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11 de janeiro de 2021

Jorge Heitor: “Os eslavos do Sul”, 1999


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O texto abaixo se chama “Os eslavos do Sul”, foi escrito pelo jornalista Jorge Heitor e publicado no site do jornal português Público em 29 de março de 1999, quando poucos brasileiros sequer sabiam o que era internet. Eu o achei pela busca do Google por acaso, há alguns meses, e dada sua riqueza, importância e provável esquecimento, decidi republicá-lo aqui, sem mudanças, nem mesmo na ortografia lusitana, que inclui a forma “Jugoslávia” pro país que conhecíamos como “Iugoslávia”. Também não o editei conforme meu “manual de estilo” pessoal, não corrigi nomes próprios com ortografias inusitadas ou errôneas, nem adicionei notas explicando fatos e pessoas específicos: quem quiser, pesquise por si. Peço compreensão quanto a isso, até porque ao final tive mesmo de colocar esclarecimentos, por causa de fatos que já caducaram em 2021 ou que Heitor não explica bem. No mais, como o texto não tem divisão clara de parágrafos, eu mesmo a fiz, de acordo com cada povo da antiga Iugoslávia explicado.

De todos os Estados da Europa central e balcânica, aquela que foi a Jugoslávia (na sua versão anterior a 1991) apresentava a estrutura étnica mais complexa, sendo difícil estudar os seus povos isoladamente, sobretudo a partir de finais do século passado. No entanto, é possível pintar em traços largos a caminhada de cada um deles. Segue-se uma breve história:

País sensivelmente com o tamanho e a população de Portugal, a Sérvia faz parte da grande família linguística eslava, que totaliza mais de 260 milhões de cidadãos, distribuídos desde as margens do Adriático até às terras da antiga União Soviética. Estêvão Nemanta proclamou-se Rei dos sérvios em 1217 e criou uma igreja ortodoxa independente, que ao longo dos séculos muito se identificaria com a própria nacionalidade, ajudando a Sérvia a procurar a hegemonia nos Balcãs. Em meados do século XIV, os sérvios foram vencidos pelos turcos no Kosovo e tornaram-se vassalos do Império otomano, só tendo recuperado a independência em 1878, aquando do Congresso de Berlim. Quando em 1914 a Sérvia rejeitou o ultimato austro-húngaro, motivado pelo assassínio em Sarajevo do arquiduque Francisco Fernando, principiou a I Guerra Mundial, tendo sido ocupada de 1915 a 1918, ano em que se criou o reino dos sérvios, croatas e eslovenos, a partir de 1929 chamado Jugoslávia, ou pátria dos eslavos do Sul. O rei Alexandre I foi assassinado em Marselha em 1934 por um extremista croata, tendo-lhe sucedido seu irmão Pedro II, derrubado por uma revolução durante os anos da II Guerra Mundial. A Sérvia chegou então a estar ocupada pela Alemanha, antes de se ter criado a República Federativa da Jugoslávia.

No início do século XVI as tribos do Montenegro, território outrora conhecido como Zeta, agruparam-se, em Boka Kotorska e em Cetinje, em redor dos seus chefes espirituais, oriundos da família dos Petrovitch Njegoch, e passaram a transmitir o poder de tio para sobrinho. As dificuldades sentidas com os turcos, em expansão pela Europa, levaram os montenegrinos a travar-se de amizades com os russos e em particular com o czar Pedro, “o Grande”. O bispo Pedro I Njegoch fez a sua dignidade de metropolita independente ser reconhecida pelo Sínodo da Igreja Ortodoxa Russa e pelo Patriarcado de Constantinopla. Também introduziu o primeiro código escrito e reorganizou a Justiça. Em 1848, o bispo filósofo Pedro II Petrovitch Njegoch, senhor de grande cultura, apoiou o levantamento dos eslavos contra os turcos na Herzegovina, na Metohija e na Albânia meridional. Dez anos depois, Danilo Petrovitch obteve um traçado preciso das fronteiras e o reconhecimento da independência do Montenegro, que em 1912 passou de principado a reino. Em 1918, um Conselho Nacional reunido em Podgorica depôs o rei Nikita e votou a incorporação no reino dos sérvios, croatas e eslovenos. Depois da II Grande Guerra, e durante algumas décadas, Podgorica chegou a chamar-se Titogrado, a cidade de Tito.

