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quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Narrativa pró-Rússia na mídia brasileira

   Em seu esforço contínuo pra advogar em prol da causa ucraniana no Brasil, meu amigo Claudio Cavalcante Junior, doutor em Antropologia pela UFRJ e constante aparição nesta humilde página, participou online da conferência internacional Global Disinformation Conference – Kharkiv 2026, promovida pela cátedra de Relações Internacionais da Universidade Nacional V. N. Karazin de Kharkiv. Na qualidade de membro da Universidade Livre Ucraniana Wira Wowk Selansky do Brasil, ele apresentou em inglês o trabalho “Pro-Russia narratives in the context of political polarization in Brazil” (“Narrativas pró-Rússia no contexto de polarização política no Brasil”), ao qual ele deu o nome alternativo “Pro-Russian narratives in Brazilian media” (Narrativas pró-Rússia em meios de comunicação do Brasil).

Agradeço ao Claudio a permissão de publicar aqui sua versão prévia em português, com redação revisada por mim e notas de rodapé que completei com todos os dados das referências. Exceto pelo formato, nem eu nem ele acrescentamos conteúdo novo à comunicação depois de ter sido lida no evento. Esperamos que ela possa ajudar a serem formuladas outras reflexões sobre a detecção e o combate a narrativas da mídia tradicional ou “alternativa” e da academia defendendo a agressão de Putin à Ucrânia e suas ameaças aos países da OTAN.


A apresentação trata de narrativas pró-Rússia no contexto de polarização política do Brasil. Por isso, vou abordar as relações de autoridades brasileiras com Putin nos últimos quatro anos e expor uma pequena amostra de reportagens que demonstram certo “apoio” à “operação militar especial” da Rússia na Ucrânia.

Tanto em 2022 quanto em 2026, vivemos uma forte polarização entre o que podemos identificar como os dois movimentos políticos liderados por Jair Bolsonaro (direita/extrema-direita) e pelo atual presidente Luís Inácio Lula da Silva (esquerda).

No ano da invasão em larga escala da Rússia à Ucrânia, o Brasil mais uma vez elegeu Lula, ex-presidente de esquerda. Naquele ano, Bolsonaro havia ido à Rússia pouco antes da invasão em larga escala e, três dias após a invasão, fez piada sobre o assunto em entrevista. Ao ser perguntado sobre a guerra, o então presidente afirmou que a Ucrânia “confiou em comediante para traçar destino da nação”. (1) Naquele mesmo ano, Lula relativizou a responsabilidade de Putin e comentou que “os motivos para o conflito seriam resolvidos no Brasil em uma mesa de bar regada a cerveja”. (2) Quatro anos depois, o Brasil continua polarizado e Lula tenta um quarto mandado como presidente contra o filho de Jair Bolsonaro, Flávio. A forte divisão do país entre esquerda e direita, em alguma medida, impacta sobre a forma de enxergar o mundo de forma geral e a guerra entre a Rússia e a Ucrânia de forma particular.

Independentemente de quem está no poder, o Brasil é um país onde atuam livremente os instrumentos russos de soft power, entre eles a filial do Balé Bolshoi, única presente fora da Rússia. Anualmente há uma seleção de novos alunos, amplamente coberta por reportagens na televisão. (3) Meninas e meninos pobres, egressos de projetos sociais, têm suas vidas transformadas ao serem selecionados para um dos melhores balés do mundo. Nestas ocasiões, em geral, não há qualquer menção sobre a invasão da Rússia à Ucrânia, ausência notável também na imprensa ou em sites oficiais quando o Brasil celebra convênios com a Rússia. Podemos destacar a cooperação na área de tecnologia e ciência com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (4) e o investimento para o ensino de russo no Brasil, integrado como língua estrangeira em escolas selecionadas por meio de um acordo recente entre os ministérios da Educação brasileiro e russo. (5)

O Brasil recebe muito bem os russos que decidem viver aí e não parece haver grande preocupação com histórias envolvendo a presença de espiões russos em território nacional. (6) Existe também a Sputnik BR, sucursal no Rio de Janeiro da mídia propagandista russa Sputnik onde é operada uma estação de rádio. (7) Em geral, os meios de comunicação não somente não demonstram preocupação com a presença russa no Brasil, mas também replicam acriticamente as fontes oficiais de propaganda do Kremlin, tratadas de forma distinta de outros emissores, como Donald Trump ou Jair Bolsonaro, cujos conteúdos são muito mais questionados.

Ao analisarmos artigos de um jornalista para o importante jornal brasileiro Folha de S. Paulo, observamos uma postura que pode ser considerada pró-Rússia. Em vários textos, ele apresenta a expansão da OTAN como a principal queixa estratégica de Moscou; em outros artigos, descreve explicitamente a guerra como resultado de uma disputa de segurança entre a Rússia e o Ocidente. Em um dos textos, o jornalista escreve que existe um “embate subjacente” à guerra, definido como uma disputa entre Moscou e EUA/OTAN sobre o desenho das fronteiras de segurança do Leste Europeu. (8) Logo em seguida, afirma que “o Kremlin vê a expansão a leste de estruturas ocidentais como inaceitável”. O texto também identifica a entrada dos países bálticos na OTAN como um dos principais pontos de atrito para Putin. Mesmo sendo um texto escrito há mais de quatro anos, o argumento para uma possível ação militar no Báltico já estava posto.

Em outro texto, aponta que Putin colocou “de vez” a ideia de que sua guerra seria uma reação à expansão ocidental, destacando que 14 “países ex-comunistas” haviam aderido à OTAN desde 1999. (9) Também aponta que, naquele contexto, uma das condições russas era a neutralidade da Ucrânia, e sua não entrada na aliança. Aqui, o jornalista não está apenas dizendo que Putin criticava a OTAN, mas também apresentando a expansão da aliança como a explicação estratégica que o Kremlin utiliza para justificar a guerra. (10)

Mesmo antes da invasão de 24 de fevereiro, ao explicar as exigências russas durante a “crise”, o jornalista afirmara que Putin reivindicava que a OTAN retirasse as tropas posicionadas nos “países ex-comunistas” incorporados à aliança após 1999 e que já fosse permanentemente vetada a entrada da Ucrânia na OTAN. Em outro texto também escrito e publicado antes da invasão, usa o mesmo argumento ao expor sua abordagem sobre o que chamou “contexto histórico da expansão da OTAN”, na qual apresenta a crise como uma disputa da Rússia com a Ucrânia e a OTAN e explica que Putin buscava impor uma determinada visão estratégica para o Leste Europeu. (11)

