segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Metodologia do trabalho científico (2)

O filósofo mineiro Antônio Joaquim Severino (n. 1941) tem uma longa trajetória nacional e internacional, tendo se especializado em filosofia da educação, por isso mesmo conhecido por diversos trabalhos que versam sobre a vida na universidade e a prática científica. Seu livro Metodologia do trabalho científico, lançado pela primeira vez em 1975, se tornou uma referência pra jovens graduandos como eu (na segunda metade da década de 2000), que inicialmente achou num sebo uma edição tão ou mais velha do que este mesmo que lhe escreve. Anos depois, achei em outro “alfarrábio” uma edição mais nova, e com base nela (22. ed. rev. e ampl., São Paulo, Cortez, 2002) fiz um fichamento quase completo do texto, que achei esses dias entre meus arquivos digitais.

Obviamente nada substitui a leitura do livro (baixe aqui uma versão digital!), e obviamente nenhum livro de metodologia substitui as alegrias e as cabeçadas da prática, como dizia meu orientador, que me achava muito obcecado por esses tratados teóricos. Felizmente, com o tempo fui levando os “metodólogos” menos a sério, mas numa época em que eu conseguia ler mais por ainda não ter sido sugado pelo mundo das redes sociais, as dicas de Severino foram importantíssimas pra que eu mesmo me inspirasse nas fases futuras do TCC, mestrado e doutorado. Esta segunda e última parte contém apenas os capítulos 7 e 8, que foram publicados separadamente devido ao tamanho do fichamento e ao detalhamento de seu conteúdo.

Segundo minhas próprias observações, fichei o livro em 2012 (defendi o TCC em fevereiro, mas já tinha lido aquela edição anterior) e deixei alguns capítulos de fora, por razões diversas. No meio, também podem ser encontrados adendos meus com links pra versões públicas de alguns dos textos citados, os quais felizmente consegui atualizar, sempre que possível, com a norma ou legislação vigente na atualidade. Não alterei o conteúdo e mudei muito pouco a redação. Boa leitura, e espero que você possa aproveitar!


Capítulo VII – Observações metodológicas referentes aos trabalhos de pós-graduação

A pós-graduação foi criada e regulamentada no Brasil a fim de levar a cabo a pesquisa científica rigorosa em sentido amplo, nas várias áreas do conhecimento, com a inerente fundamentação teórica, reflexão, levantamento sério de dados empíricos e compreensão profunda da realidade circundante. Seu fim maior é ir além da mera transmissão da ciência e realizar sua produção, qualificando o corpo docente universitário e preparando pesquisadores e profissionais altamente capacitados (p. 143).

Sobre a regulamentação dos cursos de pós-graduação, que no livro data de 1965-69: a pós-graduação stricto sensu era regulada, em 2012 (quando fiz o fichamento) pela Resolução CNE/CES n.º 1, de 3 de abril de 2001, alterada por resoluções de anos posteriores. Ela seria revogada pela Resolução CNE/CES n.º 7, de 11 de dezembro de 2017, que foi alterada por outra resolução em 2022. Na sequência, portanto, não houve novas revogações nem alterações.

A pós-graduação stricto sensu exige o cumprimento de determinada escolaridade e uma pesquisa traduzida na dissertação e na tese, as quais abordam uma problemática por meio de uma pesquisa e reflexão bem fundamentadas teoricamente. Essa pesquisa especializada exige um instrumental epistemológico bem fundamentado e a capacidade de manipular métodos e técnicas específicos a cada ciência, por isso, tudo o que foi dito até aqui sobre o trabalho científico em geral aplica-se aos trabalhos geralmente solicitados nos cursos de pós-graduação. Nesse nível, o estudo, a pesquisa e a elaboração exigem procedimentos mais disciplinados, rigorosos, sérios, metódicos e sistemáticos, além de maturidade intelectual e autonomia em relação à capacidade dos recursos institucionais (p. 144).


1. Qualidade e formas dos trabalhos exigidos nos cursos de pós-graduação

Os trabalhos de grau são assim chamados por visarem à aquisição do grau acadêmico de mestre (dissertação), doutor e livre-docente (teses). [A livre-docência praticamente desapareceu nas universidades federais, à exceção da UNIFESP e das estaduais paulistas. Até a última alteração do verbete (19/6/2025), outras estaduais e federais, além de algumas instituições privadas, tinham retomado ou implantado essa habilitação.] A eles podem se equiparar, dado o mesmo grau de exigência, o ensaio teórico e as monografias científicas especializadas, as quais não são necessariamente elaboradas com finalidades acadêmicas. Além disso, ótimos trabalhos científicos, em termos de pesquisa e de reflexão, também são feitos fora das universidades ou mesmo por pensadores isolados, sendo a referência à academia apenas uma preocupação didática (p. 145).


1.1. Características qualitativas

Os trabalhos científicos existem em diferentes formas, maspossuem em comum a procedência de uma pesquisa e reflexão pessoal, autônoma, criativa e rigorosa (p. 145).

O trabalho é pessoal porque o pesquisador deve se envolver de tal forma com seus objetivos que eles passam a fazer parte de sua vida e que ele vivencie a problemática, a qual lhe deve ser relevante e significativa e ser fruto de uma escolha política, não podendo, por isso, haver neutralidade. Esse caráter pessoal possui uma dimensão social, pois o objeto de pesquisa é escolhido com base em como o estudioso se pensa no mundo, ou seja: “Trata-se de saber bem, o mais explicitamente possível, o que se quer, o que se pretende no mundo dos homens” (p. 146).

O trabalho é autônomo por ser fruto do esforço do próprio pesquisador, o que não implica desconhecer ou desprezar outras contribuições, mas, pelo contrário, inter-relacionar-se com elas, dialeticamente as afirmando e superando/negando, e também com os fatos. É um movimento que implica certa audácia em arriscar-se a postular ideias novas eventualmente nascidas das intuições pessoais, em soltar-se, criar e avançar, para não repetir eternamente ideias e descobertas já feitas. Por isso, a citação e transcrição de outros autores são válidas, desde que representem um diálogo crítico com eles e com os autores entre si (p. 146).

