terça-feira, 9 de abril de 2019

Hino Nacional da França (2.ª tradução)


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Depois da primeira versão que traduzi há mais de 3 anos e meio junto com o Chant des partisans, finalmente uma legendagem exclusiva e com a versão quase completa da canção de guerra La Marseillaise (A Marselhesa), composta por Rouget de Lisle durante o processo da Revolução Francesa e, com o tempo, feita hino nacional da República Francesa. O vídeo de 2015 é referente ao feriado de 14 de Julho daquele ano, mas fiz a tradução numa linguagem mais arcaica e só aparecem as duas primeiras estrofes, enquanto no geral as exibições solenes mostram três. Agora também tenho a ocasião de explicar um pouco melhor sua história e atualizar a linguagem da tradução, que além de contar com o uso sistemático de “você(s)”, está menos literal pra ser mais elucidativa.

A Marselhesa foi composta inicialmente como um Canto de guerra para o Exército do Reno, de autoria do oficial francês da engenharia militar, poeta e autor dramático Claude Joseph Rouget de Lisle em 1792, durante a guerra entre a França e a Áustria. Uma famosa pintura de Isidore Pils, Rouget de Lisle chantant la Marseillaise (1849), mostra o que seria a primeira execução cantada da obra por seu próprio autor, rodeado por seus companheiros de armas. No mesmo ano, a marcha foi executada no enterro do prefeito da cidade de Étampes e fascinou o general François Mireur, que estava aí presente e coordenava a partida de voluntários do sul da França à guerra. Ele fez imprimirem o Canto de guerra... num jornal do Sul, e assim ela foi abraçada pelos voluntários de Marselha. Daí o nome A Marselhesa, embora tenha sido composta em Estrasburgo, bem ao Norte.

Ela foi decretada “canto nacional” em 14 de julho de 1795, superando Réveil du Peuple (Despertar do Povo), um canto patriótico contra o Terror. A seguir, Napoleão não proibiu formalmente A Marselhesa, mas preferiu usar Veillons au salut de l’Empire, Le chant du départ (que já publiquei aqui) ou a Marche consulaire. A monarquia da Restauração tentou popularizar a antiga ária Vive Henri IV ! (Viva Henrique 4.º!), mas a Revolução de 1830 reimpôs A Marselhesa. Em 1871, após a Comuna de Paris, foi proclamada a República, mas tentou-se adotar a recém-composta Vive la France, mais pacífica e sem “blasfêmia e subversão”. O medo do retorno da monarquia impeliu à oficialização da Marselhesa como “hino nacional” (não mais “canto nacional”) em 14 de fevereiro de 1879, reafirmando a vigência do decreto de 1795. Uma versão oficial definitiva foi fixada em 1887, e as Constituições de 1946 e 1958 reiteram a vigência da Marselhesa.

A Marselhesa ultrapassou as fronteiras da França e se tornou uma canção revolucionária tocada no mundo todo, com inúmeras traduções poéticas. Durante a vigência da Comuna de Paris, foi utilizada uma Marselhesa da Comuna como hino provisório, e entre as revoluções de fevereiro e outubro de 1917 na Rússia, o Governo Provisório usou como símbolo uma Marselhesa Operária cantada na língua local (aqui pus também os dois hinos). Durante os combates à ocupação nazista da França na 2.ª Guerra Mundial, Le chant des partisans foi conhecido como “Marselhesa da Resistência” e continuou popular após a guerra. Rouget de Lisle compôs as 6 primeiras estrofes, mas o poema todo tem pelo menos 15 estrofes, modificadas no passar do tempo. Em eventos oficiais, somente a primeira estrofe (“Allons, enfants de la Patrie...”) é cantada, mas é frequente também o emprego da sexta (“Amour sacré de la Patrie...”). Nesta gravação, adiciona-se ainda ao fim a quarta estrofe (“Tremblez, tyrans, et vous, perfides...”).

A letra da Marselhesa possui muitas variantes, mas pra esta tradução eu usei a mostrada na Wikipédia em francês. Na época em que fiz a primeira tradução (estrofes 1 e 2), eu cotejei a tradução da Wikipédia em português e a do livro Francês urgente para brasileiros, de Angela F. Perricone Pastura. A partir delas, cheguei à minha própria versão, tendo cotejado ainda com as traduções das Wikipédias em inglês, espanhol, italiano, catalão, esperanto e galego. De fato, minha leitura em francês ainda não era perfeita e minha habilidade de tradução ainda estava no começo, e por preguiça acabei mantendo “tu” e “vós” pra traduzir tu e vous e usando só presente simples ao invés do presente contínuo. A tradução de agora é totalmente reformulada, e a tradução da terceira estrofe é inédita.

Além de traduzir, eu mesmo montei o vídeo e legendei: assistam duas vezes, lendo uma legenda a cada vez! Eu baixei o áudio da famosa tradução em inglês, tendo só aumentado um pouco o volume. Em 2015, recorri também a textos que explicavam em parte A Marselhesa e que ainda recomendo (Au-delà du sens politique et historique, que signifient au juste les paroles de notre hymne national ? – leia aqui; La Marseillaise expliquée aux cons – leia aqui). Há uma polêmica sobre o real sentido de sang impur (sangue impuro), considerado uma menção racista ao inimigo, mas adotei a leitura que entende “sangue plebeu” (não azul, não puro), ou seja, o sacrifício do povo pela liberdade, e não “sangue estrangeiro”, dos que deveriam morrer. Seguem abaixo as legendas bilíngues, a letra em francês e a tradução em português:



Versões instrumental e cantada/tocada durante a celebração de 14 de Julho nos Champs-Élysées em 2023:

1. Allons, enfants de la Patrie,
Le jour de gloire est arrivé !
Contre nous de la tyrannie
L’étendard sanglant est levé,
L’étendard sanglant est levé,
Entendez-vous dans les campagnes
Mugir ces féroces soldats ?
Ils viennent jusque dans vos bras
Égorger vos fils, vos compagnes !

Refrain :
Aux armes, citoyens,
Formez vos bataillons,
Marchez, marchez !
Qu’un sang impur
Abreuve nos sillons !
Aux armes, citoyens,
Formons nos bataillons,
Marchons, marchons !
Qu’un sang impur
Abreuve nos sillons !

2. Amour sacré de la Patrie,
Conduis, soutiens nos bras vengeurs.
Liberté, Liberté chérie,
Combats avec tes défenseurs !
Combats avec tes défenseurs !
Sous nos drapeaux que la victoire
Accoure à tes mâles accents,
Que vos ennemis expirants
Voient ton triomphe et notre gloire !

(Refrain)

3. Tremblez, tyrans, et vous, perfides,
L’opprobre de tous les partis,
Tremblez ! vos projets parricides
Vont enfin recevoir leurs prix !
Vont enfin recevoir leurs prix !
Tout est soldat pour vous combattre,
S’ils tombent, nos jeunes héros,
La terre en produit de nouveaux,
Contre vous tout prêts à se battre !

(Refrain)

____________________


1. Vamos, filhos da Pátria,
O dia da glória chegou!
A bandeira sangrenta da tirania
Está levantada contra nós,
Está levantada contra nós,
Vocês podem ouvir nos campos
Esses soldados ferozes mugir?
Estão vindo aos lares de vocês
Para degolar seus filhos e esposas!

Refrão:
Às armas, cidadãos,
Formem seus batalhões,
Marchem, marchem!
Que um sangue plebeu
Regue nossos campos!
Às armas, cidadãos,
Formemos nossos batalhões,
Marchemos, marchemos!
Que um sangue plebeu
Regue nossos campos!

2. Amor sagrado pela Pátria,
Guie e apoie nossas mãos vingativas.
Liberdade, querida Liberdade,
Lute junto a quem defende você!
Lute junto a quem defende você!
Que seus acordes másculos tragam
A vitória com nossas bandeiras,
Que os inimigos morrendo vejam
Você triunfar e nós glorificados!

(Refrão)

3. Tremam, tiranos, e vocês, traidores,
Que são desonra a qualquer grupo,
Tremam! Seus projetos parricidas
Enfim vão receber suas punições!
Enfim vão receber suas punições!
Soldados demais a combater vocês,
Nossos jovens heróis, parece que
Se eles morrem, saem novos do solo
Todos prontos a lutar contra vocês!

(Refrão)



domingo, 7 de abril de 2019

“Bože pravde” (hino do reino da Sérvia)


Endereço curto: fishuk.cc/bozepravde


Eu já tinha traduzido a versão republicana deste hino, mas apresento agora uma segunda versão integral, como hino do Reino da Sérvia, uma monarquia constitucional que existiu na Europa Meridional de 1882 a 1918 e foi governada pelos reis Milan, Aleksandar e Petar. Ele se chama “Боже правде”, em alfabeto latino Bože pravde (Ó, Deus de justiça), e foi composto em 1872 por Davorin Jenko (melodia) e Jovan Đorđević (letra). Foi adotado pela primeira vez no Principado da Sérvia em 1878, e depois pelo sucessor Reino da Sérvia, tendo passado por diversas modificações conforme o monarca que governava e o tipo de regime do país. Em 1918 passou a integrar o hino do recém-formado Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, futuro Reino da Iugoslávia, junto com as canções desses povos, até o fim da monarquia em 1941.

Durante o regime comunista do Marechal Tito, o hino da Iugoslávia foi Hej, slaveni (Ei, eslavos). Em 1992, com a desintegração da Iugoslávia socialista, outras canções foram propostas pra ser adotadas como hino sérvio, mas jamais houve aprovação oficial. Apenas em 8 de novembro de 2006, após se separar de Montenegro, a Sérvia abandonou Hej, slaveni e reconheceu novamente Bože pravde em sua Constituição, e em 11 de maio de 2009 o hino finalmente foi ratificado em lei. Até 2006 ele também servia de hino da República Sérvia (Republika Srpska, não confundir com a República DA Sérvia), uma região de maioria sérvia constituinte da Bósnia e Herzegóvina, mas seu uso foi proibido pra não se discriminarem as outras nacionalidades aí residentes.

O atual hino nacional da República da Sérvia (capital Belgrado) possui as mesmas estrofes antigas, com vários versos mudados em relação à versão inicial, pra tirar as referências à monarquia. O último verso da segunda estrofe era Srpskog Kralja, srpski rod (O Rei sérvio e o povo sérvio) e foi trocado por Srpske zemlje, srpski rod (As terras sérvias e o povo sérvio). O anterior Srpske Krune novi sjaj (Brilha de novo a Coroa sérvia) se tornou Srpske slave novi sjaj (Brilha de novo a glória sérvia), e o antigo Kraljevinu srpsku brani (Proteja o reino dos sérvios) mudou pra Otadžbinu srpsku brani (Proteja a pátria dos sérvios). A versão mais corrente, que já postei aqui, é um encurtamento que usa apenas as duas primeiras estrofes, mas estes vídeos têm o texto integral dos tempos da monarquia.

Eu mesmo traduzi direto do sérvio (às vezes cotejando com a mediana tradução francesa da Wikipédia) e legendei, tendo baixado deste vídeo o primeiro áudio e deste vídeo o segundo áudio. Podem-se ler minhas raras legendas trilíngues, ou seja, uma linha em cirílico, outra em latino e outra em português: por que não ver o vídeo três vezes, lendo uma parte por vez? Alguns versos, diferentes na segunda versão, figuram entre colchetes. Seguem abaixo minhas legendagens, as letras em sérvio e a tradução em português:




Bože pravde, ti što spase
od propasti dosad nas,
čuj i odsad naše glase
i od sad nam budi spas.

