domingo, 4 de outubro de 2015

Hino Nacional da Nova Rússia (2014)


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Este é o que conta no canal do YouTube “Единая Святая Русь” (Santa Rússia Unida) como o Hino da Nova Rússia, Zhivi, Novorossia! (Viva, Nova Rússia!), o qual não acredito ter caráter oficial. Principalmente porque o que se chama de Nova Rússia, que na verdade consiste de várias províncias do Leste e Sudeste da Ucrânia com maioria linguística russa, ainda não é um país reconhecido internacionalmente, e as milícias que querem sua separação da Ucrânia continuam em estado de guerra contra o governo de Kyiv.

A canção é quase toda baseada no hino nacional da Ucrânia soviética, cuja melodia foi composta por Anton Lebedynets e a primeira letra, com referências a Stalin, por Pavlo Tychyna, e que foi oficializado em 1949. Apenas em 1978 uma nova letra “desestalinizada” de Mykola Bazhan seria adotada, e é esta que baseia largamente a terceira letra que Oleg Ivashov fez para o hino da Nova Rússia, em 2014. Esta interpretação foi gravada em Luhansk, também em 2014, pelos irmãos Valentin e Mikhail Zolotukhin. Não montei o vídeo, mas legendei após traduzir diretamente do russo e ucraniano.

A primeira parte (de “Nós somos...” a “... povos e raças”) e a terceira (de “Novamente...” a “... povos e raças”) estão em russo, e a segunda (de “Nos combates...” a “... povos irmãos”) está em ucraniano, e é nesta que a semelhança com a versão soviética é notável. Uma comparação mostra a substituição marota do “povo russo” por um “povo vizinho”, e das referências comunistas por símbolos religiosos. Comum nessa região da Ucrânia, denuncia-se uma influência do russo pelo ucraniano, e vice-versa: na terceira parte, por exemplo, a palavra “Родину” (Pátria) é claramente falada à ucraniana, mais ou menos como se em russo na verdade estivesse escrito “Родыну”.

No brasão da Nova Rússia, “Новороссия” (Novorossia) é o nome do país, e “Воля и труд” (Volia i trud) é o lema “Liberdade e trabalho”. Mesmo que eu não tenha feito alterações na tradução para caber na legendagem, coloquei abaixo também ambas as letras, para o conforto do(a) leitor(a):


1. Trecho em russo:
Мы – Новая Русь, сквозь пожары и грозы
Под небом огромным мы счастье нашли.
Меж равными равные волею божьей
Свободные люди свободной земли.

Слава народу творящему, слава!
Слава отчизне, взлелеявшей нас!
Живи, Новороссия, наша держава,
Сплочённая силой народов и рас.

2. Trecho em ucraniano:
Нам завжди у битвах за долю народу
Був другом і братом сусідній народ.
Веде нас Господь переможним походом
Під прапором віри до світлих висот.

Слава народу завзятому, слава!
Слава вітчизні на віки віків!
Живи, Нова Русь, ти шляхетна держава,
Єдина родина народів-братів.

3. Trecho em russo:
Священный союз городов и селений,
Мы Родину славим победами вновь.
В счастливое время великих свершений
На мирной земле торжествует Любовь.

Слава народу творящему, слава!
Слава отчизне, взлелеявшей нас!
Живи, Новороссия, наша держава,
Сплочённая силой народов и рас.

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1. Nós somos a Nova Rus, por entre incêndios e tempestades
Encontramos a felicidade sob um céu imenso.
Iguais entre iguais pela vontade de Deus
Somos pessoas livres de uma terra livre.

Glória ao povo produtor, glória!
Glória à pátria que nos educou!
Viva, Nova Rússia, nosso Estado
Coligado pela força de povos e raças.

2. Nos combates pelo destino de nosso povo
O povo vizinho sempre foi amigo e irmão.
O Senhor nos conduz até as alturas radiantes
Numa marcha vitoriosa sob a bandeira da fé.

Glória ao povo destemido, glória!
Glória à pátria pelos séculos dos séculos!
Viva, Nova Rus, você é um país magnânimo,
Uma família unida de povos irmãos.

3. Novamente glorificamos com vitórias a Pátria,
União sagrada de cidades e povoados.
Num tempo propício de grandes realizações
O Amor triunfa na terra pacífica.

Glória ao povo produtor, glória!
Glória à pátria que nos educou!
Viva, Nova Rússia, nosso Estado
Coligado pela força de povos e raças.



domingo, 27 de setembro de 2015

Chant des partisans + Hino da França


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Este vídeo é um trecho da tradicional parada francesa em comemoração à queda da Bastilha, conduzida nos Champs-Élysées em 14 de julho de 2015, na presença do presidente François Hollande, do primeiro-ministro Manuel Valls e do presidente do México, convidado de honra, Enrique Peña Nieto. O Coral do Exército Francês executa Le Chant des partisans (A canção dos guerrilheiros), hino da Resistência Francesa contra os nazistas, e La Marseillase (A Marselhesa), hino nacional da França.

A Marselhesa era antes um Canto de guerra para o Exército do Reno composto por Claude Joseph Rouget de Lisle em 1792 durante a guerra entre França e Áustria. Foi decretada “canto nacional” em 1795, abandonada em 1804, retomada em 1830 e tornada hino nacional em 1879, com uma “versão oficial” efetivada em 1887. Le Chant des partisans foi composto primeiro em russo pela emigrada Anna Marly em 1941 e recebeu letra em francês dos resistentes Joseph Kessel e Maurice Druon em 1943. Nesse ano, uma gravação chegou clandestina à França ocupada, expandiu-se com o epíteto de “Marselhesa da Resistência” e continuou popular após a guerra.

Há muitas variantes das letras das duas canções, mas A Marselhesa eu tirei da Wikipédia em francês, e Le Chant des partisans eu tirei desta página. Este eu mesmo traduzi, cotejando com as versões em espanhol, esperanto e russo da Wikipédia, e da Marselhesa eu dispunha das traduções da Wikipédia e a do livro Francês urgente para brasileiros, de Angela F. Perricone Pastura. A partir delas, cheguei à minha própria versão, cotejando ainda com as das Wikipédias em inglês, espanhol, italiano, catalão, esperanto e galego.

No Chant des partisans usei linguagem moderna, mas na Marselhesa mantive “tu”, “vós” e presente simples ao invés do presente contínuo. Recorri também a textos que explicavam em parte Le Chant des partisans (“Poésie engagé”) e A Marselhesa (“La Marseillaise expliquée aux cons” – aqui; “Au-delà du sens politique et historique, que signifient au juste les paroles de notre hymne national ?” – aqui). O polêmico “sang impur” (sangue impuro), considerado racista, entendi como “sangue plebeu” (não azul/puro), e não “sangue estrangeiro”.

O desfile completo de cujo vídeo eu tirei o trecho pode ser visto no canal do Ministério da Defesa francês. A Marselhesa é executada, além de seu refrão, nas estrofes 1 e 6, mais empregadas em eventos oficiais, embora a letra completa tenha 7 estrofes. A banda e o coral formam o desenho da Cruz de Lorena, símbolo europeu famoso adotado pela Resistência Francesa e popular entre os gaullistas. Depois do vídeo legendado estão as letras das duas canções em francês e em português:




Le Chant des partisans

Ami, entends-tu
Le vol noir des corbeaux
Sur nos plaines ?
Ami, entends-tu
Les cris sourds du pays
Qu’on enchaîne ?
Ohé ! partisans,
Ouvriers et paysans,
C’est l’alarme !
Ce soir l’ennemi
Connaîtra le prix du sang
Et des larmes !

Montez de la mine,
Descendez des collines,
Camarades !
Sortez de la paille
Les fusils, la mitraille,
Les grenades...
Ohé ! les tueurs,
A la balle et au couteau,
Tuez vite !
Ohé ! saboteur,
Attention à ton fardeau :
Dynamite !

