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10 de julho de 2018

Sejamos nossos próprios heróis (2010)


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Por Erick Fishuk

NOTA: Publiquei este texto no meu antigo
blog “Pensadores Libertos” no dia 3 de julho de 2010, por ocasião da eliminação do Brasil na copa da África do Sul, diante da seleção da Holanda. Lembrei-me dele outro dia, quando o Brasil novamente foi eliminado nas quartas-de-final pela Bélgica, e eu o tinha guardado desde o apagamento do blog, mas nunca o abri de novo pra ler. Fiquei impressionado com diversas coisas: os fatos da época que eu já tinha esquecido, a diferença daqueles tempos com a atualidade, minha ênfase no ateísmo e no socialismo como filosofias, a ingenuidade com que tratava, então e antes, certos eventos da vida... e, sobretudo, com o cumprimento da profecia de que cada vez menos eu me preocuparia com copas. (Na verdade, me impressiono como eu sabia tantos detalhes em 2010!) Vocês também podem se impressionar comparando nomes e fatos que citei com o que houve depois. Claro que minhas crenças mudaram (acho que hoje confio menos nas pessoas, menos ainda na CBF e na Globo, rs), minha escrita hoje é menos pedante e muitos tópicos eu nem botaria em discussão. Mas assumo que ainda subscrevo a lição filosófica essencial dessas reflexões.

Olá a todas e todos! Pois é, o Brasil foi eliminado da Copa do Mundo da FIFA, e baixou em vários ambientes o mesmo clima baqueado das derrotas de 1998 e 2006, às quais pude presenciar respectivamente como estudante do primário e calouro de História da UNICAMP. Obviamente não recebi bem esse fato, pois também sou brasileiro, e não posso negar minha empatia pela Seleção, mas desta vez preparei melhor meu psicológico para uma eventual derrota – e já o havia feito no jogo anterior, contra o Chile. Não, é claro, que das outras vezes tivesse ficado bastante abatido, mas por mera falta de preparo intelectual aumentava a situação mais do que me permito aumentar atualmente, e creio que com o passar dos anos a não enorme importância que concedi este ano se reduzirá a praticamente zero. Posso parecer pouco simpático ao torcedor roxo, mas tenho justificativas à minha postura, e o que ele me pode imputar como hipocrisia pago com a acusação de incoerência e falso patriotismo.

Bem, vamos aos fatos. Seria imperdoável alienação menosprezar o futebol como marca de nossa nacionalidade, algo que pelo menos ultrapasse as fronteiras de nossas inúmeras culturas regionais e mostre-se como um fator comum de identidade e coesão. Mas o que ele significa institucional e socialmente? Institucionalmente, os grandes times são entidades privadas que, assim como qualquer outra indústria ou empresa congênere, empregam assalariados, buscam o máximo de lucro possível e lançam mão de todos os meios para ultrapassar as concorrentes em seus números e na preferência do consumidor-torcedor. Atuam sob algumas restrições do Estado, mas impera em seu funcionamento a livre iniciativa e a administração corporativa centralizada em uma ou mais instituições municipais, estaduais e nacionais. Socialmente, por serem entidades privadas, não têm como obrigações a busca da mitigação dos nossos problemas sociais, o incremento da prosperidade da população e o direcionamento das descobertas científicas e tecnológicas em benefício do maior número possível de pessoas.

Qual é a conclusão mais evidente? O futebol brasileiro oficializado, grosso modo, não é uma instituição de interesse público, e seus principais beneficiários são aqueles que mais diretamente se envolvem, ou seja, os jogadores, as comissões técnicas, os empresários, os “cartolas” e os presidentes dos órgãos de controle. Que torcer, apesar de tudo, faz bem, duvido muito: que o digam os hipertensos, os cardíacos e quem gasta muito com bandeiras, camisas e ingressos sem receber em troca nada mais do que a alegria de um punhado de pessoas bastante ricas e que se esquece dos velhos torcedores em prol dos contratos mais milionários do planeta. Definitivamente, amor à camisa não presta se quem a usa em serviço não vivencia tal sentimento. Porém, ainda é grande minha fé no esporte como um dos elementos salvadores de crianças e jovens marginalizados, mas não desse esporte elitista e desgastante, mas do esporte que difunde os valores da honestidade e da superação, que socializa, que cimenta as comunidades, que reúne as famílias, que cria amizades e que, acima de tudo, promove um incalculável bem-estar mental e físico. E não somente pelo velho e querido “ludopédio”, mas também por outros jogos a ser democratizados entre as camadas econômicas menos favorecidas.

O que pode haver de hipócrita no meu discurso é evidente: o modo como os grandes torneios esportivos acompanhados por grandes massas desvia a atenção de problemas sociais e políticos mais graves. (Não digo econômicos, porque nesse sentido o Brasil está, no momento, relativamente são.) Sim, não existem apenas problemas na sociedade brasileira, e todos devem divertir-se, afinal, ninguém gosta de apenas pensar em tragédias. O que me incomoda é o grau de mobilização e comoção que uma copa do mundo pode causar, ao contrário de outras causas mais prementes, muitas delas ranços históricos de nossa trajetória: nada consegue unir as pessoas das mais variadas origens e adesões, nada cria pretextos para a interrupção do trabalho e a redução do tráfego urbano, e, em caso de derrota, nada deixa as pessoas comuns mais indignadas e bravas com os supostos “responsáveis” (no caso de ontem, ressaltam-se os nomes do técnico Dunga e do volante Felipe Melo).

Nos jornais de ontem, contudo, destacou-se mais uma burla da Lei da Ficha Limpa, já inócua em sua criação por deixar inúmeras brechas que agora mostram sua força no tradicional jogo da conciliação e do “jeitinho”. Dentre tantos que poderia citar, a corrupção é o maior de nosso males; suas manifestações mais corriqueiras, que não são mais capazes de nos comover, são as conhecidas “cervejinha” para o guarda de trânsito, a “cola” na prova, as fraudes em concursos públicos, os superfaturamentos em obras estatais, a compra de documentos falsos e outras. Não é o dinheiro que corrompe, mas o poder que ele proporciona; não duvido muito que já tenha corrompido também o futebol. O presidente Lula, que se disse “profundamente triste” com a partida, deveria sentir-se mais triste ainda com o despreparo no socorro a vítimas de grandes catástrofes naturais e, para não fugir do assunto, com seu insucesso em moralizar a administração pública e minar os focos de coronelismo político ainda existentes no interior da nação.



Longe de mim insinuar diretamente, como li em certos comentários na internet, que nosso fracasso foi “comprado”, ainda que, diante de tantas insinuações levantadas nos bastidores das copas, a melhor postura na análise seja o agnosticismo. Longe de mim, sobretudo, vomitar julgamentos definitivos sobre questões burocráticas, táticas ou físicas, porque sou suficientemente leigo no assunto para que a confiabilidade de minha opinião seja nula. Assim, penso que (ao menos) os merecidos elogios pelo trabalho da equipe brasileira envolvem-se de alguma humildade e despretensão. Todos trabalharam muito, não se pode negar isso; deu-se o máximo de si, e os razoáveis resultados na copa mostram uma qualidade ainda alta em comparação a outros times. Dunga pode não ter feito uma boa escalação ou uma preparação arejada e consistente, mas foram admiráveis a luta até o fim e a coragem de dar a cara a bater diante da torcida mais exigente do mundo. Cinco títulos pesam, por mais que não sejam suficientes para ganhar partidas, todavia aumentam a pressão psicológica nos responsáveis pelos resultados. E essa pressão terminou por predominar sobre a habilidade marota do primeiro tempo, simbolizada no gol e no frequente “jeito moleque” de Robinho. Julio Cesar, se não foi o maior dos heróis, está entre eles: defesas sensacionais e franqueza de caráter. Todos os outros fizeram sua parte, e mesmo aqueles de quem foram cobrados gols não feitos deixaram sua marca na luta. E sobre Dunga, tão taxado de “burro”, não se pode esquecer de que chegar até onde chegou, com tudo o que conquistou, não é para qualquer um, mas talvez seu erro fatal tenha sido pensar que somente a razão leva coletividades e individualidades à vitória.

Para todo o time, o pior mesmo – e exatamente por isso já são campeões – é aguentar de cabeça erguida 190 milhões de “técnicos” com suas vuvuzelas arrotando um conhecimento mínimo do futebol profissional e deixando-se levar por modismos e “estrelismos” que conduziram a uma queda mais vergonhosa em 2006. Nem faço ideia se Neymar e Ganso, tão alardeados até mesmo na propaganda de um fabricante de presuntos e salsichas, fariam alguma diferença, pois sequer acompanho os campeonatos nacionais. Entretanto, acho uma baita falta de desonestidade intelectual guardar consigo a inabalável certeza de que sua rejeição teria sido fatal: trabalhar com hipóteses, com “e se...”, não faz parte de um raciocínio saudável. Muitas pessoas que se deixam levar por slogans atraentes mostram grande incoerência ao atribuir inépcia ao treinador, apoiar-lhe incondicionalmente nas ridículas campanhas twitterianas (até quando vão adiar a estilingada final nesse maldito passarinho?) “Cala boca Galvão” e “Cala boca Tadeu Schmidt” e, por fim, voltar ao reflexo de insatisfação. Enoja-me também a inundação de carros, casas e prédios com bandeiras a cada quatro anos, para nos outros três haver reclamações a respeito do país, a contribuição com seus defeitos atávicos – como a falta de ética e a superstição – e a eleição política de pessoas erradas – Maluf, Collor e Sarney continuam na ativa, e se formos néscios o suficiente, elegeremos o tecnicista Serra para acabar de vez com o maior patrimônio que poderíamos legar a nossos descendentes: a educação.

Parece-me que nosso povo ainda tem uma necessidade muito grande do “transcendente”. Tentarei definir o conceito para nossos fins: uma figura humana ou antropomórfica mitificada, de existência real ou fictícia, que encarna os valores ideais de uma sociedade, inalcançáveis ao simples mortal, extraordinários, quase sobre-humanos, e que exerce um papel de coesão, de identidade, de quase anestesia ou mesmo de manipulação desse grupo humano. A religião é a forma mais antiga de transcendência: crenças míticas ainda absorvem nossas grandes aspirações e afastam momentaneamente as dores corporais e espirituais. Na política, forjaram-se também pessoas exemplares, dignas (ou indignas) de contemplação e imitação, como Lenin e Stalin para os comunistas mais antigos e Che Guevara para a juventude “revolucionária” de hoje. No Brasil, durante o século 20, tomaram vulto, diante dos nossos constantes entraves políticos e econômicos, as transcendências esportivas, talvez sendo Pelé a primeira e mais duradoura; Ayrton Senna foi outra, e inúmeros futebolistas ainda se prestam a esse papel. Na música, há vários, e Roberto Carlos e Chico Buarque, por exemplo, não sem justiça, representam o melhor do Brasil aqui e lá fora. São os famosos “heróis”: neles as massas depositam suas esperanças em troca de uma breve alegria, de um fugaz momento de superioridade sobre outras nações. Como outras formas de transcendência, servem de poderosos analgésicos para nossas angústias, às vezes em benefício das classes dominantes.

O que devemos perceber de uma vez por todas é que devemos ser nossos próprios heróis. Precisamos ser a medida de nós mesmos. É nossa obrigação encarar a realidade com os pés no chão e não esperar que os outros resolvam nossos problemas. Apenas nós fazemos a diferença que queremos ver no mundo, como dizia Gandhi, e podemos começar pelo nosso próprio país, ou mesmo nosso bairro, nossa comunidade esportiva, laboral, eclesiástica, cultural ou escolar. A copa da FIFA é realmente um evento interessante, culturalmente importante, mas a maioria das pessoa precisa envolver-se com ela de modo mais pensado e mais racional – ainda que, como eu disse, somos também feitos de emoção. E um dos primeiros passos é perceber que os reais beneficiários dos títulos não somos nós, gente comum; estrelas a mais sobre nosso escudo podem fazer diferença ao jogador que busca emprego no exterior, mas não ao imigrante ilegal, ao trabalhador braçal que busca ganhar a vida em países mais desenvolvidos ou ao turista muitas vezes barrado por agentes e policiais truculentos. Aliás, se o esporte também não está direcionado para a mudança social, vitórias isoladas não surtem efeito; sempre houve, claro, esportistas que pensavam da mesma forma, mas além de serem exceções, tal política deveria ser uma atitude não só “de cima”, mas também “de baixo”, das comunidades, ou mesmo do Estado, que promoveria um desenvolvimento nunca visto antes se soubesse garimpar, como fizeram muitos outros países, seus maiores talentos desportivos, intelectuais, científicos e médicos.

Enfim, chega de heroísmo barato! Afinal, como diz a famosa canção socialista A Internacional, “Messias, Deus, chefes supremos, nada esperemos de nenhum! Sejamos nós quem conquistemos a Terra-Mãe livre e comum! Para não ter protestos vãos, para sair deste antro estreito, façamos nós por nossas mãos tudo o que a nós diz respeito!” E que o próximo mundial, a ocorrer no Brasil, seja fonte de prosperidade para todos, e não apenas para grupos econômicos restritos.