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segunda-feira, 15 de junho de 2026

Como seguir as atualizações da página

Se você realmente quiser pular a reflexão pessoal e ir direto ao aspecto prático que interessa, clique aqui.


Esta publicação tem um pouco de vários caracteres: informativo, planificador, comunicativo, reflexivo. Por que eu estaria preocupado com o modo como os leitores frequentes deste blog que prefiro chamar de “página” recebessem atualizações de conteúdo novo, e por que eu ainda não estaria satisfeito que as pessoas simplesmente encontrassem meus textos por acaso numa busca online? A questão não é tão simples, e quero abordar alguns assuntos que têm ocupado meus pensamentos nos últimos anos.

Definitivamente, os blogs decaíram com a ascensão das novas mídias sociais, porque ninguém mais tinha energia e inteligência pra ler e escrever tanto, e porque um Facebook, um Instagram ou um YouTube da vida são muito mais ágeis quanto à distribuição e notificação de conteúdo e à obtenção de público (no qual, potencialmente, já estão teus contatos usuais). Com o fracasso das experiências do Orkut e do Google+, a Alphabet investiu massivamente no “Você Transmite”, de forma que ele acabou perdendo sua essência original de “vlogueiros caseiros” e se tornou uma verdadeira Netflix semigratuita. Aliás, acariciados com o enganoso nome “canal” (Netinho de Paula que o diga!), os velhos “vloggers” que botavam a boca no trombone se tornaram “youtubers” que morriam pra se encaixar na cultura de massas, e depois “influenciadores”, cópias ruins uns dos outros, que catequizam (por isso sendo em número bem mais restrito) os bilhões de gados dopados por seus smartphones.

Exemplo dessa negligência são os muitos usuários que criam seus blogs e, quando param ou mudam de plataforma, não o apagam nem deixam uma mensagem de adeus. Mari Moon deletou o seu, mas Viih Tube não posta desde 6 de fevereiro de 2015, e ainda podemos nos divertir com álbuns completos de sua puberdade. Uns poucos heróis, talvez por comodismo ou praticidade, se ativeram ao Blogger, antigo Blogspot, o serviço de “diários digitais” do próprio Google, a exemplo meu mesmo e da ativista e professora “Escreva Lola Escreva” Aronovich, que está há muito mais tempo na praça e, claro, chegou muito mais longe. Mas se excetuarmos uma única grande mudança técnica ocorrida uns anos atrás, o Blogger é um serviço praticamente abandonado pela casa-mãe, e estou esperando a hora em que ele pode ser subitamente fechado sob a desculpa de “não estar dando lucro”. Acho pouco provável que esse momento chegue, mas se chegar, ainda pode demorar bastante, pois a capacidade de monetizar esses dinossauros pelo Adsense lhes dá uma sobrevida, mesmo que os fins sejam os mais escusos possíveis.

Exceto pelo Wordpress, outro idoso que sempre foi o queridinho de um público mais seleto, serviços mais modernos chegaram pra reabilitar e recauchutar a “blogagem”, entre os quais o Medium e o Substack. Porém, também limitados a um nicho de usuários com outros hábitos e mentalidades, não chegam aos pés das atuais redes sociais ou “mídias digitais” onipresentes, cada vez mais poderosas e tóxicas. Não vou entrar no mérito do Twitter, que aqui chamo carinhosamente de “Équis” e se popularizou chamado de “rede de microblogs”, mas que hoje se parece muito mais com os serviços da Meta, porém com menos funcionalidades. Por enquanto não falei de notificações, mas de conteúdo, e esta foi realmente a essência de uma de minhas mudanças: após anos usando assiduamente as redes tradicionais, em 2015 (quando a discussão sobre vício ainda estava começando e ninguém falava de violência e conteúdo enganoso!) parei de ter perfis fixos ou manipulados diariamente, exceto por alguns intervalos entre 2019 e 2022, em que cheguei a usar Instagram com alguma frequência.

Como já escrevi outras vezes, e como alguns amigos e conhecidos meus já sabem, criei no YouTube o canal Pan-Eslavo Brasil em 20 de novembro de 2010 como uma simples plataforma pra carregar os vídeos históricos que eu traduzia e legendava. Nunca considerei “youtuber” uma profissão nem jamais pretendi “influenciar” ninguém. Após maturação relativamente longa, este blog que chamo de página veio mais tarde, em 1.º de agosto de 2014, quando o Blogger ainda não tinha caído no esquecimento e eu pretendia ter também uma plataforma pra meus textos escritos, fossem eles originais ou traduções de terceiros. Entre 2009 e 2011, também cheguei a escrever textos em blogs pouco divulgados e de vida curta, e de 2012 a 2014 usei o Materialismo.net pra divulgação de ideias pessoais; a criação de um espaço próprio também reuniria escritos já prontos que eu achasse interessante relançar, com pouca ou nenhuma modificação.

Pra quem não se lembra, e pra informação dos jovens, no início da década de 2010, o canal do YouTube era automaticamente vinculado a nosso perfil no Google+, onde novos vídeos eram divulgados na hora (se alguém seguia nosso perfil, em dinâmica semelhante ao Instagram) e onde devíamos fazer as mudanças (foto, nome, descrição) que se refletiriam na plataforma. Somente mais tarde surgiu a possibilidade de desvincular os dois serviços e, se quiséssemos, de apagar nosso Google+, até finalmente aparecer nosso familiar YouTube Studio. Também devo confessar que por falta de ousadia, nunca experimentei outras plataformas de blog, já que ter uma conta do Google (como foi meu caso a partir da criação do Pan-Eslavo Brasil, e tive várias além daquela) dava acesso imediato ao serviço do Blogger. Somente em algumas semanas de teste, a primeira versão do que seria meu primeiro blog, o “Pensadores Libertos” (2009-10), foi hospedada no UOL, que assinei de 2000 a 2011.

Nunca busquei vincular diretamente o canal ou a página ao Orkut (que em 2012 quase ninguém mais usava), Facebook ou Instagram, no sentido de criar um espaço dedicado especialmente a eles. No caso do Facebook, eu postava meus novos vídeos ou textos no próprio perfil pessoal ou, o que era mais arriscado, em grupos a que pertencia, mas de cujas regras nem sempre lembrávamos ou cujos administradores eram mais sensíveis a certos conteúdos... Pra ser mais exato, a primeira vez que fiz uma página do Facebook dedicada ao canal foi em meados de 2014, quando reaproveitei uma página inicialmente dedicada ao historiador Edgard Carone, mas jamais alimentada. Como interagia muito e tinha muitos contatos com os mesmos interesses que eu (mesmo que politicamente discordantes), a página cresceu espantosamente e em poucos dias chegou a ter mais de dois mil seguidores! Pra efeito de comparação, no início de 2015 o próprio canal mal reunia 1,5 mil almas... Por motivo que até hoje desconheço, decidi apagar perto do fim de 2014 aquela que poderia ter sido um sucesso de público e, quem sabe, reunido até 1 milhão de facebookers ao longo do tempo.

Nunca mais repeti a façanha. É claro que minha decepção emocional com aquele site (já que eu quase não usava o aplicativo no smartphone) de alguma forma me levaria a jogar tudo pro ar de qualquer jeito; ou quem sabe a manutenção e sucesso da página me levariam a pensar duas vezes. Em todo caso, mantive depois páginas no Facebook dedicadas ao canal ou à página por curtos períodos, sem reunir muitos seguidores e logo “enjoando” de cuidar de sua administração. O mesmo ocorreu com o Instagram, no qual cheguei a ter perfis pessoais e/ou dedicados ao canal e/ou à página, mas que não durariam muito nem chegariam ao mesmo sucesso da pioneira no Facebook em 2014, quando o fenômeno da rede social tinha chegado ao ápice; muito menos aos números do próprio canal, que alcançou os 10 mil inscritos durante a Copa na Rússia em 2018 e “faleceu” em 11 de agosto de 2021, após passar os 42 mil fãs.

O que quero dizer com toda essa digressão? Quero dizer que, exceto pelos meios muito limitados que o Blogger ainda oferece pra notificação de novas publicações a eventuais interessados, sem que eles precisem ficar visitando a página o tempo todo, jamais mantive outras mídias que as pessoas frequentassem mais e, assim, pudessem saber imediatamente das novidades. Às vezes foi falta de paciência (preferir manter o foco na alimentação da própria página), às vezes frustração (usar também como rede pessoal, mas não sentir o mesmo calor humano do passado), mas quase sempre consciência de que o império do algoritmo tornava as coisas cada vez mais difíceis pra quem (re)começava do zero, e não estava já no pedaço há um bom tempo. Se você não se engajasse com outras contas, fosse seguindo, curtindo ou comentando, nem publicasse o máximo possível, você ficaria invisível, mesmo que outros porventura procurassem exatamente o tipo de conteúdo que você publica. E mesmo querendo manter um “espaço fixo” que pudesse crescer gradualmente, com publicação ocasional, a ânsia de querer logo mais inscritos e a insatisfação com as interações pessoais minavam a possibilidade de qualquer acúmulo.

Quem conhece as principais plataformas de blogs sabe que o meio mais frequente e natural de seguir novas publicações é... tornar-se um seguidor, ora bolas! De fato, esta página não foi criada na atual conta do Google que a hospeda, datada de 2016 ou 2017, mas na conta destinada a abrigar o Pan-Eslavo Brasil e aberta na mesmíssima data em que criei o canal e carreguei o primeiro vídeo. Aliás, em novembro de 2010, após o fim de meu primeiro blog, eu estava sem conta do Google, sobretudo porque eu usava o e-mail do UOL, e não o Gmail ainda. Só recriei uma conta aqui pra poder usar o YouTube, e era justamente aquela vinculada ao correio eletrônico com nome de usuário pensamentoliberto, de que alguns conhecidos se lembram e que só abri em 2011 por causa do abandono do UOL.

Na primeira versão da página, lançada em 2014, cheguei a ter mais de 70 seguidores, alguns dos quais conhecidos que já não vejo há tempos, e (pouco até pra quase oito anos) mais de 900 mil visualizações únicas de página. Com o fim do Pan-Eslavo, em 2021, não vi sentido em manter duas contas do Google, mesmo que fosse só pra manter os inscritos da página, tanto mais que sequer podia fazer outro canal no YouTube com ela. Além disso, tinha se tornado uma conta “velha” com resquícios de recursos “velhos” que eu nem sequer conseguia apagar. Até pra “esquecer” afetivamente esse passado, resolvi transferir a página pra nova conta (esta que vocês veem agora), apesar do trabalhão que deu e, pior, da impossibilidade de manter ou comunicar aqueles mais de 70 inscritos! Verdade seja dita: muita gente ao longo dos anos criou contas no Blogger só pra seguir blogs, mas deve ter parado de os ler e simplesmente “largado” lá, o que as torna de fato seguidoras em número, e não em conteúdo.

Lançada pra valer em junho de 2022 (o espaço já estava público desde fevereiro, mas aguardando o apagamento da conta do Google 2010-2022), a versão da página nesta nova conta teve uma fortuna contraditória. Em seu pico, salvo se houver nova tendência de crescimento, alcançou apenas 26 ou 28 seguidores, o que organicamente não é irrisório, levando-se em conta que não fiz mais divulgação sistemática em redes sociais (mesmo em grupos de terceiros) e que poucos são os que hoje fazem perfis no Blogger. Contudo, em bem menos tempo, ultrapassei o 1,9 milhão de visualizações únicas, estando não muito longe de chegar a 2 milhões. Isso se deve, claro, ao aumento de usuários da internet, que chegam aqui usando inclusive ferramentas de IA, aos visitantes antigos que continuaram vindo e, talvez, divulgando, e à variação do conteúdo com ocasionais acelerações no número de novas publicações. Porém, alguém pode me corrigir, mas suspeito que haja tráfego “não orgânico”, como se fossem bots vindos não sei de onde e que também agem em redes sociais. Até porque, exceto se for caso de VPN ou imigração, boa parte desse tráfego está localizada nos EUA e outros países aos quais meu conteúdo não interessaria amplamente. Mas não é algo que me incomoda tanto.

