sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Hobsbawm e o revisionismo sobre 1789

Estou publicando este trabalho destinado à avaliação da matéria HH752A – Tópicos Especiais em História LII, relativa à historiografia marxista e ministrada pelo professor Claudio Batalha durante minha graduação. A entrega está datada de 14 de outubro de 2008 e se trata de um comentário sobre o livro Ecos da Marselhesa, escrito pelo célebre historiador inglês Eric J. Hobsbawm e cujo quarto capítulo é dedicado a combater as abordagens que ele chama de “revisionistas” da Revolução Francesa. Em sua opinião, historiadores conservadores ou de extrema-direita já estariam negando a importância do evento e o condenando por um número de mortes supostamente desproporcional aos benefícios que teria trazido. Em historiografia, não gosto do termo “revisionismo”, pois na história do marxismo é usado por correntes que seguiram defendendo a justeza do stalinismo teórico e político contra qualquer discordância doutrinária. Porém, não sei se agi certo ao sugerir sua substituição por “negacionismo”.

Concordemos ou não com os argumentos de Hobsbawm (lembrando que se trata de um capítulo, e não do livro inteiro!), segue o alerta não só pra visões anticientíficas que até 2026 têm tomado diversos campos do conhecimento, mas também da persistente substituição da pesquisa histórica séria pela ideologia política, uma praga nas redes sociais. Não fiz alterações no conteúdo, mas apenas na redação, atualizando a ortografia, abolindo a numeração romana, refazendo as citações e substituindo algumas expressões menos adequadas. Se valeu a pena, não sei, mas meu eterno orientador Batalha deixou esta observação avaliativa, rs:


No Ocidente, o repensar dos grandes momentos da história da humanidade à luz das influências do presente de quem o fazia foi uma constante, e a perscrutação da Antiguidade entre os séculos 19 e 20, por exemplo, não foi exceção em seu tempo. A Revolução Francesa, marco inicial e profunda influência do período histórico atual, tornou-se um dos “alvos” preferidos para reelaborações ao longo do século passado. Para tanto, foi importante a sombra de outras experiências revolucionárias que suscitaram a retomada do tema, cujo ápice se deu nas comemorações do bicentenário da Revolução, em 1989. Eric J. Hobsbawm, em capítulo do livro Ecos da Marselhesa, (1) chama de “revisão” algumas das novas argumentações sobre a experiência de 1789 que, mais ideológicas do que históricas, negariam a evidente importância do evento para a posteridade. O texto mostra aos leitores o peso da contemporaneidade sobre o trabalho do historiador e argumenta como meras defesas ideológicas podem prejudicar a compreensão e a escrita da história.

Hobsbawm comenta que a interpretação consagrada da Revolução Francesa tem sofrido contestações de “revisionistas” que negariam a relevância do fato para a posteridade e julgariam excessivas suas mortes e destruições. Baseados não em fatos, mas em interpretações, privilegiariam um conteúdo ideológico ao invés de um aprofundamento do conhecimento sobre a Revolução. Os “revisionistas”, longe dos métodos da ciência histórica, prezariam a propaganda anti-iluminista e anticomunista contrária ao pensamento de esquerda mesclado à tradição revolucionária. Assim, os ataques seriam dirigidos não a 1789, mas a 1917, mais especificamente ao contexto russo, aos quais se soma a ânsia de muitos novos historiadores pela “inovação”, escolhendo na maioria das vezes o evento mais famoso da história ocidental.

Para Hobsbawm, a historiografia da Revolução Francesa, com a metamorfose dos referenciais ligados a ela, deveria ser repensada e completada pelo estudo de grupos ainda pouco abordados, mas sem se fazer refutações de fatos evidentes. Um desses referenciais era a França agrária e provinciana, anterior à Quarta República e orgulhosa de sua tradição revolucionária. Após a urbanização, o avanço tecnológico e as transformações sociais, econômicas e políticas posteriores à 2.ª Guerra Mundial, foi necessário repensar o modelo tradicional de revolução burguesa. O outro elo era com a tradição marxista fundida à historiografia francesa republicana defensora de 1789, tornada um cânone que foi levado a pique pela crise das esquerdas na década de 1980.