O jornalista esteve nos territórios ocupados do Donbás, (12) onde fez reportagem sob tutela dos ocupantes em novembro de 2024, (13) o que não gerou reações de meios de comunicação no Brasil. Apesar disso, no mesmo jornal, são expostas posições divergentes, incluindo um texto do cientista político Vicente Ferraro, que debate a seletividade moral na academia e na imprensa com relação ao conflito. (14) O jornalista supracitado é reconhecido por ser uma pessoa pró-Rússia. Em conversa privada com um jornalista da mesma publicação que esteve na Ucrânia, onde fez algumas reportagens, elogiei seu trabalho e comparei-o ao desse jornalista, a quem acusei de ser pró-Rússia. A resposta do jornalista foi: “(...) ele é super pró-Rússia”. (15) Desta forma, não há qualquer problema ou impedimento em ser assumidamente um apoiador da Rússia em uma publicação da relevância da Folha de S. Paulo. (16)

Ao longo de minha pesquisa, convergindo com Ferraro, identifiquei a falta de uma visão crítica sobre a invasão da Rússia à Ucrânia da parte de jornalistas e intelectuais, que não questionam as mentiras de Putin e Lavrov sobre sua invasão em larga escala e as acusações à Ucrânia (e aos ucranianos) de ser agente do “Ocidente”, sobretudo por meio da “ameaça” da expansão da OTAN, e de ser “nazista”. (17) O argumento da expansão da OTAN e da ameaça do “Ocidente” é de grande recorrência nas narrativas que podem ser identificadas como propagandistas pró-Rússia no Brasil.

Essa abordagem é reforçada pelo sentimento antiamericano recorrente no jornalismo e, sobretudo, no mundo acadêmico, cuja comunidade geralmente reivindica um engajamento “de esquerda”. Segundo reportagem da Al-Jazeera, (18) o argumento dos “esquerdistas brasileiros” para apoiar a Rússia é a expansão da OTAN, contra a qual o país estaria se defendendo. Para esses “esquerdistas”, a Rússia de Putin é a sucessora da URSS, perspectiva alimentada pelo presidente Lula em seu terceiro mandato, que imagina que Putin pode pôr fim ao imperialismo americano e pavimentar o caminho rumo a um mundo multipolar. A reportagem aponta ainda que a “esquerda brasileira” não acredita no término da “guerra fria”. (19) Aqueles que enxergam o regime putinista pelo viés “progressista” ignoram, por exemplo, a criminalização do movimento LGBT e a emergência de políticas em seu desfavor na Rússia. (20)

Isso não quer dizer que antes de 2022 não existissem apoiadores de Bolsonaro simpáticos à Rússia. É importante frisar que o estreitamento dos laços de Lula com Putin, a quem o presidente brasileiro chamou de “amigo”, (21) pode ter impactado positivamente sobre alguns militantes de “direita”, “bolsonaristas” pró-Rússia que veem em Putin uma liderança lutando contra “globalistas”. (22)

A abordagem daqueles que se reivindicam “conservadores” e apoiam Putin no Brasil está parcialmente sintetizada no discurso do ex-presidente Bolsonaro por ocasião da visita à Rússia (23) dias antes da invasão em larga escala: “Compartilhamos de valores comuns, como a crença em Deus e a defesa da família (...)”. Durante o encontro, Putin fez a defesa de um “mundo multipolar”, (24) assunto constantemente reforçado em discursos de Lula ao longo de seu terceiro governo. (25) A partir daquela visita, Bolsonaro aumentou as relações comerciais com a Rússia, em especial de óleo diesel e fertilizantes comprados pelo Brasil, relações que se intensificariam ao longo do terceiro mandato de Lula. (26)

O presidente Lula foi à Rússia para as comemorações do Dia da Vitória (que os russos chamam de “Grande Guerra Patriótica”) em 2025. (27) Ele e sua esposa Rosângela usaram a fita de São Jorge e assistiram ao desfile militar. (28) A primeira-dama visitou o Teatro Bolshoi e assistiu a uma apresentação de balé no Teatro Mariinski. (29) Não houve qualquer crítica ou identificação do país anfitrião com a guerra que ele causou.

Com relação à invasão da Rússia à Ucrânia, defendo que existe não uma homogeneidade de perspectivas no que podemos chamar de meios de comunicação tradicionais, mas uma dependência maior da perspectiva de cada jornalista/autor. Em suma, não há posturas únicas expostas em editoriais, por exemplo, o que pode se explicar em parte pela ingenuidade resultante de uma abordagem política questionável. Porém, provavelmente existem aquelas pessoas e meios financiados a partir do exterior, por isso, devemos ficar atentos a sua produção de conteúdos que semeiam a desinformação no Brasil.


Notas (Clique pra voltar ao texto)

(1) BOLSONARO sobre guerra: ‘Povo da Ucrânia confiou em comediante para traçar destino da nação’. [S. l.: s. n.], 2022. 1 vídeo (1 min). Publicado pelo canal UOL. Disponível nesta página. Acesso em: 29 maio 2024.

(2) GAIER, Rodrigo Viga. Lula diz que no Brasil motivos para guerra na Ucrânia seriam resolvidos numa mesa de bar. Reuters, Rio de Janeiro, 30 mar. 2022, 20:49. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(3) CRIANÇAS do Brasil participam de seleção para o balé Bolshoi. Band.com.br, 30 dez. 2024, 21:46. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(4) RAMOS, Vitor. UFRJ recebe comitiva russa para ampliar cooperação científica e tecnológica. UFRJ, 7 ago. 2026. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(5) LÍNGUA russa será introduzida em escolas do Brasil como língua estrangeira. Sputnik Brasil, 23 jul. 2026. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(6) SCHWIRTZ, Michael; BRADLEY, Jane. Espiões de Putin no Brasil: como a Polícia Federal agiu para desmantelar a rede de espionagem russa. The New York Times. 21 maio 2025, 12:23. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(7) SPUTNIK inaugura rádio FM com transmissão 24 horas em português no Brasil. Brasil 247, 01 ago. 2025, 8:37. Disponível nesta página. Acesso em: 05 out. 2026.