Moćnom rukom vodi, brani
budućnosti srpske brod,
Bože spasi, Bože hrani,
srpskog Kralja, srpski rod!

Složi srpsku braću dragu
na svak’ dičan slavan rad,
sloga biće poraz vragu
a najjači srpstvu grad.

Nek’ na srpskoj blista grani
bratske sloge zlatan plod,
Bože spasi, Bože hrani,
srpskog Kralja, srpski rod!

Nek’ na srpsko vedro čelo
tvog ne padne gneva grom,
blagoslovi Srbu selo,
polje, njivu, grad i dom!

Kad nastupe borbe dani
k’ pobedi mu vodi hod,
[v’ pobedi ti zvoni hod,]
Bože spasi, Bože hrani,
srpskog Kralja, srpski rod!

Iz mračnoga sinu groba
srpske Krune novi sjaj,
[srpske sloge novi sjaj,]
nastalo je novo doba,
novu sreću, Bože daj!

Kraljevinu srpsku brani,
pet vekovne borbe plod,
[Otadžbinu srpsku brani,
šest vekovne borbe plod,]
Bože spasi, Bože hrani,
moli ti se srpski rod!

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Боже правде, ти што спасе
од пропасти досад нас,
чуј и одсад наше гласе
и од сад нам буди спас.

Моћном руком води, брани
будућности српске брод,
Боже спаси Боже храни,
српског Краља, српски род!

Сложи српску браћу драгу
на свак’ дичан славан рад,
слога биће пораз врагу
а најјачи српству град.

Нек’ на српској блиста грани
братске слоге златан плод,
Боже спаси, Боже храни,
српског Краља, српски род!

Нек’ на српско ведро чело
твог не падне гнева гром,
благослови Србу село
поље, њиву, град и дом!

Кад наступе борбе дани
к’ победи му води ход,
[в’ победи ти звони ход,]
Боже спаси, Боже храни,
српског Краља, српски род!

Из мрачнога сину гроба
српске Круне нови сјај,
[српске слоге нови сјај,]
настало је ново доба,
нову срећу, Боже дај!

Краљевину српску брани
пет вековне борбе плод,
[Отаџбину српску брани
шест вековне борбе плод,]
Боже спаси, Боже храни,
моли ти се српски род!

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Ó, Deus de justiça, que até hoje
tem nos livrado da desgraça,
continue ouvindo nossas vozes
e desde já seja nossa salvação.

Guie, proteja com mão forte
o barco sérvio do futuro,
Deus salve, Deus proveja
o Rei sérvio e o povo sérvio!

Una os caros irmãos sérvios
nos labores de honra e glória,
a derrota do diabo será a paz
e maior fortaleza dos sérvios.

Que no galho sérvio brilhe
o fruto áureo da paz fraterna,
Deus salve, Deus proveja
o Rei sérvio e o povo sérvio!

Que na limpa testa sérvia
você não lance o raio da ira,
abençoe a aldeia, lavoura,
campo, cidade e lar sérvios!

Quando vierem dias de luta,
guie nossa marcha à vitória,
[convoque a marcha na vitória,]
Deus salve, Deus proveja
o Rei sérvio e o povo sérvio!

Da tumba escura do filho
brilha de novo a Coroa sérvia,
[brilha de novo a paz sérvia,]
começou uma nova época,
Deus nos dê uma nova sorte!

Proteja o reino dos sérvios,
fruto de cinco séculos de luta,
[Proteja a pátria dos sérvios,
fruto de seis séculos de luta,]
Deus salve, Deus proveja,
suplica a você o povo sérvio!



O rei Pedro 1.º da Sérvia, representado num longa-metragem comercial.

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Discurso de Putin ao anexar a Crimeia


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/putin-crimeia


Este projeto estava há 5 anos parado, e até tentei fazer antes da data celebrativa, mas tive muitos contratempos. Primeiro, que cheguei a ter metade do texto escrito traduzido, e comecei a rever essa parte no ano passado, mas perdi a data. Então decidi deixar pra este ano, que seriam 5 anos, mas meu HD externo “morreu”, onde havia a única cópia do meu rascunho. No começo de março, recomecei tudo do zero, e acho que ficou até melhor: mas fui fazendo muito pouco por dia, e depois fui postergando a legendagem, por causa de assuntos pessoais, e a data enfim passou. Mesmo assim, dadas as técnicas modernas, meu tempo ainda disponível e a eternidade histórica, perseverei até terminar março, consegui fazer a tradução escrita e comecei a legendar. O fruto desse esforço está aqui, e vocês podem desfrutar e compartilhar à vontade.

Em meio à crise do Euromaidan na Ucrânia, na virada de 2013 pra 2014, e ao golpe de Estado que derrubou o presidente eleito, Viktor Ianukovych, em 22 de fevereiro de 2014, as autoridades da península da Crimeia, faixa de terra que se estende do sul do país pro norte do mar Negro, convocaram um referendo sobre a situação da região. Historicamente, a península tinha pertencido à Rússia como Estado nacional, havendo inclusive algumas tropas russas lá alocadas e uma grande maioria de população russófona. Mas com a independência da Ucrânia em 1991, o território passou a pertencer ao novo país, algo que a princípio nem Boris Ieltsin, primeiro presidente da Rússia pós-comunista, nem Vladimir Putin, seu sucessor, tinham contestado. Em 16 de março o referendo na Crimeia aprovou por esmagadora maioria a união à Rússia, que na cultura popular é chamada de “reunificação”, mas as autoridades de Kyiv não reconheceram a votação.

Em 17 de março o Conselho Supremo da República Autônoma da Crimeia (como é chamada dentro da Ucrânia) declarou a região como “República da Crimeia” independente, com a cidade de Sevastopol tendo um status especial. O agora Conselho de Estado (parlamento) da nova república solicitou então a Moscou que seu território fosse incluído como parte integrante da Federação Russa, sob a condição de república autônoma, e preparou o projeto do acordo a ser assinado entre os dois Estados. Ainda no dia 17, o presidente Putin assinou o decreto que reconhecia a independência da República da Crimeia, e foi anunciado que às 15h (hora de Moscou) do dia seguinte ele faria um discurso à Assembleia Federal, a equivalente a nosso Congresso Nacional bicameral.

Em 18 de março, Putin fez o discurso ao qual vocês podem assistir neste vídeo, enquanto eram erguidas entre os presentes as bandeiras da Crimeia e de Sevastopol. Considerando que a Crimeia sempre teria sido um território historicamente russo, com a cidade de Sevastopol importantíssima pra história nacional (a incorporação à Ucrânia como instituição à parte ocorreu apenas em 1954), e considerando que a maioria da população local também queria fazer parte da Rússia, Putin aceitou a proposta e disse que encaminharia a documentação pra Assembleia aprovar. Moscou ganharia mais duas novas unidades federais, cada uma com um status diferente: a República da Crimeia e a cidade de Sevastopol com administração diretamente submetida ao governo central (tal como eram até então somente Moscou e São Petersburgo). Após o discurso, Putin assinou o acordo entre a Rússia e a Crimeia, e também o fizeram Vladimir Konstantinov, presidente do parlamento local, Sergei Aksionov, seu primeiro-ministro, e Aleksei Chaly, prefeito da cidade de Sevastopol.

O chamado “Discurso da Crimeia de Vladimir Putin” é considerado seu segundo discurso histórico, sucedendo o “Discurso de Munique” sobre política de segurança, pronunciado em 10 de fevereiro de 2007. Mas ao contrário deste, é claro que a reação do Ocidente foi péssima, insinuando um “expansionismo” russo que poderia se estender ao leste e sudeste da Ucrânia, regiões com histórica maioria de falantes do russo. Na própria Rússia, a recepção foi positiva, sobretudo porque em grande parte as notícias da mídia são controladas pelo Kremlin, mas ao longo dos anos a população ficou cética com os altos gastos que a anexação implicou. O discurso foi feito no Salão Georgiev do Grande Palácio do Kremlin, na presença de umas 1200 pessoas, e foi publicado pela primeira vez na edição da Rossiiskaia gazeta (o Diário Oficial) do dia seguinte. Mas também há o original em russo no site do governo, bem como uma tradução em inglês que não consultei pra traduzir em português.

Eu baixei o vídeo sem legendas deste canal pessoal, que deve ter tirado de outro lugar. Eu mesmo traduzi o texto escrito direto do russo, ao qual eu acrescentei notas explicativas, e legendei o vídeo, sem recorrer a traduções em outras línguas. Seguem abaixo as legendas e a longa tradução em português:


Bom dia, estimados membros do Conselho da Federação, estimados deputados da Duma Estatal; estimados representantes da República da Crimeia e de Sevastopol que estão aqui entre nós; cidadãos da Rússia, habitantes da Crimeia e de Sevastopol!

Estimados amigos, hoje nos reunimos aqui devido a algo que tem um significado de vital importância, um significado histórico para todos nós. Em 16 de março foi realizado na Crimeia um referendo que transcorreu com total respeito aos procedimentos democráticos e às normas do direito internacional.

Participaram do pleito mais de 82 por cento dos aptos a votar. Mais de 96 por cento se expressaram pela reintegração à Rússia. Os números são extremamente convincentes.

Para entender por que foi feita exatamente essa escolha, basta conhecer a história da Crimeia, saber o que significaram e significam a Rússia para a Crimeia e a Crimeia para a Rússia.

Na Crimeia literalmente tudo está perpassado por nossa história e orgulho comuns. Aqui ficava o antigo Quersoneso, onde o príncipe são Vladimir foi batizado. Sua façanha espiritual, a conversão à ortodoxia, predeterminou uma base cultural, valorativa e civilizacional comum que une os povos da Rússia, da Ucrânia e de Belarus. Na Crimeia estão os túmulos dos soldados russos cuja coragem trouxe em 1783 a Crimeia para o domínio russo. A Crimeia é Sevastopol, cidade lendária, cidade de grandioso destino, cidade-fortaleza e pátria da Frota Militar Russa do Mar Negro. A Crimeia é Balaklava e Kerch, a colina Malakhov e o monte Sapun. Cada um desses lugares é sagrado para nós, são símbolos da glória guerreira e extraordinário heroísmo russos.

A Crimeia é também uma fusão única de culturas e tradições de diferentes povos. E nisso também ela é tão parecida com a grande Rússia, onde ao longo dos séculos não desapareceu nem se dissolveu uma só etnia. Os russos e ucranianos, os tártaros da Crimeia e representantes de outros povos viviam e trabalhavam lado a lado na terra da península, mantendo suas próprias características, tradições, línguas e crenças.

Hoje, aliás, dos 2,2 milhões de habitantes da península da Crimeia, quase 1,5 milhão são russos, 350 mil são ucranianos que preferem considerar o russo sua língua materna e na ordem de 290-300 mil tártaros da Crimeia, dos quais uma parte considerável, como mostrou o referendo, também se orienta rumo à Rússia.

Sim, houve um período em que contra os tártaros da Crimeia, tal como a alguns outros povos da URSS, foram cometidas terríveis injustiças. Vou dizer só uma coisa: sob as repressões padeceram então muitos milhões de pessoas de diferentes nacionalidades, e claro, antes de tudo, do povo russo. Os tártaros da Crimeia voltaram para sua terra. Considero que devem ser tomadas todas as providências políticas e legislativas necessárias que concluam o processo de reabilitação do povo tártaro da Crimeia, providências que restaurem seus direitos e reputação em plena medida.