Instalados na actual Eslovénia em finais do século VII, os mais ocidentais dos eslavos do Sul colocaram-se no século seguinte sob a protecção dos bávaros e foram com eles arrastados para o império de Carlos Magno, depois Sacro Império Romano-Germânico. Os Habsburgos, senhores da Áustria, tomaram, no fim do século XIII, o controlo das terras eslovenas, que no século XIX Napoleão Bonaparte integrou nas chamadas Províncias Ilíricas do império francês, com a capital em Liubliana. Quando em 1941 se desfez a Jugoslávia criada em 1918, a Eslovénia foi partilhada pela Alemanha e pela Itália, voltando em 1946 a fazer parte do conjunto jugoslavo, até 1991, ano em que se tornou independente, sob a presidência de Milan Kusan, que fora secretário da Liga dos Comunistas. A superfície da Eslovénia não ultrapassa os 20.200 quilómetros quadrados, com uns escassos dois milhões de habitantes, católicos, situados na zona de passagem das terras germânicas para os Balcãs.

O primeiro Rei dos croatas foi Tomislav, em 925, tendo a sua independência sido reconhecida pelo Papa João X, mas não pelo Imperador de Bizâncio. No século XII, a Croácia ficou dependente da Hungria, da qual só se afastaria em 1918, para se associar aos eslovenos e aos demais eslavos do Sul. Na Jugoslávia ocupada em 1941 pelas potências do Eixo constituiu-se um Estado croata controlado por alemães e italianos, com o Governo entregue ao advogado Ante Pavelic, fundador do grupo terrorista ustachi. Depois da guerra, e sob a presidência federal do marechal Tito, os croatas estiveram associados aos sérvios, mas em 1991 proclamaram-se independentes, sob a direcção de Franjo Tudjman, nascido em 1922. A Croácia ocupa uma grande parte do litoral da antiga Jugoslávia, desde a península de Ístria, junto à cidade italiana de Trieste, até à costa do Montenegro, englobando estâncias turísticas tão importantes como Split e Dubrovnik, a antiga Ragusa dos tempos medievais, que foi veneziana de 1205 a 1358.

Codificada no início do século XIX, a língua servo-croata tem a particularidade de admitir duas transcrições: em caracteres cirílicos para os sérvios e em caracteres latinos para os croatas, que são católicos e voltados para o Ocidente.

É difícil falar de um povo bósnio, dado que toda a população da Bósnia-Herzegovina fala o servo-croata, tal como as populações vizinhas, tendo os acordos de Dayton dividido o país numa República Sérvia e numa Federação Croato-Muçulmana, bem ilustrativas da pluralidade de populações existentes nas terras da antiga Jugoslávia. Quarenta por cento da população é muçulmana, 32 por cento ortodoxa sérvia e 18 por cento católica, croata, de onde a dificuldade de se conseguir a identidade desse conjunto de quatro milhões e meio de seres humanos, distribuídos por 51.100 quilómetros quadrados, com a capital em Sarajevo. A bandeira da Bósnia-Herzegovina inspira-se na heráldica francesa, com um campo azul semeado de lírios de ouro, mas a verdade é que, a partir de 1435, os bósnios tiveram de pagar tributo ao Império otomano, que procurou islamizá-los. Foi em resultado da influência turca que ficou ali, em plena Europa meridional, um segmento populacional que não se reconhece nos croatas nem nos sérvios, apesar dos laços linguísticos e étnicos, que não se conseguiram impor à diferenciação religiosa.