Nessa transcrição, é preciso atentar para não se misturarem posições divergentes, devendo ser explicitada a contradição, no caso de se aproveitarem suas colocações. Ainda no plano da audácia, o mestrado no Brasil costuma diferenciar-se do doutorado por constituir ainda uma iniciação à vida científica, não podendo exigir, portanto, criação original e demandando alguma cautela e prudência [o autor parece não considerar o que hoje se conhece como iniciação científica e trabalho de conclusão de curso]; o doutorado já pressupõe iniciativa, criatividade, originalidade, maior clareza e firmeza quanto ao projeto político-existencial do pesquisador e interação com a teoria constituída (e não apenas apoio sobre ela), o que torna mais igualitárias e livresas relações com o orientador. Em todo caso, o pós-graduando em geral deve refletir e pesquisar dentro desse projeto político-existencial, sintonizado com o momento histórico e as exigências de sua sociedade concreta (p. 147).

Tal nível de iniciativa se traduz num trabalho também criativo, em que não mais apenas se aprende, mas também se colabora no progresso da ciência, e em que não basta um pleno domínio do instrumental científico – ainda importante, porém ‒, exigindo-se também uma prática e uma vivência que façam convergirem criatividade e técnica (p. 147-148). Deve-se lembrar ainda que um trabalho original não é necessariamente um trabalho com novidades, mas essencialmente uma volta à origens, um esclarecimento original de um assunto que pode ser já conhecido e sobre o qual, agora, lançam-se novas luzes (p. 148).

O trabalho científico da pós-graduação, enfim, deve ser extremamente rigoroso, o que não descarta a criatividade, antes a pressupõe, além de uma ruptura com todo espontaneísmo, diletantismo, senso comum e mediocridade, pois a disciplina exigida pela metodologia se soma à disciplina da vontade: “Não se faz ciência sem esforço, perseverança e obstinação.” São inevitáveis um empenho e um compromisso com muito estudo, reflexão, investigação, leitura e participação em debates, no contexto de uma vida científica sistemática, perseverante e com sólida fundamentação teórica (p. 148).


1.2. Ciência, pesquisa e pós-graduação

Os trabalhos científicos especificamente vinculados às exigências acadêmicas da pós-graduação são a tese e a dissertação, embora haja outros de menor porte exigidos e realizados, mas todos regidos pelas mesmas orientações gerais de criação, ou seja: o desenvolvimento da demonstração lógica e dissertativa de uma tese que solucione um problema, por meio de fatos, dados e ideias articulados como portadores de razões comprobatórias. O raciocínio científico pode formular-se por diversos procedimentos técnicos e lógicos, para que a ciência cumpra sua função de articular o lógico com o real, a teoria com a realidade, de articular os fatos por meio de uma interpretação teórica, já que só a teoria dá um significado científico a dados empíricos, mas gera ciência apenas em interação articulada com eles (p. 149).

Os recursos para se levantarem e configurarem dados empíricos são vários, entre eles a pesquisa experimental, bibliográfica, de campo, documental, histórica, fenomenológica, clínica, linguística etc., e a teoria intervém justamente na elaboração desses recursos, mas sobretudo na interpretação dos dados, efetivando o conhecimento científico ao fazer o lógico e o real confluírem e se articularem (p. 149-150). Porém, existem igualmente vários modos de se interpretar logicamente esses dados, de métodos epistemológicos que lhes dão uma compreensão significativa e cuja variedade mostra como a ciência não visa mais à verdade única e absoluta, mas a formas de conhecimento que deem sentido a certo aspecto da realidade. Assim, quão múltiplos são os aspectos de manifestação da realidade, tão múltiplos são os métodos de configurações dos fatos e os métodos epistemológicos com princípios, leis lógicas e fundamentos filosóficos específicos, com suas próprias delimitações às explicações científicas que produzem. Uma listagem dos métodos epistemológicos e suas características é encontrável em obras de filosofia e de metodologia da pesquisa científica (p. 150).


1.3. A tese de doutorado

A tese de doutorado é tida como o trabalho científico monográfico por excelência, por versar sobre um único tema delimitado e restrito, pesquisado com métodos instrumentais e lógicos próprios da área em questão, num empreendimento teórico, de campo, documental, experimental, histórico ou filosófico (p. 150-151). Dela se exige mais a colocação e solução de um problema por meio da demonstração argumentativa de hipóteses fundadas na evidência dos dados e da coerência lógica do raciocínio, além de uma contribuição suficientemente original ao tema, fazendo progredir e crescer a área concernente e a ciência em geral (p. 151).


1.4. A dissertação de mestrado

As exigências metodológicas, técnicas e lógicas da monografia científica também se aplicam à dissertação de mestrado, que igualmente comunica o produto de uma pesquisa e reflexão sobre um tema único e delimitado, mas com a diferença essencial de não exigir a mesma originalidade e alcance de contribuição da tese de doutorado, por se tratar ainda de um exercício de iniciação à ciência (p. 151). Ainda assim, como exigência lógica de qualquer trabalho com objetivos claros de natureza científica, demonstra uma proposição, e não apenas explana sobre um assunto, valendo-se de um raciocínio rigoroso conforme as bases lógicas do conhecimento humano, em que entram tanto a argumentação meramente dedutiva quanto a indução fundada na observação e experimentação (p. 151-152).

Por vezes, dissertações e mesmo teses levantam dados quantitativos puramente experimentais ou observados, ainda que a exigência básica seja a de uma reflexão interpretativa para que haja a prova e a demonstração de uma hipótese qualquer. Não que tais trabalhos não possam fornecer uma documentação básica para trabalhos interpretativos posteriores, mas deve-se insistir no caráter de interpretação, argumentação, dissertação e apreciação de toda monografia científica, cujo grau de complementação entre pesquisa empírica e reflexão racional serve de base para a avaliação do avanço que os resultados trouxeram para a área (p. 152).