Dirigimo-nos com respeito aos representantes de todas as nacionalidades que habitam a Crimeia. Ela é seu lar comum, sua pequena Pátria, e será correto que na Crimeia – sei que seus habitantes concordam comigo – haja três línguas oficiais de mesmos direitos: o russo, o ucraniano e o tártaro da Crimeia.

Estimados colegas! No coração e na consciência do povo a Crimeia sempre foi e segue sendo uma parte inseparável da Rússia. Essa convicção baseada na verdade e na justiça era inabalável, transmitiu-se de geração a geração, conseguiu ser mais forte do que o tempo e as circunstâncias, mais forte do que todas as mudanças dramáticas que nós e nosso país sofremos ao longo de todo o século 20.

Após a revolução bolchevique, por diferentes razões que só Deus há de julgar, significativos territórios do sul histórico da Rússia foram anexados dentro da República Soviética Ucraniana. Isso foi feito sem considerar a composição nacional dos habitantes, e hoje eles formam o atual sudeste da Ucrânia. E em 1954 se seguiu a decisão de incluir em sua formação também a província da Crimeia, por conveniência também incluindo Sevastopol, embora a cidade estivesse então sob controle federal. Foi uma iniciativa pessoal de Khruschov, (1) líder do Partido Comunista da União Soviética. Se o objetivo de seu esforço era garantir o apoio dos burocratas ucranianos ou expiar a própria culpa na organização das repressões em massa na Ucrânia da década de 1930, os historiadores é que deverão descobrir.

Para nós importa outra coisa: essa decisão foi tomada em evidente descumprimento às próprias normas constitucionais então vigentes. Foi uma questão decidida em grupelhos de bastidores. Nas condições de um Estado totalitário, é natural que não consultassem para nada os habitantes da Crimeia e de Sevastopol, que simplesmente viram o fato consumado. Obviamente surgiram mesmo então junto ao povo questões sobre por que de repente a Crimeia passou a integrar a Ucrânia. Mas nos traços essenciais – devo dizer isso sem rodeios, pois todos entendemos isso –, nos traços essenciais essa decisão foi entendida como formalidade banal, pois os territórios foram transmitidos dentro dos quadros de um só grande país. Era então simplesmente impossível conceber que a Ucrânia e a Rússia pudessem se separar, pudessem ser Estados diferentes. Mas assim ocorreu.

O que parecia inacreditável, infelizmente, se tornou realidade. A URSS se desintegrou. Os acontecimentos evoluíam tão impetuosamente que poucos cidadãos entendiam como eram dramáticos os fatos e suas consequências que tinham lugar. Muitas pessoas na Rússia e na Ucrânia, bem como em outras repúblicas, esperavam que a então nascente Comunidade de Estados Independentes se tornasse uma nova forma de existência estatal comum. Pois tinham lhes prometido uma moeda comum, um espaço econômico único e forças armadas partilhadas, mas tudo isso ficou só nas promessas, e o grande país não apareceu. E quando de repente a Crimeia já se viu em outro Estado, eis que então a Rússia já sentia que não tinha sido roubada, mas de fato saqueada.

Além disso, deve-se reconhecer abertamente que a própria Rússia, tendo perdido o bonde das soberanias, favoreceu a dissolução da União Soviética, e que ao ser formalizada a desintegração do país ela se esqueceu da Crimeia e de Sevastopol, base principal da Frota do Mar Negro. Milhões de russos foram dormir num país e acordaram no exterior, vendo-se na mesma hora como minorias nacionais nas antigas repúblicas soviéticas, e o povo russo se tornou um dos maiores, para não dizer o maior povo repartido pelo mundo.

Hoje, tendo se passado já muitos anos, ouvi pessoas da Crimeia dizerem há pouquíssimo tempo que então, em 1991, elas foram passadas de uma mão para outra como meros sacos de batata. É difícil não concordar com elas. E o Estado Russo, o que fez? Como a Rússia reagiu? Abaixou a cabeça e se resignou, engolindo essa ofensa. Nosso país se achava então numa situação tão difícil que sequer podia defender efetivamente seus interesses. Mas as pessoas não podiam aceitar essa revoltante injustiça histórica. Todos esses anos os cidadãos e muitos ativistas sociais levantaram inúmeras vezes esse tema, falando que a Crimeia era uma terra russa ancestral e que Sevastopol era uma cidade russa. Sim, entendíamos bem tudo isso, sentíamos no coração e na alma, mas era preciso partir das realidades emergentes e já sobre novas bases construir relações de boa vizinhança com a Ucrânia independente. E as relações com a Ucrânia, com o povo-irmão da Ucrânia, foram, são e sempre serão prioritárias e cruciais para nós, sem qualquer exagero.

Podendo hoje falar abertamente, quero partilhar com vocês detalhes das tratativas realizadas no início da década de 2000. Kuchma, então presidente da Ucrânia, pediu-me para acelerar o processo de demarcação da fronteira russo-ucraniana. Até então esse processo estava praticamente parado. A Rússia como que reconheceu a Crimeia como parte da Ucrânia, mas as tratativas sobre a delimitação da fronteira não se efetivaram. Mesmo entendendo todas as complicações desse processo, ainda assim dei aos departamentos da Rússia a ordem imediata para que intensificassem esse trabalho de formalização da fronteira, para que todos entendessem: consentindo com a demarcação, reconhecíamos de facto e de jure a Crimeia como território ucraniano e ao mesmo tempo encerrávamos essa questão de uma vez por todas.

Estávamos indo ao encontro da Ucrânia não apenas quanto à Crimeia, mas também quanto a um tema tão complicadíssimo quanto a demarcação das águas do mar de Azov e do estreito de Kerch. (2) De que ponto partíamos então? Partíamos do fato que o principal para nós eram as boas relações com a Ucrânia, as quais não deveriam ficar reféns de disputas territoriais insolúveis. Mas além disso, claro, esperávamos que a Ucrânia fosse uma boa vizinha nossa, que os russos e os cidadãos de língua russa na Ucrânia, em particular na região sudeste e na Crimeia, vivessem no contexto de um Estado harmonioso, democrático e civilizado, e que seus interesses legais fossem resguardados conforme as normas do direito internacional.

Porém, a situação começou a evoluir de outra forma. Continuamente se empreenderam tentativas de privar os russos de sua memória histórica, e por vezes também de sua língua materna, e torná-los objeto de assimilação forçada. E como os demais cidadãos da Ucrânia, os russos obviamente sofriam com a ininterrupta crise política e estatal que já abala a Ucrânia há mais de 20 anos.

Entendo por que as pessoas na Ucrânia querem mudanças. Nos anos de “rebelião”, (3) de independência, as autoridades, por assim dizer, as “encheram”, simplesmente as enojaram. Mudavam os presidentes, primeiros-ministros e deputados do Parlamento, mas não mudava a atitude para com seus próprios país e povo. Eles “ordenhavam” a Ucrânia, brigavam entre si por mandatos, ativos e fluxos financeiros. Além disso, pouco interessava aos detentores do poder como e do que viviam as pessoas simples, inclusive por que milhões de cidadãos da Ucrânia não viam perspectiva para si na terra natal e eram impelidos a emigrar buscando serviços ocasionais em outros países. Quero destacar que não era nenhum Vale do Silício, mas exatamente serviços ocasionais. Somente na Rússia trabalhavam quase 3 milhões de ucranianos no ano passado. Segundo alguns cálculos, o ganho vindo desses serviços na Rússia em 2013 constituiu mais de 20 bilhões de dólares, algo da ordem de 12 por cento do PIB da Ucrânia.

Repito: entendo bem os que levaram para Maidan (4) palavras de ordem pacíficas, protestando contra a corrupção, a gestão estatal ineficiente e a pobreza. O direito ao protesto pacífico, as instituições democráticas e as eleições existem para isto: mudar as autoridades que não agradam ao povo. Mas os que estiveram por trás dos últimos acontecimentos na Ucrânia perseguiam outros fins: preparavam um golpe de Estado habitual, planejavam tomar o poder sem deter-se diante de nada. E nisso lançaram terror, assassinatos e pogroms. Os principais executores do golpe foram nacionalistas, neonazistas, russófobos e antissemitas. São eles que ainda hoje, até agora, definem muita coisa na vida da Ucrânia.

O primeiro ato das assim chamadas novas “autoridades” foi avançar o escandaloso projeto de lei revisando a política linguística, que prejudicava diretamente os direitos das minorias nacionais. É verdade que os patrocinadores estrangeiros desses atuais “políticos”, os tutores das atuais “autoridades”, chamaram à ordem os iniciadores desse capricho. Aquelas pessoas são espertas, deve-se fazer justiça a elas, e entendem a que levariam as tentativas de construir um Estado ucraniano etnicamente puro. O projeto de lei foi deixado, deixado de lado, mas claramente aguardando a ocasião. O próprio fato dele existir agora é omitido, ao que parece, por conta da curta memória humana. Mas já ficou extremamente claro a todos o que tencionam exatamente fazer na sequência os seguidores ucranianos das ideias de Bandera, (5) um cúmplice de Hitler durante a Segunda Guerra Mundial.

Também está claro que até agora não existe poder executivo legítimo na Ucrânia, não há com quem dialogar. Muitos órgãos estatais foram usurpados por impostores, e além disso esses órgãos nada controlam no país, se encontrando eles próprios – quero sublinhar isso – frequentemente controlados por extremistas. Até para ser recebido por alguns ministros do atual governo precisa-se primeiro da anuência dos militantes de Maidan. Não estou brincando, essa é a realidade da vida corrente.

Aqueles que se opuseram ao golpe logo começaram a ser ameaçados com a repressão e operações punitivas. E o primeiro alvo, obviamente, foi a Crimeia, a Crimeia de língua russa. Por essa razão os habitantes da Crimeia e de Sevastopol se dirigiram à Rússia apelando para que defendêssemos seus direitos e suas próprias vidas e não permitíssemos que lá se desse o mesmo que ocorreu e ainda ocorre em Kyiv, Donetsk, Kharkiv e algumas outras cidades da Ucrânia.

Entende-se que não podíamos ignorar esse pedido, não podíamos deixar a Crimeia e seus habitantes na desgraça, o que de nossa parte configuraria evidente traição.

Era preciso antes de tudo ajudar a criar condições para uma expressão livre e pacífica de sua vontade, a fim do povo da Crimeia poder decidir seu destino pela primeira vez na história. Porém, o que é que estão nos dizendo nossos colegas da Europa Ocidental e da América do Norte? Estão dizendo que estamos violando as normas do direito internacional. Primeiramente, que bom que eles ao menos nos lembraram que existe direito internacional, agradecemos, antes tarde do que nunca.

E em segundo lugar, o mais importante: o que é que estão dizendo que violamos? Sim, o Presidente da Federação Russa recebeu da câmara alta do parlamento o direito de empregar as Forças Armadas na Ucrânia. Mas esse direito, para sermos exatos, ainda nem foi usufruído. As Forças Armadas da Rússia não entraram na Crimeia, elas já estão lá e assim estavam conforme um acordo internacional. Sim, reforçamos nosso grupamento, mas fora isso – quero sublinhar para que todos saibam e ouçam – nem sequer ultrapassamos o número máximo de efetivos de nossas Forças Armadas na Crimeia, um volume previsto de 25 mil pessoas, do qual simplesmente não havia necessidade.