É interessante e comovente que alguns jovens têm trilhado na contramão e criado perfis somente pra seguir determinados blogs, como é o caso da própria Lola Aronovich, bem como do meu, cuja caixinha localizada do lado direito da tela conta também com outros antigos conhecidos que “reapareceram”, rs:



O RSS é um instrumento tão arcaico e desusado que nem sequer resolvi incorporar aqui. Também não há mais a possibilidade de seguir por e-mail, e a outra possibilidade que é eu mesmo inserir manualmente os e-mails nas configurações exige, primeiramente, que a criatura aceite o convite (e alguns que eu julgava “amigos” ousaram recusar!), e ainda por cima é limitada a dez endereços, pode isso? Alguns contatos próximos recebiam essas atualizações, mas também desativei, porque essa limitação tirava toda a graça do recurso. Antes que você pergunte: sim, quando fazia páginas do Facebook pra divulgar o conteúdo, eu as incorporava aqui, mas agora você sabe o que eu terminava fazendo.

Afinal das contas, se tenho gradualmente abandonado as redes sociais, sobretudo na busca por manter um “perfil baixo”, se meu objetivo tem sido publicar mais pra ter um patrimônio cultural público do que pra adquirir engajamento e se, com o passar dos anos, tenho dado bem menos prioridade à produção de conteúdo e mesmo à tradução em geral, como era o caso na década de 2010, pra buscar ou me dedicar a atividades profissionais acadêmicas ou burocráticas... Afinal de contas, pra que me preocupar sobre como as pessoas vão seguir minha página (não tenho nenhuma pretensão de voltar ao YouTube!) se elas podem vir aqui a qualquer momento? Bem, isso implica contar sobre meus planos futuros.

Se você chegou até aqui sem pular parágrafos, ou você é um herói ou heroína “fora de seu tempo”, ou você realmente gosta muito de mim e/ou de meu conteúdo: a esmagadora maioria da “sociedade de massas” viciada em redes sociais, figurinhas coloridas e videozinhos curtos não aguentaria mais de dez linhas, quem sabe menos! Realmente, toda essa volatilidade quanto a espaços em redes sociais se deve exatamente à incerteza sobre o papel que elas podem ter em minha vida pessoal, profissional e cultural (relacionada a esta página). Afinal, até o Gemini deduziu (depois que digitei “Erick Fishuk”...) que, depois da queda do Pan-Eslavo, resolvi “centralizar” aqui todas as minhas traduções, rs. Havia também a possibilidade de, pagando ou não, publicar textos e vídeos maiores em redes tradicionais, depois de terem tecnicamente avançado muito, mas não só não desejo alimentar o modelo de negócio delas, como também tem a questão do “comodismo”: se já estou no Blogger, pra que republicar tudo “alhures” ou publicar as mesmas novidades duas vezes?

Obviamente eu uso um pingo de redes sociais: WhatsApp, porque é vital pra sobreviver nessa semicolônia latifundista e agroexportadora, e Telegram, como reserva pra qualquer hecatombe na Meta, pra outros países que o usem mais e porque acho bem mais rico em recursos. (OK, tenho usado secretamente uma conta do Instagram pra conversar com um punhado de amigos, mas até o fim de junho já tô querendo apagar de novo, então nem tente me procurar.) Pra se ter uma noção, desde que conheço o Telegram ele permite um nome de usuário particular, o que até agora nem o onipotente Zuckerberg conseguiu copiar! Além do conhecido grupo que mantive no WhatsApp de 2018 a 2020 (mais destinado, é verdade, à socialização), várias vezes criei canais nos dois aplicativos como alternativas de divulgação, mas logo perdia a paciência e apagava.

Confesso que o grande problema era a própria falta de plano de longo prazo pra manter esses espaços: primeiro, eu não tinha paciência de esperar vê-los crescerem; segundo, publicava muitos conteúdos aleatórios, inclusive links de notícias e vídeos que caberiam mais a mensagens privadas pra amigos; e terceiro, a relação com o conteúdo já existente, fossem arquivos de vídeo ou publicações escritas, era muito mal definida. Além de um desabafo, um “auxílio à memória” e um informativo histórico pra interessados, este texto, como eu disse lá no começo, também visa anunciar algumas estratégias pra retomar os meios “decentes” de divulgação e explicar como tem funcionado minha política de contatos pra falar comigo.

Por muitos anos, não permiti que as publicações recebessem comentários, justamente porque meu objetivo era fazer com que a página funcionasse exatamente como um site “puro”, isto é, apenas transmissora de conteúdo. (O já referido trabalhão somado à falta de tempo me impediu justamente que eu transferisse tudo pra outro serviço de hospedagem, como o Google Sites; essa hipótese pode ocorrer só em caso de emergência extrema.) Porém, de uns tempos pra cá, reabri essa possibilidade, em primeiro lugar pra ampliar o engajamento, mas também pra deixar as pessoas elogiarem ou agradecerem, não dar a impressão de ser antidemocrático e permitir eventuais correções ou sugestões de enriquecimento do texto. Não temo mais spams ou haters, pois eles podem ser facilmente apagados ou bloqueados. Mas está claro que essa é apenas uma forma de comunicação, e não de atualização. Assim, de alguma forma, sempre apresentei a possibilidade de entrar em contato pessoal direto comigo, em algum lugar na célebre barra direita.

Se você já observou o canto superior direito, pode ver estes três círculos que, da esquerda pra direita, se tratam respectivamente de meu Linktree (conjunto de links pessoais, tipo um miniportfólio), meu Currículo Lattes (exigido pra todo mundo que trabalha com pesquisa no Brasil) e meu perfil no Gravatar, que é multiuso pra alguns sites (incluindo o Wordpress), mas que realmente não é amplamente difundido:



Gostaria que você focasse sua atenção no Linktree, que não por acaso tem um ícone estilizado em forma de árvore, isto é, “tree”. A maioria dos links listados no perfil consiste em trabalhos acadêmicos, traduções publicadas, artigos culturais e vídeos do YouTube em que dou entrevista ou apareço como palestrante principal ou secundário. Na parte de cima, em forma de ícones, há meus principais contatos pessoais (que, exatamente por isso, não reproduzo de novo aqui): WhatsApp, e-mail, a própria página e outras redes ocasionalmente ativas (mas que podem sumir a qualquer momento).

Portanto, a instrução básica é a seguinte: sempre que houver algum contato meu disponível ou alguma rede social ativa, ela vai aparecer ali; se não aparecer, é porque ela existe, e se você vir alguma rede em meu nome, mas que não apareça ali, é falsa. A essa altura de minha vida, ninguém vai querer se passar por mim, mas é melhor prevenir do que remediar, né? Dito isso, é possível que nos próximos dias eu estruture um canal no WhatsApp (desse modelo novo, agora localizável por busca, e não do antigo modelo de grupo em que só admins podem mandar mensagem) e outro no Telegram, cujos links vão aparecer no Linktree. Então, fique alerta!

Quanto ao roteiro de atualizações, ele vai ser retroativo e progressivo. Retroativo, porque todo dia planejo publicar links antigos, o que pode inclusive proporcionar o encontro de material que boa parte dos leitores ainda não conhecia. E progressivo, porque cada nova publicação daqui pra frente também vai aparecer por lá, embora o retorno da regularidade ainda esteja em suspenso. Além de alguns concursos públicos e do estudo de idiomas, também tenho dedicado meu tempo livre, sobretudo os fins de semana, a ajudar alguns amigos com tarefas técnicas e a reorganizar meu próprio arquivo digital, o que pode ainda levar um tempão. Porém, sem prejudicar as obrigações cotidianas, há a possibilidade de eu fazer um pedaço de novas publicações por dia e, à medida que forem ficando prontas, ir programando-as pra um futuro em que eu possa garantir uma regularidade inquebrável das publicações (a cada um ou dois dias).

Outro ponto importante: os possíveis novos canais no WhatsApp e no Telegram vão conter apenas links pra publicações da página, e não vídeos antigos do Pan-Eslavo nem outros conteúdos não relacionados, como reportagens, vídeos do YouTube ou memes. Obviamente, sobretudo se já tiver algum público, posso abrir uma exceção pra serviços solidários ou notícias urgentes, caso alguém me peça pessoalmente, mas não vai ser regra. Finalmente, se o plano já estiver bem desenhado, eu deixo os canais crescendo organicamente e recebendo postagens “monótonas”, como citei acima, resistindo pra não os apagar, como infelizmente amigos meus já perceberam tantas vezes quando eram incluídos no WhatsApp “na maior festa” e, dias depois, percebiam tudo apagado...

Essa decisão firme, anunciada e detalhada de possivelmente manter canais fixos no WhatsApp e no Telegram se deve ao fato de ser importante manter ao menos um “canto” em algumas das principais redes sociais, já que hoje são quase o meio exclusivo pelo qual alguém é descoberto, e do Blogger já não oferecer mais ferramentas funcionais pro compartilhamento de conteúdo. Assim, não só os usuários comuns de internet e redes sociais, sobretudo os mais jovens, não precisam fazer uma conta no Blogger pra receber notificações nem ficar entrando na página ocasionalmente, mas também o compartilhamento entre interessados, geralmente já frequentando aquelas redes, fica bem mais fácil. Além disso, ao contrário de alguns anos atrás, o WhatsApp se tornou uma das mídias mais usadas no mundo, junto com Face e Insta (os três com o mesmo dono, claro...), o que o obrigou a se modernizar, incluindo a cópia do recurso de canais do Telegram e a possibilidade de os encontrar mesmo sem serem verificados. E, claro, a cada conteúdo compartilhado, vai um link do canal junto pra que o contato também possa entrar!

Pra terminar, vale a pena sumarizar alguns pontos a respeito dos planos futuros pra página e de minha visão sobre redes sociais:

  • Se eu abrir redes públicas, além do próprio Linktree ou Gravatar, vai ser apenas WhatsApp e Telegram (canais), que são mais práticos e estão entre os mais usados. Meu Instagram ainda disponível pode sumir a qualquer momento, e perfis em outras redes (YouTube, Facebook, Reddit, Twitter/X, TikTok, Bluesky etc.) com meu nome pessoal ou com o usuário erickfishuk não vão aparecer. Também abandonei a monetização e a possibilidade de doação por meio de pix ou PayPal, pois, além de um feed pessoal “à sua maneira”, a página não deve ser um meio de vida, e sim um complemento a qualquer outro meio de vida relacionado a minha formação em História.
  • As novas publicações estão aparecendo com a indicação do domínio “blogspot.com” porque, embora o “fishuk.cc” ainda esteja disponível, pretendo o tirar do ar em 2029, quando expirar a compra. Não é tanto uma questão de economia, já que mesmo a reserva por cinco anos não é cara demais. É uma questão de domínios curtos e/ou personalizados já não terem tanta força quanto no passado, já que são os motores de busca, agora turbinados pela IA, que avançam o conteúdo. É também uma questão de “valorizar” a marca, ou seja, exibir explicitamente o Blogspot (nome antigo do Blogger) pra mostrar que não se está acriticamente “seguindo o fluxo das massas”.
  • A página não vai “morrer”, mas, como sempre digo, ocasionalmente dou pausas ou diminuo a frequência das publicações pra dar conta das obrigações pessoais. É muito conteúdo publicado que já presta um baita serviço de utilidade pública pra sumir de uma hora pra outra, e mesmo que precise desparecer (ocasional extinção do Blogger ou, como ocorreu, derrubada do canal Pan-Eslavo), vai ressurgir de alguma outra forma. O Linktree, que é serviço confiável, serve justamente pra indicar onde estou e o que estou fazendo. De qualquer forma, nada substitui aquela visita ocasional e aquela compartilhada a algum conhecido: com ou sem café e bolo de fubá, sempre vou estar de braços abertos!

sábado, 8 de novembro de 2025

João Quartim e os “amigos do povo”

Na edição mais recente da revista Crítica Marxista (n.º 58), publicada pelo IFCH da Unicamp, foi publicado um artigo do professor João Quartim de Moraes intitulado “As posições filosóficas de Lênin” (com circunflexo mesmo). Nesse texto, ele expõe os princípios básicos da filosofia do revolucionário russo, percorrendo os principais escritos de sua vida, e já começa taxativo: “A filosofia está presente do começo ao fim da obra de Lênin.” Prolífico escritor e expositor, Quartim também é famoso por seus livros sobre os militares brasileiros e a política, especialmente aqueles setores fardados identificados com a esquerda.