C’est nous qui brisons
Les barreaux des prisons
Pour nos frères,
La haine à nos trousses
Et la faim qui nous pousse,
La misère...
Il y a des pays
Ou les gens au creux de lits
Font des rêves ;
Ici, nous, vois-tu,
Nous on marche et nous on tue,
Nous on crève.

Ici chacun sait
Ce qu’il veut, ce qui’il fait
Quand il passe...
Ami, si tu tombes
Un ami sort de l’ombre
A ta place.
Demain du sang noir
Séchera au grand soleil
Sur les routes.
Sifflez, compagnons,
Dans la nuit la Liberté
Nous écoute...

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Amigo, ouve o voo nefasto dos corvos sobre nossas planícies?
Amigo, ouve os gritos abafados do país que acorrentam?
Ei, guerrilheiros, operários e camponeses, é o alarme!
Esta noite o inimigo pagará por nosso sangue e lágrimas!

Subam da mina, desçam das colinas, camaradas!
Tirem das palhas os fuzis, a metralha, as granadas...
Ei, matem logo os assassinos na bala e na faca!
Ei, sabotador, cuidado com a dinamite que carrega!

Nós quebramos as grades das prisões para nossos irmãos,
Com o ódio nos perseguindo, a fome pressionando, a miséria...
Há lugares em que as pessoas sonham acamadas;
Aqui, está vendo, nós marchamos, matamos, morremos.

Todos que vêm aqui sabem o que querem e fazem...
Amigo, se você perece, um amigo sai da sombra ao seu lugar.
Amanhã sangue impuro secará ao sol sobre as estradas.
Assobiem, companheiros, na noite a Liberdade nos escuta...





La Marseillaise

1. Allons enfants de la Patrie,
Le jour de gloire est arrivé !
Contre nous de la tyrannie
L’étendard sanglant est levé,
L’étendard sanglant est levé,
Entendez-vous dans les campagnes
Mugir ces féroces soldats ?
Ils viennent jusque dans vos bras
Égorger vos fils, vos compagnes !

Refrain :
Aux armes, citoyens,
Formez vos bataillons,
Marchez, marchez !
Qu’un sang impur
Abreuve nos sillons !
Aux armes, citoyens,
Formons nos bataillons,
Marchons, marchons !
Qu’un sang impur
Abreuve nos sillons !

2. Amour sacré de la Patrie,
Conduis, soutiens nos bras vengeurs,
Liberté, Liberté chérie,
Combats avec tes défenseurs !
Combats avec tes défenseurs !
Sous nos drapeaux que la victoire
Accoure à tes mâles accents,
Que tes ennemis expirants
Voient ton triomphe et notre gloire !

(Refrain)

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1. Vamos, filhos da Pátria,
O dia da Glória chegou!
A bandeira sangrenta da tirania
É desfraldada contra nós,
É desfraldada contra nós,
Vós ouvis nos campos
Mugir esses soldados ariscos?
Eles vêm a vossos lares para
Degolar vossos filhos e mulheres!

Refrão:
Às armas, cidadãos,
Formai vossos batalhões,
Marchai, marchai!
Que um sangue plebeu
Regue nossos campos!
Às armas, cidadãos,
Formemos nossos batalhões,
Marchemos, marchemos!
Que um sangue plebeu
Regue nossos campos!

2. Amor sagrado pela Pátria,
Guia e apoia nossos braços vingadores,
Liberdade, querida Liberdade,
Combate com teus defensores!
Combate com teus defensores!
Sob nossas bandeiras, que a vitória
Acorra a teus brados viris,
Que teus inimigos agonizantes
Vejam teu triunfo e nossa glória!

(Refrão)




domingo, 20 de setembro de 2015

Hino da Iugoslávia socialista


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Esta é a legendagem da versão em servo-croata do hino pan-eslavista Ei, eslavos, originalmente composto no século 19 e empregado como hino da República Socialista Federativa da Iugoslávia entre 1943 e 1991 (de onde ele é mais conhecido), e posteriormente da República Federal da Iugoslávia e de sua sucessora Sérvia e Montenegro até 2006. Desde então, mesmo sobrevivendo na cultura popular, Ei, eslavos não é mais o hino de nenhum país.

Em 1834, ainda no Império Austro-Húngaro, o eslovaco Samuel Tomášik compôs a canção Hej, Slováci (Ei, eslovacos), que ele logo alterou para incluir todos os eslavos e torná-la um hino do então existente movimento pan-eslavista. A canção é baseada na Mazurek Dąbrowskiego (Mazurca de Dąbrowski), atual hino da Polônia, cujo tempo, porém, é mais rápido.

No futuro território iugoslavo, a canção foi traduzida pelo croata Dragutin Rakovac, ativista do “movimento ilírio” de meados do século 19 de impulso à cultura croata. A canção havia sido renomeada como Hej, Iliri (Ei, ilírios) e depois se tornou Ei, eslavos novamente. Em servo-croata, era chamada Hej, Slaveni ou Hej, Sloveni. Com a queda da monarquia iugoslava após a 2.ª Guerra Mundial, seu hino foi abandonado e substituído em 1943 por Ei, eslavos pelo governo de resistência e, depois, comunista, mas sem caráter oficial.

O hino só foi constitucionalizado em 1988, e a federação socialista logo ia se desintegrar em 1991-92, mas ele continuou a ser usado no que restou da Iugoslávia. Em 2003, o país passou a se chamar Sérvia e Montenegro, mas não houve um acordo sobre a adoção de um novo hino, e Ei, eslavos só foi abandonado em 2006, quando Sérvia e Montenegro se tornaram dois países independentes, com seus próprios hinos.

Eu traduzi a partir da versão que a Wikipédia em russo dizia ser em “servo-croata”, a qual não tem diferenças relevantes com as que são chamadas de “sérvio” e “croata”. O hino possui versões poéticas em todas as línguas eslavas, mas não as utilizei para ajudar a traduzir o que se tornou o hino da Iugoslávia. Utilizei traduções literais “rough” em inglês e russo, e parte de uma em italiano, mas a palavra final sempre era dada pelo dicionário das línguas sérvia e croata. Extraí as informações históricas do verbete “Hey, Slavs” da Wikipédia em inglês.

Logo abaixo, duas versões do áudio legendado: uma apenas em português, com fotos de época, e outra com a bandeira nacional, e os textos em servo-croata (alfabeto latino) e português. Em seguida, os textos em servo-croata (alfabetos latino e cirílico) e em português:





Hej Slaveni, jošte živi
Reč naših dedova,
Dok za narod srce bije
Njihovih sinova.

Živi, živi duh slavenski
Živeće vekov’ma
Zalud preti ponor pakla,
Zalud vatra groma.
Zalud preti ponor pakla,
Zalud vatra groma.

Nek se sada i nad nama
Burom sve raznese
Stena puca, dub se lama,
Zemlja nek se trese.

Mi stojimo postojano
Kano klisurine,
Proklet bio izdajica
Svoje domovine!
Proklet bio izdajica
Svoje domovine!

Хеј Славени, јоште живи
Реч наших дедова,
Док за народ срце бије
Њихових синова.

Живи, живи дух славенски
Живеће веков’ма
Залуд прети понор пакла,
Залуд ватра грома.
Залуд прети понор пакла,
Залуд ватра грома.

Нек се сада и над нама
Буром све разнесе
Стена пуца, дуб се лама,
Земља нек се тресе.

Ми стојимо постојано
Кано клисурине,
Проклет био издајица
Своје домовине!
Проклет био издајица
Своје домовине!

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Ei, eslavos, a palavra de nossos avós ainda viverá
Enquanto o coração dos filhos deles bater pela nação.
O espírito eslavo vive, vive e viverá para sempre,
O abismo do inferno e o fogo do relâmpago o ameaçam em vão.
O abismo do inferno e o fogo do relâmpago o ameaçam em vão.

Pode o vento Bora dissipar agora tudo sobre nós
E a rocha estalar, o carvalho se quebrar e a terra tremer
Que continuaremos erguidos como os penhascos.
Maldito seja quem trair sua própria pátria!
Maldito seja quem trair sua própria pátria!




domingo, 13 de setembro de 2015

A tarefa sagrada do Exército Vermelho


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Este é o segundo dos raros discursos que pronunciou no início da Revolução de Outubro Leon Trotsky (nascido Lev Davidovich Bronstein), líder social-democrata ucraniano que se aliou aos bolcheviques em 1917 e se tornou fundador e chefe do Exército Vermelho, vencedor da Guerra Civil Russa contra os opositores de Lenin e garante da consolidação do poder comunista na futura URSS. Aparentemente, no período inicial da Revolução Russa, só existem dois discursos gravados por ele, a despeito de seu papel ainda enorme no regime, tendo sido o primeiro, de 1919, sobre as repúblicas soviéticas, já postado aqui no blog. Trotsky filmou outros discursos em inglês e francês no período tardio de sua vida, e pretendo postá-los legendados em breve.

Trotsky conta a história de um velho tártaro que o havia visitado para agradecer pela expulsão de tropas cossacas antibolcheviques da região em que morava, alegando que eles cometiam abusos e extorsões supostamente evitados pelos comunistas. A partir desse exemplo, o líder procura orgulhoso definir um caráter de classes à guerra civil em curso, postando os “brancos” ao lado de uma burguesia assassina e antipopular, e os “vermelhos” como defensores dos pobres e da liberdade. Por isso, o soldado de Lenin não deveria se esquecer de lutar sempre no interesse do combate à pobreza.

Este discurso, cujo título inicial é “Sviaschennaia zadacha Krasnoi armii”, parece incógnito até para os próprios russos. O áudio tem qualidade sofrível, e isso deve ter atrapalhado a transcrição na íntegra: o colaborador do SovMusic.ru pareceu o mais perdido, e outro site tem uma versão mais completa. Com esforço e pesquisa, completei de algum jeito as poucas lacunas e o datei do ano de 1920, como faz a maioria dos sites, embora alguns indiquem 1919. A seguir, antes dos textos em português e russo, está o vídeo legendado, no qual fiz as necessárias simplificações para acelerar a leitura:


[A tarefa sagrada do Exército Vermelho. Discurso do Comissário do Povo para Assuntos Militares e Navais, camarada Trotsky.]

Camaradas soldados do Exército Vermelho! Em 8 de março deste ano, veio me ver no Comissariado do Povo para Assuntos Militares o velho tártaro Burmai, (1) natural da província de Samara. (2) Ele foi mandado a Moscou pelos conterrâneos, trabalhadores camponeses tártaros, e com lágrimas nos olhos agradeceu ao Poder Soviético por ter libertado sua província dos bandos de Dutov. (3) Eis o que ele me disse:

“A presença dos cossacos em nosso povoado foi terrível. Seus oficiais não apenas tomavam nossos cavalos, gado, cereais, sem pagar nada, principalmente aos camponeses pobres. Não, mais ainda, nos humilhavam, perseguiam, agrediam, fuzilavam! Nós, tártaros, sofríamos o pior. Ouvimos que o Exército Vermelho estava se deslocando para a província de Samara, mas não sabíamos se seria melhor ou pior. E quando os cossacos deixaram o povoado, dando lugar aos soldados vermelhos, logo vimos que era outra gente. Não fomos mais ultrajados, os soldados falavam conosco como irmãos, no povoado e em todo o entorno se instalou a ordem. Respiramos aliviados e bendissemos o Exército Vermelho!”

Assim me disse o velho tártaro, pai de uma família numerosa, e ouvindo essas palavras, camaradas soldados, fui sentindo imenso orgulho de nosso Exército Vermelho Operário-Camponês. Este pequeno exemplo traduziu o legítimo caráter das tropas revolucionárias, bem como o pleno sentido desta guerra que nos obrigam a travar. De um lado, as tropas burguesas carniceiras representam na prática, em todo e qualquer lugar a que chegam, a pior forma de ludíbrio que havia sob os tsares, a opressão dos pobres. Do outro lado, as tropas vermelhas trazem a libertação a todos.

Então lembrem-se: é muito claro que cabe a vocês garantir o comer e beber dos pobres. Azar ao soldado que não entende a que foi indicado. E ao autêntico soldado do Exército Vermelho, que corajoso e honesto defende os direitos e interesses dos pobres, honra e glória, e a gratidão das massas trabalhadoras!

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[Священная задача Красной армии. Слово народного комиссара по военным и морским делам товарища Троцкого.]

Товарищи солдаты Красной армии! 8 марта этого года пришёл ко мне, в народный комиссариат по военным делам, старый татарин Бурмай, родом из Самарской губернии. Явился он в Москву по воле своих односельчан – трудовых татарских крестьян и со слезами на глазах благодарил Советскую власть за освобождение Самарской губернии от дутовских банд. Вот что он сказал мне:

«Когда у нас стояли в селе казаки, много мы горя натерпелись. Казацкие офицеры не только забирали у нас лошадей, скот, хлеб, ничего не платя, особенно беднякам. Нет, мало того – они издевались над нами, преследовали нас, били, расстреливали! Нам, татарам, приходилось тяжелее всего. Мы слышали о том, что Красная армия движется на Самарскую губернию, но не знали – будет ли нам лучше или хуже. Когда же село наше было покинуто казаками, и к нам вступили красноармейцы, мы сразу увидели, что это другой народ. Нас перестали обижать, солдаты с нами разговаривали по-братски, в селе и везде вокруг установился порядок. Мы свободно вздохнули и благословили Красную армию!»

Так сказал мне старый татарин, отец многочисленной семьи, и слушая эти слова, я, товарищи солдаты, испытывал чувство гордости за нашу Рабоче-крестьянскую Красную армию. На этом маленьком примере обнаружился подлинный характер революционных войск, а также весь смысл этой войны, какую мы вынуждены вести. С одной стороны буржуазные боенские (4) войска, представляют на деле куда бы они ни пришли везде и всюду худшую форму неправды, которая была при царях, угнетение бедноты. С другой стороны, Красные войска которые несут всем освобождение.

Помните же: твёрдо наружи вам рученность еды и питья бедноты. (5) Горе солдату, который не понимает своего назначения. А настоящему солдату Красной армии, который мужественно и честно защищает права и интересы бедноты – ему честь и слава, и благодарности трудящихся масс!

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Notas (Erick Fishuk)

(1) As transcrições que encontrei davam, sem ter certeza, o nome como “Бурлаев” (Burlaiev) ou “Бурлай” (Burlai), mas a meu ouvido pareceu mais “Бурмай” (Burmai), que também pode ser tanto um prenome quanto sobrenome de origem túrquica.

(2) Em russo, “província de Samara” é “Самарская губерния” (Samarskaia gubernia), sendo a gubernia uma divisão administrativa hoje extinta e dita governorate em inglês. Define-se a rigor em português, mas sem tradução exata, como divisão administrativa dirigida por um governador, e uma das definições do Aurélio (2004) para “governo” é justamente “Território da jurisdição de um governador”. A Wikipédia em português oscila entre as traduções “província” (verbete “guberniya”), forma que adotei para fluir a leitura e evitar confusão, e “governo-geral” (verbete “governorate”).

(3) Aleksandr Ilich Dutov (1879-1921), líder de tropas cossacas durante o período tsarista, já em novembro de 1917 liderou uma revolta antibolchevique no sul da Rússia, depois se integrou às tropas “brancas” da guerra civil e, após a derrota, foi morto no exílio chinês por um agente comunista.

(4) Trotsky aparentemente pronuncia “боинские” (boinskie), com acento no primeiro И (i), que deve ser uma forma antiga ou dialetal da palavra.

(5) O trecho “наружи... бедноты” não constava em nenhuma das transcrições online, e fui eu quem tirou de ouvido, mesmo não tendo certeza da exatidão.



domingo, 6 de setembro de 2015

Votos de François Hollande para 2015


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Discurso do Presidente da República francês François Hollande expressando aos cidadãos seus votos de um Feliz Ano Novo para 2015, pronunciado e transmitido do Palácio do Élysée a 31 de dezembro de 2014. Título original: “Vœux du président de la République aux Français”.

