domingo, 10 de dezembro de 2017

Eduard Khil – Лесорубы (Lenhadores)


Endereço curto: fishuk.cc/lesoruby


No último dia 4 de setembro, comemorando os 83 anos do nascimento do grande Mr. Trololo, os quais até o Google lembrou, enviei no meu antigo canal do YouTub) este presente pros fanáticos pela cultura soviética. Na verdade, já tinham me pedido essa música há muitos anos, e eu só estava esperando ter tempo pra legendá-la. É a canção “Лесорубы” (Lesoruby), Os lenhadores, cantada pelo grande barítono Eduard Khil. A melodia é do compositor Arkadi Ostrovski, e a letra é do poeta Mikhail Tanich. O texto fala sobre a vida dos lenhadores, profissão aparentemente banal num país como o Brasil, onde a madeira não é parte essencial de sua formação social. No hemisfério norte, dada a escassez de inúmeros outros recursos naturais e o clima frio, a construção de casas de madeira, além de outras utilidades, é parte essencial de suas culturas.

Talvez os adolescentes de hoje não o conheçam, mas Eduard Anatolievich Khil (1934-2012) foi um célebre cantor soviético, intérprete de muitas canções populares e românticas. Sua marcante voz de barítono o destaca dentro de um grupo seleto de cantores da antiga URSS, amplamente condecorados e favorecidos por um ambiente que promovia a alta cultura e a arte de qualidade. Contudo, no resto do mundo (que quase não conhecia o outro lado da “cortina de ferro”), e até na Rússia atual, poucos conheciam Khil, popularizado apenas quando viralizou no YouTube em 2010 um clipe seu dos anos 70, em que fazia uma espécie de exercícios vocálicos. A canção, na verdade, teve censurada a letra sobre um caubói americano que vivia com sua amada, e ficaram só os “trololós” que deram o apelido ao cantor. Esse fenômeno lhe rendeu uma súbita fama a posteriori, a qual ele infelizmente pôde aproveitar pouco.

Reparem que o cenário deste clipe é exatamente o mesmo em que ele gravou o célebre vídeo do “trololó”: deve ter sido feito na mesma leva, quem sabe até no mesmo dia. Eu baixei o vídeo sem legendas, postado há muitos anos já, deste canal pessoal, e tirei a letra em russo deste site, onde também há muitas outras canções. Eu mesmo traduzi, legendei e mudei o enquadramento do vídeo, e seguem abaixo a legendagem, a letra em russo e a tradução em português:


1. Лесорубы – ничего нас не берёт:
Ни пожары, ни морозы!
Поселился наш обветренный народ
Между ёлкой и берёзой.
Эге-гей!

Припев:
Привыкли руки к топорам,
Только сердце непослушно докторам,
Если иволга поёт по вечерам,
Если иволга поёт по вечерам.

2. Лесорубы – сорок семь холостяков,
Валим кедры в три обхвата.
Нам влюбиться – просто пара пустяков,
Да не едут к нам девчата...
Эге-гей, эге-гей!

(Припев)

3. Лесорубы, наша родина тайга,
Дед Морозу мы соседи.
Нас боятся и февральская пурга,
И лохматые медведи!
Эге-гей!

(Припев)

4. Лесорубы, на делянке у костров
Мы умеем веселиться!
И на стройках эхо наших топоров
Слышны в сёлах и столицах!
Эге-гей!

(Припев)

____________________


1. Nós, lenhadores, não tombamos,
Nem com incêndios ou nevascas!
Nosso povo moldado pelo vento
Fixou-se entre o abeto e a bétula.
Tro-lo-lóóó! [Ehe-hei!]

Refrão:
Mãos se adequaram a machados,
Só o coração ignora os médicos
Se o papa-figos canta toda noite,
Se o papa-figos canta toda noite.

2. Somos 47 lenhadores solteiros,
Tolhemos cedros em 3 braçadas.
Não gostamos de nos apaixonar,
Por isso a mulherada nos foge...
Tro-lo-lóóó! [Ehe-hei! Ehe-hei!]

(Refrão)

3. Nosso país de lenhador é a taiga,
O Papai Noel é o nosso vizinho.
Assustamos até os ursos peludos
E a nevasca de fevereiro!
Tro-lo-lóóó! [Ehe-hei!]

(Refrão)

4. Sabemos fruir como lenhadores
Das fogueiras no meio da terra!
Nosso machado das obras ecoa
Até ouvirem em vilas e capitais!
Tro-lo-lóóó! [Ehe-hei!]

(Refrão)


quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Grande drive grátis de ciências humanas

Esta é outra iniciativa pra tentar compartilhar livros pessoais e públicos sobre os mais diversos assuntos culturais. Agora, estou divulgando também uma grande pasta aberta, que fiz ao mesmo tempo como forma de fazer backup do que eu já tenho em meu computador e como um patrimônio coletivo pra quem tem os mesmos interesses que eu.

Eu chamei essa grande pasta pública de Biblioteca Brasil, que acumulei durante a pós-graduação e é destinada principalmente a quem se interessa por ciências humanas, história e comunismo soviético. Pra quem gosta de estudar idiomas sozinho, em grupo ou com orientação, peço que veja esta publicação já famosa, em que se podem baixar arquivos completos com gramáticas, manuais e dicionários em diversos formatos digitais. Links curtos pro acervo:

A pasta principal e todas as suas subpastas estão alocadas numa das minhas contas no Google Drive. Não é preciso nenhum cadastro ou login especial pra acessá-los. Dica importante: caso deseje baixar um arquivo, fique logado no Drive com apenas uma conta, pois tenho tido problemas ao logar com todas ao mesmo tempo.

Adendo: Gostaria de agradecer ao Matheus José de Souza Dias, graduando da Unicamp que em 2022 padronizou o nome de vários arquivos acumulados, antes que eu pudesse os carregar no drive, numa época em que eu estava muito ocupado pelo doutorado!

Algumas das pastas e parte do conteúdo disponíveis (eles estão em constante atualização):

  • Curso de russo TOPE – São os arquivos que usei como guia ou explicações pra um minicurso da língua russa que dei na Unicamp em outubro e no começo de novembro. O arquivo Power Point logo visível é um interessante resumo sobre a história da língua russa, com mapas e manuscritos bonitos. Existe também uma pasta com material didático de russo em inglês e francês, e outra em português!
  • Documentação comunista em russo – Coletâneas de documentos publicadas na antiga URSS e na Rússia atual, muitos deles permanecidos longamente secretos, com atas de congressos e conferências partidárias e resoluções estatais confidenciais. Destaco os livros ligados ao PC soviético e à Comintern, mas há muito mais coisas.
  • Livros de história – Obras sobre a história do Brasil e do mundo, sobretudo das relações internacionais, dos partidos comunistas e das revoluções socialistas, bem como de teorizações sobre historiografia. Escritos em português, inglês, espanhol, francês, alemão, italiano e russo.
  • Livros em russo sobre comunismo – Obras de um só autor, de dois ou de vários, obras coletivas, revistas acadêmicas ou até mesmo escritos de personagens de época sobre os fatos em questão. Abrangem as mais variadas posições políticas, desde os liberais até os stalinistas.
  • Matemática – Quatro livros básicos e isolados, em português, espanhol e italiano, de uma coleção que quero aumentar com o tempo, sobre um interesse em que desejo gradualmente me aperfeiçoar!
  • Miscelânea de humanas – Livros de filosofia ou outras reflexões sociais, escritos por humanistas e não ligados diretamente à história. Vocês podem baixar aí a coleção completa das Cartas do cárcere e dos Cadernos do cárcere, de Antonio Gramsci, em italiano!
  • Textos de história social – Livros ou artigos digitais que eu copiei da faculdade ou fui pesquisando e adquirindo por conta própria durante meu primeiro semestre de doutorado. Conta principalmente com obras já traduzidas em português, mas cujo original eu quis achar pra ajudar minha professora. De particular utilidade pra quem pesquisa dentro da área de história social do curso de pós-graduação da Unicamp ou de outras universidades. Escritos em português, inglês, francês e italiano.
  • Discursos de Lenin e Stalin em MP3 – Possibilidade de baixar um arquivo de 75 MB com áudios de todos os discursos dos dois maiores líderes soviéticos que chegaram a ser gravados. Não há transcrição impressa, mas alguns de Stalin eu já traduzi, e todos os áudios e textos de Lenin podem ser escutados e lidos (em russo e português) nesta publicação.
  • História do stalinismo – Coletânea gigante em 353 MB, editada na Rússia (portanto, toda em russo) e com os mais recentes avanços na historiografia sobre o período alto da URSS, ladeados diretamente pela documentação arquivística recém-liberada em Moscou.
  • Também tenho pastas individuais com o máximo que achei, em diversas línguas (de preferência as originais), das obras de Oleg Khlevniuk, Sheila Fitzpatrick (especialistas sobre a URSS), Serhii Plokhy, Aleksandr Dugin, Marc Ferro, Michel Foucault e Scholastique Mukasonga.