1.5. O ensaio teórico

O ensaio teórico, como os outros trabalhos científicos, é um estudo discursivo igualmente rigoroso, mas com uma argumentação e exposição lógica e reflexiva de interpretações e julgamentos altamente pessoais, sem a extrema necessidade do apoio rígido e objetivo num aparato de documentação empírica e bibliográfica (p. 152-153).Até algumas teses são aceitas nesse estilo, em vista do rigor e maturidade do autor, sem dispensar a argumentação extremamente lógica e coerente, formato que exige, por isso, ampla informação cultural e alta maturidade intelectual (p. 153).


1.6. Caráter monográfico e coerência do texto

Mais duas características envolvem os trabalhos de pós-graduação:
1) Em teses e dissertações não se deve buscar falar de tudo, de todos os aspectos de uma problemática, pois o caráter monográfico do texto garante sua qualidade e sua contribuição à área específica. Atém-se ao substancial da pesquisa, sem grandes retomadas históricas, repetições ou contextualizações muito amplas, citando-se as fontes especializadas quando necessário, sem reproduzi-las (p. 153).
2) O texto deve ter coerência interna, primeiramente, no nível lógico-estrutural da articulação do raciocínio e, em seguida, no nível das premissas metodológicas adotadas, ou seja, se é feita uma opção epistemológica básica, as várias etapas do raciocínio devem ser coerentes com ela (p. 153-154).


2. O processo de orientação

O processo de orientação a mestrandos e doutorandos é uma relação basicamente educativa, em que a experiência do orientador interage com a construção intelectual do orientando e que não consiste em ensinamento instrucional ou aulas particulares, mas num diálogo em que a interação das partes respeita as respectivas autonomia e personalidade. Porém, essa relação muitas vezes é mal-entendida, com posições que oscilam entre a imposição de uma pesquisa determinada pelo orientador e uma liberdade que beira à desorientação, devendo, portanto, haver clareza no intercâmbio, inclusive com a consideração das diferenças nos níveis de mestrado e doutorado (p. 154).

O orientador não deve atuar como pai, tutor, protetor, advogado de defesa ou analista, muito menos como feitor, carrasco ou senhor, mas como educador, num trabalho conjunto que enriquece dialeticamente ambas as partes, sem qualquer tipo de submissão (p. 154). O orientando não pode passar uma sensação de insegurança ao orientador, provocando-lhe uma postura paternalista, pois a delimitação do tema e do problema, o desenvolvimento do trabalho e a conclusão do texto devem ser frutos de sua própria criação competente, segura e autônoma. Não se deve apresentar ao orientador propostas genéricas e ideias vagas, pois a contribuição dele será tanto maior quanto mais o orientando estiver problematizado e informado e tiver estudado e aprofundado as primeiras propostas por meio de debates, seminários e leituras, até a instrumentação suficiente para o amadurecimento de um projeto. É então que começa o diálogo, quando o orientador sugerirá pistas e testará opções, ajudando no esclarecimento da proposta e na revelação dos pontos fracos (p. 155).

Mesmo considerado um grau suficiente de autonomia do orientando, não deixam de ser muito importantes o diálogo e a discussão com o orientador, que definem e amadurecem a própria autonomia necessária para que o estudante se sinta seguro e ouse avançar (p. 155). Ao mesmo tempo, o orientador não pode assumir as tarefas que cabem ao orientando, sob o pretexto de fornecer segurança e apoio e com um ar inconfesso de desconfiança. O próprio estudante deve sozinho superar as possíveis lacunas de sua formação e fugir da vontade de se acomodar e hesitar (p. 155-156). Em suma, a orientação é uma leitura e discussão conjuntas, um embate de ideias, uma apresentação de sugestões, críticas, respostas e argumentações, em que nada se impõe, mas se convence, esclarece e previne, única atitude que garante ao orientador o papel de interlocutor (p. 156).

O orientando é quem constrói o projeto de dissertação ou tese após definir o tema, o problema e as hipóteses a demonstrar, e é quem elabora e desenvolve o raciocínio demonstrado pelo esquema lógico e redacional do texto, com os resultados a serem discutidos continuamente com o orientador. O estudante apresenta o projeto em forma inicial ao professor, que discute sua consistência e viabilidade, e sugere possíveis direcionamentos, leituras e campos bibliográficos novos, até que o orientando explore e teste as sugestões e reorganize o projeto, voltando ao debate em momento posterior, para que o orientador critique nos escritos a presença de generalidades retóricas e vagas e de conceitos imprecisos e ambíguos (p. 156).


3. O projeto de pesquisa (ver também minha própria publicação a respeito)

Fazer um trabalho monográfico exige certo amadurecimento cultivado em ativa vida intelectual, estudantil e científica e na participação em pesquisas, que tenham inserido o estudante num “universo familiar de problemas” a auxiliar a escolher um tema e um problema. A problematização deverá ter sido estimulada por cursos, leituras, participação em seminários e outras atividades que complementem o contexto gerado na pós-graduação, quando também se fornecem instrumentos e se levantam novas dúvidas (p. 157).

Geralmente ocorre uma grande cisão entre o cumprimento das disciplinas de pós-graduação e o momento de continuar a pesquisa, e a ausência de uma ponte entre esses momentos explica os problemas de muitos para levar adiante a investigação e os constantes abandonos do programa, com desistência da dissertação (p. 157). Os cursos de pós-graduação deveriam oferecer um instrumental metodológico e teórico que ajudasse a escolher com adequação um problema, encaminhasse à listagem de fontes e dados para verificar se o projeto é possível e orientasse para o levantamento bibliográfico e para o diálogo com os autores. Não basta assimilar técnicas de pesquisa, mas deve-se ainda penetrar num universo conceitual e teórico que revele a discussão crítica e relevante das várias ciências e provocar em si a reflexão, a pesquisa, a problematização das temáticas e a interação contínua com outros pensadores (p. 157-158).

