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31 de janeiro de 2019

Massacre do Realengo e faces de Deus


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/realengo


NOTA: O massacre do Realengo e as muitas “faces” de Deus – texto sem data, mas em cujo arquivo Word original a última alteração está como feita em 14 de abril de 2011. No dia 7 anterior, um jovem atirador fanático tinha matado várias crianças numa escola dessa região pobre da cidade do Rio de Janeiro e ferido muitas outras, sob a alegação de que estava cumprindo ordens divinas. Nessa época, ainda regada a muito Orkut e mal conhecendo o smartphone, o neo-ateísmo estava em seu ápice, criticando os diversos fundamentalismos religiosos que banharam de sangue a década recém-terminada. Originalmente o artigo foi escrito pra Revista Verdade, então publicada em Bragança Paulista com muita dificuldade por Antonio Sonsin, mas creio que depois não repostei em nenhum lugar. Como sempre, em meio à ruminação de preconceitos populares, encubro com muita discussão o óbvio: qualquer fanatismo é horrível. Mas sem modificações, o texto ainda tem o que dizer.



No calor dos debates sobre o que teria levado Wellington Menezes de Oliveira a cometer o massacre na escola do Realengo, no Rio, apareceu um elemento contraditório, por vezes supervalorizado ou menosprezado conforme os interesses em jogo: as conturbadas crenças religiosas do assassino, expressas em cartas, e-mails, vídeos, depoimentos de parentes e rastros na internet. O fator religião, para desespero de manipuladores de opinião que têm exaurido o tema para promover-se, parece ser menos relevante do que a vida pessoal e o quadro psiquiátrico daquele jovem.

Como se esperava, a invocação divina tem sido uma constante entre jornalistas, conhecidos das vítimas ou cidadãos comuns, seja para atacar Wellington ou descrever o meio que o teria motivado (“Ele não tinha Deus no coração”, “Falta Deus na nossa sociedade”...), seja para consolar a si mesmos ou aos atingidos (“Deus proteja esses sofredores”, “Deus evitou o pior”, “As crianças mortas agora estão com Deus”...). Nada mais previsível em um país de forte tradição religiosa monoteísta e assolado por tantos males, quando a fé parece ser a única válvula de escape (até mesmo, muitos diriam, uma solução) para tão crua realidade.

Tudo seria simples se não se descobrisse com o atirador um passado multifacetado de tormentos religiosos, simpatia ao terrorismo e a provável doutrinação online (ou ainda, suspeita-se, ao vivo) por seitas obscuras de probidade duvidosa. Na “carta-testamento” e em outros escritos, frequentemente cita a Bíblia, Deus, Jesus, o Alcorão e conceitos como virgindade e pureza. De fato, uma minoria de ateus, copiando movimentos antirreligiosos internacionais recentes (embora nem todos sejam o alvo desta crítica), aproveitou-se do imbróglio não só para censurar muitas figuras públicas e mesmo simples populares pelo uso da expressão “falta de Deus” como também para reciclar o velho tema da religião como a principal fonte de ódios e matanças no planeta.

Eis aí um ato apressado, pouco criativo e intencionalmente querelante. Para quem realmente não crê em religião e forças sobrenaturais, essas crenças têm mero valor de símbolos altamente mutáveis, manipuláveis e condicionados cultural e historicamente. É como o laicista que, pedindo a retirada do crucifixo de locais públicos, parece temê-lo tanto quanto o Diabo. Entre esses polemistas, é louvável sua reprimenda a autoridades que abominam o “ateísmo” (?) de Wellington, mas que deveriam dosar melhor suas palavras, sabendo que seu cargo não deveria permitir certos arroubos de parcialidade. Agora, censurar as manifestações religiosas espontâneas dos enlutados, como a faixa em homenagem aos “12 anjos de Deus” e até a uma senhora, na certa pouco informada sobre a vida do carrasco, que lhe atribuiu “falta de Deus no coração”, é um indesculpável desconhecimento da realidade cultural desse grupo. O cúmulo foi quando afirmaram ser aquela faixa um “desrespeito” às famílias supostamente ateias aí envolvidas! Há indício maior de alienação e de “fobia a povo”?

Obviamente não é o caso de estimular o placebo, nem, é claro, de ocultar um difuso preconceito antiateísta. Primeiro, porque o fato de a maioria dizer ou pensar uma coisa não significa que ela seja real ou correta. O xeque Jihad Hassan, por exemplo, famoso pelas litanias sobre a “necessidade inata” da crença e da religião, em cerimônia ecumênica realizada na escola no dia 13 de abril, não deixou de elogiar os cultos como fator de paz e de recomendar respeito a eles para a prevenção de barbáries. Acontece que religiosos, sejam leigos ou clérigos, podem tanto estender sua mão aos caídos quanto arrancar a cabeça alheia, mas, procurando ocultar isso, as grandes Igrejas varrem o problema “para debaixo do tapete” e não excluem ou repreendem seriamente os que realizam terror em seu nome. A crítica e a autocrítica viram um “nada tenho a ver com isso”.

Em segundo, e precisando o que foi dito acima, as religiões tornam-se verdadeiras fábulas infantis, filminhos de ficção ou “jogos do espírito” diante dos fatores sociais, psiquiátricos e íntimos que condicionam tais ações espetaculosas. Sabe-se que Wellington carregava seu transtorno sem qualquer intervenção psicoterápica, agravado por presumido bullying, perdas familiares, isolamento e a provável falta do cultivo de uma consciência por seus responsáveis, ou seja, uma comunicação mínima entre as convenções ético-sociais e o que o próprio rapaz via como certo e errado. O fanatismo religioso apenas piorou a desorientação, mas as mortes também aconteceriam sem isso, embora, talvez, sem tanta ênfase nas meninas. De resto, cabe lembrar que o ateísmo ou a irreligião não são obrigatoriamente um freio moral, como pretendem alguns secularistas: os regimes do “socialismo real”, mesmo após a Declaração Universal dos Direitos Humanos, estão aí de prova.

Essa é a trágica história do encontro de distúrbios causados por um sistema sócio-econômico excludente, superficial, concorrentista, desconfiado e antifilosófico com dogmatismos tentadores como subterfúgio aos problemas reais, mas que, inculcados por más companhias, podem levar ao abismo material e existencial. Todavia, histórias diferentes poderão ser escritas se o mundo tornar-se mais colaborador, inclusivo, crítico e reflexivo, sob diretrizes abertas, realistas, racionais e portadoras de um sentido para nossa curta vida. E, antes de mais nada, longe do preconceito de todos os matizes que destrói a tudo e a todos.