(8) Conflito na Ucrânia tira fantasma da Terceira Guerra Mundial da aposentadoria. Folha de S. Paulo, São Paulo, 01 mar. 2022, 14:11. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(9) Putin acusa Ocidente de causar guerra na Ucrânia e tentar cancelar a Rússia. Folha de S. Paulo, São Paulo, 16 mar. 2022, 12:01. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(10) Ibid.

(11) Entenda a crise entre a Rússia de Putin, a Ucrânia e as forças da Otan. Folha de S. Paulo, São Paulo, 25 jan. 2022, 11:24. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(12) Invasão russa traz misto de alívio e incerteza a Donetsk. Folha de S. Paulo, São Paulo, 13 nov. 2024, 12:00. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(13) Folha percorreu 3.500 km em visita à frente russa da guerra. Folha de S. Paulo, São Paulo, 10 nov. 2024, 23:00. Disponível nesta página. Acesso em: 07 out. 2026.

(14) FERRARO, Vicente. Atrocidades russas em 3 anos de guerra na Ucrânia não devem ser relativizadas. Folha de S. Paulo, São Paulo, 26 fev. 2025, 10:00. Disponível nesta página. Acesso em: 07 out. 2026.

(15) Conversa pelo direct do Instagram em 30 de junho de 2023.

(16) No mesmo jornal, podemos encontrar este artigo escrito pelo embaixador da Rússia no Brasil: LABETSKI, Alexei. Em Donbass, a cultura é resistência à propaganda falsa. Folha de S. Paulo, São Paulo, 03 ago. 2026, 22:00. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(17) POR QUE a Rússia diz combater o nazismo na Ucrânia – e qual é a verdade. Carta Capital, São Paulo, 24 fev. 2022, 09:59. Disponível nesta página. Acesso em: 08 out. 2026.

(18) GARCIA, Raphael Tsavkko. Why is the Brazilian left supporting Putin’s Russia? Al-Jazeera, Doha, 21 maio 2022. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(19) Ibid.

(20) Rússia adiciona ‘movimento internacional LGBTQIA+’ a lista de entidades terroristas. AFP, 22 mar. 2024, 12:40. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(21) LAZZARO, Paloma. ‘Falei com meu amigo Putin’, diz Lula ao pedir por reunião do Conselho de Segurança. Exame, São Paulo, 05 ago. 2026, 13:43. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(22) “A era em que um pequeno grupo de nações decidia pelo mundo inteiro acabou”, declara Putin. Hora do Povo, São Paulo, 06 out. 2025. Disponível nesta página. Acesso em: 08 out. 2026.

(23) PRAZERES, Leandro. Bolsonaro fala em ‘casamento perfeito’ com Rússia e diz que Putin ‘busca a paz’. BBC News Brasil, 16 fev. 2022. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(24) Ibid.

(25) ZARUR, Camila; TRUFFI, Renan. Em discurso, Lula defende mundo multipolar e governança de IA ‘justa, inclusiva e equitativa’. Valor Econômico, Rio de Janeiro, 06 jul. 2025, 17:58. Disponível nesta página. Acesso em: 08 out. 2026.

(26) PRAZERES, Leandro. Sob Bolsonaro e Lula, diesel da Rússia vira negócio bilionário e coloca o Brasil na mira de Trump. G1, 08 ago. 2025, 15:51. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(27) NERY, Laila. Lula participa do Dia da Vitória na Rússia ao lado de Putin e Xi. UOL, São Paulo, 09 maio 2025, 00:01. Disponível nesta página. Acesso em: 06 out. 2026.

(28) Ibid.

(29) AGENDA de Janja na Rússia inclui ida ao Bolshoi e a universidade. PODER360, Brasília, 03 maio 2025, 12:45. Disponível nesta página. Acesso em: 07 out. 2026.



quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Por que o Brasil não liga pra Ucrânia?

Esta é a transcrição da fala em português e inglês que o antropólogo Claudio Cavalcante Jr. gentilmente me cedeu, permitindo que eu a republicasse aqui pra tentar lhe fornecer um pouco mais de visibilidade, após sua leitura num painel de discussões intitulado “How Ukraine Can Gain Support from Brazil” em 19 de dezembro de 2025. A reunião ocorreu online, nos quadros da 4.ª Conferência Internacional Dedicada a Yuri Knorozov “Ukraine – Latin America: Geopolitical Transformations and New Forms of Interaction”. Apesar do painel se chamar “Como a Ucrânia pode ganhar apoio do Brasil”, só pude intitular a publicação daquele jeito, dado o conteúdo do texto e dado o pessimismo de que o Claudio me tem feito parte ultimamente. Fiz poucas adaptações:



Boa tarde/Boa noite! Obrigado ao Ivan Fechko (do Ukranian Prism), ao Oskar Slushchenko e o Heorhii Erman (ambos da Embaixada da Ucrânia no Brasil). Meu nome é Claudio Cavalcante Junior, sou Ph.D. em Ciências Humanas (Antropologia Cultural) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Minha tese defendida em março deste ano trata de política na diáspora ucraniana no Brasil, além inserção dos ucranianos a sociedade brasileira, relações interétnicas e com o Estado brasileiro, além dos impactos da invasão em larga escala.

É difícil responder questão que intitula esse painel, então vou tentar expor como a Ucrânia ganhou o meu apoio. Eu nasci no Rio de Janeiro, onde fiz toda a minha formação acadêmica. Há quase 16 anos eu vivo no Paraná, em uma cidade no interior chamada União da Vitória, região pioneira da presença ucraniana no Brasil. Os ucranianos chegaram à região em 1896.

Eu moro na rua que carrega o nome do Marechal Deodoro da Fonseca, que foi o primeiro presidente do Brasil. Na mesma rua encontramos a igreja São Basílio, igreja greco-católica ucraniana, e o Clube Ucraniana de União Vitória, fundado em 1923 como União Ucraína do Brasil (Soiuz) que atualmente tem sua sede em Curitiba, capital do Paraná, e é chamada de Sociedade Ucraniana no Brasil (SUBRAS), onde desenvolvem atividades culturais. Aqui encontramos também entre a igreja e o clube, a praça da Ucrânia, onde está uma estátua de Taras Shevchenko.