Criou-se assim um dos maiores quebra-cabeças da Europa contemporânea, que só o futuro irá ajudar a resolver. Encontra-se aqui um povo que é simultaneamente dos mais antigos e dos mais jovens do continente europeu. Não foi conhecido como povo durante largos séculos, desde a campanha fulgurante de Alexandre, “o Grande” quase até à actualidade. Eslavos libertados dos turcos em 1912, os macedónios foram logo a seguir cobiçados por sérvios e por búlgaros, tendo em 1946 passado a constituir uma das repúblicas da Jugoslávia, com 25.700 quilómetros quadrados e a capital em Skopje. A região conquistada pelos romanos e depois parte integrante do Império do Oriente foi a partir do século VII reivindicada por búlgaros e por bizantinos, mas também viria a ser alvo do interesse sérvio, antes de os turcos lá terem chegado em finais do século XIV. Apoiada pela Bulgária e pela Turquia, a actual Macedónia, proclamada independente no mês de Setembro de 1991, deparou com uma profunda hostilidade da Grécia, que não queria um Estado com semelhante nome, dadas as suas conotações históricas, derivadas do tempo em que Alexandre foi o símbolo máximo do helenismo. A entrada nas Nações Unidas só foi possível depois de um compromisso que levou a que o país presidido por Kiro Gligorov adoptasse o nome provisório de “Antiga República Jugoslava da Macedónia”.


Notas de atualização:

Lembremos que até o ano 2000, os territórios que restaram da antiga Iugoslávia (Sérvia, Montenegro, Voivodina e Kosovo) mantinham o nome “República Federal da Iugoslávia”, quando adotaram a denominação “Sérvia e Montenegro”. Em 2006, Montenegro (cuja língua também é o servo-croata, ou “BCS”) se separou da Sérvia como país independente, enquanto o Kosovo, de maioria albanesa, proclamou a independência da Sérvia em 2008, porém não obteve reconhecimento internacional.

Já na década de 2010, a população de falantes de línguas eslavas era estimada em mais de 400 milhões de pessoas, metade delas apenas falando a língua russa.

O nome do movimento fascista croata, grafado das mais diversas formas em várias línguas, está incluído como Ustaša (pronúncia “ústacha”) dentro da denominação completa. A palavra ustaša é masculina singular e significa “insurgente, rebelde”, historicamente sem conotação fascista. O movimento como um todo também é conhecido como Ustaše (“ústache”), que é o plural de ustaša, ou seja, "insurgentes, rebeldes".

Quando se fala na “República Sérvia” (Republika Srpska) como parte integrante da Bósnia e Herzegóvina, convém distingui-la da “República da Sérvia” (Republika Srbija), o país propriamente dos sérvios cuja capital é Belgrado. Além disso, o autor cita a primeira bandeira bósnia, que já tinha sido abandonada em 4 de fevereiro de 1998, quando foi adotada a atual bandeira de estilo geométrico.

A disputa em torno do nome do país Macedônia se deve ao fato de que esse também é o nome da região histórica mais ampla, que abrange tanto gregos quanto eslavos. Após separar-se da Iugoslávia, pra fins de ingresso em organizações internacionais, ela usava em caráter provisório o nome “Macedônia (ARIM)”, sigla pra “Antiga República Iugoslava da Macedônia” (“ARJM” em Portugal). Em junho de 2018, os primeiros-ministros Zoran Zaev (Macedônia) e Alexis Tsipras (Grécia) celebraram um acordo que aceitava o nome “Macedônia do Norte” ao país de capital Skopje, diferenciando da região no norte da Grécia e permitindo abandonar a sigla “ARIM” a partir de fevereiro de 2019. Amplamente aceito entre os macedônios, que assim puderam ingressar na OTAN, o acordo irritou os gregos, colaborando assim pra derrota eleitoral do partido de Tsipras em 2019.