quarta-feira, 17 de agosto de 2016

L’ epoko kaj la mondo niaj (poema meu)


Link curto pra esta postagem: fishuk.cc/epoko

Este é mais um poema que escrevi em esperanto, não me lembro exatamente se em 2007 ou 2008. Lembro apenas que estava visitando meu melhor amigo, que mora no meu bairro, e num momento em que ele conversava com outras pessoas, comecei a compor os versos na minha cabeça... Eu era meio doido, não? Eu o publiquei pela primeira vez também numa nota de Facebook, na manhã de 7 de agosto de 2011. A rítmica dos versos é: ta TA ta TA ta TA ta TA ta (isso deve ter um nome técnico, mas não conheço), e em cada estrofe o primeiro verso rima com o terceiro, e o segundo com o quarto. Seguem abaixo minha voz o recitando, o texto em esperanto e um rascunho de tradução. Espero que você gostem!

Ĉi tiu estas alia poemo, kiun mi skribis en Esperanto, mi ne precize memoras, ĉu en 2007 aŭ 2008. Mi memoras nur, ke unu tagon mi vizitis mian plej intiman amikon, kiu loĝas en mia kvartalo, kaj en momento, kiam li babilis kun aliaj personoj, mi komencis enkape komponi la versojn... Mi estis iom freneza, ĉu ne?... Mi publikigis ĝin unuafoje ankaŭ en Facebook matene la 7-an de Aŭgusto 2011. La ritmo de la versoj estas: ta TA ta TA ta TA ta TA ta (tio verŝajne havas faknomon, sed mi ne konas ĝin), kaj en ĉiu strofo la rimoj okazas inter la unua kaj la tria versoj, kaj inter la dua kaj la kvara. Ĉi-sube sekvas mia voĉo deklamanta ĝin, la teksto en Esperanto kaj skiza traduko al la portugala lingvo. Mi esperas, ke vi ŝatos ĝin!


La junularo ne plu sonĝas,
Ne oni agas komunume.
La utopioj funde plonĝas
Kaj kapitalo regas dume.

Labora nia sangodono
Nur nutras la ĉefulojn brutajn,
Ĉar ni satiĝas per duono,
Dum ili havas aĵojn tutajn.

Popoloj ŝatas naivecon,
Ol la konscio pri problemoj
Damnantaj ĉiun vivospecon
Pro la detruaj homaj emoj.

Militoj sen kialoj iaj
Plenigas la povulajn mensojn
Kaj interesoj tre naciaj
Korodas la tutmondajn pensojn.

Pri am’ ne estas plu reguloj,
Ne la etiko plu ekzistas,
Ĉar nin malamas l’ aliuloj
Kaj forte la sinlu’ rezistas.

Poluas la aŭtomobilo,
Ĉielen fumon ĝi direktas;
Murdotajn arbojn de hakilo
La politiko ne protektas.

Rasisme, krime, antaŭjuĝe:
Jen nia vivomaniero.
Gentetojn, kiuj vivas fuĝe,
Forlasis tute la espero.

La bonsatuloj nur bedaŭras
Pro la porcioj multekostaj,
Dum l’ akra manĝomanko daŭras
Eĉ en urbetoj la plej frostaj.

La solvojn oni prete kreis,
Sed la problemoj sekve venas:
Aŭ la bonuloj jam pereis,
Aŭ juston la truduloj ĝenas.

Finante, dir’ instruistina:
“Sen pac’ en nia propra rondo”,
Admonas la proverbo ĉina,
“Ne estos paco en la mondo”.

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A juventude não sonha mais,
Não se age mais em comunidade.
As utopias submergem fundo
E enquanto isso reina o capital.

No trabalho doamos nosso sangue
Que só alimenta os chefes brutais,
Pois nos satisfazemos com metade,
Enquanto eles têm coisas inteiras.

Os povos gostam da ingenuidade
Mais do que da consciência dos problemas
Que prejudicam todo tipo de vida
Devido às tendências humanas destrutivas.

Guerras sem nenhum tipo de motivo
Preenchem as mentes dos poderosos
E interesses muito nacionais
Corroem os pensamentos mundiais.

Não há mais regras sobre o amor,
A ética não existe mais,
Pois as outras pessoas nos odeiam
E o aluguel de si mesmo resiste com força.

O automóvel polui,
Ele direciona fumaça ao céu;
Árvores a serem mortas pelo machado
Não são protegidas pela política.

Com racismo, crime, preconceito:
Eis nosso modo de viver.
Pequenos povos que vivem em fuga
Foram totalmente deixados pela esperança.

Os bem nutridos só lamentam
Por causa das porções caras,
Enquanto segue a falta aguda de comida
Até nas cidadezinhas mais geladas.

Criaram-se prontamente as soluções,
Mas os problemas vêm na sequência:
Ou as pessoas boas já pereceram,
Ou os opressores atrapalham a justiça.

Para acabar, um dizer de professora:
“Sem paz em nosso próprio círculo”,
Adverte o provérbio chinês,
“Não haverá paz no mundo”.



domingo, 14 de agosto de 2016

Dzmitry Sholakhau – Мой край (Torrão)


    Procurando na rede poesia belarussa para ler e ocasionalmente traduzir (acho essa língua muito bonita!), achei por acaso o site Vershy.ru, que está todo em belarusso e tem poemas de vários autores, a maioria talvez não profissional, classificados pelo nome do escritor ou pelo tema de que tratam. Gostei muito de navegar nele, vi muitos poemas legais e dignos de ser trabalhados!

Um deles que julguei legal, curtinho e fácil o suficiente para uma iniciativa rápida foi o poema “Мой край” (Moi krai), que literalmente significa Minha terra e foi escrito por Dzmitry Sholakhau (Дзмітрый Шолахаў), sobre quem não encontrei mais informações na rede. O único fato interessante de que fiquei sabendo foi que a versão russa do nome, Dmitry Sholokhov, é usada por outro belarusso, um designer de moda que vive em Nova York. Até porque talvez seja um nome comum em Belarus, e porque não vi referências ao radicado como poeta, não tive por que crer serem os dois a mesma pessoa.