E digo mais. Anunciando sua independência e marcando um referendo, o Conselho Supremo da Crimeia invocou a Carta da Organização da Nações Unidas, na qual se fala do direito das nações à autodeterminação. Além disso, quero lembrar que a própria Ucrânia, ao declarar sua saída da URSS, fez a mesma coisa, textualmente quase igual. A Ucrânia usufruiu esse direito, mas ele é negado ao povo da Crimeia. Por quê?

Além disso, as autoridades da Crimeia também se apoiaram no famoso precedente do Kosovo, caso que nossos próprios parceiros ocidentais construíram, isto é, com suas próprias mãos, numa situação absolutamente análoga à da Crimeia, reconheceram como legítimo um Kosovo separado da Sérvia, demonstrando a todos que não é obrigatória nenhuma permissão das autoridades centrais do país para se proclamar uma independência unilateral. A Corte Internacional da ONU, com base no ponto 2 do artigo 1 da Carta da Organização das Nações Unidas, concordou com isso e, em sua resolução de 22 de julho de 2010, assinalou o seguinte. Vou citar literalmente: “Nenhum impedimento coletivo a uma proclamação unilateral de independência decorre da prática do Conselho de Segurança”, e a seguir, “O direito internacional comum não comporta qualquer impedimento aplicável a uma proclamação de independência”. (6) Tudo isso, como se diz, é de uma clareza meridiana.

Não gosto de recorrer a citações, mas mesmo assim não posso deixar de ler um trecho de outro documento oficial, desta vez um Memorando Escrito dos EUA de 17 de abril de 2009, apresentado nessa mesma Corte Internacional a propósito das audiências sobre o Kosovo. Abre aspas: “Declarações de independência podem, e assim frequentemente ocorre, violar a legislação interna. Porém, isso não significa que está ocorrendo uma violação do direito internacional”. Fecha aspas. Eles mesmos escreveram, alardearam para o mundo inteiro, curvaram todos e agora se revoltam. Por quê? Porque a iniciativa da Crimeia se inscreve claramente nesse, propriamente falando, regulamento. Por alguma razão o que é permitido aos albaneses no Kosovo (aos quais dirigimos nosso respeito) é proibido aos russos, ucranianos e tártaros na Crimeia. Novamente surge a questão: por quê?

Dos mesmos Estados Unidos e Europa ouvimos que o Kosovo talvez fosse novamente algo como um caso especial. No que é que consiste, na opinião de nossos colegas, essa exclusividade? Ocorreria que durante o conflito no Kosovo houve muitas vítimas fatais. Isso por acaso é um argumento juridicamente fundado? Na decisão da Corte Internacional não está dito nada no geral a esse respeito. E depois, saibam, já nem são dois pesos e duas medidas. É um impressionante cinismo primitivo e estreito. Mas não se deve encaixar tudo tão grosseiramente aos próprios interesses, chamar a mesmíssima coisa hoje de branca e amanhã de preta. Então quer dizer que qualquer conflito deve ser levado a produzir vítimas fatais?

Vou ser direto: se as forças locais de autodefesa da Crimeia não tivessem posto a tempo a situação sob controle, lá também poderia ter havido vítimas. E graças a Deus que isso não aconteceu! Na Crimeia não ocorreu um único confronto armado e não houve vítimas fatais. Por que vocês acham que não? A resposta é simples: porque contra o povo e sua vontade é difícil ou praticamente impossível lutar. E quanto a isso eu gostaria de agradecer aos militares ucranianos, cujo contingente não é pequeno – 22 mil pessoas plenamente equipadas. Quero agradecer aos militares da Ucrânia, que não partiram para um banho de sangue nem mancharam as mãos de sangue.

Nesse âmbito, claro, também surgem outros pensamentos. Falam-nos de uma tal intervenção da Rússia na Crimeia, de uma agressão. É estranho de ouvir. Não me recordo de nenhum caso na história em que uma intervenção tivesse ocorrido sem um único tiro e sem vítimas fatais.

Estimados colegas! Na situação envolvendo a Ucrânia, tal como num espelho, reflete-se o que está ocorrendo agora e, no curso das últimas décadas, ocorreu no mundo. À extinção do sistema bipolar no planeta não se seguiu uma estabilidade maior. As instituições básicas e internacionais não estão se reforçando, mas muitas vezes, infelizmente, se degradando. Nossos parceiros internacionais, com os Estados Unidos da América à frente, preferem orientar-se em sua prática política não pelo direito internacional, mas pela lei do mais forte. Eles acreditaram ter sido escolhidos e privilegiados com a licença para decidir os destinos do mundo, como se apenas eles pudessem estar sempre certos. Eles agem tal como bem entendem: aqui e acolá empregam a força contra Estados soberanos, formando coalizões sob o pretexto de que “quem não está conosco está contra nós”. Para conceder a aparência de legalidade à agressão, arrancam as resoluções necessárias das organizações internacionais, e se por quaisquer razões isso não acontece, ignoram completamente tanto o Conselho de Segurança da ONU quanto a ONU como um todo.

Foi assim na Iugoslávia, lembramo-nos bem disso, em 1999. Foi difícil acreditar nisso, mesmo vendo com os próprios olhos, mas no fim do século 20, sobre Belgrado, uma das capitais da Europa, foi lançado um ataque de mísseis durante algumas semanas, e então se seguiu a efetiva intervenção. E por acaso foi uma resolução do Conselho de Segurança da ONU que ordenou decidirem assim essa questão? Nada disso. E depois se deu o mesmo no Afeganistão e no Iraque, e as violações abertas à resolução do Conselho de Segurança sobre a Líbia, quando também começaram os bombardeios ao invés de garantir-se a assim chamada zona de exclusão aérea.

Houve também toda uma série de revoluções “coloridas” coordenadas. Entende-se que as pessoas nos países onde houve esses acontecimentos estavam cansadas da tirania, da pobreza e da falta de perspectivas, mas esses sentimentos foram simplesmente empregados com cinismo. A esses países foram impingidos padrões que de forma alguma correspondiam ao modo de vida, às tradições e à cultura desses povos. Em consequência, ao invés de democracia e liberdade se instalaram o caos, explosões de violência e uma sucessão de golpes. A “primavera árabe” se converteu num “inverno árabe”.

Um cenário parecido também se realizou na Ucrânia. Em 2004, para arruinar o candidato escolhido nas eleições presidenciais, pensaram numa espécie de terceiro turno que não estava previsto pela lei. Simplesmente um absurdo e um escárnio à Constituição. E agora trouxeram antecipadamente à ação um exército de militantes preparado e bem equipado.

Entendemos o que está ocorrendo, entendemos que essas ações também foram dirigidas contra a Ucrânia, contra a Rússia e contra a integração do espaço eurasiático. E isso num tempo em que a Rússia está buscando um diálogo sincero com nossos colegas no Ocidente. Propomos constantemente a colaboração em todas as questões-chave, queremos reforçar o nível de confiança, queremos que nossas relações sejam igualitárias, abertas e claras. Mas não vimos passos que viessem a nosso encontro.

Pelo contrário, cada vez mais temos sido enganados, surpreendidos por decisões tomadas à nossa revelia, colocados diante de fatos consumados. Foi assim também com a expansão da OTAN na direção oriental e a instalação de uma infraestrutura militar junto a nossas fronteiras. O tempo todo nos repetiam a mesmíssima coisa: “Ora, isso nada tem a ver com vocês”. É um eufemismo dizer que não tem.

Foi assim também com a proliferação de sistemas de defesa antimísseis. Apesar de todos os nossos receios, o trem está andando, se movendo. Foi assim com a infinita postergação de conversações sobre os problemas com vistos, na promessa de concorrência honesta e acesso livre aos mercados globais.

Hoje estão nos ameaçando com sanções, mas mesmo assim estamos vivendo sob uma série de limitações extremamente impactantes para nós, para nossa economia e nosso país. Por exemplo, ainda no período da “guerra fria” os EUA, e por extensão outros países, proibiram que se vendesse na URSS uma extensa lista de tecnologias e equipamentos, compondo as assim chamadas “listas CoCom”. (7) Hoje elas estão formalmente abolidas, mas só formalmente, muitas restrições na verdade ainda vigendo como antes.

Em suma, temos todas as bases para acreditar que a famigerada política de contenção da Rússia, praticada nos séculos 18, 19 e 20, continua até hoje. Constantemente tentam nos empurrar para um canto qualquer só porque temos uma posição independente, só porque a defendemos, só porque descrevemos a realidade à nossa maneira, sem hipocrisia. Mas tudo tem seus limites. E no caso da Ucrânia nossos parceiros ocidentais passaram dos limites, portaram-se grosseiramente, sem responsabilidade nem profissionalismo.

Eles sabiam perfeitamente que na Ucrânia e na Crimeia vivem milhões de russos. O quanto não se deve perder a sensibilidade política e o senso de medida para não antever todas as consequências de suas ações! A Rússia chegou a um limiar do qual não podia mais recuar. Se comprimimos uma mola até o ponto de apoio, uma hora ela se descomprime com força. Sempre é preciso se lembrar disso.

É indispensável hoje acabar com a histeria, abandonar a retórica da “guerra fria” e reconhecer aquilo que é óbvio: a Rússia é um participante independente e ativo da vida internacional, e como os demais países, ela tem interesses nacionais que devem ser considerados e respeitados.

Além disso, dispensamos gratidão a todos os que seguiram compreensivos nossos passos na Crimeia, agradecemos o povo da China, cujo governo examinou e está examinando a situação em torno da Ucrânia e da Crimeia em toda a sua plenitude histórica e política, e temos em alta estima o comedimento e objetividade da Índia.

Hoje eu também gostaria de me dirigir ao povo dos Estados Unidos da América, às pessoas que desde os tempos da fundação desse Estado e da adoção da Declaração de Independência se orgulham de colocar a liberdade acima de tudo. Por acaso a aspiração dos habitantes da Crimeia a escolher livremente seu destino não merece a mesma apreciação? Entendam-nos.

Acredito que também vão me entender os europeus, e sobretudo os alemães. Recordem que durante as consultas políticas sobre a união das Alemanhas Ocidental e Oriental num nível, para ser eufêmico, de especialista, mas altíssimo, ficou-se longe de um consenso entre os representantes dos países, naquela época e ainda hoje, aliados da Alemanha quanto a apoiar a própria ideia de unificação. Mas nosso país, por outro lado, deu apoio inequívoco ao esforço sincero e incontrolável dos alemães pela unidade nacional. Estou confiante de que vocês não tenham esquecido isso, e prevejo que os cidadãos da Alemanha também vão apoiar o esforço do mundo russo, da Rússia histórica, por restaurar sua unidade.

Dirijo-me também ao povo da Ucrânia. Quero sinceramente que vocês nos entendam: não queremos de jeito nenhum lhes fazer mal ou ultrajar seus sentimentos nacionais. Sempre respeitamos a integridade territorial do Estado ucraniano, diferentemente, aliás, dos que sacrificaram a unidade da Ucrânia às próprias ambições políticas. Eles ostentam palavras de ordem sobre uma Ucrânia grande, mas exatamente eles fizeram de tudo para dividir o país. A presente desobediência civil é de inteira responsabilidade deles. Quero que vocês me ouçam, caros amigos. Não acreditem nos que lhes mostram uma Rússia assustadora e gritam que depois da Crimeia virão outras regiões. Não queremos dissolver a Ucrânia, não precisamos disso. No que concerne à Crimeia, ela foi e sempre será dos russos, dos ucranianos e dos tártaros da Crimeia.