A maioria desses livros já estava disponível online pra que se pudesse baixar livremente, portanto, espero não enfrentar problemas com os tubarões dos direitos autorais!

Nota (6/9/2026): Assim como em outras pastas públicas minhas com livros de diversos assuntos, terminei hoje a conversão de arquivos menos usados ou feitos somente pra determinados aplicativos (DJVU, FB2 e MOBI) pro formato universal PDF. Alguns ficaram mais pesados, mas pra fins de armazenamento, qualquer pessoa pode usar um compactador online. Não mexi em arquivos de formato Office, notadamente Word, porque podem ser facilmente salvos no formato PDF pelos próprios programas. Da mesma forma, ao contrário da década de 2010, não há mais arquivos compactados (RAR, ZIP), mas qualquer material pode ser acessado diretamente das pastas e baixado conforme a escolha do visitante.



domingo, 3 de dezembro de 2017

Стадион моей мечты (Olimpíada 1980)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/stadion



“Desejo boa sorte!”


A música datada de 1979 se chama “Стадион моей мечты” (Stadion moiei mechty), literalmente O estádio do(s) meu(s) sonho(s), mas que traduzi como O estádio com que sonhei. A voz é do cantor azerbaijano Muslim Magomaiev, a letra foi composta por Nikolai Dobronravov e a melodia por sua esposa, Aleksandra Pakhmutova. Eles são um casal muito famoso por comporem diversas canções ufanistas dos tempos soviéticos.

Este foi um tema dos Jogos Olímpicos de Moscou de 1980, famoso pelo mascote Misha, um simpático ursinho marrom. Em 2017, eu tinha legendado uma montagem que achei pronta no YouTube, com um trecho do vídeo do documentário soviético O sport, ty – mir! (Ó, esporte, você é paz!), lançado em 1981. O título advém de um poema de Pierre de Coubertin, fundador dos jogos modernos, chamado “Ode ao esporte” (1912), e pode ser lido em francês e alemão nesta página. Encomendado pelo Comitê Olímpico Internacional, o documentário expressa a visão oficial soviética sobre a instituição e a prática do esporte, ou seja, como um meio de promover a paz entre os povos e de aperfeiçoar a saúde corporal. Toda a trilha sonora foi produzida por Pakhmutova e lançada no LP Ptitsa schastia (O pássaro da sorte).

Vejam só como anda esse lance dos direitos autorais... Não sei quando foi isso, mas estou editando esta postagem em dezembro de 2020 porque só agora percebi que minha legendagem estava bloqueada. O motivo não foi a canção, mas as imagens, que sem explicação foram censuradas pelo dono (quem?) dos direitos autorais de O sport, ty – mir!. O vídeo sem legendas que usei está agora em modo privado no YouTube, certamente oculto também por causa da busca. A solução foi muito fácil: baixei um áudio que estava com qualidade muito melhor, peguei os textos que eu já tinha guardados e fiz uma montagem rápida bem tosca. Pelo menos, aproveitei pra fazer pequenas correções!

Como eu já informei em outra postagem, Muslim Magometovich Magomaiev (1942-2008) nasceu em Baku, capital do Azerbaijão, numa família com várias gerações de músicos e artistas, tendo o pai morrido na 2.ª Guerra Mundial. Fez estudos em conservatório musical e nos anos 60 começou a embalar sua carreira, tendo inclusive se apresentado no exterior, não sem chios da emigração anticomunista. Foi condecorado Artista Popular da URSS (1973), Artista Popular da RSS do Azerbaijão (1971) e com a Ordem da Honra (2002) pelo próprio Putin. Em 1998 encerrou voluntariamente a carreira, tendo se dedicado à pintura e a correspondências até morrer do coração.

Abaixo está o vídeo de 2017 incorporado do Google Drive: eu fiquei com dó de cortar o vídeo pra proporção 16:9, porque ia perder muita informação visual, e por isso ele está assim, bem quadradão. A letra completa em russo pode ser lida nesta página, e eu mesmo a traduzi e depois legendei o vídeo. Também seguem abaixo a legendagem de 2020, a letra em russo e a tradução (corrigida em 2020) em português:




Здравствуй, самый лучший на свете
Стадион моей мечты!
Одержимость – путь к победе,
Спорта нет без красоты.

Жажда счастья, жажда рекорда
И борьбы прекрасный миг –
Мастера большого спорта
Учат рыцарству других.

Здравствуй, стадион,
Где мечты состязаются.
Здравствуй, стадион,
Где рекорды сбываются.

2x:
Нам с тобой вручён
Этот мир солнечной радости.
Спорт отвагой рождён.
Вся страна – это наш стадион!

Звёздный миг борьбы грандиозной
Верен огненным сердцам.
Слава дерзким виртуозам,
Вдохновенным мастерам!

Гордый свет имён легендарных,
Блеск характеров стальных,
Пусть пока им нету равных –
Мы равняемся на них.

Здравствуй, стадион,
Где мечты состязаются.
Здравствуй, стадион,
Где рекорды сбываются.

2x:
Нам с тобой вручён
Этот мир солнечной радости.
Спорт отвагой рождён.
Вся страна – это наш стадион!

Здравствуй, самый лучший на свете
Стадион моей мечты!
Нас любовь ведёт к победе.
Спорта нет без красоты.

Сердцем чутким, сердцем влюблённым
Слышим гордый зов судьбы,
Зов родного стадиона,
Песню пламенной борьбы.

Нам с тобой вручён
Этот мир солнечной радости.
Спорт отвагой рождён.
Вся страна – это наш стадион!

____________________


Salve, ó, melhor do mundo,
O estádio com que sonhei!
A persistência leva à vitória,
Não há esporte sem beleza.

A sede de vitórias e recordes
E o belo momento da luta:
Os esportistas profissionais
Ensinam o fair play a todos.

Te saudamos, ó, estádio,
Onde os sonhos rivalizam.
Te saudamos, ó, estádio,
Onde se batem recordes.

2x:
A mim e você foi confiado
Esse mundo de alegria radiante.
O esporte é fruto da bravura.
O país todo é nosso estádio!

A hora estrelada da magna luta
É fiel aos corações ardentes.
Glória aos gênios audaciosos
E aos craques entusiasmados!

Luz altiva de nomes lendários,
Brilho de indivíduos férreos,
Enquanto ninguém os alcança,
Nos equiparamos a vocês!

Te saudamos, ó, estádio,
Onde os sonhos rivalizam.
Te saudamos, ó, estádio,
Onde se batem recordes.

2x:
A mim e você foi confiado
Esse mundo de alegria radiante.
O esporte é fruto da bravura.
O país todo é nosso estádio!

Salve, ó, melhor do mundo,
O estádio com que sonhei!
O amor nos conduz à vitória.
O esporte tem lá sua beleza.

De peito solícito e amoroso
Ouçamos chamar altivo o destino,
O apelo do querido estádio,
Canção de uma luta ardorosa.

A mim e você foi confiado
Esse mundo de alegria radiante.
O esporte é fruto da bravura.
O país todo é nosso estádio!


Nota (13/9/2019): O russo Roman Sinelnikov comentou no vídeo do canal que a edição n.º 6 da revista Sovetskaia zhenschina (Mulher Soviética) em português publicou em 1980 a partitura da canção com uma tradução tendo o seguinte texto (que parece ter saído do Google):

1. Olá, estádio dos meus sonhos
Entre todos o melhor
Não há desporto sem beleza
Não há torneio sem paixão
Sede de recordes e glória
É o instante magnífico
Na conquista da vitória
O mestre de desporto vi

Refrão:
Te saúdo, estádio
Onde os sonhos se realizam
Te saúdo, estádio
Onde os recordes se atingem
Mundo luminoso
Ao desporto filho da bravura
Nos damos com loucura
Nosso estádio, país inteiro

2. O instante, a luta grandiosa
A fé nos corações do fogo
Glória aos audazes, virtuosos
Desportistas inspirados
Luz orgulhosa dos nomes lendários...
Brilho de nomes milenários...
E por serem sem iguais
Nos aproximam ainda mais

(Refrão)

3. Olá, estádio dos meus sonhos
Entre todos o melhor
Não há desporto sem beleza
A vitória é paixão
Os amantes corações sensíveis
Ouvem do futuro o apelo ardente
Do estádio natal clamante
A canção vibrante!