Estes são alguns exemplos da visibilidade da Ucrânia e dos ucranianos em uma cidade no interior do Brasil. Resultado de mais de 130 anos da imigração ucraniana para o Brasil que pode ser dividido em três ondas. A primeira onda no final do século 19 até 1914, a segunda no Entre guerras e a terceira depois da Segunda Guerra. Os antepassados dos descendentes de ucranianos portavam, na primeira onda, passaportes austríacos (provinham do Império Austro-Húngaro), da segunda onda, da Polônia (vinham de territórios sob domínio polonês) e, na terceira onda, eram apátridas (a maioria era Ostarbeiter, vítimas de trabalhos forçadas, deportadas para Alemanha que não voltam para a Ucrânia, então completamente sob domínio soviético no pós-Segunda Guerra Mundial).

Teríamos um problema para definir quem é de “nacionalidade ucraniana” na diáspora, se nos limitássemos aos documentos, entretanto estes ucranianos permaneceram ucranianos mesmo se inserindo na sociedade brasileira ao longo de várias gerações. Mesmo assim há um envolvimento limitado de brasileiros com raízes ucranianas em ações de mobilização contra a Guerra Russo-Ucraniana, visto que são todos brasileiros. Não posso deixar de esclarecer que há um grupo de ucraniano-brasileiros fazendo um bom trabalho.

Há a presença de ucranianos de quarta onda que vieram para o Brasil a partir do restabelecimento da independência da Ucrânia em 1991. O perfil sociológico destes “novos ucranianos” é muito diferente daqueles de ondas anteriores. Estes “novos ucranianos” organizam manifestações contra a Rússia, contra a guerra, juntos com alguns cidadãos da Federação Russa e vivem em contextos distintos da diáspora ucraniana no Brasil. Mobilizações contra a invasão da Rússia a Ucrânia que ocorram (e ocorrem no Brasil) não são realizadas com frequência e contam com baixa participação. Estive duas vezes em manifestações em São Paulo (uma em 2022 e outra em 2023) e uma vez no Rio de Janeiro (neste ano).

É um desafio para os ucranianos e os brasileiros engajados nesta luta divulgar a causa ucraniana. Em meio a luta contra o imperialismo russo, tentamos divulgar que a Ucrânia, foi uma colônia russa e os objetivos de Putin na Ucrânia são apenas ações imperialistas, ilegais do ponto de vista do direito internacional. Diferentes de outros contextos não havia antes de 2014, antes do início da Guerra Russo-Ucraniana, qualquer impasse em relações a territórios que fazem parte da Ucrânia reconhecidos a partir do reestabelecimento do Estado ucraniano. Aqui no Brasil, é importante dizer, há uma certa força da propaganda russa em diferentes meios e com narrativas diversas afetando tanto aqueles que reivindicam ser “progressistas” quanto aqueles que reivindicam ser “conservadores”.

A presença russa no Brasil não é vista com desconfiança, tampouco é alvo de sanções como em outros contextos: reportagens sobre russos no mercado imobiliário de Florianópolis ou da seleção anual da filial do Escola de Balé “Bolshoi” em Joinville, ambas cidades no estado de Santa Catarina, não estabelecem um link com que está acontecendo na Ucrânia a Rússia. Há uma imagem positiva dos russos com a presença mais visível de russos que estão se estabelecendo no Brasil, deixando de lado os casos de espionagem no Brasil; são nove casos conhecidos. Há também a ação russa através do soft power, como no exemplo do Bolshoi, que frequentemente seleciona e forma bailarinos de origem periférica, com origem em projetos sociais em favelas. Talvez valha a pena citar a literatura russa, que tem muito prestígio no Brasil. Um dos caminhos na formação de uma visibilidade positiva, em especial fora de contextos no estado do Paraná, onde os ucranianos têm muita visibilidade, é através do que a embaixada da Ucrânia no Brasil no campo da diplomacia cultural.

Quanto ao governo brasileiro, este tem assumido uma posição de neutralidade pró-Rússia. O mesmo governo que em crise com o governo de Trump defendeu que não abriria mão de sua soberania. Ouvi a frase: “a soberania brasileira é inegociável”. Este mesmo governo que defende que “o Brasil é dos brasileiros”, defende que a soberania da Ucrânia é negociável, que a Ucrânia não é dos ucranianos.

Eis o desafio: a Ucrânia não é parte da Rússia, ela foi ocupada por forças estrangeiras por séculos e merece ser livre, soberana e minha luta diária como intellectuel engagé (“intelectual engajado”) é tentar divulgar nossa causa: a causa ucraniana. Os scholars no Brasil carregam usualmente sentimento antiamericano, o que estaria na base da percepção, mesmo que discreta, mais alinhada à Rússia na Guerra. As posturas adoradas por Trump favorecendo Putin na atualidade parecem não mexer com a percepção de que a Rússia é a única culpada pela guerra.

Desde 2023, eu acompanho mobilizações de professores e estudantes de universidades se engajando no “genocídio palestino” e a questão que eu coloco é: por que não há mobilização contra as violações aos direitos humanos que a Rússia comete todos os dias na Ucrânia? E as crianças ucranianas sequestradas? Eu não tenho muitas esperanças que as autoridades brasileiras se envolvam na guerra, de alguma forma contribuindo para os esforços da Ucrânia, ou mesmo que os scholars e estudantes universitários reconhecem a luta e resistência ucraniana em busca de uma paz justa e duradoura.

Quanto à população em geral, a guerra parece ser algo distante e que não faz parte do cotidiano ou das conversas diárias. Desta forma, é um desafio tentar mostrar que esta guerra é parte de um contexto mais amplo e que deve envolver todo o mundo. Tenho tentado alertar, mas com pouco sucesso, já que as preocupações são muito contextuais, seja para o governo atual ou para a população brasileira, mesmo aqueles que têm raízes ucranianas.


Good afternoon/Good evening! Thank you to Ivan Fechko (from Ukranian Prism), Oskar Slushchenko and Heorhii Erman (both from the Embassy of Ukraine in Brazil). My name is Claudio Cavalcante Junior, I have a Ph.D. in Human Sciences (Cultural Anthropology) from the Federal University of Rio de Janeiro. My thesis, defended in March of this year, deals with politics in the Ukrainian diaspora (“diáspora”) in Brazil, as well as the integration of Ukrainians into Brazilian society, interethnic relations and relations with the Brazilian State, in addition to the impacts of the large-scale invasion.

It is difficult to answer the question that titles this panel, so I will try to explain how Ukraine gained my support and how I try help Ukraine to gain support. I was born in Rio de Janeiro, where I completed all my academic training. For almost 16 years I have lived in Paraná, in a town called União da Vitória, a pioneering region of the Ukrainian presence in Brazil. The Ukrainians arrived in the region in 1896.