Hobsbawm afirma defender a importância da Revolução Francesa para a posteridade porque considera que um assunto ultrapassado nunca desperta paixões tanto tempo depois, o que não seria o caso de 1789, cujo impacto teria transformado o mundo permanentemente. Também se destacariam heranças como o modelo do Estado-nação, o sistema métrico decimal, a divisa “Liberdade, Igualdade, Fraternidade” e a lição de que o povo pode mudar a história por sua própria ação. Haveria ainda o significado simbólico da Revolução herdado pelas ações populares das gerações posteriores e o pensamento racionalista, importante contra o avanço atual do obscurantismo.

Neste texto, Hobsbawm ilustra a idéia de que o historiador não pode escapar às influências de sua época ao interpretar o passado, pesando ainda o problema da geração à qual pertence. (2) Com efeito, a questão da contemporaneidade da história está tanto nos clamores pela renovação da historiografia da Revolução Francesa quanto nas obras “revisionistas”. Dificilmente as abordagens do século 19 ou da primeira metade do 20 ainda teriam perguntas interessantes aos especialistas posteriores: até 1914-1918, eram “conservadores” e “liberais” que lutavam na política europeia, representando uma adesão ou não à monarquia em casos como o francês. A disputa entre capitalismo e comunismo iniciou-se em 1917, mas só dominou os debates após 1945, quando a esquerda revolucionária retomou 1789 ao falar de “revoluções burguesas”. O fim tido por “revolucionário” do comunismo europeu também mostra a sobrevivência do imaginário jacobino (como na “Revolução Romena” de 1989, a única transição violenta). Assim, as leituras predominantes da Revolução não resistiram a novos “presentes” que ressignificavam o evento, mas sem tirar sua importância.

Contudo, os “revisionistas”, mesmo impregnados por seu presente, não escrevem exatamente sobre história, pois Hobsbawm lembra que todos eram ideólogos, mas apenas alguns deles historiadores. A opção ideológica do historiador é importante e sempre transparece em seu modo de escrever a história, mas os “revisionistas” não escrevem história tendo uma ideologia por pano de fundo. O que eles fazem é pregar a própria ideologia opondo-se ao exemplo da interpretação histórica feita por “inimigos ideológicos”. Obviamente não se deve rejeitar a história escrita sob a luz do presente, mas é preciso que fique claro sobre qual é o tema real: Revolução Russa ou Francesa? A distinção ajuda a evitar anacronismos (a atribuição ao passado de elementos hodiernos) e o uso da história para a emissão de julgamentos morais alheios ao objeto de estudo.

Hobsbawm basicamente discute política, mas não sai da história ao defender a Revolução Francesa com lembranças da França recente e elementos de origem datada historicamente, como a ciência e a política que ela difundiu. Pode-se notar o alcance mundial do evento até mesmo no distante Brasil de Dom Pedro 1.º, receptor da “graça de Deus”, mas “Imperador Constitucional” dependente da “Unânime Aclamação dos Povos”: (3) o respaldo religioso de uma sociedade bastante católica convivia com a expressão, ainda que teórica, das bases terrenas e consensuais do reinado. O país, então, recebia reflexos de 1789, embora a separação entre Igreja e Estado aqui só se desse em 1889. Mas a presença de constituições e certa secularização do Estado esboçavam-se nas nações europeias e ditariam a tônica de seus futuros modelos de governo.

Interessante é o último parágrafo, que louva os valores racionalistas, laicos e universalistas da Revolução Francesa contra o avanço atual do irracionalismo e do obscurantismo. Organizações políticas ou religiosas, por meio do apelo emocional, têm mesmo pregado a intolerância religiosa, nacional, cultural e sexual, um conservadorismo contrário a benefícios da ciência e política modernas e a supressão de liberdades conquistadas no século 20. Mas um Estado laico evita os monopólios ideológicos ou religiosos e proporciona a convivência de ideias que contribuam juntas para a prática da alteridade e para o enriquecimento cultural e ético dos seres humanos.

