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sábado, 7 de março de 2026

O melhor e o pior de Olavo de Carvalho

Ele dizia que “matava a cobra e mostrava o pau”. Mas na essência, o virginiano de Campinas (o que dá quase na mesma) não passava de um velho covarde, ressentido, estúpido e pouco instruído (leitura não é sinônimo de educação) que optou por usar sua mediocridade pessoal e profissional pra aplicar diversos tipos de golpe enquanto vivia no Brasil. Precisando fugir pra não arcar com as consequências, continuou enganando e fanatizando as pessoas por meio da internet – no que foi um pioneiro, antes até do boom das redes sociais. Se dizendo um “pensador” de nossa sociedade, idealizou uma realidade inexistente, incompatível com as necessidades e tradições do povo comum e suas múltiplas origens e influências. E pra esse ideal, atraiu uma elite – e uma classe média com sonho de elite – obcecada pelo antipetismo, apavorada com a emergência de novos atores sociais e, em nossa melhor tradução pseudointelectual, carente de um guru que lhes ditasse o que pensar, do que gostar e pelo que ou contra quem lutar.

Olavo de Carvalho não foi um “raio caído em céu azul”, e embora ele tenha se aproveitado do clima de desorientação geral que reinava no Brasil da década de 2010, lembremos que seus coices e charlatanices vêm de longa data, e que mesmo então vários outros picaretas floresceram no meio digital em diversas áreas, em diversos campos do espectro político – mostrando muito mais nosso analfabetismo crítico do que a falta de um “policiamento” ideológico tão caro às ditaduras. Hoje, tendo desaparecido devido a sua própria inépcia em cuidar da saúde, alguns grupelhos radicais e uns poucos políticos “bolsonaristas raiz” insistem em empunhar suas máximas como “pérolas de sabedoria” e “herança filosófica”. Ainda assim, o “casamento” entre Olavo e Jair Messias não foi pessoal nem espontâneo: primeiramente “esposado” pelo filho Eduardo Bolsonaro, o famoso “Bananinha” – já que o pai era um mero milico reaça fracassado sem ideias próprias –, foram “empurrados” pela turba nas manifestações de 2015-16 e se encontraram meio a contragosto na vitória de 2018.

Como diz minha avó, “dois bicudos não se beijam” (ou como ouvi outro dia sobre a China e os EUA, “não pode haver dois tigres no topo de uma mesma montanha”), portanto, a ruptura foi inevitável. Em poucos meses, sem colher os louros que julgava merecidos, mas que sequer foram prometidos pelo novo governo, Olavo partiu pra velha tática de xingamentos, difamação e rancor; basta lembrar que suas duas indicações, Vélez Rodríguez pra Educação e Ernesto Araújo pras Relações Interiores, não duraram muito e hoje vagueiam na irrelevância. Nada disso diminuiu sua popularidade em meios aos apoiadores do caos que se instalava em Brasília, e o conglomerado Brasil Paralelo, com todo o estrago que promove na esfera da popularização de conhecimento, reivindica abertamente o “olavismo”.

Entre aulas fajutas, requisitórios coprolálicos e atuações que passaram pra história como verdadeiros memes, também acabei perpetuando alguns cortes de pensamentos isolados no Pan-Eslavo Brasil, meu finado canal no YouTube, ainda que pra me contrapor ao sujeito. De fato, em certa época quando tinha mais tempo, cheguei a dar olhadas em certos vídeos, e em dado momento a quantidade de cortes foi tão considerável que até me apelidaram de “Eslavo de Carvalho”, rs. E ao fim e ao cabo, resolvi transferir pra cá seus “melhores momentos”, incluindo bobagens, ideias reacionárias e afirmações fora de contexto. Nem todos estão datados nem têm a origem indicada, mas os seis primeiros vêm de uma entrevista remota que ele deu a Leda Nagle, outrora grande nome de nosso jornalismo que, infelizmente, terminou se rendendo ao fascismo tropical. Os títulos são os mesmos, ou quase, que dei no YouTube.

Adicionei também outros dois “clássicos” que não cheguei a republicar, mas estão entre meus “preferidos”... Aproveite o quanto puder e, se desejar, faça comentários e sugestões! IMPORTANTE: as marcas e endereços no vídeo, por se referirem a meu antigo canal, obviamente não funcionam mais.


O Brasil precisa se tornar um país civilizado:


Sobre o preconceito contra religiões, pessoas LGBT e negros:


Todo mundo é analfabeto funcional... menos eu:


Olavo define “fascismo” como o regime atualmente em vigor:


Olavo diz que a única coisa de que sente saudades no Brasil é de pastel com caldo de cana; único e inusitado momento “povão” que conheço dele:


Olavo diz que não tem medo de morrer; “ficar eternamente neste planeta seria um horror” é algo com que, confesso, eu concordo, mas vai de encontro à obsessão da “tecnoligarquia” que hoje se pendurou no saco de Trump:






Iosif Stalin seria “o maior estrategista da história humana”. Na época, muitos me criticaram por tirar este trecho do contexto maior do vídeo completo, cujo conteúdo, porém, afirmando que “Stalin criou o nazismo”, mal tem qualquer valor intelectual ou didático. Mas a intenção foi mesmo provocar, chocar ou fazer rir, pois todo mundo sabia a real posição ideológica do Olavo e não poderia tirar qualquer conclusão positiva dessa fala. O que soa engraçado, no vídeo de janeiro de 2017, é fazer parecer que ao chamar Stalin de “o maior estrategista da história humana”, ele ainda vê algum mérito em sua figura. Segundo o pensador, “tudo aconteceu do jeito que ele disse, e ele obteve tudo o que ele queria”, ficando de fato ao internauta informado a missão de saber que isso não implica nenhuma adesão ao comunismo. O áudio original estava baixo demais, então ao editar, além de cortar o quadro, aumentei consideravelmente o volume:


Outro momento “comunista só que não”, ao dizer que o povo é a fonte de toda democracia (ao som da Internacional):


“Só que não” mesmo, pois afirma que Bolsonaro tinha que combater o comunismo, mas não tomava nenhuma medida nesse sentido:


Não existe uma direita no Brasil:


A política não é uma luta de ideias:


Sobre os comunistas brasileiros (novembro de 2019):


Olavo explica as preliminares sexuais:


Olavo finalmente rompe com Bolsonaro e o manda enrabar condecoração oferecida (começo de junho de 2020, ao som do hino da URSS):


Montagem sem graça (mas que fez algum sucesso!) que fiz com a música da antiga propaganda do Café Seleto (vídeo de 2017):








quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Aidda Pustilnik: Agora a moda é o autismo

Minha mãe compartilhou comigo este vídeo de uma psicóloga jurássica que vende oferece uma “terapia detox” coletiva consistindo em ficar dias confinados num sítio dela, sem falar nada e olhando um pra cara do outro... E ai de você se der o menor pio até com o jardineiro!

