Toqayev fala ao povo do Cazaquistão


Link curto pra esta postagem: fishuk.cc/protestos-kz2


Desde o início do ano, as principais cidades do Cazaquistão, em especial Almaty, antiga capital e a maior do país, estão vivendo distúrbios inéditos desde a independência da URSS, em 1991, com ataques à polícia, incêndios em prédios do governo e saques a comércios privados. A razão principal teria sido um grande aumento nos preços dos combustíveis e a inércia na mudança do regime autoritário, mas os protestos pacíficos foram ofuscados por autênticas ações armadas e instabilizadoras. Pra um quadro mais completo da situação, acesse minha postagem anterior, mas aqui vou acrescentar mais algumas coisas.

A intervenção das forças da Organização do Tratado de Segurança Coletiva, lideradas pela Rússia, despertou temores de que fosse associada a uma invasão por Moscou, ainda mais dado que 20% da população cazaque é de etnia russa, grande parte dela vinda nos tempos soviéticos. Porém, tanto Putin quanto o presidente Qasym-Jomart Toqayev negaram esse caráter, ainda mais que também há participação da Armênia, Tajiquistão, Belarus e Quirguistão. No dia 10 de janeiro, foi decretado dia de luto nacional pelos mortos nos conflitos de rua, em especial dos membros das forças da ordem. No mesmo dia, em reunião virtual dos chefes de Estado da OTSC, Toqayev fez outro discurso repetindo essencialmente o que trago aqui hoje.

Os críticos da violência também compararam as ações ao golpe, dentro do movimento maior do Euromaidan, que levou à renúncia de Viktor Ianukovych na Ucrânia (2014). Ou seja, os brasileiros estariam tendo uma amostra do que seria “ucrainizar” o país...

Como detalhe, digamos, cômico, o Talibã, cujo Afeganistão faz fronteira com outras três antigas repúblicas soviéticas “istão” ao sul do Cazaquistão, apelou por calma e por um diálogo que resolvesse a violência. Ou seja, combater nas montanhas é uma coisa, agora governar um país daquele tamanho, com tanta gente e de importância estratégica, é outra... (BBC em inglês)

O discurso traduzido abaixo é o segundo de valor histórico desta conjuntura, e foi o pronunciamento à nação que Toqayev fez em 7 de janeiro e que também ficou famoso no Ocidente porque nele o presidente deixou que as forças da ordem, como foi traduzido aqui, “atirassem pra matar”. Toqayev fez outras alocuções importantes nestes últimos dias, mas encerro minha cobertura por aqui, porque desde a postagem anterior eu já estava pensando em traduzir este texto. Também foi falado quase todo em russo, a língua interétnica do Cazaquistão, e está aqui apenas no formato escrito, pois não tenho mais tempo de legendar o vídeo original, que também segue abaixo apenas incorporado. A transcrição completa também pode ser lida no site da presidência.


Caros concidadãos!

Em nosso país continua a operação antiterrorista. Com as forças da polícia, da guarda nacional e do exército, está sendo conduzido um trabalho coordenado e em larga escala para restabelecer a lei e a ordem, de acordo com a Constituição.

Ontem a situação nas cidades de Almaty e Aqtöbe e na Província de Almaty se estabilizou. A instauração do estado de emergência está dando seus resultados. Em todo o país está sendo restaurada a legalidade constitucional.

Mas os terroristas, como antes, estão causando danos ao patrimônio público e privado, usando armas para lidar com os cidadãos.

Dei a ordem para que os órgãos de manutenção da lei e o exército atirassem para matar sem aviso prévio.

No exterior estão emitindo apelos para que as partes entrem em conversações e decidam pacificamente os problemas. Que tolice! Como poderia haver conversações com criminosos, assassinos?

Fomos obrigados a lidar com bandidos armados e treinados, tanto locais quanto estrangeiros. Exatamente com bandidos e terroristas. Por isso é preciso aniquilá-los. E isso será feito no prazo mais breve possível.

As forças da lei e da ordem estão moral e tecnicamente treinadas para cumprir a referida missão.

Como vocês já sabem, partindo das premissas básicas dos documentos estatutários da OTSC (Organização do Tratado de Segurança Coletiva), o Cazaquistão dirigiu aos chefes dos Estados-membros o pedido para introduzirem um contingente pacificador unido que fornecesse assistência no restabelecimento da ordem constitucional.

Esse contingente ficará em nosso país por um curto período de tempo para realizar as funções de cobertura e proteção.

Gostaria de expressar minha sincera gratidão ao primeiro-ministro da Armênia, que está presidindo a OTSC, e também aos presidentes de Belarus, do Quirguistão e do Tajiquistão.

Dirijo palavras especiais de agradecimento ao Presidente da Rússia, Vladimir Putin, que reagiu com muita operatividade e, sobretudo, calor humano a meu apelo.

Expresso também minha gratidão ao Presidente da República Popular da China, aos presidentes do Usbequistão e da Turquia, aos dirigentes da ONU e de outras organizações internacionais pelas palavras de apoio.

Os trágicos acontecimentos em nosso país lançam luz de uma forma nova sobre os problemas da democracia e dos direitos humanos.

Democracia não significa permissividade, muito menos incitação, inclusive por meio de blogs, a atitudes ilegais.

Em meu discurso por ocasião dos 30 anos da Independência, eu disse que são exatamente a lei e a ordem que constituem a garantia básica do bem-estar de nosso país.

E não somente no Cazaquistão, mas também em todos os países civilizados.

Isso não significa de forma alguma um atentado às liberdades civis e aos direitos humanos. Pelo contrário, como mostrou a tragédia de Almaty e de outras cidades do Cazaquistão, são exatamente a inobservância das leis, a permissividade e a anarquia que levam à violação dos direitos humanos.

