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25 de janeiro de 2019

Votos de Emmanuel Macron para 2019


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/voeux2019


Este é o discurso transmitido na TV francesa em 31 de dezembro de 2018, com o presidente da República Emmanuel Macron desejando um feliz 2019 aos cidadãos e fazendo um balanço de seu governo no último ano. A partir do texto postado no site do Palácio do Élysée, eu mesmo traduzi direto do francês e baixei o vídeo sem legendas de uma agência jornalística.

Como vocês já viram em postagens de 2017 e 2018, Macron assumiu a presidência da República Francesa em maio de 2017 e viveu um período conturbado em que procurou reformar o Estado e a economia, mas se deparou com a crescente insatisfação social. Banqueiro de profissão e nunca antes tendo concorrido a um cargo eletivo, ele já tinha sido ministro da Economia de François Hollande, o presidente anterior, e já então começou a emplacar suas reformas. Tendo fundado seu próprio partido chamado hoje A República em Marcha (REM), chegou ao segundo turno com a direitista Marine Le Pen, da agora União Nacional (RN), e venceu diante da popularidade que o projeto europeísta ainda tinha na França. Porém, a conjuntura internacional, sobretudo por ação do antiglobalista Donald Trump, e os constantes entraves estruturais internos o levaram a alcançar muito menos do que pretendia, e agora é detestado por muitos de seus eleitores.

O ápice da crise em seu governo foi o chamado “movimento dos gilets jaunes” (coletes amarelos), sobre o qual também expliquei num vídeo. A criação de imposto que aumentaria o preço do diesel, combustível mais usado nos carros franceses, serviu de faísca pra protestos que também criticaram o abandono dos serviços públicos e o custo de vida. As manifestações de rua, que descambaram em novembro de 2018 em violência generalizada e prejudicaram a economia nacional, continuaram com força menor em dezembro e cumpriu-se a promessa dos “coletes amarelos” retomarem as paralisações em janeiro. Exposto ao mundo inteiro como um líder impopular e um “presidente dos ricos”, Macron teve de tentar acalmar os ânimos em mais um longo discurso de fim de ano. Em geral, essas falas presidenciais não duram mais de 8 ou 9 minutos, mas pela segunda vez consecutiva o ex-banqueiro ultrapassou os 15 minutos em impaciência e redundância.

Macron sabe que as pessoas estão insatisfeitas e que a França parece estar perdendo seu lugar no mundo, diante de vizinhos e aliados que estão abandonando o projeto europeu e o curso da globalização. Mas defende que não é com raiva que se resolvem as coisas, e que o fim da integração mundial significaria um risco para todos, sobretudo do ponto de vista ambiental. Ele anuncia que está criando novos projetos reformistas e ideológicos a ser apresentados nas semanas seguintes e pede que o povo continue esperando e, sobretudo, mantenha-se unido e orgulhoso do país. Seu discurso não acalmou os ânimos e, gerando piadas no YouTube, chamou a atenção por não mencionar o custo de vida e os serviços precários.

Importa lembrar também que Édouard Philippe, primeiro-ministro de Macron, também tem grande responsabilidade pela situação. Citado algumas vezes no discurso, ele é escolhido pelo presidente, mas tem todo o encargo de formar o governo e sua política interna, enquanto a presidência costuma antes se ocupar com assuntos externos. Seguem abaixo a legendagem no meu canal Eslavo (YouTube) e a tradução escrita em português:



Francesas, franceses,

Meus caros compatriotas da França europeia (1) e do Ultramar.

Fiel a uma tradição que estimamos, estou feliz por apresentar-lhes todos os meus votos para o ano que se inicia.

O ano de 2018 não nos poupou de emoções intensas de todos os tipos. A França conheceu grandes momentos: vitórias esportivas, grandes eventos culturais e a celebração do centenário do Armistício de 1918, ocasião na qual portei a voz da França pela paz.

O Primeiro-Ministro, seu Governo e o Parlamento fizeram em 2018 muito pelo país. Não vou listar tudo aqui, mas inúmeras reformas que até então julgávamos ser impossíveis, como a do trabalho ou das ferrovias, foram efetuadas. Eles se lançaram a uma ação firme por nossa escola, nossas universidades, o aprendizado, o sistema dual (2) e a atratividade de nosso país.