Hollande inicia a alocução ressaltando as grandezas da França e os motivos pelos quais seus cidadãos poderiam se orgulhar dela, e que dariam, assim, a base para se acreditar que o país tinha um grande futuro pela frente, desde que se evitassem passadismos em detrimento da audácia. Em seguida, o presidente lista as amplas reformas que seu governo buscou empreender no difícil ano de 2014, como na economia, no trabalho, no emprego e na divisão territorial, e anuncia outras reformas que em 2015 pretendia fazer no ensino, na tributação, na assistência social e na questão da eutanásia. Hollande reafirma também compromissos morais e políticos com a integração europeia, o republicanismo, a união nacional, o meio-ambiente, a paz mundial e contra os demagogos, a xenofobia, o racismo, o antissemitismo e a guerra. Por fim, dedica uma lembrança às pessoas na França que passam necessidade e renova seu pedido para que o povo confie no país, no governo e na própria laboriosidade.

O texto em francês, o vídeo e o áudio do pronunciamento podem ser acessados conjuntamente nesta página do Élysée. O vídeo sobre o qual coloquei as legendas também pode ser assistido sem elas nesta página. Abaixo você pode ver também o próprio vídeo legendado, no qual, é claro, sempre são feitas as necessárias adaptações a esse tipo de mídia:


Meus caros compatriotas,

É uma mensagem de confiança e persistência que lhes dirijo esta noite lhes expressando meus votos para o Ano Novo. Sei das dificuldades em que nos encontramos, levo-as em conta a cada dia e penso esta noite nas famílias apreensivas pelo futuro de seus filhos diante do desemprego e por vezes até mesmo da exclusão. E quero acabar (1) com o descrédito e a desesperança.

A França é um grande país: ela é a quinta potência econômica do mundo, ela toma suas responsabilidades sempre que a paz está ameaçada, graças à intervenção de nossos soldados na África, no Iraque, a quem quero saudar onde quer que estejam; eles fazem honra à sua bandeira.

A França tem uma diplomacia ativa que busca incansavelmente a solução para conflitos em lugares como a Ucrânia, onde me envolvi pessoalmente, ou o Oriente Médio. A França faz a Europa avançar: foi ela que sustentou a prioridade do crescimento com o plano de investimento de 315 bilhões de euros, que será lançado em 2015 pela Comissão Europeia.

A França é reconhecida por suas inovações, por sua cultura, pelo talento de seus empreendedores, inventores, pesquisadores. Ela foi honrada este ano com dois prêmios Nobel.

Temos, portanto, todas as razões para confiar em nós mesmos, mas com uma condição: avançar, dar mostras de audácia, rejeitar o status quo, descartar o regresso. Fiz a opção pelo futuro mantendo total fidelidade aos valores da República e a nosso modelo social.

A França não é uma nostalgia, mas uma esperança. Meu dever, com o governo de Manuel Valls, é fazer tudo, realizar tudo para preparar a França de amanhã, é dar tudo por nosso país.

Acredito na perseverança, na constância, no trabalho incessante. O ano de 2014 foi difícil, balizado por provações de todo tipo. Sem jamais ceder, segui firmemente o objetivo que havia fixado.

Eu havia anunciado a vocês o pacto de responsabilidade no começo do ano; ele entra em aplicação amanhã de manhã. As empresas e os trabalhadores independentes verão seus encargos baixarem, não haverá mais nenhuma cotização patronal para um assalariado pago pelo salário mínimo. (2) As empresas devem agora empregar e investir. É o sentido da palavra “responsabilidade”, pois nossa obrigação, diria nossa obrigação comum, é combater o desemprego.

Também foram realizadas grandes reformas ao longo de todo o ano agora findo. Assim, a partir de amanhã, 1.º de janeiro, a arduidade do trabalho finalmente será levada em conta no cálculo dos direitos à aposentadoria; o sistema deverá se tornar o mais simples possível para as empresas, para o que cuidarei pessoalmente, em acordo com os parceiros sociais (3) que se engajaram eles mesmos numa negociação essencial pela qual se espera modernizar o diálogo social em nosso país.

Igualmente, a reforma territorial, que havia sido mil vezes anunciada e mil vezes abandonada, foi adotada em menos de seis meses. E no ano que vem vocês serão chamados a eleger os políticos dessas futuras coletividades. Não importa quem vocês escolham, haverá mais eficácia e menos gastos.

A França, portanto, é capaz de se transformar, e sei que vocês estão prontos para isso. E é o que vamos fazer também em 2015. Primeiro, com a lei a ser apresentada em janeiro pelo Ministro da Economia, Emmanuel Macron. Ela vai despertar as iniciativas e a atividade, quebrar as rendas, liberar energias, desenvolver o emprego, simplificar a vida das empresas sem desproteger os assalariados. Será uma renovação para nossa sociedade, pois essa lei se destina principalmente aos jovens.

Os jovens serão sempre minha prioridade, com meios suplementares para combater as desigualdades escolares, com jovens professores mais bem formados, com o lançamento de um grande plano digital nas escolas, pois quero que a França seja o primeiro país da Europa em utilização da mais moderna tecnologia. Será uma ótima ferramenta de conhecimento, e também de justiça social. Pois a França só é forte quando ela é justa.

Em 2015 também será suprimida – no que me engajei – a primeira faixa do imposto de renda; o abono de família passará a variar em função das posses; o acompanhamento aos idosos será melhorado; o acesso a cuidados médicos será facilitado sem se colocar em causa a liberdade dos profissionais de saúde.

Mas também devemos ser capazes de conversar sobre os assuntos mais difíceis, diria os mais íntimos, para a sociedade: refiro-me ao fim da vida e ao direito de morrer com dignidade. Desejo que em 2015 o Parlamento possa adotar uma lei consensual que contribua para reduzir sofrimentos e leve em conta a vontade dos doentes.

Meus caros compatriotas, a França avançará no ano que vem, em todos os domínios e para todos. Esse é o combate que lancei e que levarei até o fim, contra os conservantismos – que são numerosos – e contra os populismos – que são perigosos. Diante do desemprego, venceremos dando mostras de iniciativa, e não nos paralisando ou nos isolando do resto do mundo. Rejeitemos os discursos que enganam e iludem o povo.

Com a Europa, não é destruindo o que existe ou pretendendo sair da zona do euro que convenceremos, mas restaurando nossa própria competitividade, mobilizando todas as alavancas econômicas para nos livrarmos da estagnação no continente e fundando bases democráticas à zona do euro.

E diante das ameaças que ascendem e inquietam, chamadas terrorismo, comunitarismo, (4) fundamentalismo, não é nos dividindo, estigmatizando uma religião ou cedendo ao medo que nos protegeremos, mas defendendo firmemente nossas regras comuns: a laicidade, a ordem republicana, a segurança das pessoas, a dignidade da mulher. É quando a França esquece seus princípios que ela se perde e submerge. Aí está o declínio, o único que nos ameaça, o da capitulação. Não é novidade na história, tanto da França como da Europa, nunca nos esqueçamos. É por isso que faço da luta contra o racismo e o antissemitismo uma grande causa nacional.

Devemos igualmente nos orientar por meio do compromisso, que é uma virtude para a Nação, é o que nos une numa mesma pátria. Assim, o serviço cívico (5) será estendido para todos os jovens, em toda sua diversidade, todos os jovens que fizerem a solicitação.

2015, meus caros compatriotas, será um ano essencial também, diria antes de tudo, para o planeta. A França receberá a conferência do clima em dezembro próximo, a qual reunirá os chefes de Estado e de governo do mundo inteiro. É uma ótima oportunidade para unirmos, antes de tudo, a nós mesmos além de nossas diferenças, partilharmos o que temos de melhor e restituirmos sentido ao progresso. A França deve ser exemplar – e é – com a lei da transição energética, já votada pela Assembleia Nacional, e com a lei da biodiversidade.

A França conseguiu, já faz 70 anos, reunir uma grande conferência pelos direitos universais do homem. Devemos agora levar o mundo a adotar, por sua vez, uma declaração pelos direitos da humanidade para preservar o planeta. E farei de tudo para que em Paris, em 2015, a conferência seja um sucesso, pois, quando nossos filhos ou netos nos perguntarem sobre o que conseguimos fazer em 2015, quero que possamos ter o orgulho de lhes dizer que contribuímos para preservar o planeta inteiro.

Meus caros compatriotas da metrópole, do ultramar ou vivendo no exterior, esses são os votos que faço para o ano que se inicia. 2015 deve ser um ano de audácia, ação e solidariedade. E esta noite penso em particular nos mais frágeis, nas pessoas sozinhas, nos desprovidos e em todas as vítimas dos dramas ocorridos nos últimos meses.

Mas minha mensagem é a da confiança; confiança em nós, em todas as forças de nosso país, em nossa vitalidade, e por isso posso dizer esta noite: viva a República e viva a França.


Notas de tradução (Clique pra voltar)

(1) No vídeo: “Mas quero acabar”.

(2) Em francês, trata-se do SMIC, o Salaire minimum interprofessionnel de croissance, que tem algumas diferenças em relação ao salário mínimo brasileiro.

(3) Na França, o termo “partenaires sociaux” designa, em comitês de trabalho e reuniões, o conjunto dos principais sindicatos profissionais – sindicatos de assalariados e organizações patronais – responsáveis pela gestão de certos órgãos paritários. Em Portugal, por vezes se fala em “parceiros sociais”, mas no Brasil isto se refere antes a acordos entre entidades públicas e/ou privadas com fins beneficentes.

(4) No debate intelectual, “comunitarismo” é originalmente uma abordagem social que critica a sobrevalorização liberal do indivíduo, situa-o como inextricável à sua comunidade cultural, étnica, religiosa ou social, e defende fenômenos coletivos, como a sociedade civil. Mas na polêmica francesa, de modo geral, “communautarisme” seria, para seus opositores, uma subjugação das pessoas pelo seu grupo de pertencimento, especialmente étnico ou religioso, em detrimento dos valores nacionais ditos laicos, republicanos e universalistas. Os críticos desta interpretação rejeitam-na como uma forma de racismo burguês, branco e masculino, dirigido em especial aos muçulmanos.

(5) O service civique, criado em 2010, visa reunir pessoas de idades e origens diversas num “compromisso cidadão” em torno do projeto de nação, por meio do voluntariado dentro ou fora da França em instituições associadas, com despesas pagas pelo Estado e emissão de certificado.



domingo, 30 de agosto de 2015

Pelos vales e colinas (canção partisan)


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Pelos vales e colinas, em russo “По долинам и по взгорьям” (Po dolinam i po vzgoriam), é uma popular marcha militar dos tempos da Guerra Civil Russa (1918-1922). Iniciada a Primeira Guerra Mundial, o escritor russo Vladimir Giliarovski compôs a letra da Marcha do Regimento Siberiano, e na época da guerra civil, foram escritas sobre sua melodia alguns textos variantes, entre eles a Marcha dos guerrilheiros do Extremo Oriente (1922).

Com nova melodia de Ilia Aturov e letra de Piotr Parfionov, essa marcha é dedicada à 2.ª Divisão da Manchúria Exterior, formada após a Batalha de Volochaievka da guerra civil (5 a 14 de fevereiro de 1922). A canção trata da luta do Exército Vermelho contra as tropas do Governo Provisório da Manchúria Exterior, comandadas pelo general Viktorin Molchanov, nos entornos de Spassk, Volochaievka e Vladivostok. Esse governo foi o último enclave “branco” da guerra civil, cuja rendição foi um dos episódios finais do conflito.

Nas décadas de 1920 e 1930, a canção passaria a ser conhecida como “Партизанский гимн” (Partizanski gimn), título que pode ser traduzido como Hino partisan ou Hino guerrilheiro. Na Guerra Civil Espanhola (1936-1939) já havia surgido uma versão em espanhol entre os republicanos, e com a Segunda Guerra Mundial a canção incrementou sua popularidade, sendo escritas versões nas línguas dos resistentes de vários países. Uma das mais conhecidas é a versão em sérvio Po šumama i gorama, cirílico “По шумама и горама” (Pelos bosques e montanhas; escute aqui). Na Rússia, a canção era ensinada nas escolas até a dissolução da URSS, mas até hoje algumas crianças ainda a aprendem.

Algumas notas históricas. Primorie (Приморье) e Priamurie (Приамурье) são duas regiões histórico-geográficas do Extremo Oriente russo, bordeando o Oceano Pacífico, sendo a segunda conhecida também como “Manchúria Exterior” e a primeira, não tendo equivalente em português, mas também sendo um nome não oficial da Província Marítima, ou Krai do Litoral. Mas no geral, essas regiões podem abranger uma ou mais divisões federais russas, ou parte delas.

“Atamano” (атаман, ataman) era o título oficial dos chefes militares supremos dos exércitos cossacos do Império Russo, enquanto “voivoda” (воевода, voievoda), palavra com acepções diversas em todo o mundo eslavo, era no mesmo império o comandante militar de determinada região que, ao longo do tempo, também acumulou funções governativas, ou tinha apenas estas. Contudo, nos tempos da Guerra Civil Russa, “atamano” e “voivoda” também designavam lideres militares e/ou políticos de tropas “brancas” no Extremo Oriente russo.

Fiz a legendagem a pedido dos autores do blog do Coletivo Lenin. No verbete sobre essa canção da Wikipédia em inglês, há também a versão em sérvio com tradução. A maioria das informações que escrevi sobre a canção foi traduzida do artigo da Wikipédia em russo, mas também pesquisei em outras versões, bem como na hora de escrever as notas históricas. Depois do vídeo abaixo, está a letra em russo e em português:


По долинам и по взгорьям
Шла дивизия вперёд,
Чтобы с боя взять Приморье –
Белой армии оплот
Чтобы с боя взять Приморье –
Белой армии оплот

Наливалися знамёна
Кумачом последних ран,
Шли лихие эскадроны
Приамурских партизан.
Шли лихие эскадроны
Приамурских партизан.

Этих лет не смолкнет слава,
Не померкнет никогда –
Партизанские отряды
Занимали города.
Партизанские отряды
Занимали города.

И останутся, как в сказках,
Как манящие огни
Штурмовые ночи Спасска,
Волочаевские дни.
Штурмовые ночи Спасска,
Волочаевские дни.

Разгромили атаманов,
Разогнали воевод
И на Тихом океане
Свой закончили поход.
И на Тихом океане
Свой закончили поход.

____________________


Pelos vales e colinas
A divisão seguia adiante
Para lutar pelo Primorie,
Baluarte do Exército Branco.
Para lutar pelo Primorie,
Baluarte do Exército Branco.

As bandeiras estavam cheias
Do vermelho das últimas feridas,
Seguiam os audazes esquadrões
De guerrilheiros do Priamurie
Seguiam os audazes esquadrões
De guerrilheiros do Priamurie

A glória desses anos jamais
Vai se apagar ou se calar:
Os destacamentos guerrilheiros
Conquistaram cidades.
Os destacamentos guerrilheiros
Conquistaram cidades.

E restarão, como nos contos,
Como chamas atraentes
As noites de assalto a Spassk
E os dias rumo a Volochaievka.
As noites de assalto a Spassk
E os dias rumo a Volochaievka.

Destroçamos os atamanos,
Dispersamos os voivodas
E junto ao Oceano Pacífico
Terminamos nossa marcha.
E junto ao Oceano Pacífico
Terminamos nossa marcha.


domingo, 23 de agosto de 2015

“Te amo, te amo, te amo” em esperanto


Endereço curto: fishuk.cc/teamo

Eis que torno pública novamente outra tradução de música brasileira para o esperanto, que estava guardada. Esta é a belíssima e apaixonante Te amo, te amo, te amo, composta por João Plinta e Waldir Luz, e cantada pelo talentoso sertanejo Dalvan, e a qual verti em 9 de abril de 2011. O novo título que dei foi Destino, que não precisa de tradução. Nesta página você pode ler a letra em português, e abaixo o vídeo com a música e a letra em esperanto.