O poema de Sholakhau está nesta página, e clicando em seu nome pode-se ler outros escritos seus. Abaixo também fiz uma tabela com quatro composições: o texto belarusso em cirílico e na transliteração para o alfabeto latino conforme meu sistema, e a tradução literal com uma tradução poética minha, para vocês assimilarem a essência do trabalho. Além disso, antes da tabela coloquei um vídeo que mostra minha leitura em voz alta do poema em belarusso, para os curiosos de como soa a língua, e na tradução poética, acompanhados de legendas:


Мой край
Дзмітрый Шолахаў

Край мой мілы, край мой светлы,
Добры, безумоўна,
І такі да ўсіх прыветлы,
І такі цудоўны,

Што няма яму узораў,
Прыкладаў бяспрэчных.
І над ім лятаюць зоры
Ўсіх сузор’яў лепшых.

Край мой родны, край любімы –
Нівы і азёры,
Ты – адна мая Радзіма
Ў сонечным прасторы.

І нікому, край мой мілы,
Не аддам ніколі
Твае моры, небасхілы,
Руні ў родным полі.

Moi krai
Dzmitry Sholakhau

Krai moi mily, krai moi svetly,
Dobry, bezumouna,
I taki da usikh pryvetly,
I taki tsudouny,

Shto niama iamu uzorau,
Prykladau biasprechnykh.
I nad im liataiuts zory
Usikh suzoriau lepshykh.

Krai moi rodny, krai liubimy –
Nivy i aziory,
Ty – adna maia Radzima
U sonechnym prastory.

I nikomu, krai moi mily,
Ne addam nikoli
Tvaie mory, nebaskhily,
Runi u rodnym poli.

Minha terra
(tradução literal)

Minha terra querida, minha terra iluminada,
Boa, incondicional,
E tão amigável para todos,
E tão maravilhosa,

Que dela não há modelos,
Exemplos irrefutáveis.
E sobre ela voam as estrelas
De todas as mais belas constelações.

Minha terra natal, terra amada –
Campos arados e lagos,
Você é minha única Pátria
Na vastidão ensolarada.

E a ninguém, minha terra querida,
Nunca vou entregar
Seus mares, horizontes,
Sementeiras no campo natal.

Torrão
(tradução poética)

Meu torrão amado e raro,
Bom, inseparável,
Para todos tão preclaro,
Tão brilhante, afável,

Que não há igual no mundo,
Ímpar o estrelado.
Voam lampas no rotundo
Céu, feitiço armado.

Meu torrão natal querido –
Campos e lagoas,
Pátria sob o sol renhido,
Só à qual dou loas.

Vou guardar em meu torrão
Mares, hortas, vistas,
Nunca outros roubarão
Do meu berço as cristas.


quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Sertanejo meloso legendado em russo


Link curto pra esta postagem: fishuk.cc/sertanejo


Por que não também legendar em russo ou em francês material histórico e cultural em português para que possa ser compreendido por estrangeiros, e não fazer apenas o caminho contrário? Pois foi pensando nisso que há tempos tenho ideias de canções e vídeos históricos brasileiros que receberiam legendas numa língua estrangeira (os tradutores costumam chamar esse caminho de “versão”), principalmente russo, trazendo a outros povos a possibilidade de nos entender, bem como atiçando a curiosidade dos brasileiros!

Começando por canções bem simples, minha primeira tentativa foi a música Lágrimas, do cantor paulista Marcelo Aguiar, gravada em 1993. Mas o que ela tem de especial? Quem é esse cara? Bem, vou traduzir aqui algumas informações que escrevi em russo no YouTube... Após mais de vinte anos, estava com saudade de reescutar essa música, que eu ouvia bastante pelo rádio quando era pequeno e ainda morava em Guarulhos - SP, e em 2015 simplesmente resolvi legendar em russo! Talvez alguns cidadãos ainda se lembrem que no início dos anos 1990 Marcelo Aguiar fez algum sucesso nacional no sertanejo romântico, então muito na moda e fruto da urbanização e enriquecimento da velha música “caipira”. Zezé Di Camargo, que compôs muitas de suas músicas (a semelhança de estilo é notável), foi um de seus vários promotores, e Marcelo também gravaria o tema principal da novela Estrela de fogo da TV Record.

Atualmente Marcelo Aguiar não é muito conhecido pelos amantes do sertanejo, mas tendo se tornado evangélico em 2000, passou a um grande sucesso no gospel. Hoje ele também é deputado federal e, como lhes parece óbvio, mas não aos russos, ele percorreu um caminho comum a outras celebridades sumidas: algum sucesso nacional passageiro, contato com e conversão ao protestantismo, passagem ao estilo gospel e sucesso restrito a ele, e enfim eleição para o legislativo e defesa política de bandeiras cristãs.

O primeiro vídeo, para cuja versão recebi a ajuda do amigo Volodymyr Tkach, não foi um grande sucesso, mas ainda assim gostei da experiência e desejei repeti-la na primeira ocasião. E assim foi com uma breve aparição de Leandro & Leonardo na TV goiana em 1983, uma das primeiras da dupla, cantando a música Dupla traição de seu primeiro LP. Expliquei aos russos que eles foram muito famosos aqui nas décadas de 1980 e 1990, e que após a morte de Leandro em 1998, Leonardo prosseguiu exitosa carreira na música romântica.

Ressaltei também que o tema da traição aparecia muito em nossas músicas que falam de amor, e que a canção demonstrava influência de outros ritmos latino-americanos, em especial da Argentina e México. Expliquei ainda, pasmem, a conotação erótica do motel no Brasil, porque tanto na Rússia quanto nos EUA geralmente não passa de um hotel de beira de estrada (motel = motor + hotel)...

