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22 de setembro de 2019

Dicas de redação aos pós-graduandos


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Enquanto estive na graduação em História, fui reunindo algumas dicas de redação dadas pelos professores, partindo de uma lista inicial que anotei conforme as advertências públicas do Prof. Sidney Chalhoub, e que chamei “Dicas para trabalhos”. Somando algumas coisas que vi ainda na graduação e que depois também transcrevi desde 2012 assistindo a defesas públicas de pós e em aulas do meu próprio mestrado e doutorado, formei também um documento chamado “Dicas e observações a serem seguidas conforme assistência a defesas de tese e dissertação”, mais voltadas a pós-graduandos e focadas em aspectos lógicos. Como não atualizo os textos há alguns anos, decidi enfim os unir numa só postagem pra utilidade pública, e mesmo que o foco tenham sido as ciências humanas, também podem inspirar outros pesquisadores. A primeira lista citada está marcada por itens não numerados, e a segunda tem itens numerados.


Como fazer resenhas:

  • Esboço da biografia do autor, enfatizando sua formação acadêmica e produção intelectual; contextualização de quando surgiu o texto, indicando (se possível) as circunstâncias históricas que influíram em sua produção.
  • Resumo da obra e dos capítulos, incluindo o prefácio ou a introdução.
  • Análise que deve se deter nos objetivos, na tese e nos referenciais teóricos, especificando os conceitos, categorias, pressupostos, método e metodologia.
  • Avaliar o alcance e as limitações dos objetivos e tese propostos.
  • Avaliar a influência e a contribuição para a área de conhecimento visada.
  • Evitar prolixidade no primeiro parágrafo: dizer apenas qual o tema e o argumento.
  • Evitar rótulos: “O autor que pertence à micro-história” etc. Usar o que entendeu com a perspectiva teórica usada.


Dicas de redação:

  • Evitar verbos comuns na introdução, como “tratar-se”, “colocar”, ou ainda “onde” sem se referir a lugar, ou “em cima de”.
  • Não fragmentar demais o texto com parágrafos curtos.
  • Não emendar diversas ideias numa só frase longa.
  • Evitar citações literais demais, principalmente se forem pouco comentadas. Deve-se destacar a citação literal que possui mais de três linhas (letra menor e recuo de parágrafo em todas as linhas), mas não deve ser usada pra resumir a ideia do autor. O escritor é quem deve comentar, devendo interpretar em detalhes o que disse o autor.
  • Distinguir “ao encontro de”, que indica aproximação, de “de encontro a”, que indica oposição, choque.
  • Citar no texto os autores trabalhados em ordem cronológica de publicação (por exemplo, não falar que “Bertrand Russell acha que... etc. Neste ponto, Voltaire concorda com Russell, pois diz que... etc.”).
  • Evitar estrangeirismos ou palavras estrangeiras demais e, caso elas sejam inevitáveis, devem estar em itálico.
  • Em documentos antigos, pode-se atualizar a ortografia, desde que se avise no início da obra, mas nunca se deve atualizar a pontuação.
  • Jamais colocar uma citação literal em itálico, a não ser que ela já esteja assim no original.
  • Evitar repetição excessiva de palavras num intervalo pequeno.
  • Ao citar o autor, quando não se usar seu nome inteiro, usar o último sobrenome, nunca apenas o prenome. (Cuidado com sobrenomes espanhóis: eles geralmente são citados, tanto no texto quanto em notas e na bibliografia, em sua totalidade, porque o último geralmente é o sobrenome da mãe; por exemplo, María Cortés Alonso; Cortés Alonso; CORTÉS ALONSO, María.)
  • Cuidado pra não dar a entender que você tem a mesma opinião do autor citado, quando na verdade você não tem.
  • Em notas de rodapé, “Idem” evita repetição de autor, e “Ibidem”, de autor e obra. Não se precisa escrever “Idem, ibidem”, e nunca se deve escrever “Idem, idem” (leia aqui as regras completas de citação pela ABNT).


  1. O título, e especialmente o resumo, não devem ser enganadores quanto à natureza e ao conteúdo do trabalho, e sim reproduzi-los fielmente.
  2. Jogar discussões e ideias importantes pras notas de rodapé, assim como compor o texto num volume excessivamente grande, quando ele poderia ser bem mais sucinto, pode ser sinal de falsa erudição. Discussões importantes e esclarecedoras devem ser mantidas no corpo, e jogá-las nas notas consiste numa fuga em aprofundar ou até enfrentar a problemática, as partes ambíguas e os pontos obscuros.
  3. A introdução também deve ser fiel ao teor e ao assunto do texto, e não deve ser um emaranhado de elucubrações descontextualizadas, assim como o próprio desenvolvimento deve corresponder às expectativas geradas pela introdução, especialmente pela tese central, sem se perder em muitas digressões, extensões desnecessárias e abordagens que fogem do tema e do problema.
  4. Cuidado ao tomar certas categorias e conceitos como pressupostos ao leitor, ou mesmo à banca: às vezes podem se utilizar palavras, termos e fatos que são óbvios (ou mais ou menos óbvios) ao autor, mas que, pro observador neutro, exigem o esclarecimento em outras fontes, quebrando, assim, o caráter orgânico e autossuficiente do texto. Conceitos não devem ser usados de forma solta, devem ser bem definidos e ter apenas um significado ao longo do texto inteiro.
  5. Tomar cuidado com estrangeirismos, devendo-se sempre encontrar um equivalente na língua do texto, mesmo que se tenha trabalhado com esse(s) termo(s) longamente durante a exploração de fontes em outras línguas, e atentar igualmente pra que o contato constante com outras línguas durante a pesquisa não afete a correção da língua do texto.
  6. Sempre ler todo o trabalho mais uma vez, mesmo após o orientador ter corrigido todos os capítulos em sequência.
  7. Na hora da defesa da tese ou dissertação, mesmo que o ambiente (banca, plateia) seja familiar, evitar a linguagem coloquial e expressões que se desviam muito da norma culta, ainda que plenamente aceitáveis em conversas informais. Exemplos: “Duvido de que”, “Por causa (de) que”, “A coisa metodológica”, “A coisa dos dados” (ao invés, por exemplo, de “A questão metodológica/O problema metodológico”, “A questão/O problema dos dados”), “Pensar de como”, “Contente de que” etc.
  8. Se forem usadas entrevistas, é interessante mostrar, mesmo que em anexo, dados detalhados sobre as pessoas entrevistadas, as perguntas feitas, as datas das entrevistas etc.
  9. Os números não dizem tudo: especialmente em pesquisas históricas ou sobre participação política, deve-se dar a eles uma interpretação qualitativa, saber como eles se refletiam na vida real das pessoas.
  10. Em estudos de política, especialmente de política partidária, e principalmente em casos de um ambiente personalista, diferenciar, quando possível e necessário, as pessoas das agremiações, uma grande liderança partidária do próprio partido. Avaliar em cada caso se é possível ou não fazer essa distinção.
  11. Cuidado com os descuidos da correria e da pressa em escrever o texto: repetições de dados ou de argumentos, imprecisão nos números e nas referências, troca de números, legendas, referências ou dados, erros de português etc.
  12. Tomar cuidado com modelos teóricos e metodológicos diferentes: não os misturar muito (quando for possível alguma “mistura” ou diálogo, claro), não os usar juntos por muito tempo no texto e combiná-los com cuidado (especialmente os modelos metodológicos).
  13. Não misturar, em hipótese alguma, preferência político-partidária particular com relato, dados e conclusões do texto, afetando, assim, sua objetividade.
  14. Não ser excessivamente prolixo antes de chegar ao ponto central do texto, ao argumento principal. Ir direto ao ponto, sempre que puder.
  15. Não deixar ou assumir como implícito o que deve estar explícito, especialmente pra quem não conhece o assunto do texto.
  16. Não transferir paradigmas entre áreas de análise ou conhecimento diferentes, quando isso se mostrar problemático. Por exemplo: geopoliticamente, um país pode ser considerado uma potência, mas economicamente, não.
  17. Tomar cuidado pra não adotar a definição de conceitos sobre uma época ou sobre elementos dela feita por um ou outro personagem de então, especialmente se ele se opunha aos defensores do conceito. Por exemplo: adotar como pressupostos do texto definições sobre o protestantismo no século 16 feitas por um jesuíta de então, que se opunha ao protestantismo. Além disso, conceitos e/ou práticas com o mesmo nome em várias épocas podem não significar a mesma coisa: por exemplo, “política” e “liberdade” podem ser coisas diferentes nos séculos 18, 19 e 20, ou em lugares diferentes. Também não dá pra pensar experiências políticas do século 18 no Ocidente com as mesmas categorias do século 20 (Estado provedor de serviços, combate à corrupção, partidos, sindicatos, separação de poderes, “sociedade civil” etc.), mas nem por isso se pode considerar essas experiências como “menos políticas” ou “apolíticas”. Outro exemplo: revoltosos de outras épocas, ao contrário dos de hoje, podem não querer “mudar o mundo”, tomar o poder ou traçar planos pro futuro (ideia de devir).
  18. Cuidado ao “cunhar termos” que não têm uso corrente ou mesmo lastro nas análises empíricas ou na realidade. Verificar se um determinado conceito ou objeto já tem uma denominação adequada à situação de uma dissertação ou tese. Deixar pra “cunhar termos” em ocasiões e discussões específicas ou propícias, e não em defesas de grau.
  19. Ler muito e se informar muito (livros, sites, revistas, documentos primários e até debates nas redes sociais) sobre o tema de sua pesquisa ou temas circundantes, pra não chegar na hora de explicar seu trabalho e não saber nada. Especialmente, ter sempre na cabeça o que se pesquisa, reler constantemente o projeto de pesquisa e as anotações importantes com ideias pra pesquisa etc.
  20. Escrever um trabalho com caráter crítico, sem pretensão de neutralidade, construindo uma historiografia interpretativa, e não descritiva. Contudo, isso não autoriza a tecer julgamentos de valor, especialmente se valendo de binômios, dicotomias, muito menos, acriticamente, das categorias utilizadas pelas próprias personagens, do tipo “é bonito”, “é feio”, “é bom”, “é ruim”, “é vivo”, “é amorfo”, “é arcaico”, “é moderno” etc. Ser objetivo não implica em não ser tendencioso, e se você é tendencioso, não deve disfarçar isso, e sim assumir.
  21. Quando se transcreve uma entrevista, é melhor fazer um copydesk dela, ou seja, polir o texto pra não cansar o leitor, não ficar repetitivo, titubeante, e sim o deixar mais corrido e menos oral.
  22. Atentar a outras disputas que possam estar por trás das principais estudadas. Por exemplo, uma disputa sobre um conceito artístico ou pedagógico pode ocultar outras disputas políticas, econômicas, sociais etc.
  23. Não fazer “colagens” de citações pra montar o texto, não “escrever pela boca do outro”, apenas emendando citações com alguns comentários.
  24. Não lidar com suposições ou sugestões em eventos históricos, pois isso indica falta de rigor lógico: “provável influência de X em Y”, “talvez A pensou em fazer B” etc.
  25. Pesquisar precedentes de um objeto histórico antes de dizer que ele era sem igual. Por exemplo, dizer que algo era “inovador”, “novo”, “inédito” ou “diferente de tudo” sem saber se já não havia antes, se alguém já tinha feito etc.
  26. Sempre levar em conta, na redação de textos acadêmicos (também artigos), a possibilidade de sua leitura por leigos no assunto. Por isso, deve-se sempre explicar as categorias, e não fazer uma “conversa pra entendidos”.
  27. Explicitar a contribuição objetiva de seu texto acadêmico pro avanço do conhecimento, e não justificar a pesquisa apenas como “porque gosto”, “porque tem pouco estudo”, “porque é interessante, instigante ou fascinante” etc.
  28. Precisar os sujeitos focados no trabalho, especialmente em Humanas, e não mudar de repente de portuários pra operários, e daí para camponeses etc.; explicar o contexto geral em que eles se inserem ‒ época, lugar, país, idade, partido, província, contexto internacional etc. ‒ pra não dar a entender que são tratados com algo solto, isolado.
  29. Especialmente em Humanas também, não basta se ater à visão que as instituições tinham sobre os sujeitos, como se fossem coisas dadas; instituições que podem ser o Estado, uma organização internacional, um partido, o voto, o congresso de um organismo etc. Ver ou deduzir sua recepção pelos sujeitos, o impacto nas pessoas, como elas liam ou adaptavam essas coisas.
  30. Embora isso deva ficar pra etapas mais posteriores da pesquisa pra trabalhos de grau (ou mais vagamente, no começo), reforçar o arcabouço teórico e metodológico: ter reforço teórico, dominar a teoria, mas não a petrificar, transigir com ela, não se render a ela, mas dominá-la e utilizá-la a seu favor. Não adiantar, contudo, a ideia, teoria, metodologia ou conceito antes da pesquisa empírica, a qual deve dar a palavra final sobre os conceitos, categorias e explicações. No mínimo, essa relação deve ser dialética (empiria e conceitos se moldam mutuamente), mas o importante é nunca inventar os conceitos do nada, sem ter material de pesquisa. Por vezes, a explicitação teórica pode depender da destinação do texto: algumas agências de fomento (projetos de pesquisa) e revistas especializadas, por exemplo, exigem declaração inequívoca do quadro teórico e metodológico em que ele se insere, ou pelo menos a explicitação de algumas categorias e conceitos; porém, em outros casos de maior liberdade, alguns pressupostos podem estar fundidos no relato e na exposição de resultados, ou em como esses dois elementos se articulam.
  31. Definir bem no texto a perspectiva (categorias) da qual se vê os objetos: classe, cultura, experiência, história política, partido, sofrimento etc.
  32. Aproveitar-se bem dos recursos literários disponíveis na hora de escrever: boas palavras, narrativa fluida, evitar hermetismo ou eruditismo, usar elementos de outras áreas de modo crítico (teatro, literatura etc.), e sobretudo atentar ao público certo ou provável do texto, adaptando com isso a linguagem e as figuras de linguagem usadas. Ou ainda, adotar uma linguagem intermediária, especialmente se é um público culto amplo, e não, por exemplo, crianças, adolescentes, trabalhadores comuns etc.
  33. Especialmente em história, a parte essencial da pesquisa e do texto acadêmico é a crítica à historiografia anterior sobre o assunto tratado. Não precisa ser sempre uma “crítica destrutiva”, mas esse diálogo, seja pra corroborar ou contestar, é fundamental. Deve-se conhecer o que já foi produzido antes.
  34. Não interpretar apenas o que foi dito pelas personagens históricas, mas também o que não foi dito, ou seja, os silêncios. As lacunas nos discursos devem ser buscadas em tudo: documentação, bibliografia, escritos teóricos (falhas e lacunas lógicas), palestras, discursos políticos, leis, entrevistas, memórias etc.
  35. Avaliar o impacto real de seu objeto (ou “sujeitos”) no contexto estudado (Estado, vida de alguém, associações políticas): um partido ou uma ação militante, por exemplo, tiveram efeito na aprovação de leis? Uma manifestação ou um movimento popular tem o potencial de derrubar governos?
  36. Ao ler bibliografia secundária, levar também em conta a origem e a finalidade desses textos: acadêmico, popular, pra um público restrito, vulgarização, teorização/pesquisa empírica, militante, pra um partido, fora da universidade ou contra ela etc.
  37. Em qualquer texto acadêmico, mesmo projeto, o que deve ser tocado e atacado/criticado são os argumentos dos interlocutores, e não as pessoas deles, mesmo que suas visões pessoais (geralmente incidentes sobre os argumentos) sejam racistas, machistas, xenofóbicas etc.
  38. Não generalizar estereótipos consagrados sobre uma classe ou grupo de pessoas, especialmente em história, e especialmente quando uma dada situação permite diversos desdobramentos, variedades: “uma história, um contexto”; “toda história tem um contexto”. Sempre admitir exceções e flexibilidades, ainda que dentro de um leque limitado de possibilidades.
  39. Na hora de escrever, ter consciência dos momentos em que se lida com estruturas ou com superfície, com economia ou com cultura, com teoria ou com empiria. Buscar tomar cuidado pra não ficar apenas em uma ou outra dimensão achando que está sendo abrangente: o ideal é dosar as duas, ir e voltar de uma pra outra dialeticamente e saber, na hora de escrever, quando se está em uma ou outra, embora pro leitor esses dois momentos possam não ser imediatamente distinguíveis, mas que ele pode discernir pela razão (trabalho que o escritor, claro, deve facilitar, mas não dar de bandeja).
  40. Em história social, os sujeitos não devem aparecer tanto ou só como nomes de pessoas, indústrias, ruas, cidades, partidos etc., mas até mais ou também como relações (tráficos, comércio, modo de vida, contrariedades, redes de solidariedade, resistência etc.).
  41. Problematizar recortes nacionais, especialmente quando em épocas antigas eles não são bem definidos. Quando se estuda a história a partir do meio do século 19 em direção ao 20, os limites nacionais são importantes, mas a análise também se enriquece com a criação de outras conexões: várias regiões, vários países, uma zona linguística, um continente, uma trajetória de viagem fixa ou não (itinerários de navios, rotas mercantis etc.) ou até mesmo um oceano (“história atlântica”, tráfico negreiro atlântico etc.).
  42. Problematizar a escolha de sujeitos, ou a centralidade em um ou mais sujeitos, quando se constrói uma narrativa. Por exemplo: quando se pode, deve ou é melhor escolher, ou quando simplesmente se escolhe aleatoriamente, uma pessoa, um sujeito, pra se descrever uma associação, época, classe, país, profissão ou outra teia coletiva? Quando esse sujeito é representativo do grupo (ou grupos) mais amplo? Tal procedimento é possível quando se tem muitas fontes escritas sobre esse sujeito, ou quando não se tem nada e se precisa rastrear resquícios, ou mesmo quando se tem muita coisa sobre vários sujeitos de um grupo, mas é impossível trabalhar todos, devendo-se escolher alguns. Também problematizar a escolha ou escolhas: por que só um sujeito, por que esse sujeito ou esses sujeitos etc.?
  43. Problematizar o destinatário ou a destinação a que foi dirigido um documento (também carta, livro etc.), porque é escrito de forma bem diferente quando não é destinado (ou não se pretende) a ser público e quando se produz algo pra que outras pessoas ou certos grupos também leiam: quando o autor ativa o “filtro” de informações pra tornar o documento público, é esse filtro que o historiador tem que achar e, assim, ler o documento público conforme seus silêncios e omissões. Uma pessoa “biografável” (modernidade, séculos 19-20, que deixou vários registros escritos) tem um controle muito mais consciente daquilo que ela escreve do que uma pessoa “não biografável” (que se supõe não deixar escritos públicos nem se tornar uma figura pública, ou alguém que não deixa documentos, ou não os deixa regularmente).
  44. Não existe “fonte a priori”, ou seja, um documento, um escrito ou outro objeto que por definição seja considerado ou rejeitado como fonte documental histórica. Tudo vai depender da lente e das perguntas que o historiador faz (com intercurso da imaginação), e daí muita coisa que não é vista como fonte pode virar um acervo extremamente rico. Ou às vezes tem coisas que podem não ser mais fontes, dependendo da pergunta. E mesmo a questão dos recortes temporais, espaciais e temáticos, embora possa em parte ser definida pela razão e pelas leituras bibliográficas prévias, às vezes também é um “fazer-se”, é definida durante a lida com a documentação. E mais: não é só isso, mas também o jeito e o tema de trabalho particulares de cada um, que definem se é melhor ler superficialmente muitos documentos (recorte amplo) ou devagar um número mais restrito (recorte estrito, menor); mas às vezes isso depende também da habilidade do historiador, que tem que se autoconhecer, conhecer tanto suas habilidades quanto seus interesses, pra saber se consegue ler mais rápido ou devagar, o que o interessa ou do que mais gosta etc.
  45. Ao se lidar com leis, mas também, por exemplo, com documentos normativos de Partidos Comunistas e organizações semelhantes, lembrar que nem sempre o que está escrito é praticado, ou seja, a lei nem sempre reflete a realidade, e vice-versa. Deve-se sempre comparar a teoria pregada na lei ou na norma com as práticas efetivas e observáveis. O caso clássico é o da proibição do tráfico de escravos no Brasil, que não impediu que ele continuasse, impunemente.