Embora aluda aos valores ainda atuais do Iluminismo, o mesmo parágrafo guarda uma ambiguidade na palavra “barbárie”, que certamente expressa aí valores não aceitos pela civilização ocidental, como violência, preconceito e intolerância. Todavia, no cenário da Revolução Francesa, ela pode gerar confusão diante do ideário universalista que procurava ligar toda a humanidade por meio do espírito das Luzes. A noção de que a Europa liderava um pensamento considerado “universal” coroou o sentimento de superioridade que os europeus haviam assumido nas Grandes Navegações. Em nome da “civilização do mundo” com uma racionalidade “moderna” e “neutra”, os impérios coloniais crescentes acharam-se no direito de impor brutalmente seu modo de vida a povos “primitivos”, “selvagens” e “bárbaros” de vários continentes. Assim, embora o ideário de 1789 guiasse a libertação de alguns povos coloniais, suas ambiguidades desculparam indiretamente casos de submissão e extermínio de outros.

Outro vocábulo desconfortável é “revisionismo”, que nomeia aí a “revisão”, por motivos alheios à ciência histórica, de fatos e conseqüências da Revolução Francesa cuja veracidade é um consenso. A escolha não foi muito feliz, pois o termo originalmente carrega um dogmatismo contrário à revisão realista das interpretações consagradas das obras marxianas. Isso dá a impressão de que Hobsbawm é contrário, o que não é verdade, à renovação da historiografia da Revolução, que é sinônima à revisão dos seus principais postulados. Como se viu acima, o texto defende um repensar e um enriquecimento do que se tornou uma ortodoxia pedagógica e ideológica salpicada de marxismo. Por negarem fatos e a importância da Revolução, uma palavra adequada para qualificar autores como Furet e Cobban poderia ser negacionismo. (4) Atualmente ela é mais usada para quem nega a existência do Holocausto, mas poderia ser estendida a outros casos, como os criticados por Hobsbawm, substituindo um termo que tem uma carga ideológica vinda do marxismo ortodoxo.

Afora as pouquíssimas ambiguidades, o último capítulo de Ecos da Marselhesa tem alto valor diante das distorções factuais e do uso ideológico da história que privilegiam o proselitismo em detrimento de um melhor conhecimento do passado. Inseridas no contexto do bicentenário da Revolução Francesa, a narrativa fluida e as pitadas de fatos recentes tornam o texto agradável e acessível ao leitor culto, ao qual se proporciona fácil acesso à notável erudição de Hobsbawm. Poucos marxistas prosseguiram em sua luta contra o conservadorismo e ao mesmo tempo permaneceram fiéis a seu ideal, adaptando-o a uma realidade dinâmica. E entre eles está Hobsbawm, que aliou sua convicção nos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade à necessidade de responder a novas questões e a escritos “históricos” alheios aos procedimentos de sua ciência. É assim que o estudioso da “era das revoluções” e do “curto século 20” mostra que é preciso fazer uma história impregnada de presente, mas sem os erros de um anacronismo reducionista e moralizante.


Notas (Clique pra voltar ao texto)

(1) HOBSBAWM, Eric J. A revisão que subsiste. In: Ecos da Marselhesa: dois séculos revêem a Revolução Francesa. Tradução de Maria Celia Paoli. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p. 105-127.

(2) Id. O presente como história. In: HOBSBAWM, Eric J. Sobre história. Tradução de Cid Knipel Moreira. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 243-255.

(3) Constituição Política do Império do Brasil, de 25 de março de 1824. In: CAMPANHOLE, Adriano. Constituições do Brasil. 4. ed. São Paulo: Atlas, 1979, p. 655.

(4) Um exemplo de emprego do termo é MORAES, Luís Edmundo de Souza. O negacionismo e as Disputas de Memória: Reflexões sobre intelectuais de extrema-direita e a negação do holocausto. In: ENCONTRO DE HISTÓRIA ANPUH-RIO, 13., 2008, Rio de Janeiro. Anais. Disponível nesta página. Acesso em: 10 out. 2008.



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