A pós-graduação deveria ser um espaço onde se debatessem ideias, trocassem conhecimentos, refletisse, estudasse, lesse e discutisse tanto em aula quanto em grupos informais, reuniões extracurriculares, encontros científicos e culturais, defesas de tese e outras ocasiões. Porém, não basta uma estrutura eficiente se faltar aos próprios pós-graduandos uma postura comprometida e crítica resultante de um projeto político-existencial e da responsabilidade social, implicando em seriedade científica, trabalho persistente e dedicado, estudo sistemático, a batalha com as dificuldades conjunturais e estruturais e a busca permanente de informações. Essa falta de compromisso político-existencial dos estudantes justifica os fracassos e problemas de nossa pós-graduação, ao lado das próprias lacunas estruturais (p. 158).

Escolher e delimitar um tema pressupõe a ponderação de sua relevância acadêmica e, especialmente, social, a mais importante diante das graves contradições da sociedade brasileira (p. 159). Por isso, elaborar um projeto de pesquisa exige um universo político e epistemológico, mas também, da perspectiva prática e científica, a explicitação da perspectiva técnica por meio do cumprimento de algumas exigências acadêmicas feitas pelas instituições, que exigem um projeto bem elaborado com as funções de:
1) planejar ao próprio orientando o caminho da pesquisa e da reflexão, a fim de impor uma disciplina no trabalho, nos procedimentos, na organização do tempo, na sequência de roteiros e no cumprimento de prazos;
2) ajudar os professores a discutirem os projetos em seminários, para que os colegas o apreciem e discutam;
3) permitir aos orientadores discutir as perspectivas, possibilidades e ocasionais desvios da pesquisa;
4) subsidiar a banca examinadora para o exame de qualificação;
5) basear a solicitação de bolsas às agências de fomento (p. 159);
6) sugerir à coordenação dos programas de pós-graduação a aceitação ou não de matrículas de candidatos (p. 160).

Os elementos básicos do projeto de pesquisa são: a) título; b) tema e problema delimitados; c) hipóteses; d) quadro teórico; e) procedimentos técnicos e metodológicos; f) cronograma; g) referências bibliográficas (p. 160);


3.1. Quanto ao título do projeto

O título indica o assunto, nomeia o tema, podendo haver um “título geral”, que indica genericamente o teor do trabalho, e um “título técnico”, subtítulo que especifica sua temática (p. 160).


3.2. Determinação e delimitação do tema e do problema da pesquisa

Essa parte fundamental caracteriza o conteúdo da problemática a pesquisar. Como se sabe, o tema deve ser problematizado antes da pesquisa, tendo-se uma ideia bem clara e definida do problema, sua dificuldade e seu suposto caráter de contradição, além dos limites em que se desenrolarão a pesquisa e a demonstração (p. 160). Pode-se iniciar com uma apresentação sobre a gênese do problema e os motivos mais relevantes de sua abordagem, fazendo-se, em seguida, uma contraposição ao que já foi escrito sobre a temática, ao modo de um estado da questão, com rápida referência a essa literatura conforme um balanço crítico da bibliografia, já feito durante a fase de preparação. Depois, como principal, coloca-se o próprio problema e, então, as justificativas da pesquisa, não somente, mas em especial, as sociais e científicas. Seguem-se os objetivos que se visa atingir e a contribuição que se pretende trazer.


3.3. A formulação das hipóteses

Dado o problema, enunciam-se as hipóteses, com ênfase na tese, a ideia central, a hipótese geral a se demonstrar, já que monografias científicas sempre demonstram logicamente uma tese hipotética proposta para se resolver um problema. As hipóteses particulares pontuam as várias etapas de construção total do raciocínio e, tal como a tese, devem ser coerentes com o quadro teórico em que se baseia a demonstração. Hipótese não é pressuposto ou evidência prévia, algo já demonstrado como evidente, e sim algo que ainda se pretende demonstrar: muitos confundem hipóteses com postulados já evidentes no âmbito teórico ou metodológico da pesquisa, e assim nada mais haveria a demonstrar e o conhecimento não progride (p. 161).


3.4. Explicitação do quadro teórico

O quadro teórico é o universo logicamente coerente de categorias, princípios e conceitos em que se fundamenta e se desenvolve o trabalho, antes uma diretriz e orientação do que um modelo ou forma determinada, já que ele não pode escravizar o pensamento criativo de forma mecânica e rotineira. Porém, esse quadro teórico deve ser coerente e consistente, adequável ao tratamento do problema e ao raciocínio desenvolvido, sem agregar pressupostos que se contradigam, de forma que se invalide o trabalho científico (p. 162).


3.5. Indicação dos procedimentos metodológicos e técnicos

Já bem caracterizado o problema, anuncia-se então o tipo de pesquisa, explicitando-se se ela é teórica, empírica, histórica ou uma combinação de dois ou mais tipos. A isso se relaciona diretamente o que se pretende adotar como métodos (procedimentos mais abrangentes de raciocínio) e técnicas (procedimentos instrumentais mais delimitados que operacionalizam os métodos) (p. 162).


3.6. Estabelecimento do cronograma de pesquisa

As diversas fases de consecução da pesquisa devem ser divididas no tempo, por meio de um cronograma que distribua as tarefas nos períodos do calendário (p. 162-163).


3.7. Indicação da bibliografia

O que se aponta no projeto como bibliografia básica são os textos fundamentais que abordam a referida problemática, e é ampliada posteriormente ao se desenvolver a pesquisa, sendo, pois, menos completa do que a constante no trabalho final. Esse item pode se desdobrar em bibliografia consultada para a escrita do projeto e bibliografia não explorada, mas referente à temática e possivelmente útil ao trabalho (p. 163).

