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13 de setembro de 2015

A tarefa sagrada do Exército Vermelho


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/sagrada

Este é o segundo dos raros discursos que pronunciou no início da Revolução de Outubro Leon Trotsky (nascido Lev Davidovich Bronstein), líder social-democrata ucraniano que se aliou aos bolcheviques em 1917 e se tornou fundador e chefe do Exército Vermelho, vencedor da Guerra Civil Russa contra os opositores de Lenin e garante da consolidação do poder comunista na futura URSS. Aparentemente, no período inicial da Revolução Russa, só existem dois discursos gravados por ele, a despeito de seu papel ainda enorme no regime, tendo sido o primeiro, de 1919, sobre as repúblicas soviéticas, já postado aqui no blog. Trotsky filmou outros discursos em inglês e francês no período tardio de sua vida, e pretendo postá-los legendados em breve.

Trotsky conta a história de um velho tártaro que o havia visitado para agradecer pela expulsão de tropas cossacas antibolcheviques da região em que morava, alegando que eles cometiam abusos e extorsões supostamente evitados pelos comunistas. A partir desse exemplo, o líder procura orgulhoso definir um caráter de classes à guerra civil em curso, postando os “brancos” ao lado de uma burguesia assassina e antipopular, e os “vermelhos” como defensores dos pobres e da liberdade. Por isso, o soldado de Lenin não deveria se esquecer de lutar sempre no interesse do combate à pobreza.

Este discurso, cujo título inicial é “Sviaschennaia zadacha Krasnoi armii”, parece incógnito até para os próprios russos. O áudio tem qualidade sofrível, e isso deve ter atrapalhado a transcrição na íntegra: o colaborador do SovMusic.ru pareceu o mais perdido, e outro site tem uma versão mais completa. Com esforço e pesquisa, completei de algum jeito as poucas lacunas e o datei do ano de 1920, como faz a maioria dos sites, embora alguns indiquem 1919. A seguir, antes dos textos em português e russo, está o vídeo legendado, postado no meu canal O Eslavo no YouTube e no qual fiz as necessárias simplificações para acelerar a leitura:


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[A tarefa sagrada do Exército Vermelho. Discurso do Comissário do Povo para Assuntos Militares e Navais, camarada Trotsky.]

Camaradas soldados do Exército Vermelho! Em 8 de março deste ano, veio me ver no Comissariado do Povo para Assuntos Militares o velho tártaro Burmai, (1) natural da província de Samara. (2) Ele foi mandado a Moscou pelos conterrâneos, trabalhadores camponeses tártaros, e com lágrimas nos olhos agradeceu ao Poder Soviético por ter libertado sua província dos bandos de Dutov. (3) Eis o que ele me disse:

“A presença dos cossacos em nosso povoado foi terrível. Seus oficiais não apenas tomavam nossos cavalos, gado, cereais, sem pagar nada, principalmente aos camponeses pobres. Não, mais ainda, nos humilhavam, perseguiam, agrediam, fuzilavam! Nós, tártaros, sofríamos o pior. Ouvimos que o Exército Vermelho estava se deslocando para a província de Samara, mas não sabíamos se seria melhor ou pior. E quando os cossacos deixaram o povoado, dando lugar aos soldados vermelhos, logo vimos que era outra gente. Não fomos mais ultrajados, os soldados falavam conosco como irmãos, no povoado e em todo o entorno se instalou a ordem. Respiramos aliviados e bendissemos o Exército Vermelho!”

Assim me disse o velho tártaro, pai de uma família numerosa, e ouvindo essas palavras, camaradas soldados, fui sentindo imenso orgulho de nosso Exército Vermelho Operário-Camponês. Este pequeno exemplo traduziu o legítimo caráter das tropas revolucionárias, bem como o pleno sentido desta guerra que nos obrigam a travar. De um lado, as tropas burguesas carniceiras representam na prática, em todo e qualquer lugar a que chegam, a pior forma de ludíbrio que havia sob os tsares, a opressão dos pobres. Do outro lado, as tropas vermelhas trazem a libertação a todos.