(Refrão)


quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Там шли два брата (Lá iam 2 colegas)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/colegas


Esta é a canção “Там шли два брата” (Tam shli dva brata), Lá iam dois irmãos, falando de uma das inúmeras guerras do Império Russo tsarista contra o Império Otomano. O autor não é conhecido, e provavelmente trata de uma das inúmeras guerras mútuas que ocorrem desde o século 16, mais exatamente no século 19, dentre as quais não consegui identificar, mas que em geral terminaram em vitória russa. A expressão brata (literalmente “irmãos”) também alude a dois amigos, colegas ou companheiros de uma jornada, mais exatamente ao nosso “manos” genérico. O destino indicado na canção é um dos vários comuns, que infelizmente se multiplicariam no trágico século 20.

As músicas cossacas são reconhecíveis pelo vocabulário arcaico e pela pronúncia regionalista, bem como pela alternância de narradores, ou seja, tem hora que os versos indicam a fala de um narrador, outra hora do protagonista, e outra hora de outros personagens, sem se marcar a mudança de sujeito. No começo, por exemplo, diz-se “Lá iam, iam dois colegas”, isto é, o compositor está narrando. Nas estrofes seguintes, o “eu” é o soldado ferido, e em alguns momentos, são inseridas frases da esposa e dos filhos do moço. Também se percebe a inserção de várias vogais fracas entre consoantes enquanto se canta, o que lembra a ortografia do eslavo antigo, ou antes, a pronúncia do proto-eslavo (língua reconstituída), que não teria tantas consoantes encavaladas. Outro traço: onde se fala “outra”, que em russo é drugaia, pronuncia-se à ucraniana: “druhaia” (druhy/druha em ucraniano significa “2.º/2.ª”).

Legendei dois vídeos com essa música, o primeira sendo com a garota russa Iulia Matiukina. Ela bombou na rede em 2015 cantando uma canção cossaca na sala de aula, e aparece nesta versão legendada com outra música do tipo. Mas isso foi em fevereiro de 2017, ou seja, nesse meio-tempo ela aproveitou o sucesso do primeiro vídeo pra produzir outros. Desde o primeiro vídeo, também descobri a identidade de Iulia, ou seja, além de seu nome, que ela tinha 19 anos na época do primeiro vídeo e estudava no colégio militar do Serviço Penitenciário Federal da Rússia (“ФСИН России”, FSIN Rossii). Na Academia desse serviço, ela é definida como kursantka, ou seja, aluna de colégio militar em geral (o masculino é kursant).

O segundo vídeo é de uma apresentação comemorando os 200 anos do Coral Cossaco de Kuban (Кубанский казачий хор), gravada em 2011 e postada na internet no começo de 2012. Esse grupo folclórico, fundado em 1811, é um dos mais fortes do país, canta em russo e ucraniano e remonta às tradições da região de Kuban, no sul da Rússia, fronteiriça ao Cáucaso. Ao contrário do Coral Aleksandrov do Exército Vermelho, ele se foca na tradição da Rússia antiga. O vídeo original sem legendas está nesta página. Quanto a Iulia, foi certamente filmada numa casa privada, e o vídeo original, sem esse recorte aproximado que eu fiz, está neste canal de Aliona Semenovskaia, que deve ser uma amiga dela.

Eu mesmo traduzi a letra em russo, que pode ser lida nesta página, e legendei os dois vídeos. Seguem abaixo as legendagens, a letra em russo e a tradução em português (lado a lado, pra poupar espaço):




Там шли, шли два брата
С турецкого фронта
С турецкого фронта домой

Лишь только преступили
Мы польскую границу
Ударил поляк три раза

Ударил, ударил
Он в грудь меня поранил
Болят мои ранки, болят

Одна нарывает,
Другая заживает
От третьей я должен умереть

А дома детишки
Жена молодая
Всё ждут поджидают меня

Сестрица родная
Дай чистой мне бумаги
Родным я письмо напишу

Отец прочитает
А мать того не знает
У сына нет правой руки

Детишки возроснут
У матери спросят
А где же отец наш родной?

2x:
А мать отвернётся
Слезами зальётся
Убит на турецкой войне.

2x:
Там шли, шли два брата
С турецкого фронта
С турецкого фронта домой...

Lá iam, iam dois colegas
Vindos do front turco
Vindos do front turco para casa

Nós mal ultrapassamos
A fronteira polonesa
Um polaco atirou 3 vezes

Deu tiros, deu tiros
Que feriram o meu peito
Doem, doem as feridinhas

Uma está inflamando
Outra vai cicatrizando
E talvez a terceira me mate

E em casa os filhinhos
E minha jovem esposa
Ainda me esperam, aguardam

Querida enfermeira
Me dê um papel em branco
Vou escrever para a família

Meu pai vai ler
Minha mãe não sabe que
O filho perdeu o braço direito

Meus filhos crescidos
Vão perguntar à mãe
Onde está nosso querido pai?

2x:
E a mãe vai se virar
E dizer em lágrimas
Que morreu na guerra turca

2x:
Lá iam, iam dois colegas
Vindos do front turco
Vindos do front turco para casa...


domingo, 26 de novembro de 2017

“Как родная меня мать провожала”


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/rodnaia


Outra canção falando de um jovem russo que vai pra guerra, que parecia ser um tema corrente na Rússia. Ela é mais conhecida sob o nome “Как родная меня мать провожала” (Kak rodnaia menia mat provozhala), Enquanto mamãe se despedia de mim, mas às vezes também é chamada, igual a uma postagem anterior, “Проводы” (Provody). Essa palavra, pois, designa a despedida de um moço que vai prestar o serviço militar, tema idêntico nos dois vídeos. Apenas na tradução que estou postando agora é que interpretei como uma guerra verdadeira, e não apenas nosso famoso Tiro de Guerra.

O poema original, que contém menções à União Soviética e ao Exército Vermelho, foi escrito pelo poeta, escritor, publicista e político Demian Bedny, que a compôs em 1918, no front da guerra civil em Sviazhsk (o título era Provody). Em 1928, o compositor Dmitri Vasiliev-Buglai adaptou ao poema a melodia da canção popular ucraniana Komaryk, que fala de tema diferente e também era conhecida entre os ciganos russos como Komarichko. Demian Bedny (1883-1945) era o pseudônimo de Iefim Alekseievich Pridvorov, que nasceu na atual região central da Ucrânia, pertenceu ao partido comunista até ser expulso em 1938 e praticou o “realismo socialista”. A letra de Bedny conheceu várias adaptações populares, e uma delas é a deste vídeo, que não faz menções ao bolchevismo.

Esta apresentação foi feita em 24 de fevereiro de 2015 na Casa da Música de Moscou, pelo Coral Popular Público Russo M. Ie. Piatnitski (ou apenas Coral Popular Piatnitski), fundado em 1911 pelo músico, compositor e folclorista que deu nome ao conjunto. Os artistas se dedicam essencialmente a cantar músicas na língua russa, mas também há, como vimos, alguns passos de dança, e por vezes essa canção é mesmo dançada. O Coral Piatnitski, que teve vários diretores ao longo do século 20, tem um site oficial. Deve-se saber, pra entender a canção: ela é como um diálogo, em que o jovem soldado começa a primeira estrofe, e as seguintes são feitas por um ou mais membros da família. Na parte assinalada com travessões, a fala da(do) parente é interrompida pela dança, e depois é o moço quem completa a música. O poema trata da Guerra Civil Russa do Exército Vermelho contra os “brancos”, mas esta versão pode ser aplicada em qualquer caso.

Existem nesta página algumas das variantes da letra e a história da canção, e a letra cantada no vídeo pode ser lida nesta página, onde também é possível baixar uma versão em estúdio. Eu baixei o vídeo sem legendas deste canal, onde há outros vídeos da mesma noite, e eu mesmo traduzi e legendei. Seguem abaixo a legendagem no meu antigo canal do YouTube, a letra em russo e a tradução em português.

Nota (3/5/2018): Há alguns meses, consegui achar duas versões com a letra aludindo ao Exército Vermelho, e decidi legendar. Ela também fala de um jovem que deseja lutar no Exército Vermelho na guerra civil, mas sua mãe e sua família têm medo que ele morra e tentam dissuadi-lo do serviço voluntário. Lembrando o dilema que rachava a velha e a nova Rússia, “Ivanzinho” (Ivan, nome genérico no país) representa a mentalidade leninista de que as poucas conquistas ainda eram muito frágeis, e um sacrifício maior era necessário pra evitar a volta ao Antigo Regime. Quanto às mulheres, as mães nunca querem perder os filhos, e durante o século a população masculina ia despencar. A expressão provody é genérica, e embora literalmente signifique “passagem”, também designa a prestação do serviço militar (em paz ou em guerra) ou a festa que hoje as famílias fazem celebrando o varão que passa pra essa situação.

