem a seu país. Eles aceitaram. Sou grato a eles por isso.

É com o mesmo espírito de abertura, com a mesma vontade de cumprir minhas promessas, que abordo este novo ano em que, apesar de uma conjuntura internacional freada pela crise financeira, deverão se fazer sentir os primeiros resultados da ação empreendida.

Estou bem ciente de que ainda há muito por fazer para que as medidas implementadas resultem em melhorias visíveis nas vidas diárias de vocês, assim atendendo a todas as expectativas que vocês expressaram ou restabelecendo à França sua posição e papel no mundo.

Neste final de 2007, está se concluindo uma primeira etapa no caminho da mudança. É a da emergência: emergência em superar as velhas divisões partidárias. Emergência no choque fiscal e social para restaurar a confiança e apoiar a atividade e que permitiu a nossa economia resistir à desaceleração conjuntural melhor do que outras. Emergência no poder de compra. Emergência na autonomia universitária. Emergência em reformar os regimes especiais, em liberar e reabilitar o trabalho. Emergência no serviço básico. Emergência na modernização do Estado, finalmente iniciada, emergência nas reformas esperadas há 20 ou 30 anos. Emergência em que a França sirva de exemplo em questões de meio-ambiente, qualidade de vida e desenvolvimento sustentável. Emergência no tratado simplificado para desbloquear a Europa, a Europa em que nunca deixei de pensar como indispensável. Emergência em que a França volte a falar com todos para poder desempenhar o papel que deve ser o seu a serviço da paz e do equilíbrio do mundo, a serviço dos que sofrem, das crianças e mulheres martirizadas, dos perseguidos, dos que esperam no fundo de suas prisões que a França fale e aja por eles.

Com 2008, começa uma segunda etapa: a de uma política que toca ainda mais no essencial, em nosso modo de ser na sociedade e no mundo, em nossa cultura, em nossa identidade, em nossos valores, em nossa relação com os outros, ou seja, fundamentalmente, em tudo o que forma uma civilização.

Por muito tempo, a política foi reduzida à gestão, permanecendo distante das verdadeiras causas de nossos males, que muitas vezes são mais profundos. Estou convencido de que, nos tempos em que vivemos, precisamos do que chamo de uma política de civilização.

Não resolveremos nada se não construirmos a escola e a cidade do século 21, se não colocarmos no cerne da política a preocupação com a integração, com a diversidade, com a justiça, com os direitos humanos e com o meio-ambiente, se não redescobrirmos o gosto pela aventura e pelo risco, o senso de responsabilidade simultâneo ao de respeito e solidariedade, ou se não nos comprometermos a moralizar o capitalismo financeiro. Não se trata de fazer discursos – tantos desses já feitos –, mas de agir para obter resultados.

Então, que a França mostre o caminho! É o que desde sempre todos os povos do mundo esperam dela.

É o que faremos a partir de 1.º de julho, quando a França assumir a presidência da União Europeia. É o que queremos fazer com a União para o Mediterrâneo, que é um grande sonho de civilização. É o que queremos fazer no mundo todo para devolver a esperança aos que não têm mais nenhuma. É o que, naturalmente, superando nossas dúvidas e angústias, devemos fazer primeiro pela própria França.

Nosso velho mundo precisa de uma nova Renascença. Pois bem, que a França seja a alma dessa Renascença! Esse é meu maior desejo para o próximo ano.

Desejo do fundo do coração que seja um ano de felicidade e sucesso para a França, para cada um de vocês e para todos aqueles que lhes são queridos.

Meus caros compatriotas,

Viva a República! Viva a França!



sábado, 2 de dezembro de 2023

Nojeiras políticas do sábado!


Endereço curto: fishuk.cc/mix-politica8




O primeiro meme, por cujo envio qual agradeço um amigo, dispensa explicações. O segundo, pelo qual agradeço outro amigo, tem a ver com a perseguição às comunidades de gênero na Rússia e ao envio em massa da população ativa masculina pra morrer de carne de canhão numa guerra inútil. A tradução vai terminar a explicação: 1) dois papais [homens, claro]; 2) nenhum papai. Homofobia e belicismo: a facho-esquerda duginista bananeira pira!

Agora, como alívio cômico, nesta edição do programa francês C dans l’air dedicada a como manifestantes em vários países muçulmanos estavam protestando contra a França após o 7 de Outubro em Israel e como as tensões intercomunitárias podiam respingar em Paris, um dos especialistas convidados (aqui abreviado) explica o medo que o presidente do Egito tem de abrir completamente a fronteira com a Faixa de Gaza e sofrer um afluxo de refugiados. Porém, parece que o apresentador Axel de Tarlé teve um problema pra pronunciar o nome do ditador, que em português acabou soando algo bem dúbio... Segue apenas a tradução sem transcrição:


Basbous – O Hamas é a ramificação palestina da Irmandade Muçulmana, e esta é a inimiga do regime no Egito. Abrir o caminho entre Gaza e o Sinai significa transportar o êxodo dos palestinos armados do Hamas e pôr o regime em dificuldades. Então...

Tarlé – Al-Xixi teme o Hamas, é isso?

Basbous – Obviamente!


Infelizmente, a curta trégua com troca de reféns e prisioneiros entre Hamas e Israel “flopou”, e eles já começaram a se bombardear mutuamente. Um dos representantes palestinos guardadinhos no Catar deu a seguinte declaração à GloboNews sobre como serão as próximas estratégias do grupo.


Nesta entrevista a um dos principais canais de TV públicos da França dada em 23 de agosto de 2023, o ex-presidente direitista Nicolas Sarkozy reconhece admirar Lula. Corrupto, grosseiro, pouco culto, policialesco, um dos piores governantes que o país já teve (não conseguiu se reeleger em 2012) e amigo de ditadores, em especial do líbio Gaddafi – de quem se suspeita ter financiado ilegalmente a primeira campanha do francês em 2007 –, vejam como o advogado admira o ex-metalúrgico. Com um fã-clube desses, eu preferia viver numa caverna, rs... Tradução sem transcrição:

“Sarkolula” – A política foi minha vida. Estaria mentindo se lhe dissesse que ela não me interessava mais. Aliás, esta é a prova: estamos falando a respeito. Sou apaixonado, interessado, às vezes fico exasperado ou entusiasmado...

Gilles Bouleau – Em seu livro o sr. expressa sua admiração por Lula, homem de esquerda no Brasil, e diz que ele é inoxidável e superou tantas provações, deixou o poder, foi condenado e preso, ele voltou e foi reeleito presidente...

“Sarkolula” – Ele teve um câncer na garganta que o privou... [da voz?]

Gilles Bouleau – Essa trajetória o inspira ou não? O sr. diz que o que ele fez, o sr. também está fazendo.

“Sarkolula” – Admiro e gosto do Lula, mas... eu jamais romperia com a França. E a política sempre vai me interessar. Mas não voltaria a responsabilidades ativas ou operacionais, porque meu tempo passou, e como dizia um grande autor [Jean Jaurès, outro político de esquerda], “O rio é fiel a sua fonte correndo para o mar.”


E não poderia deixar de terminar esta coletânea de hoje com um serviço de saúde pública: