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domingo, 8 de setembro de 2019

Novos memes do governo Bolsonaro


erickfishuk.blogspot.com/bolso-memes2



A postos defendendo a Amazônia, rs.


Nestes dois vídeos que parecem dialogar entre si, temos primeiro um garoto memético retirado desta reportagem do Jornal Nacional de 8 de julho sobre os aumentos na conta de luz elétrica e as possibilidades de economizar energia. Quanto a lidar com a divisão do videogame com a irmã no mesmo horário, ele diz: “Tem que ficar com calma e conversar com a pessoa pra ela não ficar brava e não te arrancar a cabeça”! Por outro lado, sabe quando estamos de boa, “na nossa”, e de repente vem alguém ou mais pessoas encher nosso saco, e quando revidamos somos acusados de violência? Quando não queremos armar encrenca (ou “arrumar treta”, como dizem hoje) com ninguém, mas o povo chato insiste em tirar a gente do sério? Então, eis aqui a justificativa do líder indígena Puruá Amondawa pro momento em que a gente explode! “Claro que a gente, né... não tem sentido nada de criar problema com o outro, mas se o pessoal vem pra cima da gente, a gente tem que se mexer.” Mas infelizmente o motivo é sério: uma reportagem do Jornal Nacional de 12 de agosto, abordando a invasão das terras indígenas, demarcadas pelo Estado, do povo Amondawa por madeireiros e grileiros que querem lotear os terrenos pra desmatar em Rondônia.




Pra todos os efeitos, considera-se que a eleição de Bolsonaro abriu novo “ciclo republicano”, expandindo as reformas liberais do Estado brasileiro, quebrando a polarização entre os “centro-esquerdistas” PT e PSDB (mesmo que o PT continue forte) e destruindo o papel do (P)MDB, herança da ditadura militar, como grande partido de centro que servia de “fiel da balança” nas crises políticas. O economista Edmar Bacha, protagonista desses primeiros 30 anos, foi um dos idealizadores do Plano Real, que tirou o Brasil da hiperinflação que o assolava nos anos 80 e começo dos anos 90. Ele participou do programa de entrevistas Roda Viva da TV Cultura, no dia 15 de julho de 2019. Bacha é filiado ao PSDB e considerado da ala dos “tucanos históricos”, ou seja, os fundadores mais velhos do partido, em 1988, que têm ligação maior com a universidade e a esquerda reformista e, portanto, defendem uma economia liberal, mas nos quadros de um Estado mais eficiente e que mantenha algumas (mínimas) regulações necessárias, sobretudo no campo social. Ele mesmo se define como um “liberal progressista”, diferente de Jair Bolsonaro, que seria um “liberal conservador”. Uma de suas frases mais marcantes e oportunas foi a seguinte: “Tudo tem que passar pela política”.

No primeiro trecho que selecionei e cujo quadro recortei, Bacha opina sobre por que o Brasil tem crescido tão pouco, apesar das condições macroeconômicas razoavelmente favoráveis. Pra ele, o principal problema é a escassa abertura econômica ao exterior, que proíbe a importação de bens de capital e cria um clima de pouca concorrência interna. No segundo trecho, Bacha responde a uma pergunta sobre sua avaliação dos governos do PT, em especial do período Dilma Rousseff. Ele aproveita e acaba falando que no passado, PT e PSDB tinham muito menos divergências do que se podia pensar a partir de 2002 ou 2006 (mas sobretudo 2010), pois os dois partidos acreditavam num modelo social-democrata pro Brasil, embora o PT fosse mais focado nos sindicatos tradicionais, enquanto o PSDB se centrava em questões mais técnicas. Bacha pensa que essa divisão, que virou um clima de Fla-Flu (na verdade repetido entre Bolsonaro e Haddad em 2018), foi muito ruim pro país, mas que Lula com justeza deslocou o foco pra redistribuição de renda, enquanto os tucanos, por força da ocasião, lutavam pra manter a inflação baixa e a situação fiscal estável. Sua crítica final aos petistas é o excesso de intervencionismo estatal que teria entravado a economia.