O poema tem a forma de um diálogo entre as mulheres e Ivanzinho, cujas falas são divididas na estrofe em que aparecem os travessões; a primeira estrofe é a introdução do assunto pelo moço. É cantada a primeira versão pelo Conjunto Coral de Moscou, e a segunda versão é cantada pelo Coral de Canções Russas VRK (VRK = Comitê Militar Revolucionário). Ambos os vídeos estão sem legendas, e deles baixei os áudios, mas no primeiro não se canta a estrofe “А дела теперь...”, e no segundo não se canta a última (“Всё пошло б...”). Nesta página está a letra integral que baseou minha tradução, mas ela contém problemas de pontuação, que corrigi. Eu também legendei e montei o vídeo com meu próprio sistema de transliteração do alfabeto russo: assistam duas vezes, lendo uma legenda de cada vez! Entre chaves, estão estrofes que variam em alguns pontos, mas não no sentido:


Как родная меня мать
Провожала,
Тут и вся моя родня
Набежала.

Ах, куда ж ты, паренёк,
Ах, куда ты?
Не ходил бы ты, Ванёк,
Во солдаты!

Мать, страдая по тебе,
Поседела,
А во поле и в избе
Столько дела!

Как дела теперь пошли:
Любо-мило!
Сколько сразу нам земли
Привалило!

Притеснений прежних нет
И в помине.
Лучше б ты женился, свет,
На Арине.

– С молодой бы жил женой,
Не ленился!
– Тут я матери родной
Поклонился.

Поклонился всей родне
У порога.
Не грустите вы по мне
За ради Бога!

Для родной своей земли
Расстараюсь.
Честь России защищать
отправляюсь!

____________________


Enquanto mamãe de mim
Se despedia,
Todos meus parentes aqui
Apareceram.

Ai, aonde vai, rapazinho,
Ai, aonde vai?
Ah, se pudesse, Ivanzinho,
Não ir à guerra!

Triste por você, mamãe
Envelheceu,
E no campo e na casinha,
Tantos afazeres!

Como tudo se deu agora
Dá gosto de ver!
Tanto de uma vez da terra
Nós colhemos!

Nem sombra há da opressão
Do passado.
Você, bem, devia ter casado
Com Arina.

– Viveria com a jovem esposa,
Não vadiaria!
– Aqui mandei à mamãezinha
Lembranças.

Mandei a toda a família
No portão.
Não se aflijam por mim,
Pelo amor de Deus!

Pela minha terra natal
Vou batalhar.
Em prol da honra da Rússia
Estou partindo!




Как родная меня мать провожала,
Тут и вся моя родня набежала,
Тут и вся моя родня набежала.

А куда ж ты, паренёк, а куда ты?
Не ходил бы ты Ванёк во солдаты,
Не ходил бы ты Ванёк во солдаты.

В Красной Армии штыки чай найдутся,
Без тебя большевики обойдутся,
Без тебя большевики обойдутся.

Поневоле ты идёшь аль с охоты,
Ваня, Ваня, пропадёшь ни за что ты.
Ваня, Ваня, пропадёшь ни за что ты.

Мать страдая по тебе поседела,
Эвон в полe и в избе сколько дела,
[А во полe и в избе столько дела,]
Эвон в полe и в избе сколько дела.

А дела теперь пошли любо-мило,
[Как дела теперь пошли любо-мило,]
Сколько сразу [к] нам земли привалило,
Сколько сразу [к] нам земли привалило.

Утеснений прежних нет и в помине,
[Притеснений прежних нет и в помине,]
Лучше б ты женился свет на Арине,
Лучше б ты женился свет на Арине.

– С молодой бы жил женой, не ленился,
– Тут я матери родной поклонился,
Тут я матери родной поклонился.

Поклонился всей родне у порога,
Не скулите вы по мне, ради Бога,
[Не грустите вы по мне, за ради Бога,]
Не скулите вы по мне, ради Бога.

Будь такие все как вы ротозеи,
Что б осталось от Москвы, от Рассеи,
Что б осталось от Москвы, от Рассеи.

Всё пошло б на старый лад, на недолю,
Взяли б всё у нас назад, землю, волю,
Взяли б всё у нас назад, землю, волю.

____________________


Enquanto mamãe despedia de mim
Todos meus parentes vieram aqui,
Todos meus parentes vieram aqui.

Aonde vai, rapazinho, aonde vai?
Pudesse, Ivanzinho, não ir lutar!
Pudesse, Ivanzinho, não ir lutar!

Tem armas no Exército Vermelho,
Os bolcheviques ganham sem você,
Os bolcheviques ganham sem você.

Você vai com ou contra vontade?
Ivanzinho, você morrerá por nada,
Ivanzinho, você morrerá por nada.

Mal sem você, mamãe envelheceu,
No campo, na casa, tanto a fazer!
No campo, na casa, tanto a fazer!

Dá gosto ver como foi tudo agora!
Colhemos tanto duma vez da terra!
Colhemos tanto duma vez da terra!

Sem sombra da opressão passada.
Devia, bem, ter casado com Arina,
Devia, bem, ter casado com Arina.

– Cuidava da esposinha sem ócios!
– Aqui dei lembranças à mãezinha,
Aqui dei lembranças à mãezinha.

Mandei à família toda no portão.
Por Deus, não se aflijam por mim!
Por Deus, não se aflijam por mim!

Se todos, tal vocês, congelassem,
O que restaria da Rússia, Moscou?
O que restaria da Rússia, Moscou?

Voltamos à velha ordem, tragédia,
Se nos tiram solo, escolha, tudo,
Se nos tiram solo, escolha, tudo.


quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Во саду дерево цветёт: canto cossaco

Linda canção cossaca russa, que há muitos anos me pediram pra legendar, mas só há algum tempo fiz isso. Ela se chama “Во саду дерево цветёт” (Vo sadu derevo tsvetiot), Uma árvore floresce no jardim, às vezes também intitulada Da v sadu derevo tsvetiot. É mais uma composição que não tem autor e época definidos, mas faz parte do patrimônio cultural dos cossacos.

A cultura dos soldados cossacos livres é comum à Rússia e à Ucrânia, nesta tendo uma presença ainda mais forte. Muitas de suas músicas sobrevivem e são executadas até hoje, por grupos folclóricos (e também pelo exército russo) que incrementaram ainda mais a parte musical e coreográfica. Esse trânsito mútuo entre russos e ucranianos faz com que muitas letras, embora escritas formalmente em russo, tenham muitas características do sul do país, ou seja, muito próximas às da língua ucraniana.

Vou dar alguns exemplos. O uso da preposição u no lugar de v indicando alvo de movimento é muito mais comum no ucraniano do que no russo, embora neste haja uma evidente intenção eufônica. Ou seja, u pokhod (pra marcha), e não v pokhod. Devka ao invés de devushka (moça) também é dialetal e antigo, às vezes designando uma prostituta, como ocorre na ambiguidade que os brasileiros dão ao termo “rapariga”. O uso de kari no lugar de karie (castanhos) lembra igualmente a terminação de adjetivos ucranianos no plural. O verbo pobachit empregado como uvidet (ver, olhar) é outro decalque direto do ucraniano. E enfim, o que parece ser mais evidente: a pronúncia de gore ne beda (não adianta lamentar) no refrão como hore ne beda, dando pronúncia ucraniana padrão à letra Г (que, de fato, às vezes também é falada “g” no ucraniano do leste).

Eu mesmo traduzi e legendei; a filmagem sem legendas, postada em 2012, consiste numa apresentação de artistas do Teatro Dramático Popular de Irkutsk, em evento folclórico lembrando os 75 anos da Província de Irkutsk, no museu Taltsy (Тальцы). Eu tirei a letra em russo do site do conjunto Kazachi Krug, onde também pode-se ouvir sua própria gravação. Seguem abaixo as legendas, a letra em russo e a tradução:


Да в саду дерево цветёт,
Да казак у поход идёт.
Раз-два, горе не беда,
Да казак у поход идёт.
Раз-два, горе не беда,
Да казак у поход идёт.

Ой, да казак у поход идёт,
Да за ним девка слёзы льёт.
Раз-два, горе не беда,
Да за ним девка слёзы льёт.
Раз-два, горе не беда,
Да за ним девка слёзы льёт.

Эй, да не плачь, девка, не рыдай,
Да кари очи не стирай.
Раз-два, горе не беда,
Да кари очи не стирай.
Раз-два, горе не беда,
Да кари очи не стирай.

Ой, да тогда, девка, заплачешь,
Да как у строю побачешь.
Раз-два, горе не беда,
Да как у строю побачешь.
Раз-два, горе не беда,
Да как у строю побачешь.

Да как у строю, у строю,
Да на вороненьком коню.
Раз-два, горе не беда,
Да на вороненьком коню.
Раз-два, горе не беда,
Да на вороненьком коню.

Да на вороненьком коне,
Да на казачем на седле.
Раз-два, горе не беда,
Да на казачем на седле.
Раз-два, горе не беда,
Да на казачем на седле.

____________________


Uma árvore floresce no jardim,
O cossaco está indo em marcha.
Um, dois, não adianta lamentar,
O cossaco está indo em marcha.
Um, dois, não adianta lamentar,
O cossaco está indo em marcha.

O cossaco está indo em marcha,
Atrás dele uma mocinha chora.
Um, dois, não adianta lamentar,
Atrás dele uma mocinha chora.
Um, dois, não adianta lamentar,
Atrás dele uma mocinha chora.

Não chore, menina, não soluce,
Enxugue seus olhos castanhos.
Um, dois, não adianta lamentar,
Enxugue seus olhos castanhos.
Um, dois, não adianta lamentar,
Enxugue seus olhos castanhos.

Então, menina, você vai chorar
Quando for olhar para as tropas.
Um, dois, não adianta lamentar
Quando for olhar para as tropas.
Um, dois, não adianta lamentar
Quando for olhar para as tropas.

Olhar para as tropas, as tropas
E olhar para o cavalinho negro.
Um, dois, não adianta lamentar,
E olhar para o cavalinho negro.
Um, dois, não adianta lamentar,
E olhar para o cavalinho negro.

Ao olhar para o cavalinho negro,
Ao olhar para a sela do cossaco.
Um, dois, não adianta lamentar
Ao olhar para a sela do cossaco.
Um, dois, não adianta lamentar
Ao olhar para a sela do cossaco.


domingo, 19 de novembro de 2017

Igor Rasteriaiev – “Проводы” (cômica)

Não sei se essa era mesmo uma canção que me pediram há algum tempo pra legendar. Ela se chama “Проводы” (Provody), palavra que designa uma festa de despedida ou um “bota-fora” pra alguém que vai mudar de condição ou ficar um tempo afastado do convívio familiar. É o caso, por exemplo, dos jovens que vão servir o exército como internos, tema recorrente no folclore musical russo desde a era soviética. E com muito humor o canta Igor Rasteriaiev, criativo cantor, compositor e acordeonista, em vídeo de 2016.

Há na música evidentes elementos da cultura cossaca, como o acordeão de botões (harmônica), o rápido compasso e o sotaque com elementos parecidos ao ucraniano padrão. É a velha tradição da Rússia rural, renascida e reciclada conforme os gostos modernos. Em vista do que buscaram e sonhavam os bolcheviques, até podemos pensar como sua titânica empreitada teve esse resultado... A letra é de autoria do próprio Rasteriaiev, que a gravou em seu CD Dozhd nad Medveditsei, tendo postado este vídeo de estreia, sem legendas, em seu próprio canal do YouTube. Como outros artistas, tem seu sucesso e visibilidade impulsionados por essa plataforma.

Igor Rasteriaiev nasceu em 1980, numa família de artistas, e fez formação superior em artes cênicas, tendo atuado em alguns filmes e na TV. Porém, ficou mais famoso como músico, ao se inspirar nas próprias raízes rurais, a partir da viralização de seus vídeos, em 2010. Em 2011 gravaria seu primeiro álbum e não pararia com os shows. Baseia suas composições em fatos reais, alguns ocorridos com parentes e amigos, e tem seus vídeos gravados por um amigo que assessora suas produções.

Eu tirei a letra escrita desta página especializada, onde também colhi as informações acima. Eu mesmo traduzi e legendei, tendo postado o resultado no meu extinto canal do YouTube. Recomendo que visitem e divulguem também os dois canais YouTube de Rasteriaiev, o pessoal e o profissional, aonde ele joga todos os seus clipes. Lá tem os endereços de seu site e de suas redes sociais! Seguem abaixo a legendagem, a letra em russo e a tradução em português, em duas colunas pra poupar espaço:


– Батя! Собирай гостей –
Будем есть и пить.
Завтра утром ухожу
В армию служить.

– Что ты говоришь,
Миленький сынок?
Я уже бегу,
Не жалея ног.

Приходи, родня!
Будем есть и пить!
Мой сынок идёт
В армию служить!

– Батя! Водочки налей –
Опустел сосуд.
Кстати, почему курей
Долго не несут?

– Миленький сынок,
Щас всё принесут,
И водка с холодцом
Будут тут как тут.

Ну-ка, гармонист,
Дёрни от души!
Мой сынок идёт
В армию служить.

– Батя, чё-то я устал,
Хочу отдыхать.
Отнеси-ка на руках
Меня на кровать.

– Миленький сынок,
Вот уже несу!
Набирайся сил,
Отходи ко сну.

Ну-ка тихо все,
Быстро свет туши!
Мой сынок идёт
В армию служить.

Миленький, сынок, вставай!
В армию пора.
Проводили мы вчера
Тебя «на ура».

– Батя, отойди,
В ухо не гуди,
Да не надо мне
В армию идти!

Не хотел никто
Меня призывать –
Захотелось мне
Просто погулять.

Papai, chame o pessoal
Pra comermos e bebermos.
Amanhã de manhã vou
Começar o serviço militar.

É verdade mesmo,
Filhinho querido?
Vou correndo já,
Sem poupar passos.

Venha, parentada!
Vamos comer e beber!
Meu filhinho vai
Servir o exército!

Papai, mete mais vodca
Que o pote esvaziou.
Aliás, porque demoram
Pra trazer as galinhas?

Filhinho querido,
Já já trazem tudo,
A vodca e a galantina
Vão logo ser servidas.

Eia, sanfoneiro,
Rasga esse fole!
Meu filhinho vai
Servir o exército.

Papi, tô meio fatigado,
Eu quero descansar.
Me pega nos braços
E me leva pra cama.

Filhinho querido,
Já vou te levar!
Recobre suas forças
Fazendo sua naninha.

Opa, todos quietos,
Apaguem logo a luz!
Meu filhinho vai
Servir o exército.

Levanta, filhinho lindo!
Hora de ir ao quartel.
Ontem fizemos a sua
Festa de despedida.

Papai, vá embora,
Poupe meus ouvidos,
Pois não tenho que
Servir o exército!

Não fui convocado,
Ninguém quis isso:
Eu apenas desejei
Farrear um pouco.


quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Rajoy lamenta o atentado em Barcelona


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/rajoy-atentado

Logo após o atentado terrorista com uma van que atropelou inúmeros turistas na avenida de pedestres Las Ramblas, em Barcelona, o primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy expressou sua condolência às famílias dos mortos na noite de 17 de agosto de 2017. Mais um ataque a civis desarmados, reivindicado pelo grupo Estado Islâmico e executado por um marroquino, em suposta vingança à participação da Espanha na coalizão que combate o dito “califado” no Oriente Médio.

Lembremos que Barcelona é a capital e maior cidade da Região Autônoma da Catalunha, território com língua e costumes muito distintos que não se considera parte da nação espanhola. Notem como Rajoy, ao falar que “a Espanha é um povo unido”, parece gaguejar e recear um pouco. Os espanhóis e os catalães divulgaram, naquele instante, hashtags em suas respectivas línguas: Yo soy Barcelona e Jo sóc Barcelona. Também se usou muito nas manifestações públicas a frase catalã No tinc por (Não tenho medo). Por é uma palavra aparentada à italiana paura e à francesa peur.

Eu mesmo traduzi e legendei de ouvido, sem recorrer a uma cópia escrita. É aquele famoso “3 em 1”: ouvir/transcrever, entender/traduzir e já adaptar à legendagem. Eu baixei desta página o vídeo sem legendas, mas há outra versão com boa qualidade nesta página. Seguem abaixo as legendas e a tradução escrita em português:


Senhoras e senhores, muito boa noite, muito obrigado por sua presença.

Neste momento, quero que minhas primeiras palavras esta noite em Barcelona sejam de luto, lembrança e solidariedade para com as vítimas deste ataque, suas famílias e amigos. Eles são neste momento nossa prioridade máxima. Quero expressar também a solidariedade de toda a Espanha para com a cidade de Barcelona, hoje agredida pelo terrorismo jihadista, como antes o foram outras cidades no mundo todo.

Os moradores de cidades como Madri, Paris, Nice, Bruxelas, Berlim ou Londres sofreram a mesma dor e a mesma incerteza que estão hoje sofrendo os barcelonenses. E eu desejo que sejam para eles essas primeiras palavras, para transmitir-lhes o carinho, a solidariedade e o aconchego de toda a Espanha e do resto do mundo.

Como demonstração da dor da nação espanhola ante o criminoso atentado, o governo está decretando luto oficial a partir da zero hora do dia 18 de agosto de 2017 até as 24 horas do dia 20 de agosto, tempo em que a bandeira nacional tremulará a meio mastro em todos os prédios públicos e navios da Marinha.

Hoje, a Espanha, e mais concretamente Barcelona, recebe o carinho e a solidariedade que em outros momentos nós mesmos partilhamos com outras cidades e com outros países agredidos pela mesma barbárie terrorista. E quero dizer também que não estamos unidos somente no luto, estamos unidos principalmente na firme vontade de derrotar os que querem destruir nossos valores e nosso modo de vida.

Assim, desejei vir a Barcelona logo que pude para reunir-me com as forças e corpos de segurança do Estado e dar-lhes meu apoio à sua colaboração intensa e exata com a Polícia da Catalunha e a Guarda Municipal no momento de enfrentar o selvagem atentado terrorista.

Também é importante que, num dia tão duro e tão triste como hoje, todas as forças de segurança e nossos serviços de informação, ajuda civil, socorro e decisivamente todos os que fazem nossa segurança, saibam que contam com o firme apoio do governo e da totalidade dos espanhóis.

É certo que estamos sofrendo hoje com a dor de um terrível golpe. Mas também é verdade que o esforço abnegado destes homens e mulheres durante tantos anos conseguiu proteger-nos por muito tempo e desbaratar inúmeros planos criminosos. Sem dúvida continuarão assim fazendo no futuro.

Infelizmente, os espanhóis conhecem muito bem a dor absurda e irracional causada pelo terrorismo. Recebemos pancadas parecidas em nossa história mais recente, mas também sabemos que os terroristas não são infalíveis. São vencidos com instituições unidas, prevenção, cooperação policial, aporte internacional e a determinação firme em defender os valores de nossa civilização: a liberdade, a democracia e os direitos humanos. E são vencidos também com acordos amplos, como ocorre na Espanha, entre os partidos políticos. Em datas próximas, convocaremos o Pacto Antiterrorista para reafirmar nossa unidade e para trabalharmos todos juntos, como estamos fazendo até agora, também futuramente.

Senhoras e senhores, esta terrível tragédia que vivemos hoje em Barcelona fraterniza-nos na dor com vários outros países do mundo. Quero manifestar também desde já, esta noite, minha gratidão a todos os governantes estrangeiros que me buscaram para transmitir suas mensagens de solidariedade e apoio. Não pude falar com eles por ter sido mais urgente seguir os acontecimentos, porém os agradecerei pessoalmente por suas mensagens nos próximos dias.

Quero reiterar, por fim, o que já transmiti privadamente ao presidente Puigdemont, que conta com todo o apoio do Estado e do governo para ajudar as vítimas e confortar as famílias, retomar o quanto antes a normalidade civil e levar os culpados por esta barbárie diante da justiça. Devem saber também que toda a Espanha está comovida pelo mesmo sentimento que é vivido hoje aqui em Barcelona.

A luta contra o terrorismo é hoje a prioridade máxima das sociedades livres e abertas como a nossa. É uma ameaça global, e a resposta deve ser global. Todos os que partilham do mesmo amor à liberdade, à dignidade do ser humano e a uma sociedade baseada na justiça, e não no medo ou no ódio, são nossos aliados nesta causa.

Como eu dizia há pouco, é verdade que estamos unidos na dor, mas estamos principalmente unidos na vontade de acabar com esse disparate e com essa barbárie. Não esqueçamos nunca que a Espanha é um povo unido em torno de valores dos quais muito nos orgulhamos: a democracia, a liberdade e os direitos humanos. Travamos muitas lutas contra o terrorismo ao longo da história, e ganhamos sempre. E também nesta ocasião, nós, espanhóis, vamos vencer.

Muito obrigado!



domingo, 12 de novembro de 2017

Professores também devem ter direitos


Endereço curto: fishuk.cc/professor

Recentemente, foi publicada na página do recém-fundado partido Patriota, apoiador do famigerado projeto Escola sem Partido, uma pequena lista com uns seis “deveres” a serem seguidos por todo professor em sala de aula. Por razões óbvias, eles concernem só à política, e não às ciências naturais, às artes, à geografia etc. O projeto ESP toca na ferida errada, culpando o ocasional partidarismo docente, quando deveria focar-se na má formação pedagógica que, muitas vezes, acomete estudantes recém-formados de História e Ciências Sociais, de passagem pelo magistério como “bico temporário”.

Como filho e neto de professoras do ensino público paulista e paulistano, tendo ouvido a vida inteira relatos de como é péssimo o estado das escolas e vergonhoso o descaso dos políticos, tenho raiva dessa gente sem formação pedagógica ou vivência dessa realidade, querendo meter o bedelho na vida já sofrida dos mestres! Num comentário à referida postagem, sugeri aos “patriotas” que propusessem, ao lado daqueles preceitos, uma lista de DIREITOS do professor, a serem resguardados principalmente pelos pais e pelo Estado. Sugeri os seguintes, na forma de um decálogo ou Dez Mandamentos, que podiam ser enriquecidos, e decidi pôr aqui.



1) O professor terá DIREITO a toda a assistência médica, psicológica e legal no caso de ser agredido física ou verbalmente por estudantes ou por seus pais, algo que infelizmente ocorre todos os dias, em todo lugar, mas nossos partidos se calam.

2) O professor terá o DIREITO de receber uma remuneração digna de sua formação, de forma a não se desgastar lecionando em diversas escolas de uma só vez.

3) O professor RECEBERÁ todos os benefícios que hoje recebe um parlamentar ou juiz: carro de graça, auxílio-moradia, auxílio-doença, auxílio-paletó, auxílio-refeição, auxílio-creche ou escola para os filhos, e assessores à disposição.

4) O professor RECEBERÁ aumentos salariais todos os anos, conforme ou acima da inflação, além de reposição de tudo o que lhe foi privado de direito, a começar pelo fim de bônus e gratificações que tapeiam os já precarizados ativos, mas deixam os aposentados na lama.

5) O professor terá DIREITO a uma formação superior de qualidade, com reforço tanto teórico quanto prático, não espremida em meros dois ou três anos e de caráter eminentemente humanístico, e não técnico, além de formação continuada para acompanhar o desenvolvimento tecnológico e geracional dos estudantes.

6) O professor terá DIREITO a uma jornada de trabalho decente, de fixar-se em apenas uma escola, de ter tempo para o planejamento das aulas e, sobretudo, uma infraestrutura básica, sendo que em muitas escolas das regiões pobres não há sequer teto ou cadeiras nas salas.

7) Os estudantes terão DIREITO a transporte escolar gratuito, legal, seguro, profissional e contínuo, além de segurança policial reforçada nas escolas, esta dirigida também aos professores.

8) O professor terá o dever de deixar-se avaliar continuamente, mas essa avaliação, bem como a avaliação das escolas, DEVE dar-se não no sentido da meritocracia, mas de atestar as deficiências no ensino e garantir, por todos os meios, infraestrutura adequada e capacitação atualizada.

9) O professor terá o DIREITO de ser o profissional mais valorizado da sociedade, devendo ser esse um caráter básico de nossa nacionalidade, e receberá todo o incentivo da mídia, propaganda, redes sociais e lobbies, em total detrimento do culto às celebridades, da mitificação do hedonismo e ostentação e da divulgação de música, novela e cinema de qualidade duvidosa.

10) O professor tem o DIREITO de ser tratado não como um mero empregado que passe conhecimentos mastigados aos estudantes, mas um EDUCADOR respeitado que transmita suas experiências aos jovens e também aprenda com eles, numa relação de troca, debate e confiança; da mesma forma, a educação, sobretudo em sua modalidade de ensino escolar, NÃO DEVE ser tratada como mercadoria, mas como o MAIS IMPORTANTE PATRIMÔNIO TRANSGERACIONAL PARA UM PAÍS RICO, LIVRE E SOBERANO; os pais não serão privados do direito de matricular os filhos em escolas particulares conforme seus valores pessoais, mas será dado ao ensino estatal, pelas razões supracitadas, um caráter PÚBLICO, GRATUITO, ACONFESSIONAL, UNIVERSAL, OBRIGATÓRIO, LAICO, HUMANISTA-PROFISSIONALIZANTE E DE QUALIDADE.







Cid Gomes, então governador do Ceará, respondeu no início de 2011 a uma greve de professores, que incluiu agressão policial a manifestantes na Assembleia Legislativa, dizendo que “O professor tem que trabalhar por amor. Se quer trabalhar por salário, que vá pra rede particular”. Como uma cuspida na cara do cidadão, Dilma Rousseff o escolheu Ministro da Educação no início de 2015, mas não durou muito. O governador paulista Geraldo Alckmin também não é um grande amigo do magistério, mas essa frase foi atribuía a ele falsamente. Por que os políticos também não trabalham por amor e não doam seu salário?...

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Textos da independência da Catalunha


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Hoje posto aqui a Declaração dos Representantes da Catalunha e as primeiras indicações pra constituição da República Catalã, um documento de inegável importância histórica, por duvidosos que possam ser seus efeitos. Deputadas e deputados independentistas do Parlamento da Catalunha apresentaram à mesa diretora dois projetos de resolução que delineiam as primeiras medidas pra constituir a estrutura da nova nação. A proclamação da República foi feita no dia 27 de outubro de 2017, quando o Parlamento aprovou o texto abaixo, por maioria de votos, embora vários deputados tivessem se retirado da sessão. Traduzi direto do catalão, original em PDF nesta página.



À MESA DO PARLAMENTO

Lluís M. Corominas i Díaz, presidente da Fração Parlamentar do Junts pel Sí (Juntos pelo Sim), Marta Rovira i Vergés, porta-voz da Fração Parlamentar do Junts pel Sí, Mireia Boya e Busquet, presidenta da Fração Parlamentar da Candidatura d’Unitat Popular – Crida Constituent (Candidatura de Unidade Popular – Apelo Constituinte), Anna Gabriel i Sabaté, porta-voz da Fração Parlamentar da Candidatura d’Unitat Popular – Crida Constituent, de acordo com o que estabelecem os artigos 151 e 152 do Regimento do Parlamento, apresentam as seguintes propostas de resolução, originadas do Debate Geral sobre a Aplicação do Artigo 155 da Constituição Espanhola na Catalunha e seus possíveis efeitos.


PROPOSTAS DE RESOLUÇÃO


Proposta de resolução 1
Declaração dos Representantes da Catalunha


Os deputados da Fração Parlamentar do Junts pel Sí e da CUP – Crida Constituent assinaram no último dia 10 de outubro, no Parlamento da Catalunha, a seguinte:


DECLARAÇÃO DOS REPRESENTANTES DA CATALUNHA


Ao povo da Catalunha e a todos os povos do mundo.

A justiça e os direitos humanos individuais e coletivos intrínsecos, fundamentos irrenunciáveis que dão sentido à legitimidade histórica e à tradição jurídica e institucional da Catalunha, são a base da constituição da República Catalã.

A nação catalã, sua língua e sua cultura têm mil anos de história. Durante séculos, a Catalunha dotou-se e desfrutou de instituições próprias que exerceram o autogoverno com plenitude, com a Generalitat (Generalidade) como a máxima expressão dos direitos históricos da Catalunha. O parlamentarismo foi, durante os períodos de liberdade, o esteio sobre o qual se sustentaram essas instituições, canalizou-se por meio das Cortes Catalãs e cristalizou-se nas Constituições da Catalunha.

A Catalunha restaura hoje sua plena soberania, perdida e longamente desejada, depois de décadas tentando, honesta e lealmente, conviver institucionalmente com os povos da Península Ibérica.

Desde a aprovação da Constituição Espanhola de 1978, a política catalã teve um papel-chave com uma atitude exemplar, leal e democrática para com a Espanha, e com um profundo senso de Estado.

O Estado espanhol retribuiu essa lealdade com a recusa em reconhecer a Catalunha como nação, e concedeu uma autonomia limitada, mais administrativa do que política e hoje sofrendo recentralização, além de um tratamento econômico profundamente injusto e uma discriminação linguística e cultural.

O Estatuto de Autonomia, aprovado pelo Parlamento e pelo Congresso, e referendado pelos cidadãos catalães, deveria ser o novo marco estável e duradouro da relação bilateral entre a Catalunha e a Espanha. Porém, tornou-se um acordo político quebrado pela sentença do Tribunal Constitucional e que fez emergir novas contestações cidadãs.

Recolhendo as exigências de uma grande maioria dos cidadãos da Catalunha, o Parlamento, o Governo e a sociedade civil solicitaram repetidamente que se combinasse a celebração de um referendo de autodeterminação.

Diante da constatação de que as instituições do Estado repeliram toda negociação, violentaram o princípio de democracia e autonomia e ignoraram os mecanismos legais disponíveis na Constituição, a Generalitat da Catalunha convocou um referendo para o exercício do direito à autodeterminação reconhecido no direito internacional.

A organização e celebração do referendo acarretaram a suspensão do autogoverno da Catalunha e a aplicação de facto do estado de exceção.

A brutal operação policial de dimensão e estilo militares, orquestrada pelo Estado espanhol contra cidadãos catalães, feriu suas liberdades civis e políticas e os princípios dos Direitos Humanos em muitas e repetidas ocasiões e desobedeceu aos acordos internacionais assinados e ratificados pelo Estado espanhol.

Milhares de pessoas, entre as quais centenas de políticos, funcionários públicos e profissionais vinculados ao setor de comunicação, administração e sociedade civil, foram investigados, detidos, processados, interrogados e ameaçados com duras penas de prisão.

As instituições espanholas, que deveriam ter permanecido neutras, protegido os direitos fundamentais e arbitrado diante do conflito político, tornaram-se parte e instrumento desses ataques e deixaram indefesos os cidadãos da Catalunha.

Apesar da violência e da repressão para tentar impedir a celebração de um processo democrático e pacífico, os cidadãos da Catalunha votaram majoritariamente a favor da constituição da República Catalã.

A constituição da República Catalã está fundamentada na necessidade de proteger a liberdade, a segurança e a convivência de todos os cidadãos da Catalunha e avançar rumo a um Estado de direito e a uma democracia de maior qualidade, e responde ao impedimento por parte do Estado espanhol de tornar efetivo o direito à autodeterminação dos povos.

O povo da Catalunha é amante do direito, e o respeito à lei é e será uma das pedras angulares da República. O Estado catalão acatará e fará cumprir legalmente todas as disposições que modelem esta declaração e garante que a segurança jurídica e a manutenção dos acordos assinados integrarão o espírito fundacional da República Catalã.

A constituição da República é uma mão estendida ao diálogo. Honrando a tradição catalã de pactuar, mantemos nosso compromisso com a concórdia como forma de resolver os conflitos políticos. Ao mesmo tempo, reafirmamos nossa fraternidade e solidariedade para com os demais povos do mundo e, em especial, aqueles com os quais partilhamos a língua, a cultura e a região euromediterrânea, em defesa das liberdades individuais e coletivas.

A República Catalã é uma oportunidade para corrigir as atuais carências democráticas e sociais e construir uma sociedade mais próspera, mais justa, mais segura, mais sustentável e mais solidária.

Em virtude de tudo o que acabamos de expor, nós, representantes democráticos do povo da Catalunha, no livre exercício do direito à autodeterminação, e conforme o mandato recebido dos cidadãos da Catalunha,

CONSTITUÍMOS a República Catalã como Estado independente e soberano, de direito, democrático e social.

PREPARAMOS a entrada em vigor da Lei de Transitoriedade Jurídica e Fundacional da República.

INICIAMOS o processo constituinte, democrático, de base cidadã, transversal, participativo e vinculante.

AFIRMAMOS a vontade de abrir negociações com o Estado espanhol, sem imposições prévias, destinadas a estabelecer um regime de colaboração em benefício de ambas as partes. As negociações deverão dar-se, necessariamente, em pé de igualdade.

DAMOS AO CONHECIMENTO da comunidade internacional e das autoridades da União Europeia a constituição da República Catalã e a proposta de negociações com o Estado espanhol.

INSTAMOS a comunidade internacional e as autoridades da União Europeia a intervir para interromper a corrente violação de direitos civis e políticos, a fiscalizar o processo de negociação com o Estado espanhol e ser suas testemunhas.

MANIFESTAMOS a vontade de construir um projeto europeu que reforce os direitos sociais e democráticos dos cidadãos, assim como de comprometer-se a continuar aplicando, de maneira ininterrupta e unilateral, as normas do ordenamento jurídico da União Europeia e as do ordenamento do Estado espanhol e da autonomia catalã que incorporem aquelas primeiras.