I live on the street that bears the name of Marechal (Marshal) Deodoro da Fonseca, who was the first president of Brazil. On the same street we find the São Basílio church, a Ukrainian Greek Catholic church, and the União Vitória Ukrainian Club, founded in 1923 as the Brazilian Ukrainian Union (Ukrainskyi Soiuz v Brazyli), which currently has its headquarters in Curitiba, the capital of Paraná, and is called the Ukrainian Society in Brazil (Sociedade Ucraniana do Brasil or SUBRAS), where it developed cultural activities. Here we also find, between the church and the club, Ukraine Square, where there is a statue of Taras Shevchenko.

These are some examples of the visibility of Ukraine and Ukrainians in a city in the interior of Brazil. This is the result of more than 130 years of Ukrainian immigration to Brazil, which can be divided into three waves. The first wave was from the end of the 19th century until 1914, the second was between the wars, and the third was after the Second World War. The ancestors of the descendants of Ukrainians carried Austrian passports in the 1st wave (they came from the Austro-Hungarian Empire), Polish passports in the 2nd wave (they came from territories under Polish rule), and in the 3rd wave, they were stateless (most were Ostarbeiter, victims of forced labor, deported to Germany and who did not return to Ukraine, then completely under Soviet rule after the Second World War).

We would have a problem defining who is of “Ukrainian nationality” in the diaspora if we limited ourselves to documents; however, these Ukrainians remained Ukrainian even after integrating into Brazilian society over several generations. Even so, there is limited involvement of Brazilians with Ukrainian roots in mobilization actions against the Russo-Ukrainian war, since they are all Brazilians. I must clarify that there is a group of Ukrainian-Brazilians doing a good job.

There is the presence of 4th wave Ukrainians who came to Brazil after the reestablishment of Ukraine’s independence in 1991. The sociological profile of these “new Ukrainians” is very different from those of previous waves. These “new Ukrainians” organize demonstrations against Russia, against the war, together with some citizens of the Russian Federation, and live in contexts distinct from the Ukrainian diaspora in Brazil. Mobilizations against the Russian invasion of Ukraine that occur are not often and have low participation. I attended two demonstrations in São Paulo (one in 2022 and another in 2023) and one in Rio de Janeiro (this year).

It is a challenge for Ukrainians and Brazilians engaged in this struggle to publicize the Ukrainian cause. In the context of the fight against Russian imperialism, we try to spread that Ukraine was a Russian colony and that Putin’s goals in Ukraine are merely imperialists, and illegal from the point of view of international law. Unlike other contexts, before 2014, before the start of the Russo-Ukrainian War, there was no impasse regarding territories that are part of Ukraine recognized since the reestablishment of the Ukrainian state. Here in Brazil, it is important to say, there is a certain strength of Russian propaganda in different media and with diverse narratives affecting both those who claim to be “progressive” (or “liberal” for Americans) and those who claim to be “conservative”.

The Russian presence in Brazil is not viewed with suspicion, nor is it subject to sanctions as in other contexts: news in traditional media about Russians in the Florianópolis real estate market or the annual selection of the Bolshoi Ballet Theater School branch in Joinville, both cities in the state of Santa Catarina, do not establish a link with what is happening in Ukraine and Russia. It seems there is a positive image of Russians who are settling in Brazil, leaving aside the espionage cases in Brazil. There are nine known cases. We also have Russian action through soft power, as in the example of the Bolshoi, which frequently selects and trains dancers from peripheral backgrounds, originating from social projects in favelas (shantytowns). Perhaps it is worth mentioning Russian literature, which has a lot of prestige in Brazil. One of the ways to create a positive visibility, especially outside of contexts in the state of Paraná, where Ukrainians have a lot of visibility, is through the work of the Embassy of Ukraine in Brazil in the field of cultural diplomacy.

Regarding the Brazilian government, it has taken a position of pro-Russian neutrality. The same government that, in crisis with the Trump administration, defended that it would not relinquish its sovereignty. I heard the phrase: “Brazilian sovereignty is non-negotiable”. This same government that defends that “Brazil belongs to Brazilians” defends that the sovereignty of Ukraine is negotiable, that Ukraine does not belong to Ukrainians.

Here is the challenge: Ukraine is not a part of Russia, it has been occupied by foreign forces for centuries and deserves to be free, sovereign, and my daily struggle as an engaged intellectual is to try to spread our cause: the Ukrainian cause. Scholars in Brazil usually carry anti-American feeling, which would be at the root of the perception, even if discreet, more aligned with Russia in this war. The stances favored by Trump in favor of Putin today do not seem to affect the perception that Russia is solely responsible for the war.

Since 2023, I have been following mobilizations of professors and students from universities engaging in the “Palestinian genocide,” and the question I raise is why there is no mobilization against the human rights violations that Russia commits every day in Ukraine? And the kidnapped Ukrainian children? I do not have much hope that the Brazilian authorities will get involved in the war, somehow contributing to Ukraine’s efforts, or even that scholars and university students will recognize the Ukrainian struggle and resistance in the pursuit of a just and lasting peace.

As for the general population, the war seems to be something far and not part of everyday life or daily conversations. In this way, it is a challenge to try to show that this war is part of a broader context and that it should involve the whole world. I have tried to warn, but with little success, since the concerns are very contextual, both for the current government and the Brazilian population, even those people with Ukrainian roots.



quarta-feira, 27 de agosto de 2025

34 anos da Ucrânia (Rio de Janeiro)


Endereço curto: fishuk.cc/ucrania2025

No último domingo, 24 de agosto, foi feita manifestação no bairro carioca de Copacabana em comemoração aos 34 anos da independência da Ucrânia e a favor da resistência contra a invasão de Putin. Meu amigo Claudio, que vive no interior do Paraná e defendeu em março sua tese de doutorado na UFRJ sobre a identidade dos ucranianos no Brasil, é um grande militante da causa e me enviou as fotos e vídeos abaixo dos arredores do Copacabana Palace. Sim, o braço com a bandeira é dele, rs. Selecionei as melhores versões e evitei algumas fotos com conteúdo repetido ou não muito relevante. Espero que você goste, e SLAVA UKRAINI:





























segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

O Brasil contra a invasão da Ucrânia


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E hoje se completam os três anos redondos da invasão em larga escala da Rússia imperialista de Vladimir Putin à Ucrânia independente, mesmo que em desenvolvimento arrastado, comandada pelo presidente eleito (a democracia dá o direito de errar, né?) Volodymyr Zelensky. Não é segredo pra quem entende do assunto que a guerra não começou em 2022, mas em fevereiro-março de 2014, quando Moscou tomou ilegalmente a península da Crimeia e infiltrou a região do Donbás com o restolho militar disfarçado de “separatistas”.