Suas primeiras observações tratam do ataque de Vladimir Lenin (de fato, uma de suas primeiras polêmicas) aos narodniks, uma das correntes da esquerda russa no século 19 que não se identificava com o marxismo. A primeira nota de rodapé já contém uma observação interessante e a transcrevo na íntegra: “O título habitual dessa obra nas traduções em língua portuguesa não é O que são, mas Quem são os ‘amigos do povo’. Não conheço a língua russa, mas parece-me que as traduções para o inglês (What the ‘Friends of the People’ are) e o francês (Ce que sont les ‘amis du peuple’) oferecem um melhor sentido, a saber, O que são. Não se trata, com efeito, de identificar quem são os ‘amigos do povo’, perfeitamente conhecidos, a começar de Mikhailovski, mas de mostrar quais são suas ideias e refutar a superficialidade e a má-fé da crítica que fazem ao marxismo.”

O sublinhado é meu, e embora eu respeite o professor, com quem já tive bons intercâmbios, e considere altamente sua obra (especialmente a organização e as contribuições pra coletânea História do marxismo no Brasil), ando meio cansado desses especialistas em alguma coisa que não se põem, porém, a aprender o idioma relativo àquilo de que tratam. Não acho que esse seja o caso de Quartim, pois muito boas análises podem ser feitas a partir de traduções, as quais, aliás, servem pra isso mesmo. Contudo, não estamos falando de um mero militante, curioso ou não especialista que precisa fazer uma consulta rápida. Estamos falando de alguém que estuda profundamente um autor, um sistema de ideias e uma época, mas desconhece a língua em que foram expressados.

Imagine estudar Shakespeare, Hume ou Burke sem saber inglês, imagine pesquisar sobre Molière, Voltaire ou Comte desconhecendo o francês. Há décadas as universidades estaduais paulistas oferecem programas de ensino de russo, e hoje não é difícil encontrar online professores, aplicativos ou materiais diversos. Até Marx, perto do fim da vida, se pôs a aprender russo pra entender melhor o império tsarista, com cujos súditos socialistas trocava cartas. Mais uma vez, essa não é uma crítica direta a Quartim, muito menos à qualidade de seu artigo, ai de mim! Decidi apenas trazer hoje aqui um e-mail privado que lhe mandei apenas como comentário àquela nota de rodapé, fornecendo alguns lampejos gramaticais interessantes a respeito de sua própria dúvida sobre a melhor tradução. Além disso, achei que a mensagem podia ser de interesse público por conter outras informações estimulantes.

Ainda não recebi nenhuma resposta, se é que ela realmente vai chegar um dia. Quartim é de uma geração de “velhos guerreiros”, combatentes da ditadura civil-militar de 1964-85, portanto, não posso julgar seus conhecimentos linguísticos. Contudo, me preocupa que uma geração relativamente mais nova de pesquisadores e polemistas queira ter a última palavra (geralmente asquerosa) sobre assuntos bem mais sérios, mas igualmente se contenta com fontes indiretas traduzidas pro inglês, francês ou espanhol. E isso vale, com raríssimas exceções, pra inúmeros recém-formados “especialistas” em URSS e ideologia bolchevique.

Arlene Clemesha e Breno Altman (um jornalista, e não um historiador!), por exemplo, mentem aos quatro ventos sobre a história do sionismo e instilam insidiosamente o antissemitismo entre as “ex-querdas”, mas sequer leem árabe ou hebraico. Ele, pela natureza da formação, não tem Currículo Lattes, mas ela informa apenas que “lê razoavelmente” árabe, isto é, pode nem sequer entender pra acompanhar canais de notícias, e ambos, salvo engano, desconhecem o hebraico. Quebram aquela velha regra do método científico: se você quer falar sobre Israel, simplesmente ache um israelense e ouça sua opinião. Recentemente, também soube de uma doutoranda que pesquisa o feminismo iraniano, mas recorre quase sempre a versões francesas de uma revista porque seu persa ainda é incipiente.

Rigorismo? Despeito? Não, apenas honestidade, pois infelizmente esse problema é crônico na academia brasileira e demonstra como estamos formando apenas repetidores de terceiros, e não pesquisadores genuínos que criam conhecimento original direto das fontes. É minha concepção de mundo, e acabou. Se você não gosta de aprender idiomas, não seja historiador. Dito isso, segue a carta ao filósofo do Cemarx, por quem reitero meu profundo respeito.



Caro professor Quartim,

Folheando a última edição da revista Crítica Marxista, somente agora tive a oportunidade de me deparar com seu artigo sobre as réplicas de V. I. Lenin em 1894 aos populistas, como também são conhecidos os naródniks. Com todo respeito que guardo por seu trabalho de professor e pesquisador, gostaria de comentar as dúvidas que expressa em nota inicial sobre as diversas traduções do título da obra.

Sim, literalmente a tradução “O que são...” se justifica melhor do que “Quem são...”. Em russo, o início do título (não há problemas com o resto) é “Что такое...” (Chto takóie...), expressão que se refere, segundo o Wikcionário russo, a seres inanimados. Ou seja, neste caso, provavelmente ao grupo e às ideias, e não à identidade individual de seus adeptos.

Ressalto que a ausência do verbo “ser” no presente, característica das línguas eslavas orientais, compensa-se por meio de vários idiomatismos não traduzíveis literalmente nas línguas euro-ocidentais. Embora o uso do pronome “takóie” (aqui neutro singular) tenha essencialmente uma função enfática, ele também é muito usado para pessoas nas formas “takói” (masc. sing.), “takáia” (fem. sing.) e “takíe” (plural): “Kto takói... ” etc. Naturalmente, “kto” significa “quem" e “chto”, “o que”.

Confirmo também que o segundo volume da brochura se perdeu, isso não é uma suposição. Sendo uma das primeiras obras de Lenin, impressa e divulgada na clandestinidade, deve ter sofrido as vicissitudes a que tal situação impele. E se contarmos todo o turbilhão que se tornaria a história posterior da Rússia e da URSS, creio que o volume só poderia aparecer por um milagre. É o que informam o verbete da Wikipédia em russo sobre a brochura e o final da nota introdutória (p. 577) numa das versões em HTML da edição de 1967 das Obras completas.

É interessante que, segundo a Wikipédia, embora o segundo volume tenha se perdido, as mesmas teorias político-econômicas teriam sido expostas por Lenin no texto “Características (ou Caracterização) do romantismo econômico” (1897), também polemizando contra os populistas liberais. Na mesma versão italiana (mas não na russa, curiosamente), lemos que “O que são...” foi publicado anonimamente, o que nos leva à questão da adoção do pseudônimo “Lenin”.

Posso estar “ensinando o Pai-Nosso ao vigário”, mas “Vladimir Ilitch” aparece várias vezes em seu artigo como o nome verdadeiro do russo. De fato, sendo “Ilitch” (ou Ilich, Ilyich), i.e. “Ильич”, seu patronímico, a parte do nome formada com o prenome do pai (neste caso, uma forma irregular derivada de Iliá = Elias), é comum que ele seja mencionado, mesmo ausente, como “Vladimir Ilich” por uma questão de respeito. Essa também é a forma polida com que nos dirigimos a um desconhecido ou pessoa sem intimidade, no lugar de nosso “sr./sra. + sobrenome”.

Até hoje, chamar alguém em russo usando “gospodín” (sr.) ou “gospozhá” (sra.) antes do sobrenome é considerado rude e indicador de distanciamento, exatamente como Lenin faz no original de “O que são...” ao se referir a seus oponentes. Na própria Wikipédia russa, descontando as citações de terceiros, há alternâncias entre “Vladimir Ilich”, “Vladimir Uliánov” (que era seu sobrenome) e “V. I. Ulianov”. Calcula-se que, durante sua vida, ele tenha usado mais de cento e cinquenta pseudônimos, embora ele assinasse, já no poder, os documentos partidários e estatais como “V. I. Ulianov (Lenin)”.

É apenas uma observação à parte, mas tive receio de que, caso não conhecessem mais detalhes sobre a biografia de Lenin, os leitores viessem a pensar que “Ilitch” fosse seu sobrenome, no sentido que damos a isso. (E não por acaso, “sobrenome” em russo se diz “família/фамилия”...)


quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Trotsky – Aos trabalhadores da URSS


Endereço curto: fishuk.cc/trotsky-urss

Este é um dos últimos textos de Leyba Bronshteyn (Leon Trotsky) que estava guardado em meus backups aguardando tradução. Como disse antes, muita coisa desse período, vinda das mais variadas personalidades, não achei digna de traduzir e apenas transferi os originais pra minha biblioteca pública. Porém, um texto do dissidente ucraniano me chamou a atenção e decidi trazer uma versão em português: trata-se da “Carta aos trabalhadores da URSS” (Письмо рабочим СССР), escrita em março de 1929 e publicada em Paris, em julho seguinte, na primeira edição (n. 1-2) do Boletim da Oposição (bolcheviques leninistas).

É preciso rolar um pouco pra baixo a referida página até acharmos a carta em questão. Porém, o site como um todo é um grande portal de referência sobre a obra e a militância de Trotsky, e se você sabe russo, pode se deliciar com os originais disponíveis! O estudo do Boletim da Oposição diretamente do original seria uma atividade tão saudável quanto a exploração de suas Obras completas, caídas em domínio público e também digitalizadas há poucos anos. Não sou um fã de Trotsky nem do regime soviético como um todo, mas a leitura de seus escritos é tão mais saudável quanto seus atuais “detratores”, em geral stalinistas sem erudição, se valem de um mero copia-e-cola da propaganda da década de 1930 e a usam como “material primário confiável”.

O boletim dos exilados foi publicado em russo até o n. 87 de agosto de 1941, sucessivamente em Paris, Berlim, Paris de novo (nazismo obrigando) e enfim Nova York (após invasão alemã da França). Entre outras figuras, nele também contribuiu Christian Rakovski, soviético de etnia búlgara também imolado por Stalin, biografado genialmente por Pierre Broué e que me foi apresentado pelo prof. Alvaro Bianchi. Mantive um estilo mais formal do português e adicionei explicações entre colchetes, abrindo uma única nota de rodapé excepcional.

Ainda sobre a tradução, a palavra russa “rabóchi” pode ser traduzida mais estritamente como “operário”, mas no texto inteiro, inclusive no título, acabou ficando “trabalhador” mesmo. Trotsky assina de “Constantinopla”, que não hesitei em atualizar como Istambul, onde ele viveu parte de seu exílio iniciado em 1929. Por fim, onde se encontrar “PC da URSS”, é minha tradução, e igualmente a mais consagrada, de “VKP”, significando “KP” Partido Comunista e “V” vsesoiúznaia, ou seja, “de toda a União” (ou apenas “soviético”, se quiser). “PCUS”, tradução literal da sigla “KPSS”, refere-se apenas ao partido a partir de fins de 1952.



Caros camaradas!

Escrevo-lhes para lhes dizer mais uma vez que os Stalin, os Iaroslavski & Cia. estão os enganando. Estão lhes dizendo que recorri à imprensa burguesa para travar uma luta contra a República Soviética, em cuja formação e defesa trabalhei de mãos dadas com Lenin. Estão os enganando. Eu recorri à imprensa burguesa a fim de defender os interesses da República Soviética contra a mentira, o engano e a traição de Stalin et caterva.

Estão os mandando condenar meus artigos. Acaso vocês os leram? Não, vocês não os leram. Estão lhes dando uma tradução mentirosa, forjada de pequenos trechos isolados. Meus artigos foram publicados em russo numa brochura individual do jeito exato em que eu os escrevi. Exijam que Stalin os reimprima sem abreviações nem falseamentos! Ele não terá coragem. É mais provável que ele tema a verdade. Quero expor aqui o conteúdo básico de meus artigos.