Repito, ela será, como foi por séculos, o lar natal dos representantes de todos os povos que vivem lá. Mas ela nunca será dos banderistas!

A Crimeia é nosso patrimônio comum e fator principal de estabilidade na região. E esse território estratégico deve se encontrar sob uma soberania forte e estável que na prática só pode hoje ser russa. Caso contrário, caros amigos (e me dirijo tanto à Ucrânia quanto à Rússia), vocês e nós – russos e ucranianos – podemos perder totalmente a Crimeia, e ainda por cima num futuro não muito distante. Por favor, reflitam sobre essas palavras.

Lembrem também que em Kyiv já ressoaram requerimentos por um ingresso imediato da Ucrânia na OTAN. O que significaria essa perspectiva para a Crimeia e Sevastopol? Que na cidade da glória militar russa apareceria uma frota da OTAN, que surgiria para todo o sul da Rússia um perigo não mais ou menos passageiro, mas absolutamente concreto. Tudo o que poderia realmente acontecer é tudo o que poderia realmente acontecer sem a escolha do povo da Crimeia. Nós o agradecemos por isso.

Devo acrescentar que não somos contrários a colaborar com a OTAN, de forma alguma. O que recusamos é a aliança militar – e a OTAN está presente em todos os processos internos com a organização militar –, recusamos a organização militar que dê ordens ao pé de nossos muros, ao lado de nossa casa ou em nossos territórios históricos. Vocês sabem que simplesmente não posso conceber visitarmos Sevastopol e sermos recebidos por marinheiros da OTAN. Acrescento que a maioria deles são ótimos rapazes, mas é melhor deixar que eles venham nos visitar em Sevastopol do que nós a eles.

Vou ser direto: nossa alma está doendo por tudo o que está acontecendo agora na Ucrânia, pelo que o povo sofre, por ele não saber como viver hoje e o que vai ser do amanhã. E nossa inquietação é compreensível, pois não somos apenas vizinhos próximos, mas de fato, como eu já falei muitas vezes, somos um só povo. Kyiv é a mãe das cidades dos russos. A Antiga Rus (8) é nossa origem comum, de qualquer modo não passaremos um sem o outro.

E digo mais uma coisa. Na Ucrânia vivem e vão viver milhões de russos, cidadãos de língua russa, e a Rússia sempre vai defender os interesses deles por meios políticos, diplomáticos e legais. Porém, a própria Ucrânia deve acima de tudo se interessar em que os direitos e interesses dessas pessoas sejam protegidos. Nisso está a garantia da viabilidade de um Estado ucraniano estável e da integridade territorial do país.

Queremos ser amigos da Ucrânia, queremos que ela seja um Estado forte, soberano e autossuficiente. Pois a Ucrânia é um dos nossos maiores parceiros, temos uma infinidade de projetos conjuntos e, apesar dos pesares, acredito no sucesso deles. E o principal: queremos que a paz e a concórdia cheguem à terra da Ucrânia, e para tanto estamos prontos, junto com outros países, a oferecer todo apoio e colaboração possíveis. Mas vou repetir: apenas os próprios cidadãos da Ucrânia têm condições de trazer ordem à própria casa.

Estimados habitantes da Crimeia e da cidade de Sevastopol! Toda a Rússia tem se encantado com sua bravura, dignidade e coragem, foram exatamente vocês que decidiram o destino da Crimeia. Nestes dias estivemos próximos como nunca, nos apoiamos uns aos outros. Foram sentimentos sinceros de solidariedade. São nesses momentos históricos decisivos que se põem à prova a maturidade e a força de espírito de uma nação. E o povo da Rússia mostrou tal maturidade e tal força apoiando os compatriotas de forma coesa.

A rigidez da Rússia nas posições de política externa tem se fundamentado na vontade de milhões de pessoas que se veem como nacionalidade comum e apoiam as principais forças políticas e sociais. Quero agradecer a todos por essa harmonia patriótica. Todos, sem exceção. Mas é importante que no futuro mantenhamos a mesma consolidação para resolvermos as tarefas colocadas diante da Rússia.

É claro que também vamos enfrentar a resistência externa, mas devemos nos decidir se estamos prontos para defender consequentemente nossos interesses nacionais ou se vamos eternamente os sacrificar, debandando sabe-se lá para onde. Alguns políticos ocidentais já estão nos ameaçando não apenas com sanções, mas também com a perspectiva de agravamento dos problemas internos. Eu gostaria de saber o que eles têm em mente: a atuação de uma verdadeira quinta-coluna – de tipo diferente dos “nacionais-traidores” – ou calculam que poderão piorar a situação socioeconômica da Rússia e desse jeito instigar a insatisfação do povo? Julgamos esse tipo de declarações como irresponsável e claramente agressivo, e vamos reagir a isso de maneira conveniente. Além disso, nós mesmos nunca vamos procurar o confronto com nossos parceiros nem do Oriente, nem do Ocidente, pelo contrário, vamos fazer tudo o que for preciso para construir relações civilizadas de boa vizinhança, como também é devido no mundo moderno.

Estimados colegas!

Entendo aqueles que na Crimeia colocaram com extrema concisão e clareza a pergunta do referendo: ficar a península ou com a Ucrânia, ou com a Rússia. E posso afirmar com segurança que os administradores da Crimeia e de Sevastopol e os deputados dos órgãos legislativos de poder, ao formularem a pergunta do referendo, se elevaram acima dos interesses grupais e políticos e se orientaram colocando em relevo exclusivamente os interesses profundos do povo. Qualquer outra variação de plebiscito, por mais atraente que pudesse parecer à primeira vista, por força das particularidades históricas, demográficas, políticas e econômicas desse território, seria intermediária, temporária e instável, levaria inevitavelmente a um posterior agravamento da situação em torno da Crimeia e, da mesma maneira nefasta, se refletiria na vida das pessoas. O povo da Crimeia colocou a questão firmemente, sem compromissos nem meias-palavras. O referendo transcorreu com abertura e transparência, e as pessoas na Crimeia expressaram clara e decididamente sua vontade: elas querem ficar com a Rússia.

Também compete à Rússia tomar uma decisão complicada, tendo em conta toda a conjunção de fatores tanto internos quanto externos. Qual seria agora, por acaso, a opinião das pessoas na Rússia? Aqui, como em qualquer sociedade democrática, há diferentes pontos de vista, mas a posição da absoluta – quero sublinhar isso – da absoluta maioria dos cidadãos também é evidente.

Vocês sabem das últimas pesquisas de opinião recém-realizadas na Rússia: em torno de 95 por cento dos cidadãos consideram que a Rússia deve defender os interesses dos russos e dos representantes de outras nacionalidades que vivem na Crimeia. 95 por cento. E mais de 83 por cento afirmam que a Rússia deve fazer isso, mesmo que tal posição complique nossas relações com alguns Estados. 86 por cento dos cidadãos de nosso país confiam que a Crimeia continua sendo território russo, terra russa. E quase – eis um número muito importante que corresponde absolutamente ao que houve no referendo da Crimeia – quase 92 por cento se põem a favor da incorporação da Crimeia à Rússia.

Dessa forma, tanto a esmagadora maioria dos habitantes da Crimeia quanto a absoluta maioria dos cidadãos da Federação Russa apoiam a reunificação da República da Crimeia e da cidade de Sevastopol com a Federação Russa.

A causa depende da decisão política da própria Rússia. E ela somente pode estar fundada na vontade do povo, porque somente o povo constitui a fonte de qualquer poder.

Estimados membros do Conselho da Federação! Estimados membros da Duma Estatal! Cidadãos da Rússia, habitantes da Crimeia e de Sevastopol! Hoje, com base nos resultados do referendo ocorrido na Crimeia e com o apoio na vontade do povo, apresento à Assembleia Federal e solicito o exame da Lei Constitucional sobre a inclusão no território da Rússia de duas novas divisões federais: (9) a República da Crimeia e a cidade de Sevastopol, bem como a ratificação do Tratado de Entrada da República da Crimeia e da Cidade de Sevastopol na Federação Russa, preparado para assinatura. Não duvido que vocês vão apoiar!


Notas (clique no número pra voltar)

(1) Nikíta Sergéievich KHRUSCHÓV (1894-1971), primeiro-secretário do CC do PCUS (1953-1964), presidente do Conselho de Ministros da URSS (1958-1964), primeiro-secretário do CC do PC da Ucrânia (1938-mar. 1947 e dez. 1947-1949). Ajudou a desencadear na Ucrânia as repressões em massa de Stalin (década de 1930) e conduziu a chamada política de “desestalinização” de 1956 a 1964.

(2) Pequena região aquática que separa o extremo leste da península da Crimeia e uma longa faixa de terra que se estende do sul da Rússia. Em maio de 2018 Putin inaugurou ao longo desse estreito a maior ponte da Europa.

(3) Putin usa a palavra samostíinost (самостийность), um ucrainismo que significa “autonomia”, “independência” (para Estados ou órgãos de poder) ou “rebeldia”, “insubordinação” (em tom depreciativo). Em ucraniano, Samostíinist (Самостійність) foi o nome de um periódico nacionalista publicado de 1934 a 1937 em Chernivtsi, cidade então pertencente à Romênia. De 1990 a 2003 também existiu o partido ultranacionalista e antidemocrático Associação Pan-Ucraniana “Independência (Samostiinist) Estatal da Ucrânia”.

(4) “Maidan” é uma referência à Praça da Independência (em ucraniano, Maidán Nezalézhnosti), que fica no centro de Kyiv, capital da Ucrânia. Lá ocorreram os grandes protestos de massa em 2013-2014 que ficaram conhecidos como “Euromaidan” e levaram à queda do presidente Viktor Ianukovych, contrário à efetivação dos acordos de aproximação com a União Europeia desejados pelos manifestantes.

(5) Stepán Andríovych BANDÉRA (1909-1959) foi um líder nacionalista e antibolchevique ucraniano que tomou parte no braço armado do movimento a partir da década de 1930. Colaborou com os nazistas que invadiram a URSS em 1941, na expectativa de que eles favorecessem uma Ucrânia independente, e por isso participou do massacre de judeus e poloneses no oeste da república. Porém, suas esperanças foram traídas e ele acabou preso na Alemanha, em cujo lado ocidental continuou sua vida livre depois da guerra mundial. Foi assassinado por um agente do KGB que fugiu, ele mesmo, para o Ocidente em 1961.

(6) Esses trechos, traduzidos do russo, assim figuram no texto da resolução em inglês: “no general prohibition against unilateral declarations of independence may be inferred from the practice of the Security Council” (p. 31); “general international law contains no applicable prohibition of declarations of Independence” (p. 32). Disponível nesta página em PDF. Acesso em: 18 mar. 2019.

(7) Sigla em inglês para o Comitê de Coordenação para o Controle Multilateral das Exportações, fundado em 1949 e extinto em 1994. Criado no início da “guerra fria” pelo “bloco ocidental” sob a influência dos EUA, visava impor aos países do Comecon (a organização econômica dos países comunistas) um embargo essencialmente bélico e tecnológico. De estrutura precária, marginalizado pelos Estados aderentes e sob frequentes violações, não foi totalmente eficaz para proibir a chegada de tecnologia à URSS.