Os ignorantes do wishful thinking (vou poupar aqui os que são sabidamente pagos) quiseram acreditar na narrativa do “golpe” que derrubou um Víktor Ianukóvych, na verdade, fugido de suas responsabilidades, sobretudo após ter nas costas vários processos por corrupção e, desde o fim de 2013, mais de 100 manifestantes pacíficos mortos na Praça da Independência de Kiev Kyiv. Mas a vergonha de estarem do lado errado da história é tamanha que passaram a apoiar um ditador que mentia abertamente: dizia não haver soldados russos no Donbás, quando eles já tinham se espalhado e estavam reprimindo manifestantes anti-Rússia.

Além disso, o próprio roubo da Crimeia constituiu uma violação de todos os tratados assinados entre a Rússia e a Ucrânia que previam a inviolabilidade territorial desta, mesmo disfarçada com esses argumentos ridículos de “historicamente russa” (após séculos de genocídio e deportações dos tártaros locais, claro), de “erro de Khruschov” e blábláblá. São a segunda mentira pra que alguns “especialistas” bananeiros passam pano. E a terceira, ligada a esta, é a da própria invasão, que também se encobriu de declarações negando qualquer intenção de a perpetrar (quando a decisão, de fato, já tinha sido tomada no ano anterior).

Não adianta dizer que “Putin é de extrema-direita”, “Putin não é comunista” ou “a OTAN é um perigo pior” (pra países que viveram deportações massivas e supressão da própria cultura nos tempos da URSS?...). Sim, esse pessoal que se diz “pela paz”, “contra os dois lados” ou “anti-imperialismo” ocidental não faz outra coisa senão legitimar alguém que mentiu o tempo todo sobre o que iria ou não fazer. Legitimar a pior guerra do século 21, iniciada unilateralmente por um paranoico xenofóbico e convenientemente encoberta pela “militância” com o conflito (não menos sangrento e desigual) nos territórios palestinos! Comunistas, parem de se iludir: a questão não é “defender o proletariado de ambos os países”, mas simplesmente a sobrevivência de um povo inteiro e a abolição da escravidão dos vários povos, inclusive os russos comuns, que vivem no GULAG “federativo”!

Dito isso – e eu nem queria me estender na análise da guerra –, trago finalmente alguns vídeos (e a foto lá em cima) dos atos no último domingo, 23, lembrando os três anos da agressão putinista, passados por meu amigo Claudio. Os primeiros são na Paróquia São Josafat de Prudentópolis, PR, onde se exerce o rito greco-católico ucraniano, e os segundos são na Avenida Paulista, em São Paulo capital, que mereciam juntar bem mais pessoas (e bem menos passantes idiotas provocando!) mesmo sem ser em local de grande comunidade étnica.

Se me forem sendo passados mais vídeos e fotos, vou os colocando aqui. Os mais novos são de Salvador, BA, dia 24 (reconhece aqueles bonecos? Rs):










Hino Nacional da Ucrânia (os próximos dois):





Avenida Paulista:











Salvador:




sábado, 22 de fevereiro de 2025

Atos sobre os 3 anos da invasão


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Como disse minha amiga belarussa, que fez esta maravilhosa arte e vai participar das manifestações contra a invasão da Ucrânia em Salvador nesta virada de semana, “vamos sambar na cara desses ditadores”, rs. Por isso, começo com as coordenadas do ato na capital baiana, e seguem outros pelo Brasil, começando por São Paulo capital, cedidos por meu amigo Claudio. Aos dois, agradeço por toda informação, pois agora ela está centralizada pra quem deseja se informar e pra quem deseja informar os companheiros.

Sei que infelizmente muitas dessas manifestações estão juntando cada vez menos gente, mas a meu ver, mais importante é ser poucos, mas seguir falando e sendo vistos, do que silenciar e dar a impressão que acabou tudo. Se puder, compartilhe esta publicação, não por mim, mas por todos nós. Tanto mais que o fascista da White Power House, cuja cachola é imprevisível, está (por enquanto...) ameaçando pôr tudo a perder!





















quarta-feira, 4 de setembro de 2024

MEU AMIGO FEZ VARÉNYKY!


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Conteúdo incomum, assunto incomum, rs. Semana passada, o Claudio me mandou estas fotos pelo WhatsApp pra provar que é um ótimo cozinheiro, sorte de sua esposa paranaense e descendente de ucranianos! Me autorizando a publicá-las aqui, ele apresenta seus “varényky”, (вареники) prato típico do oeste da Ucrânia e de países eslavos vizinhos, também escrito “vareniki” por muitos. É chamado ainda de “pyrohý” (пироги), ambos os substantivos sendo plurais, e por influência da cultura polonesa, costuma também levar aqui o nome de “pierogi” ou “pirogues”.

Também perguntei pra ele se era similar aos “pelméni”, conhecidos raviólis russos, mas ele respondeu que este, na verdade, se faz com carne “e é bem russo” (acho que ele quis dizer “tipicamente russo”, sem relação com as regiões que citei acima), e “a forma é diferente”. Os varényky do Claudio, segundo ele, têm recheio “de batata com bacon e cebola fritos”. Em todo caso, existem vários relatos a respeito e receitas em sites de cultura ou culinária eslava ou geral, que podem ser encontrados na primeira página de uma busca no Google. Entre eles, o Sauerkraut (Fábio Flatschart, 2022), o Estadão (Jim Webster, 2022), o caderno F5 (Irina Ignatenko, 2018) e o Clube Eslavo (Snizhana Maznova, 2017).

Nas três primeiras fotos, podem-se ver o recheio e a massa, e a seguir a confecção dessa delícia. Ele não deu a receita, mas sugiro que fiquem com os links acima e apreciem esta beleza por simples fruição cultural, rs. Bom proveito e, se resolver preparar, boa sorte!



