1. Na resolução da GPU sobre meu exílio, afirma-se que lidero a “preparação de uma luta armada contra a República Soviética”. No Pravda, as palavras sobre uma luta armada foram omitidas. Por quê? Porque no Pravda (n. 41, 19 de fevereiro de 1929) Stalin não ousou repetir o que foi afirmado na resolução do GPU. Porque ele sabia que ninguém acreditaria nele. Após a história com o oficial de Wrangel, após ter sido desmascarado o agente provocador enviado secretamente por Stalin para propor aos oposicionistas uma conspiração armada, depois de tudo isso ninguém acreditará que os bolcheviques leninistas que desejam convencer o partido da justeza de suas visões estejam preparando uma luta armada. Foi por isso que Stalin não teve a coragem de mandar publicar no Pravda o que foi afirmado na resolução da GPU de 18 de janeiro. Mas afinal, em tal caso, de que serviria inserir essa óbvia mentira na resolução da GPU? Não para a URSS, mas para a Europa, e para o mundo inteiro. Por meio da agência TASS, Stalin cotidianamente colabora sistematicamente com a imprensa burguesa do mundo inteiro, difundido sua calúnia contra os bolcheviques leninistas. De outra forma, Stalin não podia explicar o exílio e as incontáveis prisões como prova da preparação de uma luta armada pela oposição. Com essa monstruosa mentira, ele causou um enorme dano à República Soviética. Toda a imprensa burguesa falou sobre como Trotsky, Rakovski, Smilga, Radek, I. N. Smirnov, Beloborodov, Muralov, Mrachkovski e muitos outros que construíram e defenderam a República estão agora preparando uma luta armada contra o Poder Soviético. Está claro até que grau tal pensamento deve enfraquecer o Poder Soviético aos olhos do mundo inteiro! Para justificar as repressões, Stalin é obrigado a criar narrativas monstruosas que estão causando um dano incalculável ao Poder Soviético. Foi por isso que considerei indispensável falar à imprensa burguesa e dizer ao mundo inteiro: não é verdade que a oposição esteja se preparando para conduzir uma luta armada contra o Poder Soviético. A oposição conduzir e conduzirá uma luta implacável pelo Poder Soviético contra todos os seus inimigos. Essa minha declaração foi reproduzida em dezenas de milhões de exemplares em línguas do mundo inteiro. Ela serve para consolidar a República Soviética. Stalin quer reforçar sua própria situação, enfraquecendo a República Soviética. Eu quero reforçar a República Soviética, desmascarando as mentiras dos stalinistas.

2. Há muito tempo já, Stalin e sua imprensa difundem no mundo inteiro a informação de que eu supostamente teria declarado que a República Soviética se tornou um Estado burguês, que o poder proletário morreu e coisas assim. Na Rússia, muitos trabalhadores sabem que essa é uma calúnia maliciosa, baseada em citações falseadas. Desmascarei essa falsidade dezenas de vezes em cartas que transmiti de mão em mão. Mas a imprensa burguesa mundial acredita nisso ou finge que acredita. Todas as citações falseadas por Stalin passeiam pelas colunas dos jornais do mundo inteiro, demonstrando como se Trotsky admitisse a inevitabilidade da morte do Poder Soviético. Graças ao enorme interesse da opinião pública mundial, sobretudo das amplas massas populares, pelo que está se passando na República Soviética, os jornais burgueses, impelidos por seus interesses mercadológicos, por sua ânsia em circular e pela pressão dos leitores, estão se vendo obrigados a publicar meus artigos. Nesses artigos, afirmei ao mundo inteiro que o Poder Soviético, apesar da política errônea da direção de Stalin, está profundamente enraizado nas massas, é muito forte e sobreviverá a seus inimigos.

Não se deve esquecer que a esmagadora maioria dos trabalhadores na Europa, em especial nos EUA, continuam se informando pela imprensa burguesa. Impus como condição que meus artigos fossem publicados sem quaisquer alterações que fossem. É verdade que determinados jornais em alguns países desobedeceram a essa condição, mas a maioria a obedeceu. Em todo caso, todos os jornais viram-se obrigados a publicar que, apesar das mentiras e calúnias dos stalinistas, Trotsky está convencido da profunda força interior do regime soviético e acredita firmemente que os trabalhadores, por meios pacíficos, conseguirão mudar a atual política mentirosa do Comitê Central.

Na primavera de 1917, Lenin, confinado em seu isolamento suíço, valeu-se do trem “blindado” dos Hohenzollern para lançar-se junto aos trabalhadores russos. A imprensa chauvinista investiu contra Lenin, chamando-o nada menos do que mercenário alemão e “Herr Lenin” [“senhor” em alemão]. Confinado pelos termidorianos no isolamento em Istambul, vali-me do trem blindado da imprensa burguesa para dizer a verdade ao mundo inteiro. Tola em sua devassidão, a investida dos stalinistas contra “Mister Trotsky” constitui uma mera repetição da investida burguesa e socialista revolucionária [ligada aos “SR”] contra “Herr Lenin”. Eu, assim como Ilich e com um tranquilo desdém, encararei a opinião pública dos filisteus e burocratas cuja alma se encarna em Stalin.

3. Em meus artigos distorcidos e falsificados por Iaroslavski, contei como, por que e sob que condições fui expulso da URSS. Os stalinistas estão espalhando na imprensa europeia o boato de que eu teria sido mandado ao exterior por solicitação própria. Também desmascarei essa mentira. Contei que fui expulso para o exterior à força, por meio de um acordo prévio entre Stalin e a polícia turca. E aqui atuei não somente nos interesses de minha proteção pessoal contra calúnias, mas também e antes de tudo nos interesses da República Soviética. Se os oposicionistas visassem deixar as fronteiras da União Soviética, ficaria claro para o mundo inteiro que supostamente teríamos considerado irremediável a situação do governo soviético. Entretanto, não há sequer resquícios disso. A política de Stalin desferiu terríveis golpes não somente na revolução chinesa, no movimento operário inglês e em toda a Comintern, mas também na estabilidade interna do regime soviético. Isso é indiscutível. Porém, a causa não foi abalada de forma alguma. Em nenhuma hipótese a oposição está se preparando para fugir da República Soviética. Recusei-me categoricamente a deixar o país, sugerindo que me trancassem na cadeia. Os stalinistas não ousaram recorrer a esse método, pois temiam que os trabalhadores se obstinassem em obter minha soltura. Preferiram chegar a um acordo com a polícia turca e forçaram minha deportação para Istambul. Expus isso para o mundo inteiro. Cada trabalhador bem-pensante dirá que se Stalin, por meio da TASS, alimenta diariamente a imprensa burguesa com calúnias contra a oposição, então eu era obrigado a agir para desmentir essas calúnias.

4. Em dezenas de milhões de exemplares, contei ao mundo inteiro que fui exilado não pelos trabalhadores russos, não pelos camponeses russos, não pelo Exército Vermelho soviético, não por aqueles com quem conquistamos o poder e combatemos ombro a ombro em todas as linhas de frente da guerra civil; fui exilado pelos apparatchiks que tomaram o poder em suas mãos, se transformaram numa casta burocrática que está ligada pelo encobrimento mútuo. Para defender a Revolução de Outubro, a República Soviética e o nome revolucionário dos bolcheviques leninistas, eu disse para o mundo inteiro a verdade sobre Stalin e os stalinistas. Lembrei mais uma vez que Lenin, em seu “Testamento” cuidadosamente elaborado, chamou Stalin de desleal. Essa palavra é compreensível em todas as línguas do mundo. Ela designa um indivíduo inescrupuloso ou desonesto que é dirigido por impulsos vis em suas ações, um indivíduo no qual não se deve confiar. Foi assim que Lenin caracterizou Stalin, e estamos vendo novamente quão correta estava sua advertência. Para um revolucionário, não há crime maior do que enganar seu próprio partido e envenenar a consciência da classe operária com mentiras. Todavia, nisso consiste a principal ocupação de Stalin. Ele está enganando a Comintern e a classe operária mundial, imputando à oposição ações e intenções contrarrevolucionárias para com o Poder Soviético. Foi exatamente por essa inclinação interna a tal modo de agir que Lenin chamou Stalin de desleal, foi exatamente por isso que ele propôs ao partido remover Stalin de seu posto. Depois de tudo o que aconteceu, é tão mais necessário agora esclarecer perante o mundo inteiro como se expressava a deslealdade, isto é, a falta de escrúpulos e a desonestidade de Stalin para com a oposição.

5. Os caluniadores (Iaroslavski e outros agentes de Stalin) fazem barulho a respeito dos dólares americanos. Em outras condições, é pouco provável que valesse a pena reclinar-se até esse lixo. Mas a imprensa burguesa mais malévola se deleita em revirar a sujeira de Iaroslavski. Para não deixar nada sem esclarecer, também falarei, por essa razão, sobre os dólares.

Transmiti meus artigos à agência americana de imprensa em Paris. Dezenas de vezes, tanto Lenin quanto eu demos a esse tipo de agências entrevistas e declarações escritas com nossas visões sobre essas e outras questões. Graças a meu exílio e a suas circunstâncias secretas, o interesse por esse caso foi colossal no mundo inteiro. A agência esperava ter bons lucros e me propôs metade do ganho. Eu lhe respondi que não pegaria nenhum tostão para mim, mas que a agência deveria, seguindo minha indicação, transmitir metade de seu ganho com meus artigos, e que com esse dinheiro eu editaria em russo e em línguas estrangeiras toda uma série de obras de Lenin (seus discursos, artigos cartas) qte tinham sido proibidas da República Soviética pela censura de Stalin. De forma equivalente, com esse dinheiro publicarei toda uma série de documentos partidários principais (atas de conferências e congressos, cartas, artigos etc.) que são escondidos do partido somente porque escancaram o quão infundado é Stalin em teoria e política. É essa a literatura “contrarrevolucionária” (nas palavras de Stalin e Iaroslavski) que estou preparando para publicação. No tempo devido, será publicado um relatório preciso sobre os valores para isso despendidos. Cada trabalhador dirá que é imensuravelmente melhor usar o dinheiro recebido, na forma de tributo casual, da burguesia para publicar as obras de Lenin do que usar o dinheiro tirado dos trabalhadores e camponeses russos para difundir calúnias sobre os bolcheviques leninistas. Não se esqueçam, camaradas: o “Testamento” de Lenin ainda é considerado na URSS um documento contrarrevolucionário por cuja difusão prendem e exilam. Não é por acaso: Stalin está travando uma luta em escala internacional contra o leninismo. Não sobrou quase nenhum país no mundo onde permanecessem hoje à frente de um partido comunista os revolucionários que lideraram esses partidos no tempo de Lenin. Quase todos eles foram expulsos da Internacional Comunista. Lenin dirigiu os quatro primeiros congressos da Comintern. Elaborei junto com Lenin todos os documentos básicos da Comintern. No 4.º Congresso (1922), Lenin bipartiu comigo o informe básico sobre a Nova Política Econômica [a famosa NEP] e as perspectivas da revolução internacional. Após a morte de Lenin, quase todos os participantes, em todo caso, sem exceção, todos os participantes influentes dos quatro primeiros congressos, foram expulsos da Comintern. Por toda à parte, à frente dos partidos comunistas, encontram-se pessoas novas, aleatórias, que ainda ontem estavam no campo dos adversários e inimigos. Para conduzir uma política antileninista, a primeira coisa necessária era derrubar a direção leninista. Stalin fez isso, apoiando-se na burocracia, nos novos círculos pequeno-burgueses, no aparelho de Estado, na GPU [antecessora do NKVD e, mais tarde, do KGB], nos meios materiais do Estado. Isso se produz não somente na URSS, mas também na Alemanha, na França, na Itália, na Bélgica, nos Estados Unidos, na Escandinávia, resumidamente, em quase todos os países, sem exceção. Somente um cego pode não entender o sentido do fato de os colaboradores e companheiros de luta mais próximos de Lenin no PC da URSS e em toda a Comintern, todos os participantes e dirigentes dos partidos comunistas nos difíceis primeiros anos, todos os participantes e dirigentes dos quatro primeiros congressos terem sido, quase sem exceção, removidos dos postos, difamados e expulsos. Essa luta selvagem contra a direção leninista é necessária aos stalinistas para conduzirem uma política antileninista.