Ĉi tiu kanzono estas belega kaj pasiiga sukceso de muziko “sertanejo” en Brazilo, kantata de Dalvan kaj komponita de João Plinta kaj Waldir Luz, kies tradukon de la portugala lingvo al Esperanto mi faris la 9-an de Aprilo 2011. La originala titolo en la portugala estas Te amo, te amo, te amo, kiu signifas Mi amas vin, mi amas vin, mi amas vin, sed mi donis la novan nomon Destino. Ĉi-paĝe vi povas legi la tekston en la portugala, kaj ĉi-sube vi rigardos kaj legos tekston en Esperanto kaj videon kun la kanzono.


Destino

Multajn fojojn kune uzis liton ni
Kaj ĉe via sin’ matenon trovis mi
Forgesanta ĉiujn miajn kompromisojn.
Niaj vestoj, pro l’amoro, restis for
Dum kun rapideco batis mia kor’
Karesita de afabla via kis’.

Niaj vivoj estas unu nur afero,
Do, se ni apartiĝos, restos malespero,
Malfacile vivas mi sen via am’.
Jam kontaminis min parfumo via roza
Kaj se ofendas oni vin, mi furiozas.
Mi amos vin eterne, ho belega dam’!

Destino, destino, destino, destino
Por ni jam estas komponita:
Ni estos nur unu anim’.
Destino, destino, destino, destino
Min faris homo tre benita
Per ĝojo kun neniu lim’.



segunda-feira, 17 de agosto de 2015

“Amai nossa Ucrânia”, de V. Sosiura


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Esta foi a primeira tradução poética que fiz a partir de um idioma eslavo. Trata-se do poema “Любіть Україну” [Liubit Ukrainu], que significa literalmente “Amai a Ucrânia” ou “Amem a Ucrânia”. Foi escrito pelo poeta e romancista Volodymyr Mykolaiovych Sosiura, nascido em 6 de janeiro de 1898 (25 de dezembro de 1897, pelo calendário juliano ortodoxo) na cidade de Debaltseve (Debaltsevo, em russo), pertencente então ao Império Russo e hoje integrando o leste da província ucraniana de Donetsk, na divisa com a província de Luhansk. Volodymyr Sosiura faleceu em 8 de janeiro de 1965 na Kyiv soviética.

Em fevereiro de 2015, num grupo do Facebook dedicado aos brasileiros descendentes de ucranianos, um senhor residente em São Paulo apresentou esse poema e me sugeriu traduzi-lo para o português mantendo as sutilezas poéticas. Ele pontuou que a cidade onde Volodymyr Sosiura havia nascido era Debaltseve, então cenário de uma cruenta batalha entre as Forças Armadas da Ucrânia e as Forças Armadas da Nova Rússia, consideradas “separatistas” por Kyiv, no desenrolar da guerra civil iniciada durante a crise política de 2014. Debaltseve é um ponto logisticamente estratégico ocupado por forças do governo em julho de 2014 e retomado pelas tropas da autoproclamada República Popular de Donetsk em 18 de fevereiro de 2015, quando o exército ucraniano, na defensiva desde meados de janeiro, foi forçado à retirada.

Sosiura, cujo pai tinha raízes francesas (o sobrenome deve ser uma aclimatação de “Saussure”), lutou na Guerra Civil Russa entre o inverno de 1918 e o outono de 1919 nas fileiras do exército da então independente República Popular Ucraniana, comandado por Symon Petliura. Porém, com a derrota dessa república, Sosiura passou para o Exército Vermelho, e após o fim do conflito realizou seus estudos superiores, concluídos em 1925, tendo já exercido outras profissões antes de 1918, inclusive nas minas do Donbass. Tornando-se um escritor muito popular entre as décadas de 1920 e 1930, pertenceu a várias associações literárias, inclusive a União Ucraniana dos Escritores Proletários, mas frequentemente entrava em conflito com as diretrizes do Partido Comunista ucraniano, do qual, aliás, era membro, e que frequentemente criticava suas propensões “nacionalistas”. Sosiura chegou até mesmo a ser obrigado a um trabalho fabril de “reeducação” entre 1930 e 1931.

Volodymyr Sosiura foi correspondente de guerra entre 1942 e 1944, ano em que escreveu o poema “Amai a Ucrânia”, com alusões à paisagem e cultura locais, ao conflito mundial e à expulsão de tropas invasoras. Conseguiu ganhar o Prêmio Stalin de primeiro grau em 1948 por uma coletânea poética publicada no ano anterior, mas em 1951 seria alvo de uma campanha difamatória oficial, com alcance inclusive no jornal Pravda, por conta do suposto “nacionalismo burguês” de seu “Amai a Ucrânia”. O desgosto de Sosiura o teria levado a um primeiro infarto em 1958 e a vícios posteriores, até um segundo infarto que teria acelerado sua morte aos 67 anos de idade.

Após a Ucrânia ter sido declarada independente, em 1991, o poeta foi relembrado em inúmeras homenagens, monumentos, selos, artigos e republicações, e uma edição comemorativa da moeda de 2 hryvnias marcou em 1998 o centenário de seu nascimento, trazendo a efígie de Sosiura e, logo abaixo, a inscrição “Любіть Україну”. Na cidade de Zmiiv, um mastro com a bandeira nacional em honra aos 20 anos da independência tem gravadas em seu pedestal algumas estrofes do poema. Veja aqui uma foto do mastro por inteiro ou de seu pedestal com as estrofes 1, 2, 4 e a última.

Quando o senhor de São Paulo postou o poema no grupo do Facebook, uma senhora escreveu em comentário um rascunho de tradução literal, ao qual não sei como ela havia chegado, pois alguns significados estavam até errados. Mesmo assim, a colaboração dela me ajudou e, embora não sendo fluente em ucraniano, após ter deixado todo esse material guardado ao longo do primeiro semestre, decidi empunhá-lo em meados de junho e, no dia 14, concluí a tradução poética brasileira, após uns três dias de trabalho muito inspirado. Contei ainda com o auxílio de dicionários e enciclopédias online, para dúvidas vocabulares, gramaticais e sobre o contexto histórico de certas palavras.

Obviamente obedeci à métrica original, inclusive respeitando oxítonas ou paroxítonas em final de verso, mantive as maiúsculas ou minúsculas em começo de verso e procurei mexer o menos possível no significado; onde isso não foi possível devido às obrigações da forma, fiz cortes do que era redundante, adaptações e até mesmo acréscimos que não destoassem do todo. Busquei não repetir rimas ao longo do poema, recorri inclusive a rimas parciais e mantive ao máximo a ocorrência do nome “Ucrânia”, especialmente quando ele importava na rima. E o mais notável, substituí o célebre “Amai a Ucrânia” por “Amai nossa Ucrânia”, por respeito à métrica no primeiro verso, o que acredito não ter prejudicado nem um pouco os efeitos.

Parece que Volodymyr Sosiura ainda é um desconhecido no Brasil, exceto nos círculos imigrantes, enquanto as ideias que permeiam sua obra teriam um caráter apressadamente pouco palatável a certos literatos ditos progressistas encoleirados a análises unilaterais da atual conjuntura geopolítica. Logo abaixo está o poema em ucraniano, e em seguida, minha tradução brasileira. Mais informações biográficas e literárias, nas Wikipédias em inglês, em russo e em ucraniano.




Любіть Україну


Любіть Україну, як сонце, любіть,
як вітер, і трави, і води…
В годину щасливу і в радості мить,
любіть у годину негоди.

Любіть Україну у сні й наяву,
вишневу свою Україну,
красу її, вічно живу і нову,
і мову її солов'їну.

Між братніх народів, мов садом рясним,
сіяє вона над віками…
Любіть Україну всім серцем своїм
і всіми своїми ділами.