Em Almaty, nas mãos dos bandidos terroristas padeceram não somente os edifícios administrativos, mas também o patrimônio pessoal de habitantes pacíficos. Sem falar da saúde e das vidas de centenas de civis e militares.

Expresso minhas sinceras condolências aos parentes e amigos dos mortos.

Recordo que, por minha proposta em maio de 2020, foi adotada a lei sobre as reuniões pacíficas dos cidadãos.

Essa lei, no essencial, é um grande passo adiante no avanço da democracia em nosso país, porque tem em vista não o caráter deliberativo, mas informativo dos comícios e das reuniões. E isso nos distritos centrais de todas as cidades do país.

Mas de sua parte, os assim chamados “defensores de direitos” e “ativistas” colocam-se fora da lei e consideram que têm o direito de reunir-se onde bem entenderem e tagarelar o que bem entenderem.

Por causa das ações irresposáveis desses ativistazinhos, os policiais são desviados de sua atuação primordial de defesa da lei e da ordem, frequentemente se submetendo a agressões e ofensas.

Por causa desses “ativistas”, a internet sofre “censura”, no que resultam prejuízos aos interesses de milhões de cidadãos e dos negócios pátrios. Ou seja, é provocado um enorme dano à estabilidade econômica, social e política interna.

O papel de cúmplices e, no essencial, de instigadores nas violações da lei e da ordem cabe aos assim chamados meios “livres” de comunicação de massa e ativistas “exteriores”, distantes dos interesses nativos de nosso povo multiétnico.

Pode-se sem exagero dizer que todos esses demagogos irresponsáveis portam a cumplicidade pela irrupção da tragédia no Cazaquistão. E reagiremos firmemente a todos os atos de vandalismo legal.

De que viraremos com rapidez suficiente esta página sombria de nossa história não há nenhuma dúvida. O mais importante será não admitirmos que se repitam tais acontecimentos no futuro.

Formei um grupo interdepartamental especial que se encarregará de buscar e deter os bandidos e terroristas.

Prometo a nossos cidadãos que todas essas pessoas serão conduzidas ao mais rigoroso julgamento.

Peço a todos os cazaques que observem a prudência e a vigilância. Comuniquem sobre qualquer atividade duvidosa de pessoas suspeitas aos órgãos da lei e da ordem e aos telefones de urgência.

Deveremos realizar uma reavaliação concernente às ações dos órgãos de manutenção da ordem e do exército, bem como à sua coordenação interdepartamental.

Ficou claro também que não bastam forças especiais, operações especiais e equipamentos. Resolver essas questões será nosso encargo em regime de urgência.

É criticamente importante entender por que o Estado “deixou passar” a preparação clandestina dos atos terroristas das células adormecidas dos insurgentes. Somente em Almaty irromperam 20 mil bandidos.

Suas ações mostraram a existência de um claro plano de ataques às instalações militares, administrativas e sociais em praticamente todas as províncias, a coordenação estruturada das ações, a elevada preparação combativa e a crueldade selvagem.

Além dos insurgentes, atuaram especialistas treinados em diversionismo ideológico que empregam habilmente a desinformação ou notícias falsas e conseguem manipular o humor das pessoas.

A aparência é a de que sua preparação e liderança couberam a um único ponto de comando. Isso começou a ser revelado pelo Comitê de Segurança Nacional e pela Procuradoria Geral.

Agora, as boas notícias.

Por conta da estabilização da situação, tomei a decisão de restabelecer a internet em cada região do país dentro de determinados intervalos temporários. Estou certo de que essa decisão terá um impacto positivo nas atividades essenciais de nossos cidadãos.

Mas advirto que o livre acesso à internet não significa liberdade de publicar invencionices, calúnias, ofensas e chamados à insubordinação.

Caso apareçam tais materiais, tomaremos medidas para descobrir e punir seus autores.

A operação antiterrorista continua. Os insurgentes não depuseram as armas, continuam cometendo crimes ou se preparando para cometê-los. Devemos levar a luta contra eles até o final. Quem não se entregar será aniquilado.

Temos pela frente o grande trabalho de tirar as lições da tragédia pela qual passamos, inclusive do ponto de vista socioeconômico.

O governo deverá tomar decisões concretas, sobre as quais falarei em 11 de janeiro na Câmara Baixa do Parlamento.

E agora quero lhes falar, estimados compatriotas, que estou orgulhoso de vocês.

Expresso minhas palavras de agradecimento aos cidadãos do Cazaquistão que nestes dias mantiveram a tranquilidade, somaram forças para garantir a estabilidade e a ordem social.

Apesar das provocações e dos chamados destrutivos, vocês mantiveram a fé na lei e em seu país.

Agradeço pela consciência cívica dos estudantes das grandes cidades, do conjunto da classe operária e dos funcionários da indústria e da agricultura.

Agradeço aos moradores das regiões que se mantiveram pacíficos nos protestos ordeiros.

Todas as exigências externadas de forma pacífica serão ouvidas. Como resultado do diálogo, será alcançado um compromisso e serão elaboradas as decisões sobre problemas socioeconômicos urgentes.

Por isso, nas regiões em que foi mantida uma situação estável, revogaremos aos poucos o estado de emergência.

Tenho total confiança de que nossa Pátria sagrada, o Cazaquistão, se tornará um Estado forte no mapa do mundo, nossa economia terá um desenvolvimento dinâmico e a condição social de nossos cidadãos melhorará. Para atingirmos esses objetivos, proporei um plano de reformas e medidas concretas visando à sua realização.

Desejo a todos muita saúde e bem-estar!