Enquanto os bolcheviques leninistas eram fulminados, o partido era tranquilizado pelo fato de que a partir de então ele seria monolítico. Vocês sabem que o partido está agora mais dividido do que nunca. E isso ainda não é o fim. No caminho stalinista não há salvação. Só é possível conduzir uma política à la Ustrialov [ustriálovskaia] (1), ou seja, consequentemente termidoriana, ou uma política leninista. A posição centrista de Stalin está inevitavelmente conduzindo à acumulação de enormes dificuldades econômicas e políticas e à destruição e esfacelamento definitivos do partido.

Ainda não é tarde para mudar de rumo. É preciso mudar abruptamente e política e o regime partidário no espírito da plataforma da oposição. É preciso cessar a vergonhosa perseguição aos melhores leninistas revolucionários no PC da URSS e em todo o mundo. É preciso restaurar a direção leninista. É preciso condenar e erradicar os métodos desleais, isto é, inescrupulosos e desonestos do aparelho stalinista. A oposição está pronta para ajudar com todas as forças o núcleo proletário do partido a realizar essa tarefa vital. A caçada selvagem, as calúnias nefastas e as repressões estatais não podem obscurecer nossa relação com a Revolução de Outubro ou com o partido internacional de Lenin. Permanecemos ambos [o PC da URSS e a Comintern] fiéis até o fim – nas prisões stalinistas, no desterro ou no exílio.

Saudações bolcheviques

L. Trotsky.
Istambul, 29 de março de 1929.


(1) Referência a Nikolái Vasílievich Ustriálov (1890-1937), jurista, filósofo e político russo, precursor do “nacional-bolchevismo” e fuzilado junto a vários seguidores durante os “grandes expurgos”. Inicialmente um constitucional democrata (“cadete”), entrou para o lado dos “brancos” na guerra civil e por volta de 1921, em Praga, desenvolveu ideias encorajando a imigração a retornar à URSS e aceitar os bolcheviques. Como o novo regime, a seu ver, evoluiria para uma espécie de nacionalismo burguês, preferiu não aderir ao comunismo e se denominou “nacional-bolchevique”, refletindo sua eslavofilia de origem. As ideias de Ustrialov, atacadas por Lenin e Trotsky, ganharam aceitação limitada na URSS nas décadas de 1920 e 1930, e ele mesmo passou anos exilado na Manchúria. Voltou em 1935, tendo depois dificuldades para refazer sua vida (passado “branco” em seu rastro), até finalmente ser mandado para o GULAG.



sábado, 26 de julho de 2025

Carta de Arlo Tatum a Pedro Catallo


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Aniversário do primeiro manual de esperanto


Por volta de junho de 2015, estava fazendo pesquisas pra meu mestrado no Arquivo Edgard Leuenroth (AEL/Unicamp), quando uma das funcionárias com quem eu tinha amizade, talvez a Silvia Modena, me disse que havia no acervo alguns materiais de movimentos pacifistas em esperanto, quando soube que eu falava esse idioma. Eram realmente poucas coisas, algumas não catalogadas, mas ajudei Silvia e suas colegas com a tradução do conteúdo, quando muito ao menos pra entender do que se tratava. A ela sou pessoalmente grato por ter, por sua vez, me ajudado várias vezes em que necessitava, e à equipe do AEL em geral por me ter permitido copiar algumas dessas coisas em esperanto – e, tacitamente, publicá-las.

Do que guardei, achei interessante lançar apenas esta carta escrita em 1958 a um certo Peiro Catallo, sobre quem não achei nenhuma informação nos motores de busca comuns (teria havido erro de datilografia?), morador da cidade de São Paulo e falante do esperanto. O remetente era Arlo Tatum (1923-2014), americano radicado no Reino Unido e conhecido por ter liderado diversas organizações pacifistas e antimilitaristas, inclusive a Internacional dos Resistentes à Guerra (WRI), da qual ele era secretário-geral quando escreveu a carta. Fundada nos Países Baixos em 1921 e atualmente sediada em Londres, a WRI (ou IRG) tem como atividades principais a orientação a objetores de consciência, o apoio a movimentos antiguerra não violentos e o combate à militarização juvenil.

Cantor lírico de formação, Tatum dedicou a maior parte de sua vida às atividades antimilitares e pacifistas, mas não se sabe ao certo por que ele escreveu ao cidadão brasileiro (imigrante?) e qual era a função deste no movimento internacional. Fica óbvio que ele é fluente em esperanto, língua que esteve na origem da própria WRI, e além do obituário escrito por sua esposa pro Guardian, há a nota de pesar da WRI. Tendo dado a forma final à tradução no início de julho de 2015, espero que sua publicação possa ajudar um pouco nessa história e, se alguma alma caridosa colaborar, a descobrir quem é Peiro Catallo...

Adendo (3/8/2025): Parece que meu apelo foi ouvido! Uma nobre alma que leu estas linhas e a quem sou muito grato me enviou um e-mail dizendo que provavelmente não há nenhum “Peiro”, mas que pode se tratar de Pedro Catallo (1901-1969). Militante anarquista de São Paulo, deixou extensa obra teatral e textos de crítica social, mas parece ter sido esquecido pelos estudiosos do movimento operário brasileiro. Ainda ativo, o Centro de Cultura Social (CCS), do qual Catallo foi destacado militante, começou a republicar suas obras no primeiro semestre deste ano, mas somente pela propaganda e pelo portal é impossível saber qual era sua relação com o esperanto ou com a WRI/IRG. De fato, o idioma também era popular entre os anarquistas, sobretudo espanhóis, e deixo apenas o link acima disponível pra quem deseje se aprofundar.



28 de abril de 1958

Peiro Catallo,
Rua Cesário Galeno, 430,
Tatuapé - Saõ Paulo [sic], Sp.,
Brasil.


Caro amigo,

Desejei lhe escrever porque a perigosa situação internacional obriga a que nós todos, que pensamos seriamente na questão da paz mundial, colaboremos no objetivo de encontrar soluções pacíficas a esses problemas que nosso mundo enfrenta.

Por isso, a Internacional dos Resistentes à Guerra julga oportuno tentar na atualidade ampliar sua influência no Brasil. Embora nossa organização seja totalmente pacifista e abarque apenas membros pacifistas, damos boas-vindas à cooperação e apoio de todos os que queiram trabalhar efetivamente pela paz mundial. Segue anexa uma folha volante [panfleto] que explica a base de nossa organização.

Atualmente só podemos publicar livretos em esperanto uma vez por ano, em parte porque menos de 600 pessoas em nossa lista de assinantes conseguem usar a língua internacional. Porém, quanto mais crescer o número de pessoas solicitando nossa literatura em esperanto, tanto mais nos será possível publicá-la.

Gostaria de manter contato regular conosco? Nossa publicação trimestral “La Militrezistanto” [“O Resistente à Guerra”] aparece em inglês, francês e alemão. Se você entende alguma dessas línguas, nós a enviaríamos com prazer, juntamente com nossas publicações em esperanto, sempre que elas aparecerem. Temos também um suprimento limitado de material em espanhol.

Peço-lhe que responda a esta carta e nos encoraje em nosso trabalho. Talvez você aproveite para especificar em que língua você gostaria de receber as publicações da IRG. Se recebermos bastantes respostas a esta carta, estou certo de que a IRG desejará muito abreviar o prazo entre nossas publicações em esperanto.

Cordialmente a serviço da paz,



Arlo Tatum
Secretário-Geral



28 Aprilo, 1958

Peiro Catallo,
Rua Cesário Galeno, 430,
Tatuapé - Saõ Paulo [sic], Sp.,
Brasil.


Kara amiko,

Mi volis skribi al vi ĉar la ganĝera [sic; danĝera] internacia situacio necesigas ke ni ĉiuj, kiuj serioze pripensas la problemon de mondpaco, kunlaboru kun la celo trovi pacajn solvojn de tiuj problemoj, kiujn frontas nia mondo.

La Internacio de Militrezistantoj tial sentas ke taŭgas provi plivastigi ĝian influon en Brazilo je la nuna tempo. Kvankam ni estas tute pacifista organizaĵo, kaj la anaro entenas nur pacifistojn, ni bonvenigas la kooperon kaj subtenon de ĉiuj, kiuj volas labori efektive por mondpaco. Enmetita estas flugfolio, kiu klarigas la bazon de nia organizaĵo.

Nuntempe ni povas eldoni libretojn en Esperanto nur unufoje ĉiujare, parte ĉar malpli ol 600 personoj sur nia elsendlisto kapablas uzi la internacian lingvon. Tamen, ju pli la nombro da personoj dezirantaj nian literaturon en Esperanto kreskas, des pli kreskos nia ebleco eldoni ĝin.

Ĉu vi ŝatus regulan kontakton kun ni? Nia kvaronjara eldonaĵo “La Militrezistanto” aperas en la angla, franca, kaj germana lingvoj. Si [sic; se] vi komprenas iun el ĉi tiuj lingvoj, ni plezure sendus ĝin al vi, aldone al niaj Esperantaj eldonaĵoj kiam ajn ili aperas. Ni havas ankaŭ limigitan provizon de materialo en la hispana lingvo.

Mi petas vin, respondu al ĉi tiu letero kaj kuraĝigu nin en nia laboro. Eble vi prenus la okazon mencii en kiu lingvo vi volus ricevi eldonaĵojn de la I. de M. Se sufiĉe multaj respondas al ĉi tiu letero, mi estas certa ke la I. de M. tre deziros mallongigi la tempon inter niaj Esperantaj eldonaĵoj.

Via en la servo de paco,



Arlo Tatum
Ĝenerala Sekretario


domingo, 20 de julho de 2025

Carta de Brandão a Dimitrov (1942)


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Direto dos arquivos de meu backup, hoje temos uma carta do comunista brasileiro Octavio Brandão escrita em russo pro búlgaro Georgi Dimitrov, secretário-geral da Comintern (um cargo basicamente simbólico àquela altura), em 1942. Agradeço à equipe do Arquivo Egdard Leuenroth da Unicamp, que me permitiu reproduzir e publicar o texto. A história do alagoano Brandão, a quem já aludi várias vezes nesta página, é uma epopeia à parte que ainda está esperando por seu biógrafo, mas, na sequência da recente “vibe” de ter voltado a meu tema de pesquisa do doutorado, cabe distingui-lo claramente da figura de Luiz Carlos Prestes. Desta vez, remeto diretamente a minha tese de doutorado, na qual tentei confrontar as experiências de várias figuras do PCB, com posições, “conversões” e origens de classe diferentes, mostrando que a figura do “comunista típico” não deve ser tomada de forma homogênea e genérica.

Ao contrário de Prestes, que se tornou capitão do Exército, aderiu ao comunismo em 1930 e entrou no partido “de paraquedas” imposto pela Comintern, Brandão foi anarquista, entrou no PCB antes do fim de 1922, fez parte da formulação da linha política, participou dos contatos internacionais e foi expulso da cúpula na onda de “stalinização” em 1929-30. Contudo, com o golpe de Estado passado à história como “Revolução de 30”, ambos foram viver com suas famílias na URSS em 1931, e enquanto o gaúcho voltou clandestino em 1935 só pra ficar preso até 1945, o alagoano ficou até 1946, esperando que a poeira política baixasse no Brasil. Apesar dos contatos mútuos, a diferença de posição era clara: Prestes aproveitou sua formação de engenheiro pra ajudar na “construção do socialismo” (literal e metafórica), e Brandão, farmacêutico de profissão, foi relegado a posições burocráticas menores no aparelho da Comintern, sem qualquer influência na linha política, cuidando da difusão de informações ao exterior.

