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16 de julho de 2018

As noções básicas do alfabeto francês


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/alfabeto-fr




Quando dei o cursinho do TOPE na Unicamp no primeiro semestre deste ano, também fiz muitos outros materiais que agora estou transformando em postagens adaptadas pra este site. Hoje vou falar um pouco sobre o alfabeto francês, sua pronúncia, os diacríticos (acentos gráficos) e a pontuação. Infelizmente, este não é um curso completo de pronúncia, porque no curso não foi minha pretensão entrar em detalhes sobre cada grafema do francês, e eu também não tive tempo de completar o material já pronto. O que apresento aqui são os nomes das letras, as dificuldades com alguns símbolos que não existem em português e certos macetes de pronúncia, em geral ignorados nos cursos mais comuns.

Atenção: este texto contém diversos sinais do Alfabeto Fonético Internacional (IPA), então sugiro que vocês estejam bem munidos das respectivas fontes no computador ou celular, sob o risco deles não aparecerem. Também não vou explicar nem exemplificar a pronúncia de cada símbolo, o que sugiro a vocês fazerem consultando a Wikipédia em inglês (que tem verbetes específicos pra cada símbolo) ou um especialista na língua.

O alfabeto básico da língua francesa (L’alphabet fondamental) possui 26 letras, que são as mesmas do alfabeto inglês, ou do alfabeto português, após ter definitivamente incorporado as letras K, W e Y. Vamos recordar quais são:

A a - B b - C c - D d - E e - F f - G g - H h - I i
J j - K k - L l - M m - N n - O o - P p - Q q - R r
S s - T t - U u - V v - W w - X x - Y y - Z z

16 letras com sinais diacríticos (acentos gráficos) ou ligaturas formam o que os franceses chamam L’alphabet propre (O alfabeto próprio), que dá a cara particular da língua francesa:

À à - Â â - Æ æ - Ç ç - É é - È è - Ê ê - Ë ë
Î î - Ï ï - Ô ô - Œ œ - Ù ù - Û û - Ü ü - Ÿ ÿ

Seguem na tabela abaixo a lista de letras, seus nomes tradicionais, a pronúncia do nome (não necessariamente da letra!) e os diacríticos que ela pode conter ou as ligaturas que pode compor. Cada linha está dividida em quatro colunas: na primeira está a letra (lettre), na segunda está seu nome tradicional (nom traditionnel), que às vezes pode ser mais de um, na terceira está a pronúncia (prononciation) do nome da letra, figurado conforme o IPA, e na quarta está o diacrítico ou ligatura (diacritique ou ligature) que ela pode portar ou compor:


A aa/ɑ/à, â, æ
B b/be/
C c/se/ç
D d/de/
E ee/ə/é, è, ê, ë
F feffe, èfe/ɛf/
G g/ʒe/
H hache/aʃ/
I ii/i/î, ï
J jji/ʒi/
K kka/kɑ/
L lelle, èle/ɛl/
M memme, ème/ɛm/
N nenne, ène/ɛn/
O oo/o/ô, œ
P p/pe/
Q qqu, cu/ky/
R rerre, ère/ɛʁ/
S sesse/ɛs/
T t/te/
U uu/y/ù, û, ü
V v/ve/
W wdouble vé/dublə ve/
X xixe, icse/iks/
Y yi grec/igʁɛk/ÿ
Z zzède/zɛd/


Como vocês devem ter notado ou podiam perceber, o francês emprega cinco sinais diacríticos: quatro sobre vogais e um sob a consoante C. Todos são familiares, porque também se usam no português, exceto o trema, que foi abolido. Porém, deve-se atentar a que muitos deles são usados em letras que não os aceitam no português, e sua pronúncia quase sempre também é muito diferente. Vamos ver quais são?

O acento agudo (l’accent aigu): usado apenas sobre o “e” (é) para torná-lo fechado (como em “pena”).

O acento grave (l’accent grave): usado sobre “e”, “a” e “u” (è, à, ù), dando ao primeiro o som aberto (como em “erva”) e não modificando o som dos últimos, quando aparecem para evitar homografia (grafias iguais de palavras com sentido diferente); ex. à (a, para, em) e a (tem, há), (onde, aonde) e ou (ou), (lá, ali, aí) e la (art. def. “a”) etc.