Eles fundaram as bases de uma estratégia ambiciosa para melhorar a organização de nossos hospitais, nossas clínicas e nossos médicos, para combater o aquecimento global, erradicar a extrema pobreza e permitir que nossos concidadãos com alguma deficiência encontrem seu lugar na sociedade.

Os resultados não podem ser imediatos e a impaciência, da qual partilho, não poderia justificar nenhuma desistência.

Nos próximos meses, o Governo deverá continuar esse trabalho para implantar várias dessas reformas em nosso cotidiano, bem como para mudar profundamente as regras para o seguro-desemprego, visando antes estimular o retorno ao trabalho, a organização do setor público para torná-lo mais eficiente e nosso sistema de aposentadoria para torná-lo mais justo. Em suma, para edificar a previdência social do século 21.

Mas vivemos também grandes dilaceramentos e a explosão de uma raiva que vinha de longe; raiva contra as injustiças, contra o rumo de uma mundialização às vezes incompreensível; raiva contra um sistema administrativo que se complicou demais e careceu de benevolência; raiva também contra mudanças profundas que indagam nossa sociedade quanto a sua identidade e seu sentido.

Essa raiva disse uma coisa a meus olhos, a despeito de seus excessos e seus transbordamentos: não somos resignados, nosso país quer construir um futuro melhor baseado em nossa capacidade de inventar novas maneiras de criar e de permanecer juntos.

Tal é a lição de 2018 a meus olhos: queremos mudar as coisas para viver melhor, defender nossos ideais, queremos inovar, para tanto, nos planos democrático, social, político, econômico e ambiental.

Seria perigoso que nossa situação nos levasse a ignorar o mundo que nos rodeia. Muito pelo contrário, pois tudo está ligado!

Grandes certezas estão aí também sendo derrubadas. A ordem internacional edificada em 1945 é posta em causa por novas potências e ultrajada por certos aliados nossos.

Por toda a Europa ascendem os partidos extremistas, enquanto as intervenções de potências estatais e privadas estrangeiras se multiplicam.

As grandes migrações nos inquietam e são manipuladas pelos demagogos, enquanto o que devemos é produzir novas respostas a esse fenômeno que não vai acabar amanhã, levando em conta a demografia mundial.

Os combates ao aquecimento global e pela biodiversidade são mais necessários do que nunca, mas se encontram paralisados. Vamos superar juntos os egoísmos nacionais, os interesses particulares e os obscurantismos.

O terrorismo islamista também continua agredindo; em mutação, ele se expande por todos os continentes. Há algumas semanas, em Estrasburgo, ele ainda feriu, como tinha ferido em Trèbes e Paris durante este ano que termina.

Enfim, mudanças tecnológicas profundas, à frente das quais está a inteligência artificial, transformam rapidamente nossa maneira de nos tratar, nos deslocar, nos formar, produzir...

Vocês estão vendo como vivemos várias turbulências inéditas: o capitalismo ultraliberal e financeiro, quase sempre orientado para o curto prazo e a ganância de poucos, caminha para o fim; nosso mal-estar na civilização ocidental e a crise de nosso sonho europeu estão aqui.

Devemos então nos desesperar? Não creio nisso. É um desafio imenso e tudo isso está obviamente ligado com o mal-estar vivido por nosso país, mas temos exatamente um lugar, um papel a cumprir, uma visão a propor. É a linha que traço desde o primeiro dia de meu mandato e que pretendo seguir. É recolocar o homem no cerne desse projeto contemporâneo. Isso exige muita constância e determinação. Mas em meu íntimo estou convencido de que temos de elaborar uma resposta, um projeto profundamente francês e europeu ao que estamos vivendo no país e além de nossas fronteiras.

Também devemos nesse âmbito, como sempre fizemos, tomar toda nossa parte no renascimento de nosso mundo e nosso cotidiano. Por isso, meus caros compatriotas, este ano de 2019, a meu ver, é decisivo, e quero fazer três votos para nós.