No terceiro trecho, Bacha responde a uma pergunta sobre por que inexistiriam o que se chamam “partidos liberais progressistas” no Brasil, ou seja, diferentes do “liberal-conservadorismo” defendido pelo PSL e, às vezes, o MBL e o Partido Novo, ou seja, uma mistura (exótica e própria nossa, eu diria) entre uma adoção do mercado aberto e do Estado mínimo, mas ao mesmo tempo de valores societários e religiosos tradicionais. Pro tucano, sobretudo no aspecto econômico, o que teria impedido surgirem siglas semelhantes às europeias seria a eterna opção pela substituição de importações e pelo intervencionismo estatal, permitindo que saíssemos de uma condição de país pobre pra “renda média”, mas não que alcançássemos o pleno desenvolvimento. Bacha associa essa escolha à política conduzida pelo antigo presidente Getúlio Vargas.

E no quarto trecho, Bacha relembra um episódio cômico envolvendo a comissão parlamentar que votaria um parecer favorável à medida provisória da URV, a “unidade real de valor” que antecedeu o Plano Real e a implantação do real como moeda. Em 1993, a URV foi implantada como uma espécie de unidade transitória entre o cruzeiro real, que então vigorava na época, e o real, adotado em 1.º de julho de 1994. Segundo Bacha, a URV, cujo valor em cruzeiros reais era constantemente reajustado, teria sido inclusive o primeiro exemplo prático de “moeda virtual”, bem antes de nossas atuais criptomoedas. A “comissão da URV”, que tinha 10 deputados, incluía Eduardo Suplicy, hoje vereador de São Paulo pelo PT, e Jair Bolsonaro, então no PPR (atual Progressistas) e hoje presidente da República pelo PSL. Bacha afirma ter conversado com todos, convencendo-os a votar a favor, inclusive com Suplicy e Bolsonaro, os dois resilientes. Após ter pedido a Suplicy pra “ir tomar um café” e pensar melhor, o petista mudou de ideia, mas não o ex-militar, que passaria à história como o único deputado a ter votado contra nessa comissão e como um opositor do Plano Real em seu início. O real, no fim, foi a moeda adotada, valendo antigos 2750 cruzeiros reais.








Atenção, memes de governo agora! É uma pena que todos os canais que postaram o famoso meme do vice-presidente, General Hamilton Mourão, berrando “Bom dia!” pra cadetes do Exército tenham muito poucos inscritos. E é uma pena também que todos os vídeos completos com a cerimônia em que Mourão participou no Colégio Militar no começo de 2019 tenham sido editados pra omitir a famosa cena. Por isso, pra dar mais alcance a esta pérola, baixei esta versão que achei a melhorzinha de todas e fiz diversas edições. Fiz as repetições que vocês tanto amam, dei um tempinho de espera no começo e aumentei mais ainda o áudio em certas partes (pensem no grupo de Whats da família!). O vice-presidente mais memético dos últimos tempos!

O Messias Jair, por sua vez, é um show à parte. Mas aqui eu estou falando de quando ele ainda encarnava a versão “paz e amor”, antes dele ficar pistola de novo com as questões do Fernando Santa Cruz, do “cocô dia sim, dia não” e das queimadas na Amazônia. Se eu invento de ver o Jornal Nacional, sempre acaba saindo um meme! Explicando no dia 30 de abril a suposta má interpretação de uma fala sua, o presidente diz que não pode errar em nada, senão a mídia cai de pau nele: “Eu tenho que ser mais do que perfeito, eu tenho que ser sublime, senão tudo dá errado”. Espero que ele seja assim também no resto do mandato! Era o evento oficial em que Bolsonaro assinava a chamada “MP da liberdade econômica”, que isentava o pequeno empreendedor de inúmeras obrigações burocráticas. Mas antes desse “lapso motivacional”, ele já tinha bancado o criador de neologismos em Dallas (Texas, EUA), no dia 15 de maio. Com um pouquinho de edição do material da GloboNews, circulou no WhatsApp o momento em que ele sem querer inventou que os habitantes de Nova York se chamavam nova-iorquines.






Mas pra poder governar, um presidente tem que se entender com o Congresso Nacional, ou “Parlamento”, como Bolsonaro gosta de chamar. E no meio dos primeiros problemas de articulação, mais uma vez a “pulitca” brasileira continua gerando suas pérolas, e pra quem pensou que na “Nova Era” isso ia ficar mais raro, se enganou completamente! Na sessão plenária de 21 de maio na Câmara dos Deputados, o deputado Pastor Sargento Isidório (Avante/BA), que não por acaso segura uma Bíblia debaixo do sovaco, critica vários pontos do “decreto das armas” assinado pelo Planalto.