Для нас вона в світі єдина, одна
в просторів солодкому чарі…
Вона у зірках, і у вербах вона,
і в кожному серця ударі,

у квітці, в пташині, в електровогнях,
у пісні у кожній, у думі,
в дитячий усмішці, в дівочих очах
і в стягів багряному шумі…

Як та купина, що горить — не згора,
живе у стежках, у дібровах,
у зойках гудків, і у хвилях Дніпра,
і в хмарах отих пурпурових,

в грому канонад, що розвіяли в прах
чужинців в зелених мундирах,
в багнетах, що в тьмі пробивали нам шлях
до весен і світлих, і щирих.

Юначе! Хай буде для неї твій сміх,
і сльози, і все до загину…
Не можна любити народів других,
коли ти не любиш Вкраїну!

Дівчино! Як небо її голубе,
люби її кожну хвилину.
Коханий любить не захоче тебе,
коли ти не любиш Вкраїну…

Любіть у труді, у коханні, у бою,
як пісню, що лине зорею…
Всім серцем любіть Україну свою —
і вічні ми будемо з нею!

____________________


Amai nossa Ucrânia


Amai nossa Ucrânia, amai como o sol,
os campos, o vento e as águas...
Amai se alegria e prazer reinam sós,
bem como nas horas de mágoa.

Amai nossa Ucrânia no agir e pensar,
as ginjas, e a sempre luzente
e nova beleza, e a língua a soar
igual rouxinol tão contente.

No rico mosaico dos povos irmãos,
a Ucrânia fulgura do início...
Amai-a com o âmago do coração
e vossos trabalhos propícios.

No mundo indivisa nos é, sem igual
no doce, atraente infinito...
Está nos salgueiros, no alvor sideral,
nos pulsos do peito em agito,

em tudo menor: chama, pássaro, flor,
nos cantos e nos pensamentos,
criança que ri, moça olhando em amor,
bandeiras bradando no vento.

É morro que queima, mas não vira pó,
e vive nos bosques, veredas,
no som das sirenes, no ondar do Dnipró,
nas púrpuras nuvens de seda.

no cru bombardeio que cinzas tornou
os hostes vestidos de guerra,
no rifle que da negridão nos levou
à clara e feliz primavera.

Ei, moço! A ela dá tudo ao viver,
teu choro ou risada espontânea...
Não ama outros povos sem antes querer
com zelo e paixão nossa Ucrânia!

Ei, moça! A ela e seu teto de anil
sempre ama, não causa cizânia.
O amado te nega cortejo viril
se deixas de lado a Ucrânia...

Lavrando, lutando, cuidando – amai
como ária na luz matutina...
Na alma imortal vossa Ucrânia guardai:
com ela, imortal nossa sina!



domingo, 9 de agosto de 2015

Lukashenka fala no Dia da Vitória 2010


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Discurso pronunciado por Aliaksandr Lukashenka, ditador (como ele mesmo se chama) da República de Belarus, na parada das tropas da Guarnição de Minsk, capital do país, em comemoração aos 65 anos da vitória soviética (Belarus era uma república da URSS até 1991) na Segunda Guerra Mundial, em 9 de maio de 2010. O título russo do discurso é “Vystuplenie A. Lukashenka na parade v oznamenovanie 65-i godovschiny Pobedy v Velikoi Otechestvennoi voine”.

Lukashenka inicia pela honra da memória dos que morreram em combate ou em campos de concentração e defende a importância de se recordar o conflito como forma de celebrar o triunfo da civilização sobre a barbárie. Ressalta ainda que Belarus foi um dos países que mais sofreu em perdas materiais e humanas e que não cabe dúvidas de que a União Soviética, com todos os seus povos unidos, especialmente os eslavos, foi a maior responsável pela vitória dos Aliados, não cabendo qualquer tipo de revisão da história nem o desprezo dela como lição para o futuro. O presidente alude a um contexto geopolítico difícil, diante do qual é necessário conservar as conquistas da “geração dos vencedores”, reforçar a defesa nacional e evitar a intromissão estrangeira nos assuntos internos e na construção do bem-estar. Elogiando o povo belarusso como “invencível e autoconfiante”, termina o discurso com exortações otimistas ao futuro nacional e com a maior gratidão aos veteranos que ainda estavam vivos e presentes no desfile.

Os belarussos, uma etnia eslava oriental outrora chamada de “russos brancos” (que é o que significa literalmente seu nome), supõem que sua primeira existência como Estado teria sido o Grão-Ducado da Lituânia, que existiu até 1795, mas uma República Popular Bielorrussa independente só existiria entre 1918 e 1919, ano em que se tornou uma república soviética. A nova Bielorrússia independente seria rebatizada como “Belarus” em 1991 e governada pelo presidente do Soviete Supremo até 1994, quando foi criado o cargo de Presidente de Belarus, desde então ocupado por Aliaksandr Lukashenka. Tendo servido no Exército Soviético nos anos 1970 e 1980, e sendo hoje “Marechal de Belarus”, Lukashenka havia sido o único deputado do país a votar contra a dissolução da URSS, e como presidente manteve diversas políticas estatistas e antiliberais soviéticas, e é acusado de censurar e perseguir a oposição política e jornalística.

As duas línguas oficiais de Belarus são o belarusso e o russo, porém mais de 70% da população usa o russo em sua vida diária, língua dominante no governo e na mídia e na qual Lukahsenka fez este discurso. Mesmo entre os belarussos étnicos, apenas pouco mais de 26% usa o belarusso em família, mas este influencia fortemente o russo local, quando não ocorrem misturas entre os dois.

O texto em russo publicado na época pode ser lido nesta página. Eu baixei o vídeo do “Canal da Vitória”, administrado pelo Cristiano Alves, tradutor que admira muito a Rússia e o período soviético, e que já havia feito uma primeira tradução, com a qual cotejei meu trabalho. Abaixo está minha versão legendada, tendo sido feitas no texto, como sempre, as necessárias adaptações a esse tipo de mídia:


Caros veteranos! Camaradas soldados, sargentos, suboficiais, oficiais e generais! Estimados compatriotas e convidados estrangeiros!

Felicito-os de coração pelos 65 anos da Grande Vitória.

Todo ano, na data sagrada de 9 de maio, rendemos nossas maiores homenagens a essa inigualável façanha do povo soviético. Inclinamos nossas cabeças ante os mortos nos campos de batalha e os mártires dos campos de concentração. Honramos e glorificamos todos os que contribuíram para livrar a humanidade do nazismo.

A memória popular guardará para sempre a abnegação e a coragem dos que suportaram as piores provações e venceram a guerra mais cruel do século passado.

A importância dessa Vitória para toda a humanidade é eterna. Ela se tornou um símbolo do triunfo da vida sobre a morte, da liberdade sobre a escravidão, do humanitarismo sobre o racismo. Realizou uma justa represália à agressão e à violência e fez uma crítica severa das ambições e ideias insanas de dominação mundial.

Para o povo belarusso, o Dia da Vitória tem um significado especial. Nossa república sofreu nos anos terríveis da guerra como nenhum país no mundo. Por causa desse genocídio desumano, o país perdeu um terço de sua população. Foi destruída toda a infraestrutura, lembrada apenas por cinzas de aldeias incendiadas e ruínas de cidades outrora prósperas.

Muitos países participaram do combate ao agressor. Mas a verdade histórica consiste em que o papel decisivo na luta antifascista coube à União Soviética. Exatamente ela se tornou a força que mudou o curso da Segunda Guerra Mundial, selando seu desenlace e o destino não apenas de nossa Pátria, mas também de muitos outros Estados e povos, em suma, de toda a comunidade internacional.

Infelizmente, cada vez mais pessoas têm buscado substituir a verdade paga com milhões de vidas por variantes que rebaixam a importância da Grande Façanha de nossos soldados e guerrilheiros clandestinos, denegrindo os patriotas que lutaram para libertar seu país. Pior ainda, tais esforços têm se tornado uma real orientação política.