Infelizmente eu ainda não domino a técnica de escrita em cirílico no Subtitle Workshop, programa que uso pra legendar (aparecem apenas ponto de interrogação ao invés de letras...), e mesmo tendo guardado algumas notas a respeito que copiei da rede, ainda não tive tempo de ler com atenção. Portanto, o que vocês verão são os resultados possibilitados pelo velho Windows Movie Maker! No primeiro caso, eu só tinha o áudio e fiz uma seleção inspirada de imagens, e no segundo, temos o clipe. Os títulos das canções nos vídeos em russo foram vertidos literalmente, e no caso de Lágrimas temos “Sliozy”, e no caso de Dupla traição, “Dvoinaia izmena”. Não consegui achar de jeito nenhum quem compôs a primeira música (áudio aqui), mas a segunda é de Sandoval Arantes e Ligeirinho, e pode ser assistida sem legendas neste endereço. Depois de cada vídeo tem a letra em português e a versão em russo, igual à das legendas:


1. Caminhando contra o vento vou lembrando
As loucuras que fizemos, vou chorando
De saudade.
Te vejo em todos os lugares,
Te vejo em todos os olhares,
Te vejo linda do meu lado.
Na ilusão dessa miragem,
Na solidão, bicho selvagem,
Meu coração é devorado.

Refrão:
Lágrimas vão no vento,
Lágrimas de amor.
É pena que o vento
Não leva a minha dor.
Lágrimas vão no vento,
Lágrimas de amor.
É pena que o vento
Não leva a minha dor.

2. Caminhando pelas ruas da cidade,
Vejo quanto vale a minha liberdade:
Vale nada.
Te vejo em tudo o que eu faço,
Eu não sou dono dos meus passos,
Caminho sem destino certo.
Perdido em meio a essa gente
Que vai passando indiferente,
Me sinto em pleno deserto.

(Refrão)

Lágrimas vão no vento,
Lágrimas de amor.
É pena que o vento
Não leva a minha dor.

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1. Я брожу против ветра, вспоминаю
Наши безумные поступки и плачу
От тоски.
Я вижу тебя повсюду,
Я вижу тебя во всех взглядах,
Я вижу тебя красивой рядом со мной.
Этот мираж обманывает меня,
И одиночество, дикий зверь,
Проглатывает моё сердце.

Припев:
Слёзы идут по ветру,
Слёзы любви.
Жаль, что ветер
Не уносит моего горя.
Слёзы идут по ветру,
Слёзы любви.
Жаль, что ветер
Не уносит моего горя.

2. Я брожу по улицам города
И вижу, сколько стоит моя свобода:
Ничего не стоит.
Я вижу тебя в каждом моём действии,
Я не владею моими шагами,
Я брожу без определённой цели.
Потерянный среди этих людей,
Кто безразлично проходят,
Я чувствую себя средь пустыни.

(Припев)

Слёзы идут по ветру,
Слёзы любви.
Жаль, что ветер
Не уносит моего горя.


Veja amigo amargando coração
O preço de uma traição
E de um destino cruel
Um dia deste saí pela madrugada
Com uma amante comprada
Fui parar em um motel
No outro dia
Ao sair pra ir embora
Dei de cara lá de fora
Com minha esposa fiel

Ela saía com outro alguém
E eu com outra também
Talvez dando o que falar
Infelizmente tive que ficar calado
Pois eu também estava errado
Saindo do mesmo lugar

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Смотри, мой друг,
Как огорчают моё сердце
Наказание за измену
И суровая судьба.
На днях я выехал
Ночью из дому,
Заплатил за любовницу
И мы попали в мотель.
На другой день,
Когда мы уезжали оттуда,
Я случайно встретился
С моей верной женой...

Она уезжала с другим мужчиной,
А я, с другой женщиной,
Наверное возбуждал толки.
К сожалению я должен был молчать,
Я тоже поступил неправильно
При пребывании там же...

domingo, 7 de agosto de 2016

Священная война (A guerra sagrada)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/voina

Um belo monumento pra comemorar mais um aniversário do Dia da Vitória na Segunda Guerra Mundial é o hino da resistência soviética à invasão nazista, a marcha militar “Священная война” (Sviaschennaia voina), Guerra sagrada, assim chamada com justeza face ao terror que a URSS vivia. Foi gravada em 28 de junho de 1941, com melodia de Aleksandr Aleksandrov e letra de Vasili Lebedev-Kumach, do qual já falei várias vezes como de um verdadeiro trovador da Era Stalin.

O poema de Lebedev-Kumach foi publicado em jornais dois dias após o início da invasão nazista, ou seja, 24 de junho de 1941. O famoso músico militar Aleksandrov, que também compôs a melodia do hino da URSS, igual à do atual hino da Rússia, logo criou uma melodia, mas após a gravação, os rádios só começaram a tocá-la amplamente a partir de 15 de outubro, quando a invasão nazista se tornou realmente trágica. A canção deu formidável ânimo às tropas soviéticas combatentes e continuou popular mesmo depois da guerra, sendo muito executada até hoje.

Esta apresentação, dirigida por Viktor Fiodorov, foi feita em 1998 pelo Conjunto Aleksandrov do Exército Russo, também conhecido como Coral do Exército Vermelho, em comemoração aos 70 anos do conjunto, fundado em 1928 pelo próprio Aleksandrov. No YouTube está o vídeo sem legendas, e a letra em russo tirei de uma página de música, mas ela também segue abaixo do vídeo legendado, junto com a tradução, que não foi encurtada para compor as legendas:



Veja também esta montagem:

1. Вставай, страна огромная,
Вставай на смертный бой,
С фашистской силой тёмною,
С проклятою ордой.

Припев:
Пусть ярость благородная
Вскипает, как волна.
Идёт война народная,
Священная война.

2. Дадим отпор душителям
Всех пламенных идей,
Насильникам, грабителям,
Мучителям людей.

(Припев)

3. Гнилой фашистской нечисти
Загоним пулю в лоб,
Отродью человечества
Сколотим крепкий гроб.

(Припев)

4. Вставай, страна огромная,
Вставай на смертный бой
С фашистской силой тёмною,
С проклятою ордой.

(Припев)

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1. De pé, país colossal,
De pé lutar mortalmente
Contra a negra força fascista,
Essa horda abominável.

Refrão:
Que a nobre ferocidade
Comece a ferver, como onda.
Segue a guerra popular,
Uma guerra sagrada.

2. Rechacemos quem suprime
Todas as ideias ardorosas,
Rechacemos tiranos, ladrões
E assassinos de pessoas.

(Refrão)

3. Da imunda gentalha fascista
Vamos dar uma bala na testa,
Essa escória da humanidade
Vamos trancar num caixão.

(Refrão)

4. De pé, país colossal,
De pé lutar mortalmente
Contra a negra força fascista,
Essa horda abominável.

(Refrão)




quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Ouça, Leningrado (Вечерняя песня)


Link curto pra esta postagem: fishuk.cc/leningrad

Esta é uma linda canção russo-soviética da época em que os compositores eram realmente poetas proletários, dedicados exclusivamente a criar a arte nacional. Seu nome oficial é “Вечерняя песня” (Vecherniaia pesnia), Canção noturna, mas é mais conhecida na Rússia por um de seus trechos, “Слушай, Ленинград” (Slushai, Leningrad), Ouça, Leningrado, considerada um hino não oficial da hoje conhecida como a cidade de São Petersburgo. A música tem letra de Aleksandr Churkin e melodia de Vasili Soloviov-Sedoi.

A canção foi interpretada por vários cantores renomados, inclusive nosso conhecido Eduard “Trololo” Khil, mas logo que veio a público já caiu no gosto popular e se tornou patrimônio oral. Embora fosse considerada um hino não oficial da então Leningrado, e hoje de São Petersburgo, ainda hoje é ludicamente adaptada para celebrar outras cidades, e de fato já foram escritas várias paródias, como o hino dos torcedores do time de futebol Zenit, de 1981, feito por Aleksei Temnikov e Andrei Solntsev. A canção celebra a beleza da paisagem urbana e o rio Neva que corta a cidade, e evoca ainda os trágicos tempos da defesa bélica contra a invasão nazista.

Vocês podem ver abaixo duas versões legendadas dessa canção, que postei no meu antigo canal do YouTube. O primeiro vídeo é uma apresentação feita pelo cantor Georg Ots no Ano Novo de 1961 no Palácio dos Congressos do Kremlin, hoje Palácio Estatal do Kremlin, que havia sido inaugurado naquele mesmo ano. O segundo vídeo tem gravação na voz do cantor Iegor Koroviov (não consegui identificar o ano) e tem cenas do filme Leningrad (1978), de A. Uchitel.

O barítono estoniano Georg Karlovich Ots, cantor popular e lírico, nasceu em 1920 na então Petrogrado, que se tornaria a Leningrado que ele homenageia. Foi nadador, teve formação militar, participou da Segunda Guerra e dirigiu várias escolas musicais. Membro do Partido Comunista soviético desde 1946, foi deputado do Soviete Supremo, ganhou dois Prêmios Stalin (1950 e 1952), o Prêmio Estatal da URSS (1968) e o título de Artista Popular da URSS (1960). Faleceu em Tallin, capital da Estônia, em 1975.

Quanto aos compositores, Vasili Pavlovich Soloviov-Sedoi nasceu em 1907 numa família humilde e desde cedo aprendeu a tocar sozinho vários instrumentos. Fez diversos cursos musicais, tornou-se compositor, comandou trupes teatrais nos fronts da Segunda Guerra e presidiu importantes associações musicais. Apesar da formação erudita, ficou muito mais famoso por suas difundidas canções populares. Faleceu em 1979. Aleksandr Dmitrievich Churkin nasceu em 1903 numa família de camponeses do norte e cedo entrou para o Exército Vermelho. Em seguida, trabalhou em jornais e, mais tarde, como literato e poeta. Escreveu muitos livros de poesia, mas ficou nacionalmente famoso por suas letras de canções. Morreu em 1971.

Gostaria ainda de esclarecer alguns aspectos vocabulares e tradutórios. Na segunda estrofe, aparece a palavra “Komsomol”, que na verdade traduz o adjetivo concernente a ela, komsomolski. É o acrônimo russo para a União da Juventude Comunista do Partido soviético, divisão de jovens existente em qualquer partido comunista, como no Brasil temos a UJC do PCB e a UJS do PC do B. O verso que traduzi “Íamos juntos, com a mesma idade” seria literalmente “Meus coetâneos iam a meu lado”: a palavra rovesnik, em russo, é corrente, mas “coetâneo” (pessoa que tem a mesma idade), em português, não.

Tanto o vídeo na voz de Ots quanto o vídeo na voz de Koroviov eu baixei do YouTube, sem legendas. Há informações sobre os autores, a história da canção e a letra em russo nesta página, infelizmente em russo, e abaixo dos vídeos estão essa letra e a tradução:




Город над вольной Невой,
Город нашей славы трудовой,
Слушай, Ленинград, я тебе спою
Задушевную песню свою.
Слушай, Ленинград, я тебе спою
Задушевную песню свою.

Здесь проходила, друзья,
Юность комсомольская моя.
За родимый край с песней молодой
Шли ровесники рядом со мной.
За родимый край с песней молодой
Шли ровесники рядом со мной.

С этой поры огневой
Где бы вы не встретились со мной,
Старые друзья, в вас я узнаю
Беспокойную юность свою.
Старые друзья, в вас я узнаю
Беспокойную юность свою.

Песня летит над Невой,
Засыпает город дорогой,
В парках и садах липы шелестят...
Доброй ночи, родной Ленинград!
В парках и садах липы шелестят...
Доброй ночи, родной Ленинград.

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Cidade à beira do livre Neva,
Cidade de nossa glória laboral,
Ouça, Leningrado, vou lhe cantar
Minha canção afetuosa.
Ouça, Leningrado, vou lhe cantar
Minha canção afetuosa.

Amigos, aqui eu passei
A juventude no Komsomol.
Pela terra natal, com jovem canção,
Íamos juntos, com a mesma idade.
Pela terra natal, com jovem canção.
Íamos juntos, com a mesma idade.

Desde essa época incendiária,
Onde quer que nos encontremos
Reconheço em vocês, velhos amigos,
Minha aflitiva juventude.
Reconheço em vocês, velhos amigos,
Minha aflitiva juventude.

A canção sobrevoa o rio Neva,
A querida cidade adormece,
Nos parques e jardins as tílias murmuram...
Boa noite, amada Leningrado!
Nos parques e jardins as tílias murmuram...
Boa noite, amada Leningrado!



domingo, 31 de julho de 2016

Hino Nacional da Rússia (projeto, 1946)

Como historiador, tenho que revirar os destroços do passado e lembrar relíquias esquecidas. Por um acaso, achei no YouTube uma canção que se afirma um projeto de hino da República Socialista Federativa Soviética da Rússia (a famosa RSFSR), maior unidade integrante da antiga URSS, que em 1946 concorreu com outros poemas numa disputa, finalmente, encerrada sem resultados. A letra é do poeta russo Stepan Schipachov, e a melodia, do célebre Sergei Prokofiev.