O acento circunflexo (l’accent circonflexe): colocado sobre todas as vogais, menos “y” (ê, â, î, ô, û); ele abre o som do “e”, como em “erva”, e fecha o som do “o”, como em “ostra”; dependendo da região, ele alonga o som do “a”, mas no geral não há diferença fonética; e é só etimológico sobre “i” e “u”, sendo nesse caso, em geral, omitido (coût = custo, naître = nascer), exceto quando pode haver ambiguidade (ex. croit = crê, croît = cresce; mur = muro, parede, mûr = maduro).

O trema (le tréma): usado sobre o “e”, “i”, “u” e “y” (ë, ï, ü, ÿ); sobre o “e”, evita a formação de um dígrafo ou ditongo (como Noël, Gaël, Michaël), ou indica em palavras femininas que o “u” anterior deve ser pronunciado (aiguë, fem. de aigu, para se pronunciar “egü”, e não “ég”, ou ambiguë, fem. de ambigu, para se pronunciar “ãbigü”, e não “ãbíg”; atualmente o trema também pode estar no “u”); sobre o “i”, evita a formação de dígrafos ou ditongos (haïr = odiar, para se pronunciar “aírr”, e não “érr”; Loïc, para se pronunciar “loíc”, e não “luác”); sobre o “u”, usa-se em palavras mais raras, sobretudo históricas (Capharnaüm, Esaü; “au” seria “ô”); raramente no “y” de nomes próprios, também para evitar dígrafos vocálicos (município de L’Haÿ-les-Roses, se fala “laí-lerrôz”, e não “lé-lerrôz”).

A cedilha (la cédille): usada sob o “c” (ç) como em português, dando-lhe o som “ss” antes de “a”, “o” e “u”; aparece no início do pronome ça (isto) para diferenciar do pronome sa (sua, dele/a).

O francês também emprega, no geral, os mesmos sinais de pontuação do português e outras línguas europeias, com poucas diferenças de significado. Deve-se prestar mais atenção nos nomes diferentes, pois isso é importante, por exemplo, na hora de soletrar. Veja quais são, como se chamam e quando são usados:

  • A elisão (l’élision) é marcada pelo apóstrofo (apostrophe: ’).
  • Trait d’union ( - ), hífen; tiret ( – ), travessão.
  • Point (ponto final), virgule (vírgula), points de suspension (reticências: …).
  • Deux-points (dois-pontos), point-virgule (ponto-e-vírgula), point d’interrogation (ponto de interrogação), point d’exclamation (ponto de exclamação).
  • Guillemets de premier niveau (aspas de primeiro nível): usadas para citações comuns (« ») e com um espaço de distância do texto que circundam, exceto de um ponto final que lhes suceda.
  • Guillemets anglais (aspas inglesas): como as nossas (“ ”), usam-se em citações dentro de uma citação: « Il m’a dit “tout ça n’est que mascarade” sans aucun remords ».
  • Parenthèses (parênteses) e crochets (colchetes: [ ]).
  • Le tilde au-dessus du n (o til em cima do “n”): usa-se em palavras de origem espanhola (El Niño) e se pronuncia como o “nh” português ou o “gn” francês.

Vamos conhecer agora os fonemas básicos do francês padrão, isto é, os sons que diferenciam os significados das palavras. Aqui não são abordados aqui os alofones, que são as variações sonoras de um fonema derivadas do contato com fonemas adjacentes ou de um sotaque particular. No jargão, fonemas se representam entre barras, e alofones se representam entre colchetes. Veremos abaixo os fonemas relativos ao francês padrão, em grande parte baseado no sotaque de Paris, bem como algumas particularidades próprias de Paris mesma:

  • Consoantes: /p/, /b/, /t/, /d/, /k/, /g/, /m/, /n/, /f/, /v/, /s/, /z/, /ʃ/, /ʒ/, /ʁ/, /l/. O fonema /ɲ/ (grafema gn) é pronunciado em geral /nj/ (ni).
  • Semivogais: /ɥ/, /w/, /j/.
  • Vogais orais (quando o ar não passa pela cavidade nasal): /a/, /e/, /ɛ/, /i/, /o/, /ɔ/, /u/, /y/, /ø/, /œ/. O fonema /ə/ (grafema e) em geral é pronunciado /ø/ ou /œ/, e o fonema /ɑ/ em geral é pronunciado /a/.
  • Vogais nasais (quando o ar passa pela cavidade nasal): /ɑ̃/ (grafemas am, an, em, em), /ɛ̃/ (grafemas im, in, um, un, às vezes en), /ɔ̃/ (grafemas om, on). Em Paris, é mais comum que esses fonemas sejam emitidos respectivamente como [ɒ̃], [æ̃] e [õ], e que o fonema /œ̃/ (grafemas um, un) seja substituído por /ɛ̃/.

Em geral, as consoantes “c”, “d”, “g”, “p”, “r”, “s”, “t”, “x”, “z” não se pronunciam em final de palavra, exceto nos casos de liaison. Em francês, a liaison (lit. ligação) é a pronúncia da consoante final de uma palavra, muda em outros casos, no começo de palavra seguinte que comece por vogal. Em geral o som original dessa consoante também se transforma:

  • C = [k]: croc de boucher [kʁo də buʃe] vs. croc-en-jambe [kʁɔk‿ɑ̃ ʒɑ̃b].
  • D = [t]: grand roi [gʁɑ̃ ʁwa] vs. grand homme [gʁɑ̃t‿ɔm].
  • G = [k]: sang neuf [sɑ̃ nœf] vs. sang impur [sɑ̃k‿ɛ̃pyʁ] (caindo em desuso).
  • P = [p]: trop grand [tʁo gʁɑ̃] vs. trop aimable [tʁop‿ɛmabl].
  • R = [ʁ]: premier fils [pʁəmje fis] vs. premier enfant [pʁəmjɛʁ‿ɑ̃fɑ̃].
  • S = [z]: les francs [le fʁɑ̃] vs. les euros [lez‿øʁo].
  • T = [t]: pot de terre [po də tɛʁ] vs. pot-au-feu [pot‿o fø].
  • X = [z]: mieux manger [mjø mɑ̃ʒe] vs. mieux être [mjøz‿ɛtʁ].

Quando a palavra termina com uma vogal nasal (-an, -en, -in, -ein, -un, -on etc.), o “n” passa a ser pronunciado na palavra seguinte e a respectiva vogal costuma desnasalizar-se: bon repas [bɔ̃ ʁəpɑ] vs. bon appétit [bɔn‿apeti], certain collègue [sɛʁtɛ̃ kɔlɛg] vs. certain ami [sɛʁtɛn‿ami]. Algumas palavras fazem a ligação, mas não se desnazalizam: aucun (nenhum), bien (bem), en (em), on (pronome indefinido), rien (nada): aucun chat [okœ̃ ʃa] vs. aucun être [okœ̃n‿ɛtʁ]. Conforme o interlocutor, podem-se ou não desnasalizar os pronomes possessivos mon, ton, son (meu, teu, seu): mon petit [mɔ̃ pəti] vs. mon enfant [mɔn‿ɑ̃fɑ̃]/[mɔ̃n‿ɑ̃fɑ̃].

O “f” quase nunca é mudo em fim de palavra, mas quando faz liaison soa “v” nos seguintes casos: neuf heures [nœv‿œʁ] e neuf ans [nœv‿ɑ̃]. De resto, o som não muda: neuf chaises [nœf ʃɛz], neuf amis [nœf ami].

Ligatura ortográfica: “e” no “o”, “o-e” ligados/colados (e dans l’o; o e liés/collés), “Œ/œ”, que nunca pode ser substituído por “OE/Oe” ou “oe” (ou teríamos um ditongo: moelle [uá], “medula, tutano”, ou um hiato: coefficient [oe]) e pode ser pronunciado:

  • Em palavras de origem latina, mais comuns em francês, como “ö” aberto /œ/ ou fechado /ø/, por vezes fazendo dígrafo com “u”: œil (olho), œuf (ovo), bœuf (boi), chœur (coro, coral), cœur (coração), manœuvre (manobra), mœurs (costumes), œuvre (obra), sœur (irmã), nœud (nó, nódulo), vœu (voto).
  • Em palavras de origem grega, eruditas e mais raras, como o “ê” português: fœtus (feto), œcuménique (ecumênico), œdème (edema), œnologie (enologia), œsophage (esôfago), œstrogène (estrogênio, mais como nosso “é”).