Tem gente que vai concordar com o conteúdo que selecionei abaixo, e realmente a mensagem é interessante: diagnósticos são coisa séria, remédios não devem ser prescritos a torto e a direito e traços congênitos não podem servir de desculpa pra defeitos de caráter! Outros obviamente vão achar “politicamente incorreto” e a acusar de capacitismo.

Julgue você mesmo, e lamente com ela: “Ah, os esquizoides...”, kkkkk:










sexta-feira, 5 de setembro de 2025

Aula de Serhii Iosypenko (USP 2025)


Endereço curto: fishuk.cc/iosypenko-usp

Em 31 de agosto de 2025, o filósofo ucraniano Serhii Iosypenko (transliterado quase sempre Yosypenko), professor do Instituto de Filosofia da Academia Nacional de Ciências da Ucrânia e da Universidade de Lausanne (Suíça), proferiu uma palestra online em francês, intitulada “24/2/2022: O retorno da guerra em grande escala”. Não sei quando ela vai estar (se estiver um dia) disponível ao público, pois se deu pelo aplicativo Zoom, com link previamente disponibilizado, mas a Folha de S. Paulo gentilmente publicou a tradução da transcrição, ambas feitas por Felipe Freller, sob o título “Por que invasão da Ucrânia, planejada para ser rápida, virou guerra sem fim?”. Doutor em Ciência Política e professor do Departamento de Ciência Política da USP, ele fez a mediação, traduziu simultaneamente a fala de Iosypenko pra quem não entendia francês (e as perguntas em português pro professor) e tornou a atividade muito agradável.

Mesmo sendo a “Foia” um veículo de circulação nacional, decidi malandramente copiar aqui o conteúdo, pois além deles tentarem ao máximo bloquear pra não assinantes, sabe-se lá quando pode lhes dar na louca de mandar o texto pro saco... Fiz alterações redacionais desprezíveis e inclusive mantive a errônea transliteração “Kiev”, um cacoete do jornal que há muito já devia ser trocado por “Kyiv”: afinal, acaso chamamos Putin de “Volodýmyr”, igual fazemos com Zelensky? Os comentários de leitores (até a linha 4) boçais no próprio portal, então, é melhor serem evitados pra prevenir dor de estômago.

Por isso, com todo meu agradecimento aos envolvidos por este presente, pela ocasião proporcionada em agosto e pela iniciativa do recém-fundado Núcleo de Estudos da Ucrânia, do qual um dos objetivos é combater a discriminação fomentada pela Rússia e por sabujos do Kremlin, inclusive dentro da própria USP, segue a palestra. No final da página vai também o cartaz que anunciou o evento e que também publiquei aqui alguns dias antes:


Filósofo ucraniano analisa contexto e particularidades da luta contra Rússia que se arrasta há 3 anos
[RESUMO] Filósofo ucraniano, à luz de conceitos do francês Raymond Aron e das guerras mundiais do século 20, reflete sobre a invasão de seu país pela Rússia, o que iniciou um conflito armado que já dura três anos, com magnitude que não se previa e sem perspectiva clara de fim. O artigo é a tradução de conferência apresentada no Cedec (Centro de Estudos de Cultura Contemporânea), em parceria com o Núcleo de Estudos da Ucrânia.


Sou um ucraniano nascido e criado na União Soviética, para quem o colapso do império comunista e a independência da Ucrânia foram o início da vida em um mundo novo, pacífico e livre.

Naquela época, em 1991, parecia que os pesadelos da “era dos extremos”, para retomar a expressão do historiador Eric Hobsbawm, pertenciam para sempre ao passado, e que, com o fim do “curto século 20”, a história do último império do Leste Europeu chegava ao fim. Todavia, a guerra que começou em 24 de fevereiro de 2022, com a invasão russa na Ucrânia, mudou sensivelmente essa visão.

Neste contexto, o trabalho do francês Raymond Aron (1905-1983) adquire uma importância única. Durante o período pós-Guerra Fria, ele foi considerado, principalmente, um filósofo da história, um clássico nas pesquisas sobre ideologias e regimes políticos, notadamente os totalitários, mas também um combatente contra as ilusões comunistas dos intelectuais ocidentais.

O retorno de um conflito armado no solo europeu deu particular relevância a seus estudos sobre a guerra, especialmente sua reflexão sobre as ocorridas no século 20. Particularmente pertinente me parece ser, hoje, seu livro Les Guerres en Chaîne [As Guerras em Cadeia, em tradução livre], de 1951, dedicado à análise da Primeira e da Segunda Guerras Mundiais e da Guerra Fria.

Com essa inspiração, proponho-me a tratar da Guerra na Ucrânia, que tem atraído a atenção do mundo inteiro desde a invasão em larga escala pela Rússia, concentrando-me menos em suas causas do que no próprio fato em si.

Faço isso não como historiador, que tem o privilégio de trabalhar com eventos já terminados, mas como filósofo da história e “espectador engajado” (retomando a expressão de outro livro de Aron), que está diretamente concernido por esse evento e que vem observando seu desdobramento há mais de 3 anos, vendo-o cada vez por um ângulo novo e inesperado.

Considero esta guerra, antes de mais nada, um evento-surpresa. Contudo, devemos primeiro distinguir a surpresa do ataque da Rússia da surpresa da própria guerra, o que requer duas observações.

Em primeiro lugar, lembro que a invasão russa à Ucrânia não foi algo inédito: tal ataque já ocorrera em fevereiro de 2014, na ocupação da Crimeia. Depois disso e, mais tarde, da anexação da Crimeia e da intervenção da Rússia no leste da Ucrânia, o conflito entre os dois Estados assumiu a forma de uma “guerra híbrida” e, no leste ucraniano, de um conflito armado de “baixa intensidade”.

Quando, no outono de 2021 e inverno de 2021-2022, a Rússia começou a se preparar abertamente para uma nova invasão em larga escala à Ucrânia, sem esconder suas intenções, nem os ucranianos nem o Ocidente acreditaram na realidade desses planos. Tiveram a esperança, até o último dia, de que ainda se tratava de uma chantagem russa.

O fato de tal ataque ter ocorrido não foi apenas uma surpresa, mas também um ponto de virada em nossa percepção das coisas. O que ontem parecia inacreditável e absurdo tornou-se simplesmente um fato consumado.

Consequentemente, desde então, muitos especialistas dizem que tudo estava claro desde o início, que era óbvio que tudo caminhava para tal fim; todos citam as palavras de Putin sobre a “catástrofe geopolítica”, seu discurso em Munique em 2007 etc.

Em minha visão, trata-se do fenômeno que Raymond Aron chamou de “ilusão retrospectiva de fatalidade”. O absurdo de ontem torna-se hoje uma realidade que parece perfeitamente lógica. E corremos o risco de passar de uma ilusão à outra, de “é impossível porque é absurdo” para “é completamente lógico porque aconteceu”.

Sustento, ao contrário, a posição de que surpresas e coisas inacreditáveis e absurdas acontecem na história, e que entender a história é entender seus eventos tais como eles são, em toda a sua improbabilidade.

Há um ponto ainda mais importante aqui. Referências retrospectivas a ações que antes pareciam inacreditáveis assumem frequentemente a forma de justificação e legitimação.

Por exemplo: “Putin exigiu algo, nós não lhe demos, portanto ele não tinha outra escolha além de atacar e ir para a guerra”. Sobre esse ponto, gostaria apenas de salientar que não há nem necessidade nem fatalidade em toda essa cadeia de eventos. Se a insensatez se torna realidade, isso não confere a ela lógica, justificativa ou legitimidade.

Outra observação: um ataque, por si só, não desencadeia necessariamente uma guerra. Para tal fim, tanto o ataque quanto a defesa são necessários. Considerar a guerra não apenas da perspectiva de quem ataca, mas também da de quem se defende, não é uma abordagem nova nem original, embora seja frequentemente negligenciada nas análises.

Como afirma o filósofo francês Vincent Descombes: “A causa da guerra não é a agressão, mas a defesa. A guerra não irrompe porque um povo toma a ofensiva, mas porque um povo se sente ofendido, considera-se em estado de legítima defesa”.

Se os ucranianos não tivessem demonstrado vontade e determinação para se defender, e, principalmente, se não estivessem em condições de resistir eficazmente ao ataque russo em larga escala, a guerra não teria acontecido. Teríamos apenas uma operação de retaliação e de anexação da Ucrânia, incomparavelmente mais brutal do que a operação de anexação da Crimeia em 2014, e muito maior do que a invasão russa à Geórgia em 2008.

Portanto, ao pensarmos como o ataque de 24 de fevereiro de 2022 se transformou em uma guerra em grande escala, é preciso analisar essa cadeia não apenas da perspectiva da lógica das ações ou dos desejos da Rússia e de Putin, mas também do ponto de vista das ações e das aspirações da Ucrânia e dos ucranianos.

Em minha visão, nem o próprio Putin, nem o Ocidente, nem os ucranianos esperavam que a invasão inicial marcasse o início de uma guerra de tal magnitude, intensidade e duração.

Esse ataque de três anos atrás foi planejado segundo o conceito de “choque e terror” – e foi realmente um grande choque psicológico, especialmente para todos aqueles que, como eu, acordaram com o som de explosões. Esse choque, porém, teve um efeito oposto ao previsto: a vontade de resistir. Essa resistência só se transformou em guerra em grande escala após uma série de transformações nas perspectivas e na natureza do conflito.

Desde o início, temia-se que os eventos se desencadeariam segundo o modelo da invasão do Iraque por Estados Unidos e Reino Unido em 2003. A propaganda russa era ainda mais categórica, falando da “tomada de Kiev em 3 dias”. Ao analisar as ações das forças militares russas, podemos concluir que essa fórmula correspondia aos planos reais.

Mais tarde, quando ficou evidente que a estratégia de Putin havia fracassado, surgiu a esperança de que se tratasse de outra opção: de uma espécie de “operação de imposição da paz”, ou seja, de coerção para que a Ucrânia fizesse certas concessões.

As negociações que ocorreram em Istambul, em março de 2022, inscreviam-se perfeitamente na perspectiva de uma operação militar curta e de um armistício rápido, mas seu fracasso se deveu ao fato de que a posição de cada lado era inaceitável para o outro. A Ucrânia podia estar até disposta a discutir certas concessões, mas a Rússia exigia, de fato, a rendição total.

A situação mudou com a retirada das tropas russas no norte da Ucrânia, simultaneamente com o fracasso das negociações em Istambul. A derrota militar em se apossar de Kiev indicou que, apesar do status reivindicado de grande potência, a Rússia se revelou incapaz de conduzir uma “pequena guerra vitoriosa” contra um país muito mais fraco.

Por outro lado, a Ucrânia, qualificada frequentemente de “Estado falido”, mostrou-se capaz de repelir com sucesso um ataque armado em grande escala conduzido por uma pretensa “grande potência”.

Isso determinou uma terceira perspectiva: a de um fim rápido da guerra com uma vitória ucraniana. Com efeito, após uma mobilização massiva e a chegada de armas ocidentais, a Ucrânia libertou Kherson e a região de Kharkiv no outono de 2022.

Após esse sucesso, com a ajuda de aliados, iniciou os preparativos de uma “grande ofensiva” em 2023, a qual deveria privar a Rússia de seu único sucesso real: o corredor terrestre para a Crimeia.

Essa ofensiva, contudo, falhou. Houve outra surpresa: a Rússia provou ser capaz de resistir às sanções ocidentais e, apesar de alguns fracassos, de se mobilizar para uma guerra em grande escala e de longo prazo.

Além disso, começou a aumentar as apostas. Em resposta à contraofensiva de 2022, anexou formalmente quatro regiões ucranianas que, mesmo hoje, ainda não estão inteiramente sob seu controle, e fez do reconhecimento dessa anexação e da “libertação” da parte não ocupada dessas regiões mais uma de suas exigências, que já eram inaceitáveis para a Ucrânia.

A partir do final de 2022, o conflito assumiu definitivamente a forma de uma guerra de atrito: os combates são principalmente de natureza posicional; cidades relativamente pequenas mudam de mãos ao custo de perdas consideráveis; a Rússia bombardeia sistematicamente o conjunto do território ucraniano, com o objetivo de destruir completamente sua infraestrutura de energia e transporte; a Ucrânia, por sua vez, começa progressivamente a bombardear o território russo em resposta.

A guerra entrou em uma fase que, como Aron explicou em seu livro de 1951, a propósito da Primeira Guerra Mundial, “só poderia ter sido evitada por uma vitória-relâmpago de qualquer um dos lados”. Naquele caso, disse o francês, foi “a Batalha de Marne [que] afastou essa possibilidade”.

“As condições para a guerra total estavam postas: bastava uma única oportunidade para que ela irrompesse, e essa oportunidade foi oferecida pelo equilíbrio aproximado de forças”, escreveu. No nosso caso, a transição para essa etapa ocorreu ao longo de 2022.

Em minha visão, temos todas as razões para traçar esse paralelo. O conflito mundial de 1914 a 1918 é uma excelente ferramenta para analisar os dias atuais. Assim como naquela ocasião, a escala, a intensidade e a duração da Guerra da Ucrânia foram uma surpresa completa.

Como relata Aron: “Os ministros e seus conselheiros militares acreditavam que estavam empreendendo uma guerra ‘como as outras’, cujo resultado seria decidido por algumas batalhas de aniquilação. Na verdade, eles estavam engajando os povos em uma longa prova de desgaste. Entre a antecipação e o evento, interveio o que proponho chamar de ‘surpresa técnica’”.

O que hoje poderia ser considerado uma “surpresa técnica”? Antes de responder, é necessário esclarecer: o que seria uma guerra “como as outras”, no nosso caso? Segundo a propaganda, a “operação militar especial” russa é uma guerra “assimétrica” (entre atores com capacidades militares e de organização muito desiguais, como um Estado poderoso contra uma guerrilha ou uma organização terrorista), mas, desde o início, foi concebida como “guerra dissimétrica”, na qual uma grande potência ou uma coalizão de Estados conduz uma operação militar para impor a paz ou restaurar a ordem internacional contra outro Estado com um Exército regular, mas muito menor e mais fraco.

Um exemplo típico disso foi a Guerra no Iraque, em 2003. No entanto, o caso presente se transformou, de maneira inesperada, em uma guerra clássica e, em muitos aspectos, simétrica.

Nossa surpresa consistiu no estabelecimento de um “equilíbrio aproximado de forças”, graças ao qual nenhum dos dois países conseguiu alcançar uma “vitória-relâmpago”.

Esse equilíbrio é determinado pelo fato de que ambos os países conseguiram mobilizar simultaneamente recursos suficientes para uma guerra em que combates de alta intensidade são travados na linha de frente por mais de mil quilômetros. Há uma troca ativa de ataques à distância, uma modernização do Exército e das armas, assim como a expansão permanente do combate para novas zonas e novos espaços.

Como esse “equilíbrio aproximado de forças” de dois países com potenciais tão diferentes, sob todos os pontos de vista, tornou-se possível? Há duas dimensões aqui: uma técnica e outra política.

No que diz respeito à dimensão técnica, convém lembrar que os dois beligerantes são herdeiros da União Soviética e conservaram estoques consideráveis de armas preparadas durante a Guerra Fria. A desproporção entre o potencial técnico e humano da Rússia e o da Ucrânia é compensada pela ajuda ocidental a esta última.

Ao mesmo tempo, essa ajuda tem limites muito evidentes. Políticos, em primeiro lugar: o fornecimento de armas visa apenas “igualar as chances” nos combates – e apenas no território da Ucrânia.

Limites técnicos: verificou-se que os aliados ocidentais, principalmente europeus, não têm armas e munições suficientes para uma batalha de tal magnitude, duração e intensidade.

Em contraste, a Rússia, apoiando-se principalmente sobre seus próprios recursos, muito maiores, em pouco tempo viu-se perante uma escassez de capacidades de produção e, principalmente, de tecnologia, beneficiando-se do fornecimento de armas e munições por parte do Irã e da Coreia do Norte.

A dimensão política dessa surpresa também é determinada pelo fato de que o conflito russo-ucraniano assumiu o caráter de uma “guerra nacional” para ambas as partes, desde 2014. A Ucrânia sofreu um ataque em grande escala de um vizinho mais forte que pretende restaurar o antigo império, inclui-la nele e, assim, privá-la de sua independência.

No caso da Rússia, uma eventual derrota significará o fim do projeto imperial (que, em certo sentido, pode ser visto como uma ideia nacional dos russos), tornando o país um “simples Estado-nação”.

Esse “equilíbrio aproximado de forças” também persiste porque a Rússia continua mantendo a aparência de uma grande potência que trava uma guerra assimétrica ou uma “operação militar especial” (ao mesmo tempo em que recusa chamá-la de “guerra”).

Apesar das perdas humanas significativas, a Rússia não declarou lei marcial (quando uma autoridade militar assume o controle das funções administrativas e judiciais do país) nem mobilização geral para as tropas, como fez a Ucrânia. Recruta em seu Exército sobretudo residentes de regiões desfavorecidas e trabalhadores migrantes estrangeiros. Além disso, desde 2024, tropas regulares da Coreia do Norte estão vindo apoiar as Forças Armadas russas.

Paradoxalmente, outro fator que contribui para o “equilíbrio aproximado de forças” nesta guerra, que se tornou uma guerra total – como define Aron, quando ocorre “mobilização implacável de recursos nacionais e uma corrida por invenções” –, é o status oficial da Rússia como potência nuclear, assim como a dissuasão nuclear por parte do Ocidente, primeiramente dos Estados Unidos.

O histórico conflito da Rússia com o Ocidente tornou-se aberto e adquiriu os traços de uma guerra híbrida (sanções econômicas, ataques cibernéticos, sabotagem, operações psicológicas e entregas de armas). O Ocidente apoia a Ucrânia em sua luta contra a agressão russa, tentando manter um equilíbrio delicado: a Ucrânia não deve perder, mas o Ocidente precisa evitar um confronto direto com a Rússia.

Por sua vez, a Rússia também evita qualquer confronto direto com o Ocidente, embora no plano da retórica política seus líderes só falem nisso.

Assim, por um lado, o status nuclear russo continua sendo uma garantia para evitar a intervenção ocidental direta; por outro, esse status dissuade a Rússia de uma guerra ilimitada contra a Ucrânia, com a utilização de armas nucleares, pois isso acarretaria automaticamente um conflito aberto com os EUA.

Esta guerra tem, portanto, o caráter bastante paradoxal de uma guerra total, mas dentro de certos limites, e não apenas territoriais. Esses limites são determinados pela estrutura do conflito descrita acima, ou seja, pela interseção desses dois níveis – entre a Rússia e a Ucrânia, por um lado, e a Rússia e o Ocidente, por outro –, bem como pelo papel da comunidade internacional e de suas instituições, principalmente o direito internacional e a ONU.

Deve-se notar que a guerra russo-ucraniana permanece uma guerra não declarada, o que deixa certas possibilidades abertas aos beligerantes, por exemplo, a circulação de civis. As partes também trocam regularmente prisioneiros (com a participação de mediadores).

Assim, alguns “pequenos” compromissos são possíveis (com um acordo negociado ou não), mas, por enquanto, não há perspectiva de terminar a guerra com um acordo de paz baseado no entendimento entre os beligerantes.



terça-feira, 20 de maio de 2025

A volta do Danny Danoninho


Endereço curto: fishuk.cc/danone2







Como você pode ver acima, a anexação de Israel por “Gavva” já começou, e todos os extremistas já estão se assimilando a outros extremistas. Mas parece que a língua presa não é exclusiva dos irmãozinhos do sul: esse embaixador Danny Danoninho... ops, Danon fica cada vez mais fofo na Sky News tentando defender a “intidadj cyoneshta”, rs:


Mudando de assuntos: ótima nova iniciativa do canal belarusso Vot Tak (exilado em Varsóvia): um programa diário de cerca de 15 minutos sobre a Moldova (E NÃO Moldávia), ainda em experiência piloto. Um país que está “em acelerada transformação” (segundo eles mesmos), mas geralmente é esquecido mesmo pelas grandes mídias europeias:


Esta palestra sobre o jenossídeo dos tártaros da Crimeia pelos bolcheviques malvadões foi transmitida hoje, recomendo:


quarta-feira, 22 de junho de 2016

Seminário “90 anos do PCB” (Unicamp)


Link curto para esta publicação: fishuk.cc/pcb2012

Fotos desse dia mui loco que só resgatei em março de 2024, rs:













Saudades da socióloga Carol Filho, minha amiga PSOLista!


Este é um fichamento pessoal das falas dos três palestrantes (Marly Vianna, Marcos Del Roio e Ivan Pinheiro) no seminário “90 anos do Partido Comunista Brasileiro e o comunismo no Brasil”, ocorrido na quarta-feira, 26 de setembro de 2012, no Salão Nobre da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e organizado pelo PCB de Campinas - SP. A ordem original das ideias foi por vezes adaptada para o modelo de composição escrita, e possíveis lacunas, falhas ou equívocos no texto são de responsabilidade apenas minha, sendo seu apontamento muito bem-vindo.


Marly Vianna (Universo) – O comunismo no Brasil

Vianna começa sua fala com uma homenagem a Carlos Nelson Coutinho, pesquisador marxista brasileiro falecido no último dia 20. Logo após, afirma julgar bastante amplo o tema que lhe fora atribuído, “o comunismo no Brasil”, e que tentará resumi-lo, esquematizando a fala em duas partes: 1) o que ela mesma pensa do percurso do Partido; 2) levantamento de algumas questões.

Cita brevemente Marx e sua ideia, já nos anos 1840, do “fantasma do comunismo”, e a frase da historiadora francesa Dominique Desanti (1919-2011), segundo a qual o comunismo é a “epopeia do século XX”. Vianna afirma geralmente ser crítica quanto à história do PCB, mas que nessa ocasião iria apenas louvar tudo o que na trajetória julgava digno de merecimento.

1) A sociedade brasileira é violenta, antidemocrática e antirrevolucionária, e nossas classes dominantes chegaram ao cúmulo de ter longamente sustentado o antirrepublicanismo e a instituição da escravatura. Tudo o que houve de ideias mais avançadas no Brasil fez e faz parte da história do PCB, ainda que se deva reconhecer a importância do anarquismo anterior (tanto que dos nove membros fundadores, sete eram dirigentes egressos do movimento anarquista) e das posteriores dissidências comunistas. Porém, a diferença entre comunismo e anarquismo está apenas no método de ação, pois a sociedade sem classes é seu fim comum. Marx nunca disse como seria a sociedade comunista, mas deu algumas indicações de como chegar a ela.

O PCB, portador das ideias mais avançadas da sociedade brasileira, sempre foi brutalmente reprimido, especialmente nas greves das primeiras décadas do século XX. Naquele período, especialmente na Primeira República, a legislação trabalhista era escassa, mas até a ela as classes dominantes já opunham feroz resistência. O PCB organizou quase toda a movimentação social posterior e se manteve firme até hoje, mas não deixou de cometer erros e de enfrentar muitas lutas internas que prejudicaram a união da classe operária. A primeira cisão importante e muito dolorosa foi nos anos 1930, por parte dos trotskistas, que eram muito fortes em São Paulo, talvez mais do que era o grupo de Lauro Reginaldo da Rocha (Bangu) no Rio. O grupo de Bangu também foi responsável pela linha de “união nacional” dos anos 1930 e 1940, influente na “conferência da Mantiqueira” de 1943 e considerada posteriormente um desvio de direita.

A luta contra o nazifascismo foi um dos momentos mais importantes do PCB, mas não tão fácil quanto pode parecer hoje. Quem vê do presente conhece perfeitamente a derrota nazista, mas o mundo em geral, na época, via os nazifascistas com simpatia, e os integralistas no Brasil não arregimentavam poucas pessoas, mas multidões, protagonizando ferozes lutas corporais de rua com membros da ANL nos anos 1930. Outras bandeiras importantes foram a luta pela paz dos anos 1940 e 1950, a defesa permanente do anti-imperialismo, especialmente na América Latina, do internacionalismo e a defesa intransigente da Revolução Cubana e do regime de Fidel Castro, mesmo após as críticas do dirigente ao PCB no início dos anos 1960. Houve ainda a luta pela autodeterminação dos povos, pelo petróleo, pelas reformas de base dos anos 1960, a qual hoje tem muitas vezes sua importância mitigada por alguns, e pela democracia, especialmente a democracia econômica, nos anos 1970. O Partido, em todo esse tempo, não deixou de trabalhar com a intelectualidade, os estudantes, a juventude e as mulheres.

As classes dominantes sempre exploraram exaustivamente os erros do PCB, a começar pelo discurso de Luiz Carlos Prestes de 5 de julho de 1935, em que pedia “todo poder à ANL”. Tais palavras de ordem acelerariam a repressão de Vargas, mas não foram o único motivo do fechamento da Aliança, cuja existência já corria sérios riscos. Outro momento delicado foi a entrevista de Prestes ao programa de televisão “Pinga-Fogo”, a 3 de janeiro de 1964, em que afirmava ter o controle da situação, embora isso não tivesse qualquer influência no golpe. Nos anos 1960, aliás, um acerto do PCB foi não ter optado pela luta armada contra os militares no poder, uma atitude impossível após tão grande derrota política, enquanto o erro foi não ter preparado qualquer oposição ao golpe, nem mesmo tê-lo previsto, ou previsto sua iminência.

2) Há de se perguntar qual é o papel dos comunistas numa sociedade como a nossa, em que a revolução não está na ordem do dia e em que está ocorrendo um “refluxo” dos movimentos sociais. Deve-se lembrar que quem faz a revolução não é o Partido, mas a classe operária por sua própria ação, a qual o Partido coordena, no máximo. Porém, o PCB nunca teve total respaldo da classe operária, o que prejudicou muito sua atuação revolucionária. Ainda hoje, o capitalismo é o mesmo de antes, tendo sido criadas apenas novas formas de dominação, por meio de uma sociedade de consumo dificílima de reverter, pois o “socialismo real” foi praticamente derrotado em 1991 e os EUA hoje fazem no mundo o que bem entendem.

A reversão da sociedade de consumo é justamente o maior desafio dos comunistas, pois a sociedade está muito individualizada, com cada um em sua casa acessando a internet (a qual, porém, pode ser uma grande ferramenta de mobilização), e ninguém mais conversando na rua. É paradoxal que eventos como a Parada Gay, um culto da Igreja Universal do Reino de Deus ou um jogo da Copa do Mundo (ou a comemoração de sua vitória) reúnam milhões de pessoas nas ruas, mas que o mesmo não ocorra para exigir, entre outras coisas, saúde e educação de qualidade. Assim, a tarefa de mudar o Brasil e o mundo é hercúlea, inclusive porque se o PCB hoje se encontra na legalidade, é porque não está incutindo medo nas classes dominantes, o que não tira do Partido a responsabilidade de dar às pessoas uma esperança no futuro.


Marcos Del Roio (UNESP) – O PCB no Brasil

Del Roio começa elogiando o fato de haver na plateia muitos jovens interessados e afirma que vai repetir muito do que Vianna falou, mas com enfoque na questão de qual é a estratégia da revolução, na história do Brasil e hoje em dia.

A história do PCB dos anos 1920 até o início dos anos 1980 (quando houve o que Gramsci chamaria de “crise orgânica”, na qual o Partido se descolou definitivamente de sua base, da classe operária) indica que em poucos momentos ele esteve completamente ligado às lutas proletárias, e que mesmo quando o operariado esteve maduro para a revolução, o PCB padecia de problemas estruturais, o que possibilitou, ao final, o surgimento do PT, com seu êxito fenomenal, apesar das inúmeras limitações.

O período que se estende dos anos 1920 a 1980 no Brasil significou o processo de nossa revolução burguesa, ou seja, de transformação do capitalismo local. Porém, embora o país estivesse se fazendo capitalista, urbanizado e industrializado, ele nunca viveu uma verdadeira revolução democrática, com plena liberdade de expressão, acesso à cultura e às necessidades básicas pelo povo. Nos anos 1920, o PCB ainda tinha a tarefa de conduzir a revolução democrática, mas sob a realização real da classe operária, enquanto o que se chamava de “revolução democrático-burguesa”, apesar do nome, não se pregava como necessariamente liderada pela burguesia, algo que o PCB não desejava, embora tivesse quase sempre uma compreensão escassa do que fosse uma “revolução democrático-burguesa”.

A Revolução Russa foi um longo processo, embora a data de 7 de novembro de 1917 tenha se tornado emblemática e histórica, e tudo isso influenciou muito o PCB, fundado ao longo de um trabalho que durou de 1918, quando começaram a pulular os vários grupos comunistas no Brasil, até 1924, quando a Internacional Comunista aprovou o ingresso do PC brasileiro. Esse foi o período de formação do PCB. Os anos de 1924 a 1934 foram marcados por uma visão teórica “tosca”, mas bastante clara: devia-se fazer a revolução democrático-burguesa pela ação da classe operária, do campesinato e da pequena burguesia, fórmula ainda vigente nos anos 1970, quando apenas se transformou a “pequena burguesia” em “camadas médias urbanas”.

A primeira década de existência do PCB foi um período notável, mas vivenciou a expulsão do grupo dos primeiros dirigentes em 1930. A partir de 1934, ocorreram mudanças com o ingresso de Luiz Carlos Prestes e, depois, com a formação da ANL, notavelmente a afluência de militares de esquerda junto com o “Cavaleiro da Esperança” e a consequente transformação da cultura e da visão de política do Partido. Passava-se agora a não cindir tanto com o Estado, como antes, e a ter uma perspectiva de política de Estado, especialmente com a bandeira da “união nacional”, traduzida na Europa pela luta antifascista, mas aqui, por ação do grupo de Bangu (1938), pela visão da burguesia industrial como progressista, e não mais como contrarrevolucionária, como se considerava a Revolução de 30. Essa linha se aproveitou de uma brecha da IC que permitia o apoio a frações da burguesia que pudessem ter contradições com o imperialismo, mas que não foi imposta como regra geral. A “união nacional” predominou até 1947 e teve como frutos a derrota do fascismo e a legalização do PCB, mas não resistiu à recomposição das classes dominantes sob o comando de Eurico Dutra e ao início da “guerra fria”, que influenciou a nova cassação do registro do PCB.

Progressivamente, aos atores tradicionais da futura revolução se somaram os setores da burguesia que poderiam ter uma capacidade “revolucionária” e, assim, integrar o vindouro “regime nacional-popular”. Essa concepção se afirmou em 1958, com a “declaração de março”, a qual, porém, permaneceu anti-imperialista e sem monopolizar a direção da revolução à burguesia, enquanto a revolução democrática deveria ser uma aproximação à revolução socialista, cuja hora ainda não havia chegado (a não ser para os trotskistas). Se a prática política era equivocada num ou noutro momento, já é uma questão diferente da que está sendo abordada.

Nos anos de 1934-35 e 1961-64, o povo esteve mais amadurecido para uma revolução, mas foi derrotado em ambas as ocasiões, e o PCB sempre se perguntou o porquê, e por que ele mesmo falhou em suas pretensões. Porém, o Partido nunca abandonou a via democrática de luta: de 1964 a 1979, continuou a elaborar uma estratégia democrática, quando se considerava que o Brasil já havia se tornado plenamente capitalista (anos 1970), mas necessitava lutar contra a ditadura “fascista”. Em 1974-75, uma grande catástrofe foi a grande repressão que se abateu sobre o PCB, incluindo a morte de dirigentes, quando os setores da liderança que não estavam no exterior também se exilaram.

Cinicamente, quando o capitalismo já estava plenamente implantado no Brasil, os industriais decidiram que não precisavam mais da ditadura, mas o Partido se encontrava numa crise, buscando formas de sair dela e com a direção muito dividida. De fato, em 1978, os documentos oficiais da direção em nada correspondiam ao pensamento da maioria dos quadros, e no início dos anos 1980, ocorreram uma forte sangria de quadros, a influência do “eurocomunismo”, especialmente da linha do PC italiano, e a paralisação dos trabalhos, até o colapso final nos primeiros anos 1990, com o fim do “socialismo real” na Europa. Mesmo assim, ainda não chegava ao fim a ideologia comunista, e se impunha a necessidade de aprender com a história do PCB, e não jogá-la toda fora, mesmo no particular e complexo contexto de hoje.


Ivan Pinheiro (Secretário-Geral do PCB) – A reorganização do PCB

Várias questões se colocam quando se pretende descrever a reconstrução revolucionária do PCB levada a cabo nos últimos 20 anos. A começar, é preciso ter em mente que o Partido, como dogma, acredita que a chegada ao socialismo só se dará por meio da ruptura completa com o capitalismo, e não com sua reforma. Do mesmo modo, hoje o PCB não pretende mais escrever para si uma história autoproclamatória, mas que louve merecidamente os acertos e condene duramente os erros, especialmente as falhas demonstradas em 1935 (crença nas “rebeliões de quartel” ou “quartelismo”), 1964 (despreparo diante da iminência do golpe civil-militar) e 1979 (pouco aproveitamento da situação criada pela anistia).

O período que vai até 1964 está envolvido pela crença ilusória na democracia burguesa, criada com a “declaração de março” de 1958, pois não se pensava que a burguesia seria capaz de esmagar os direitos democráticos com o golpe civil-militar. No período ditatorial, especialmente de 1964 a 1979, o PCB fez um acerto ao seguir a linha democrática contra aquele regime, muito bem caracterizado como “fascista”, e ao não ter embarcado na luta armada, o que não significa descartar hoje o levante armado, caso as multidões escolham essa via. O Partido considera a luta armada dos anos 1960-70 como voluntarista e foquista, mas de ebulição compreensível, dado o contexto criado pelo encanto da Revolução Cubana e pelo fervilhar da luta estudantil.

A formação da “frente democrática” foi uma escolha justa nos anos de 1979-80, mas não deveria ter continuado na segunda metade do governo Sarney, enquanto a saída de Prestes (1982) prejudicou muito o PCB, junto com o auge do reformismo, em 1986, quando estava claro que a “frente democrática” deveria se transformar numa “frente de esquerda”. Boa parte da militância começou, então, a se opor à maioria predominante no Comitê Central (CC) do Partido, a qual havia recaído na conciliação de classes, e num ativo sindical em Santos, em 1987, os participantes viraram a mesa e aprovaram a entrada dos comunistas na CUT. Em 1989, na UERJ, tentou-se liquidar o PCB no IX Congresso, mas não houve sucesso, e então um grupo criou o lema “Fomos, somos e seremos comunistas”. Em 1991, com a queda da URSS, em meio a um movimento de resistência dentro do Partido, a direção marcou um Congresso Extraordinário para o início de 1992, quando ocorreram, de fato, dois congressos, um que fundou o PPS e outro que deu continuidade ao velho “Partidão”.

Nos anos 1990, as esquerdas tornaram-se pouco visíveis com o fim do “bloco socialista”, e o PCB, um dos principais alvos dessa obscuridade, empreendeu a tarefa hercúlea de recuperar o registro do Partido Comunista Brasileiro, o que conseguiu em 1995. Posteriormente, um grupo que incluía Ivan Pinheiro recusou-se a priorizar a via eleitoral e percebeu, enfim, que na história do Partido houve poucos “comunistas” e muitos “pecebistas”, que na verdade eram apenas simpatizantes da agremiação e de suas lutas. Em 1998, em meio a graves lutas e crise, o PCB tentou reconciliar-se com o PC do B, mas, logo após, a perspectiva da vitória de Lula como Presidente da República apenas aumentou as diferenças entre os dois partidos. Com efeito, nessa década, a esquerda era mais unida diante de FHC como inimigo comum, mas ao mesmo tempo Lula se desprendia gradativamente de suas ideias originais a cada eleição. Em 2002, o PCB apoiou Lula, mas logo depois se afastou do novo governo, cujas contrariedades já eram visíveis desde o lançamento da Carta aos Brasileiros, na verdade, uma “carta aos banqueiros”, que prenunciava o favorecimento futuro aos EUA e aos bancos.

Entre 2002 e 2005, com a divisão reinante dentro do CC, o PCB não portou uma feição bem definida, até que em 2005, com o XIII Congresso, fez-se uma mudança radical com o início da “reconstrução revolucionária”. Desde então, a linha política, que comportou grande autocrítica e não apareceu de repente, analisa profundamente a estrutura de classes e do capitalismo no Brasil e julga que nosso capitalismo é completo, tem todas as instituições burguesas esperadas num país capitalista, o que não inspira a ilusão de alianças com quaisquer setores da burguesia. Recusa-se a linha do PC do B, segundo a qual a contradição principal é aquela entre nação e imperialismo estrangeiro, o que mitiga a necessidade de se lutar também contra os capitalistas brasileiros. A “democracia burguesa” é vista, de fato, como uma ditadura da burguesia sob uma roupagem democrática, o que obriga a especificar o regime instaurado em 1964 como “ditadura da burguesia de caráter militar”. Não será pelas instituições burguesas que se chegará ao socialismo, portanto, a estratégia e o caráter da revolução brasileira são socialistas, mas sem que se exija a instauração imediata do socialismo, pois não existem condições subjetivas para tanto. O instrumento central de luta deve ser uma frente de esquerda permanente, anticapitalista e anti-imperialista a se formar, que não atue apenas em períodos eleitorais. Evita-se o conceito de “filiação partidária”, preferindo-se o de “recrutamento”, para a formação de um partido de quadros com militantes fortes.

O PCB não morreu, mas vive e começa a chamar a atenção de outros setores da esquerda, da direita e da burguesia, pois não se trata mais da agremiação totalmente enfraquecida de 1992, embora ainda se esteja vivendo um período de reconstrução. Os jovens ainda viverão uma luta de classes como jamais viram, pois a crise do capitalismo sempre gera uma fascistização da política, em meio à qual ser comunista se torna uma tarefa muito difícil.



domingo, 5 de junho de 2016

S. Courtois e o “relatório Khruschov”

Historiador que escreveu o prefácio e coordenou O livro negro do comunismo (1997), cofundador e diretor da revista francesa Communisme desde 1982, diretor de pesquisa no CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica) da França e professor do Instituto Católico de Estudos Superiores (ICES), Stéphane Courtois comenta o famoso “relatório secreto” lido por Nikita Khruschov no 20.º Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS). Foi na sessão de abertura do seminário “Héritage et mémoire du communisme en Europe” (Herança e memória do comunismo na Europa), intitulada “Le lourd héritage totalitaire du communisme dans l’espace européen” (A pesada herança totalitária do comunismo no espaço europeu) e organizada no dia 4 de março de 2009 na Fondation pour l’innovation politique (Fundação para a Inovação Política).

Courtois nasceu em 1947 e entre as décadas de 1960 e 1970 militou num grupo maoísta antes de se formar em direito e história e defender tese sob a orientação de Annie Kriegel, acadêmica famosa por sua posição anticomunista. Tendo estado várias vezes nos arquivos de Moscou entre 1992 e 1994, ficou célebre com seus trabalhos extremamente críticos aos regimes comunistas, notadamente O livro negro do comunismo, tributários das reflexões de Kriegel, François Furet e Ernst Nolte. Pró-americano assumido, sempre em polêmicas sobre totalitarismo, liberalismo, comunismo na França e comparações entre bolchevismo e nazismo, escreveu ou dirigiu também, entre outras obras em várias línguas, Eugen Fried, le grand secret du PCF, Dictionnaire du communisme e Le Bolchevisme à la française.

Eu baixei o vídeo sem legendas do canal YouTube da própria Fondation pour l’innovation politique, então traduzi a fala e legendei. As informações sobre Stéphane Courtois são da Wikipédia em francês. Mais abaixo do vídeo legendado está a fala de Courtois transcrita por mim, para os estudantes de francês, evitando onde possível as reticências e as expressões mais orais:


On a été là, entre 44-45 (quarante-quatre, quarante-cinq) et 53-56 (cinquante-trois, cinquante-six), dans des périodes de « totalitarisme de haute intensité » : véritablement les régimes ont tenté d’imposer complètement leur projet utopique, la collectivisation, l’industrialisation lourde, accélérée, forcée, l’idéologie obligatoire etc., avec la terreur à la clé. Et puis, après 56, on a assisté à ce que j’appelle un « totalitarisme de basse intensité », c’est-à-dire qui est moins violent, qui va moins loin dans l’application de ses principes, mais qui néanmoins reste du totalitarisme, et surtout est géré par les mêmes personnes. Il faut jamais oublier ça.

On nous parle de déstalinisation, j’en vais dire : « C’est une vaste rigolade ». Vous prenez l’URSS : quelle déstalinisation ? En portant la tête du Parti à M. (monsieur) Khrouchtchev, qui est couvert de sang, maintenant que nous avons beaucoup d’archives sur Khrouchtchev, il y a une très bonne biographie sur Khrouchtchev par l’Américain Taubmann. Cet homme est couvert de sang des pieds à la tête. Il faut quand même rappeler que Khrouchtchev, c’est l’homme qui a inauguré la Grande Terreur à Moscou, qui a tellement bien réussi que Staline en a fait son chouchou, il l’a envoyé prendre en main l’Ukraine, où ça se passait mal, il est arrivé début 38 (trente-huit) en Ukraine et là... Bon, là la Grande Terreur a commencé à faire des dégâts, et puis... La Pologne orientale, quand elle a été annexée, a été annexée à l’Ukraine. Qui s’est occupé de cette annexion ? M. Khrouchtchev. Qui s’est occupé de faire déporter plus de 60 000 (soixante mille) personnes, qui étaient les familles des officiers polonais ? M. Khrouchtchev. Les femmes et les enfants essentiellement.

Donc, quand on dit... Au même moment quand M. Khrouchtchev a donc pris la direction du Parti et a fait ce fameux XXe Congrès avec ce fameux « rapport secret » dénonçant Staline, qui était à la tribune à sa droite ? Le nouveau chef du KGB, M. Ivan Sérov, un homme couvert de sang des pieds à la tête, responsable de la plus grande opération de déportation de l’histoire mondiale, je vous le rappelle quand même : en cinq jours de février 1944 (mille neuf cent quarante-quatre), 520 000 (cinq cent vingt mille) Tchétchènes déportés. On a mobilisé pour ça 100 000 (cent mille) hommes des troupes du NKVD, plus tous les trains, les camions etc., en pleine guerre. Bon, donc voilà, lors on me disent « déstalinisation », je dis : « Soyons sérieux cinq minutes ! »

Je voudrais rappeler cette remarque de Khrouchtchev lors de son « rapport secret » de 56 (cinquante-six). Un moment donné, l’un des seuls moments où il aborde les crimes de masse, il parle de l’Ukraine, sans rappeler qu’il en était le patron d’ailleurs, et voilà ce qu’il dit : « Staline voulait déporter tous les Ukrainiens, mais les Ukrainiens », je le cite, « n’evitèrent ce sort que parce qu’ils étaient trop nombreux. » Ah oui ? Bon, là il y a un problème d’échelle : quand il faut déporter 500 000 (cinq cent mille) Tchétchènes, ça va, mais quand on a 35 (trente-cinq) millions de Polonais, c’est plus compliqué, ou 38 (trente-huit) millions d’Ukrainiens, c’est pareil. Donc: « Ils étaient trop nombreux et qu’il n’y avait pas d’endroit où les déporter. » Ah, oui, c’est vrai, il faut s’y penser à ce petit détail, où va-t-on les transporter... Et il conclut: « Sinon ils auraient été déportés eux aussi... ».

Maintenant que nous connaissons en détail l’opération du XXe Congrès, que nous savons que le fameux « rapport secret » n’est nullement comme on l’a longtemps cru, y compris des gens aussi compétents qu’Annie Kriegel, que c’était un « moment de lucidité » de Khrouchtchev, un « moment de sincérité », où à l’encontre de tout le Bureau politique il avait enfin dit les choses. Pas du tout ! Nous apprenons maintenant par les documents : c’est une opération soigneusement préparée, avec une commission du Bureau politique qui a préparé le travail, le Bureau politique se réunit, nous avons même le sténograme, nous l’avons publié dans la revue Communisme il y a déjà trois ou quatre ans... et donc voilà, et où les vieux Molotov, Vorochilov, Kaganovitch, les vieux staliniens, disent : « Oh là là, faut toucher rien, parce qu’on sait pas où on va si on ouvre la boîte de Pandore ! ». Où les jeunes, qui sont entrés au Bureau politique récemment et qui viennent de lire le rapport de la commission qui donne en détail les chiffres de la répression, sont effarés, en disant : « Mais c’est terrifiant, mais comment est-ce qu’on a pu faire une chose pareille ? » etc. Et Khrouchtchev, qui dit: « Mais de toute manière on n’était pas responsable, c’est Staline qui portera tout. »

Et la conclusion, c’est : amnésie et amnistie. C’est ça, l’opération est très claire, amnésie et amnistie : amnistie pour ceux qui sont responsables et amnésie pour la société. On n’a plus à parler de tout ça, c’est fini. On tourne la page, n’en parlons plus. Et je constate qu’ici il y a beaucoup de gens dans la gauche, dans l’extrême-gauche, mais aussi dans la gauche, malheureusement, qui sont sur cette position : n’en parlons plus, tournons la page. Et malheureusement ça s’est confirmé lors d’une fameuse séance du Conseil de l’Europe le 26 (vingt-six) janvier 2006 (deux mille six). Le Conseil de l’Europe n’a pas de pouvoir législatif, c’était simplement une recommendation morale, mais même ça on n’a pas pu le voter à la majorité qualifiée de deux tiers pour une recommendation, c’est-à-dire de faire porter l’accent, dans l’Europe nouvelle et réunifiée, sur la dimension criminelle du communisme. Ça n’a pas été possible. Évidemment toute l’extrême-gauche, tous les communistes ont voté contre, mais malheureusement les socialistes aussi.

Ça vous montre, je reviens à ce que disait Dominique Reynié au départ, ça vous montre le degré de blocage dans lequel nous sommes et le fait que nous sommes dans une véritable bataille, et c’est d’ailleurs pour ça que nous faisons, nous organisons ce séminaire seule cette année. Je m’excuse, j’ai été un peu long, mais c’est compliqué, c’est une question qui me passionne, mais qui est fondamentale pour l’Europe, parce que l’Europe est en train de se réunifier, elle se réunifie sur le plan politique, sur le plan juridique, administratif, sur le plan culturel bien sûr, sur le plan économique, mais il y a un plan sur lequel elle va avoir les plus grandes difficultés à se réunifier, c’est sur le plan de la mémoire et de l’histoire.