O trecho que aparece aí é quando ele se oferece pra fazer uma interlocução entre os parlamentares e Bolsonaro, já que, segundo ele, existem muitas falhas na comunicação. Ao afirmar que seu “perfil” seria o ideal pra lançar esse diálogo, vejam só o que ele falou! Eu recebi o vídeo num grupo de política do WhatsApp, mas pra evitar que o vídeo “morra”, apesar da qualidade ruim da imagem, decidi repostar. Todos aplaudiram calorosamente, mas o presidente até cortou o microfone. O mais bizarro é ele ter enfiado o smartphone dentro da Bíblia, e vejam a Sâmia Bomfim (PSOL-SP) dando risada ali atrás!


Os “conservadores” brasileiros, vendo no mundo anglo-saxão seu modelo ideal, sempre criticaram a França e os intelectuais franceses ou radicados no país como mentores de nossa esquerda “utópica, radical e irrealista”, tendo Rousseau como mestre fundador. E parece que infelizmente, essa rusga chegou ao nível do Estado, com Bolsonaro se friccionando com Macron e a imprensa francesa ressaltando os traços mais autoritários do governo em Brasília. Dada a qualidade e interesse do conteúdo, mesmo que eu não detenha os direitos autorais da matéria, fiz um vídeo com o áudio do repórter Elcio Ramalho, do serviço em português brasileiro da Rádio França Internacional (RFI). Ele trouxe em seu programa “RFI Convida” de 6 de agosto de 2019 o jurista brasileiro Rubens Casara, que está fazendo seu pós-doutorado em Nanterre, na França.

Os temas principais da conversa foram a partidarização política do Poder Judiciário no Brasil, sua submissão aos interesses econômicos e o conceito de “pós-democracia”, segundo o qual o Estado de direito consolidado nas últimas décadas, que impunha limites ao arbítrio de certos agentes, está perdendo sua força. Ao contrário do que defendem os partidários da Lava-Jato, Casara pensa que a justiça brasileira tem partido político, sim, e tem desvelado cada vez mais sua defesa do status quo econômico em detrimento dos pobres e necessitados. A “pós-democracia”, pra ele, significa que Estados autoritários são aceitos pelo consenso geral pra que esse poder continue firme e forte: o modelo neoliberal de economia perderia seu caráter clássico pra assumir uma feição mais restritiva e predatória.

Cabe lembrar que a RFI tem uma orientação progressista levemente de esquerda e que ela tem dado ampla voz aos críticos e opositores de Bolsonaro, sobretudo brasileiros que residem em Paris ou em outras partes da França. Além disso, devido a divergências culturais, valorativas e diplomáticas, o governo do PSL tem entrado em constante conflito com o presidente Emmanuel Macron, que pretende ser uma espécie de “meio-termo” entre as direitas nacionalistas e as esquerdas combativas. Ouça também a transmissão completa da RFI, com outros quadros informativos.


E no ápice das turbulências internacionais em que Bolsonaro se meteu, sou a última pessoa a passar o pano pro Macron, que de fato foi oportunista ao se tornar presidente “alternativo”, fundando um partido com as iniciais do próprio nome, após ter servido como ministro das Finanças do socialista François Hollande. Mas também é difícil defender certas molecagens vindas de Abraham Weintraub, um ministro da Educação que pouco entende de sua própria área.

Pior foi o Bolsonaro cair na pegadinha de um Zé Mané no Facebook qualquer fazendo comparação besta entre esposas, algo além de tudo extremamente machista. Não vou repetir a história já muito difundida nas mídias. Já falei várias vezes que nunca quis apoiar nem atacar o presidente de forma ativa, mas como cidadão e pagador de impostos (como adoram falar os que não gostam de filme pornô ou gay se beijando na rua) tenho o direito de criticar essas atitudes, mesmo que o ofendido não seja digno dos melhores juízos.