(8) Trata-se da dita “Rus kievita” ou “Principado de Kyiv”, chamada em eslavo antigo e em russo simplesmente de Rus (Русь), uma federação pouco rígida de povos fineses e eslavos orientais fundada em 862 por ocupantes varegues (vikings suecos) e dissolvida em 1240 sob a invasão mongol. Com Novgorod como primeira capital, transferida para Kyiv em 882, foi convertida ao cristianismo em 988 e é considerada a unidade ancestral dos atuais povos eslavos orientais (russos, belarussos e ucranianos). Todos eles reivindicam a “Rus” como antecessora de seus próprios países.

(9) Também conhecidas mais precisamente como “sujeitos (субъекты, subiékty) da Federação Russa”, já que as divisões administrativas da Rússia são bastante complexas: incluem repúblicas, krais (regiões), óblasts (províncias), ókrugs (distritos) autônomos, três cidades autônomas ou federais (Moscou, São Petersburgo e, desde 2014, Sevastopol) e o Óblast Autônomo Judaico.



quarta-feira, 3 de abril de 2019

Viabilidade e utilidade do Estado judeu


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/estado-judeu


NOTA: Sei que o tema deste artigo, em cujo arquivo está marcado 29 de maio de 2011 como data da última alteração, ainda hoje é polêmico e incomoda sensibilidades. Mas como ele tem tudo a ver com nossa atualidade brasileira e mundial, resolvi o republicar, fazendo aqui as devidas explicações. Nunca tive a opinião da esquerda extremista, de que o Estado de Israel “deveria ser destruído”, ou ao menos nunca desejei usar essas palavras. Meu foco, como sempre muito conciliador, foi justificar a possibilidade de transformar a Palestina num espaço não controlado por apenas um grupo político-religioso, dada a fragilidade do velho conceito de Estado-nação. Como vemos, apesar dos abalos, Netanyahu ainda é premiê israelense, e os ataques obscurantistas que citei no início se agravaram ainda mais. É paradoxal, mas no início do governo Dilma Rousseff jamais eu imaginava que no futuro teríamos um governo totalmente centrado em pautas cristãs e caudatário da política estadunidense no Oriente Médio. Segue o texto com poucas alterações redacionais.



Eu poderia falar da abominável intimidação política que censurou o “kit anti-homofobia” das escolas públicas, mas não domino bem as discussões sobre a natureza psíquica e biológica da homoafetividade, por isso decidi abordar política internacional. Meu argumento da vez é que, diante da ridícula intransigência do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu na questão palestina, confesso que não acho o Estado judeu atual viável sem o uso da força nem útil para o conjunto da humanidade. Ele é uma ameaça à paz na região e baseia-se numa forma ultrapassada de modelo nacional.

Como surgiu o atual conceito de Estado nacional? Até o século 19, os grandes impérios não eram baseados nos chamados “grupos étnicos”, mas na fidelidade de seu mosaico cultural ao domínio do soberano. É claro que Portugal, já no século 12, exemplifica o primeiro Estado nacional, mas não sob o mesmo pretexto da França e das recém-unificadas Itália e Alemanha. Ao longo do século 19, forjaram-se as ditas “identidades nacionais” ou “raciais”, compostas artificialmente de elementos como o biótipo, a língua, a história, a música, a religião, entre outros. Daí surgiram os movimentos que procuravam estabelecer territórios fixos para essas pretensas etnias, favorecidos, no início do século 20, pela queda dos grandes impérios, como o otomano e o austro-húngaro. O primeiro problema era óbvio: quem não pertencesse à etnia dominante não tinha direito à nova cidadania, o que motivou limpezas étnicas e deportações em massa. E ainda, os traços legitimadores citados acima nem sempre coincidiam, e a própria língua, por exemplo, era mais uma utopia literária do que algo usado pelo povo. Hoje em dia, com o contato frequente entre culturas e a internacionalização do capital, esse modelo esgotou-se, e as guerras em nome dessas identidades não atraem mais nossos jovens poliglotas, informados e de mente aberta.

O caso de Israel é mais complicado, porque a identidade judaica tradicional não tem a ver com língua, história, música ou cor da pele, dada a grande dispersão geográfica dos judeus, mas com algo tido como intocável pelo Ocidente: a religião. Ela foi a única coisa, e ainda assim não unanimemente, que os uniu em dois mil anos de diáspora. No mesmo século 19, iniciou-se o movimento sionista para forjar uma identidade judaica nacional e lutar por um Estado próprio na tão sonhada Palestina. Esta era, então, uma colônia britânica, e para lá muitos judeus começaram a migrar, convivendo em relativa paz com os árabes, porém com certas explosões conflituosas quando os nativos se chocavam com os colonizadores. Com o desmonte dos colonialismos a partir dos anos 1940, estava claro que ingleses e franceses perderiam o rico e estratégico Oriente Médio, inclusive a Palestina, fonte de água e de muita história. Não creio que a comoção com o Holocausto e o lobby sionista nos países ricos tenha sido a causa principal, mas caiu do céu para essas grandes potências, que viram na criação de Israel uma oportunidade para perpetuar uma base frágil, pois cercada de vizinhos hostis, mas bem localizada e armada até os dentes. Já conhecemos bem o histórico de guerras, mortes, desigualdade e exílios após 1948 para que os listemos novamente, mas a longa agonia dos árabes palestinos nos dá o que pensar sobre os falíveis motivos dessa discórdia.

Obviamente há muitos interesses ocultos, fora e dentro de Israel, para deixar as coisas como estão, mas a principal arma de guerra de judeus e palestinos, sem a qual eles podiam facilmente se pacificar, não é a política ou a cultura, mas o fundamentalismo religioso cego, origem de muitos ódios insolúveis no planeta. Primeiramente, lembremos que o hebraico moderno é uma invenção de fins do século 19 e início do 20, uma atualização do hebraico antigo, língua bíblica que não suplantara o iídiche, o ladino ou as línguas locais no cotidiano dos judeus do mundo. Mesmo a razão religiosa para se fundar um país não procede, pois como reger uma vida social tão complexa e diversa por mitos de veracidade impossível escritos há mais de 3000 anos? Da mesma forma, faz sentido que muçulmanos queiram a exclusividade da Palestina apenas por causa da longa permanência ou porque o profeta Maomé fez uma improvável ascensão aos céus na Cidade Santa? Não é à toa que as brigas não terminam, enquanto judeus e árabes poderiam viver muito bem juntos, regidos por um Estado não nacional ou binacional que concedesse direitos iguais a todas e todos independentemente de sua formação cultural e permitisse a livre circulação por qualquer uma das áreas de Jerusalém, a capital unificada desse novo território. Para se ter uma ideia do absurdo, comparemos com o conflito entre sérvios, croatas e bósnios, para o qual a recente prisão de Ratko Mladić pode ter sido um feliz amenizador: povos de mesma língua, história e tradições, separados, todavia, pelo inglório fato de serem, respectivamente, ortodoxos, católicos e islâmicos, divisão sem a qual suas “nacionalidades” não teriam razão de ser.

A superação desses exclusivismos e dessas fés embaçadas ajudará palestinos e israelenses a conviver em harmonia sem se irritar com as diferenças alheias. Não que devam abandonar suas crenças, mas ao menos mantê-las no foro privado, não usá-las como instrumento político e resolver por si sós suas discordâncias, como fizeram recentemente os grupos palestinos Hamas e Fatah, sem a ingerência de países e agentes econômicos poderosos o suficiente para coordenar a situação conforme seus interesses particulares. O Brasil pode dar o exemplo da paz entre diversos grupos que se unem para a construção do bem comum. O que esperamos, contudo, é que não soframos a mesma sorte da Palestina tendo rixas alimentadas por forças externas que desejam apenas dilapidar nosso patrimônio natural e material.



sábado, 30 de março de 2019

“Dwa serduszka” (traduction française)


Lien court vers ce billet : fishuk.cc/serduszka-fr


Ce morceau est devenu très connu parmi les cinéphiles parce qu’il contient le thème central du film polonais Zimna wojna (Guerre froide), sorti en 2018 et qui a disputé en 2019 l’Oscar du meilleur film étranger. Le film aborde l’ère communiste en Pologne, et qui chante est la protagoniste Joanna Kulig, dans la première vidéo en version jazz arrangée par Marcin Masecki et avec paroles adaptées par Mira Zimińska-Sygietyńska, et dans la deuxième vidéo en choral populaire ayant Kulig à la tête. Le poème original, à vrai dire, est d’origine populaire et a reçu une mélodie composée par Tadeusz Sygietyński. Le mot serduszko en polonais peut exprimer le diminutif de serce (cœur) ou la représentation stylisée d’un cœur, qu’on utilise en général dans des contextes d’amour et passion.

Guerre froide est un film dramatique qui se passe en Pologne et en France dans les années 40, 50 et 60, et a pour sujet central le roman entre un musicien et une jeune chanteuse découverte par lui. Dans la 91e édition de l’Oscar le film dispute les prix du Meilleur film étranger, Meilleur réalisateur et Meilleure photographie, après avoir été très applaudi dans sa première et remporté le Prix de la mise en scène au Festival de Cannes en 2018. Wiktor Warski (joué par Tomasz Kot) et Zula Lichoń (jouée par Joanna Kulig) mènent une relation d’amour profond, obsessif et destructif, mais comme ils vivent à l’époque de la Pologne communiste, ils doivent s’adapter aux règles du régime pour travailler. Quand ils essaient de fuir vers l’Occident pour jouir de la liberté de création, ils voient une occasion qui apparait en France, mais le destin termine par les séparer.

Pianiste et chef d’orchestre d’un groupe folklorique, Wiktor connait Zula en 1949, quand il faisait des compilations de chansons populaires de la campagne, et tombe amoureux d’elle par son caractère et ses talents artistiques. Parmi les plusieurs voyages du musicien et parmi les plusieurs tournées du groupe folklorique de la jeune fille, ils se rencontrent et se séparent souvent. Entretemps, Wiktor arrive même à être détenu dans un camp de travail forcé en Pologne, sous l’accusation de trahison et franchissement illégal de frontières, après être retourné dans son pays. Écoutez toute la chanson enregistrée par Kulig exclusivement pour le film, et aussi une ancienne présentation faite par le célèbre groupe folklorique Mazowsze.

Moi-même ai traduit et sous-titré cette partie de la chanson, en utilisant cette version sans sous-titres avec le couple déjà à Paris, au café L’Éclipse, et cette version sans sous-titres avec la scène au théâtre polonais, dont on peut lire à la porte la bannière avec les mots Partia – Naród (Parti – Peuple). Bien que la première aille un texte en anglais, c’était le meilleur fichier que j’ai trouvé, parce qu’il y en avait un autre sans changements, mais avec délai entre le son et l’image. La fin des paroles, lesquelles j’ai copiées de cette page, est un peu différente entre les deux versions. Regardez ci-dessous les respectifs sous-titrages publiées et lisez le poème en polonais avec les deuxièmes couplets différents l’un après l’autre, et la traduction française :




Dwa serduszka, cztery oczy, ojojoj...
Co płakały we dnie, w nocy, ojojoj...
Czarne oczka co płaczecie,
Że się spotkać nie możecie,
Że się spotkać nie możecie...

Mnie matula zakazała, ojojoj...
Żebym chłopca nie kochała, ojojoj...
A ja chłopca hac! za szyję,
Będę kochać póki żyję,
Będę kochać póki żyję...

Mnie matula zakazała, ojojoj...
Żebym chłopca nie kochała, ojojoj...
Kamienne by serce było,
Żeby chłopca nie lubiło,
Żeby chłopca nie lubiło...

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Deux cœurs, quatre yeux, oï, oï, oï...
Qui pleuraient jour et nuit, oï, oï, oï...
Petits yeux noirs, vous pleurez
Car ne pouvez pas se rencontrer,
Car ne pouvez pas se rencontrer...

Ma maman m’a interdite, oï, oï, oï...
De m’intéresser à un garçon, oï, oï, oï...
Mais je l’ai pris par le cou,
Je vais l’aimer toute ma vie,
Je vais l’aimer toute ma vie...

Ma maman m’a interdite, oï, oï, oï...
De m’intéresser à un garçon, oï, oï, oï...
Il me fallait un cœur de pierre
Pour qu’il n’aime pas le garçon,
Pour qu’il n’aime pas le garçon...



quinta-feira, 28 de março de 2019

Um fim à laicidade forçada (texto, 2011)


Endereço curto: fishuk.cc/forcada

Mais uma daquelas reflexões que escrevi quando tinha 23 anos, em 2011, quase terminando a faculdade de História. Com esse título, eu ainda tinha a obsessão sobre ateísmo e descrença, porque eu mesmo estava tentando me responder várias perguntas. Mas no final das contas, como era minha tendência, acabei misturando com questões históricas e políticas, e estes domínios predominaram na análise. Apesar do típico simplismo, lembrei que é quase impossível governar sem ter alguma conciliação com as grandes igrejas e retomei a noção de que sua separação institucional é muito recente, não cabendo mesmo hoje rupturas radicais. A grande sacada, ainda em 2011, foi supor que a “primavera árabe” tinha toda a possibilidade de se transformar num retrocesso, embora eu não previsse que ia desmontar toda a geopolítica mundial. Segue o texto sem alterações.



Religião é política. E os Estados democráticos não conseguem sustentar-se apartados do apoio e da conivência das grandes Igrejas. Essa verdade incômoda, pouco reconhecida em vários países ocidentais, desmente a possibilidade da existência de Estados realmente laicos dentro do modelo sócio-cultural em que vivemos.

O mesmo padrão é ainda mais verdadeiro às nações pouco desenvolvidas economicamente, nas quais a superstição é um substituto muito comum da ciência e da educação. E foi precisamente nesses países que a história comprovou ser fracassada de antemão qualquer tentativa lançada do alto de laicizar a sociedade ou de reduzir o papel e a influência das religiões na vida nacional.

O caso mais emblemático é o da Rússia soviética. E ele prova ainda que secularizações muito bruscas podem conduzir a formas ainda mais cruas de endeusamento e ritualização da política. Lenin, líder da revolução de outubro de 1917, passou boa parte de sua vida adulta exilado na Europa Ocidental desenvolvida e industrializada, em meio a círculos socialistas oficiosos ou conspiradores, longe do barbarismo e da supersticiosidade do atrasado império tsarista ortodoxo. Não sem antes, claro, ter recebido uma refinada educação típica de famílias abastadas para as quais o trabalho não era uma necessidade premente e ter cursado Direito, uma carreira então muito comum a jovens intelectuais politizados.

Ocidentalizado que era, Lenin aparentemente buscou moldar a Rússia à sua imagem e semelhança, ainda que seja muito duvidoso sugerir que ele pensasse e agisse mesmo como um russo médio ao querer realizar num salto a transição da Idade Média para o industrialismo avançado. E eis que surge Stalin, maior conhecedor da linguagem e das necessidades do povo e que, como já sabemos, amenizou o choque inicial ao criar uma nova espécie de fé orientalista em torno de sua pessoa e converter em teoria sagrada, ainda que em versão disforme, o comunismo marxista.

Em muitos países muçulmanos, o procedimento não foi diferente. Mustafá Kemal Atatürk, ditador que dissolveu o carcomido Império Otomano para fundar a Turquia moderna após a Primeira Guerra Mundial, obrigou a população a usar trajes ocidentais e impôs a substituição do alfabeto árabe pelo latino para escrever a língua nacional. No Irã, a dinastia ocidentalizante dos xás Pahlevi promoveu uma industrialização acelerada e uma inovação dos costumes cujos resultados de corrupção e pobreza ferveram o caldo de cultura propício à ascensão do regime islâmico, em 1979.

O iraquiano Saddam Hussein, recentemente enforcado pelos americanos, realizou diversas reformas, inclusive no tocante aos direitos das mulheres, mas ao custo de reprimir curdos e xiitas e de criar o cenário ideal para a explosão do radicalismo terrorista. Já a junta militar que está governando o Egito se depara com o duplo desafio de preencher o vazio deixado por três presidentes que, de 1953 a 2011, reprimiram a Irmandade Muçulmana, influente grupo extremista do país, e de atender aos clamores de uma população fortemente conservadora no quesito religião. Isso para não citarmos as autocracias laicas do Marrocos, Argélia, Tunísia, Síria, Iêmen e Jordânia, já depostas ou em vias de abalo ou desagregação.

Existem ainda exemplos caseiros e mais inteligíveis. Recentes ondas de ateísmo militante e humanismo secular promovem uma cruzada contra o que chamam de interferência religiosa no Estado laico brasileiro. Elas não conseguem enxergar, todavia, que esse mesmo Estado, por mais de trezentos anos, viveu umbilicalmente ligado à Igreja Católica e que, mesmo durante a República, o velho conúbio prosseguiu dando mostras de vitalidade. Elas não compreendem que, desde tempos quase imemoriais, qualquer estrutura governante sempre esteve atada a uma religião oficial, sendo ambas, por isso, frutos de um mesmo modelo institucional, e que a ideia dessa separação tem apenas pouco mais de dois séculos e meio. Se não é mais o credo romano que monopoliza a influência na política, ainda assim vemos leis que favorecem amplamente as instituições religiosas com isenção de impostos e proteção patrimonial em troca de mobilização de votos e de apoio político, quando os próprios sacerdotes não ocupam cargos nos três Poderes.

Enfim, esses novos movimentos não percebem que a superação das religiões instituídas virá somente quando for superado o atual modelo estatal, ou melhor, quando mudanças sociais mais profundas levarem de roldão esses dois gigantes. Em outras palavras, não é a retirada dos crucifixos das repartições públicas que tornará o serviço melhor, nem a adoção do ateísmo em larga escala que nos deixará mais ricos ou instruídos. Pelo contrário, é a construção de uma sociedade mais próspera, racional, autossuficiente e justa que dispensará o gasto de energia com fantasias sobrenaturais ou mitos consoladores.

O mesmo Lenin que citei atrás, num texto de 1905 chamado “Socialismo e religião”, ensina que a unidade dos trabalhadores para a construção do paraíso na Terra era mais importante do que sua unidade de opiniões sobre o paraíso no céu. Para ele, ainda que os revolucionários se declarem ateus, eles não podem fragmentar as forças que lhes é possível reunir por causa de delírios sem significado político e rapidamente “jogados no ferro-velho” pelo curso do desenvolvimento econômico.

Por isso, quem sabe não colaboremos melhor para a edificação de um mundo mais humano resolvendo nossos problemas materiais imediatos do que sonhando com Inquisições laicas bitoladas em miudezas ornamentais, fabulosas e, quando muito, lúdicas.


Bragança Paulista, 27 de agosto de 2011.



terça-feira, 26 de março de 2019

Joanna Kulig – “Dwa serduszka” (2018)


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/serduszka


Este trecho ficou muito famoso no mundo do cinema por conter o tema principal do filme polonês Zimna wojna (Guerra fria), lançado em 2018 e que concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2019. O filme trata do período comunista da Polônia, e quem está cantando é a atriz protagonista, Joanna Kulig, no primeiro vídeo em versão jazz com arranjos de Marcin Masecki e letra adaptada por Mira Zimińska-Sygietyńska, e no segundo vídeo em coral popular com Kulig à frente. O poema original, na verdade, possui autoria anônima, e recebeu melodia própria de Tadeusz Sygietyński. A expressão serduszko pode significar em polonês o diminutivo de serce (coração) ou a figuração estilizada de um coração, que usamos em contextos apaixonados.

O filme Guerra fria é um drama que se passa na Polônia e na França entre as décadas de 40 e 60, e tem como centro do enredo um diretor musical que descobre uma jovem cantora e termina engatando um romance com ela. Nesta edição 91 do Oscar, a película concorreu aos prêmios de Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Fotografia e Melhor Diretor, tendo sido muito aclamado ao estrear e ganhar a palma de Melhor Diretor no Festival de Cannes em 2018. Wiktor Warski (com o ator Tomasz Kot) e Zula Lichoń (interpretada por Joanna Kulig) levam uma relação de amor profundo, obsessivo e destrutivo, mas como vivem no período da Polônia comunista, têm que se adequar às regras do regime pra trabalhar. Tentando fugir pro Ocidente pra desfrutarem de liberdade criativa, veem uma oportunidade surgir na França, mas o destino acaba os separando.

Pianista e maestro de um grupo folclórico, Wiktor encontra Zula em 1949, quando fazia compilações de canções populares no interior, e se apaixona por seu caráter e talento de voz e dança. Entre as muitas viagens do músico e entre as muitas turnês do grupo folclórico da moça, eles vão se encontrando e se separando. Nesse meio Wiktor é inclusive preso num campo de trabalhos forçados na Polônia, acusado de traição e cruzamento ilegal de fronteiras, quando retornou um dia a seu país. Kulig gravou a faixa completa especialmente pro filme, e o famoso grupo folclórico Mazowsze também já tinha sua apresentação.

Eu mesmo traduzi e legendei o trecho da canção, tendo baixado um vídeo sem legendas com a cena do casal no bar L’Éclipse, em Paris, e outro vídeo sem legendas com a cena no teatro polonês, em cuja entrada há inclusive uma faixa escrita Partia – Naród (Partido – Povo). Apesar do primeiro ter legendas em inglês, foi o melhor que achei, pois um que estava sem intervenção nenhuma não tinha sincronia do som com a imagem. O final da letra, a qual copiei desta página, difere um pouco nas duas versões. Seguem as respectivas legendagens, a letra em polonês com as segundas estrofes diversas se seguindo, e a tradução em português:




Dwa serduszka, cztery oczy, ojojoj...
Co płakały we dnie, w nocy, ojojoj...
Czarne oczka co płaczecie,
Że się spotkać nie możecie,
Że się spotkać nie możecie...

Mnie matula zakazała, ojojoj...
Żebym chłopca nie kochała, ojojoj...
A ja chłopca hac! za szyję,
Będę kochać póki żyję,
Będę kochać póki żyję...

Mnie matula zakazała, ojojoj...
Żebym chłopca nie kochała, ojojoj...
Kamienne by serce było,
Żeby chłopca nie lubiło,
Żeby chłopca nie lubiło...

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Dois corações, quatro olhos, oi, oi, oi...
Que choravam dia e noite, oi, oi, oi...
Olhinhos negros, vocês choram,
Pois não podem se encontrar,
Pois não podem se encontrar...

Minha mamãe me proibiu, oi, oi, oi...
De gostar de um rapaz, oi, oi, oi...
Mas o agarrei pelo pescoço,
Vou amá-lo por toda a vida,
Vou amá-lo por toda a vida...

Minha mamãe me proibiu, oi, oi, oi...
De gostar de um rapaz, oi, oi, oi...
Só sendo um coração de pedra
Para ele não amar o rapaz,
Para ele não amar o rapaz...



domingo, 24 de março de 2019

Ser ateu é bom? 3 – Ter ou não ter fé?