Libertado, Prestes foi eleito senador e obteve a secretaria-geral do PCB, enquanto Brandão, com seus bicos de jornalista e escritor, nunca mais voltou a cargos na direção interna, foi ignorado enquanto teórico e militante e sofreu necessidades financeiras. Dimitrov, que alcançou celebridade mundial ao se livrar da condenação pelos nazistas no fim de 1933, lutou por uma orientação claramente antifascista, mas não foi totalmente ouvido por um Stalin ocupado com sua razão de Estado. A partir dos grandes expurgos de 1936-38, a Comintern foi desmantelada e só servia como símbolo, enquanto Dimitrov, salvo do redemoinho, manteve seu posto decorativo, além do controle sobre os quadros restantes, entre os quais Brandão, que lhe dedicava grande respeito e lhe pediu licença pra retornar à pátria – aparentemente, não tendo sido atendido.

Eu já tinha feito a tradução do russo há um tempo, mas ao publicar, coloquei umas poucas notas explicativas entre colchetes. Como não tive tempo de fazer novas revisões, me responsabilizo por eventuais erros ou imprecisões. Qualquer observação é bem-vinda, bastando escolher um dos canais de comunicação que apresento no menu à direita da página.



Moscou, 6 de setembro de 1942

Caro camarada Dimitrov!

Gostaria de pedir que me recebesse para discutirmos algumas questões políticas estreitamente ligadas aos presentes acontecimentos no Brasil.

Estou na expectativa de falar hoje sobre essas mesmas questões com a cam. Dolores [Ibárruri, dirigente espanhola].

Passaram-se mais de onze anos desde que o governo Vargas me expulsou de minha pátria; mas conforme o telegrama que recebi hoje, o governo já anunciou a anistia aos exilados políticos expulsos do país.

Nessas condições, caro camarada Dimitrov, minha função está na minha pátria, para lutar junto com meu povo!

Para mim é impossível – política e moralmente – permanecer longe do Brasil, assistindo de fora aos presentes acontecimentos lá desenrolados.

Por isso peço-lhe fortemente que me autorize a partir imediatamente, com minha filha Sattva, para o Brasil – passando por Nova York, Londres ou por qualquer outro percurso.

Penso que para a Comintern e o Governo Soviético não será difícil obter duas passagens – para mim e para Sattva – para um avião que faça o trajeto entre Moscou, Londres e Nova York.

Se for impossível conseguir as passagens de avião, peço que enviem a mim e minha filha por qualquer outro meio de transporte que seja.

Sattva já possui alguma base política e cultural, ela é uma ativa militante e será muito útil para o Partido Comunista e para meu trabalho político e literário.

Peço-lhe também que permita às três irmãs do camarada Prestes (Heloísa, Lúcia e Clotilde) e à minha filha Vólia partirem imediatamente de Ufá para Moscou.

Vólia poderia permanecer em Moscou, realizar um trabalho útil para o Brasil na InoRadio [destinada ao exterior] ou na Comintern e ao mesmo tempo continuar seus estudos universitários.

Finalmente, gostaria de pedir-lhe fortemente que autorize as três irmãs do camarada Prestes a partirem para o Brasil.


Caro camarada Dimitrov!


Já faz mais de onze anos que dia após dia espero ardentemente pela hora de voltar à minha pátria. Essa hora chegou!

Como camarada e líder, entenderá os pensamentos e sentimentos que estão agora me inquietando e me obrigaram a escrever-lhe.

Ciente de seu habitual cuidado com as pessoas, fico no aguardo de sua decisão.

Saudações comunistas,

OCTAVIO BRANDÃO


     – Comintern
Novoie zdanie, sala 60
tel. 30.



quarta-feira, 5 de março de 2025

Wałęsa e amigos em prol da Ucrânia


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Meu amigo Claudio me mandou outro dia uma tradução desta carta aberta a Donald Trump publicada em 3 de março pelo ex-presidente polonês Lech Wałęsa (pron. “lérr vauénnça”) em sua página do Facebook e assinada por diversos outros prisioneiros políticos do tempo da Polônia socialista. Porém, a edição estava péssima, e decidi procurar o original, o que consegui por meio do New York Times, que a traduziu pro inglês e deixou o link original. O ex-líder sindicalista e fundador do célebre sindicato “Solidariedade”, que enfrentou os governos de Stanisław Kania e, após o golpe militar de 1981, do general Wojciech Jaruzelski, na virada entre as décadas de 1970 e 1980, expressou sua repulsa quanto ao (des)tratamento concedido pelo Imperador do Mundo ao presidente ucraniano Volodymyr Zelensky em Washington, no último 28 de fevereiro.

Embora de idade bem avançada e mesmo não tendo sido muito aprovado como primeiro presidente da Polônia pós-soviética, Wałęsa ainda tem sua voz muito respeitada e chegou a participar em manifestações de rua contrárias a vários retrocessos que o atual presidente ultraconservador Andrzej Duda queria impor. A sorte, pelo menos, é que na “Polska” até a extrema-direita é anti-Putler, o que não é necessariamente o caso em outros países da Europa e das Américas, e a contrariedade a Moscou nasceu de séculos de dominação imperial e repressão à cultura local, bem antes do bolchevismo.

Deixo a vocês o desfrute do conteúdo, lembrando apenas que entre nossas “ex-querdas”, ainda existe uma gigante incompreensão sobre a natureza do regime soviético e de seu surgimento e evolução nos países vizinhos a partir de 1945. Só porque esse bloco se dizia “antiamericano”, nossos “comunistas” se calaram diante da desumanização das populações locais, denunciando apenas os excessos ocorridos sob governos ditos “capitalistas” e “burgueses”. Infelizmente, esse desconhecimento, alimentado pela falta de domínio de línguas estrangeiras e pela tradução mais ampla somente de literatura enviesada (tanto pró-URSS quanto da direita moralista), acaba legitimando a defesa do indefensável, a qual termina se estendendo do terrorismo comunista pro genocídio putinista. Só pra ficar contra o Til Çan...

Associando essa distopia aos delírios do Tio Patinhas, Wałęsa joga nessa juventude aloprada um banho de água fria.



O Carnaval alemão costuma ser muito mais político (ou politizado) do que o nosso, mesmo no tocante aos carros alegóricos.


Depois da decisão dos EUA de suspender os fornecimentos à Ucrânia, se a resposta estivesse em minhas mãos, seria “Vamos fazer nossa parte”, nem um passo para trás. AMÉM.

Assinamos este texto:

Caro Senhor Presidente,

Assistimos com horror e desgosto à reportagem de sua conversa com o Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky. Esperamos que o sr. demonstre respeito e gratidão pela assistência material fornecida pelos EUA à Ucrânia na luta contra a ofensiva da Rússia. Agradecemos aos heroicos soldados ucranianos que derramaram seu sangue em defesa dos valores do mundo livre. Eles são os que estão morrendo na linha de frente há mais de 11 anos em nome desses valores e da independência de sua pátria atacada pela Rússia de Putin.

Não entendemos como o líder de um país que é um símbolo do mundo livre não consegue ver isso.

Também ficamos horrorizados pelo fato de que a atmosfera no Salão Oval durante essa conversa nos lembrou daquela que lembramos bem dos interrogatórios do Serviço de Segurança e dos tribunais comunistas. Promotores e juízes comissionados pela todo-poderosa polícia política comunista também nos explicaram que eles tinham todas as cartas na mão e nós não tínhamos nenhuma. Eles exigiram que interrompêssemos nossas atividades, argumentando que milhares de pessoas inocentes estavam sofrendo por nossa causa. Eles nos privaram de nossa liberdade e direitos civis porque não concordamos em cooperar com as autoridades e não lhes mostramos gratidão. Ficamos chocados que o sr. tenha tratado o presidente Volodymyr Zelensky de maneira semelhante.

A história do século 20 mostra que toda vez que os EUA tentaram se distanciar dos valores democráticos e de seus aliados europeus, acabaram ameaçando a si mesmos. O presidente Woodrow Wilson entendeu isso e decidiu levar os EUA à 1.ª Guerra Mundial em 1917. O presidente Franklin Delano Roosevelt entendeu isso quando decidiu, após o ataque a Pearl Harbor em dezembro de 1941, que a guerra em defesa da América seria travada não apenas no Pacífico, mas também na Europa, em aliança com os países atacados pelo Terceiro Reich.

Lembramos que sem o presidente Ronald Reagan e o envolvimento financeiro americano, a desintegração do império da União Soviética não teria sido possível. O presidente Reagan sabia que na Rússia Soviética e nos países que conquistou, milhões de pessoas escravizadas estavam sofrendo, incluindo milhares de prisioneiros políticos que pagaram por seu sacrifício em defesa dos valores democráticos com sua liberdade. Sua grandeza consistia, entre outras coisas, em ter chamado sem hesitação a URSS de “Império do Mal” e declarado uma luta decisiva contra ela. Nós vencemos, e uma estátua do presidente Ronald Reagan está hoje em Varsóvia, em frente à Embaixada dos EUA.

Senhor Presidente, a ajuda material (militar e financeira) não pode ser equivalente ao sangue derramado em nome da independência e da liberdade da Ucrânia, da Europa e de todo o mundo livre. A vida humana não tem preço, seu valor não pode ser medido com dinheiro. A gratidão é devida àqueles que sacrificam seu sangue e sua liberdade. Para nós, membros do “Solidariedade”, antigos prisioneiros políticos do regime comunista a serviço da Rússia Soviética, isso é óbvio.

Apelamos aos EUA para que honrem as garantias que eles e a Grã-Bretanha forneceram no Memorando de Budapeste em 1994, que estipula explicitamente um compromisso de defender a inviolabilidade das fronteiras da Ucrânia em troca dela entregar seu arsenal de armas nucleares. Essas garantias são incondicionais: não há uma palavra sobre tratar tal ajuda como troca econômica.


Lech Wałęsa, ex-prisioneiro político, líder do Solidariedade, presidente da Terceira República Polonesa
Marek Beylin, ex-prisioneiro político, editor de editoras independentes
Seweryn Blumsztajn, ex-prisioneira política, membro do Comitê de Defesa dos Trabalhadores
Teresa Bogucka, ex-prisioneira política, ativista da oposição democrática e da Solidariedade
Grzegorz Boguta, ex-prisioneiro político, ativista da oposição democrática, editor independente
Marek Borowik, ex-prisioneiro político, editor independente
Bogdan Borusewicz, ex-prisioneiro político, líder do movimento clandestino Solidariedade em Gdańsk
Zbigniew Bujak, ex-prisioneiro político, líder do movimento clandestino Solidariedade em Varsóvia
Władysław Frasyniuk, ex-prisioneiro político, líder do movimento clandestino Solidariedade em Wrocław
Andrzej Gincburg, ex-prisioneiro político, ativista clandestino do Solidariedade
Ryszard Grabarczyk, ex-prisioneiro político, ativista do Solidariedade
Aleksander Janiszewski, ex-prisioneiro político, ativista do Solidariedade
Piotr Kapczyński, ex-prisioneiro político, ativista da oposição democrática
Marek Kossakowski, ex-prisioneiro político, jornalista independente
Krzysztof Król, ex-prisioneiro político, ativista pela independência
Jarosław Kurski, ex-prisioneiro político, ativista da oposição democrática
Barbara Labuda, ex-prisioneira política, ativista clandestina do Solidariedade
Bogdan Lis, ex-prisioneiro político, líder do movimento clandestino Solidariedade em Gdańsk
Henryk Majewski, ex-prisioneiro político, ativista do Solidariedade
Adam Michnik, ex-prisioneiro político, ativista da oposição democrática, editor de editoras independentes
Sławomir Najnigier, ex-prisioneiro político, ativista clandestino do Solidariedade
Piotr Niemczyk, ex-prisioneiro político, jornalista e impressor de publicações clandestinas,
Stefan Konstanty Niesiołowski, ex-prisioneiro político, ativista pela independência
Edward Nowak, ex-prisioneiro político, ativista clandestino do Solidariedade
Wojciech Onyszkiewicz, ex-prisioneiro político, membro do Comitê de Defesa dos Trabalhadores, ativista do Solidariedade
Antoni Pawlak, ex-prisioneiro político, ativista da oposição democrática e da Solidariedade clandestina
Sylwia Poleska-Peryt, ex-prisioneira política, ativista da oposição democrática
Krzysztof Pusz, ex-prisioneiro político, ativista clandestino do Solidariedade
Ryszard Pusz, ex-prisioneiro político, ativista clandestino do Solidariedade,
Jacek Rakowiecki, ex-prisioneiro político, ativista clandestino do Solidariedade
Andrzej Seweryn, ex-prisioneiro político, ator, diretor do Teatro Polonês em Varsóvia
Witold Sielewicz, ex-prisioneiro político, impressor de editoras independentes
Henryk Sikora, ex-prisioneiro político, ativista do Solidariedade
Krzysztof Siemieński, ex-prisioneiro político, jornalista e impressor de publicações clandestinas
Grażyna Staniszewska, ex-prisioneira política, líder do Solidariedade na região de Beskidy
Jerzy Stępień, ex-prisioneiro político, ativista da oposição democrática
Joanna Szczęsna, ex-prisioneira política, editora da imprensa clandestina Solidariedade
Ludwik Turko, ex-prisioneiro político, ativista clandestino do Solidariedade
Mateusz Wierzbicki, ex-prisioneiro político, impressor e jornalista de editoras independentes



Alice Weidel, líder da AfD, é retratada como dando um “falso agrado” aos jovens eleitores alemães de primeira viagem.