Pra piorar o mico, junto a Macron nesta coletiva de imprensa estava Sebastián Piñera, presidente de nosso vizinho Chile que ainda por cima já teve de ouvir Bolsonaro falar bem do assassino Pinochet. Leiam a transcrição da fala, já traduzida em português no vídeo:

“Il se trouve qu’hier il [Bolsonaro] a considéré que c’était une bonne idée que son ministre [Weintraub] ‒ ça n’arrive jamais en France qu’un ministre de la République insulte quelque dirigeant que ce soit ‒ profère des insultes à mon endroit et lui, qu’il tienne des propos extraordinairement irrespectueux à l’égard de mon épouse. Qu’est-ce que je peux vous dire ? C’est triste. C’est triste, mais c’est triste d’abord pour lui et pour les Brésiliens. Et donc... moi, je pense que les femmes brésiliennes ont sans doute honte de lire ça de leur président. Je pense que les Brésiliens, qui sont un grand peuple, ont un peu honte de voir ces comportements, ils attendent quand on est président qu’on se comporte bien à l’égard des autres. Et comme j’ai beaucoup d’amitié et de respect pour le peuple brésilien, j’espère très rapidement qu’ils auront un président qui se comporte à la hauteur.”


segunda-feira, 15 de abril de 2019

Memes iniciais da Nova Era Bolsonaro




PÁTRIA ARMADA, BRASIL!


Assim como eu fiz com a era petista uns meses atrás, estou agora divulgando alguns memes que fiz logo no começo dessa chamada “Nova Era” iniciada com o governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL). Já temos pouco mais de três meses de mandato, além dos encargos dos novos governadores e parlamentares estaduais e federais, além do chamado “período de transição”, o que nos possibilita fazer um balanço mais ou menos honesto. Antes de tudo, sabemos que as redes sociais, sobretudo o aplicativo WhatsApp, foram essenciais pra que Bolsonaro e os seus chegassem ao poder, mesmo que esse emprego nem sempre tenha ocorrido de forma honesta. Mas, é claro, a contestação a eles também só podia partir do mesmo ambiente, e os instrumentos estão cada vez mais agudos e velozes!

Os chamados “cem dias” da presidência Bolsonaro foram marcados por polêmicas, desarticulação, desencontros e pouco impulso das alardeadas reformas, de modo que o povo já começa a manifestar sua impaciência. Também nos pareceu que, apesar dos infortúnios ocorridos com o candidato do PSL, sua postura após a posse pouco mudou, e ele continua usando uma linguagem rude e acusando os outros pelos seus problemas. (Algo, claro, nada diferente de Donald Trump, seu exemplo político.) Os chamados “bolsonaristas” agora se encontram na defensiva, e seus adversários de direita e de esquerda usam-se da mesma ferramenta política que predominou nos últimos anos: memes, textões, montagens constrangedoras, disparos em grupos de mensagens, avatares fofinhos e frases de efeito. Ainda parece cedo pra dizer quem é que tem razão, mas a superexposição a que se prestou Bolsonaro já o equipara a Dilma Rousseff na inspiração de tanto humor!

É claro que os memes, pra ficar só num tipo, variam muito em qualidade, partidarismo, engajamento ou decoro. Mas eu mesmo nunca deixei de desejar capturar certos momentos engraçados e eternizá-los no meu canal, independente de opção política, mas sempre buscando uma crítica social instigante. No caso em questão, podemos incluir o “período de transição” dentro do governo Bolsonaro, pois ele já tinha muitas de suas características essenciais e Temer carecia de qualquer moral ou influência política. A suposta vinculação com a ditadura militar de 1964-85 e o persistente corporativismo do Congresso Nacional, não raro associado à corrupção e ao fisiologismo e tentando emperrar a maioria das iniciativas do Executivo, são apenas alguns dos traços mais caricatos da dita “Nova Era”, cuja novidade ainda não vimos com toda clareza.

Aproveitem esses curtos vídeos, além das montagens nem sempre geniais que fiz, e divulguem pra seus amigos e conhecidos! Espero que eles sirvam pra vocês pensarem o que existe além da superfície das instituições políticas e das legendas partidárias ou ideológicas. Nem sempre a ordem é cronológica, mas eu quis montar uma narrativa mais ou menos lógica com a trajetória de nossa evolução institucional:


As raízes de nossa atual democracia imperfeita remontam a 1979, quando foi oficialmente inaugurada a abertura política após 15 anos de férrea ditadura militar anticomunista. Por muito tempo eu procurei esse vídeo, e lembro que capturei apenas o trecho em áudio do site do Jornal Nacional, talvez quando a lei da anistia fez 30 anos (2009), mas na época eu não sabia capturar vídeo. Esse ano procurei como um louco essa reportagem de novo, e não encontrei. Porém, fazendo uma garimpagem pelo YouTube, achei no lugar mais improvável: o começo de um dos intervalos da entrevista do ex-presidente da República João Figueiredo a Alexandre Garcia em 1985, pra extinta TV Manchete.