Segundo outra fonte, a canção foi composta em 1945 e o concurso para escolher um hino para a Rússia Soviética (que a partir de 1922 não deve ser confundida com o conjunto da URSS) se passou em 1946, logo após o fim da 2.ª Guerra Mundial. Contudo, o concurso teria dado “em nada” e, ao que parece, como ocorreu até 1990, o hino de toda a URSS também era usado como hino da RSFS da Rússia.

Na verdade, segundo penso, foi a partir daí que se criaram os “hinos nacionais” das repúblicas soviéticas, nas línguas oficiais locais, mas que jamais caíram no gosto popular nem se tornaram parte dos embriões das futuras nações independentes que tinham autorização para se separar, conforme prometia a própria Constituição da URSS. Como peças musicais, esses 14 hinos eram lindos, e até hoje constituem um monumento cult na rede, mas os poemas têm todos o mesmo molde, tal com o próprio hino soviético: uma primeira estrofe que enche a bola da nacionalidade local reinante, lembrando que os bondosos russos sempre foram seus parceiros; uma segunda estrofe que louvava Lenin e (até 1956) Stalin, mostrando como eles iluminaram o caminho desses povos; uma terceira estrofe que insiste na invencibilidade das ideias do comunismo e no futuro triunfo de sua bandeira; e um refrão, repetido após cada estrofe, que amarra cada povo em sua pátria União Soviética, dirigida pelo Partido Comunista. Como a maioria dos nomes de logradouros, esses hinos foram todos trocados para retirar as menções a Stalin a partir de 1956.

E o tal concurso “gorou”, “miou”, enfim. Prokofiev é famoso, então falo um pouco do letrista. Stepan Petrovich Schipachov nasceu em 1899 (segundo o novo estilo do calendário) e morreu em 1980, sempre na Rússia. Serviu no Exército Vermelho, estudou e lecionou literatura em diversos grandes institutos. Escrevendo e publicando poesia desde 1919, entrou no PC soviético no mesmo ano, foi um dos dirigentes da União dos Escritores e atuou a favor do perseguido Ievtushenko, mas contra Solzhenitsyn. Prêmios: Prêmio Stalin (1949 e 1951), Ordens de Lenin (1967), da Bandeira Vermelha do Trabalho (1959), da Amizade dos Povos (1979) e da Estrela Vermelha (1942 e 1945).

A primeira execução pública da canção, com base nas partituras deixadas pelo autor, foi esta que apresento, regida em 2012 por Iuri Simonov, com arranjos de Kirill Volkov para o Coral Estatal A. V. Sveshnikov e a Orquestra Sinfônica Acadêmica da Filarmônica de Moscou. Quase não se fala na rede a respeito do hino, e o pouco que achei está nesta página, de onde tirei também o áudio e a letra. O vídeo sem legendas, pelo qual fiquei sabendo da existência da peça, deve tê-la usado como fonte. Seguem abaixo as legendas, a letra em russo e a tradução:


В грозах окрепла Россия родная
Смелый единый взрастила народ.
Правдой великой свой путь озаряя
К силе и славе вперёд поведёт!

Всё, что людей угнетало веками,
В правом бою ты с дороги смела.
Знамя России, гордое знамя,
Ты высоко над землей поднялось!

В битвах, в труде ты овеяна славой
Счастье народ и надежду обрёл.
Солнце встаёт над землёй величаво,
Ветер летит, как свободный орёл!

Славься, Россия – отчизна свободы!
К светлым просторам идём мы вперёд!
Славься единство свободных народов!
Славься великий российский народ!

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A Rússia materna se fez forte nas tormentas,
Educou um corajoso povo unido.
Aclarando o caminho com a grande verdade,
À força e glória vai seguir o levando.

Tudo o que oprimiu as gentes em séculos
Em justa luta você varreu da frente.
Ó, bandeira da Rússia, pendão altivo,
Você despontou alto sobre a Terra!

Nas lutas e labor você vestiu a glória
E o povo achou esperança e fortuna.
O sol sobe sobre a Terra majestoso,
O vento voa como uma águia livre!

Glória à Rússia, pátria da liberdade!
Seguimos rumo às vastidões luzentes!
Glória à unidade dos povos livres!
Glória ao grande povo da Rússia!



quarta-feira, 27 de julho de 2016

UNESCO pelo esperanto (1954 e 1985)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/unesco


Como eu já havia informado em postagens anteriores sobre as línguas auxiliares planejadas, a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) emitiu duas resoluções, uma em 1954 e outra em 1985, favoráveis ao esperanto, o mais difundido e conhecido desses projetos (para saber mais sobre o esperanto, clique aqui). Isso se deveu ao fato de os ideais do movimento esperantista, como a paz mundial, o intercâmbio cultural internacional e a fraternidade entre os povos, corresponderem àqueles preconizados pela UNESCO e, de um modo geral, pela ONU.

Segue abaixo a versão em português dessas duas resoluções, tiradas respectivamente em Montevidéu (Uruguai) e em Sófia (Bulgária). O texto foi extraído desta página.

____________________


Resolução de 1954 (nº 8C/DR/116)

Conferência Geral da UNESCO, oitava sessão,
Montevidéu (Uruguai), 1954.

Resolução adotada em 10 de dezembro de 1954,
por ocasião da décima oitava sessão plenária.


IV.1.4.422 – A Conferência Geral,

Tendo discutido o relatório do Diretor Geral sobre a Petição Internacional em favor do Esperanto,

IV.1.4.422.1 – anota os resultados obtidos por meio do Esperanto nos intercâmbios intelectuais internacionais e para a aproximação dos povos;

IV.1.4.422.2 – Reconhece que esses resultados correspondem às finalidades e aos ideais da UNESCO;

IV.1.4.422.3 – Autoriza o Diretor Geral a acompanhar a evolução da utilização do Esperanto na ciência, educação e cultura e, para esse fim, colaborar com a Associação Universal de Esperanto em assuntos que interessem a ambas organizações.

IV.1.4.422.4 – Fica ciente de que vários Estados-Membros se declaram prontos a introduzir ou desenvolver o ensino do Esperanto em suas escolas primárias, secundárias ou superiores e convida esses Estados-Membros a manterem o Diretor Geral informado sobre os resultados obtidos nesse campo.

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Resolução de 1985

Conferência Geral da UNESCO, vigésima terceira sessão,
Sófia (Bulgária), 1985.

Resolução adotada em 8 de novembro de 1985,
por ocasião da trigésima sexta sessão plenária.

11.11 – Comemorações do Centenário do Esperanto.


A Conferência Geral,

Considerando que em sua sessão de 1954, ocorrida em Montevidéo, através da resolução IV.1.4.422-4224 anotou os resultados atingidos por meio da Língua Internacional Esperanto no campo dos intercâmbios intelectuais internacionais e compreensão recíproca entre os povos do mundo, e reconheceu, que eles coincidem com os objetivos e ideais da UNESCO,

Fazendo lembrar que o Esperanto desde então fez consideráveis progressos como instrumento de compreensão entre povos e culturas de diferentes países, penetrando na maioria das regiões do mundo e na maioria das atividades humanas,

Reconhecendo a grande possibilidade que o Esperanto representa para a compreensão internacional e comunicação entre povos de diferentes nacionalidades,

Anotando a contribuição muito importante do Movimento Esperantista, e principalmente da Associação Universal de Esperanto, para a divulgação de informações sobre as ações da UNESCO, assim como sua participação nessas ações,

Consciente do fato que em 1987 se comemorará o centenário da existência do Esperanto,

1. Parabeniza o Movimento Esperantista por ocasião de seu centésimo aniversário.

2. Pede ao Diretor Geral continuar seguindo com atenção a evolução do Esperanto como recurso para melhorar a compreensão entre diferentes nações e culturas.

3. Convida os Estados-Membros a marcarem o centenário do Esperanto por meio de eventos convenientes, declarações, publicação de selos especiais e semelhantes, e instigar a introdução de programas de estudo sobre o problema da língua e sobre o Esperanto em suas escolas e suas instituições de ensino superior;

4. Recomenda às Organizações Não Governamentais Internacionais aderirem às comemorações do centenário do Esperanto e discutirem a possibilidade de utilizar o Esperanto como recurso para divulgar entre seus membros todas as informações, inclusive aquelas sobre as atividades da UNESCO.



domingo, 24 de julho de 2016

Sergio Endrigo – Canzone per te (1968)


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Celebrando meu 10 na proficiência de leitura em língua italiana na Unicamp, cuja prova fiz em março e cujo resultado só soube um mês depois, enviei duas versões legendadas de uma das minhas canções italianas preferidas, com um cantor que adoro profundamente: é a Canzone per te (Canção para você), composta por Luis Bacalov, Sergio Bardotti e Sergio Endrigo, e vencedora do Festival de Sanremo em 1968, cantada então por Endrigo e por nosso Roberto Carlos.

A primeira versão (preto e branco) é parte de uma das apresentações que Endrigo fez no próprio festival, em 1968, cujo vídeo completo sem legendas pode ser visto neste endereço. A segunda versão, colorida, é uma atuação feita em 1981 também por Endrigo, já mais velho, ao vivo na RSI, a rádio e televisão suíça de língua italiana, e cuja versão sem legendas está neste endereço.

Achei bonita a descrição da música na Wikipédia em italiano: “A letra fala de um amor tão belo que não consegue se acabar. O desejo é que a dor devida ao fim desse amor possa terminar para que os dois consigam amar outra pessoa.” No festival citado, Roberto Carlos ficou consagrado internacionalmente pela bela atuação que fez, abrindo caminho à brilhante carreira que faria no Brasil, mas a interpretação de Endrigo é igualmente linda, e em breve talvez eu poste também a atuação do Roberto, em preto e branco, igualmente legendada.

Sergio Endrigo era O Cara, dispensa apresentações. É muita pena que não esteja mais entre nós... Roberto Carlos também teve a oportunidade de interpretar a canção várias vezes no Brasil, de forma igualmente bárbara, mas a letra que ele canta aqui, gravada em vários discos, curiosamente não é a mesma que Endrigo canta no vídeo... Em outra ocasião verei se consigo abordar essa diferença. A letra destes vídeos pode ser lida nesta página, mas também postei mais abaixo, após as legendagens e com a tradução. As traduções nos sites brasileiros, como o Vagalume, eram tão ruins que nem quis cotejar...




Nesta rara gravação, Sergio Endrigo participa da edição de 1971 do festival Golden Orpheus International, que ocorria na Bulgária de 1965 a 1999 com intermitências. A TV estatal nacional o filmou cantando Canzone per te:

La festa appena cominciata
È già finita
Il cielo non è più con noi
Il nostro amore era l’invidia di chi è solo
Era il mio orgoglio, la tua allegria

È stato tanto grande e ormai
Non sa morire
Per questo canto e canto te
La solitudine che tu mi hai regalato
Io la coltivo come un fiore

Chissà se finirà
Se un nuovo sogno
La mia mano prenderà
Se a un’altra io dirò
Le cose che dicevo a te

Ma oggi devo dire che
Ti voglio bene
Per questo canto e canto te
È stato tanto grande e ormai non sa morire
Per questo canto, e canto te

Chissà se finirà
Se un nuovo sogno
La mia mano prenderà
Se a un’altra io dirò
Le cose che dicevo a te

Ma oggi devo dire che
Ti voglio bene
Per questo canto e canto te
È stato tanto grande e ormai non sa morire
Per questo canto, e canto
Te...

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A festa mal começou
E já acabou
O céu não está mais com a gente
O nosso amor fazia inveja nos sozinhos
Era meu orgulho e sua alegria

Foi tão grande e agora
Se tornou imortal
Por isso te exalto sem parar
Você me presenteou com solidão
E hoje a cultivo como uma flor

Só Deus sabe se vai acabar
Se um novo sonho
Vai me pegar pela mão
E se vou dizer a outra
As coisas que eu te dizia

Mas hoje devo dizer que
Te amo muito
Por isso te exalto sem parar
Foi tão grande e agora se tornou imortal
Por isso te exalto sem parar

Só Deus sabe se vai acabar
Se um novo sonho
Vai me pegar pela mão
E se vou dizer a outra
As coisas que eu te dizia

Mas hoje devo dizer que
Te amo muito
Por isso te exalto sem parar
Foi tão grande e agora se tornou imortal
Por isso exalto sem parar
A você...