Primeiro, um voto pela verdade. Sim, desejar que em 2019 não esqueçamos que nada se constrói sobre mentiras ou ambiguidades. Ora, devo dizer bem que após anos, nos instalamos numa negação com cheiro ocasional de realidade. Não podemos trabalhar menos, ganhar mais, baixar nossos impostos e aumentar nossas despesas, não mudar nada em nossos hábitos e respirar um ar mais puro! Não, também nesses assuntos devemos nos olhar tais como somos e nos aceitar diante das realidades.

Vivemos em uma das maiores economias do mundo, nossa infraestrutura é uma das melhores do mundo, pagamos pouco ou nada pela escola das crianças, nossa saúde tem um dos custos mais baixos do mundo desenvolvido para garantir o acesso a médicos de excelência, gastamos para o funcionamento e investimento em nossa esfera pública mais da metade do que produzimos a cada ano. Portanto, paremos... paremos de nos subestimar ou fazer crer que a França seria um país onde não existe solidariedade e onde se deveria gastar cada vez mais!

Podemos fazer melhor e devemos fazer melhor: garantir que os serviços públicos continuem presentes onde quer que precisemos deles, que os médicos se fixem onde há falta deles – em pontos do interior ou em cidades ou bairros onde não estão mais –, que haja telefonia móvel ou internet onde quer que se viva e trabalhe. E que possamos, sobretudo, viver seguros e tranquilos em todo lugar. Vou zelar por isso pessoalmente e a cada dia.

O debate nacional que se abre deve permitir que sejamos francos, e em alguns dias vou lhes escrever para deixar claros seus princípios. Mas ser franco é falar da realidade.

O voto pela verdade também é aquele que deve nos guiar a fim de mantermos nossa democracia robusta, evitarmos as informações falsas, as manipulações e as intoxicações.

Podemos debater sobre tudo, mas debater falsidades pode nos desorientar, sobretudo quando o impulso vem de interesses particulares.

Em tempos de redes sociais, de culto do imediato e da imagem e de comentários onipresentes, é indispensável reconstruirmos uma confiança democrática na verdade da informação baseada em regras de ética e transparência.

No fundo, esse voto pela verdade é um voto para que todos escutem, dialoguem, sejam humildes.

A verdade não é única, e acredito inclusive que cada um de nós começa a recair em erro quando afirma as coisas sem dialogar, sem confrontá-las com o real ou os argumentos dos outros. Debatamos, então, pois daí pode nascer uma ação útil e que nos una.

Meu segundo voto para 2019 é um voto pela dignidade.

Tenho a profunda convicção de que cada cidadão é necessário para o projeto da Nação.

Muitos concidadãos nossos não se sentem respeitados, considerados. Eles sentem sua vida como que emperrada. Penso nas mães de família que criam sozinhas seus filhos e terminam o mês sem dinheiro, penso em nossos agricultores que só querem viver dignamente do próprio trabalho ou em nossos modestos aposentados que ainda ajudam seus filhos e sustentam seus pais.

Começamos a trazer-lhes respostas, e sei de sua legítima impaciência, mas vamos precisar ir mais longe.

Isso implica permitirmos que cada um, quaisquer que sejam seu bairro e sua família, possa ter acesso a uma educação melhor, e graças a esta, possa ter acesso a um trabalho para construir sua vida e a de sua família. Isso exige assegurar a cada um os direitos na sociedade e esperar dele os deveres que são seus.

Começamos a restabelecer isso, mas é uma responsabilidade de todos nós, que passa pelo respeito, pelo senso de esforço e de trabalho.

Isso exige também combater os interesses ocultos que às vezes paralisam nossa sociedade e nosso Estado, que não reconhecem devidamente o mérito ou que compartimentam quase todos os nossos concidadãos.

Nossa dignidade de cidadãos ordena que cada um se sinta plenamente ator da vida da Nação, de suas grandes decisões, por meio de seus representantes ou diretamente. Graças ao debate que começou, devemos devolver à nossa democracia toda a sua vitalidade. Vou ter de tomar decisões nesse âmbito, pois obviamente nossas instituições devem continuar evoluindo.