Adendo (4/10/2024): Hoje o Claudio me repassou este vídeo publicado no Instagram pelo presidente da Representação Central Ucraniano-Brasileira, Vitório Sorotiuk, com uma matéria do jornal Meio-Dia Paraná do canal RPC, afiliado à TV Globo. Apresentada pela simpática Dulcinéia Novaes, que tanto já participou também do Globo Repórter, mostra como descendentes de ucranianos em Curitiba preparam os varényky aos quilos pra vender. As senhoras trabalham ao som do próprio canto da música folclórica Chórni óchka, iák terén, e desta vez temos uma receita de primeira mão, publicada no perfil do Vitório:

Ingredientes:
Massa:
1 kg de farinha de trigo
1 colher (sopa) de manteiga
1/2 colher de sal
1 copo de água fervida e levemente morna
2 gemas
1 ovo inteiro
Recheio:
1/2 kg de batata
1/2 kg de requeijão

Modo de preparo: Primeiro faça o recheio: cozinhe a batata com sal, escorra e passe pelo espremedor. Depois misture bem com o requeijão. Em seguida faça a massa: misture as gemas, a manteiga, o sal e a água. Bata bem.

Vá acrescentando a farinha, até que dê pra amassar. Amasse bastante com as mãos até que fique bem lisa e firme. Abra a massa com um rolo e corte em rodelas com um copo.

Coloque no meio de cada rodela um pouco de recheio, dobre em forma de pastel apertando as bordas com os dedos e vá colocando sobre um pano. Coloque para ferver meia panela de água com sal. Assim que estiver fervendo, vá jogando os pastéis. Quando a água ferver novamente e os pastéis subirem à tona, retire-os com o auxílio de uma escumadeira, regue com manteiga derretida e sirva com nata, ou com pedacinhos de bacon frito, ou com molho de carne, ou com cebola frita no azeite.


sexta-feira, 14 de outubro de 2022

A visita de Bolsonaro a Prudentópolis

O filósofo e antropólogo Claudio Cavalcante Junior, com o qual há alguns meses mantenho intensas trocas intelectuais pela internet, nasceu no estado do Rio de Janeiro e é casado com uma descendente de ucranianos, com quem mora na cidade paraense de União da Vitória. Ativo defensor da comunidade ucraniana no Brasil e da existência da Ucrânia face ao imperialismo russo, realizou vários estudos sobre as práticas identitárias dos descendentes de imigrantes ucranianos e milita nas mídias sociais contra as mentiras e deturpações propagadas por Vladimir Putin.

Há alguns dias ele me enviou “Visita de Bolsonaro a Prudentópolis: inserção e contexto brasileiro”, texto que ainda estava em estado de rascunho para a publicação em mídias ucraino-brasileiras, e me autorizou a publicá-lo como ainda se encontrava. Portanto, fiz algumas correções e bem poucas adaptações, embora o Claudio seja totalmente responsável pelo conteúdo e argumento em si. Sua tese principal é a de que os descendentes de ucranianos no Brasil guardam uma relação tão tênue com a Ucrânia moderna que o mais correto e exato é dizer que no sul do Brasil floresce uma “cultura ucraino-brasileira”, e não uma cópia fiel da cultura ucraniana hoje existente na Europa. A relação com a religião é apenas um tempero que torna essa mistura ainda mais picante.



O dia 16 de setembro de 2022 marcou a cidade de Prudentópolis, quando num misto de comício eleitoral e evento cívico, a cidade recepcionou o presidente da República e candidato a reeleição Jair Bolsonaro. Seu roteiro começa com a chegada de avião a uma cidade próxima (Guamiranga), onde o presidente-candidato monta em uma moto e leva na garupa Paulo Martins, “seu candidato ao Senado” no estado do Paraná. Pelas imagens divulgadas nas redes sociais e imprensa, Bolsonaro e Martins ganham destaque na comitiva também por serem os únicos motociclistas sem capacete.

Era uma sexta-feira, mas as informações de que o candidato à reeleição visitaria a “Pequena Ucrânia”, como Prudentópolis é conhecida, já circulava nas redes sociais desde o início daquela semana. Isso já mobilizava alguns descendentes de ucranianos da minha rede, como Andreiv, funcionário público, morador de Curitiba, 38 anos, vice-presidente da SUBRAS e dançarino do Barvinok. Um progressista que às vésperas da visita de Bolsonaro à cidade me disse no direct do Instagram: “Está difícil defender a comunidade”. Dias depois de termos tido essa conversa, cheguei à conclusão que excluindo o presidente da RCUB, Vitorio Sorotiuk, é muito difícil entre os ucraino-brasileiros progressistas falar sobre política (e eleições), o que dá a este grupo pouca visibilidade.

Um dia antes da visita, o prefeito decretou ponto facultativo para os funcionários públicos municipais em 16 de setembro. A prefeitura também convocou para a recepção do presidente o grupo de dança ucraniana local por ser uma instituição de “utilidade pública”. Também houve o envolvimento da prefeitura na organização da motociata, onde foi sugerido quem emprestaria a moto que seria utilizada pelo presidente. A “honra” ficou com um prudentopolitano.

O espetáculo de 16 de setembro começa com a motociata, trilha sonora embalada por jingle de Bolsonaro e os gritos de “mito” da plateia: a caravana passa por rodovia e adentra o centro de Prudentópolis, em um cenário que nas redes sociais foi descrito pelo prudentopolitano Fábio no Facebook como parecendo “Copa do Mundo”, devido à quantidade de bandeiras do Brasil. Estava montado o cenário, onde prudentopolitanos estavam exercendo uma espécie de civilismo, um retrato de uma profunda imersão na identidade nacional brasileira.

O lugar do comício de Bolsonaro e do governador do Paraná e candidato à reeleição Ratinho Jr. não poderia ser mais emblemático: uma rua central da cidade em frente à Igreja Ucraniana São Josafat, que pertence à IGCU. Havia também bandeiras da Ucrânia (uma na multidão e algumas nos espaços da paróquia), mas se perdiam entres as cores verde e amarela do Brasil que estavam não só nas bandeiras, mas na roupa da multidão.

Antes do presidente-candidato falar, houve, um momento cívico com a execução do Hino Nacional Brasileiro e falas de autoridades, como do prefeito municipal, que lembrou entre outras coisas que 80% dos habitantes da cidade tinha origem ucraniana, e do ex-vereador e presidente da comissão da Paróquia São Josafat, que é envolvido nas atividades culturais ucranianas e complementou a fala do prefeito sobre a importância da agricultura na cidade. No carro de som, estava presente também a candidata a deputada federal pelo partido Progressistas, Fabiana Tronenko, ex-embaixatriz da Ucrânia no Brasil, que fez campanha entre os ucranianos do Paraná com foco na agenda conservadora.

