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24 de julho de 2018

Boris Ieltsin, primeiro presidente russo


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/ieltsin




Não pude deixar de fazer uma postagem específica com estes vídeos que formam, juntos, todo um material pra consulta curiosa. Muitos adolescentes e jovens de hoje talvez se perguntem: “O que havia na Rússia antes de Vladimir Putin?” Eles devem saber que o Presidente de Todas as Rússias, na prática, comanda sozinho o país desde o comecinho do ano 2000, seja como presidente ou primeiro-ministro. Mas a União Soviética foi dissolvida em 1991... E aí?

Isso que podemos chamar de “interregno” entre o Poder Soviético e o império de Putin foi ocupado, na Rússia, por uma das figuras mais intrigantes da história geopolítica: Boris Nikolaievich Ieltsin. Vamos lembrar que Mikhail Gorbachov comandava a URSS ocupando o cargo de secretário-geral (líder) do Partido Comunista desde 1985, embora ele tivesse criado também o cargo de “Presidente da URSS”, do qual ele foi o único ocupante. A que Gorbachov renunciou no fatídico Natal de 1991? A essa “presidência da URSS”: pouco antes, ele tinha separado o PC do poder dirigente e renunciado à sua liderança. Contudo, da antiga União só tinha sobrado a própria Rússia, porque todas as outras repúblicas já tinham declarado sua independência, com total anuência de Gorby. Seu cargo, como ele disse no próprio discurso de renúncia, já não servia pra mais nada.

Mas como Boris Ieltsin apareceu no cenário político russo? Em maio de 1990, ele foi eleito “presidente do Presidium do Soviete Supremo da RSFS da Rússia”. Calma, vou explicar tudo por partes: RSFSR era a sigla pra República Socialista Federativa Soviética da Rússia, nome oficial da atual Federação Russa na composição da antiga União Soviética (esta mesma sendo em geral chamada de “Rússia”, por associação ao antigo império e pela maioria étnica russa). Soviete Supremo, muito longe dos “sovietes” originais, era o parlamento em cada república ou na URSS inteira. Presidium (com a mesma raiz de “presidência”, e não “presídio”) era uma espécie de direção colegiada que na prática dominava todo o poder executivo cotidiano, e também existia nos partidos comunistas ao redor do mundo. Completando a estrutura piramidal, a “presidência (chairman em inglês, predsedatel em russo) do Presidium”, apesar da mera intenção formal, concentrava a maior parte da direção.

Voltando à nossa história: em julho de 1991, foi enfim estabelecido o cargo de Presidente da Federação Russa, ao qual Ieltsin chegou pelo voto popular. Na mesma ocasião, Aleksandr Rutskoi foi eleito vice-presidente, e Ruslan Khasbulatov sucedeu Ieltsin na “presidência do Presidium, blablablá”. Contudo, com a crise constitucional de 1993, que culminou no bombardeio do Parlamento pelos partidário de Ieltsin, os dois cargos foram extintos, e os dois ex-parceiros do presidente, demitidos. Inicialmente, o próprio Ieltsin também era um partidário de Gorbachov, e até comandou a resistência ao fracassado golpe de Estado contra ele em agosto de 1991. Mas as rixas pessoais e as discordâncias quanto aos destinos da URSS/Rússia levaram à cisão, e Ieltsin ficou sozinho no comando do país.

Seu governo foi caracterizado pela liberdade de expressão, imprensa e organização, mas pra reorganizar a antiga economia socialista, optou pela famosa “terapia de choque” liberal (ao contrário, por exemplo, da Bielo-Rússia/Belarus de Aleksandr Lukashenko). Isso deu mais ou menos certo nas economias mais ricas do antigo “bloco soviético”, mas na Rússia levou à disparada da inflação, ao fortalecimento das máfias, ao aumento da extrema pobreza, à falta de mercadorias e à redução populacional. Os russos eram o único povo desenvolvido, em meados dos anos 90, cujo número de habitantes estava caindo (tendência hoje verificada como geral), porque a penúria era tanta que as pessoas decidiam não ter filhos e a mortalidade disparava. Tamanha foi a pressão interna que Boris Ieltsin acabou renunciando na virada de 1999 pra 2000, deixando como sucessor Vladimir Putin, seu primeiro-ministro de facto desde 9 de agosto (lembrem que eu disse que a vice-presidência foi extinta em 1993).