Observações (p. 163-164):
1. O projeto pode ser modificado durante a pesquisa, algo normal e mesmo positivo que decorre de ocasionais descobertas de fatos novos e do aperfeiçoamento das ideias pelo autor.
2. Os itens do projeto podem ser diminuídos, aumentados ou estruturados em outra posição, num processo flexível conforme a natureza e as exigências lógicas da pesquisa.
3. Projeto de pesquisa não é o plano de trabalho citado no item 1.3.1 da p. 78, o qual se trata apenas da estrutura lógica do texto, uma espécie de sumário do conteúdo, com os vários momentos do discurso.
4. O projeto se distingue bem da própria dissertação ou tese, pois é apenas – e esse é seu objetivo – um bom esclarecimento do caminho, dos instrumentos e das estratégias, não se destinando à publicação, como a dissertação ou tese, na qual está em jogo o resultado desencadeado conforme o projeto.


4. Observações técnicas específicas

(Este capítulo não está completamente fichado, pois as normas técnicas já estão bem definidas em documentos da ABNT, sendo extraídas apenas algumas observações relevantes.)

As monografias científicas em nível de pós-graduação se guiam pelas regras metodológicas gerais abordadas no capítulo V, mas com maior exigência de completude, rigor e precisão na pesquisa e na apresentação (p. 164).

Nas teses e dissertações, podem existir, mas apenas se demandados pela natureza do trabalho, apêndices (complementos do próprio autorao raciocínio, mas retendo a unidade do núcleo do texto) e anexos (documentos nem sempre do autor, que complementam o texto e fundamentam a pesquisa). Os índices especiais (de assuntos ou de autores) não são necessários nos trabalhos acadêmicos em geral, mas extremamente importantes nas pesquisas científicas publicadas. (p. 166)

O prefácio não deve ser inserido nos trabalhos didáticos e não é imprescindível nos trabalhos de grau, mas é importante nos textos dados ao público, contendo informações prévias sobre eles. Contudo, diferentemente da introdução, essencialmente temática, ele aborda o trabalho de forma um tanto extrínseca, como uma obra completa, independentemente do conteúdo, e expõe as intenções, dificuldades, expectativas e agradecimentos do autor (p. 166 e 171). O prefácio, especialmente se escrito por quem não é o autor, pode ser um espaço de debate com o escritor ou de exposição de ideias que ofereçam um contexto teórico maior ao texto seguinte (p. 171).

Deveria ser um hábito inserir na última página das dissertações e teses uma pequena síntese biobibliográfica do autor, com as principais informações de sua formação acadêmica, atividades profissionais e produção bibliográfica, algo de grande relevância para o conhecimento do pesquisador e para a facilitação de possíveis contatos e intercâmbios. É muito valiosa especialmente por quase sempre as dissertações e teses serem as primeiras publicações dos pós-graduandos, desconhecidos a serem divulgados fora do ambiente de trabalho (p. 172).


5. Outras exigências acadêmicas

A pós-graduação exige ainda outras atividades tradicionais, mas não necessariamente frequentes, como os resumos técnicos, os relatórios de pesquisa e os memoriais (p. 173)


5.1. Resumos técnicos de trabalhos científicos

O resumo apresenta concisamente o conteúdo de um trabalho científico, passando uma ideia completa de seu teor, os dados bibliográficos e as informações necessárias a uma primeira avaliação e à informação das possíveis contribuições, que justificam ou não a leitura integral. O resumo atém-se à ideia central do trabalho e informa sua natureza (pesquisa empírica, teórica ou histórica, levantamento documental etc.), objeto, objetivos, referências teóricas, metodologia e resultados/conclusões (p. 173).

O texto do resumo possui um único parágrafo, de tamanho entre 200 e 250 palavras, ou de 1400 a 1700 caracteres, expõe objetivamente o conteúdo e não opina, avalia ou desdobra as explicações. Seu início é a referência bibliográfica do trabalho e seu encerramento são as cinco palavras-chave mais significativas, enquanto a formatação é determinada pela decisão dos organizadores e pelo tipo de publicação a que se destina (p. 173-174).


5.2. Os relatórios técnicos de pesquisa

O percurso da vida acadêmica por vezes demanda a apresentação de relatórios de andamento ou conclusão da pesquisa, como exigência institucional de agências de fomento ou órgãos da própria instituição do pesquisador, ou ainda de exames de qualificação dos pós-graduandos. Os relatórios não se confundem com os memoriais, pois se referem a um período ou projeto em particular, mas apenas historiam seu desenvolvimento, os caminhos percorridos, as atividades realizadas e os resultados obtidos, sintetizando as conclusões e êxitos já alcançados, mas sem analisar e refletir sobre o conteúdo com a mesma desenvoltura (p. 174).

Pode-se iniciar o texto pela retomada dos objetivos, passando-se depois à descrição das atividades realizadas e dos resultados conseguidos e, se couber, um encerramento com a programação das próximas etapas da pesquisa restante, em que se detalham as várias atividades divididas nas diversas fases do prosseguimento. São lícitas ainda amostras dos produtos parciais anexadas ao relatório, em cujo texto elas já terão sido sintetizadas, sem a necessidade, pois, que integrem o próprio corpo do documento (p. 174).


5.3. O memorial

O memorial é uma peça institucional de concursos da carreira universitária e exames de qualificação ou seleção em pós-graduação, que visa retomar e avaliar a trajetória pessoal na profissão acadêmica, articulando os dados do curriculum vitae de forma intencional, lacônica e objetiva (p. 174-175). Esse registro importa ainda a outras finalidades da vida profissional, especialmente na percepção mais qualitativa do significado da carreira por terceiros, por avaliadores e pelo próprio autor, para inserir o projeto de trabalho no próprio projeto pessoal maior na forma de uma intencionalidade explicitada que orienta a pesquisa. Em exames de qualificação, explicita e justifica o significado dessa pesquisa, conforme determinado resultado construído dentro da proposta mais ampla de investimento existencial, pessoal e profissional (ciência e educação) do estudioso (p. 175).

Assim, o memorial consiste numa autobiografia de narrativa histórica, reflexiva, analítica e crítica sobre a trajetória acadêmico-profissional do pesquisador, com informação precisa e completa do caminho percorrido, uma avaliação de cada fase, de seu significado, das contribuições ou perdas que representaram, e um esforço de situá-las no respectivo cenário histórico-cultural mais amplo, de forma a não atrelá-las apenas à vontade ou omissão pessoais, mas às determinações entrecruzadas e outras variáveis da história coletiva (p. 175). Ressaltam-se as fontes e marcas das influências sofridas, os intercâmbios realizados com outras pessoas ou com os contextos culturais e os próprios posicionamentos teóricos e práticos, no sentido de uma evolução característica da história particular do autor (p. 176).