Mas a dignidade, meus caros compatriotas, também é o respeito a cada um. E devo dizer, nos últimos tempos vi coisas impensáveis e escutei o inaceitável. Só vivemos livres em nosso país porque as gerações que nos precederam lutaram para não se submeter nem ao despotismo nem a tirania alguma. E essa liberdade requer uma ordem republicana; exige o respeito a cada um e a todas as opiniões; que alguns usem como pretexto falar em nome do povo – mas que povo, de onde? Como? E sendo de fato apenas os porta-vozes de uma multidão raivosa, atacam os políticos, as forças da ordem, os jornalistas, os judeus, os estrangeiros, os homossexuais, é pura e simplesmente a negação da França! O povo é soberano. Ele se expressa durante as eleições. Ele escolhe então representantes que criam a lei exatamente porque somos um Estado de direito.

A ordem republicana será preservada a qualquer custo, pois espero de cada um esse respeito indispensável à vida em sociedade.

Quero dar uma palavra a todos os que, no dia a dia, permitem que nossa República sirva pela maior dignidade possível de cada um: nossos militares, muitos dos quais esta noite estão a milhares de quilômetros de suas famílias; nossos bombeiros, nossos policiais civis e militares, (3) nossos profissionais da saúde, os políticos da República, os associados em trabalhos voluntários, todos os que atam o laço da Nação, servem pela fraternidade diária e que esta noite, eu sei, estão ao lado dos mais vulneráveis, dos mais frágeis, nos quais penso com todo sentimento.

Enfim, quero fazer um terceiro e último voto. Um voto pela esperança.

Esperança em nós mesmos, como povo.

Esperança em nosso futuro comum.

Esperança em nossa Europa.

Acredito que teremos em nós uma energia saudável se soubermos recuperar a confiança em nós mesmos e entre nós.

Acredito que a França carrega em si um projeto inédito: um projeto de educação de cada um, uma cultura forte que nos une, um projeto de construção de uma ecologia industrial, de uma sociedade com nova solidariedade e a serviço das pessoas.

E por trás disso, o que queremos profundamente é recuperar o domínio de nosso cotidiano e de nosso destino. Submissão nunca mais. É isso que deve guiar nossas escolhas para o país e as grandes decisões para o ano que vem. É isso também que deve guiar o projeto europeu renovado que vou lhes propor nas próximas semanas.

Recuperar o domínio de nossa vida é escolher nossa alimentação, garantir a justiça fiscal, proteger-nos contra nossos inimigos, investir para inovar, trazer uma resposta comum às migrações. Creio muito profundamente nessa Europa que pode proteger melhor os povos e nos devolver a esperança.

No próximo mês de maio, vamos ter de nos expressar sobre essa escolha europeia, que é tão importante.

Queremos acabar com o sentimento de impotência, em todos os níveis. É uma tarefa de alcance inédito, mas ela está diante de nós. Sei que estamos à altura dela. E é aí que reside essa esperança para 2019.

Eu cresci no interior e conheço essas terras que ficaram na desordem nessas últimas décadas e que não raro são céticas. E sei que nosso futuro não pode ser feito dispensando uma unidade a recuperar e o esforço de cada um.

É assim que cada cidadão vai reencontrar um pouco mais de sentido e um pouco mais de domínio de sua vida. E sei que nosso futuro depende de nossa capacidade de amar exatamente a nós e à nossa pátria; de todos os horizontes, de todas as gerações, aí está a energia da França.

Estou trabalhando, orgulhoso de nosso país, de todas as francesas e de todos os franceses; determinado a travar todos os combates atuais e futuros, porque acredito em nós; acredito nessa esperança francesa e europeia que podemos carregar.

Portanto, meus caros compatriotas, desejo a vocês um belo ano de 2019.

Viva a República e viva a França!


Notas (clique no número pra voltar ao texto)

(1) No original, “Hexagone”, isto é, “Hexágono” (território da França “metropolitana”).

(2) No original, “alternance” (formation par alternance), isto é, o sistema dual de educação, do qual uma parte maior é cumprida em atividade prática no trabalho, contando para avaliar a formação, e a outra parte em sala de aula.

(3) No original, “nos gendarmes, nos policiers”. Na França, apenas a “gendarmaria” é uma força militar armada, enquanto a polícia é um conjunto de funcionários públicos.