Ieltsin saiu do cargo extremamente impopular, com os russos em geral sentindo saudades da URSS (os mais novos quase sempre conhecem apenas a Era Putin). Muito pouca gente o apoiou até o fim, e menos ainda estava aprovando as graduais reformas econômicas que, ao fim, levaram a Rússia a atrelar-se demais aos EUA e à Europa Ocidental. Hoje parece o contrário: analistas dizem que Trump é que está sendo manipulado por Putin, supostamente devido ao papel que hackers russos teriam tido em sua campanha eleitoral. Certamente Putin tinha a situação anterior em mente, tanto que os antigos “ieltsinistas” se tornaram ferrenhos “anti-Putin”, embora o próprio Ieltsin não fizesse oposição sistemática para além de críticas pontuais. Mas a grande diferença é que, enquanto Vladimir se mostra realmente como um “vladímir”, ou seja, poderoso, controlador, autoritário, imprevisível, maquinador, sério e avesso a brincadeiras, Boris era todo o inverso: brincalhão, desorganizado, encenador, transparente e beberrão, capaz de lançar a Rússia em sucessivos vexames de imagem.

Eu nasci em 1988, e como desde muito criança sou interessado em mapas, línguas, bandeiras e história política, sempre acompanhei com atenção os desvarios de Ieltsin. E felizmente, com o surgimento da internet, das redes sociais e de plataformas de vídeo como o YouTube, os resquícios dessa época podem ser revividos, ou mesmo conhecidos por quem não se lembra. Um dos episódios que mais me marcou em 1996 foi a famosa dança em sua campanha eleitoral, cujo vídeo completo procurei por anos, e cuja música que tocava no começo passei tempos sem saber qual era. Enfim, no ano passado, achei a gravação caseira de um russo, e traduzi aquilo que foi possível:



Essa foi a gravação mais completa e com melhor resolução que achei, daquele famoso comício em que Boris Ieltsin dançou ao som de música pop. Na época, achei também todas as informações a respeito e, enfim, a canção em questão. Em sua campanha à reeleição pra presidência da República, Ieltsin fez um comício na cidade russa de Rostov-na-Donu em 10 de junho de 1996 (o pleito seria no dia 16). O evento passou à história por ter sido uma das apresentações mais engraçadas do político famoso por beber e fazer graça, e ainda hoje o pessoal ri no Brasil. O comício ocorreu no estádio Selmash, conduzido pelo apresentador de TV Leonid Iarmulnik (o barbudo de paletó cinza) e musicado pelo astro pop Ievgeni Osin, hoje afastado dos palcos.

Osin já estava cantando antes algumas canções, mas depois chegou Ieltsin e fez um discurso direcionado, sobretudo, pra juventude. Sua intenção, sincera ou não, era continuar uma Rússia pós-soviética democrática, que desse oportunidade pros mais jovens num cenário de crise econômica e descrédito internacional. Ao final, começa a tocar a canção Ialta, Ieltsin faz a performance que conhecemos, Osin inicia a letra e o presidente vai embora.

Quem postou o vídeo foi o dono deste canal, que disse ter seu filho passado a imagem pro VHS. Há uma outra transmissão, postada por TV estrangeira, que também é muito boa e mostra alguns trechos do discurso e algumas passagens do comício que não aparecem no primeiro. Além disso, a qualidade e a aproximação estão melhores. Ouça nesta página a linda versão em estúdio da canção Ialta de Osin, provavelmente famosa apenas por causa dessa festa, e leia também a letra em russo. Eu mudei o enquadramento do vídeo, só tirando o que era dispensável, traduzi o que consegui (ou o que pude inventar) e legendei as palavras e algumas passagens humorísticas.

Abaixo segue também uma versão "meme" encurtada, que fiz com o vídeo jornalístico:



Também proliferam na internet diversas compilações de vexames, bebedeiras, discursos enrolados, palhaçadas e encenações de Ieltsin, cujas qualidades variam muito. Uma delas, de que gostei muito, tem alguns momentos engraçados de eventos políticos, e inclusive traz trechos em que Katiusha é tocada em instrumental (quando Ieltsin sai pro meio da avenida), e em que ele “canta” Kalinka junto a um coral popular. Eu quis carregá-la no meu canal justamente porque não tinha textos completos pra legendar, só músicas, e porque achei engraçada sua “regência” da orquestra e seu canto com engasgo! Apenas uma correção: a canção de Ievgeni Osin, como vimos, era Ialta, e não Rain and Me (na verdade Dozhd i ia), como eu pensava antes. Rebatizei o vídeo como The best of Ieltsin bebum: