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5 de janeiro de 2021

De Gaulle sobre esperanto e volapuque


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Eu achei este vídeo por acaso, com o ex-presidente francês, general Charles de Gaulle, fazendo uma brincadeira com o esperanto e o volapuque (ou volapük) numa conferência de imprensa em Paris, em 15 de maio de 1962. Porém, o contexto mais amplo com gravação melhor é uma fala em que o herói da Resistência antinazista critica uma integração europeia da França, no caso de haver supressão das fronteiras nacionais e das particularidades locais (imagens do INA).

Ele critica as ideias de “federalismo europeu” e defende a manutenção da soberania nacional dos Estados-membros da União Europeia. Parecia uma previsão quanto ao que está ocorrendo hoje... Cada cultura nacional seria uma contribuição integrante da Europa, ao contrário do esperanto e do volapuque, projetos que visam ser línguas internacionais “neutras”. Esperanto ou volapuque “integrados” quer dizer exatamente sem características nacionais, fundidos em algo único, desnaturado.

O raciocínio de Charles de Gaulle é bem problemático, primeiro porque hoje a condição de “apátrida” é considerada pelas organizações internacionais uma situação de fragilidade, causada especialmente pelo exílio ou expulsão devidos a guerras e ditaduras, não raro surgidas em meio justamente à exacerbação de nacionalismos. Além disso, os judeus sempre foram considerados apátridas por definição, e nesta ou outra entrevista, o general cita de forma pejorativa o espírito “dominador” desse povo.

Diga-se também que a cultura europeia, notadamente o cristianismo, só pôde florescer justamente por causa dos impérios helênico e romano, não nacionais e com seus “esperantos” pan-mediterrâneos, o grego koiné e o latim, bases da linguagem técnica e científica modernas. E Zamenhof, o iniciador do esperanto, era judeu polonês que vivia no racista Império Russo, em província em que vários povos brigavam entre si, instigados pelo tsar.

Eu mesmo traduzi do francês a partir do texto dado no YouTube, e legendei, tendo feito apenas pequenas correções (ele disse qu’ils avaient pensé, mas talvez ele quis dizer s’ils avaient pensé):

Je ne crois pas que l’Europe puisse avoir aucune réalité vivante si elle ne comporte pas la France avec ses Français, l’Allemagne avec ses Allemands, l’Italie avec ses Italiens etc. Dante, Goethe, Chateaubriand appartiennent à toute l’Europe dans la mesure même où ils étaient respectivement et éminemment italien, allemand et français. Ils n’auraient pas beaucoup servi l’Europe s’ils avaient été des apatrides et qu’ils avaient pensé et écrit en quelque esperanto ou volapük intégrés...

Não creio que a Europa possa ter nenhuma realidade viva se não comportar a França com seus franceses, a Alemanha com seus alemães, a Itália com seus italianos etc. Dante, Goethe, Chateaubriand pertencem a toda a Europa na própria medida em que eles eram respectiva e eminentemente italiano, alemão e francês. Eles não teriam servido muito à Europa se tivessem sido apátridas e se tivessem pensado e escrito em algum esperanto ou volapuque integrados...