AFIRMAMOS que a Catalunha tem a vontade inequívoca de integrar-se o mais rapidamente possível à comunidade internacional. O novo Estado compromete-se a respeitar as obrigações internacionais que se apliquem atualmente em seu território e a continuar integrando os tratados internacionais dos quais o Reino da Espanha é signatário.

APELAMOS aos Estados e às organizações internacionais que reconheçam a República Catalã como Estado independente e soberano.

INSTAMOS o Governo da Generalitat a adotar as medidas necessárias para possibilitar a plena efetividade desta Declaração de Independência e das disposições da Lei de Transitoriedade Jurídica e Fundacional da República.

FAZEMOS um apelo a todos e cada um dos cidadãos e cidadãs da República Catalã para que nos tornem dignos da liberdade que conquistamos e construam um Estado que traduza as inspirações coletivas em atos e atitudes.

ASSUMIMOS o mandato do povo da Catalunha expressado no Referendo de Autodeterminação de 1.º de outubro e declaramos que a Catalunha agora é um Estado independente em forma de República.


PROPOSTA DE RESOLUÇÃO


O Parlamento da Catalunha expressa seu repúdio ao acordo do Conselho de Ministros do Estado espanhol propondo ao Senado do Estado espanhol as medidas para concretizar o que dispõe o artigo 155 da Constituição Espanhola. As medidas propostas, marginais ao próprio corpo jurídico atual, preveem a eliminação do autogoverno da Catalunha. Ao mesmo tempo, colocam o Governo do Estado espanhol como substituto do Governo da Generalitat e censor do Parlamento da Catalunha, uma medida que não somente é inaceitável como também constitui um ataque à democracia sem precedentes nos últimos 40 anos.

Oferecemos negociação e diálogo e fomos confrontados com o artigo 155 da Constituição e a eliminação do autogoverno: a resposta foi de uma contundência política similar ao uso da força no dia 1.º de outubro.

O Parlamento decidiu instar o Governo a ditar todas as resoluções necessárias para desenvolver-se a Lei de Transitoriedade Jurídica e Fundacional da República, e em especial:

  • A promulgar os decretos necessários, dotando com pessoal e recursos os serviços administrativos encarregados de expedir aos cidadãos os documentos comprobatórios da nacionalidade catalã.
  • A estabelecer a regulação do procedimento para a aquisição da nacionalidade catalã, por força das disposições previstas no artigo 8 e na disposição final 2.ª.
  • A promover a assinatura de um tratado de dupla nacionalidade com o governo do Reino da Espanha, em conformidade com o artigo 9.
  • A ditar, em conformidade com o artigo 12.1, as disposições necessárias para a adaptação, modificação e inaplicação do direito local, autonômico e estatal vigente antes da entrada em vigor da Lei de Transitoriedade Jurídica e Fundacional da República.
  • A ditar, fundamentado no que dispõe o artigo 12.3, os decretos necessários para a recuperação e eficácia das normas anteriores à sucessão de ordenamentos jurídicos, anuladas ou suspensas por motivos de competência pelo Tribunal Constitucional e pelos demais tribunais, dando atenção especial a todos aqueles reguladores de impostos e outras figuras impositivas, assim como àqueles que desenvolvam instrumentos para combater a pobreza e a desigualdade social.
  • A promover, diante de todos os Estados e instituições, o reconhecimento da República Catalã.
  • A estabelecer, pelo procedimento correspondente e em conformidade com o que dispõe o artigo 15, a relação de tratados internacionais que devam continuar vigendo, assim como daqueles que devam resultar inaplicados.
  • A estabelecer, de acordo com o artigo 17, o regime de integração à Administração da Generalitat da Catalunha, exceto por renúncia expressa dos mesmos, de todos os funcionários, vinculados ao Estado espanhol, que até esta data prestavam seus serviços à administração geral da Catalunha, à administração local da Catalunha, às universidades catalãs, à administração de justiça e à administração institucional do Estado na Catalunha, ou dos funcionários, vinculados ao Estado espanhol, de nacionalidade catalã que prestem seus serviços fora da Catalunha.
  • A dar ao conhecimento do Parlamento a relação de contratos, convênios e acordos objeto de sub-rogação por parte da República Catalã, de acordo com o que dispõe o artigo 19.
  • A promover um acordo com o Estado espanhol para a integração do pessoal e a sub-rogação dos contratos previstos nos incisos IV e V, em conformidade com o que dispõe o artigo 20.
  • A sancionar tudo o que se expôs acima, assim como adotar as medidas necessárias para o exercício da autoridade fiscal, da previdência social, alfandegária e cadastral de acordo com o que dispõem 80, 81, 82 e 83, estabelecendo, se for o caso, os períodos de transição entre administrações para que se garanta um serviço público adequado.
  • A promover as diligências e medidas legislativas necessárias para a criação de um banco público de desenvolvimento a serviço da economia produtiva.
  • A promover as diligências e medidas legislativas necessárias para a criação do Banco da Catalunha, com as funções de banco central, que deverá zelar pela estabilidade do sistema financeiro.
  • A promover as diligências e medidas legislativas necessárias para a criação das demais autoridades reguladoras, com as funções que lhes são inerentes.
  • A abrir um período de negociações com o Estado espanhol, segundo o que dispõe o artigo 82, para determinar, e em que grau, se for o caso, a sucessão do Estado catalão, conforme se acordar, em direitos e obrigações de caráter econômico e financeiro assumidos pelo Reino da Espanha.
  • A elaborar um inventário dos bens de titularidade do Estado espanhol, radicados no território nacional da Catalunha, a fim de tornar efetiva a sucessão em sua titularidade por parte do Estado catalão, em conformidade com o que dispõe o artigo 20.
  • A elaborar uma proposta de repartição de ativos e passivos entre o Reino da Espanha e a República da Catalunha, fundamentada nos critérios internacionalmente padronizados, abrindo um período de negociação entre os representantes de ambos os Estados e submetendo o acordo obtido, se for o caso, à aprovação do Parlamento da Catalunha.

O Parlamento abrirá uma investigação para determinar as responsabilidades do Governo do Estado espanhol, suas instituições e órgãos dependentes na perpetração de delitos relativos à agressão de direitos fundamentais, individuais e coletivos buscando evitar o exercício do direito ao voto pelo povo da Catalunha no último 1.º de outubro.

Essa Comissão de Investigação será formada por deputados das frações parlamentares e peritos do âmbito nacional e internacional, da Agência Antifraude, da Sindicatura de Greuges (Ministério Público da Catalunha) e da advocacia catalã, e por representantes das entidades de defesa dos direitos humanos, fazendo com que sejam representadas as organizações internacionais.


Proposta de resolução 2
Processo constituinte


O parlamento da Catalunha decide:

Declarar o início e a abertura do processo constituinte.

Instar o Governo da Generalitat a:

  1. Ativar de maneira imediata todos os recursos humanos, públicos e sociais, bem como meios materiais a seu alcance, para efetivar o processo constituinte democrático, de base cidadã, transversal, participativo e vinculante, que deve culminar na redação e aprovação da Constituição da República por parte do Parlamento constituído em Assembleia Constituinte e que resulte das eleições constituintes.
  2. Constituir no prazo de quinze dias o Conselho Assessor do processo constituinte, liderado pela sociedade civil organizada, a fim de assessorar na fase deliberativa constituinte.
  3. Convocar, difundir e executar a fase decisória do processo constituinte, recolhendo as propostas sistematizadas no Fórum Social Constituinte e submetendo-as a consulta cidadã, que constituirá um mandato vinculante para o Parlamento constituído em Assembleia Constituinte e que resulte das eleições constituintes.
  4. Convocar eleições constituintes, uma vez terminadas todas as fases do processo constituinte.

Encorajar todos os agentes cívicos e sociais para que no prazo de um mês constituam a plataforma promotora do processo constituinte ou Pacto Nacional pelo Processo Constituinte.

Constituir, no prazo de quinze dias, a Comissão Parlamentar que fiscalizará o processo constituinte, visando preservar, se não direcionar, a tarefa da plataforma promotora e garantindo o desdobramento de seus trabalhos e o cumprimento do prazo semestral legalmente definido para seu desenvolvimento e conclusões.

Encorajar as prefeituras a fomentar os debates constituintes a partir do âmbito local, promovendo a participação da sociedade civil e fornecendo os recursos e espaços adequados e necessários ao correto desenvolvimento do debate cidadão.


Palácio do Parlamento, 27 de outubro de 2017