Adendo (16/7/2023): Parece que finalmente solucionei o mistério das letras diferentes entre as gravações de Endrigo e de Roberto Carlos! Encontrei por acaso esta tesi di laurea (equivalente ao TCC brasileiro) defendida por Antonio Mercogliano em 2007, sob a orientação do Prof. Maurizio Griffo, intitulada Politica, società e costume nelle canzoni di Sergio Endrigo (Política, sociedade e costumes nas canções de Sergio Endrigo). Concernente à especialização em história das doutrinas políticas na Faculdade de Letras e Filosofia da Universidade de Nápoles “Federico 2.º”, revela ainda um Endrigo crítico da sociedade burguesa e simpatizante do mundo comunista, mesmo nunca tendo se filiado formalmente ao PCI nem lido os clássicos do marxismo, e sempre afetado psiquicamente por sua infância muito pobre.

Nas páginas 76 e 77, Mercogliano relata a vitória com Canzone per te no Festival de Sanremo de 1968, a qual, segundo o cantor, não teria tido tanta importância pra ele, enquanto pra Roberto Carlos fê-lo ser recebido como herói após voltar da Itália e propulsionado na carreira brasileira. Citando as páginas 64 e 65 do texto “Sergio Endrigo, le sue canzoni... e altro”, escrito por Luciano Ceri pro livro Sergio Endrigo. La voce dell’uomo (Sergio Endrigo. A voz do homem, Roma, Edizioni Associate, 2002), organizado por Doriano Fasoli e Stefano Crippa, traz este trecho do que deve ser uma entrevista com Endrigo: após o fracasso em convidar Astrud Gilberto e Iva Zanicchi pra acompanhá-lo,

No final alguém sugeriu o nome de Roberto Carlos, então lhe mandamos uma amostra de áudio [provino] e ele aceitou. Depois, ele a gravou tendo como orientação o texto da amostra, enquanto nesse meio-tempo eu e Bardotti tínhamos modificado ligeiramente a letra, e por isso sua versão em disco é diferente da que eu mesmo gravei. Quando Roberto Carlos voltou ao Brasil após a vitória de Sanremo, havia milhares de pessoas o esperando no aeroporto, como se fosse um ídolo da seleção de futebol. Vencer Sanremo talvez tenha sido mais útil pra ele do que pra mim.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Lenin comenta questão palestina (1920)


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No senso comum intelectual e político do Brasil, em geral se associa a defesa da causa palestina aos movimentos de esquerda, e a defesa da existência de Israel como estado judeu aos de direita. No sentido inverso, as direitas costumam associar a luta dos palestinos ao “terrorismo antissemita”, enquanto as esquerdas chamam os ideólogos israelenses de “sionistas pró-imperialismo” que defendem uma espécie de “racismo judeu” (para elas, antissionismo não seria antissemitismo).

Qual pode ter sido a origem dessa associação? O maior lobby junto aos governos ocidentais para a criação do Estado judeu na Palestina veio de ricas personalidades judias dos EUA, enquanto a luta dos árabes na região contra o domínio inglês ou francês entrava no combate ao colonialismo, bandeira levantada pelos comunistas desde a Revolução de Outubro. Além disso, os Estados Unidos, maior potência imperialista, ainda hoje são um incondicional defensor e provedor material de Israel, e qualquer estratégia geopolítica do “Tio Sam” não poderia deixar de despertar a ira da URSS e das esquerdas.

Contudo, as análises não devem ser excludentes. Por um lado, os EUA sempre apoiaram grupos armados e ditadores árabes ou muçulmanos quando lhes convinha, como foi o caso de Osama bin Laden durante a guerra do Afeganistão contra os soviéticos (1979-1989) e o do iraquiano Saddam Hussein durante a guerra com o Irã dos aiatolás (1980-1988), país que por sua aparência revolucionária despertava muito mais medo no Pentágono; sabemos que a dupla se tornaria sua arqui-inimiga nos anos 1990 e 2000. Por outro lado, embora diversas acusações de antissemitismo recaíssem sobre Iosif Stalin, a URSS foi um dos países que reconheceu Israel em 1948, intentando orientá-lo para sua própria política, além do que havia muitos judeus ou descendentes entre os quadros bolcheviques dos tempos de Lenin (ele mesmo um descendente) e mesmo depois.

Desde muito tempo antes de 1948, os árabes pobres eram a imensa maioria da população na Palestina, estreita faixa de terra banhada pelo Mediterrâneo e tomada pelos ingleses como espólio do esfacelado Império Otomano após a Primeira Guerra Mundial. Judeus havia, mas muito poucos, e é fato que o progressivo aumento dessa população em seu “Israel”, oriunda principalmente do antigo Império Russo promotor de pogroms (ouça e leia a opinião de Lenin sobre a matança), se deu ao longo da primeira metade do século 20 como parte de uma campanha ideológica deliberada, aprovada pelo status quo do Reino Unido e dos EUA. Apesar de ser contrário ao antissemitismo, Lenin enxergava essa colonização artificial como um meio para que as potências capitalistas garantissem seu jugo sobre o proletariado árabe, sempre propenso a revoltas trabalhistas e nacionalistas. Uma lasca dessa interpretação pode ser encontrada nas atas taquigráficas do Segundo Congresso Mundial da Comintern, em Moscou, que em 1920 reuniu os poucos grupos e partidos comunistas de outros países ainda formados após a Revolução de Outubro.