Endereço curto: fishuk.cc/ateubom3

Na segunda metade de 2011 escrevi uma trilogia de pequenos artigos que revisei levemente em meados de 2012 pra republicar no blog Materialismo.net. O título geral é “Ser ateu é bom?”, e com ideias pessoais tento explicar as possíveis vantagens e poréns do abandono da própria religião ou mesmo da crença em deuses. Como eu disse outras vezes, não mais me preocupo tanto com autodefinição religiosa, e algum estudo histórico bastaria pra relativizar certas assertivas que lancei. Porém, esse exercício foi importante pra eu treinar redação e argumentação com textos e buscar libertar minha própria mente de certos medos. Na parte 3, “Ter ou não ter fé?”, relativizo o chavão de que o ateu seja necessariamente uma pessoa seca, amarga, apática ou obscura, coisas que na verdade ocorrem quando não se tem uma meta na vida. Pelo contrário, se antes as crenças religiosas podiam nos inibir, agora nos sentimos senhores de nosso destino e livres pra edificar uma felicidade real. Isso, claro, exige responsabilidade, pois não podemos atribuir nossas falhas a forças maiores nem atrapalhar a liberdade alheia. Segue abaixo o texto sem alterações.



Uma acusação quase sempre imputada ao ateu é a de que ele “não tem fé em nada”, ou seja, leva uma vida seca, sem regras, obscura e triste, portanto, sem moralidade, sem freios aos impulsos naturais e sem motivos para respeitar as outras pessoas. Assim, o ateu seria naturalmente alguém vazio e, ocasionalmente, até criminoso. Pode-se contrapor a isso que a fé, entendida como crenças pessoais, não é uma exclusividade das religiões, e que um ateu, por isso, pode levar uma existência radiante e plena de significado.

É claro que dizer que o ateu pode adotar princípios individuais edificantes não significa que ele deva fazê-lo, ou que sempre o faça. Não existem regulamentos que determinem no que o ateu deve ou não acreditar ou seguir, até porque, como eu já disse, o ateísmo por si só é a “crença numa ausência”, por isso não implica valores positivos compulsórios. Desse modo, podem existir ateus muito desorientados, mas o fato principal é que nem todo religioso alcança a felicidade e a satisfação com seus dogmas. Às vezes, eles lhe foram impostos de fora, sem escolha consciente, e se incrustaram em seu psicológico, constituindo, pois, mais um fardo do que um guia de aconselhamento. Esse foi o meu caso, e por isso meu rompimento com a religião foi mais doloroso.

Agora, uma questão crucial. Estudos clínicos dizem que as pessoas ativamente religiosas (trocando em miúdos, as que têm mais fé) vivem mais e são menos propensas a ficar doentes. E é verdade, além do que suas crenças constituem muitas vezes um consolo na fraqueza ou na iminência da morte. Admito isso, mas outras pesquisas também apontam que a moralidade não vem da religião, mas sim, de fatores bastante terrenos, desligados do seguimento a este ou aquele mito específico. Vamos tentar extrair um denominador comum: confiança em si, autonomia intelectual e perspectiva de um futuro cheio de planos ligados à realização pessoal. Pronto: o fator esperança!

A esperança, sim, é o denominador comum de todas as formas de confiança nos próprios princípios e na própria capacidade de superar problemas. Ela provém da consciência do quanto somos importantes para nós mesmos, para nosso círculo íntimo ou talvez até para grupos maiores. E como cada ser humano é um universo em si, apenas ele mesmo irá determinar o que desperta sua segurança. Deve-se reconhecer que a religião tem fatores que a deixam na frente, como a mitologia costumeiramente otimista e grandiloquente, o ritualismo hipnotizador e o senso de pertencimento a uma comunidade unida e solidária. Contudo, nada que possa ter papel diferente da leitura ou contato com exemplos de vida enobrecedores, da fruição do que há de melhor na arte visual e musical e de um círculo de amigos ou coidealistas fiel e sincero.

Além disso, a lista de prioridades ético-sociais (sempre ligada, como se afirmou acima, a uma suficiente autoestima e a um conhecimento da importância do sujeito para o meio em que vive) varia muito de acordo com as experiências particulares. Um ponto pacífico é que, por razões evolutivas e históricas, nunca nos sentimos bem ou seguros quando os outros são prejudicados (ao menos que sejamos vítimas de um rancor anormal), já que cada vez mais ampliamos nossa capacidade comunitária existente desde a condição de primatas. E o que condiciona a manutenção desse estado é justamente a liberdade para que todos sejam si mesmos, desde que isso não prive os vizinhos do mesmo direito. E, o mais importante, nós mesmos não nos privarmos de tal desfrute, seja por pressões internas ou externas à nossa mente.

Encontramos, finalmente, a essência da “fé do ateu”, se é que pode ser assim chamada e se é que, por vicissitudes próprias, todos comungam desta mesma qualidade: o fim da escravidão às unanimidades forçadas e a coragem de se colocar como subjetividade autônoma, cujas vivências e contribuição ao mundo têm valor igual ou maior ao de iluminações privadas transformadas em códigos imutáveis, idólatras e alienantes.


Bragança Paulista, 25 de setembro de 2011.
Levemente modificado a 16 de julho de 2012.


sexta-feira, 22 de março de 2019

Tito e Fidel, comunistas dos anos 1960


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Estes dois vídeos foram iniciativas de postagem isoladas, por isso não se encaixavam a princípio num tema comum que pudesse ser transformado num texto desta página. Mas sendo filmagens com dois líderes destacados do movimento comunista no início dos anos 1960, achei que valia a pena apresentá-los juntos aqui. Nessa década, o movimento comunista chegaria ao auge de seu prestígio, e as lutas anticoloniais e de libertação nacional, apoiadas ainda pelos chamados “países não alinhados”, constituiriam um novo campo fértil pra experiências políticas vindas de Moscou.

Contudo, a partir do fim da década, sobretudo depois da intervenção contra as reformas na Checoslováquia em 1968, a popularidade do comunismo soviético caiu gradualmente. Desde o mesmo ano, com as explosões de revolta juvenil em Paris e outras capitais ocidentais, o maoismo chinês parecia ser uma nova alternativa, mas ele também logo se revelaria autoritário e dogmático. Tito, da antiga Iugoslávia, tinha ganhado prestígio como chefe da resistência antifascista nos Bálcãs, mas sua experiência já estava fortemente institucional. Fidel Castro, de Cuba, gozava da aura jovem que passava a maioria dos líderes de sua revolução, e ainda hoje exerce razoável fascínio nas esquerdas latino-americanas. Mas o experimento real do socialismo cubano perdeu grande parte da atratividade, pois as lideranças não se renovaram, Fidel morreu em 2016 e as presentes reformas convivem com estagnação e pobreza.


O primeiro vídeo é um trecho de documentário soviético que eu mesmo já traduzi e legendei, contando a visita de Fidel Castro Ruz, líder de Cuba, a Moscou e outras localidades da URSS em 1963. Comandante da Revolução Cubana de 1959, ele está fazendo o encerramento do discurso aberto ao público em 28 de abril, na tribuna do mausoléu de Lenin na Praça Vermelha. Parece que só existe uma cópia sem legendas da cinecrônica inteira no YouTube, postada por alguém que fala espanhol e ainda com poucas visualizações.

Na montagem que eu fiz, vocês podem escutar o discurso três vezes, com legendas em português, espanhol (língua original) e russo. Nesta edição em PDF do jornal soviético Krasnoe znamia podem-se ler os discursos completos de Nikita Khruschov e Fidel Castro em russo. Como o que foi dito durante a interpretação consecutiva não é idêntico ao que foi transcrito no jornal, segue o texto em russo, com algumas divergências entre colchetes:

“Позвольте мне от полноты чувств [как самое справедливое выражение моих чувств] [в честь того, кто больше был достоин] воскликнуть – слава Ленину! Да здравствует пролетарский интернационализм! Да здравствует дружба между кубинским и советским народами! Да здравствует Советский Союз! Родина или смерть! Мы победим!”

(Permitam-me, como a mais justa homenagem a quem teve o mérito maior, exclamar: Viva Lenin! Viva o internacionalismo proletário! Viva a amizade entre o povo soviético e o povo cubano! Viva a União Soviética! Pátria ou morte! Venceremos!)


O segundo vídeo são breves frases de um famoso discurso público de Josip Broz, o Marechal Tito, presidente da Iugoslávia socialista, feito na cidade croata de Split, em 7 de maio de 1962. Um vídeo com os principais trechos do discurso está há mais de 10 anos no YouTube, mas nunca achei a transcrição da fala. Mesmo tendo estudado um pouco de servo-croata por algum tempo, ainda não me sinto capaz de transcrever só de ouvido, até porque às vezes o líder fala meio rápido.

Só sei que na Biblioteca de Belgrado há um exemplar, não disponível online, desse discurso completo em Split, e certamente sem grandes alterações. Após algum esforço, consegui achar apenas a transcrição da segunda parte deste vídeo, cujo editor felizmente lhe melhorou a qualidade. São dois trechos isolados, usuais em sites de citações. O grande problema foi que, assim como outros trechos do discurso, não consegui achar nem mesmo o que Tito fala na primeira parte.

Comparando com várias fontes e com o áudio de Tito, eu mesmo fiz uma transcrição fixa, traduzi, legendei e cortei o quadro e alguns trechos do upload citado, cujo canal recomendo que vocês visitem com mais atenção. Ao final, Druže Tito, mi ti se kunemo (Camarada Tito, somos fiéis/leais a você) era uma espécie de refrão popular cantado na época da ditadura, sob diferentes versões. Seguem o texto em servo-croata (alfabetos latino e cirílico) e as traduções em português e francês (esta feita pra um grupo de debates):

“Mi smo more krvi prolili za bratstvo i jedinstvo naših naroda. E nećemo nikome¹ dozvol’ti da nam dira ili da nam ruje iznutra, da se ruši to bratstvo i jedinstvo. [...] Ni jedna naša republika ne bi bila niko i ništa, da nismo svi zajedno! A mi moramo stvarati... a mi moramo stvarati svoju istoriju, svoju jugoslavensku² socijalističku istoriju i jedinstvenu ubuduće.”

¹ Forma mais comum: “nikomu”.
² Forma mais comum: “jugoslovensku”.

“Ми смо море крви пролили за братство и јединство наших народа. Е нећемо никоме дозвол’ти да нам дира или да нам рује изнутра, да се руши то братство и јединство. [...] Ни једна наша република не би била нико и ништа, да нисмо сви заједно! А ми морамо стварати... а ми морамо стварати своју историју, своју југославенску социјалистичку историју и јединствену убудуће.”

(Derramamos um mar de sangue pela fraternidade e unidade de nossos povos. E não permitiremos que ninguém nos ataque, nem conspire de dentro, nem destrua essa fraternidade e unidade. [...] Nenhuma república nossa seria algo ou alguém se não estivéssemos todos juntos. E devemos escrever... e devemos escrever nossa própria história, nossa própria história socialista iugoslava e unida para o futuro.)

(Nous avons versé une mer de sang pour la fraternité et l’unité de nos peuples. Nous ne permettrons pas que personne ne nous attaque, conspire de dedans, détruise notre fraternité et unité. Aucune république à nous ne serait rien si nous n’étions pas tous ensemble. Nous devons créer notre propre histoire socialiste yougoslave et unie pour l’avenir.)