O memorial abrange a fase de formação do pesquisador, com abreviação do que foi menos marcante e desenvolvimento do que foi mais significativo, destaca os investimentos e experiências na atividade profissional, avalia sua repercussão no encaminhamento da própria vida e relaciona o amadurecimento intelectual à produção científica, situando cada trabalho numa etapa do esforço de apreensão ou construção do conhecimento. O encerramento do memorial se dá na indicação dos pretensos rumos a assumir ou que já estão sendo assumidos, a qual, no caso dos exames de qualificação, situa o projeto de dissertação ou tese como meta atual e de curto prazo e o articula com os investimentos já feitos ou que se pretendam fazer em breve. É recomendável criar subdivisões textuais que ressaltem os momentos mais importantes e, o que é melhor, expressem uma significação temática que traduzam a especificidade deles. O texto, enfim, não deve ser uma peça de autoelogio ou de autoflagelo, mas deve retratar a trajetória real de forma segura, fiel e tranquila, com os inevitáveis altos e baixos, conquista e perdas, pois “Relatada com autenticidade e criticamente assumida, nossa história de vida é nossa melhor referência” (p. 176).


6. Atividades científicas extra-acadêmicas

A vida científica não se restringe às obrigações curriculares universitárias, mas inclui ainda eventos em outros contextos institucionais e culturais para a apresentação e discussão de teses das áreas dos estudiosos e pesquisadores, que assim as divulgam e debatem. Trata-se de reuniões extraordinárias entre pessoas interessadas em determinado campo temático para a discussão sistemática de temas específicos durante certo intervalo de tempo, e embora os termos que as designam geralmente sejam tomados uns pelos outros, são identificáveis alguns traços específicos que originaram a nomenclatura. Apresentam-se e debatem-se nelas os trabalhos científicos, sob condições pré-definidas de forma, tempo e aprofundamento, usualmente com abertura de espaço para a manifestação e entrada no debate pelos participantes/assistentes (p. 177).

Originalmente, um congresso debate, discute e dissemina ideias e teses conformes à evolução do conhecimento de uma área, sob os auspícios e a organização de uma entidade ou associação de especialistas, comumente científica ou de classe, mas hoje também designa qualquer evento de certa monta em que se discutem questões de interesse dos presentes (p. 177-178).

Uma conferência é muito próxima do congresso, mas com uma abordagem mais ampla, sem partir de uma entidade específica, e sim de todas as entidades de determinada área, ocorrendo com certa periodicidade. Adiciona-se ainda o sentido de palestra, mas numa perspectiva mais solene, de caráter bem amplo e contexto não informal, proferida por um único expositor que costuma ser uma personalidade de destaque e cuja fala nem sempre é seguida de debates. A palestra em si é uma conferência menos solene, ocorrida isoladamente ou no contexto de um acontecimento maior, igualmente pronunciada por uma só pessoa e podendo ser seguida de debates (p. 178).

Um encontro é menos abrangente do que um congresso e mais amplo do que uma simples reunião, e visa debater abertamente temas predeterminados em formas variadas de sessão. Uma reunião, originalmente, é um evento mais restrito, mas tomada muitas vezes como um “encontro” ou um “congresso”, enquanto uma jornada faz referência a um evento de alguns dias, mas também associada a um “encontro” (p. 178).

Um simpósio geralmente é restrito a especialistas que discutem um único tema previamente determinado, pesquisado por estudiosos de instituições distintas, os quais trocam informações, ideias e conclusões e debatem sob a regência de um coordenador. Já o seminário funciona como um grupo de estudos mais restrito que discute um tema com base na colaboração de todos os participantes. Em encontros bastante amplos, existem as sessões de comunicações, com uma apresentação bem abreviada e sintética dos resultados de pesquisas por parte dos estudiosos, que relatam seus estudos, experiências e iniciativas pessoais envolvidos no trabalho (p. 179).

A mesa-redonda apresenta pontos de vista diferentes sobre um mesmo problema, a partir da exposição de um dos participantes, a qual os demais expositores comentam criticamente, em seguida voltando a palavra ao primeiro apresentador ou sendo aberta a participação dos espectadores. O painel exibe trabalhos sobre um mesmo tema, abordado de três ou mais formas diferentes e expostas livremente, sem partir da colocação prévia de nenhum participante (p. 179). Existem ainda as oficinas e workshops, reuniões no contexto de eventos maiores ou como atividades independentes, com um número mais restrito de expositores e participantes, em que se apresentam e são debatidos e divulgados trabalhos, experiências e pesquisas, com uma “realização participada” por meio da vivência de situações, projetos e programas por parte dos interessados (pp. 179-80). Por fim, as apresentações de pôsteres exibem cartazes que retratam alguma experiência, atividade ou proposta, expostos ao público e sobre os quais o autor se coloca à disposição para fornecer possíveis esclarecimentos solicitados (p. 180).

Os trabalhos enviados para a composição de atividades científicas são acompanhados de um resumo com 200 a 300 palavras em média, enquanto as comissões organizadoras informam com antecedência as condições de participação e o modelo que trabalhos e resumos devem seguir (p. 180).


7. As exigências éticas da pesquisa

As pesquisas envolvendo seres humanos devem seguir as exigências éticas da atividade científica em geral e da área de atuação profissional do pesquisador, além dos aspectos éticos específicos elaborados na Resolução n.º 196 do Conselho Nacional de Saúde de 10 de outubro de 1996 e da passagem do projeto pela apreciação de um Comitê de Ética autônomo da respectiva instituição (p. 180). [Essa resolução foi revogada pela Resolução n.º 466, de 12 de dezembro de 2012, do mesmo CNS, que também revogou resoluções de 2000 e 2008.]

Conforme a Resolução 196, as diretrizes éticas e a criação dos comitês visam proteger os interesses dos sujeitos pesquisados em sua dignidade e integridade e colaborar para que a pesquisa de desenvolva dentro de padrões éticos (pp. 180-1). Para o documento, a eticidade da pesquisa se define por sua: 1) autonomia (livre consentimento dos indivíduos estudados e proteção aos legalmente incapazes ou a grupos vulneráveis); 2) beneficência (busca do máximo de benefícios e do mínimo de danos e riscos potenciais, coletivos ou individuais); 3) não maleficência (evitamento de danos previsíveis); 4) justiça e equidade (pesquisa com relevância social) (p. 181).

Os estudiosos, em pesquisas institucionais ou com o fim de obter títulos acadêmicos, se lidarem com seres humanos, devem encaminhar previamente seus projetos ao Comitê de Ética da respectiva instituição, a fim de que sejam apreciados e aprovados (p. 181).


Capítulo VIII – Os pré-requisitos lógicos do trabalho científico

Em geral, o trabalho científico é um discurso lógico completo, de caráter narrativo, descritivo ou dissertativo, sendo o último modelo aqui abordado, pois demonstra uma tese por meio de argumentos a fim de solucionar um problema sobre determinado tema. Demonstrar é refletir argumentando, articular raciocínios, ideias e fatos que portem razões comprovadoras de algo, a serem afirmadas ou refutadas conforme as conclusões alcançadas. O raciocínio encadeia conhecimentos para que se produzam novos conhecimentos, num processo lógico que pode ser dedutivo ou indutivo (p. 183). A pesquisa, especialmente a experimental, e suas técnicas específicas são as responsáveis pelo levantamento e caracterização dos fatos (p. 184).


1. A demonstração

A forma lógica de toda monografia científica é a de demonstração de uma tese lançada hipoteticamente para a solução de um problema, o qual enuncia um tema de maneira interrogativa e levanta uma dúvida a ser superada, pressupondo ao menos uma alternativa como resposta, a ser escolhida para preencher uma evidência faltante. O problema é formulado de maneira clara, definida e delimitada, em termos igualmente bem definidos e claros. A demonstração da tese se compõe de uma série de argumentos, cada um provando uma fase do discurso, geralmente por meio do processo lógico dedutivo, e pode se dar: de maneira direta, quando se comprova a validade de uma proposta e a falsidade das demais por decorrência das premissas objetivamente verdadeiras às quais se aplicam os métodos lógicos do raciocínio; ou de maneira indireta, quando se verifica a falsidade da alternativa contraditória à tese proposta e de suas decorrências (p. 184-185). Um enunciado também se verifica falso quando desobedece diretamente ao princípio de não contradição ou a outro princípio evidente (p. 185).

Às vezes se tomam como sinônimos os termos dissertação, demonstração, argumentação e raciocínio, porém, aqui eles têm um uso mais restrito. Dissertação é o formato geral do discurso, em que se visa demonstrar uma tese por meio de argumentos; demonstração é a sequência de operações lógicas que encadeia conclusões até se chegar a uma conclusão final buscada; argumentação é a atividade de se utilizar argumentos, realizada durante a demonstração; e raciocínio é o processo lógico de conhecimento que também pode servir de argumento à demonstração (p. 185).

A argumentação se baseia na evidência dos fatos e na evidência racional, esta se justificando pelos princípios da lógica, que são os fundamentos mais primitivos, pois “A evidência é a certeza manifesta imposta pela força dos modos de atuação da própria razão” (p. 185). A principal fonte da argumentação científica é a apresentação dos fatos, e sua disposição formal exige a devida análise de todas as proposições e seus elementos, as quais devem ser sempre afirmativas, bem definidas e delimitadas e que, de fato, formarão os argumentos (p. 185-186). Argumentar é colocar e caracterizar devidamente uma tese, oferecer provas ou razões a seu favor e, se for o caso, concluir pela sua validade, devendo-se eventualmente analisar as razões contrárias para evitar possíveis dúvidas. Isso é feito repetidamente dentro do discurso dissertativo, em que se levantam fatos, caracterizam-se ideias e fatos, apresentam-se argumentos lógicos e configuram-se conclusões (p. 186).

Esquema dos aspectos lógicos do trabalho científico (p. 186): Entre o tema e a tese demonstrada, trilha-se um caminho no qual se encadeiam logicamente diversos argumentos, cada um lidando com raciocínios, ideias e fatos, todos articulados para compô-lo.


2. O raciocínio

O raciocínio, como processo lógico de pensamento, fornece sólidas bases para os argumentos e cria novos conhecimentos a partir de outros já adquiridos, mas com a mesma validade destes, tendo como estrutura um encadeamento de vários juízos, cada um formado por vários conceitos (p. 186-187). A monografia científica comporta um complexo de raciocínios desdobrados num discurso lógico cuja expressão linguística é a única função que cabe ao texto, o código cifrado da mensagem do autor, condicionado antes pela lógica da exposição do que pela estilística redacional, a fim de garantir o máximo de adequação entre o que se quis dizer e sua expressão escrita, a qual mediará os pensamentos do autor e do leitor. A importância do raciocínio obriga a tratar dos pontos básicos abaixo sobre o caráter dos processos lógicos do pensar e do conhecer que existem por trás da expressão linguística dos textos (p. 187).


2.1. A formação dos conceitos

Quando se raciocina, encadeiam-se juízos, e quando se formulam juízos, encadeiam-se conceitos, o que mostra como o conhecimento começa pela formação dos conceitos (p. 187-188). O conceito é a representação mental e imediata de um objeto, uma coisa, ser ou ideia, a qual substitui e faz existir para a inteligência, serpensada, e é simbolizado, no domínio linguístico, por um termo ou palavra que se torna sua imagem acústica ou oral. Deste modo, conceitos e termos podem ser tomados logicamente tanto do ponto de vista da compreensão, a série de propriedades características específicas do objeto pensado, como aspectos, dimensões e notas, que o distinguem dos demais, quanto do ponto de vista da extensão, o conjunto de objetos e seres que realizam certa compreensão, a classe de indivíduos que portam dadas propriedades características. Por isso, quanto mais a compreensão de um conceito for limitada, mais sua extensão será ampla, e vice-versa (é dado o exemplo dos conceitos “brasileiro” e “paulista”, sendo a extensão do primeiro mais ampla do que a do segundo, mas de compreensão mais pobre, pois que para ser paulista são necessárias as características do brasileiro e ainda outras específicas) (p. 188).