Questionado pelos repórteres se estava firme em seu propósito de levar adiante a Lei da Anistia, que simbolizava a abertura política e o gradual ocaso da ditadura militar instaurada em 1964, Figueiredo disse que não poderia estar mentindo pro povo. Algo anunciado com tanto alarde, há tanto tempo, mesmo que contrariando os interesses de setores militares mais conservadores, não podia ser de repente dado como suspenso. E ao reafirmar seu intento, Figueiredo solta a célebre frase irônica, sem esconder o método com que sempre tratou as coisas: “É pra abrir mesmo, e quem quiser que não abra, eu prendo, arrebento... Não tenha dúvida!”

Infelizmente, não havia vídeo separado com esta famosa passagem. Acabei capturando o trecho no upload feito pelo documentarista Pedro Janov, o primeiro a divulgar a entrevista. Eu cortei a duração e o quadro, mas tinha outro problema: na matéria, a fala é cortada bruscamente, antes de Figueiredo pronunciar “não tenha dúvida”. Por coincidência, um outro canal carregou uma montagem com parte do áudio da entrevista coletiva, baixado do acervo digital Vozes Brasileiras. Pra esse trechinho final poder aparecer, coloquei ainda no Movie Maker um print da última tela do vídeo da Manchete.

Nota (27/2/2022): O canal Meteoro Brasil fez uma biografia em vídeo do presidente Figueiredo um tempo depois, e mesmo sem citar meu antigo canal Pan-Eslavo Brasil, os donos usaram minha montagem pra ilustrar o referido momento. Nada tive contra, mas comparem com o documentário: até a paradinha final devida ao print da tela é igual, rs.


A tal “renovação política” sempre foi uma bandeira de nossos candidatos estreantes ou outsiders, mas o material antigo e podre parece mostrar uma teimosa capacidade de resistência. Pra piorar, nossos políticos raramente primam pela inteligência ou vasta cultura geral, e se falamos do Rio de Janeiro, com seus caos em diversos domínios nesse fim de 2018 e começo de 2019, a coisa toma tons trágicos e amargos. Devido à gravíssima crise política e humanitária na Venezuela atual, voltou a circular em redes sociais parte de um vídeo da então vereadora da cidade do Rio, Leila do Flamengo (PMDB), explicando em fevereiro de 2014 por que votou contra a concessão de uma homenagem ao presidente daquele país, Nicolás Maduro. Criticando a iniciativa da Câmara Municipal do ano anterior, a legisladora falava da recente morte de um jornalista da TV Bandeirantes durante um protesto, no Rio, contra a Copa do Mundo no Brasil e argumentou que a honraria não era merecida pelo “ditador criminoso que é o Madruga”.

Sim, isso mesmo: Madruga. Por razão desconhecida, ela confundiu “Maduro” com “Madruga”, neste caso certamente uma alusão ao personagem do seriado mexicano Chaves, que faz sucesso no Brasil desde os anos 80. Muitos internautas brincaram que se na Venezuela tinha o Hugo “Chávez”, deveria ter também o Nicolás “Madruga”, embora de fato “Chávez” em espanhol se pronuncie “tchábess”. Por outro lado, “Chaves” (um sobrenome comum no Brasil) foi a alcunha atribuída ao personagem chamado originalmente “Chavo” (tchábo), que na gíria mexicana significa “garoto, guri, moleque”. A grande jogada era que o menino adotado pelos moradores da vila sequer tinha nome, e era simplesmente chamado chavo, ou... “menino”.