Hoje é indispensável fazer todo o possível para deter o revisionismo histórico.

Assim, em 1941, ocorreu não um simples conflito entre Estados e enormes potenciais bélicos, mas um embate universal entre sistemas políticos diferentes, entre valores morais e espirituais opostos. E nesse embate alcançamos a vitória.

À defesa da Pátria se ergueu todo o povo, e por isso mesmo essa guerra entrou para sempre na história como a Grande Guerra Patriótica.

O principal ingrediente da vitória foi a sólida fraternidade entre os soviéticos das diversas nacionalidades. O 9 de Maio é uma festa partilhada entre Belarus, Rússia, Ucrânia e todos os países da Comunidade de Estados Independentes. E hoje, na parada solene em Minsk, Moscou e Kyiv, ombro a ombro se postam os militares dos países eslavos irmãos.

A lembrança dessa heroica façanha é sagrada. Porém, para evitar erros trágicos, é indispensável tirar da experiência do passado as conclusões corretas.

Conclamamos todos os países do mundo a não ignorar as novas afrontas e tendências perigosas que ameaçam nossa segurança.

Caros compatriotas!

O complicado contexto atual apresenta elevadas exigências de fortalecermos a capacidade defensiva de nosso Estado, para o que realizaremos todo o necessário, com atenção especial em garantir um alto nível de incremento das Forças Armadas.

Recordando as lições da guerra, nos damos conta que nada nos importa mais do que conservar a paz, o bem-estar do povo e a independência de nosso Estado. É exatamente esse o sentido de nossa política.

A preciosa herança da liberdade e independência, além de venerada, deve ser defendida de ameaças políticas e econômicas como for possível.

Caros amigos!

O sentido básico de todos os nossos planos é conseguir criar condições dignas de vida ao povo belarusso.

Nós mesmos, e não os estrangeiros, firmaremos nosso bem-estar. Só com um esforço obstinado, cotidiano e eficiente tornaremos a pátria belarussa num Estado forte e próspero.

Precisamos crer nas próprias forças, consolidar a unidade nacional e a coesão social. Só assim se atinge a vitória. Essa é a manifestação do mais alto ânimo de um povo invencível e autoconfiante!

Otimismo e consolidação de forças são a chave do sucesso. Esse lema da geração dos vencedores será sempre atual e oportuno.

Honra e glória aos defensores da Pátria!

Suprema gratidão a vocês, caros veteranos, por terem nos presenteado com a vida. Podem estar certos que em Belarus a imperecível façanha do povo soviético será sempre honrada.

Saúde, paz, felicidade e sucesso a todos, caros amigos.

Viva a nossa Pátria, a República de Belarus!

Hurra, camaradas!



sábado, 1 de agosto de 2015

Stalin discursa no metrô (6/11/1941)


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Este vídeo contém excertos de um informe do líder soviético Iosif Stalin à sessão solene do Soviete de Moscou de Deputados Trabalhadores com organizações partidárias e sociais da cidade de Moscou, ocorrida a 6 de novembro de 1941 na estação Maiakovski do metrô, em plena guerra contra a Alemanha nazista. O texto integral do informe foi publicado na edição do jornal Pravda do dia seguinte. Stalin alude às consequências da invasão alemã para o cotidiano e economia soviéticos, e ao fracasso de Hitler em tentar esmagar a URSS num prazo curto demais.

Dentro das Obras completas de Stalin, o informe completo em russo pode ser lido no tomo 15, editado em Moscou pela Pisatel em 1997, pp. 71-83. Seu título original é “Doklad na torzhestvennom zasedanii Moskovskogo Soveta deputatov trudiaschikhsia s partiinymi i obschestvennymi organizatsiami goroda Moskvy, 6 noiabria 1941 goda”. Existe também uma versão em português publicada originalmente em 1943 no livro Stalin, de Emil Ludwig (Rio de Janeiro, Calvino, 1943), mas que usei apenas a título de comparação, pois era bem insatisfatória. Eu baixei o vídeo sem legendas desta página, e apenas acrescentei a tradução.

O vídeo legendado pode ser visto abaixo. Não houve nenhuma alteração ao se passar o discurso oral em russo para o texto escrito, mas desta vez estou colocando, abaixo do vídeo, o texto da legenda, pois sugiro uma comparação com a versão em russo, especialmente quem conhece esta língua, para se notar as diversas reduções, resumos e simplificações que fiz, todas necessárias para a adequação à mídia audiovisual. A título de curiosidade, coloquei também os trechos equivalentes da tradução brasileira de 1943, para se perceber não só como fui bem sucinto, sem porém perder o sentido principal, mas também como o(a) primeiro(a) tradutor(a) foi muito prolixo.


Iosif Stalin assim pronuncia, e assim se publica:

Товарищи! Прошло 24 года с тех пор, как победила у нас Октябрьская социалистическая революция и установился в нашей стране советский строй. Мы стоим теперь на пороге следующего, 25-го года существования советского строя. [...] Война значительно сократила, а в некоторых областях прекратила вовсе нашу мирную строительную работу. Она заставила перестроить всю нашу работу на военный лад. Она превратила нашу страну в единый и всеобъемлющий тыл, обслуживающий фронт, обслуживающий нашу Красную Армию, наш Военно-Морской Флот. Период мирного строительства кончился. Начался период освободительной войны с немецкими захватчиками. [...] Предпринимая нападение на нашу страну, немецко-фашистские захватчики считали, что они наверняка смогут “покончить” с Советским Союзом в полтора-два месяца и сумеют в течение этого короткого времени дойти до Урала. Нужно сказать, что немцы не скрывали этого плана “молниеносной” победы. Они, наоборот, всячески рекламировали его. Факты, однако, показали всю легкомысленность и беспочвенность “молниеносного” плана. Теперь этот сумасбродный план нужно считать окончательно провалившимся.


Tradução que fiz para transformar em legenda:

Camaradas! Há 24 anos, tendo triunfado a Revolução Socialista de Outubro, instauramos em nosso país o regime soviético. Estamos prestes a entrar nos 25 anos de sua existência. [...] A guerra afetou muito, e em certas áreas parou toda nossa edificação pacífica. Ela nos fez militarizar todo o nosso trabalho. Ela uniu o país inteiro numa só retaguarda a serviço do front, do Exército Vermelho e da Marinha de Guerra. A edificação pacífica acabou. Entramos numa guerra libertadora contra a agressão alemã. [...] Ao agredir nosso país, os fascistas alemães contavam conseguir sem erro “acabar” com a URSS em um mês e meio ou dois, e nesse curto prazo atingir os Urais. Lembremos que eles não escondiam esse plano de vitória “relâmpago”, mas alardeavam de todo jeito. E os fatos provaram que era um plano leviano e infundado. Devemos declarar agora o fracasso definitivo dessa loucura.


Tradução publicada em 1943:

Camaradas! São decorridos, vinte e quatro anos, desde a vitória da Revolução Socialista de Outubro e da implantação do sistema soviético em nosso país. Estamos agora no começo de outro ano, o 25.° da existência do sistema soviético. [...] Nossa construção pacífica reduziu-se consideravelmente e, em certos ramos, paralisou por completo. Fomos obrigados a reorganizar todo o nosso trabalho, colocando-o em pé de guerra. Nosso país transformou-se numa retaguarda unida a serviço de nosso Exército e de nossa Marinha. O período de construção pacífica chegou a seu fim. Começou o período de guerra, que visa libertar-nos da agressão alemã. [...] Ao iniciar sua ofensiva contra o nosso país, os alemães calculavam que, seguramente, poderiam “acabar” com a URSS em um mês e meio ou dois meses, conseguindo, nesse breve tempo, chegar até os Urais. É preciso notar que os alemães não faziam segredo desse plano de vitória relâmpago. Pelo contrário, proclamavam sua intenção por todos os meios. Os fatos, entretanto, encarregaram-se de demonstrar a superficialidade e a falta de base desse plano. Agora já se pode considerá-lo fracassado.



“Fim da linha, seu nazistóvski sem vergonha!”