As redes sociais são apresentadas como a “fábrica de doces” onde a extrema-direita fabrica suas “deliciosas” mentiras.

sábado, 15 de fevereiro de 2025

A interlíngua NÃO É pan-românica!


Endereço curto: fishuk.cc/iala-romanica

Um canal de curiosidades gerais com pouca identificação, mas razoável número de inscritos, publicou este vídeo short no YouTube sobre a interlíngua, e boa parte de seu conteúdo é basicamente a reprodução de um vídeo de Carlos Valcárcel sobre a compreensão imediata do idioma. Como não tenho canal próprio pra comentar, resolvi lhe escrever um e-mail no endereço que é oferecido, e ainda aguardo a resposta. Dado o interesse que as reflexões podem representar, após ter sido inspirado por este outro vídeo dizendo que o verdadeiro idioma pan-românico é o recém-surgido “neolatino”, e não a “interlíngua da IALA”, resolvi reproduzir a carta aqui, com poucas edições.



Após criar o mundo, Thomas Breinstrup tirou essa foto e não a trocou mais!


Meu nome é Erick, sou historiador e membro da União Brasileira Pró-Interlíngua (UBI) desde 2021, embora eu não pertença à atual diretoria. Encontrei por acaso no Google e assisti a seu short de dez meses atrás sobre a interlíngua, a qual você apresenta muito bem e com o merecimento de meus parabéns. Porém, você não forneceu informações adicionais nem na descrição do vídeo, nem no vídeo em si, e vários visitantes fizeram comentários bastante confusos. Ora acharam que era uma “mistura” de idiomas românicos, ora citaram (com justeza) o esperanto, ora justamente disseram que não encontraram material de aprendizado, o que não se justifica, dada a relativa abundância de materiais em diversos idiomas. Desta forma, resolvi lhe mandar esta cartinha para fazer alguns esclarecimentos, mas em meu nome, e não da UBI. E o faço por aqui porque uso o YouTube com meu perfil do Google, e não com um canal, portanto, não consigo deixar comentários por lá.

Em 2000 (mas com mais fôlego a partir de 2002), comecei a aprender esperanto, e em 2009, a interlíngua, ou “interlíngua da IALA”, como se costuma chamá-la, para não confundir com projetos semelhantes ou com o próprio conceito de “interlíngua” dentro das pesquisas em aprendizagem de idiomas. Agradeço por ter divulgado o trecho de um dos vídeos de nosso amigo Carlos Valcárcel, professor universitário galego e um dos maiores propagandistas atuais da interlíngua! Devido a sua facilidade e à ampla disponibilidade de material, aprendi ambos os idiomas sozinhos... Tais idiomas, por terem sido concebidos segundo um plano determinado, embora possam ocasionalmente evoluir em alguns aspectos, costumam ser chamados “auxlangs“ ou “conlangs“.

O primeiro termo se refere especificamente a idiomas como o esperanto e a interlíngua (ou o volapuque do século 19), que em tese seriam “línguas auxiliares” com o objetivo de facilitar a comunicação internacional sem o intermédio do idioma de um país específico. O segundo se refere apenas à natureza “construída”, independentemente de seu objetivo, como as línguas élficas e o klingon, usados em filmes de ficção. Não gostamos do termo “língua artificial”, muito usado até a década de 2000, porque mesmo nas atuais línguas “naturais” há elementos “artificiais”, criados deliberadamente por elites literárias e acadêmicas. O próprio hebraico moderno, cuja versão antiga era limitada à atividade religiosa, foi “reconstruído” para ser usado como idioma do movimento sionista e, mais tarde, do Estado de Israel.

Além disso, dado que seus criadores um dia saem de cena, as “auxlangs” também criam “vida própria” nas mãos de seus usuários, como é o caso do esperanto, que em quase 130 anos de existência incorporou novas palavras da modernidade. Assim, tanto a UEA (Associação Universal de Esperanto) e, em menor grau, a UMI (União Mundial Pro Interlingua) têm institutos que zelam pela manutenção de alguma unidade linguística e pela incorporação disciplinada de vocabulário novo.

Finalmente, ao contrário do que pensaram alguns internautas, a interlíngua não é nem foi designada para ser uma espécie de “idioma pan-românico”. Tais idiomas são chamados geralmente de “auxlangs zonais” e costumam ser muito mais rigorosos quanto à representatividade de todos os idiomas de um ramo, ou ao menos dos mais representativos, favorecendo, sobretudo, a compreensão imediata em detrimento do aprendizado rápido (o inverso do esperanto). No caso das românicas, já existe o neolatino, embora ainda seja pouco divulgado, e entre as línguas eslavas, o intereslavo já está em processo mais acelerado de codificação e difusão. A interlíngua foi concebida como uma espécie de “língua internacional” da cultura, da ciência e da diplomacia, por isso, tirando seus elementos das línguas nacionais mais utilizadas no Ocidente, e não criando muitos elementos ao acaso (que é o caso do esperanto).

Lembremos que no início da década de 1950, o conceito de “internacional” se limitava às Américas, à Europa Ocidental e alguns pontos ao redor do mundo bastante europeizados. Mesmo assim, se levarmos em conta que, de fato, poucas pessoas de uma comunidade realmente têm contatos internacionais, e que tanto o inglês quanto o espanhol e o francês são extremamente difundidos no mundo todo, a interlíngua ainda tem grande utilidade. Hoje, nem nós acreditamos que “apenas um idioma”, seja nacional ou construído, possa ser a “única língua universal” que transponha a barreira da incompreensão; preferimos pensar em meios que, por exemplo, poupem recursos com tradução e possam estar à livre disposição de qualquer um que se interesse numa “introdução geral” às línguas euro-ocidentais.



quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

Carta sobre a origem do esperanto


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/origem-eo

Aqui está outro texto que publiquei num antigo site sobre esperanto por mim mantido entre 2005 e ca. 2007. Trata-se do famoso excerto de uma carta privada de L. Zamenhof ao russo Nikolái Afrikánovich Boróvko, escrita talvez em 1895 e impressa com permissão de ambos os correspondentes. Vladímir Gernét a traduziu do original russo (cujo texto, porém, se perdeu) pro esperanto e a publicou na revista Lingvo Internacia (Língua Internacional), n. 6-7, p. 115-119. Gernet é indicado como o tradutor, e certamente o próprio Zamenhof e o marquês de Beaufront revisaram o texto, e eu o traduzi pro português. Leia abaixo uma pequena introdução em esperanto e a íntegra da carta!


Jen alia teksto, kiun mi publikigis en malnova retejo pri Esperanto de mi subtenita inter 2005 kaj ĉ. 2007. Temas pri celebra eltiro el privata litero de L. Zamenhof al la ruso Nikolaj Afrikanoviĉ Borovko, skribita eble en 1895 kaj presita kun permeso de ambaŭ korespondantoj. Vladimir Gernet tradukis ĝin el la rusa originalo (kies teksto, tamen, perdiĝis) al Esperanto kaj publikigis ĝin en la revuo Lingvo Internacia, n. 6-7, p. 115-119. Gernet estas indikata kiel la tradukinto, kaj certe Zamenhof mem kaj la Markizo de Beaufront revizis la tekston, kaj mi tradukis ĝin al la portugala. Ĉi-sube vi povas legi la tutan tradukon:



...O senhor me pergunta: como apareceu em mim a ideia de criar uma língua internacional e como foi a história da língua esperanto do momento de seu nascimento até hoje? Toda a história pública da língua, isto é, começando do dia em que saí abertamente com ela, é ao senhor mais ou menos conhecida; aliás, por muitas causas, é ainda inoportuno tocar neste período da língua; por isso, vou contar ao senhor, em traços comuns, somente a história do nascimento da língua.

Será difícil para mim contar ao senhor tudo isso em detalhes, pois muita coisa eu mesmo já esqueci: a ideia à qual dediquei toda minha vida para sua efetivação apareceu em mim – é engraçado dizê-lo – na mais tenra infância e, a partir desse tempo, nunca me abandonou; eu vivi com ela e nem posso me imaginar sem ela. Essa circunstância esclarecerá ao senhor em parte por que eu trabalhei sobre ela com tanta obstinação e porque eu, apesar de todas as dificuldades e da amargura, não abandonei essa ideia, tal como muitos outros fizeram tendo trabalhado no mesmo campo.

Nasci em Białystok, província de Grodno. Este lugar de meu nascimento e de meus anos infantis deu a direção a todos os meus objetivos futuros. Em Białystok, a população é formada de quatro elementos distintos: russos, poloneses, alemães e judeus; cada um desses elementos fala uma língua própria e se relaciona sem amizade com os outros elementos. Em tal cidade, mais do que em qualquer outro lugar, a natureza impressionante sente a pesada infelicidade da diversidade linguística e se convence a cada passo de que a diversidade de línguas é a única, ou ao menos a principal causa que dispersa a família humana e a divide em partes inimigas. Fui educado como um idealista; ensinaram-me que todos os homens são irmãos e, enquanto isso, na rua e no quintal, a cada passo tudo me fazia sentir que os homens não existem: existem somente russos, poloneses, alemães, judeus etc. Isso sempre atormentava fortemente minha alma infantil, embora muitos possivelmente rirão desta “dor pelo mundo” na infância. Por então me parecer que os “adultos” possuíam uma espécie de força todo-poderosa, eu constantemente repetia a mim mesmo que, quando eu fosse adulto, sem falta afastaria esse mal.

É claro que pouco a pouco eu me convencia de que nem tudo se faz tão fácil como parece a uma criança; fui jogando fora diversas utopias de criança, uma após a outra, e só o sonho por uma língua humana nunca pude jogar fora. De um modo confuso, eu de certa forma me atirei a ele, embora, é claro, sem quaisquer planos definidos. Não me lembro quando, mas em toda a ocasião, suficientemente cedo se formava em mim a consciência de que a língua única só pode ser neutra, não pertencendo a nenhuma das nações hoje vivas. Quando passei da Escola Real de Białystok (ela ainda era ginásio) para o segundo ginásio clássico de Varsóvia, fui durante algum tempo seduzido por línguas antigas e sonhava em um dia viajar pelo mundo inteiro e, com discursos flamejantes, inclinaria os homens a reviver uma dessas línguas para uso comum. Posteriormente, já não lembro quando, cheguei a uma firme convicção de que isso era impossível, e comecei a sonhar ocultamente com uma língua nova e artificial. Então, frequentemente começava alguns testes, elaborava riquíssimas declinações e conjugações artificiais. Mas uma língua humana com sua infinita, como me pareceu, pilha de formas gramaticais, com suas centenas de milhares de palavras, com as quais os grossos dicionários me atemorizavam, pareceu-me uma máquina tão artificial e colossal, que não foi só uma vez que eu dizia a mim mesmo: “Fora, sonhos! Esse trabalho não está conforme às forças humanas!” e, todavia, eu sempre voltava a meu sonho.