Esse não foi um caso isolado envolvendo o caquético e fisiologista MDB (“novo” nome do antigo partido de Temer, Geddel, Sarney, Cunha, Renan, Cabral etc...). Em novembro de 2017, o então deputado estadual André Lazaroni, também do Rio de Janeiro, respondeu virulentamente numa sessão extraordinária a acusações que também lhe estavam sendo feitas. Ao fim do discurso de uns 15 minutos, já começando a trocar alhos por bugalhos, ele citou a frase “Ai do povo que precisa de heróis”, do dramaturgo comunista alemão Bertolt Brecht... que ele chamou de “Bertoldo Brecha”. Este nome era o de um personagem do antigo programa humorístico Escolinha do Professor Raimundo, liderado por Chico Anysio na Rede Globo, que falava, porém, com sotaque baiano. A imediata correção dos colegas o deixou ainda mais confuso, pois provavelmente tendo lido a frase numa fonte indireta, sem conhecer a fundo o verdadeiro autor, não conseguiu chegar à pronúncia exata ou aproximada de seu nome.

A fúria e o atropelamento verbal de Lazaroni só servem pra tentar ocultar, obviamente sem sucesso, sua evidente culpa. A desfaçatez de ter usado a história de Jesus e da igreja cristã pra se justificar é tão descarada e chocante, que decidi deixar todo o trecho que vai do “Brecha” até o final do discurso, quando ele faz sua “modesta” comparação com Cristo. Claro que não sou religioso, mas penso ser um desrespeito com quem realmente crê manipular a fé como blindagem pros seus crimes, algo comum, porém, entre certos políticos pentecostais e neopentecostais cuja fortaleza está na cidade e no estado do Rio. Notavelmente, essa sessão extraordinária da ALERJ era presidida pelo célebre e mítico comunicador Wagner Montes, com o qual tanto nos encontramos no velho Show de Calouros.

Isso só mostra como pra ser político no Braziu-ziu-ziu, você não precisa ter cultura, muito estudo, vergonha na cara, autocrítica e sensibilidade com os outros. Eles sempre tentam nos ocultar, mas vez ou outra acabam escancarando seu despreparo pra lidar com pessoas e com a coisa pública! Os cariocas e fluminenses, infelizmente, estão muito mal servidos com seus políticos em todos os níveis (e as eleições de 2016 e 2018 foram só um petisco disso), mas tenho certeza que isso é um problema que atinge toda a nossa querida e rica nação. Pra fazer esse vídeo, usei uma montagem com a vereadora Leila (só tirei a parte do episódio Chaves) e a filmagem da sessão extraordinária da ALERJ (pus apenas o fim).


Por falar em incultura e falta de articulação, temos um exemplo transparente com o deputado federal e político mais que profissional Fábio Ramalho (MDB-MG). Tudo bem que o Brasil é rico em sotaques e expressões regionais, mas o que vemos aí não é exatamente uma amostra de regionalismo. Alguém que presumidamente ocupa o cargo de tribuno do povo e advogado dos eleitores devia ao menos fazer-se entender de modo menos atabalhoado! Ex-vice-presidente da Câmara dos Deputados e reeleito em 2018, concorreu como independente à presidência da casa no início deste ano, mas perdeu pra Rodrigo Maia (DEM-RJ). Sua liderança não seria nada insincera nesse antro de podridão, pois a causa que defende arduamente neste vídeo, também tirado do Jornal Nacional (12 de dezembro de 2018), é... o aumento do próprio salário!

Parece até clichê dizer que se trata de preocupação extremamente bizantina diante de tantos problemas que o Brasil vive, sobretudo Minas Gerais, mas isso só mostra que o mantra da “nova política” contra a “velha política” é apenas uma jogada eleitoral. Marina Silva, em 2014, repetiu isso tal como um disco riscado, e talvez por inércia Bolsonaro carregou a mesma bandeira na campanha e mesmo em seu início de governo. Pros avisados, está óbvio que a tendência de nosso sistema é se autoperpetuar, impedindo qualquer renovação profunda, mesmo com várias mudanças que tivemos em Brasília e pelo Brasil. O próprio Ramalho com seu desalinho e improviso é a prova viva do triunfo da “velhíssima política”, mas vender-se como “novo” alguém que passou quase 30 anos votando contra projetos reformistas e não raro apoiando políticas estruturais montadas pelo PT, e depois se erguer em paladino do antipetismo, aí já é difícil de engolir! (Lembrando que o PP, partido a que pertenceu de 2005 a 2016, foi mais ou menos base aliada tanto de Lula quanto de Dilma.)