A fala de Bolsonaro durou quase sete minutos. Entre os assuntos, falou que desejava a paz (uma referência à guerra na Ucrânia), que eram “povos irmãos”, falou da economia e do grande trunfo naquele contexto paranaense: a agenda conservadora. Defendeu a “família brasileira”, se posicionou contra o aborto e contra a liberalização de drogas. Lembrou a todos que acreditava em Deus, que era leal ao povo brasileiro e, em ataques ao comunismo, bradou que “nossa bandeira verde e amarela jamais será vermelha”. A multidão respondia com muito entusiasmo ao discurso do presidente-candidato.

Nas redes sociais esse encontro com o presidente nas ruas tinha tons que incluíam a honra de receber a maior autoridade brasileira: Rodrigo, um prudentopolitano, componente do grupo folclórico local, me contou que apesar do receio de ser considerado “bolsominion” assumia a responsabilidade de dançar para uma autoridade, como havia feito em 2011, quando seu grupo dançou na posse da presidenta Dilma.

Além da recepção como uma celebridade, havia prudentopolitanos que pareciam identificar na pessoa do presidente alguém com poderes “religiosos”. Uma das postagens em story no Instagram mostrava o presidente em frente à multidão com a palma da mão sob a cabeça de uma menina e na legenda estava escrito: “Ele abençoou minha filha”. Outras postagens mostravam a felicidade estampada no rosto de crianças que haviam encontrado o presidente, outros mostravam adultos emocionados por ter conseguido tocar em Bolsonaro.

A religião tem uma força grande entre descendentes de ucranianos, e Prudentópolis tem algumas particularidades. A cidade tem dois padroeiros (um “brasileiro/civil” e outro “ucraniano”) e é também conhecida como “capital nacional da oração”. Apesar disso, não parece estranha essa identificação do presidente como uma espécie de tocado por Deus, o que tem sido bem trabalhado nos últimos anos e, potencializado em uma eleição polarizada, normalmente narrado como sendo o palco da luta do bem contra o mal, como ficou claro no discurso de Bolsonaro. É inclusive da religião que os ucraino-brasileiros mais se engajam na guerra contra os invasores russos: com orações direcionadas a vítimas da guerra e pedidos de paz.



No palanque, Bolsonaro ensaiou um “Slava Ukraíni” (“Glória à Ucrânia”, uma saudação nacionalista), que não saiu muito bom. Depois de descer do palanque, ele vai à igreja São Josafat que foi apresentada pelo pároco e pelo bispo ucraniano local. Lá entre os membros da Irmandade dos Cossacos de Prudentópolis, ele entoa novamente, com melhor pronúncia, o “Slava Ukraíni”. Depois foi oferecido ao presidente um almoço típico ucraniano no clube XII (da paróquia ucraniana), onde o mesmo foi recebido com as tradicionais boas-vindas com pão e sal oferecidos por uma refugiada ucraniana, que vive em Prudentópolis, seguidas de canção (hino evangélico em português) executada por outra refugiada e da apresentação do grupo folclórico ucraniano Vesselka da cidade. Neste almoço estava presente também o missionário evangélico ucraniano, um jovem nascido na Ucrânia que organizou a vinda de refugiados que se estabeleceram em Prudentópolis, em Guarapuava e no norte do Paraná. Segundo relato do presidente do Comitê Humanitas Brasil Ucrânia, organização ligada à RCUB que surgiu para promover ajuda humanitária às vítimas da guerra, o missionário teria relações próximas com uma ex-ministra de Bolsonaro, Damares Alves, que também é pastora evangélica.

No fim daquele dia, houve manifestações de ucranianos progressistas através de stories nas redes sociais, ora com um simples “Fora Bolsonaro”, ora lembrando a visita de Bolsonaro à Federação Russa para encontro com o presidente Putin, na semana anterior ao início da guerra em total escala da Rússia na Ucrânia. Um assunto inclusive difícil de tratar com ucranianos bolsonaristas, que fogem do assunto quando são perguntados sobre atividades e falas de Bolsonaro a respeito. Lembram que Lula também fez declarações infames sobre a guerra ou sobre o presidente da Ucrânia.

Entre os prudentopolitanos parecia haver um clima positivo com relação à visita: antes dela, André, um professor de inglês envolvido em atividades culturais ucranianas, me contou no direct do Instagram que achava positiva a visita de Bolsonaro. Mesmo se declarando eleitor de Bolsonaro, ele não o poupou de críticas pelo momento da visita ao reclamar que ele deveria ter ido à cidade quando chegaram os refugiados da guerra. Entretanto, após a visita visualizo uma reação clara aos progressitas: Tati, uma prudentopolitana, folclorista, ex-presidente da AJUB, em story no Instagram defendeu que a Igreja não havia sido palanque de Bolsonaro. Quando perguntei o porquê daquela postagem pelo direct do Instagram, ela disse que havia “(...) pessoas sem noção, que só pq são contra o bolsonaro, acharam ruim que ele foi visitar a nossa Igreja”. Ela não quis nomear para quem era aquela postagem, reduzindo os destinatários a “uns ucrainos”.

O evento citado mostrou como a sociedade brasileira, a sociedade envolvente, através de ações do Estado, foi exitosa na transformação de descendentes de ucranianos em brasileiros: apesar da preservação da identidade e cultura própria, estes foram incorporados de forma profunda à sociedade brasileira, mantendo quase nenhuma lealdade ou solidariedade aos “irmãos ucranianos” e a “pátria-mãe Ucrânia”.

Em Prudentópolis, podemos observar demonstrações do que poderia ser considerado patriotismo brasileiro (o termo “patriota” é usual no discurso bolsonarista), o que inclui aspectos devocionais: não é raro que ucraino-brasileiros greco-católicos expressem a devoção à padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, seja em visitas à cidade de Aparecida do Norte, onde se encontra o santuário dedicado à santa, que é exposto através de fotos nas redes sociais, seja através da presença da imagem em igrejas católicas ucranianas. Inclusive há uma destas imagens na igreja São Josafat, aquela ucraniana que Bolsonaro conheceu em 16 de setembro de 2022.


Assista também a sua mais recente entrevista em inglês pra um canal ucraniano (9/1/2025) sobre a comunidade ucraniana no Brasil!