O seguinte trecho em russo e em tradução brasileira é a letra “е” (letra “ie”, a sexta do alfabeto cirílico russo) do ponto 11 da “Resolução sobre as questões nacional e colonial”, aprovada no congresso e em cuja redação Lenin participou ativamente, junto com o indiano Manabendra Nath Roy e outros camaradas. O material original da Comintern é raro, mas pode ser baixado nesta página e deve ser referenciado da seguinte forma: SEGUNDO Congresso da Comintern. Julho-Agosto de 1920. Moscou: Partiinoie izdatelstvo, 1934, p. 495 (em russo). (“Atas dos congressos da Internacional Comunista”.) Em russo a referência é assim: ВТОРОЙ Конгресс Коминтерна. Июль–Август 1920 г. Москва: Партийное издательство, 1934, стр. 495. (“Протоколы конгрессов Коммунистического Интернационала”.)

Existe uma tradução brasileira dos principais documentos do evento em: FORNAZIERI, Aldo (Ed.). A III Internacional Comunista (Volume II): teses e resoluções do II Congresso. Tradução de Cássia Corintha Pinto. Introdução de Tau Golin. São Paulo: Brasil Debates, 1989. O referido ponto está nas pp. 93-94, numerado como “6.º”, e não por letra. Mas ela usa a tradução francesa como base, e é muito imprecisa, se comparado ao russo. Assim, usei-a para cotejamento, mas o resultado que exponho abaixo é todo de minha lavra:

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Необходимость неуклонного разъяснения и разоблачения между самыми широкими трудящимися массами всех, особенно же отсталых, стран и наций того обмана, который систематически проводят империалистские державы с помощью привилегированных классов угнетённых стран, под видом создания политически независимых государств, вызывая к жизни вполне зависимые от них в экономическом, финансовом, военном отношениях государства. Ярким примером обмана трудящихся масс угнетённой нации, произведённого соединёнными усилиями империализма Антанты и буржуазии соответствующей нации, может служить палестинское предприятие сионистов, как и вообще сионизм, который под видом создания еврейского государства в Палестине отдаёт в жертву английской эксплуатации фактически арабское трудящееся население Палестины, где трудящиеся евреи составляют лишь незначительное меньшинство. В современной международной обстановке, кроме союза Советских республик, нет спасения зависимым и слабым нациям.

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[Deve-se ter em vista] A obrigação de esclarecer e desmascarar sem pausa entre as mais amplas massas trabalhadoras de todos os países e nações, em especial dos atrasados, a mentira que as potências imperialistas contam à exaustão, auxiliadas pelas classes privilegiadas dos países oprimidos, quanto a formar Estados politicamente independentes, mas dando à luz Estados totalmente dependentes delas nas esferas econômica, financeira e militar. Um claro exemplo de logro das massas trabalhadoras de nação oprimida, realizado em esforço comum pelo imperialismo da Entente e pela burguesia da referida nação, é a iniciativa palestina dos sionistas, bem como o sionismo em geral, que dizendo criar um Estado judeu na Palestina, sacrifica à exploração inglesa a população trabalhadora de fato árabe da região, onde os trabalhadores judeus são apenas uma insignificante minoria. Nas atuais condições internacionais, não há salvação às nações dependentes e fracas fora da união das Repúblicas Soviéticas.



domingo, 17 de julho de 2016

Армия моя (Exército Soviético meu)


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Mais uma canção militar soviética em ritmo de marcha, com montagem de cenas do cotidiano bélico na antiga União Soviética. Ela se chama “Армия моя” (Armia moia), Exército meu, e foi composta em 1970 por Rafael Moritsovich Plaksin (letra) e Aleksandr Aleksandrovich Abramov (melodia), dois músicos talentosos. O áudio é de uma apresentação remasterizada do Coral Aleksandrov (o famoso Coral do Exército Vermelho), provavelmente da mesma época.

Para quem conhece propaganda comunista, a música e as imagens se parecem muito com o que ainda se produz na Coreia do Norte, com suas marchas retumbantes e suas personagens heroicas. Talvez possamos dizer que aí está a fonte de inspiração da família Kim. O serviço militar e a linguagem de guerra são partes essenciais da filosofia bolchevique e não podem ser reduzidos a mera reação anticapitalista: o regime soviético nasceu de uma guerra, a Primeira Guerra Mundial, e se temperou na Guerra Civil Russa de 1918-20 e na Segunda Guerra Mundial, forjando a superpotência que conhecemos até 1991. Os governantes do país sempre pensavam estar na iminência de uma intervenção anticomunista para destruí-los, temor que condicionou tudo na URSS, os costumes, a propaganda, o Estado, a tecnologia e as prioridades econômicas.

Esta bela montagem foi postada sem legendas no fim de abril por um russo no YouTube e reúne genialmente excertos de propaganda soviética hoje reexibida por alguns canais na Rússia. A letra em russo pode ser lida, e o áudio pode ser baixado nesta página, mas ela também segue abaixo, junto com a tradução e depois da legendagem. O texto que aparece escrito foi resumido na hora de constituir as legendas:


1. Если на Отчизну нагрянет беда,
Позовёт солдата труба.
Армия моя, ты на страже всегда!
Ты – моя любовь и судьба!

Припев:
Обыкновенная, судьба нелёгкая военная,
Любовь суровая, но верная,
Готовы мы на ратный труд.
Мы все испытаны не раз, не два боями-маршами.
Мы от солдата и до маршала –
Одна семья, одна семья!

2. Наш Октябрь с нами в походном строю!
С нами песни красных бойцов,
Первый день войны, и победный салют,
И судьба погибших отцов...

(Припев)

3. Мчатся наши годы, но ты молода,
И поёт как прежде труба.
Армия моя, ты на страже всегда!
Ты – моя любовь и судьба!

(Припев)

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1. Se a desgraça surpreeender a Pátria,
O clarim vai chamar o soldado.
Exército meu, sempre em guarda,
Você é meu amor e destino!

Refrão:
Corriqueira e difícil sina militar,
Amor severo, mas seguro,
Nós, prontos ao labor guerreiro.
Provados por mais de um, dois combates e marchas,
Do soldado ao marechal,
Somos todos uma só família!

2. Conosco, Outubro formando marcha!
E as canções dos combatentes vermelhos,
E o raiar da guerra, e o ressoar da vitória,
E o destino dos pais tombados...

(Refrão)

3. Ficamos velhos, e você sempre jovem,
E o clarim canta como antes.
Exército meu, sempre em guarda,
Você é meu amor e destino!

(Refrão)