Eu aprendi alemão e francês na infância, quando ainda não se pode comparar e fazer conclusões; mas estando na 5.ª série do ginásio, quando comecei a aprender inglês, a simplicidade de sua gramática lançou-se em meus olhos, principalmente graças à íngreme passagem através dela das gramáticas latina e grega. Então, notei que a riqueza de formas gramaticais é apenas um cego acaso histórico, mas não é necessária à língua. Sob tal influência, comecei a vasculhar a língua e retirar as formas desnecessárias, e notei que a gramática sempre mais e mais derretia em minhas mãos, e logo cheguei à menor gramática possível, que ocupava, sem ser inútil à língua, não mais do que algumas páginas. Então, comecei mais seriamente a abandonar meu sonho. Mas ainda os léxicos gigantes nunca me deixavam tranquilo.

Uma vez, quando eu estava na 6.ª ou 7.ª série do ginásio, eu por acaso desviei a atenção à inscrição “shveytsarskaya” (portaria), que eu já tinha visto muitas vezes, e depois à tabuleta “konditorskaya” (doceria). Esse “skaya” despertou-me interesse e mostrou-me que os sufixos dão a possibilidade de se fazerem, de uma palavra, outras palavras que não precisam ser aprendidas separadamente. Esse pensamento me possuiu por inteiro, e subitamente senti o chão sob os pés. Sobre os terríveis léxicos gigantes caiu um raio de luz, e eles rapidamente começaram a encolher diante de meus olhos.

“O problema está resolvido!” – então eu disse. Eu captei a ideia dos sufixos e comecei a trabalhar bastante nessa direção. Eu compreendi que grande significado pode ter para uma língua criada conscientemente o uso pleno dessa força, cuja eficácia nas línguas naturais é pouca, cega, irregular e incompleta. Comecei a comparar palavras, procurar entre elas relações constantes e definidas, e todo dia eu retirava do vocabulário uma nova série enorme de palavras, substituindo esse colosso por um sufixo que significava uma certa relação. Então, notei que uma pilha muito grande de palavras puramente radicais (ex. “mãe”, “estreito”, “faca” etc.) podiam ser facilmente transformadas em palavras compostas, formadas [em esperanto, patrino, mallarĝa, tranĉilo], e desaparecer do léxico. A mecânica da língua estava diante de mim como que sobre as palmas das mãos, e já começava agora a trabalhar regularmente, com amor e esperança. Logo depois eu já tinha escrita toda a gramática e um pequeno dicionário.

A propósito, aqui eu direi algumas palavras sobre o material para o vocabulário. Muito antes, quando eu procurava e descartava tudo de inútil da gramática, eu quis usar os princípios da economia também para as palavras e, convencido de que tanto faz que forma terá essa ou aquela palavra se somente concordarmos que ela expressa a ideia dada, simplesmente inventava palavras, penando que elas fossem as mais curtas possíveis e não tivessem um número desnecessário de letras. Eu disse a mim mesmo que ao invés de usar palavras de 11 letras, como interparoli [conversar], podemos muito bem expressar a mesma ideia, por exemplo, com uma palavra de duas letras, como “pa”. Por isso, simplesmente escrevia a série matemática dos conjuntos de letras mais curtos, mas facilmente pronunciáveis, e a cada um eu dava o significado de uma palavra definida (ex. a, ab, ac, ad, ... ba, ca, da, ... e, eb, ec, ... be, ce, ... aba, aca, ... etc.). Mas eu logo descartei essa ideia, pois os testes feitos comigo mesmo me mostraram que tais palavras inventadas são muito difíceis de ser aprendidas e ainda mais difíceis de ser memorizadas. Então, já me convencia de que o material para o léxico deveria ser latino-germânico, sendo mudado só o quanto pedissem a regularidade e outras condições importantes da língua. “Já estando sobre essa terra”, logo notei que as línguas modernas possuem uma enorme provisão de palavras prontas já internacionais, que são conhecidas por todos os povos e constituem um tesouro para uma futura língua internacional – e obviamente me utilizei desse tesouro.

No ano de 1878, a língua já estava mais ou menos pronta, embora entre a então “lingwe uniwersala” [língua universal] e o atual esperanto ainda havia uma grande diferença. Eu a divulguei entre meus colegas (eu então estava na 8.ª série do ginásio). A maioria deles foi seduzida pela ideia e pela incomum facilidade da língua, o que os percutia, e começaram a aprendê-la. Em 5 de dezembro de 1878, nós todos solenemente festejamos juntos a santificação da língua. Durante essa festa, houve discursos na nova língua, e com entusiasmo cantamos o hino, cujas palavras iniciais eram as seguintes:


“Malamikete de las nacjes
Kadó, kadó, jam temp’ está!
La tot’ homoze in familje
Konunigare so debá.”

(“A inimizade entre as nações
Caia, caia, já é tempo!
Toda a humanidade, em uma só família,
Deve se unir.”)


Sobre a mesa, além da gramática e do dicionário, repousavam algumas traduções na nova língua.

Assim se encerrou o primeiro período da língua. Então, eu ainda era muito jovem para sair publicamente com meu trabalho, e eu decidi esperar ainda cinco, seis anos e, durante esse tempo, cuidadosamente testei a língua e plenamente a trabalhei na prática. Meio ano depois da festa de 5 de dezembro, acabamos o curso ginasial e nos dispersamos. Os futuros apóstolos da língua experimentaram falar um pouco da “nova língua” e, deparando-se com as zombarias dos adultos, eles logo se apressaram em desconfessar a língua, e eu fiquei totalmente só. Prevendo só zombarias e perseguições, decidi esconder meu projeto de todos. Durante 5 anos e meio de minha permanência na universidade, nunca falava com ninguém sobre meu trabalho. Esse tempo foi muito difícil para mim. A “clandestinidade” me atormentava; obrigado a cuidadosamente esconder meus pensamentos e planos, quase não permanecia em nenhum lugar, não participava de nada, e a mais bela época da vida – os anos de estudante universitário – foram para mim os mais tristes. Às vezes eu tentava me distrair na sociedade, mas me sentia como um estranho, suspirava e ia embora, e de tempos em tempos acalmava meu coração com algum poema na língua trabalhada por mim. Mais tarde, coloquei um desses poemas (Mia penso, “Meu pensamento”) na primeira brochura editada por mim; mas aos leitores que não sabiam em que circunstâncias esse poema foi escrito, ele obviamente aparenta ser estranho e incompreensível.

Durante seis anos trabalhei aperfeiçoando e testando a língua, – e eu tive bastante trabalho, embora no ano de 1878 me parecesse que a língua já estava totalmente pronta. Fiz muitas traduções para minha língua, escrevi nelas obras originais e vários testes me mostraram que o que me parecia totalmente pronto na teoria, ainda não estava pronto na prática. Tive de esculpir, substituir, corrigir e transformar radicalmente muita coisa. Palavras e formas, princípios e exigências impeliam e atrapalhavam uns aos outros, enquanto na teoria, tudo separadamente e em pequenos testes, eles me parecessem totalmente bons. Tais objetos, como a preposição universal je [usada quando nenhuma das outras consegue expressar o sentido desejado], o verbo elástico meti [pôr, colocar, meter], a terminação neutra, mas definida, -aŭ etc., provavelmente nunca mergulhariam teoricamente em minha cabeça. Algumas formas, que para mim pareciam uma riqueza, agora se mostravam, na prática, um peso morto; assim, por exemplo, tive de jogar fora alguns sufixos desnecessários. No ano de 1878, parecia-me que, para a língua, era suficiente ter gramática e léxico; eu atribuía a sobrecarga e a deselegância da língua somente ao fato de que eu ainda não a dominava bem o suficiente; então, a prática sempre mais e mais me convencia de que a língua ainda precisava de uma espécie de “algo” insondável, o elemento de coligação que dava à língua vida e um “espírito” definido, totalmente formado. (O desconhecimento do espírito da língua é a causa pela qual alguns esperantistas, que leram muito pouco na língua esperanto, escrevem sem erros, mas em um estilo pesado, desagradável – enquanto os esperantistas mais experientes escrevem em um estilo bom e totalmente idêntico, qualquer que seja a nação à qual eles pertençam. Sem dúvida, com o tempo, o espírito da língua, embora aos poucos e imperceptivelmente, mudará muito; mas se os primeiros esperantistas, pessoas de diversas nações, não encontrassem na língua um espírito fundamental todo definido, cada um começaria a puxar para seu lado e a língua permaneceria eternamente, ou ao menos durante um tempo muito longo, uma coleção de palavras desengonçada e sem vida.) Então, comecei a evitar traduções literais desta ou daquela língua e penei em pensar diretamente na língua neutra. Depois, notei que a língua, em minhas mãos, já deixava de ser uma sombra sem fundamentos desta ou daquela língua, com a qual eu estava lidando neste ou naquele minuto, e recebia seu próprio espírito, sua própria vida, a própria fisionomia definida e claramente expressa, já independente de qualquer tipo de influência. A fala já fluía sozinha, flexível, graciosa e totalmente livre, como uma língua materna viva.

Por um longo tempo, uma circunstância ainda me fazia adiar minha saída pública com a língua: durante um longo tempo, um problema não ficou resolvido, e que tem um enorme significado para uma língua neutra. Eu sabia que todos me diriam: “Sua língua só será útil para mim quando o mundo inteiro a aceitar; por isso, não posso aceitá-la até que o mundo inteiro a aceite.” Mas dado que o “mundo” não é formado sem “unidades” antes separadas, a língua neutra não podia ter futuro até que conseguisse tornar-se útil para cada pessoa à parte, independentemente se já é uma língua aceita ou não pelo mundo. Fiquei muito tempo pensando nesse problema. Finalmente, os chamados “alfabetos secretos”, que não exigem que o mundo os aceite de antemão e dão a um destinatário totalmente desinformado a possibilidade de entender tudo o que você escreveu somente se você lhe passar a “chave” com os significados, conduziu-me a pensar em arranjar também a língua aos modos de tal “chave”, que, contendo em si não somente todo o léxico, mas também toda a gramática de elementos separados, totalmente independentes e ordenados em ordem alfabética, daria a possibilidade do destinatário/leitor totalmente desinteressado, de qualquer nação, compreender imediatamente sua carta.

Terminei a universidade e comecei minha prática médica. Agora, já começava a pensar na saída pública com meu trabalho. Aprontei o manuscrito de minha primeira brochura (Dr. Esperanto – Uma língua internacional: Prefácio e manual completo) e comecei a procurar um editor. Mas pela primeira vez, eu aqui encontrei a amarga prática da vida, a demanda financeira com a qual, posteriormente, ainda devia e devo batalhar muito fortemente. Durante dois anos, em vão procurei um editor. Quando eu já tinha encontrado um, ele aprontou minha brochura para edição durante meio ano e, ao fim, recusou. Finalmente, depois de longos esforços, eu mesmo consegui editar minha primeira brochura em julho do ano de 1887. Antes disso, eu estava muito excitado; eu sentia que estava diante do Rubicão (*) e que do dia em que aparecesse minha brochura, eu já não teria a possibilidade de regressar; eu sabia que sorte esperava um médico que depende do público, se esse público via nele um fantasioso, um homem que se preocupa com “causas apensas”; eu sentia que estaca pondo em jogo toda a tranquilidade futura e as existências minha e de minha família; mas eu não podia deixar a ideia que adentrou meu corpo e meu sangue, e... eu atravessei o Rubicão. (*)


Luís Lázaro Zamenhof.


(*) Nota de tradução – “Atravessar o Rubicão” (em esperanto, transiri Rubikonon: frase que se costuma proferir quando se toma uma decisão arrojada e decisiva, em referência a um pequeno rio que separava a Itália da Gália Cisalpina. (Dicionário Completo Esperanto-Português, Federação Espírita Brasileira, 1996.)