Então lembrem-se: é muito claro que cabe a vocês garantir o comer e beber dos pobres. Azar ao soldado que não entende a que foi indicado. E ao autêntico soldado do Exército Vermelho, que corajoso e honesto defende os direitos e interesses dos pobres, honra e glória, e a gratidão das massas trabalhadoras!

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[Священная задача Красной армии. Слово народного комиссара по военным и морским делам товарища Троцкого.]

Товарищи солдаты Красной армии! 8 марта этого года пришёл ко мне, в народный комиссариат по военным делам, старый татарин Бурмай, родом из Самарской губернии. Явился он в Москву по воле своих односельчан – трудовых татарских крестьян и со слезами на глазах благодарил Советскую власть за освобождение Самарской губернии от дутовских банд. Вот что он сказал мне:

«Когда у нас стояли в селе казаки, много мы горя натерпелись. Казацкие офицеры не только забирали у нас лошадей, скот, хлеб, ничего не платя, особенно беднякам. Нет, мало того – они издевались над нами, преследовали нас, били, расстреливали! Нам, татарам, приходилось тяжелее всего. Мы слышали о том, что Красная армия движется на Самарскую губернию, но не знали – будет ли нам лучше или хуже. Когда же село наше было покинуто казаками, и к нам вступили красноармейцы, мы сразу увидели, что это другой народ. Нас перестали обижать, солдаты с нами разговаривали по-братски, в селе и везде вокруг установился порядок. Мы свободно вздохнули и благословили Красную армию!»

Так сказал мне старый татарин, отец многочисленной семьи, и слушая эти слова, я, товарищи солдаты, испытывал чувство гордости за нашу Рабоче-крестьянскую Красную армию. На этом маленьком примере обнаружился подлинный характер революционных войск, а также весь смысл этой войны, какую мы вынуждены вести. С одной стороны буржуазные боенские (4) войска, представляют на деле куда бы они ни пришли везде и всюду худшую форму неправды, которая была при царях, угнетение бедноты. С другой стороны, Красные войска которые несут всем освобождение.

Помните же: твёрдо наружи вам рученность еды и питья бедноты. (5) Горе солдату, который не понимает своего назначения. А настоящему солдату Красной армии, который мужественно и честно защищает права и интересы бедноты – ему честь и слава, и благодарности трудящихся масс!

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Notas (Erick Fishuk)

(1) As transcrições que encontrei davam, sem ter certeza, o nome como “Бурлаев” (Burlaiev) ou “Бурлай” (Burlai), mas a meu ouvido pareceu mais “Бурмай” (Burmai), que também pode ser tanto um prenome quanto sobrenome de origem túrquica.

(2) Em russo, “província de Samara” é “Самарская губерния” (Samarskaia gubernia), sendo a gubernia uma divisão administrativa hoje extinta e dita governorate em inglês. Define-se a rigor em português, mas sem tradução exata, como divisão administrativa dirigida por um governador, e uma das definições do Aurélio (2004) para “governo” é justamente “Território da jurisdição de um governador”. A Wikipédia em português oscila entre as traduções “província” (verbete “guberniya”), forma que adotei para fluir a leitura e evitar confusão, e “governo-geral” (verbete “governorate”).

(3) Aleksandr Ilich Dutov (1879-1921), líder de tropas cossacas durante o período tsarista, já em novembro de 1917 liderou uma revolta antibolchevique no sul da Rússia, depois se integrou às tropas “brancas” da guerra civil e, após a derrota, foi morto no exílio chinês por um agente comunista.

(4) Trotsky aparentemente pronuncia “боинские” (boinskie), com acento no primeiro И (i), que deve ser uma forma antiga ou dialetal da palavra.

(5) O trecho “наружи... бедноты” não constava em nenhuma das transcrições online, e fui eu quem tirou de ouvido, mesmo não tendo certeza da exatidão.