Quando eu falo em “perpetuação dos políticos”, infelizmente não quero dizer apenas aqueles velhos coronéis bonachões que são reeleitos da forma mais “natural” possível. Não raro, formam-se famílias ou “clãs” inteiros só de políticos, muitas vezes tendo uma cidade, região ou estado como curral eleitoral. Essa herança política, ou mesmo do capital político das gerações anteriores, acontece nos países mais desenvolvidos e democráticos, mas no Brasil toma a forma de uma herança privada passada de pai pra filho, cuja substância material, porém, é a coisa pública. Por isso mesmo, a atividade parlamentar é vista por muitos não como uma forma de ajudar o povo ou defender um certo grupo de interesse, mas garantir o próprio sustento e uma renda fixa sem muito esforço.

Não sei quem era o deputado em questão, mas a posse do novo Congresso Nacional em fevereiro de 2019 trouxe a Brasília famílias inteiras que foram prestigiar as “conquistas”, à moda de trupes caipiras que se esbaldam em festas de formatura escolar ou universitária. As crianças imitam perfeita e sinceramente o meio que absorvem, e o menininho do vídeo, filmado pelo Jornal Nacional em 1.º de fevereiro, parece ter entendido bem a chance. Seguindo o exemplo do pai, adivinhem o que ele quer ser quando crescer?


É claro que secretamente, o pensamento dos brasileiros com relação a seus parlamentares é totalmente outro. São comuns as metáforas com guilhotinas, assassinatos, punições, explosões e outras coisas que mais parecem vinganças revolucionárias de populações oprimidas. Logo, descontadas as inevitáveis vítimas comuns e inocentes, uma hecatombe natural ou até atômica em Brasília sempre povoou alguns sonhos mais acerbos e raivosos. Por isso, acredito que esta é a melhor cena da longa novela bíblica Apocalipse, da Record TV, que começou em 2017 e terminou no ano passado.

Durante a queda do meteoro Absinto, descrita numa das passagens apocalípticas da Bíblia Sagrada, a Praça dos Três Poderes é toda destruída. Tudo bem se fosse só isso, mas a família Ma$$edo esteve sempre interferindo na trama e alfinetando a Globo, com esse noticiário que é evidente imitação do Jornal Nacional. O Juno Meneghel, claramente imitando o célebre William Bonner, até parece que está descrevendo a tragédia de Brumadinho na sua fala, por isso fica até horripilante! Sei que tem gente que não gosta, mas além de cortar o quadro, pus algumas repetições pros internautas terem o prazer aumentado.


Todos os presidentes do pós-ditadura ficaram conhecidos por algum bordão que entrecortava suas falas públicas. Sarney, Collor, FHC, Lula e Dilma tinham alguma palavra ou expressão que repetiam demais por força do hábito, mesmo em discursos planejados, e isso não escapou a seus críticos ou imitadores. Em 8 de março eu estava vendo o Jornal Nacional e de repente apareceu este fim de reportagem sobre as candidaturas laranjas de mulheres pra deputada estadual e federal, supostamente alavancadas em Minas Gerais pelo atual ministro do Turismo, do PSL, partido de Jair Bolsonaro. Saindo de um evento, o presidente foi questionado pela repórter global Zileide Silva se essas denúncias constrangiam o governo, mas ele respondeu secamente que preferia esperar as investigações, e logo em seguida deu as costas e foi embora.

Me chamou a atenção que ele disse isto: “Deixa as investigações continuarem, tá OK?”. Depois de todos esses meses de campanha eleitoral e começo do mandato, só então vi o próprio Bolsonaro pronunciando a expressão que lhe deixou famoso: “Tá OK?”, repetida até por apoiadores adolescentes quando queriam “lacrar” em debates nas redes sociais. Por causa de sua constância e da rapidez com que era pronunciada, tomou várias ortografias cômicas e alternativas na pena dos opositores: “talquei”, “talkey”, “taoquei” etc.

Eu mesmo entendia que essa expressão queria dizer uma fusão do verbo inglês (to) talk (falar) com a terminação “-ei” do passado regular dos verbos em “-ar”. Ou seja, algo como “talkei?” no sentido de “falei?”, “tá falado?”. Mas só lá pro fim do ano passado acabei deduzindo que era “Tá OK?”. Então, mesmo sendo algo bem banal ou babaca, deixei aqui este vídeo como registro histórico, não só do famoso bordão usado já na etapa do mandato, como também de sua relação áspera com a Rede Globo. Esta, pra variar, lhe faz oposição aberta, como a todo governo que ouse assumir.

No Dia Internacional de Luta das Mulheres Trabalhadoras, além da fala da ministra Damares Alves com achismos e lugares-comuns sobre a delicadeza feminina contrastando com a força masculina, Bolsonaro também soltou uma pérola num evento oficial com a esposa. Disse que seu ministério tinha equilíbrio de sexos por ter 2 mulheres e 20 homens, já que “cada mulher ali valia por 10 homens”. Valeu a brincadeira, mas só deixa explícita a falta de representatividade de vários setores dentro de seu governo e outras estruturas do Estado (não discuto aqui essa questão, mas deixo pra reflexão, tá OK? rs).


Dois anos atrás conhecido pelos arroubos golpistas, o general Hamilton Mourão, vice de Bolsonaro, com sua fisionomia meio indígena, tem confundido o público por declarações aparentemente contraditórias ao que defende o titular do cargo. Muitos iludidos estão dizendo que ele seria uma espécie de “cavalo de Troia” dentro de um governo ultraconservador, esperando apenas a oportunidade pra lançar a própria candidatura em 2022. Outros veem esse intento pelo lado da desonestidade, soltando apenas umas pérolas progressistas pra dar a impressão de ser mais culto e aberto do que Bolsonaro. O fato é que Mourão, já tendo várias chances de exercer brevemente a presidência, virou uma espécie de “queridinho da imprensa”, mais afável e brincalhão e menos brutamontes do que o “Mito”.

Como informou o Jornal Nacional no dia 19 de fevereiro de 2019, a Câmara dos Deputados derrubou o decreto assinado por Mourão, que ampliava o círculo de funcionários públicos que poderiam classificar documentos de Estado como ultrassecretos. A derrota foi vista como uma retaliação e sinal de força demonstrados ao governo Bolsonaro, cuja equipe, porém, minimizou e afirmou que os reveses “fazem parte da democracia”. Mas o vice não sabia ou não admitia que o Congresso Nacional, não como aglomerado ideológico, mas como associação corporativista, tentaria é sabotar ao máximo a “Nova Era”. Ao comentar o resultado, ele se referiu ainda à famosa frase associada a assaltos a mão armada no Brasil, geralmente por bandidos vindos de classes pobres: “Perdeu, playboy!”.


Primeiro a frase “Perdeu, playboy!”, e agora paga de falante do castelhano. Quem sabe com essa pinta toda, ele realmente não esteja preparando sua futura candidatura à presidência em 2022? Em 25 de fevereiro ele leu um texto escrito em espanhol numa reunião do Grupo de Lima, enquanto governantes da região discutiam soluções diplomáticas pra crise política e humanitária na Venezuela. O general surpreendeu pronunciando um espanhol com forte sotaque, mas razoavelmente compreensível: era a primeira vez que eu via um membro do alto escalão do novo governo dizendo qualquer coisa numa língua estrangeira. As cenas têm produção da GloboNews.

Já que o colombiano Ricardo Vélez-Rodríguez, enquanto foi ministro da Educação, não ensinou nada de útil além de medidas patrioteiras, bem que ele podia dar umas aulas de reforço pro Mourão. E quem sabe mais: fazer um pacote incluindo a Dilma Rousseff, que em várias ocasiões tentou falar da própria cabeça algo remotamente parecido com o espanhol, mas se deu mal! Essa “crestomatia” do ibero-dilmês pode ser apreciada aqui mesmo na página.


Este último vídeo meu não tem a ver diretamente com política, mas decidi incluir aqui, porque dizem que Jair Bolsonaro foi eleito pelo WhatsApp. Então, nada melhor do que pensar na sua segurança num meio hoje tão anárquico! Ele é bem simplezinho e mostra como criar um código PIN e adicionar um e-mail de contato pra evitar invasões indesejadas no seu aplicativo.

Dica importante: pra todos os smartphones modernos com o sistema Android, existe um jeito simplíssimo de tirar prints da tela. Pressione ao mesmo tempo (e não um após o outro) a tecla liga/desliga e o lado do botão do volume que reduz a altura. Espere uns dois segundos, e vai dar o barulho de clique da imagem. Alguns modelos modernos, pelo que notei depois do upload, já têm um comando próprio pra captura de tela.