A importância das noções de compreensão e extensão de um conceito reside no fato de a primeira permitir a elaboração de sua definição, as notas que compõem o entendimento do conceito, e de a segunda possibilitar o traçado de sua divisão, a classificação do conceito conforme critérios determinados pela natureza do objeto. Uma definição correta não é nem maior nem menor do que o termo a que visa explicar, muito menos negativa, e sim deve ser igual a ele, para permitir a formulação exata das questões a serem debatidas no trabalho científico em geral (p. 189).

O vocabulário de uma língua, com seus termos que designam objetos por meio dos conceitos, pode se encontrar num nível corrente, comum, de comunicação social e absorvido pela experiência pessoal da cultura, mas não adaptado à vida científica, ou num nível técnico, o exigido pelo pensamento teórico, científico e filosófico, em que conceitos e termos se tornam unívocos, precisos e delimitados, por vezes mantida a mesma palavra, mas com significações bem definidas. De certa forma, o aprendizado de uma ciência consiste, no geral, no aceitamento e na familiarização com o vocabulário técnico (p. 189). Mas o vocabulário pode alcançar ainda um terceiro nível, específico, em que os conceitos adquirem um sentido limitado ao pensamento de um autor ou sistema de ideias, algo muito comum entre os teóricos que pensam a ciência e a filosofia. Assim, um trabalho científico de alto nível demanda o bom manejo de um vocabulário técnico e, eventualmente, de um específico, cuja compreensão é essencial para ler e estudar com profundidade em ciências e que compõem o centro nervoso da estrutura lógica do discurso, embora suas várias partes, no momento redacional, sejam ligadas pelo vocabulário comum, importante também na exposição mais simples de ideias técnicas ou específicas a se tornarem gradativamente acessíveis (p. 190).


2.2. A formação dos juízos

O pensamento e o conhecimento não se bastam apenas pela conceituação, completando-se com a formação dos juízos, atos mentais que afirmam ou negam alguma coisa, enunciados verbalmente por meio de uma proposição na qual seus termos, um sujeito e um predicado, são vinculados por um verbo (p. 190). As proposições podem advir da experiência ou da análise do conceito-sujeito, cuja nota de compreensão constitui o predicado. Num período composto pode haver várias proposições coordenadas, quando estão em condições de igualdade, ou subordinadas, quando estão em relação de dependência mútua, ambos os tipos de ligação fornecendo matéria para o desdobramento da argumentação. O raciocínio é quem sequencia os juízos e proposições, que devem conter uma boa elaboração lógica e sintático-gramatical (p. 191).


2.3. A elaboração dos raciocínios

O raciocínio, encadeamento de juízos conforme as leis lógicas do pensamento humano, é o fundamento do discurso científico, e dentro dele podem ser distinguidos a operação mental, o resultado dela e o sinal externo da mesma, todos designados igualmente como raciocínio. Ele é o último ato de conhecimento da inteligência, precedido pela apreensão formadora dos conceitos e pelo juízo formador das proposições, ordenando, portanto, esses juízos e conceitos (p. 191). Raciocinar é obter novos conhecimentos a partir de antigos, num processo que se divide nas fases de posse de um conhecimento e de aquisição de um novo, chamadas também de antecedente e consequente, entre as quais deve haver um nexo lógico cognoscitivo necessário (p. 191-192). O antecedente comporta uma ou várias premissas, e o consequente consiste numa conclusão, cuja afirmação decorre ou depende das premissas numa dita relação de consequência (p. 192).

As duas grandes formas do raciocínio são a dedutiva e a indutiva. Os antecedentes da dedução são princípios universais já previamente aceitos, por meio dos quais se chega, como decorrência lógica, a um consequente conclusivo e necessário menos universal. Na indução, os antecedentes são dados e fatos particulares e o consequente, uma afirmação mais universal, num processo em que também intervém a experiência sensível e concreta que elimina a simplicidade lógica da dedução, e o qual se aproxima do raciocínio por analogia que generalizade um ou mais fatos julgados característicos e representativos a outros fatos semelhantes da mesma espécie (pp. 192-3). O resultado da indução é uma generalização em forma de lei, regra, norma ou princípio universal, em que se chega de fatos particulares conhecidos até conclusões gerais antes desconhecidas (p. 193).


3. Processos lógicos de estudo

Outros processos lógicos também são inerentes ao trabalho científico, como a análise e a síntese, na abordagem de determinado tema. O processo analítico decompõe o objeto em suas partes constitutivas, tornando-o simples pelo processo de divisão, isolamento e discriminação, enquanto o processo sintético recompõe e reconstitui a totalidade do objeto decomposto pela análise, permitindo a visão de conjunto e a unidade das partes, até então separadas, num todo de sentido uno e global. A análise é o ponto de partida de todo tipo de classificação fundada em caracteres que definem critérios para a divisão das partes em certas ordens(como, por exemplo, as partes de um texto, cuja ordem não pode ser arbitrariamente mudada) (p. 193). Análise e síntese, apesar de opostas, não são excludentes, e sim complementares. Para compreender as coisas, passam-se por três momentos em que 1) ultrapassa-se a experiência comum de uma visão meramente indiferenciada da unidade inicial, 2) divide-se o todo em suas partes constitutivas por meio da análise e 3) toma-se consciência do todo por meio da síntese, mas com plena consciência das partes constitutivas; do que se pode afirmar que a análise é a mediação entre a síncrese e a síntese (p. 193-194).



Nenhum comentário:

Postar um comentário